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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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    De 12 a 18 de junho de 2017

 

"Genuína Fazendeira - Os 100 anos de Cleonice Berardinelli", obra coordenada por Gilda Santos e Paulo Motta Oliveira (Bazar do Tempo, 2016), agora apresentada em Lisboa na Fundação Gulbenkian, assinala os cem anos de Dona Cleo e permite-nos usufruir de uma obra preciosa (livro-oferenda) de homenagem à notabilíssima Professora de Literatura Portuguesa.

 

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UM TÍTULO MAGNÍFICO

O título é dado por um poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado à parabenizada – “uma ensancha prazenteira / (a justiça é que me impele) / à genuína fazendeira…”. Aí se enaltece a importância de quem tem dedicado a sua vida à “constante maravilha do linguajar português”. São cerca de novecentas páginas suculentas, em que temos a colaboração de uma larga comunidade dos mais qualificados admiradores da mestra, cujo centenário celebramos, com muita alegria, em sua vida. E, além do mais, recordamos alguém a quem a língua e a literatura portuguesas muito devem e que tem sido injustamente esquecido. Falo de Fidelino de Figueiredo, que fundou uma verdadeira escola do estudo da literatura portuguesa em S. Paulo e que trouxe Cleonice Berardinelli para a ribalta. É, aliás, fundamental a carta de 1958 que endereçou à sua discípula (e ora publicada), com elementos curiosos para o conhecimento de Fernando Pessoa, ele mesmo. Dizia Fidelino: “Fomos condiscípulos no 1º ano da faculdade, que então se chamava Curso Superior de Letras. Acabava ele de chegar da África do Sul. Era alto, magro, narigudo, um pouco tartamudo e mantinha sempre uma expressão sorridente, que fazia lembrar o rir japonês, como defesa. Caminhava de esguelha, como afligido por escoliose espinal. Em breve desapareceu, talvez por não obter a revalidação dos estudos que trazia. Perdemo-nos de vista, apesar da simpatia que nos atraíra”. Depois, houve um encontro junto da igreja da Madalena, em que falaram animadamente, mas tendo Fidelino louvado um texto do poeta sobre o espírito provinciano – “não foi preciso mais para lhe sobrevir um acesso de timidez. Corou, enrugou mais o sorriso e partiu muito confuso. E nunca mais o vi – coisa bem explicável pelo meu exílio de 24 anos”. Nessa epístola, para além do testemunho, Figueiredo confirma as fundamentais qualidades de Cleonice, sua discípula dileta, dando-lhe conselhos avisados sobre a defesa e publicação da tese. Poesia e Poética de Fernando Pessoa (1959) é, de facto, um texto muito importante – “uma exemplificação perfeita dos métodos da estilística moderna e passará a constituir indispensável instrumento para a compreensão da obra do poeta, principalmente se for articulada ao movimento poético imediatamente anterior”. E se Fidelino de Figueiredo foi o mestre essencial da mestra, não podemos esquecer o afeto que esta dedica ao rigor de Pierre Hourcade (lamentando não ter podido falar com ele sobre Pessoa) e à fantasia, quase loucura, de Giuseppe Ungaretti.

 

SORRISO INCONFUNDÍVEL

No conjunto riquíssimo de textos de Genuína Fazendeira, Maria Alzira Seixo invoca o sorriso inconfundível: “o seu sorriso a desdobrar-se! – neste monumento centenário que nenhum abalo corrói – que dura e resiste. Cleonice”. Vasco Graça Moura não nos deixa por menos: “se a camões se consentisse / ter uma vida segunda / diria da mais profunda / gratidão a cleonice”. E Luís Filipe Castro Mendes recorda uma curiosidade avassaladora: “Nós passeámos por Praga, / por seus becos e travessas, / numa insaciável saga / de viagens e conversas…”. Pessoalmente, não esquecerei o momento em que encontrei Dona Cleo. Foi a 14 de outubro de 2011, graças ao nosso querido Eduardo Lourenço, com uma sessão riquíssima Fundação Gulbenkian em Paris, e um adorável jantar oferecido pelo casal Seixas da Costa, com a fidalguia conhecida… E ouvimos o ensaísta, admirador confesso da homenageada de agora, a exprimir o seu enlevo: “a paixão e o saber dessa cultura em comum (do elo que une as nossa únicas margens do atlântico cultural que há séculos une e separa o antigo cantar da galaica raiz e de imemorial futuro) eram – são – uma espécie de segunda natureza da filóloga herdeira do berço comum da latinidade que tem hoje no Brasil o seu espaço de memória mítica”. Como disse Anne-Marie Quint (a quem a literatura portuguesa tanto deve): “naquele dia, estivemos em presença de dois ilustres defensores das culturas lusófonas, abertos um e outra à cultura universal. O evento, além disso, reafirmava os vínculos poderosos e seculares que ligam a cultura portuguesa à cultura brasileira”…

 

UMA SIMBIOSE FECUNDA

Para Cleonice, não há conflito entre as literaturas portuguesa e brasileira. Têm em comum a mesma língua. “As pequenas diferenças que se verificam entre elas não fazem com que haja, nunca, uma dissensão. Portanto nem dissensão nem colisão” (entrevista ao JL, 10.8.87). Quando veio lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, a convite de Maria de Lourdes Belchior e de Maria Vitalina Leal de Matos, teve oportunidade de exprimir o maior contentamento. E lembrava as lições que recebera na sua Universidade, sob a batuta de Fidelino de Figueiredo – através das quais se apaixonou por Gil Vicente, Camões, Garrett, Herculano, e Eça de Queiroz e, por outro, bem forte, Machado de Assis. Depois virá, como dissemos o misterioso Pessoa e uma relação muito especial com o engenheiro Álvaro de Campos. E como esquecer Vieira, “figura complexa,… mistura de lucidez e de imaginação prodigiosamente criadora”? Se a referência a Mestre Gil ficou sempre muito em evidência, Dona Cleo não esquece as representações que fez dos Autos da Alma, de Mofina Mendes e da Lusitânia, com o seu querido Manuel Bandeira, na primeira fila, a aplaudir… E lembrando intuições lapidares da professora como não trazer à baila Cesário, entre Fradique e Mário de Sá-Carneiro ? Trata-se de uma espécie de ponte que anuncia o século XX, em que Fradique é muito mais do que uma criação ficcional, simboliza os seus criadores (Antero e Eça) e anuncia “Orpheu” e um novo tempo – ou não fora Caeiro leitor de Cesário... Mas a preocupação fundamental de Cleonice Bernardinelli mantém-se bem viva – é indispensável que as literaturas da língua portuguesa, a começar pelas dos nossos países irmãos sejam mais conhecidas e estudadas, no seu diálogo mais íntimo e fecundo. Infelizmente, continua a haver grande desconhecimento mútuo, e todos perdemos com isso. Como afirma a homenageada, para o caso brasileiro: a Literatura Portuguesa deve fazer parte das matérias básicas – não só “porque é a literatura mãe a primeira a exprimir-se em língua portuguesa, a que constitui o passado da Literatura Brasileira, a que preenche todo o espaço medieval anterior à nossa experiência, mas também porque é o elemento primordial de uma cultura viva, dentro da qual tomamos as nossas origens e que não pode ser excluída da nossa formação histórica”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

AS CERTEZAS DO JAPÃO NO FEMININO

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A história da literatura japonesa também se encontra dividida em vários períodos. O período Heian nome da capital da época, Heian-Kyo, atual Kyoto foi marcado especialmente pela poesia. No Japão – final do séc. VIII até ao final do séc. XII - a forma poética tanka brilhou pelas mãos de duas mulheres: Izumi Shibiku e Ono No Komachi, ambas pesos raros na fixação do japonês como língua poética.

 

Apesar de a escrita chinesa (kanbun) continuar a ser a língua oficial do período Heian, esta poesia originou o desenvolver da literatura japonesa.

 

O tanka (de 31 sílabas) que dá lugar ao haiku (de 17 sílabas e inicialmente masculino) constituem uma arte do olhar e do interpretar, e o haikai, igualmente forma poética,  busca pela subtileza uma unidade compacta entre impressão e realidade que na sua concisão tudo devem dizer.


Recordo que num livro quis prestar homenagem a esta conciliação e por entre outros Hai-Kai o arriscado


Quando tardas

Adio o essencial.

 

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Há quem afirme que esta escrita representada pelos tankas é inscrita por signos, tal a lenda na história de tão fortificada e contida arte.

 

De salientar que a consciência religiosa e erótica de Komachi e Shibiku permite-nos avaliar, o quanto estes tempos foram igualmente marcantes na liberdade e cultura das mulheres, sendo aceites sem reparos os seus múltiplos casos amorosos, bem como a sua independência monetária podendo usufruir de rendimentos próprios.

 

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A sensualidade proverbial desta poesia relata-nos conversas, atos ou omissões auspiciosas no papel da interpretação da vida e da própria política, avaliada pelo sentir gracioso destas mulheres de pincel da escrita, que assim registaram as emoções humanas face ao mundo.


Izumi Shikibu uma das mais importantes figuras da Literatura japonesa era uma rebelde social determinada a viver a vida sem receios, e, num misto de eros e de meditação budista escreveu:


Costumava dizer dos homens: «como é poético»,

Mas agora sei

Que o erguer da madrugada é apenas cansativo.

 

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E Ono No Komachi mulher astuta na intuição da impermanência do ser, escreve


Quando o meu desejo se torna intenso de mais,

Visto a roupa de dormir virada pelo avesso.


Aqui a poetisa segue o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que os desejos se cumpram.


E também eu vesti roupa do avesso tentando aproximar-me, e no meu livro


A outra ponta de mim tens tu. Mostra-me o futuro!


Enfim, não creio que exista uma versão portuguesa dos tankas, menos ainda uma tradução, talvez antes uma aproximação, mas de referir que em 2007 a Assírio e Alvim ajudou-nos no à deriva em relação a este género literário.

pois como dizer


Os vivos vão sendo menos (…) o luar derramado espreita


Então, talvez atentar a Jane Hirshfield que nomeia o sentir destes textos japoneses como único «leap of faith». 


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Em maio de 2012 publiquei este texto no blogue do CNC. Esta semana um amigo japonês releu-o com tal sentir que em sua homenagem o republico.

A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de abril de 2017

 

Frederico Lourenço, quando recebeu o Prémio Pessoa, lembrou uma conversa com Sophia de Mello Breyner sobre a sua opção pelos estudos clássicos. É da maior importância essa recordação e a proposta que lhe está subjacente, no sentido do reconhecimento da importância das Humanidades, num sentido amplo e integrador, para a compreensão das nossas raízes.

 

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AO ENCONTRO DAS RAÍZES

A poesia da autora de Geografia e de Dual foi profundamente inspiradora para o jovem Frederico Lourenço que então dava passos decisivos relativamente à sua vocação. Houve, naturalmente, outras influências, como as muito marcantes de seus pais, Manuela e M.S. Lourenço ou a de seu padrinho João Bénard da Costa – nessa geração extraordinária de “O Tempo e o Modo” – mas o caso de Sophia foi muito especial. Ela “inventou uma Grécia própria. Não é a Grécia dos guias turísticos, não é a Grécia dos compêndios de história, filosofia ou literatura. (…) É uma Grécia construída pelo olhar dela, uma geografia anímica que tem tanto de Grécia como de Portugal” (Valsas Nobres e Sentimentais). De facto, a atração clássica, veio até Sophia dessa confluência fantástica do Mediterrâneo e do Atlântico, donde houve existência Portugal e que Orlando Ribeiro estudou com génio e brilhantismo. E Frederico Lourenço recorda o búzio comprado na ilha de Cós, onde apenas se ouvia “o cântico da longa vasta praia / Atlântica e sagrada / Onde para sempre a minha alma foi criada”. É Sophia quem fala, naturalmente, e cada um de nós sente familiaridade nessa sensação. E poderíamos recordar ainda nos Contos Exemplares as referências homéricas a Manuel Bote, banheiro mítico da Granja… Mas voltemos ao discurso do premiado e à recordação do modo desconcertante como a autora de Livro Sexto rematou essa conversa iniciática: “Só espero que não se arrependa”… Nada havia mais a acrescentar, tudo de essencial estava, porém, na ligação poética ao mar e ao “país de montanhas e navios onde os golfinhos correm quase à tona de água, onde a alegria se multiplica de ilha a ilha e sobre o qual paira a grande felicidade dos deuses de Homero” (O Nu na Antiguidade Clássica). Tudo estava dito e não dito. O amor fundamental de Sophia tinha a ver com as raízes antigas, em que os portugueses, como novos Argonautas, não poderiam ser compreendidos sem a referência aos genes que nos chegaram de Homero e de Ulisses – nosso pai mitológico...

UMA PROPOSTA SÉRIA E NECESSÁRIA

Naquele fim de tarde, na Culturgest, ao ouvirmos o galardoado, fomos transportados até a essas fontes mais distantes, onde bebemos a cultura que nos formou. E percebemos como o gérmen da cultura clássica ficou bem presente na criatividade perene do mais recente tradutor da Bíblia. “Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora, como eu já frisei, sem andresenizar artificialmente o texto” (Valsas…). Com especial pertinência, F. Lourenço defendeu agora ser “preciso começar o estudo do grego e do latim no ensino secundário. Enquanto isso não voltar a acontecer, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos”. Esta ideia merece uma especial atenção. E não se pense que estamos perante uma sugestão avulsa de um cultor de determinado ramo de saber. Não. Do que se trata é de um apelo sério, que tem a ver com a preparação adequada dos estudantes na área essencial da língua e da cultura. O bom domínio da língua não é tema de gramáticos, é questão de cidadãos. Precisamos de saber comunicar bem, de modo a que nos entendam, a que nos entendamos uns aos outros e a que saibamos exprimir-nos com ideias claras e distintas. Não há verdadeiro diálogo se não soubermos falar e ouvir. Infelizmente, quando ouvimos tantos debates nos meios de comunicação, presenciamos monólogos maçadores e uma invariável incapacidade para exprimir pontos de vista próprios e para responder aos interlocutores.

 

A CULTURA COMO CRIAÇÃO

A sugestão de Frederico Lourenço é muito mais profunda, positiva e plena de consequências do que à primeira vista possa parecer. E não se julgue que tudo se poderia resolver com acrescentos curriculares. Bem sei que há sempre a tentação de colocar mais um adereço numa espécie de árvore de natal de temas. Não é disso que se trata. Impõe-se uma atitude inteligente que permita nos núcleos essenciais de aprendizagem saber integrar o conjunto e o contexto, a razão histórica, a diacronia e a sincronia, a etimologia, as regras e o método. Nesse sentido, o escritor tem toda a razão. Como poderemos entender e proteger a língua que falamos se não conhecemos de onde provém e qual a razão de ser das palavras que usamos. De facto, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos se não dermos atenção as nossas raízes culturais. E insisto num ponto de que tenho feito cavalo de batalha – uma cultura aberta, consciente da necessidade de preservar o património como realidade viva, precisa de assentar numa atitude que favoreça a atenção ao que tem valor humano, assegurando o cuidado relativamente ao que recebemos dos nossos ancestrais. Só haverá atenção e cuidado se estivermos despertos. E as humanidades têm a ver com as letras e as artes, mas também com a matemática, a cultura científica e a importância do método experimental. Não se trata de dizer que tudo tem lugar, mas de compreendermos que a complexidade do mundo contemporâneo obriga à complementaridade de conhecimentos e de perspetivas. Mais do que da especialização, vivemos a era da cooperação de saberes. Na última crónica falávamos de Damião de Goes e de José Mariano Gago. Não podemos esquecer que os gregos referiam a “paideia” e os romanos a “humanitas”. E temos de nos lembrar das artes liberais da Idade Média: o Trivium, abrangendo: lógica, gramática e retórica; e o Quadrivium, com aritmética, música, geometria e astronomia… Se lembro isto mesmo não é para desfazer fronteiras e enfraquecer as ditas ciência sociais, mas sim para evitar o fechamento e garantir o encontro, a inter e a transdisciplinaridade. Sobre Oxford, que Frederico Lourenço conheceu desde tenra idade, encontramos, como se fosse uma metáfora sobre o diálogo entre o conhecimento e a vida: “é indesmentível que Oxford parece propiciar esse constante esmaecimento de fronteiras entre o literário e o factual, sobretudo quando o olhar que perceciona a cidade é, já de si, atreito a substituir a realidade que tem à sua frente por imagens e projeções livrescas”. A valorização das humanidades é, no entanto, o favorecimento de um combate constante e sereno contra a mediocridade e a ignorância. Não se trata de fechar conhecimentos sobre si mesmos ou de ignorar que a educação para todos obriga, nas suas profundas diferenças, a compreendermos a subtileza das relações entre cultura e vida e que não podemos confundir pessoas e robôs. A presença dos clássicos ajuda certamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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TERESA DESQUEYROUX

FRANÇOIS MAURIAC, Prémio Nobel da Literatura em 1952. Teresa Desqueyroux, uma obra-prima da primeira metade do séc., um dos melhores romances que li.

  


Em 1906 François Mauriac foi para Paris, vindo de Bordéus, cidade onde nasceu. Publica então Les Mains jointes, uma poesia muitíssimo saudada. Em 1922 Le Baiser au Lépreux e Genitrix já o colocam entre os melhores romancistas de seu tempo. A Academia Francesa entrega-lhe o Grande prémio do Romance pelo seu magnífico livro Le Désert de L’ Amour, contudo com a obra-prima Teresa Desqueyroux (1927) leva-o à inesquecível morada dos grandes.

 

Trata-se de um romance em que uma mulher casada tenta envenenar o marido num ambiente de vida conjugal de total solidão ainda que vivida no seio da família. Se acaso consegue Teresa Desqueyroux escapar à justiça dos homens e alcançar a liberdade que tanto desejara e sonhara, será para cada leitor dentro do imaginar que idade teria Teresa ou, antes se não teria idade alguma e por essa razão

 

«Não é a cidade de pedra que eu adoro, nem as conferências, nem os museus, mas a floresta viva que nela se agita, atormentada por paixões mais furiosas do que nenhuma tempestade. O gemido dos pinheiros de Argelouse, de noite, só emocionava pelo que dir-se-ia ter de humano.»

 

Teresa tinha bebido um pouco e fumado de mais. Ria sozinha como uma bem-aventurada. Pintou a cara e os lábios com minúcia; depois dirigiu-se para a rua e caminhou ao acaso.

 

Teresa, muitos dirão que não existes.

 

(…) Quantas vezes através das grades vivas de uma família te vi caminhar de um lado para o outro, a passo de loba.

 

Pelo menos, nesta rua onde te abandono, tenho a esperança de que não estás só.

 

Nataniel Costa, tradutor desta obra que li em português, e de cuja chancela ESTUDIOS COR era sócio fundador conjuntamente com José Saramago, ofereceu-me este livro em 1980 com uma dedicatória da qual me orgulho.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs.: O romance foi adaptado para cinema, com título homónimo, em 1962, sendo o realizador Georges Franju.

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

  De 2 a 8 de janeiro de 2017

 

A publicação de «Obra Poética – Volume I» de Ruy Cinatti (Assírio e Alvim, 2016) editada por Luís Manuel Gaspar, com Joana Matos Frias e Peter Stilwell, constitui oportunidade para reencontrarmos a escrita de um dos autores portugueses mais interessantes do século XX, pela diversidade das suas experiências com expressão literária e por uma inesperada riqueza espiritual. E não podemos esquecer a ligação muito próxima do poeta ao Centro Nacional de Cultura e aos seus fundadores, desde muito cedo.

 

 

 

«A POESIA É SÓ UMA!»

Os «Cadernos de Poesia» iniciados no ano em que a revista «Presença» deixou de se publicar (1940) foram marcados por alguns dos nomes que mais se destacaram no panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século XX – como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. Sob o lema «A Poesia é só uma», os poetas dos «Cadernos» foram, na expressão de Fernando J.B. Martinho, dos que em Portugal no século XX mais de aproximaram de «uma ideia de poesia pura, pela qualidade objetual, de “ícone verbal”, que sempre, dentro da melhor tradição simbolista, atribuíram ao poema». E nessa perspetiva não deixaram de associar o trabalho estético e a dimensão ética – numa defesa persistente da liberdade. Junto destes poetas, encontramos Ruy Cinatti (1915-1986), que integrou a direção dos «Cadernos» nas suas três séries (com José Blanc de Portugal e Tomás Kim, todos recordados pelo CNC a seu tempo no CCB). Cinatti foi, ainda segundo F. Martinho, «poeta “nómada” como a si próprio se viu, numa errância que privilegiou os espaços de aventura ultramarina portuguesa, com destaque para Timor de que o seu nome é indissociável, quer na lírica celebratória quer na que é, depois da ocupação indonésia, ensombrada pela pungência da tragédia». Ora é a poesia deste místico que agora é de novo reunida, num esforço notável e meritório, permitindo aos seus leitores uma visão de conjunto de uma obra rica e multifacetada, na qual se sente, a cada passo, a projeção da cultura da língua portuguesa no mundo. E essa projeção surge num rico diálogo com outras visões e tradições – naquilo que podemos designar como uma interpenetração entre o gosto da aventura e a tentativa persistente de compreensão dos outros. Trata-se de um altruísmo poético, que talvez nos faça compreender o porquê de os portugueses estarem em toda a parte no mundo, sabendo responder diversamente aos múltiplos desafios. Jorge de Sena falará do «intervalo em que te aceitas outro / precisamente quando mais te julgam tu»… Pode dizer-se, pois, que não se trata apenas de adaptação, mas de encontro e de síntese. «Houve mares onde todos se encontraram, / Houve praias e ilhas de naufrágio, / Houve e haverá secretas margens / Onde a carne esfacelada implora e vive / Pedaços de mim próprio, irmanados / A algas e corais do fim do mundo». Assim, a hospitalidade funciona em dois sentidos – como capacidade de acolher e de ser acolhido, de receber e de estar disponível para dar alguma coisa da nossa diferença. É, no fundo, a disposição sentimental que importa entender, assim como a ternura, a invocação do amor, humano e divino. E, sendo a vida «toda mistério», é a procura permanente, a constante insatisfação e a insaciável busca de novos horizontes que se impõem. Em «Nós não Somos deste Mundo» (1941), em «Anoitecendo a Vida Recomeça (1942) ou em «O Livro do Nómada Meu Amigo» (1958) sentimos um «existencialismo metafísico», referido por Pedro Mexia, que nos leva a um encontro permanente entre «eu» e o «mundo», trilhando caminhos incertos, nos quais se cruzam o lamento e a ironia, o afeto e a compreensão das coisas, desde a natureza até ao quotidiano próximo.

 

UM POETA DA SIMPLICIDADE

«Dele esperávamos que nos revelasse mais do que a verdade intelectual, a verdade espiritual e o verdadeiro caminho da vida. Era o nosso guru» - disse Sophia de Mello Breyner a Peter Stilwell quando este escreveu a sua fundamental tese sobre Cinatti. Francisco Sousa Tavares confirma esta ideia, dizendo: «Ninguém poderá jamais imaginar alguém como Cinatti, a sua generosidade, a sua alegria, o seu entusiamo pela música, pela poesia e pelos outros»… E isto mesmo se nota na sua obra poética, sobretudo na fase de maturidade. E este primeiro volume traz-nos momentos muito ricos de talento e de criatividade. A poesia e a vida misturavam-se, naturalmente. E se a vivência poética obrigava ao domínio da palavra e à interrogação do mistério, a verdade é que em Cinatti encontramos a vivência de um ideal que procura constituir-se em sementeira de ideias e de valores. A iniciativa da revista «Aventura», visando abrir horizontes novos, insere-se nessa intenção… E, não por acaso, Ruben A. inspirar-se-á no nosso poeta (como exemplo sonhador) para criar a personagem do Cavaleiro de «A Torre da Barbela» - porque «sem liberdade a poesia não vale a pena, e o resto também não». E, deste modo, percebemos que «Para se ser poeta é preciso ser-se simples / Como eram simples os elementos naturais / Antes de Deus fazer misturas»… Cinatti vive poeticamente Portugal pelo mundo repartido – não como um projeto uniforme ou dominador, mas como uma encruzilhada de diversas influências e encontros. E não esconde, a um tempo e paradoxalmente, desânimo e admiração – elogia Baltazar Lopes e Amílcar Cabral, recorda tradições antigas, paisagens, experiências, um pouco por toda a parte, mas repugna-lhe a indiferença e a tentação simplificadora. Em «O Tédio Recompensado» (1968) ou em «O Borda-d’Alma» (1970) ironiza com a «paz dos podres», fala de «ultras» e «sinistros», não compreende uma sociedade acomodada e incapaz de audácias… E no encerrar de uma relação amorável connosco próprios diz-nos: «Eis que retorno à terra de ninguém, / à minha triste pátria angustiada, / para com ela celebrar alguém / num novo ano pleno de jornada / e cantarei a chuva anunciada / e o fogo fruste e o que lembrado / alumiar ensimesmadas faces / e outras de tenra profecia. / O mito grava, a palavra ofende. / A noite desce, a manhã ascende»…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS


   De 26 de dezembro de 2016 a 1 de janeiro de 2017

 

A leitura da Correspondência de Almeida Garrett para Rodrigo da Fonseca Magalhães (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016), permite compreendermos um pouco melhor o complexo mas apaixonante período da implantação e consolidação do liberalismo em Portugal.

 

 

UM APAIXONANTE PERÍODO
Encontramos o cidadão comprometido que foi Garrett em diálogo direto com o político mais influente na estabilização das instituições constitucionais – das guerras civis à Regeneração, momento em que foi possível pousar as armas e chegar a um acordo político de alternância no poder. A edição desta correspondência é de Sérgio Nazar David, que trata com esmero o manancial de contributos relevantes não só sobre as personalidades dos dois protagonistas, mas também sobre o período em que intervêm. Como sabemos, a edição crítica na INCM das obras de Almeida Garrett é coordenada por Ofélia Paiva Monteiro, cuja ação merece especial destaque, uma vez que tem permitido um melhor conhecimento da obra do grande autor do período romântico. Relativamente a Rodrigo da Fonseca (1787-1858), que a posteridade conheceria como «raposa», pela inteligência política e capacidade de superar as situações mais difíceis, não podemos esquecer a excelente biografia da autoria de Maria de Fátima Bonifácio, indispensável para percebermos o papel fundamental que desempenhou na história do seu tempo («Um Homem Singular», Dom Quixote, 2013).

 

 

GARRETT CIDADÃO E POLÍTICO

Almeida Garrett é uma referência da cultura portuguesa que supera em muito qualquer classificação de escola ou de grupo. Por isso, foi respeitado e referenciado por todos quantos, sob as mais diversas influências, até à modernidade, cuidaram de quem marcou indelevelmente o amadurecimento das nossas língua e cultura. «Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam as minhas ideias, boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos ou outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço». Estas são as suas palavras, significativas, em 1825 no prefácio à primeira edição de «Camões» demonstram sobretudo a independência de espírito e a especial atenção de Garrett relativamente às mudanças fundamentais do seu tempo. E o diálogo com Rodrigo da Fonseca, ora publicado, é revelador de como, apesar das incompreensões, o poeta, romancista e dramaturgo pôde contribuir pela dimensão cultural e artística para afirmação de uma sociedade aberta e liberal. O corpus documental que constitui a presente publicação é constituído por 97 cartas, 72 do espólio de Rodrigo, 18 do Ministério do Reino (Torre do Tombo) e 7 do espólio de Garrett (5 da Biblioteca Geral e 2 da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra). O importante é dizer que se trata de 93 cartas inéditas. O percurso que poderemos seguir nesta correspondência revela-nos plenamente o cidadão, o político e o servidor público. Nota-se a situação que rodeou ida para Bruxelas como Encarregado de Negócios, por «sórdidas conveniências políticas», e as condições do regresso depois de dois anos de penúria. De novo na pátria, é eleito deputado em 1837 e defende na Câmara dos Deputados a liberdade religiosa - «não creio que possa haver liberdade civil para o povo que perder a liberdade religiosa». É uma preocupação que assiste ao liberal autêntico e que aflora nas «Viagens na Minha Terra». A moderação é a marca da sua intervenção política, afirmando-se entre os setembristas moderados, como dirá no célebre discurso do Porto Pireu, exemplo da oratória parlamentar, em resposta a José Estêvão: «É verdade: todas essas galés de injúrias navegadas de toda a parte do mundo, vieram descarregar-se a um imaginário porto Pireu, onde, sonhando os agradáveis sonhos da loucura ambiciosa e da cobiça frenética, nos supuseram, a estes poucos homens do centro, que, por poucos, por moderados, por guardadores de todas as formas, deviam ter merecido mais alguma daquela civilidade e consideração com que a todos acatam, renunciando tantas vezes a despicar-se das ofensivas, até a defrontar-se dos agravos, com que a todo o instante são provocados» (8.2.1840).

 

 

A CAUSA DO CONSERVATÓRIO

O homem de cultura, encontramo-lo a pugnar pelo Conservatório Real de Lisboa. A determinação de Garrett é clara, em nome do ensino das Artes (Declamação, Música, Dança e Mímica). A figura tutelar de Gil Vicente é chamada em nome da «ideia de civilização». O presidente da instituição é D. Fernando II, em nome das conjugação dos princípios democrático e monárquico, tão cara ao dramaturgo – que se empenha a fundo nos mais ínfimos pormenores, para que o Conservatório tenha as condições para ser marcante. E nesse combate conta com o apoio de Passos Manuel, sopro da liberdade e da democracia, e com Rodrigo, o homem capaz de compreender o Portugal mais a fundo… Mas é Costa Cabral e o cabralismo que se irão impor a partir de 1842. E Garrett passa para a oposição – uma vez que que o executivo «absolutamente declarou por seus atos, que queria governar no interesse exclusivo de um partido». E dirá a seu amigo Silva Abreu: «desagrada-me o estado das cousas e a tendência dos homens. Sou pasteleiro pelo coração e pela cabeça: sentimento e reflexão me fazem desejar e crer que não seja nacional nem fixo todo o governo exclusivo e intolerante. (…) Portugal não é dos setembristas nem dos cartistas, é dos portugueses». Afinal, vê no novo poder cabralista pretextos para «vingançazinhas mesquinhas de bairro e bairristas». Pela demarcação política, foi demitido pelo Decreto de 16 de julho de 1841, assinado por Joaquim António de Aguiar, da Inspeção-Geral dos Teatros, de Vice-Presidente do Conservatório e de Cronista-Mor do Reino… Daí o clima de desalento que sentimos nas «Viagens», onde se descreve a ida ao encontro de Passos Manuel em Santarém. Em 1846, no final da guerra da Maria da Fonte, ainda julga poder participar numa solução moderada, que, no entanto, será destruída na «emboscada» de outubro, na qual a rainha D. Maria II ainda vai dar a mão a Costa Cabral. Nesse ínterim, Garrett e Rodrigo ainda tentam mobilizar Passos para uma solução – mas não têm sucesso. A guerra civil regressa, impiedosa e inexorável – na Patuleia. A propósito do Grémio Literário, o escritor chega a confessar-se a Rodrigo mais político que literato. Contudo, nas «Viagens», os barões são duramente julgados, na pessoa de Carlos. O certo é que o genial escritor ainda regressará à ribalta política na Regeneração, na pasta dos Negócios Estrangeiros. Mas a política tem sempre as suas vicissitudes e a amizade entre Garrett e Rodrigo terminaria toldada num episódio triste de intrigas e calúnias, em 1852, em que o poeta se sentiu injustiçado. É certo que Rodrigo compareceria ao funeral de Garrett, em 54, mas o mal-estar deixou marcas fundas… De qualquer modo, desta relação tão rica fica este diálogo do maior interesse. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

    De 31 de outubro a 6 de novembro de 2016

 

Acaba de ser publicado o primeiro volume de «Camiliana», onde se reúnem «Todos os Contos, Novelas Curtas e Romances Breves» de Camilo Castelo Branco, com recolha, prefácio e notas de José Viale Moutinho (Circulo de Leitores, 2016).

UM CASO SINGULARÍSSIMO

Camilo Castelo Branco é um caso singularíssimo na língua portuguesa. Longe do repentismo ou da facilidade, estamos perante um cultor das letras que se evidenciou ao saber aliar grande talento narrativo, capacidade de evocação única e exigência de profissional, que se equiparam aos dos maiores escritores de sempre, como Dickens ou Balzac… Alexandre Cabral fala, com razão, do «exemplo de um profissionalismo sem mácula, nesse estrito aspeto, que não foi ainda ultrapassado». Fialho de Almeida calculava a produção camiliana em cerca de 180 volumes e 54 mil páginas. Hoje sabemos que esse cálculo é feito nitidamente por defeito. E quanto ao rigor, não posso esquecer a sua cultura enciclopédica e o respeito dos seus contemporâneos pelas suas opiniões. Oliveira Martins retificou a primeira edição da «História de Portugal» com base nas apreciações que pedira ao mestre Camilo. É, de facto impressionante a amplitude de conhecimentos que permanentemente cultivava e o à-vontade com que lidava com as fontes coevas. E no tocante ao uso da língua, nunca se deixou deslumbrar pelos arrebiques escusados, antes ligando a clareza à diversidade vocabular, para ser fiel às particularidades e diferenças culturais. Nesse ponto é inigualável. E não é preciso entrar em comparações com outros dos nossos melhores – Camilo é Camilo. Aquando da prisão na Relação do Porto, no processo de Ana Plácido, D. Pedro V fez questão de visitar o romancista duas vezes, em novembro de 1860 e no final do Verão de 1861 e, como corresse a notícia de que o monarca lhe mandara oferecer dois contos de réis, Camilo apressou-se a esclarecer e a desmentir: «Eu creio que o Sr. D. Pedro V é infinitamente delicado, e só dá esmolas a quem lhas pede. Quando S. M. me fez a honra de perguntar, na cadeia, em que ocupava, respondi a S. M.: que trabalhava. Ou o Sr. D. Pedro V entendesse que eu me ocupava em chapéus de palha ou em romances, ou em caixinhas de banha, a minha posição ficava defendida para o inteligente monarca: o homem que trabalha não pede nem aceita esmolas; e, se a pedisse ao rei, julgar-se-ia tão humilhado, como se a pedisse ao ínfimo dos homens». Estava em causa a hombridade e a direitura da sua dignidade. De personalidade marcada e feitio tantas vezes agreste, Camilo tem, na sua longa obra, severas apreciações críticas que atingem mil suscetibilidades. Houve, por isso, razões para ódios e suspeições, mas, à distância, ao lermo-lo fica-nos a grande riqueza da matéria-prima com que lida - a vida de uma sociedade marcada por dualismos e diferenças profundos, que só poderiam ser retratados e compreendidos por quem tivesse oportunidade crítica e capacidade de ver o tempo à luz da duração e do largo prazo… Tendo-se arrependido de alguns repentes, hoje podemos entendê-los, porque permitem perceber os acontecimentos para além das simplificações imediatistas…

 

UM IMPORTANTE ACONTECIMENTO

A publicação deste primeiro volume de «Camiliana» (Círculo de Leitores) corresponde a um acontecimento tanto mais assinalável quanto é certo continuarmos a ter falhas graves na disponibilização ao público de obras fundamentais da nossa literatura. Aqui reúnem-se «Todos os Contos, Novelas Curtas e Romances Breves» de Camilo Castelo Branco, com recolha, prefácio e notas de José Viale Moutinho. Longe da polémica dos cânones, ou seja, de saber se o génio de Seide foi romancista ou novelista, contista ou escreveu crónicas romanceadas, a verdade é que na criação camiliana, independentemente do fôlego maior ou menor, a verdade é que encontramos, invariavelmente, um poder narrativo superlativo. Folheie-se este suculento volume e confirme-se essa qualidade extraordinária. Permito-me, a título de exemplo, falar de «Que Segredos são Estes?», publicado nas «Noites de Insónia», e mais recentemente na antologia «As Novelas de Camilo»… É um texto notável, pequeno mas muito tenso, a que não faltam os ingredientes fundamentais. «O enfermeiro-mor da casa da saúde conduziu-me ao quarto de Duarte. Com certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quase sumidas na desgrenhada cabeleira e nas barbas. Imobilizava-lhe o semblante a sinistra quietação da demência contemplativa». Duarte Valdez era um amigo do narrador, mas a vida transformara-o num farrapo… E o drama resume-se à consciência pesada pela responsabilidade de duas mortes. Valdez dizia ter morto as duas mulheres que amara… «Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgaríssima pergunta: - Como as mataste tu? – Despedaçando-as uma contra a outra. Pode ser que o leitor esteja sorrindo, porém, que o tremor daquelas palavras vibrava tanto no seio do aflito moço que uns calafrios me correram a espinha, e o turvamento das lágrimas me embaciou a vista…». E fica a curiosidade de saber se não estamos perante um vulgar assassino. Longe disso… A narrativa desenrola-se no registo onírico e fantasmático em que o amor e a morte se confundem, urdidos sabiamente pelo novelista, que nos transmite com economia de palavras, mas com grande densidade de emoções, algo cuja verosimilhança é evidente… Em «O Tempo de Camilo Anotado Ano por Ano», o organizador da obra, com grande mestria, leva-nos a partir da vida do autor de «Amor de Perdição», através dos acontecimentos do país e do mundo. E sentimos como há um enredo romanesco, donde tudo parte, na existência atribulada, e nem sempre evidente, de Camilo. Desde muito cedo, há tendência para se embrenhar em polémicas, para formular juízos severos, para criar anticorpos… Em Ribeira de Pena, em 1843, escreve e afixa na porta da matriz versos ofensivos a uma família importante da vila. Para salvar a pele foge para Vilarinho de Samardã… Em 1846, devido a uma série de artigos publicados no Porto em que criticava o Governador Civil de Vila Real, é barbaramente agredido… Foge com Patrícia Emília para a cidade invicta, mas é acusado por um tio de roubo, sendo ambos presos. Com traços romanescos, porém, o tio confessará depois que era falsa a acusação, feita apenas para travar a fuga… Em 1850, sai a lume o primeiro romance do novel autor - «Anátema»… Estes breves exemplos ilustram uma vida sentimental intensa, que culminará no caso de Ana Plácido, e uma vida familiar dramática. Este é, no entanto, o pano de fundo, de uma persistência admirável enquanto profissional da escrita. Ele confessa: «Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre». Ao longo de 669 páginas, a duas colunas, temos muita matéria reveladora da inesgotável qualidade camiliana. E mesmo em «A Via Sacra», cujo fim desconhecemos, resta-nos a certeza de que a intensidade narrativa dispensa epílogos…      

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS


     De 26 de setembro a 2 de outubro de 2016

  

 

Alice Vieira é justamente uma das mais celebradas escritoras dedicadas aos mais jovens, sendo uma autora completa, que divide a sua criatividade pela poesia, romance e ensaio. Ao tratar com cuidado e criatividade temas diversos, desde as narrativas tradicionais ao quotidiano, passando pela invocação histórica – como em «Este Rei que Eu Escolhi», em que a aclamação de D. João I é ocasião para lembrar um acontecimento histórico e apelar à responsabilidade cidadã – torna a leitura e a literatura algo de próximo e apetecível. 

 

 

ESCREVER PARA O MOMENTO PRESENTE

Alice Vieira faz da literatura um ato de prazer e de recordação. Lê-la nos diferentes registos, que usa com arte, significa encarar a plasticidade das palavras como um modo de nos permitir uma melhor compreensão da vida. É, de facto, da vida que Alice Vieira trata – e tal nota-se especialmente na escrita multifacetada que pratica. Partindo do quotidiano ou das histórias tracionais, na linha de Adolfo Coelho e Teófilo Braga, procura ligar o sentido cívico e pedagógico. Compreende, assim, que a melhor tradição popular da narrativa visa educar, instruir, lembrar, alertar, suscitar, dar atenção, prevenir, intervir e participar. É preciso compreendermos a origem desse veio de criatividade. Trata-se de preparar a iniciação à vida vivida, com todas as prevenções necessárias. E se o conto popular causa tantas vezes perplexidade, tal deve-se à obrigação pedagógica. É preciso que o tema seja suficientemente impressivo para que os seus destinatários o compreendam. Mas Alice Vieira escreve para os leitores de agora e por isso apresenta os temas e as situações de acordo com o momento atual. Não se trata de fazer recordação histórica, mas compreender o público dos dias de hoje – interessando-o e motivando-o. Quando lemos Esopo ou Fedro, Charles Perrault ou os irmãos Grimm, percebemos que se trata de pegar na tradição para alertar as crianças e os jovens, que se iniciam no mundo, contra todos os perigos que a natureza e os homens nos reservam. E Alice Vieira compreende-o bem ao aproximar as narrativas das preocupações do momento presente… Sem iludir ou escamotear a realidade, a autora dá um sentido positivo às lições que pretende transmitir. E que sentido é esse? O da compreensão de que a literatura, no seu todo, deve constituir-se num espaço com várias entradas, em que o fantástico se une ao real, o maravilhoso ao incerto, o fácil ao difícil… Estou a ouvir o meu avô Mateus, a dizer-nos, num ritmo cadenciado, a lengalenga tradicional - «Corre corre cabacinha / Não vi velha nem velhinha / Nem velhinha nem velhão / Corre corre cabação»… O lobo, o urso e o leão não se entendiam, admirados com o inesperado que se estava a passar… E assim, naquelas três ameaças resumiam-se os males que nos podem ameaçar, enquanto a esperteza da velhinha salvava o que havia a salvar… E, de um modo despretensioso, de quem quase nem se dava conta, podíamos entender que tudo estava em ter respostas inteligentes e em apanhar desprevenidos o lobo, o urso e o leão – considerados símbolos das ameaças do mundo… E foi esse relato antigo que encontrei sem uma ruga no texto de Alice Vieira…

 

A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA JUVENIL

Trata-se de assumir a magia serena de uma história edificante, em que a inteligência pode vencer a irracionalidade. A literatura infantil e juvenil tem um papel decisivo na formação das pessoas e das sociedades. Não se trata, porém, de fazer um compartimento fechado ou à parte, mas de utilizar um modo especial de sensibilizar a comunidade para os seus temas fundamentais. A maior parte dos textos da literatura juvenil destinou-se originalmente a todos. As narrativas tradicionais ensinam todos, e apela a que se faça uma transmissão eficaz das mensagens às gerações futuras. Lembramo-nos da fórmula clássica – histórias contadas às crianças e lembradas ao povo… E quando nos dirigimos às crianças recordamos a sociedade no seu conjunto: se os mais jovens são alvo preferencial da pedagogia, todos os outros são os que estão cientes de que o saber não ocupa lugar e de que o aprender é a chave do avanço histórico. Daí a dificuldade do género literário, uma vez que o público jovem é exigente e curioso – e Alice Vieira bem o compreende, praticando com cuidado a regra da identificação, tomando o lugar de um dos seus leitores – com uma escrita que é de facto para todos. E se falo de identificação é para salientar o mimetismo da aprendizagem que se estabelece entre a escritora e os seus jovens leitores. Um mimetismo que tem a ver com os temas, com a forma de os apresentar, com a clareza, com a proximidade e com a escolha das palavras. Há uma especial afetuosidade que perpassa nesta escrita e que a torna acolhedora e um meio de incentivo à leitura – tornando o sentido pedagógico eficaz, mas também exigente, pelo rigor na construção das frases e da narrativa. A obra fala por si. Do jornalismo à poesia, passando pelo romance, presenciamos um culto e um domínio seguro da língua portuguesa – que, naturalmente, se projeta no género em que mais se celebriza. Recebeu, por isso, os Prémios Gulbenkian pelo conjunto da sua obra e por «Este Rei que eu Escolhi». O êxito junto dos mais jovens é corolário de uma exemplar escolha de temas e pela mestria inequívoca na escrita.

 

O INCENTIVO À LEITURA

A melhor homenagem que podemos fazer a Alice Vieira é salientar o seu papel fundamental no incentivo à leitura, na melhor tradição de grandes escritores que escreveram para crianças e para todos, usando temas relevantes – desde a História às tradições, dos contos tradicionais à relação amigável com a natureza, desde a solidariedade à responsabilidade cívica. No fundo, incentivar a leitura é dar à cultura uma força criadora especial. É pôr em contacto as diferentes gerações. É ligar os vários momentos de uma história viva. É considerar a aprendizagem como o fator do desenvolvimento por excelência. É fazer dialogar os poetas e os escritores das diferentes gerações. É ir ao encontro do povo e da sua extraordinária capacidade para tornar vivos os valores fundamentais, como a dignidade humana. Alice Vieira faz da literatura um ato de prazer e de recordação.

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS


   De 22 a 28 de agosto de 2016

  

 

«Uma Excursão à Serra do Algarve» de Manuel Viegas Guerreiro (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991) é uma descrição saborosa e utilíssima de um investigador notável da cultura portuguesa e das repercussões desta no mundo…

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ALGARVE, RICO CULTURALMENTE…
Nestes dias de Agosto apercebo-me de que muitos dos que demandam o Algarve pouco se apercebem da extraordinária riqueza de uma região com virtualidades culturais ainda pouco conhecidas. É magnífico o mar. É rica a terra, mesmo com a secura, sobretudo pela força mediterrânica… Como disse António Ramos Rosa: «No silêncio da terra. Onde ser é estar. / A sombra se inclina. / Habito / dentro da grande pedra de água e sol». É essa grande pedra de água e sol que tem de ser mais valorizada e protegida. Serra, barrocal, costa marítima – tudo se complementa pela extraordinária mata e pelos largos campos do fecundo regadio com o acolhedor odor tão especial dos pomares de citrinos e das vetustas oliveiras milenares. A alfarrobeira é talvez a mais generosa das árvores, que tudo dá, e tanto tempo foi esquecida. «A alfarrobeira, volumosa, possante e muito verde infiltra-se pelos corregos, anunciando a presença do Algarve típico em terras de montanha» (M.V. Guerreiro). As figueiras têm tal diversidade que nos levam sempre ao prazer redobrado de ter frutos deliciosos de junho a setembro – e depois ao usufruto divinal dos figos secos, invejáveis. Minha avó Ana tinha mãos mágicas para garantir que houvesse sempre figos sobre a mesa durante três meses. As amendoeiras, essas são tanto mais belas e capazes de produzir deliciosas amêndoas doces quanto mais frágeis. E não há uvas de prato mais doces do que as do Al-Gharb do Al-Andalus…Tudo é doce, como cantaram os poetas de Silves, quando o Arade era navegável e ali estava a Bagdad do ocidente – romãs, albricoques, damascos, ameixas, melões e melancias, tudo…

 

TERRA DE LENDAS E ENCANTOS
«Minha terra embalada pelas ondas, / Onde o amor tece lendas e onde as fadas / Em castelos de lua dançam rondas…». É Cândido Guerreiro, que já não conheci, mas de que me falava o avô Mateus, quem elogia esse país de mouras encantadas, com amendoeiras em flor, em fevereiro, que mimam a brancura da neve e revelam os mistérios inesgotáveis da história moçárabe ou da cooperação entre judeus, cristãos e muçulmanos – de que me fala, com conhecimento de causa e entusiasmo (mas preocupação), Adel Sidarus. Aqui o Mediterrâneo tornava-se Atlântico, os fenícios cruzavam-se com os normandos. E os povos misteriosos do Sul, do Sol e do Sal ainda se estão por descobrir, entre vilas romanas e colónias gregas, entre cónios e tartéssios e uma escrita de poetas e comerciantes ainda por desvendar. Há quase tudo por descobrir, o Algarve é finisterra de finisterra, culminando no promontório sagrado, por isso o Infante D. Henrique veio em busca dos descendentes dos marinhos, que não tinham medo das águas e acolheram Ulisses, vindo de Troia em busca de Ítaca. Aqui se plantou a cana-de-açúcar, aqui se capturou o atum, como nas arenas do sacrifício do mar Egeu, aqui se repetiram pescarias milagrosas da sardinha e se desenvolveu a indústria conserveira… Em Querença, homenageou-se a Literatura, sob o espírito protetor do Professor Manuel Viegas Guerreiro e da sua Fundação. O Festival Literário de Querença (FLIQ) enalteceu a Palavra «em todas as suas formas – dita, lembrada, escrita, cantada, subvertida, dançada, repetida, encenada, discutida… e os seus protagonistas» - no dizer de Luís Guerreiro, que está de parabéns e merece um especial aceno em nome da arte, da educação e da cultura… E pudemos ouvir Casimiro Brito em «Arte da Representação»: «Amar é aspirar as forças generosas que me rodeiam, o sol e os lumes, as fontes ubérrimas que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no corpo irmão, no cadinho que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas». E não esqueço ainda a homenagem recente do Município de Loulé a Lídia Jorge, com a presença do Presidente da República, que constitui mais do que um reconhecimento pessoal – é o elogio da cultura, da educação e das humanidades, num sentido amplo, a que a autora de «O Dia dos Prodígios» tem dedicado a vida inteira.

 

UM ETNÓGRAFO DE EXCEÇÃO
Manuel Viegas Guerreiro, com quem tive o gosto de falar longamente, como mestre dos mestres, discreto, sábio, memória viva da Etnografia, discípulo dileto de José Leite de Vasconcelos e de Orlando Ribeiro, deve ter aqui uma referência especial, sobretudo para quem deseja que o Algarve Cultural entre mais na ordem do dia. Lembro-o como se fosse hoje e nunca o esquecerei. «A cultura é só uma, tudo o que aprendemos do nascer ao morrer, da nossa invenção ou alheia, sentados nos bancos da escola ou da vida». Recordo, por isso, a sua descrição colorida de uma peregrinação científica a Monchique. E poderíamos também lembrar o extraordinário «Uma Excursão à Serra do Algarve» (C.M. Loulé, 2ª edição, 1991), onde invoca o sobreiral das umbrias que «não move uma folha. Nem homens, nem aves, nenhum indício de vida animal. Um silêncio absoluto de sonho e mistério. Quase me parece sacrilégio misturar palavras ao divino sossego da Natureza»… Mas ouçamo-lo então, no Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro (volume I, 1984): «Alugados na vila dois burros e um guia, abalámos para a Foia. Os burros e o moço ora atrás ora adiante de nós a pé, o mestre (Orlando) fazendo matéria de tudo quanto via, dos acidentes do terreno aos modos de vida e formas de povoamento. Do cimo da Foia pelo Barranco dos Pisões até à estrada principal. E de casa em casa, de moinho em moinho, nos foram enchendo de viático e sobretudo de aguardente, da sua aguardente sempre a melhor, ritualmente obrigatória, que nos ia tomando o corpo. E os burros adiante e os burros atrás, e nós sempre a pé até Monchique. Alongavam-se as sombras da tarde e mesmo assim, o corpo cansado, nos metemos a caminho das Caldas, por trilhos e corta-mato, da Picota à pensão do Fernando, onde chegámos à meia-noite, depois de penosas horas de marcha, em que até nos perdemos, mais mortos que vivos, mas não tanto que nos não regalássemos com uma soberba refeição. Trabalho de campo e trabalhos de campo foi o que nesse dia tivemos». Estou a ver o quadro todo: os burros e as cangalhas, quantas correrias neles fiz…, o moço distraído do cansaço dos mestres, a subida íngreme da serra, os caminhos e os trilhos irregulares, e depois a soberba canja de galinha pica no chão e o arroz de cabidela e, por fim, os lençóis de linho gelados e uma manta de papa para aquecer… Era assim a Etnografia e a Geografia na prática. E era assim essa relação de Viegas Guerreiro e de Orlando Ribeiro à cata do Algarve profundo. E, quanto a Orlando, «era um regalo vê-lo conviver com o povo, com o “bonito modo” que este tanto aprecia. Aonde quer que se demorava, deixava saborosa lembrança. Fomos um dia ao mar, à pesca da sardinha, ao largo de Portimão, e foi o bastante para nunca mais ser esquecido pelo mestre José Estêvão, que levou anos a perguntar-me pelo Doutor Orlando».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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