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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

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BRUCE SPRINGSTEEN

BRUCE SPRINGSTEEN: o artista também participou da música "we are the world” que tinha o objetivo de arrecadar fundos para o combate da fome na África,

 

Um dia, não sei quando,

Vamos chegar àquele lugar

Aonde queremos ir de verdade

E caminhamos ao sol.

Mas, até lá, vagabundos como nós

 

O pai de Bruce trabalhava como motorista e era de origem holandesa e irlandesa e a mãe tinha ascendência italiana. Nasce Bruce em 1949 e só muito mais tarde, desperto para o álbum The River, cujas letras das canções se focam na classe operária e conduzem a baladas de grande intensidade emocional. Fiquei atenta quando o disco Born in the USA lançado em 1984, foi um êxito extraordinário (são vendidos 15 milhões de discos) e referindo-se o título deste disco ao tratamento recebido pelos veteranos da guerra do Vietname nos E.U.A.. Alguns amigos e outros colegas da própria banda de Bruce foram veteranos dessa guerra violentíssima. Os nacionalismos de que então o acusam são fruto de entendimentos errados sobre esta contestação que Bruce achou imprescindível fazer e deste modo.

 

E acredito que existe uma terra prometida

(…) tenho feito tudo para viver como deve ser

(…) mas por vezes sinto-me tão fraco

(…) e quero encontrar alguém desejoso de ver algo a começar

 

E acrescenta no seu poema A Minha Cidade

Tinha oito anos e corria com uma moeda na mão

Sem esperar e vindo o tempo,

(…) um dia ela beijou-me como apenas um anjo solitário sabe fazer.

Assim o disse Bruce na sua canção Espirito da noite.

 

Julgo que Bruce Springsteen sempre soube que sonho e felicidade se não misturam e que só no segredo da vida se caminha para a felicidade no coração, ou não cantasse também We are the world,

Sabendo ele de outro modo que

my feet they finally took root in the earth

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Neste meu retiro campestre, lá vou guardando umas três horitas distribuídas pelo dia, para escuta meditada de música. Sempre encontrei, nessa entrega simultânea ao som de instrumentos e vozes humanas e ao meu silêncio interior, momentos de inefável consolação. Assim me harmonizo.

 

   Esta manhã, fui buscar à discoteca cá de casa o registo, pela Deutsche Grammophon, das duas cantatas imperiais de Beethoven, interpretadas, em 1992 (dois séculos depois da respetiva composição, em 1790) por solistas, coro e orquestra da Deutsche Oper Berlin, sob direção de Christian Thielemann. Ambas com letras de Severin Anton Averdonck, dedicadas, a primeira - Trauerkantate auf den Tod Kaiser Josephs des Zweiten - à morte do imperador José II; a segunda - Kantate auf die Erhebung Leopold des Zweiten zur Kaiserwürde - à entronização de Leopoldo II, não foram, todavia, executadas na altura, sendo a Josephs Kantate, contudo, a que primeiro se fez escutar, aquando da descoberta de ambas, em 1884.  Ouvindo-as, uma a seguir à outra, veio-me à memória a célebre aclamação: Morreu El-Rei, viva El-Rei! Na verdade, Ocorreu-me a tese de Ernst Kantorowicz sobre os dois corpos do rei (The King´s Two Bodies: A Study in Medieval Political Theology, Princeton University Press, 1957).  Judeu e nacionalista alemão, prudentemente fugido ao nazismo, autor de uma biografia de Frederico II, sagrado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (a ênfase é voluntariamente minha), o qual foi, no século XIII (viveu de 1194 a 1250), curiosamente, um soberano independente, talvez mais preocupado com o seu reino da Sicília e o domínio da Itália do que com a sua Alemanha dos Hohenstaufen; católico tradicional mas cético, coroado pelo papa, mas adversário de papas, quatro vezes excomungado, protetor da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, poliglota e culto... Penso que a teoria dos dois corpos do rei está bem lembrada, e a propósito, por Nicole Lemaître, professora emérita na universidade de Paris, que em entrevista à revista CODEX (1º trimestre de 2017) afirma: Penso na teoria dos dois corpos do rei, nascida na Idade Média. Tal ideia tem a sua fonte na teologia cristã da dupla natureza de Cristo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). De acordo com teólogos e canonistas, os reis, na época medieva, têm um corpo mortal e um corpo glorioso. O corpo mortal é o corpo terrestre, o corpo glorioso é político e imortal. Representa a comunidade constituída pelo Reino. O rei no seu corpo glorioso não pode morrer, donde o adágio: "Morreu o rei, viva o rei." eis o que me leva a pensar o rei como garante da paz civil. Esta teoria permite-nos pensar num Estado moderno distinto e eterno. Um Estado que não depende da arbitrariedade do soberano. Na génese do Estado moderno há, pois, uma ideia teológica. Eis o que nos dizem os medievalistas que estudaram a teoria dos dois corpos do rei, a partir dos rituais das sepulturas e das coroações...

 

   E será assim, Princesa, que a primeira cantata de que falamos primeira vai sobreviver na segunda. Ouvimos:

 

   Tot! Tot! Tot! Tot stöhnt es durch die öde Nacht. Morte! Morte! Morte! Morte, se ouve gemer na noite desolada...   ... José o Grande, José, o pai de feitos imortais, está morto, ai!, morto! ...   ... Aqui adormeceu em profunda paz aquele que tanto aguentou, que quando por cá andou nunca pôde colher uma rosa sem se ferir, o que trouxe a felicidade da humanidade no seu generoso coração, sofrendo, até ao fim dos seus dias...

 

   E escutamos, depois, a sua sequência na segunda:

 

   Er schlummert... schlummert! Adormeceu... adormeceu! Deixai o grande príncipe repousar em paz! Quando morreu, a morte proclamou a infelicidade dos povos e os filhos de Teutão gritaram para as estrelas: dor! Então Yahvé lançou um olhar compassivo e os terrores da noite desapareceram... Eis que o céu voltou a ser rosado e já as gargantas metálicas fazem trovejar a alegria e a glória, descidas do Olimpo. Glória! Trovejou o trovão, caiu o raio, já não se enraivecem as tempestades no mar, secaram as lágrimas das nações. Glória! Vem aí uma nuvem brilhante... Abre-se, e que vejo eu? É Leopoldo, eis o nosso imperador, príncipe e pai!

 

   Esse Averdonck dos versos era irmão de uma cantora, Joana-Helenea Averdonck, discípula de Beethoven, e padre "constitucional", muito próximo das ideias e instituições do Iluminismo praticado pelo imperador José II, admirado por Beethoven. Morreu antes de completar 25 anos, a autoria das letras de ambas as cantatas ter-lhe-á sido pedida pelo compositor que, aliás, recebera a encomenda da primeira pela Bonn Lese-und Erholungsgesellschaft para um serviço fúnebre a celebrar em Bona, cujo Eleitor era, precisamente, o irmão mais novo do imperador, Maximiliano Francisco. Ao que parece, na altura, Igreja e Maçonaria iam-se vendo... E a monarquia hereditária não estava necessariamente fora de moda.

 

   Fui à janela deste meu gabinete ver a serenidade dos campos, tão quietos no Inverno. Vejo homens que, além, podam as pereiras, cortando com sageza (ou prudência, se preferires, lembro-me sempre de que esta é um amor sagaz...). Mais perto, outros limpam os miosporos, que ladeiam o caminho por onde saio e entro, das folhas que a geada queimou. Peço a um deles que pode a cerejeira do Japão que há quatro anos plantei, mesmo aqui defronte. Talvez venha a dar, na Primavera próxima, as primeiras sakura. Quiçá?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

Renato Zero, um dos maiores e mais corajosos poetas da música de Itália

 

No início da noite, no Coliseu de Roma, entra em palco Renato Zero (nome artístico de Renato Fiacchini). Ergueu-se de imediato a taça da fonte que faz brincar a água parada da vida. Começou a magia, e eu deixei-me cair no seu caminho, ou não sentisse que o movimento da vida, faz o seu ninho na poesia e música de Renato Zero.

Não sei dizer como me chegou aos olhos por vidro nulo a figura de Renato. Nem sei como fiquei sem medo, um sem medo em segredo, mas que ele conhece existir em todos nós. Por isso mesmo Renato usa as suas mãos também para segurar a candeia do amor seguro que nos entrega.

A noite inicia-se pedindo em troca a sua voz. E logo que choro, ele pede à porta do meu coração para entrar. Cantamos todos. Canta o Coliseu inteiro. Ouvem-se ainda assim as asas das palavras contidas nas músicas que Renato soberbamente canta, ou não estivéssemos a ouvir um dos maiores e mais corajosos poetas da música de Itália.

(“Sei uno zero” è la frase che più si sentirà ripetere quando travestito e truccato cominciò ad esibirsi in piccoli locali romani)

 

«Doutor? Acha que agora estou bem?

Sim. Não lhe vejo nada. Está completamente bem.

Então estou zero?

Sim, efetivamente nada tem. O que fez? Mudou a medicação?

Não. Usei sempre a minha.

Qual?

Escrevi e cantei e fui eu: Zero.»

 

Ouvi, e vi o espanto do médico. Era como se ele visse a escuridão cheia de faíscas que eram  estrelas. Levantou-se à procura das receitas e saiu não sem que antes abraçasse o Renato. Num instante subi ao palco e disse ao ouvido de Zero que mantinha o microfone junto aos meus lábios:

«Sei que és como eu. Ainda não tivemos medo dos momentos».
E Ele num sussurro de Coliseu aberto: 
Il mio alibi è che vivo. Rivoluzione.

 

E como ainda sinto que a revolução é o melhor tempo do nosso futuro, aqui deixo para vós se me lerem, o escutar desta canção de Renato.

 

E depois esta canção que surge como se uma nova fonte de sabedoria se abrisse ali e nos prendesse à terra com sólida eficácia. Dancei imóvel, abracei Deus pelas flores e escutei-o como no dia em que Renato, ao lado de Pavarotti, levou este a dançar  sozinho no palco e juntava-se a Renato Zero apenas nos refrões, tendo dito no final desta canção «Lua, de que estás à espera».

 

Antes que a voz de Renato Zero se ouvisse de novo, desejei tanto ter muitos leitores no Blogue do CNC apenas para que eu não guardasse para mim este sábio espesso. Um homem propenso ao convívio pragmático de lábios incapazes de velocidades levianas, mas que deve ser espiado sem binóculos de teatro já que a sua intimidade o não entaipa.

 

Nasce Renato em 1950. Atravessa períodos muito dolorosos.

Le sue canzoni racconteranno se stesso come uomo e come artista, l’amore e il sesso in tutte le sue declinazioni e precorreranno i tempi affrontando temi come la pedofilia, l’identità di genere, la droga, l’incomunicabilità, l’omosessualità, l’emarginazione, la violenza e la spiritualità.

Renato é um dos poucos que no mundo tem a coragem das ideias. É o primeiro artista italiano a produzir-se e distribuir-se. Quase desconhecido em Portugal, devo desde já dizer que, inventarei sempre aplausos para ele sob e sobre quaiquer olhares distantes de multidões restantes que receando riscos de fatais ausências de comportamento ditos elitistas o não acolham.

Renato Zero foi sempre citado por David Bowie, Beyoncé, Cohen, entre muitos outros. Tem tido estrondosos sucessos no Victoria & Albert em Londres. Irónico transgressivo, amado e odiado, grande dançarino e ator em vários filmes de Felini e Pasolini, não tem qualquer reverência pela dita cultura considerada alta. No entanto, intelectuais de todo o mundo dizem-no ser uma verdadeira pulsação do enigma. 

 

 

Acaba o concerto e sai no seu passo de amor a cantar esta outra história da humanidade e dos seus sentires.

 

Enorme a minha dívida pelo que és! O amor continua a ser um segredo mesmo quando se fala dele. Tal qual a liberdade. Tal qual a inquietudo mesmo quando nos distraimos. Impiedoso foi o tempo enquanto te não ouvi e vi ao vivo.

 

Teresa Bracinha Vieira
Outubro 2016

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 Elizabeth Schwarzkopf em Capriccio [R. Strauss]

 

     Minha Princesa de mim: 

 

          Não poderia amar outra que não vós.

          Não, Senhora, não o poderia fazer.

          Outra meu peito não poderia encher,

          mesmo que Vénus descesse até nós.

 

          Graciosos, doces, vossos olhos são.

          Num só relance podem desfazer-me

          e logo apenas noutro refazer-me:

          em dois golpes, morte e vida me dão.

 

          Inda que cinco mil anos vivesse,

          nenhuma outra faria que eu pudesse,

          como de vós, enamorado ser.
 

          Pois teria de renovar-me as veias,

          que estas estão de vosso amor bem cheias: 

          mais outro nenhum pode lá caber.
 

   Traduzo, Princesa, de Ronsard (1524-1585), este soneto, publicado em 1552, no seu Amours. Dizem que o poeta francês o terá dedicado a uma dama florentina, famosa pela beleza e pela castidade: Je ne sçaurois aimer autre que vous. / Non, Dame, je ne sçaurois le faire... Conta Richard Osborne, nas suas notas à edição, pela EMI, em 1959, do registo da Capriccio - de Richard Strauss, dirigida por Wolfgang Sawallisch, com  a Philarmonia Orchestra e um leque notável de vozes, entre outras, as da Schwarzkopf, do Fischer-Dieskau e do Gedda - conta, então, Osborne que o mesmo soneto, peça importante do libreto escrito para aquela ópera (a 15ª e última de Richard Strauss) por Clemens Krauss e o próprio compositor, foi, a pedido daquele, traduzido para alemão por Hans Swarowsky, para servir de soneto composto pelo poeta Olivier, personagem de Capriccio, que, naquela peça de conversação para música (chamou-lhe o compositor Ein Konversationsstück  für Musik in Einem Akt) , o dedica à protagonista, a Condessa Madeleine.  A letra de Ronsard-Olivier e o tema de Strauss-Flamand (Flamand sendo o nome dado ao músico que, na ópera emparceira com o poeta Olivier), serão, quase ao cair do pano, retomados pela Condessa e essa melodia a acompanhará, mesmo no termo, quando o mordomo lhe diz apenas que está servida a ceia. Antes do anúncio, porém, esse criado interrogará com o olhar o espelho em que a Condessa se despedira da própria imagem, sem entender, ou por não ter ouvido, o que ela ao seu reflexo dissera, e te vou traduzir. Começava assim: Ihre Liebe sglägt mir entgegen zart gewogen auf Versen und Klängen... Os seus amores em mim se enlaçam, em doce tecer de versos e sons. Deverei rasgar tecido tão frágil? Não estarei eu mesma nele já tecida? A quem dar a palma? A Flamand, alma grande com tão lindos olhos? Ou a Olivier, poderoso espírito de apaixonado homem? E agora, minha Madalena, que te diz o coração? És amada mas não te podes dar, agradava-te seres fraca - quiseste brincar com o amor, e acabaste a arder, não sabes como safar-te! Se escolheres um, perdes o outro... Pois não se perde sempre que se ganha?  Há ironia no teu olhar, mas quero que me respondas, não gosto desse olhar trocista. Calas-te? Madalena, Madalena, queres queimar-te em duas chamas? E tu, ó espelho de Madalena enamorada, poderás tu aconselhar-me, ajudar-me a encontrar o epílogo da ópera dos meus dois amores? Será possível um fim que não seja banal?

 

    A indecisa luta de Madalena entre dois amores, dois homens, dois encantos (a poesia e a música) não terminará, é afinal dilema antigo, esse mesmo que Stefan Zweig, amigo de Richard Strauss, descobrira noutro libreto, de Giovanni Battista Casti Prima la musica, poi le parole, e que foi a primeira inspiração para esta ópera. Para Richard Strauss, a sua Capriccio é acima de tudo um diálogo do espírito sobre a natureza dual do teatro cantado. Todavia, parece que amor há só um, já que o soneto de Ronsard, cujo autor literário, na ópera, é o poeta Olivier, é integralmente recitado duas vezes (pelo irmão da Condessa, primeiro; pelo seu próprio autor, depois, com compreensível ênfase). E duas vezes cantado também, com melodia composta por Flamand: por este mesmo, primeiro; e pela Condessa, depois, antes de interrogar ao espelho, como acima leste, sobre o epílogo da lide dos seus dois amores. O mesmo soneto posto na mesma melodia, nessa música que acompanhará a Condessa, ao cair do pano, quando ela se encaminha para a sala onde está servida a ceia que tomará sozinha...  

 

   Tenho para mim que Strauss também procura ilustrar a capacidade da música ser tão discreta como poderosamente expressiva: antes da união fatal da melodia de Flamand à poesia do soneto de Olivier, já logo na abertura da ópera todos escutam em silêncio um sexteto para cordas, que o compositor dedicara à Condessa, e que revela esse poder que a música tem de ser, quer íntima, quer eloquente. Olivier e Flamand, no decurso da execução dessa peça inicial, contemplavam ambos Madeleine, e são as primeiras vozes que se ouvem, terminada aquela, em diálogo:


   Flamand - Encantadora, hoje e sempre!
   Olivier - Também tu?  
   F - Cerrou os olhos, está muito emocionada... 
   O. - O seu olhar ilumina-se, ao escutar os meus versos, brilha mais... 
   F.- Tu também?  
   O. - Sim, sim! 
   F.- Assim, cá estamos nós... 
   O. - Enamorados inimigos... 
   F. - Rivais camaradas... 
   O. - Versos ou sons? 
   F.- Cabe-lhe, a ela, decidir. 
   O.- Prima le parole, dopo la musica!  
   F.- Prima la musica, dopo le parole!

 

   Esta amigável altercação não é musicada. Mas o sexteto inicial já dissera o que a música, sem palavras, sabe dizer...

 

   E no coração de Madeleine, em interrogação ao espelho, nasce a resposta, o acordo final, pois que onde há amor(es) o desamor não cabe: Vergebliches, Müh´n, die beiden zu trennen... Inútil esforço é tentar separá-los: palavras e tons, num só jacto, geram novas belezas. Mistério dessa hora, cada arte se redime pela outra! Ocorre-me a lembrança das capelas imperfeitas da Batalha. Talvez nos comova mais o esforço dos arcos incompletos, do que a imaginável perfeição. Mas só pela imperfeição podemos amar a perfeição, e se completam as artes. O amor é a necessidade apetecível de completar, de unir. Muitas vezes repito essa frase lapidar de Georges Bataille: L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort. Não penso então em Eros como filho de Afrodite, mas antes no mito órfico da criação do mundo. Cito a Professora Marília Futre Pinheiro: E assim, de forma misteriosa, desse tenebroso espaço de vazio infinito, desse Ovo cósmico, primordial, gerado no ventre imenso e oco da Noite, nasceu o mais belo de todos os deuses: o bissexuado Eros, o deus do Amor, de asas douradas, a quem alguns chamam Fanes ("aquele que revela" ou "aquele que brilha"), porque deu a conhecer (tornou claro, brilhante como a luz) e trouxe à luz do dia aquilo que até ali estivera escondido nas entranhas da escuridão: as primeiras gerações divinas e o universo no seu todo. Eros representa, assim, não apenas o princípio criador que assegura a continuidade das espécies, mas ainda o espírito unificador do cosmo. E, pela sua capacidade de nos dizerem o indizível, de nos darem, em seus frutos, o sabor do mistério, as artes nos recriam e unificam o mundo. Capelas imperfeitas, abrem-nos à desejável aventura...
 

     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

Cohen: Dance Me to the End of Love

 

Incontornável cantor e poeta judaico-canadiano Leonard Cohen, a felicidade, o objectivo de vida, o amor, a velhice e a morte.
 

Um perpétuo regresso ao reunir ambas as partes da alma, digo.
 

Sempre que pude estive nos seus concertos por uma e outra razão também ligadas à beleza e ao consolo, termos que quase nunca utiliza e deles fala continuamente.
 

Troca-se o desejo pela paz sabendo que Ain’t No Cure for Love, e se saiba só pelo olhar que I’m Your Man seja so close to everything we’ve lost que ninguém pode sair ileso afinal depois de aceitar a proposta: Take This Waltz.


Aceitei-a sim, para a dançar na orla da floresta onde, só a minha ave me aguardava.


E diz Leonard Cohen: « Embora as pessoas mudem, o cabelo fica grisalho e caia, o seu corpo se degrade e morra, acho, ainda assim, que há algo que permanece imutável:o amor intacto, esse é o incurável.»

 

A unidade total é impossível se ambos os parceiros não partilharem a mesma atitude espiritual, afirma também Cohen com tranquilidade e melancolia.

 

Em 2011 é-lhe atribuído o prémio Principe das Astúrias das Letras. Um príncipe que à sua princesa disse:

sei que estás cansada da tua beleza e esta noite não quero que carregues esse injusto peso. Como podes carregar tanto, até mesmo o que os nossos olhos não merecem?, e do que tu sabes eu não sei. E o carrego é teu?, minha paixão, meu vocabulário religioso. Por favor pousa a tua mão no meu papel. Descansa.

 

Leonard, um segredo exposto de Agosto, uma base de trabalho ideal. Um homem de evoluções inquietas a uma poderosa força interior pois sempre soube que
 

First we take Manhattan


e o desmaio em 2009 de Leonard Cohen durante um show na Hungria, foi orlado por uma estrela a anos-luz de distância, também conhecida por visita-retribuição.
 

 

TERESA VIEIRA
Agosto 2013

 

 

A MÚSICA ENTRE MUITAS ROTAS

S. Francisco Xavier – A Rota do Oriente

Num texto introdutório a "S. Francisco Xavier - A Rota do Oriente", produzido por Jordi Savall, escreveu Rui Vieira Néry: "Como reagiram todas essas diferentes culturas ao impacto da música ocidental, e como reagiram os músicos peninsulares aos sons desconhecidos das tradições locais? As vihuelas e as guitarras que iam a bordo estabeleceram contacto com outros instrumentos de corda dedilhada como o sarod indiano ou a biwa japonesa. Os tambores europeus encontraram-se com a ampla gama de virtuosísticas percussões africanas e a sofisticada tradição da tabla indiana. A flauta e a flauta doce, que podem ter acompanhado facilmente os marinheiros peninsulares, descobriram a atmosfera poética do shakuhachi japonês." Que resultou daqui?” - continua Néry: "Eis o desafio deste disco: seguir os passos de Francisco Xavier e visitar os diversos mundos musicais que ele atravessou: canto e polifonia sacra, canções e danças populares da Península, o reportório profano cosmopolita dos principais centros urbanos europeus, os sons da música africana, indiana, japonesa e chinesa, assim como o entrelaçamento musical de tudo isso, na base de um diálogo entre músicos de diferentes tradições culturais."

No seu "Tratado em que se contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e esta província do Japão", o jesuíta Padre Luís Froes (sec.XVI) considera que a música japonesa "é a mais horrenda que se pode dar", mas também reconhece que "todos os nossos instrumentos lhes são insuaves e desgostosos"... Já o dominicano Frei Gaspar da Cruz, no seu "Tratado das cousas da China" que, publicado em Évora em 1570, é a primeira monografia sobre a China a ser impressa na Europa, escreve: "Os instrumentos que usam para tanger são umas violas como as nossas, ainda que não tão bem feitas, com as suas caravelhas para as temperarem, e há umas de feição de guitarras que são mais pequenas, e outras à feição de viola de arco que são menores. Usam também de doçairias e de rabecas, e de uma maneira de charamelas que quase arremedam as de nosso uso. Usam de uma maneira de cravos que têm muitas cordas de fio de latão; tangem-nos com as unhas que para isso criam; soam muito e fazem mui boa harmonia. Tangem muitas vezes muitos instrumentos juntos concertados em quatro vozes que fazem muito boa consonância." Um século depois da publicação do "Tratado" de Frei Gaspar, um jesuíta português, o Padre Tomás Pereira, era pessoa notável em Pequim, e muito estimado pelo imperador Kangxi. Um jesuíta belga, o Pe. Verbiest, escrevia em 1680: "Construímos um carrilhão numa torre da igreja e noutra colocámos um órgão fabricado com tubos de estanho conforme as regras da música. Todos querem visitá-lo e creio que, no Oriente inteiro, não há um de tamanha grandeza. Estas duas obras de arte, devidas à habilidade e engenho do Pe. Pereira, músico muito habilidoso, são de uma perfeição acabada"... E em 1735, o Pe. Du Halde escrevia: "A facilidade com que, por meio das notas, retemos uma ária logo à primeira audição, surpreendeu o falecido imperador Kangxi. No ano de 1679, mandou que viessem ao seu palácio os Padres Grimaldi e Pereira, para tocarem um órgão e um cravo que outrora lhe tinham oferecido. Saboreou as nossas árias da Europa e pareceu ter gosto nisso. Em seguida mandou que os seus músicos tocassem uma ária da China num dos seus instrumentos, e ele mesmo o tocou com muita graça. O Padre Pereira tomou nota da ária inteira enquanto os músicos a cantavam. Quando terminaram, o Padre repetiu-a sem falhar um tom, e como se há muito já conhecesse. O Imperador ficou muito surpreendido, custou-lhe a crer. Teceu grandes louvores à precisão, à beleza e à facilidade da música da Europa. Admirou sobretudo como o Padre em tão curto tempo aprendera uma ária que tanto lhe havia custado a ele e aos seus músicos..."


Ocorrem-me duas reflexões: A primeira sobre o modo como, em tempos passados, de guerra conquista, ganância e exploração, sempre surgiram os que procuraram transmitir a ciência que tinham e também conhecer a dos outros. Houve, para além do proselitismo religioso, o desejo de dialogar: teriam esses missionários dos séculos XVI e XVII menos razões para crer, apesar da fé inabalável nas verdades da sua própria religião, na superioridade da sua cultura? Não seria, afinal, a vocação de comunicar mais forte do que a aparente necessidade de impor modelos? E, perante as sevícias impostas pelos senhores da guerra e do dinheiro a gentes estranhas, quantos missionários protestaram em defesa do valor divino do humano... A segunda sobre o valor universal e redentor da música: o "Quarteto para o fim do tempo", que Messiaen compôs em 1940 num campo de prisioneiros de guerra, onde foi estreado em instrumentos de fortuna, e que é ainda hoje tocado por violino, clarinete, violoncelo e piano, é um exemplo superior da arte do compositor francês; ou o concerto para a mão esquerda, que Ravel escreveu para o pianista austríaco Wittgenstein que, amputado da mão direita, o tocou em Viena em 1931; ou Lorin Maazel a dirigir a New York Philarmonic na Coreia do Norte; ou o concerto dado em Ramalah pela orquestra Divan, composta por palestinianos e israelitas, dirigida por Daniel Barenboim... Em 1975, José António Abreu, um luso-descendente, jesuíta, famoso professor de música e economia, ensaiou com jovens de bairros da lata da Venezuela, o primeiro concerto de uma nova orquestra, numa garagem abandonada de Caracas. Hoje, 370 mil crianças pobres da Venezuela já aprendem, tocam e ensinam música... Entre elas, já nasceram "estrelas" como a Orquestra Simon Bolivar e o seu maestro Gustavo Dudamel, que atuam nas mais afamadas salas do mundo!


A fechar este passeio por memórias, lembro a minha emoção quando, há 20 anos(?), vivi o silêncio de inúmeros japoneses que, no Suntory Hall, em Tóquio, escutavam Maria João Pires tocar Mozart, ou sinto ainda Carlos Paredes em Nova Iorque e Osaka, Fernando Alvim com Mário Pacheco ou Zina Torre do Valle em Tokyo e Seul. E nunca esquecerei o Coro Gregoriano de Lisboa, com a saudosa maestrina Maria Helena Pires de Matos, em Kobe, no bairro mais devastado pelo terramoto de 1995, e também num cântico pela paz, com monges da ordem Shingon, no mosteiro budista de Tere Dera... Tal como sempre guardarei no coração esse ceguinho desconhecido que tangia uma guitarra, na rua do Salitre, debaixo das janelas das salas de aula do Colégio de Clenardo». 


Camilo Martins de Oliveira

WHITNEY HOUSTON

 

Uma gota de céu numa das vozes mais belas do mundo.

O fruto da música pop está de luto.

A humidade dos sonhos cantada por Witney na célebre canção I Will Always Love you constitui um legado inesquecível até ao futuro dos dias.

Não é demais agradecer.


 

M. Teresa Bracinha Vieira

12.02.12

Secc.XXI

Jornalismo Ponto Net entrevista Manel Cruz

Depois dos Ornatos Violeta, Manel Cruz está de volta, agora com o projecto Foge, Foge Bandido.


"A partir do momento em que não sabemos para onde vamos, tudo muda"

Ponto prévio. O homem que em tempos liderou os Ornatos Violeta desapareceu. Ou melhor, confessa-se "outro". Envelheceu (ainda que só tenha 34 anos), assumiu os erros e ganhou respeito à morte que gosta de ilustrar nas caveiras que povoam o universo onde se procura. Como testamento, não vá o diabo tecê-las, decidiu reunir a famlía, amigos e músicos em torno do seu mais recente projecto, "Foge, Foge, Bandido". Mas nem tudo mudou. Manel Cruz continua a querer ser apenas e só... "fixe".

Leia tudo aqui

Lisa Ekdahl

14 de Novembro, 21h00

Grande Auditório -
CCB 

 

A sueca Lisa Ekdahl é um dos nomes maiores da nova geração de cantoras que se movem com igual à-vontade nas áreas do pop e do jazz. A sua voz de menina, frágil e à flor da pele, não deixa ninguém indiferente. Dia 14 de Novembro, às 21h00, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém.
 

Com apenas 23 anos, Lisa Ehdahl, compositora e letrista das suas próprias canções, lançou o álbum de estreia que a catapultou para a fama no seu país natal, atingindo a quádrupla platina ao fim de alguns meses. Em 1998, o álbum Back to Earth, o segundo gravado em inglês e, agora com o trio de Peter Nordahl, consagrou-a como uma das mais fascinantes vozes femininas contemporâneas. Bom exemplo disso é o facto da coreógrafa alemã Pina Bausch ter escolhido algumas das suas canções, ao lado de Nina Simone, Caetano Veloso ou Prince, para integrar o alinhamento dos espectáculos que vimos recentemente em Lisboa. Sendo frequentemente comparada a cantoras como Norah Jones, Diana Krall, Stacey Kent ou Jane Monheit, Lisa Ekdahl possui um tom profundamente carregado de emoção e conquistou já por três vezes os prestigiados Grammy Awards.


Mais informação aqui

O novo álbum dos The Chemical Brothers

 

 

 

Edição a 1 de Setembro
BEST OF “BROTHERHOOD”

É já no dia 1 de Setembro, que os britânicos Chemical Brothers vão editar um Best Of : “Brotherhood”. Um dos maiores nomes da música de dança mundial, apresenta este novo trabalho em CD Duplo, que inclui 2 temas novos: o single “Midnight Madness” editado digitalmente a 4 de Agosto, e o tema "Keep My Composure”.

O segundo disco é composto por 10 temas que a banda produziu sob o nome Electronic Battle Weapons com o intuito de serem testados por DJs.


Alinhamento:

01. Galvanize
02. Hey Boy Hey Girl
03. Block Rockin' Beats
04. Do It Again
05. Believe
06. Star Guitar
07. Let Forever Be
08. Leave Home
09. Keep My Composure
10. Saturate
11. Out Of Control
12. Midnight Madness
13. The Golden Path
14. Setting Sun
15. Chemical Beats

A versão especial inclui um CD Bónus com misturas:
01-10. Electronic Battle Weapons 1 – 10


www.thechemicalbrothers.com
www.myspace.com/thechemicalbrothers