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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Aqui tens o prometido texto, tirado de Um Beijo Dado Mais Tarde que, escreve João Barrento, arrasta consigo o estigma de um diferimento afetivo, de um atraso no tempo, de uma tensão dilemática com a memória. Ou, poderíamos também dizer já, pensando neste não romance de Maria Gabriela Llansol, um desfasamento entre a língua que nos é dada e a voz própria que um dia assumimos -  ou não. Por mim, encontro nele, também, quiçá sobretudo, a saída de um espaço-tempo real, mensurável, que eu próprio muitas vezes experimento, como já te disse, Princesa, ainda que sem o devaneio onírico de Maria Gabriela. Dou-lhe, a ela, a palavra:

 

   Bach canta pela voz de Anna Magdalena, é aquele que ocupa o centro do toucador, junto do espelho.

 

   Será uma profanação fazer diligência por encontrar a arte nos restos humanos? Será errado encontrar-me com o sagrado neste quarto, a olhar a forma sentimental destas figuras acompanhantes, e destes móveis? O que é meu não é meu, estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério. Assafora jacente é o fim de que nasce um ser, e faço-lhe uma festa tímida na testa, ou à silhueta de navio do seu ir-se embora; que toda a obscuridade seja móvel, e deslize para fora do quarto, mesmo a minha, pois não sei exprimir a ideia que me provoca aquele ser finito, com substância infinita. Será realmente infinita, ou engano-me nas palavras, manchando o canto com que entrei?

 

   A música já não é minha, percorre o corredor do espaço até à sala de jantar onde, numa certa cena, construí a minha infância. Que grande terror terem-me mandado até aqui, já não como filha da casa, mas como neblina muito densa de onde se espera a luz; ao fixar uma salva, tenho um sonho de prata desenhado a lápis no meu pulso; dos lagos, no seio das águas do mar   com um golpe de navalha; a partir do que nele leio, reconstituo a minha visão, que gostaria que fosse ouvida pela minha tia doente: estou na grande sala onde habitualmente vivo, e somos, no máximo, três; de modo natural, é noite lá fora, onde há um jardim com árvores soltas, cantadas por alguém que conhece o espaço; fitas douradas, lianas capazes de doçura, pendem dos ramos fixando nossos olhos; a noite ressai até dentro de nós e reparo na cómoda onde essas mulheres guardam os nomes que dão às coisas da sua conveniência; na primeira gaveta entreaberta, chove. Vou busca-la, e vejo que algumas palavras estão negras, enquanto que outras são azuis e douradas. - Também há tristeza no paraíso - diz-me Bach, que se liga a outra mão para a segurar. 

 

   Respiro. Fazem permutar as palavras. Inebriada por esse álcool, encontro-me na rua, também eu munida de desejo e de poder. Vou a uma loja que tem a porta quase coberta por um monte de palavras. Alguém, deitado no chão, procura penetrar o monte e eu baixo-me para impedir que as palavras se espalhem na rua; surge então, em lugar inferior às sílabas / letras e acentos, um ninho de gatos brancos que reconheci serem aves do paraíso. - Também há alegria sobre a terra - diz-me Bach.

 

   Gosto muito desta escrita. Não lhe faço comentários "técnicos", pois para tanto me faltam conhecimentos, competência e jeito. Creio que este texto não foi redigido no exílio belga da autora, mas já depois, talvez em Colares ou Sintra. Não sei. Mas tenho-o, para mim, que ele traz a marca indelével de um exílio interior, é mesmo sinal de uma vocação de exílio. Recordo um passo de carta que Maria Gabriela escreveu em 1980, em Herbais, Bélgica, lembrando a partida: Em dezembro de 1965 abandono Portugal. À falta de alguém ou de um animal para acompanhar-me na viagem aérea, levo nas mãos os "Salmos" de David; está presente a ideia do Êxodo. O Êxodo é uma aventura interior, não necessariamente uma viagem no espaço. Vivi mais de metade da minha vida fora do meu país, e trinta desses muitos anos de exílio passei-os entre gente que não falava a minha língua. Tudo isso aconteceu por opção minha, sem outras pressões além de uma vocação de desprendimento. Maria Gabriela Llansol emigrou para estar com seu marido, refratário à guerra de África. Mas assumiu o exílio como decisão sua, precisou de interiorizar uma presença fiel na ausência, a essência da saudade. Aí me encontro profundamente com ela, que nunca conheci. Não só pela vivência de um rasgão, mas pelo modo como se compensa: amor à língua materna, carinhosamente tratada e educada, e ainda a perceção de que, como Gabriela tão bem diz, para mim, o exílio faz parte da escrita, e não quero perdê-los; dá-me o afastamento de pressões, a distância para poder ver sem entraves e imaginar...   ... O exílio. A língua portuguesa já não a ouço quotidianamente à minha volta; nem a falo; os livros dos escritores portugueses são-me enviados e eu principio a criar as representações da língua ausente... E sobre o extremo ocidental do Brabante, onde se refugiou, escreve: Reconheço que sempre vivi nesse país sem tentar mergulhar nele, e torna-lo meu; mas como poderia ser diferente, se eu própria me afastava daquele em que tinha nascido e, pouco a pouco, não possuía do passado senão uma língua de que nada, nem ninguém, conseguiriam separar-me.

 

   E será acerca do seu primeiro livro, inteiramente escrito na Bélgica, que ela confessará, no esboço de uma carta dirigida à Moraes Editora, em 1977, publicado, mais tarde, no Livro de Horas II - Um Arco Singular (Lisboa, Assírio e Alvim, 2010) que momento tão importante como o da aprendizagem da escrita foi o da escolha do exílio. Exílio corporal, não presença, mas também a lenta aquisição do espírito da distância, onde "O Livro das Comunidades" nasceu e se vai apagando a cartilha das referências, hierarquias que estratificam a posse e o uso do poder, e a categorização espontânea do tempo; os livros que se seguem (como dizer?) continuam a luta contra a minha cultura. Sempre penseissenti o amor como fator de transformação, posto que não pode, não deve quedar-se; antes vive precisamente por ser atuante. No entendimento dos casais, como na educação dos filhos ou discípulos, o labor amoroso também sabe remar contra a maré. Assim nós, portugueses, devemos amar a língua portuguesa, a nossa Pátria, diria Pessoa, cultivando-a. E qualquer cultura implica uma forma de amorosa violência... A ousadia é o princípio do amor, a transformação renovadora o seu pão de cada dia. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Escrevi-te evocando Maria Gabriela Llansol, escreves-me a perguntar se ela é portuguesa, e quem é, e que fazia na vida... Imagina que pouco dela sei, quando me calhou lê-la aconteceu-me o que noutra carta te contei, deixei-me levar pelo encanto natural de uma escrita que me envolveu... Mais não sei explicar, só posso dizer-te que, para mim, Maria Gabriela Llansol é essa escrita, essa é que é a Maria Gabriela que conheço. À parte isso, li ou ouvi algures que era licenciada em direito - pela Clássica de Lisboa - mas nunca trabalhou como jurista; que se exilou na Bélgica, por razões que presumo terem sido de índole político-sentimental, situação em que também encontrei, nos meus anos de Bruxelas, antes e depois do 25 de Abril, várias outras pessoas e casais; que, como se depreende de várias das suas confidências escritas, ensinou português, tratou de hortas e jardins, cozinhava, bordava e cosia, também fazia pão - tudo isso com amor místico e tarefeiro, com a inocência natural de quem nasce todos os dias. Passou por altos e baixos, teve em Augusto Joaquim o amor de marido e cúmplice consentâneo...

   Decidi, esta manhã - enquanto olhava para os campos cobertos de geada, sobre os quais se ia erguendo um sol que, ao derrete-la, levantava fios de névoa ténue, espalhando véus de noiva pelas terras - decidi então recorrer a João Barrento para te descobrir melhor a Gabriela adormecida sob a geada da minha ignorância. Na verdade, é ele o responsável pelo espólio literário da escritora, é também o organizador das Jornadas Llansolianas de Sintra. A sétima realizou-se a 24 e 25 de outubro de 2015, sobre o tema Llansol: a vocação do exílio. As intervenções dos participantes foram editadas em livro pela Mariposa Azul em 2016, aonde irei respigar sentimentos e informações. Antes, porém, recorro a outra obra do mesmo João Barrento, que a Bertrand editou em setembro deste ano, com o título de A Chama e as Cinzas - Um quarto de século de literatura portuguesa (1974-2000), em especial ao capítulo III -  A nova desordem narrativa: escrita feminina -  que começa assim: No Feminino? Numa das suas primeiras obras, Maria Gabriela Llansol coloca a questão que neste capítulo se irá tratar, a da relação entre a escrita e o sexo (e entre escrita e «género»/gender) nos seguintes termos: «Plantin me disse que, embora eu fosse mulher, podia escrever numa sala próxima das oficinas, pois para ele, mais vale o livro que o sexo e que o livro torna o sexo invisível». (Maria Gabriela Llansol, em Na Casa de julho e agosto, Relógio de Água, Lisboa, 2003). Como já te disse em carta anterior, sinto na escrita de Maria Gabriela o seu vivo sentimento da condição feminina, mas será sobretudo uma impressão difícil de identificar, até porque, sentindo-a, todavia não me reconheço nela. João Barrento, no texto de que te falo, refere-se a Isabel Allegro de Magalhães - que conheço e estimo - e ao seu O Sexo dos Textos (Editorial Caminho, 1995), reproduzindo assim as conclusões desta professora: 1. De uma maneira geral, verificamos no nosso país a não existência de uma "escrita feminista". 2. Ao falar de valores femininos e de aspetos próprios da criação literária das mulheres, não o faço na perspetiva de identificar uma "especificidade" restrita ao grupo das mulheres [...] É claro que estas não possuem em exclusivo esses elementos: muitos homens comungam deles também. 3. Isto quererá dizer que não é possível separar águas com clareza; que não existem dois polos distintos definidos pelo sexo de quem escreve. Poderemos é eventualmente falar de um "sexo dos textos", ou seja, falar de tendências predominantes da escrita. Quanto a mim, o que quis dizer tem precisamente a ver com essa afirmação de Isabel Allegro: não é possível separar águas com clareza...

   Perdoar-me-ás citações algo longas, mas quero sair da minha subjetividade e deixar que outros mais desprendidamente explanem questões atinentes ao fenómeno literário da Maria Gabriela Llansol (imagina que quando falei dela, um amigo meu me perguntou se ela não seria invenção minha...) Retomo trechos de A Chama e as Cinzas, de João Barrento: A sugestão de uma aproximação à questão da escrita no feminino por via mais literária do que culturalista deixa, no entanto, ainda no ar a pergunta: é isso possível quando se escreve em e para "contextos culturais" bem definidos (por exemplo: Portugal antes e depois da revolução de 1974; ou um tempo de consciência histórica agudíssima, como foi a época pós-revolucionária e um momento pós-histórico como o atual), numa "língua" determinada e adentro duma "tradição"? A leitura de uma autora como Maria Gabriela Llansol veio dizer-me, em reposta a essa tripla pergunta: precisamente porque se escreve em contextos culturais, numa língua e numa tradição específicos, é que a escrita tem sempre de se afirmar "contra" uma cultura, uma língua e uma tradição. No seu próprio caso, contra um contexto cultural em que o que domina é um fantasma chamado "literatura", qualquer coisa que, na maior parte dos casos, não tem existência (escritural) porque é um "déjà-lu"; contra uma "língua" que é a língua da "impostura" (no duplo sentido, ético e estético, do termo); contra uma "tradição", a do romance realista (de fundo e sentido patriarcais, mesmo quando escrito por mulheres: veja-se o caso de Agustina), da literatura da representação, a que se opõe o texto "orgânico" e a escrita do fulgor. Em grande parte, é por esta tripla via que o texto de Llansol (que aqui nos serve de referência maior) faz passar a sua originalidade - mas à margem de qualquer ligação explícita entre sexo, género e escrita.

   Para João Barrento, sintetizam-se em quatro pontos fundamentais os momentos mais importantes da renovação do romance português a partir de meados da década de sessenta, no que diz respeito às técnicas narrativas e às estratégias discursivas. Vejamos, Princesa de mim, como os elenca: 1. A "polifonia narrativa", ou seja, o recurso a uma multiplicidade de vozes, e o fim da monoperspetiva narrativa...   ...2. As formas da "temporalidade no romance", nomeadamente a superação da temporalidade linear, a importância da recordação ou de formas da memória coletiva opostas à História, «a força mágica da manipulação temporal», chamou-lhe Isabel Allegro...   ...3. A "textualização" em primeiro plano ou, por outras palavras, a tendência para a auto-referencialidade e a subjetivação no tratamento da matéria narrativa...   ...4. A "contaminação", ou mesmo "promiscuidade" (também se poderia dizer a amplificação) da forma do romance pela presença de outros géneros mais ou menos estranhos àquela forma: diário, ensaio, autobiografia, conto, poema em prosa, fragmento carta e toda a espécie de formas de expressão poética (exemplo paradigmático: toda a Obra de Maria Gabriela Llansol).  Assim também eu penso, com ela, Gabriela. O resto, o que outros dizem, é demasiado técnico para a minha capacidade. Em próxima carta contigo falarei sobre A Vocação do Exílio, quiçá aquilo que mais me aproxima de Maria Gabriela. Talvez, uma vez ainda, muito à minha maneira. Por hoje, sem largar o João Barrento, dir-te-ei algo acerca dessa "textualização" e da tal "contaminação" atrás referidas, por me parecerem, na autora que estamos conhecendo, pistas interessantes de entendimento. Começo todavia pela epígrafe de Medeia Vozes, romance da alemã Christa Wolf, citada por Barrento: Acronia não significa estarem as épocas indiferentemente umas ao lado das outras, segundo o modelo do tripé, como estruturas em fuga que rejuvenescem. Podemos abri-las como um harmónio, e então é muito grande a distância de um extremo ao outro, mas também podemos metê-las umas dentro das outras, como as bonecas russas, e então as paredes do tempo ficam muito perto umas das outras... E o próprio Barrento acrescentará: o melhor exemplo para este movimento de sístole e diástole no tratamento do tempo - que torna oscilante e quase irreal o perfil histórico dos sujeitos da narrativa - é sem dúvida o de Maria Gabriela Llansol. Comigo não é bem assim: pensossinto no tempo e nos tempos, mas vivo muito no não-tempo. 

   Se bem lembro, Princesa de mim, dizia-te eu, numa das minhas cartas,já bem passadas, que sempre tenho tido uma relação anódina com isso a que chamamos tempo. Simplificando, confesso que vivo em dois tempos simultaneamente: naquele que rigorosamente cumpro em função de horários e outros deveres (sou conhecido por ser um "nórdico" maníaco da pontualidade e do "despacho"); e no "meu" tempo interior, onde contemplo, rezo e pensossinto sem qualquer sincronia com a minha própria circunstância. Vagueio, vogo, voo, vibro, ando fora e quedo-me dentro, um qualquer não-tempo se confunde com um espaço inexperimentado... Certo dia, um senhor padre, jovem, inteligente e bem intencionado, até me disse - referia-se a algo que eu tinha escrito - nunca ter pensado na eternidade no jeito em que eu a encarava: um nenhures fora do tempo, isto é, uma essência (existência não, pois não estamos nem situamos, ou seja, não medimos). Ele nunca tinha pensado na viúva noiva de sete irmãos, na ratoeira dos saduceus...menos ainda na lição de Jesus. Tal como quem hoje pensa na ressurreição dos mortos - Dom Pedro e Dona Inês levantando-se dos túmulos postos cara a cara, para um paradisíaco, eterno abraço - a desejar, afinal, que tudo fique na mesma, a nosso gosto, sem perceber que nada sabemos de Deus nem da sua vontade, a não ser  --  e nisso creio  --  que ela será feita. A morte, Princesa, essa despedida do eu-mim que conheço, ou julgo conhecer, é o regresso do filho pródigo à casa de seu pai. Não sei, não adivinho nem quero suspeitar o que está além do muro que, já etéreo fantasma, irei atravessar. Atenho-me à única esperança essencial da fé: a misericórdia de Deus, porque só o amor não acaba nunca.

   Quanto à "textualização", João Barrento, referindo-se ao que chama metaficcionalidade -  a reflexão do romance sobre os seus próprios meios e processos e sobre a sua matéria -  apresenta vários exemplos (Carlos de Oliveira, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, Herberto Hélder...) e afirma que a mais coerente e radical expressão deste trabalho do texto e da quase obsessão da textualidade e da auto-referencialidade da escrita encontra-se na Obra de Maria Gabriela Llansol; aí o romance transforma-se numa "paisagem textual" totalmente livre, fragmentária, labiríntica e poetizada. O exemplo de Llansol servirá, melhor do que qualquer outro, para documentar os processos de "descentramento da escrita" (em relação à "realidade") e de "instabilização do sujeito" (nomeadamente do sujeito-leitor)...   ...Isso acontece, em primeiro lugar, pelo desaparecimento da perspetiva narrativa tradicional e pela emergência da figura do texto auto-centrado (que vai ao ponto de se transformar ele mesmo em "figura") sob a forma de uma prosa dita "obscura" ou "hermética", de grande intensidade poética, que em Llansol dá pelo nome de "fulgorização da escrita": o ato de escrita é visto por esta autora como uma espécie de flecha de luz, «porque o texto cresce quando pode enunciar, sem obstáculo,  as fulgurâncias que cabem na frase, fulgurância e linguagem, uma na outra, numa só flecha» (M. G. Llansol, Lisboaleipzig, Assírio e Alvim, Lisboa, 2014). E, no discurso de aceitação do Grande Prémio de Romance, 1991, a escritora dirá: Os meus textos supõem um pacto de inconforto... --- escrevo para que o romance não morra. Escrevo para que continue, mesmo se, para tal, tiver de mudar de forma, mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele, mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos, mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear... Afinal, pensossinto, Princesa, o que ela assim quer dizer é, simplesmente, que tudo o que pode, sabe e quer escrever levará certamente a marca da contaminação dos géneros, posto que o inconforto com a limitação de qualquer deles surge então como convocação à partilha de todos. Na minha próxima carta reproduzirei um trecho de Um Beijo Dado Mais Tarde, de Maria Gabriela Llansol, que ilustra bem a "contaminação".

 

 Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Singular escritora é Maria Gabriela Llansol. Morreu há oito anos, quando ainda tinha, cumpridos, mais onze anos do que eu. Descobria-a não sei bem quando, sei apenas que me apanhou de surpresa, como, anos antes, me prendera outra insólita escrita, a de Ruben A., o primo de Sophia. Hoje ainda, para mim, lê-los é um passeio de liberdade interior, a cedência à provocação de um abandono consentido. O prazer do leitor que incautamente se transforma na coisa lida. Desta feita, agarrei, de um caixote de livros que abrira para os arrumar nas estantes abertas do meu bucólico retiro, no Livro de Horas I - Uma Data em cada Mão - caderno de apontamentos esparsos tomados, entre 1972 e 1977, em Lovaina e Jodoigne... Conheci bem Lovaina e a sua universidade (quer a Leuven, quer a Louvain-la-Neuve), num período da minha vida em que a frequentei como, séculos antes, Damião de Góis, amigo de Erasmo, a amara e defendera. Também conheci as abadias beneditinas de Maredret e Maredsous, onde uma tia e um tio meu, respetivamente, eram oblatos, espiritualidade que partilhavam com o arquiduque Otão de Habsburgo, seu amigo, que em casa deles conheci. Muito jovem ainda, li e reli Eckhart e S. João da Cruz, passeei-me por Nietzsche... Sem saber que Maria Gabriela Llansol, no seu exílio belga, se repartia entre Jodoigne e Lovaina, frequentava Maredret e Maredsous, onde privava com São João da Cruz e Mestre Eckhart, e os relacionava com Müntzer e Nietzsche. A surpresa destas referências determinou-me uma noite de leitura, arrastado por inesperada simpatia, por alguém que, indiferentemente, calha em escrever tanto em francês como em português e que, tal como eu também, pode candidamente afirmar que retardo o momento de começar a ler o livro, antecipo-me ao prazer de ler, escrevendo. E fui descobrindo afinidades que são incautas concordâncias, como neste trecho escrito a pretexto de umas lebrezinhas que recolheu e alimentou:

   As lebres são minúsculas, e quase acabadas de nascer. O que são três semanas? Um mês?

   Ontem à noite, o Augusto dizia que eram três homens, três déspotas - Estaline, Hitler, Napoleão - voltadas, por força do ciclo eterno, ao sábio contacto com a erva verde.

   Penso no amor, mas o amor não é o que correntemente se diz ser. Aceder à consciência do amor, de mim própria ter conhecimento, identificar-se é secundário.

   O que é importante é fazer parte, diferenciando-se.

   A frase é dela, carregado é meu, Princesa. Pois, apesar da intimidade espontânea do meu convívio com a Maria Gabriela e tantas das suas referências, não experimento igual gosto de um ambiente onírico, é bem mais despojado e chão o meu percurso místico. E, por muito que tivesse simpatizado e tentado compreender a condição feminina, nunca lhe fui alheio, mas sempre estranho, isto é, diferente. Aliás, acho que a diferença entre mulher e homem é condição necessária de ambos serem parte um do outro. Creio que, aí também, me encontro com Gabriela Llansol: a diferença faz a unidade, só entre seres diferentes pode haver uma comunhão, consciência desse corpo a que todos pertencemos e São Paulo dizia que é tudo em todos. Por isso, neste tempo de espera do Natal próximo - tão próximo que está fora do tempo, não sabemos quando virá finalmente - partilho da visão mística da cosmo-génese de Teilhard de Chardin, sem qualquer tentação panteísta, porque a união na harmonia não é nem pode ser monolítica, está antes próxima da visão do paraíso na profecia de Isaías, da pacificação dos antagonismos e dos medos: o menino põe a mão na toca da serpente... Não sei, Princesa de mim, se te lembras ainda duns escritos meus para o blogue do CNC, pelo Natal de 2012, salvo erro, evocando textos da Legenda Aurea de frei Tiago Voragino sobre a Natividade do Senhor, e daquele Presépio a que chamei cósmico. Voltava, afinal, a esse mistério da relação ontológica de Deus com o mundo, o homem, a história - que todavia não podemos entender pelas nossas categorias mentais, pois não se encontra no espaço, nem no tempo. Tal como só na contemplação mística enxergamos o nada de Deus, como diz Mestre Eckhart, o nada criador de tudo. Ou conseguimos, como São João da Cruz, só na noite cerrada ver a luz (mandar-te-ei um poema do carmelita espanhol, que traduzi para ti). Maria Gabriela, pensossinto, conviveu com tudo isso: Quando vêm Beatriz, o gato, Nietzsche ou Hadewijch, eles não são vários nem muitos. São uma parte de mim que sou uma parte deles. Entram sem falar e encontro-os, sem me surpreender, em qualquer sítio da casa; ocupam o que na imensidade é nosso e dos que hão-de vir -deixemos para cada um o seu provisório, para nós todos a vida eterna.

   E, para terminar esta carta, deixo-te outra expressão de Maria Gabriela Llansol, que tão lindamente toca teclas minhas que também já soaram nas muitas cartas que te tenho escrito: Chegado o Inverno, ainda ficarei aqui sentada, às vezes, atrás da clematite que nessa altura não terá folhas. Que importa? Lembrar-me-ei, sobretudo saberei que o Inverno é um vazio cheio de sentido sempre com o propósito de elevar a matéria à vida eterna.

   O tempo, creio, já não se move.

   Quantas vezes, Princesa de mim, te terei falado do milagroso mistério da fecundidade destes campos que agora vejo frios, silenciosos, despojados?

 

Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira