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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

A única forma que tenho de trabalhar os meus livros, é colocá-los, de quando em vez, arrumados nas minhas estantes, encontrando-lhes fundamento e afeto e cumplicidades nessas arrumações. Desta feita dei comigo a colocar ao lado do Alçada, não só o Alexandre como o grande Borges, bem como a Yourcenar, e encostado às Peregrinações, o Régio, o Ruy Belo e o Manuel Bandeira. Desta vez envolvi-os assim. Pareceu-me que todos falavam bem entre si e que o triunfo sem perda seria o saberem extrapolar princípios e vastidões. Foi uma forma de colocar os crentes destes caminhos a dividirem o destino humano em boa disposição. Estas arrumações fazem-me muito bem, confesso, sobretudo porque lhes reconheço por antecipação a alegria do chão no caos que se seguirá – aquele caos que mal me deixa ver em cima da secretária o teclado onde escrevo. E enfim breve, breve chega afinal o momento dos livros arrumados descerem de novo à secretária e aos sofás e ao chão. Chegam das arribas tocados pela ideia de mundo, querendo-se amar uns aos outros, muito próximos fisicamente e espiritualmente apesar dos riscos.

 

Esta é a melhor gente do mundo, esta gente de desmedidos projetos de procura através de migalhas cósmicas que lhes desencadeiam custos e peripécias de luz…

 

E Mallarmé, onde te coloco? Ao lado de Kafka, Flaubert, Tolstoi, Celan, Torga e Comte-Sponville? Ah e Camões? Deus que isto é um universo inviável e que compromete a unidade! Digo para mim com um sorriso que convoca a ideia de relativismo que forma o meu mise en abyme no discorrer destas tardes de arrumações de livros. Também lhes peço a eles, ajuda em nome de todos os que retendo alguma coisa quando os leem, imaginam logo qualquer coisa saber: perigoso e desapiedado cesto de Pandora!

 

E assim ao fim de uns dias, um azul próprio do céu dos livros deixa-se ver em volta de um ponto invisível que me roda sempre a leitura e releitura dos mesmos. Mesmo quando começo a escrever, espreito esse ponto invisível porque o sei lá onde e aonde imprecisa é a vida e a morte.

 

E acontece-me de novo pegar num livro, sondá-lo, buli-lo, incitá-lo a desafiar-me o namoro e a partir da paixão já sem recato, que ele me permita frui-lo até onde eu o possa levar. Só por lá a fórmula da natureza humana.

 

E não me sinto estranha assim perdida, assim envolvida no trabalho de arrumar os livros entre os sensuais ecos das palavras dos filósofos que, insidiosamente, são sabedores da direcção do engenho por onde ando.
 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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       Minha Princesa de mim:

 

Miguel Real (já leste tu, Princesa de mim, o seu Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa - Planeta, Lisboa, 2017 ?) será, a meu ver, pelo método e seriedade, o ensaísta de serviço à arrumação dos vários esforços e exercícios que outros fizeram e vêm fazendo, com convergências e divergências, para refletir sobre identidade e cultura portuguesa - e cito-o - desde a obra dos pensadores da Geração de 70, mas também - e sobretudo - de Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, padre Manuel Antunes, Jorge de Sena, António José Saraiva, Boaventura de Sousa Santos, José Mattoso e Eduardo Lourenço. E, no balanço, traça o perfil de um discurso de Guilherme d´Oliveira Martins, por ele espremido da leitura do livro deste (Portugal. Identidade e Diferença, Gradiva, Lisboa, 2007) que parece matizar a afirmação do mesmo de que "os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo":

 

Segundo Guilherme d´Oliveira Martins, Portugal, reafirmando a sua complexada identidade cultural passada, mas recusando simultaneamente «o triunfalismo e o miserabilismo», tem hoje, nos princípios do século XXI, integrado na Europa, a grande oportunidade de superação dos seus traumas históricos, normalizando-se, racionalizando as suas estruturas sociais e estatais, unindo «pensamento e ação», integrando ambos num projeto complexo e multidimensional sumamente caracterizado pela abertura ao «outro». Neste sentido, propõe o repensamento e a revitalização da nossa identidade histórica por via de uma abertura relacional a outras entidades (Europa, África, Brasil...), um autêntico mergulho no «outro» que provocatoriamente abale os nossos complexos («saudosismo, sebastianismo, lirismo sonhador, fatalismo oriental, brandura de costumes»), forçando a sociedade civil a não depender em absoluto do Estado, «matando» definitivamente Dom Sebastião dentro de cada português.

 

Mas agora, pergunto eu, não estaremos nós a reentrar, pela porta do quadro de uma "atualização" conveniente, na mesma obsessão? Na fezada num eu nacional histórico, chamado a dar "autênticos mergulhos" noutros, tudo isto (quanto é?) proposto num discurso grandiloquente e alheio a qualquer análise empírica e crítica da realidade da sociedade portuguesa atual, e da sua presente circunstância?

 

Na verdade, aquele tal Portugal só pode ser um conceito abstrato, um sentimento desencarnado, o "outro" ou "outros" em que deverá "mergulhar" mais não sendo do que destinos de uma viagem de regresso a mitos com que se relacionaram passadas grandezas ou onde se procuram novas alienações... As a matter of fact, como diriam os nossos pérfidos albiões, a portugalidade contemporânea - falo de gente, não de um conceito - surge ainda, infeliz e largamente, como a piolheira de que falava o Senhor Dom Carlos I, e também, doa a quem doer, feliz e crescentemente, como um movimento de novos "estrangeirados" (dói-me, a mim, que assim sejam tratados) que se distinguem no panorama internacional, desde a interpretação da música clássica e barroca até à qualidade dos trabalhos de investigação em áreas de humanidades clássicas, ou em disciplinas na vanguarda da investigação científica. E não esqueço os emigrantes operários que, em terras estranhas, se converteram à contemporaneidade e se reorganizaram, em si mesmos e socialmente, para saber responder a desafios que o imobilismo da sociedade portuguesa vezes demais nem sequer permitiu que se lhes pusessem... 

 

Não vou maçar-te com discursos tratadistas, deixa-me só citar-te passos de autores vários que poderão ajudar-nos na interrogação desses que, quiçá, serão alguns dos nossos atuais mitos alienantes, como a lusofonia, o Atlântico, o Brasil, a África, etc., etc.. Se bem me lembro, já João Gaspar Simões emitia reservas sobre o português do premiado Luandino Vieira, torcendo o nariz ao uso de vocabulário de raiz regional ou dialectal angolana e outros idiomatismos... E talvez me não engane muito ao dizer-te que o famigerado acordo ortográfico também é uma tentativa de controlo da língua portuguesa pelos seus primeiros "proprietários"... Simplesmente, a meu ver, vira-se mesmo assim o feitiço contra o feiticeiro: gerou-se mais confusão no que já era um medíocre tratamento do português por uma geração de nativos europeus, em que deparamos com alunos e, até, docentes universitários a falar e escrever a língua pátria bem pior do que gente do tempo dos nossos avós que apenas recebera instrução primária; e, pior, vai-se fazendo com que se percam oportunidades de cada um poder descobrir caminhos para chegar à origem das palavras e melhor entender o seu significado e a relação entre elas. Mas vou a um trecho do professor Onésimo Almeida, no seu A Obsessão da Portugalidade (Quetzal, Lisboa, 2017):

 

A transformação da língua portuguesa em África é um fenómeno mais recente e mais escrutinizado pelo antigo poder dominante. Agora libertos, os escritores africanos têm vindo a fazer um maravilhoso trabalho linguístico, tornando verdadeiro para eles próprios o dito de Pessoa/Bernardo Soares «A minha pátria é a língua portuguesa». Basta vermos as posições de Jofre Rocha, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane («Uma coisa que eu deixo muito clara: português-padrão, nunca! Não estou interessada.»), Henrique Teixeira de Sousa, Raul David ou Boaventura Cardoso. Este angolano, em particular, é sucinto e claro:

 

   [...] essa língua vai-se enriquecendo de uma forma acelerada, vai-se afastando cada vez mais da norma do português falado em Portugal. Não será uma língua diferente, não será outra língua, mas haverá certamente muitas contribuições novas que resultarão da coexistência entre a língua portuguesa e as mais diversas línguas nacionais. Porque a língua portuguesa coexiste com as línguas nacionais. E, naturalmente, dessa coexistência resultarão uma série de empréstimos - quer para a língua portuguesa, quer para as próprias línguas nacionais. Eu acho que a língua portuguesa em Angola vai sofrer profundas alterações - aliás está sofrendo neste momento - e nalguns casos haverá um afastamento considerável em relação à norma do português falado em Portugal.

 

Luandino Vieira, o esplêndido criador literário que tão bem soube aprender com Guimarães Rosa a transformar a linguagem da gente e a fazer com ela obras de arte - cadeia que desembocou depois no mágico Mia Couto -, captou o problema nestes termos:

 

   Não tenho dúvida nenhuma [...] as nossas crianças não vão falar, evidentemente, o português de Portugal [...]. [Ele] mantém-se, mas o resultado vai ser outro. Ainda não se percebe muito bem como é que vai ser.

 

Nem se poderá facilmente adivinhar. Recordo-me, Princesa de mim, dos meus 25 meses de Guiné, em que diariamente tinha de lidar com onze diferentes línguas nativas que, evidentemente, eu não entendia. Mas falava longamente com os intérpretes, procurava sobretudo entender como se formavam as expressões de diversos modos de pensar. Qualquer língua, ou linguagem, é basicamente uma forma de expressão, sendo ainda verdade, por outro lado, que quando se ensina ou transmite uma língua também se está traduzindo um certo modo de pensar. O crioulo (cabo-verdiano e guineense) era igualmente um cadinho de misturar línguas várias, entre as quais se reconhecia a portuguesa, curiosamente mais pelo vocabulário que emprestava, do que pela sintaxe que a sustentava. Dei comigo a compor, só para mim, uma espécie de gramática do crioulo. Já lá vão 50 anos... Talvez a descubra um dia, numa das caixas de manuscritos que nesta casa dormem e ainda não acordei. Numa antiga entrevista ao Jornal de Letras, intitulada Um Escritor Abensonhado, o moçambicano Mia Couto diz bem o que, alhures e por diferente experiência, eu aprendera na Guiné:

 

   Os moçambicanos não são apenas consumidores, mas também produtores ou coprodutores da língua e, nesse aspeto, fazem-no com muita liberdade e de modo que a cultura que lhes é própria faça estalar o edifício do português-padrão e dessa fratura haja a emergência de termos novos, de construções novas. E essas fraturas deixam ver outra sensibilidade, outra cultura, outra maneira de olhar o mundo.

 

Pessoalmente, sou grande leitor de escritores africanos lusófonos, designadamente Agualusa, Mia Couto e Ondjaki. E recorro também frequentemente aos seis gordos volumes do dicionário Houassis, um vade mecum da minha lusofilia. E sinto-me muito mais feliz no ambiente de um universo linguístico e literário em expansão, do que no colete dos purismos castiços ou, pior ainda, na pretensiosa disciplina de um pretenso acordo ortográfico. Sem que tal impeça, ou sequer condicione o meu estilo de escrita, na expressão que aprendi, acarinhei e amo. E serei sempre mais contente pelo encontro de Houassis alargados do que pela mesquinhez de acordos ortográficos.

 

     Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

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     De 11 a 17 de setembro de 2017

 

Ler «A Renascença Portuguesa: um movimento cultural portuense» (1990) de Alfredo Ribeiro dos Santos constitui oportunidade para compreendermos a influência extraordinária que o Porto Culto teve no século XX português.

 

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CIDADE INVICTA, CIDADE CULTA

Alfredo Ribeiro dos Santos (1917-2012) é um símbolo do Porto Culto. Esta noção antiga de Sampaio Bruno cabe especialmente a este médico, discípulo de Leonardo Coimbra, para quem a tradição da “Renascença Portuguesa” não poderia caber numa qualquer noção estrita de escola ou de grupo fechado. Se lermos textos fundamentais de sua autoria como «A Renascença Portuguesa: um movimento cultural portuense» (1990), «Jaime Cortesão: um dos grandes de Portugal» (1996), «O Perfil de Leonardo Coimbra» (1998) ou «História Literária do Porto…» (2009) depressa e facilmente compreendemos que a riqueza e a fecundidade dessa plêiade coerente mas heterogénea (de Pascoaes a Proença e a Brandão) teve a ver com a fidelidade às raízes bem portuguesas de uma cultura aberta, multifacetada e complexa. Alfredo Ribeiro dos Santos foi cicerone privilegiado relativamente a esse movimento e a esse grupo de exceção – ensinando-nos que a sua atualidade se deve ao espírito aberto e persistente, baseado na autonomia enraizada da cidade do Porto, de onde houve nome Portugal, a única cidade-estado que houve em Portugal, pátria do Infante D. Henrique e também de Garrett (“nós, os do Porto, podemos trocar os b pelos v, mas nunca a liberdade pela tirania”), urbe invicta na guerra civil, fiel à causa da liberdade de D. Pedro – que, em preito de homenagem, deixou à cidade o seu próprio coração – sede da «Vida Nova» e da amizade entre Antero e Oliveira Martins, simbolizada nas Águas Férreas, ou de Soares dos Reis.

 

A «RENASCENÇA PORTUGUESA» COMO NINHO

Ribeiro dos Santos ensinou-nos que a «Renascença Portuguesa» constitui um exemplo de como o republicanismo teve diversas leituras e exerceu uma influência multifacetada e rica na evolução do século XX português. Recorde-se que no dealbar do movimento (em 1911), Teixeira de Pascoaes e Raul Proença apresentaram para ele dois projetos de manifesto que, sendo bastante diferentes, representam aos olhos de hoje a imagem significativa do que foi originalmente a ideia. «O fim da “Renascença Lusitana” – escrevia Pascoaes – é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual, e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo que sejam essencialmente lusitanas». Proença, por seu lado, falava “em pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar-se pelo que interessa aos homens lá de fora, dar-lhe o espírito atual, a cultura atual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais”. Como salientou José Augusto Seabra: “o ideal patriótico é idêntico, apenas os meios de o atingir divergem, embora sejam afinal complementares, como Pascoaes, aliás, n’A Águia, intentará mostrar”. Ambos se demarcam do positivismo ou de lógicas redutoras, estando em causa o que Jaime Cortesão propunha: «dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana». Como dirá Pascoaes, havia que «criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo, onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram».

 

ESPÍRITO MULTIFACETADO

Alfredo Ribeiro dos Santos encarna este espírito multifacetado! Fez os seus estudos secundários no Porto, no Liceu Rodrigues de Freitas, tornou-se discípulo de Leonardo Coimbra, colaborou ativamente na candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República, foi frequentador das tertúlias literárias e políticas portuenses e colega do Dr. Veiga Pires, resistente de sempre, com quem estagiou no Hospital de Santo António, e com quem militou no MUNAF e no MUD. Mário Soares disse dele que «deixou sempre por onde passou um rasto de simpatia, de humanidade, de aprumo moral e de respeito verdadeiramente invulgares». Nesse sentido, devo insistir na ideia de que é um símbolo indelével do Porto culto. E não poderemos esquecer a sua ligação ao Professor Abel Salazar, referência maior da ciência e da arte, da medicina e da pintura – sobre quem escreveu em termos de uma justiça e de uma sensibilidade lapidares. Foi o meu saudoso amigo José Augusto Seabra quem primeiro me apresentou o Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos, elo indispensável entre a Renascença Portuguesa antiga e a Nova Renascença. O seu exemplo era fundamental, já que nos permitiria compreender, com todas as suas consequências, a força e a durabilidade da mensagem renovada da ideia de Renascença, que se seguia à Regeneração constitucional de 1820. Afinal, o tempo veio a revelar que a velha revista «Águia», nascida na aurora da República portuguesa, constitui símbolo da perenidade do constitucionalismo – ligando os fatores democráticos desde a formação de Portugal que Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra assumiram plenamente, à causa liberal de D. Pedro, à liberdade constitucional e ao melhor da causa republicana, com a orientação socializante da «Seara Nova», o modernismo do «Orpheu» de Fernando Pessoa e Almada Negreiros e a democracia moderna da revolução de 25 de abril e do constitucionalismo democrático da contemporaneidade. No centenário de Alfredo Ribeiro dos Santos, invocamos o seu exemplo, mas mais do que ele, toda a sua lição ligada aos grandes mestres modernos da democracia portuguesa – que o cidadão e intelectual sempre enalteceu. No fundo, a chave do «Porto Culto» tem a ver com a perenidade dos fatores democráticos da formação e afirmação de Portugal. Eis o que não pode ser olvidado!   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

Paul Valery

 

XX - CRISE E RUTURA DOS VALORES E CHOQUE DA GUERRA - II

 

Para uns, a origem da crise no século XX era terem ruído os valores tradicionais, essencialmente os religiosos. Para outros, a divinização da ciência e idolatria dos cientistas, o mito do progresso científico, substitutos das crenças tradicionais, entre elas a religiosa. Apesar de defenderem que o afastamento de Deus tinha ocorrido em pleno século XIX e, mesmo assim, a humanidade tivesse vivido um período de um expressivo e significativo otimismo.

 

A razão e a racionalidade fomentariam a dignidade humana e a liberdade individual, trariam a paz, a justiça social, a promoção e reconhecimento dos melhores. A guerra viria provar o contrário, dada a sua violência e totalitarismo, produzindo armas letais que punham em perigo a sobrevivência da humanidade e de melhores condições que possibilitassem uma vida interior mais humanizada. As tentativas de institucionalização da paz internacional, após a primeira guerra mundial, fracassaram, com a malograda Sociedade das Nações. Reflexões pessimistas emergem, revelando a guerra o que havia de não adquirido e de transitório na civilização do princípio do século XX.

 

O filósofo, escritor e poeta francês Paul Valéry, em 1919, escreveu: “Nós, civilizações, nós sabemos agora que somos mortais. (…) Agora vemos que o abismo da História é suficientemente grande para todos. Sentimos que uma civilização tem a mesma fragilidade que uma vida. (…) E não é tudo. A lição escaldante é ainda mais completa: não bastou à nossa geração aprender por experiência própria como as coisas mais belas e as mais antigas, as mais formidáveis e as mais bem ordenadas são perecíveis por acidente: viu na ordem do pensamento, do senso comum e do sentimento, produzirem-se fenómenos extraordinários, bruscas realizações de paradoxos, deceções brutais da evidência”.

 

Mas se é verdade que este choque belicista colocou em causa a cultura cosmopolita, o clima intelectual e artístico, a crença no progresso e a prosperidade da sociedade da Belle Époque (Bela Época), que se iniciou no fim do século XIX (década 1870) até ao implodir da primeira guerra mundial (1914), também é verdade que foi um acelerador de novos meios de comunicação, massificando-os e difundindo-os junto de um público mais vasto, através da rádio, do cinema e do disco, por exemplo.

 

Face à transitoriedade da vida, foi ainda um acelerador poderoso para a fúria de viver, o culto do fruir, gozar e usar a vida ao ritmo do dia a dia, para os que sobreviviam, dada a certeza de efemeridade da vida, aliada à maior incerteza do momento, agravada pela mortalidade da guerra. Literatura e cinema fizeram o seu culto.

 

O mesmo sucedendo a nível das convenções morais, incluindo o Reino Unido, profundamente afetado pelo choque da guerra, exemplificando-o o filme Mrs Henderson, de Stephen Frears, dado que: “O puritanismo, quando a vida se tornara tão ameaçada e os prazeres tão raros, sofrera rudes golpes. Os breves encontros do soldado de licença harmonizavam-se mal com o respeito pelo ritual vitoriano do noivado, as convenções do decoro já não eram admitidas nos “cabarés para soldados”, os nascimentos fora do casamento tornavam-se aceitáveis, senão admitidos. De um só golpe a guerra acabava de tornar ultrapassado o código social e moral do século XIX. Dali em diante, os puritanos tiveram de resignar-se a tolerar a existência de comportamentos “não convencionais” ou até “emocionais” (Pierre Léon, História Económica e Social, Vol. V, Sá da Costa, Lisboa, 1982). Com mudanças no mundo feminino, em termos de estatuto e responsabilidades.

 

Amargura, ansiedade, dúvida, incerteza e inquietude, sucederam ao otimismo. A fé positivista e inabalável na ciência e na razão, foi posta em causa pelo filósofo francês Henry Bergson, para o qual a intuição é o motor de todas as coisas, não a razão nem a ciência, originando o intuicionismo, sendo o impulso vital que explica a evolução do universo (vitalismo). O cientista, apercebendo-se de que nem tudo é explicável racionalmente e em termos deterministas, abre portas à intervenção de Deus na ciência. Albert Einstein apresenta a teoria da relatividade pondo em causa a natureza absoluta do espaço e do tempo de Newton, surgindo uma súbita relativização de tudo o que até então era tido como inatacavelmente científico. O físico alemão Heisenberg criou o princípio da incerteza, reforçando o indeterminismo.

 

O que trouxe novas preocupações aos homens de letras, tornando a literatura mais angustiada e crítica, com reflexos da guerra. Franz Kafka, autor da angústia e do absurdo, Aldous Huxley, usando a ironia, Máximo Gorki, autor soviético empenhado politicamente, Malraux, Hemingway e Scott Fitzgerald, são alguns exemplos.

 

29.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

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     De 28 de agosto a 3 de setembro de 2017

 

«Tudo o que não Escrevi» de Eduardo Prado Coelho (2 volumes), edições Asa, 1991-1992, é um retrato em forma de diário de uma das personalidades mais interessantes e ativas do meio cultural português da passagem do século XX para o século XXI.

 

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DEZ ANOS DEPOIS…

Já decorreram dez anos desde que o Eduardo Prado Coelho nos deixou e no entanto a sua memória, a vitalidade do seu exemplo continuam bem presentes, sendo justo que devamos recordá-lo, como ele gostaria. Fora de qualquer ideia retrospetiva, a sua preocupação fundamental estava no culto de uma atenção desperta para o tempo e a realidade que o cercava. Não conheci mais ninguém que estivesse tão atento ao debate de ideias e ao surgimento de novos contributos e de novas perspetivas. No Centro Nacional de Cultura contei sempre com a sua participação ativa nas iniciativas para que era desafiado. Quando o Chiado ainda estava morto, sob os efeitos do terrível incêndio, lançámos as festas no Chiado (na altura, duas por ano). Era um tempo em que ninguém estava certo de que seria possível dar vida àquela capital de Lisboa, na expressão de José-Augusto França, e o Eduardo aceitou o desafio dos cinco livros, cinco autores – para trazer aqui os mais interessantes escritores, ensaístas e poetas. E com que zelo e prazer fazia o seu trabalho… Muitas vezes, os autores que indicava eram ainda pouco conhecidos, mas o tempo veio a provar que o Eduardo tinha um faro verdadeiramente raro para descobrir o que tinha realmente qualidade. Lembramo-nos que, relativamente a um autor hoje consagradíssimo, tivemos 5 pessoas da primeira vez que foi escolhido – mas um ou dois anos depois já havia para a mesma pessoa quase uma centena de presenças… O tempo passou e o Chiado renasceu, pujante, graças a uma extraordinária convergência de esforços e de vontades – entre os quais Siza Vieira teve um papel crucial. E se lembro o entusiasmo de Eduardo, a verdade é que os livros e a cultura foram âncoras essenciais para que o Chiado tenha renascido mais forte do que nunca… O certo é que a ideia de cultura, que sempre esteve presente na sua ação, tinha a ver com a criatividade, a atenção e o cuidado. Educação, formação, ciência, pensamento, cidadania ativa, responsabilidade política, antecipação do futuro, ligação entre tradição e mudança – eis o que o ensaísta soube cultivar e aprofundar (e essa ligação íntima a Eduardo Lourenço deve ser lembrada especialmente). Se nos lembrarmos do seu contributo para os primeiros passos do estruturalismo entre nós, verificamos, antes do mais, a atenção aos novos caminhos, sem se deixar aprisionar pelas leituras exclusivas ou unilaterais. O primeiro entusiasmo dava lugar a outras influências e outros contributos. O mesmo se diga relativamente ao pensamento marxista ou depois à lógica liberal-libertária.

 

UMA GENUÍNA CURIOSIDADE.

O que Eduardo Prado Coelho tinha era uma curiosidade genuína pelo mundo das ideias. Daí a capacidade de se apaixonar por elas, mas simultaneamente também a disponibilidade crítica para abrir novos capítulos e novas influências. Deste modo, foi um cultor de um pensamento plural, aberto à diversidade. Esse o balanço geral do rico percurso intelectual que assumiu e que teve diversas facetas. E se alguns salientam este ou aquele momento mais marcado por determinada opção, a verdade é que o conjunto da intervenção do ensaísta (que ele foi essencialmente) dá-nos um panorama de abertura à diversidade – e de capacidade para se pôr em causa ao descobrir novos caminhos para a sua reflexão. Quando apoiou Maria de Lourdes Pintasilgo em 1985 teve a lucidez de pôr a ênfase no que essa candidatura tinha de mais novo e enriquecedor, salientando a importância da convergência com o movimento de ideias que Mário Soares pôde suscitar e depois assumir. Fui testemunha dessa fase e sei da importância que teve esse diálogo na renovação das ideias da esquerda democrática, numa fase especialmente difícil, em que havia o risco da fragmentação. A filosofia política anglo-saxónica, a segunda esquerda francesa, a nova escola de Frankfurt punham-se em confronto e em diálogo – num momento em que F. Fukuyama e S. Huntington não poderiam ser lidos de modo simplista, já que o sistema de polaridades difusas gerado no fim da guerra-fria e na queda do muro de Berlim abria caminho a uma imprevisibilidade perigosa. Hoje sabemo-lo: «Brexit», Trump, Putin, Síria, Estado Islâmico, República Popular da China, Coreia do Norte e assim sucessivamente… E fica-nos a grande curiosidade de saber que teria dito o Eduardo perante Houellebecq no seu romance «Submissão», para além da lógica da «Espuma dos dias» de Boris Vian…

 

O DILEMA EUROPEU.

Estará a Europa condenada à fragmentação e à irrelevância? Muitos são os temas para os quais o Eduardo Prado Coelho seria, certamente, um ativo estimulador de ideias – a partir da capacidade de compreender como o diálogo do pensamento pode ser um fator de progresso e emancipação, compreendendo que nunca descobriremos uma qualquer via de reconciliação definitiva… Não esqueço que a última vez que falámos, poucos dias antes da sua morte. Disse-me que se sentia melhor e que estava disponível para continuar a animar uma iniciativa centrada na literatura… Estava otimista e parecia com uma energia renovada, eis por que razão foi um choque receber a notícia. O certo é que a última lembrança do Eduardo foi positiva, com o seu entusiasmo de sempre… Por isso, escrevi na altura um texto em que recordava «Emílio e os Detetives», uma narrativa juvenil – ciente de que a ficção era para ele uma prova de vida… Por isso, costumava lembrar as suas lágrimas de criança quando leu a descrição de Salgari da morte de Sandokan, na célebre coleção da Romano Torres, envolvendo o inconfundível português Gastão de Sequeira. Na reta final da vida assumiram uma especial importância as cartas que trocou com o Cardeal Patriarca D. José Policarpo, onde a independência de espírito, a inteligência e a compreensão do mundo estavam bem presentes. No seu diário, confessa a dificuldade da relação com o mundo da vida. Há muitas perplexidades, mas sempre a preocupação com o ter os olhos abertos perante a realidade humana: «Há uma frase que me tem seguido pela vida fora. Qualquer coisa como "não tens vida interior". Que significa? Não propriamente que me seja atribuída uma ausência de "pensamento interior" - de modo algum. Mas perpassa a suspeita de que esse pensamento se desenrola numa espécie de impessoalidade indiferente aos relevos afetivos de todos os dias. Confesso que isto me espanta, porque se alguma coisa eu sinto é que tudo aquilo que penso se modela sobre um corpo afetivo extremamente atento e vibrátil. Tudo o que seja um pensamento segregado do quotidiano me parece insignificante».    

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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    De 12 a 18 de junho de 2017

 

"Genuína Fazendeira - Os 100 anos de Cleonice Berardinelli", obra coordenada por Gilda Santos e Paulo Motta Oliveira (Bazar do Tempo, 2016), agora apresentada em Lisboa na Fundação Gulbenkian, assinala os cem anos de Dona Cleo e permite-nos usufruir de uma obra preciosa (livro-oferenda) de homenagem à notabilíssima Professora de Literatura Portuguesa.

 

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UM TÍTULO MAGNÍFICO

O título é dado por um poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado à parabenizada – “uma ensancha prazenteira / (a justiça é que me impele) / à genuína fazendeira…”. Aí se enaltece a importância de quem tem dedicado a sua vida à “constante maravilha do linguajar português”. São cerca de novecentas páginas suculentas, em que temos a colaboração de uma larga comunidade dos mais qualificados admiradores da mestra, cujo centenário celebramos, com muita alegria, em sua vida. E, além do mais, recordamos alguém a quem a língua e a literatura portuguesas muito devem e que tem sido injustamente esquecido. Falo de Fidelino de Figueiredo, que fundou uma verdadeira escola do estudo da literatura portuguesa em S. Paulo e que trouxe Cleonice Berardinelli para a ribalta. É, aliás, fundamental a carta de 1958 que endereçou à sua discípula (e ora publicada), com elementos curiosos para o conhecimento de Fernando Pessoa, ele mesmo. Dizia Fidelino: “Fomos condiscípulos no 1º ano da faculdade, que então se chamava Curso Superior de Letras. Acabava ele de chegar da África do Sul. Era alto, magro, narigudo, um pouco tartamudo e mantinha sempre uma expressão sorridente, que fazia lembrar o rir japonês, como defesa. Caminhava de esguelha, como afligido por escoliose espinal. Em breve desapareceu, talvez por não obter a revalidação dos estudos que trazia. Perdemo-nos de vista, apesar da simpatia que nos atraíra”. Depois, houve um encontro junto da igreja da Madalena, em que falaram animadamente, mas tendo Fidelino louvado um texto do poeta sobre o espírito provinciano – “não foi preciso mais para lhe sobrevir um acesso de timidez. Corou, enrugou mais o sorriso e partiu muito confuso. E nunca mais o vi – coisa bem explicável pelo meu exílio de 24 anos”. Nessa epístola, para além do testemunho, Figueiredo confirma as fundamentais qualidades de Cleonice, sua discípula dileta, dando-lhe conselhos avisados sobre a defesa e publicação da tese. Poesia e Poética de Fernando Pessoa (1959) é, de facto, um texto muito importante – “uma exemplificação perfeita dos métodos da estilística moderna e passará a constituir indispensável instrumento para a compreensão da obra do poeta, principalmente se for articulada ao movimento poético imediatamente anterior”. E se Fidelino de Figueiredo foi o mestre essencial da mestra, não podemos esquecer o afeto que esta dedica ao rigor de Pierre Hourcade (lamentando não ter podido falar com ele sobre Pessoa) e à fantasia, quase loucura, de Giuseppe Ungaretti.

 

SORRISO INCONFUNDÍVEL

No conjunto riquíssimo de textos de Genuína Fazendeira, Maria Alzira Seixo invoca o sorriso inconfundível: “o seu sorriso a desdobrar-se! – neste monumento centenário que nenhum abalo corrói – que dura e resiste. Cleonice”. Vasco Graça Moura não nos deixa por menos: “se a camões se consentisse / ter uma vida segunda / diria da mais profunda / gratidão a cleonice”. E Luís Filipe Castro Mendes recorda uma curiosidade avassaladora: “Nós passeámos por Praga, / por seus becos e travessas, / numa insaciável saga / de viagens e conversas…”. Pessoalmente, não esquecerei o momento em que encontrei Dona Cleo. Foi a 14 de outubro de 2011, graças ao nosso querido Eduardo Lourenço, com uma sessão riquíssima Fundação Gulbenkian em Paris, e um adorável jantar oferecido pelo casal Seixas da Costa, com a fidalguia conhecida… E ouvimos o ensaísta, admirador confesso da homenageada de agora, a exprimir o seu enlevo: “a paixão e o saber dessa cultura em comum (do elo que une as nossa únicas margens do atlântico cultural que há séculos une e separa o antigo cantar da galaica raiz e de imemorial futuro) eram – são – uma espécie de segunda natureza da filóloga herdeira do berço comum da latinidade que tem hoje no Brasil o seu espaço de memória mítica”. Como disse Anne-Marie Quint (a quem a literatura portuguesa tanto deve): “naquele dia, estivemos em presença de dois ilustres defensores das culturas lusófonas, abertos um e outra à cultura universal. O evento, além disso, reafirmava os vínculos poderosos e seculares que ligam a cultura portuguesa à cultura brasileira”…

 

UMA SIMBIOSE FECUNDA

Para Cleonice, não há conflito entre as literaturas portuguesa e brasileira. Têm em comum a mesma língua. “As pequenas diferenças que se verificam entre elas não fazem com que haja, nunca, uma dissensão. Portanto nem dissensão nem colisão” (entrevista ao JL, 10.8.87). Quando veio lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, a convite de Maria de Lourdes Belchior e de Maria Vitalina Leal de Matos, teve oportunidade de exprimir o maior contentamento. E lembrava as lições que recebera na sua Universidade, sob a batuta de Fidelino de Figueiredo – através das quais se apaixonou por Gil Vicente, Camões, Garrett, Herculano, e Eça de Queiroz e, por outro, bem forte, Machado de Assis. Depois virá, como dissemos o misterioso Pessoa e uma relação muito especial com o engenheiro Álvaro de Campos. E como esquecer Vieira, “figura complexa,… mistura de lucidez e de imaginação prodigiosamente criadora”? Se a referência a Mestre Gil ficou sempre muito em evidência, Dona Cleo não esquece as representações que fez dos Autos da Alma, de Mofina Mendes e da Lusitânia, com o seu querido Manuel Bandeira, na primeira fila, a aplaudir… E lembrando intuições lapidares da professora como não trazer à baila Cesário, entre Fradique e Mário de Sá-Carneiro ? Trata-se de uma espécie de ponte que anuncia o século XX, em que Fradique é muito mais do que uma criação ficcional, simboliza os seus criadores (Antero e Eça) e anuncia “Orpheu” e um novo tempo – ou não fora Caeiro leitor de Cesário... Mas a preocupação fundamental de Cleonice Bernardinelli mantém-se bem viva – é indispensável que as literaturas da língua portuguesa, a começar pelas dos nossos países irmãos sejam mais conhecidas e estudadas, no seu diálogo mais íntimo e fecundo. Infelizmente, continua a haver grande desconhecimento mútuo, e todos perdemos com isso. Como afirma a homenageada, para o caso brasileiro: a Literatura Portuguesa deve fazer parte das matérias básicas – não só “porque é a literatura mãe a primeira a exprimir-se em língua portuguesa, a que constitui o passado da Literatura Brasileira, a que preenche todo o espaço medieval anterior à nossa experiência, mas também porque é o elemento primordial de uma cultura viva, dentro da qual tomamos as nossas origens e que não pode ser excluída da nossa formação histórica”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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AS CERTEZAS DO JAPÃO NO FEMININO

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A história da literatura japonesa também se encontra dividida em vários períodos. O período Heian nome da capital da época, Heian-Kyo, atual Kyoto foi marcado especialmente pela poesia. No Japão – final do séc. VIII até ao final do séc. XII - a forma poética tanka brilhou pelas mãos de duas mulheres: Izumi Shibiku e Ono No Komachi, ambas pesos raros na fixação do japonês como língua poética.

 

Apesar de a escrita chinesa (kanbun) continuar a ser a língua oficial do período Heian, esta poesia originou o desenvolver da literatura japonesa.

 

O tanka (de 31 sílabas) que dá lugar ao haiku (de 17 sílabas e inicialmente masculino) constituem uma arte do olhar e do interpretar, e o haikai, igualmente forma poética,  busca pela subtileza uma unidade compacta entre impressão e realidade que na sua concisão tudo devem dizer.


Recordo que num livro quis prestar homenagem a esta conciliação e por entre outros Hai-Kai o arriscado


Quando tardas

Adio o essencial.

 

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Há quem afirme que esta escrita representada pelos tankas é inscrita por signos, tal a lenda na história de tão fortificada e contida arte.

 

De salientar que a consciência religiosa e erótica de Komachi e Shibiku permite-nos avaliar, o quanto estes tempos foram igualmente marcantes na liberdade e cultura das mulheres, sendo aceites sem reparos os seus múltiplos casos amorosos, bem como a sua independência monetária podendo usufruir de rendimentos próprios.

 

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A sensualidade proverbial desta poesia relata-nos conversas, atos ou omissões auspiciosas no papel da interpretação da vida e da própria política, avaliada pelo sentir gracioso destas mulheres de pincel da escrita, que assim registaram as emoções humanas face ao mundo.


Izumi Shikibu uma das mais importantes figuras da Literatura japonesa era uma rebelde social determinada a viver a vida sem receios, e, num misto de eros e de meditação budista escreveu:


Costumava dizer dos homens: «como é poético»,

Mas agora sei

Que o erguer da madrugada é apenas cansativo.

 

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E Ono No Komachi mulher astuta na intuição da impermanência do ser, escreve


Quando o meu desejo se torna intenso de mais,

Visto a roupa de dormir virada pelo avesso.


Aqui a poetisa segue o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que os desejos se cumpram.


E também eu vesti roupa do avesso tentando aproximar-me, e no meu livro


A outra ponta de mim tens tu. Mostra-me o futuro!


Enfim, não creio que exista uma versão portuguesa dos tankas, menos ainda uma tradução, talvez antes uma aproximação, mas de referir que em 2007 a Assírio e Alvim ajudou-nos no à deriva em relação a este género literário.

pois como dizer


Os vivos vão sendo menos (…) o luar derramado espreita


Então, talvez atentar a Jane Hirshfield que nomeia o sentir destes textos japoneses como único «leap of faith». 


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Em maio de 2012 publiquei este texto no blogue do CNC. Esta semana um amigo japonês releu-o com tal sentir que em sua homenagem o republico.

A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de abril de 2017

 

Frederico Lourenço, quando recebeu o Prémio Pessoa, lembrou uma conversa com Sophia de Mello Breyner sobre a sua opção pelos estudos clássicos. É da maior importância essa recordação e a proposta que lhe está subjacente, no sentido do reconhecimento da importância das Humanidades, num sentido amplo e integrador, para a compreensão das nossas raízes.

 

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AO ENCONTRO DAS RAÍZES

A poesia da autora de Geografia e de Dual foi profundamente inspiradora para o jovem Frederico Lourenço que então dava passos decisivos relativamente à sua vocação. Houve, naturalmente, outras influências, como as muito marcantes de seus pais, Manuela e M.S. Lourenço ou a de seu padrinho João Bénard da Costa – nessa geração extraordinária de “O Tempo e o Modo” – mas o caso de Sophia foi muito especial. Ela “inventou uma Grécia própria. Não é a Grécia dos guias turísticos, não é a Grécia dos compêndios de história, filosofia ou literatura. (…) É uma Grécia construída pelo olhar dela, uma geografia anímica que tem tanto de Grécia como de Portugal” (Valsas Nobres e Sentimentais). De facto, a atração clássica, veio até Sophia dessa confluência fantástica do Mediterrâneo e do Atlântico, donde houve existência Portugal e que Orlando Ribeiro estudou com génio e brilhantismo. E Frederico Lourenço recorda o búzio comprado na ilha de Cós, onde apenas se ouvia “o cântico da longa vasta praia / Atlântica e sagrada / Onde para sempre a minha alma foi criada”. É Sophia quem fala, naturalmente, e cada um de nós sente familiaridade nessa sensação. E poderíamos recordar ainda nos Contos Exemplares as referências homéricas a Manuel Bote, banheiro mítico da Granja… Mas voltemos ao discurso do premiado e à recordação do modo desconcertante como a autora de Livro Sexto rematou essa conversa iniciática: “Só espero que não se arrependa”… Nada havia mais a acrescentar, tudo de essencial estava, porém, na ligação poética ao mar e ao “país de montanhas e navios onde os golfinhos correm quase à tona de água, onde a alegria se multiplica de ilha a ilha e sobre o qual paira a grande felicidade dos deuses de Homero” (O Nu na Antiguidade Clássica). Tudo estava dito e não dito. O amor fundamental de Sophia tinha a ver com as raízes antigas, em que os portugueses, como novos Argonautas, não poderiam ser compreendidos sem a referência aos genes que nos chegaram de Homero e de Ulisses – nosso pai mitológico...

UMA PROPOSTA SÉRIA E NECESSÁRIA

Naquele fim de tarde, na Culturgest, ao ouvirmos o galardoado, fomos transportados até a essas fontes mais distantes, onde bebemos a cultura que nos formou. E percebemos como o gérmen da cultura clássica ficou bem presente na criatividade perene do mais recente tradutor da Bíblia. “Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora, como eu já frisei, sem andresenizar artificialmente o texto” (Valsas…). Com especial pertinência, F. Lourenço defendeu agora ser “preciso começar o estudo do grego e do latim no ensino secundário. Enquanto isso não voltar a acontecer, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos”. Esta ideia merece uma especial atenção. E não se pense que estamos perante uma sugestão avulsa de um cultor de determinado ramo de saber. Não. Do que se trata é de um apelo sério, que tem a ver com a preparação adequada dos estudantes na área essencial da língua e da cultura. O bom domínio da língua não é tema de gramáticos, é questão de cidadãos. Precisamos de saber comunicar bem, de modo a que nos entendam, a que nos entendamos uns aos outros e a que saibamos exprimir-nos com ideias claras e distintas. Não há verdadeiro diálogo se não soubermos falar e ouvir. Infelizmente, quando ouvimos tantos debates nos meios de comunicação, presenciamos monólogos maçadores e uma invariável incapacidade para exprimir pontos de vista próprios e para responder aos interlocutores.

 

A CULTURA COMO CRIAÇÃO

A sugestão de Frederico Lourenço é muito mais profunda, positiva e plena de consequências do que à primeira vista possa parecer. E não se julgue que tudo se poderia resolver com acrescentos curriculares. Bem sei que há sempre a tentação de colocar mais um adereço numa espécie de árvore de natal de temas. Não é disso que se trata. Impõe-se uma atitude inteligente que permita nos núcleos essenciais de aprendizagem saber integrar o conjunto e o contexto, a razão histórica, a diacronia e a sincronia, a etimologia, as regras e o método. Nesse sentido, o escritor tem toda a razão. Como poderemos entender e proteger a língua que falamos se não conhecemos de onde provém e qual a razão de ser das palavras que usamos. De facto, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos se não dermos atenção as nossas raízes culturais. E insisto num ponto de que tenho feito cavalo de batalha – uma cultura aberta, consciente da necessidade de preservar o património como realidade viva, precisa de assentar numa atitude que favoreça a atenção ao que tem valor humano, assegurando o cuidado relativamente ao que recebemos dos nossos ancestrais. Só haverá atenção e cuidado se estivermos despertos. E as humanidades têm a ver com as letras e as artes, mas também com a matemática, a cultura científica e a importância do método experimental. Não se trata de dizer que tudo tem lugar, mas de compreendermos que a complexidade do mundo contemporâneo obriga à complementaridade de conhecimentos e de perspetivas. Mais do que da especialização, vivemos a era da cooperação de saberes. Na última crónica falávamos de Damião de Goes e de José Mariano Gago. Não podemos esquecer que os gregos referiam a “paideia” e os romanos a “humanitas”. E temos de nos lembrar das artes liberais da Idade Média: o Trivium, abrangendo: lógica, gramática e retórica; e o Quadrivium, com aritmética, música, geometria e astronomia… Se lembro isto mesmo não é para desfazer fronteiras e enfraquecer as ditas ciência sociais, mas sim para evitar o fechamento e garantir o encontro, a inter e a transdisciplinaridade. Sobre Oxford, que Frederico Lourenço conheceu desde tenra idade, encontramos, como se fosse uma metáfora sobre o diálogo entre o conhecimento e a vida: “é indesmentível que Oxford parece propiciar esse constante esmaecimento de fronteiras entre o literário e o factual, sobretudo quando o olhar que perceciona a cidade é, já de si, atreito a substituir a realidade que tem à sua frente por imagens e projeções livrescas”. A valorização das humanidades é, no entanto, o favorecimento de um combate constante e sereno contra a mediocridade e a ignorância. Não se trata de fechar conhecimentos sobre si mesmos ou de ignorar que a educação para todos obriga, nas suas profundas diferenças, a compreendermos a subtileza das relações entre cultura e vida e que não podemos confundir pessoas e robôs. A presença dos clássicos ajuda certamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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TERESA DESQUEYROUX

FRANÇOIS MAURIAC, Prémio Nobel da Literatura em 1952. Teresa Desqueyroux, uma obra-prima da primeira metade do séc., um dos melhores romances que li.

  


Em 1906 François Mauriac foi para Paris, vindo de Bordéus, cidade onde nasceu. Publica então Les Mains jointes, uma poesia muitíssimo saudada. Em 1922 Le Baiser au Lépreux e Genitrix já o colocam entre os melhores romancistas de seu tempo. A Academia Francesa entrega-lhe o Grande prémio do Romance pelo seu magnífico livro Le Désert de L’ Amour, contudo com a obra-prima Teresa Desqueyroux (1927) leva-o à inesquecível morada dos grandes.

 

Trata-se de um romance em que uma mulher casada tenta envenenar o marido num ambiente de vida conjugal de total solidão ainda que vivida no seio da família. Se acaso consegue Teresa Desqueyroux escapar à justiça dos homens e alcançar a liberdade que tanto desejara e sonhara, será para cada leitor dentro do imaginar que idade teria Teresa ou, antes se não teria idade alguma e por essa razão

 

«Não é a cidade de pedra que eu adoro, nem as conferências, nem os museus, mas a floresta viva que nela se agita, atormentada por paixões mais furiosas do que nenhuma tempestade. O gemido dos pinheiros de Argelouse, de noite, só emocionava pelo que dir-se-ia ter de humano.»

 

Teresa tinha bebido um pouco e fumado de mais. Ria sozinha como uma bem-aventurada. Pintou a cara e os lábios com minúcia; depois dirigiu-se para a rua e caminhou ao acaso.

 

Teresa, muitos dirão que não existes.

 

(…) Quantas vezes através das grades vivas de uma família te vi caminhar de um lado para o outro, a passo de loba.

 

Pelo menos, nesta rua onde te abandono, tenho a esperança de que não estás só.

 

Nataniel Costa, tradutor desta obra que li em português, e de cuja chancela ESTUDIOS COR era sócio fundador conjuntamente com José Saramago, ofereceu-me este livro em 1980 com uma dedicatória da qual me orgulho.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs.: O romance foi adaptado para cinema, com título homónimo, em 1962, sendo o realizador Georges Franju.

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira