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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Ocorre-me um trecho de uma entrevista de Mia Couto ao Jornal de Letras (?), não me recordo agora de quando, apenas leio a transcrição que anotei. Penso que falava dos frutos de Moçambique: A maior parte não tem nome em português. A maior parte dos animais também não. Os ingleses, nas suas ex-colónias, foram capazes de chegar até aí, e toda a fauna e toda a flora estão nomeadas em inglês. Eles tinham uma aproximação à natureza. Os portugueses não; diziam a "passarada" o "mato", a "bicharada" e pronto. Deves lembrar-te, Princesa, das vezes em que te falei da minha comichão epidérmica ao ouvir as lusas pronúncias "kivi" e "Havai", por exemplo, de nomes que ingleses haviam transcrito do original (kiwi ou quiúi, Hawai ou Haùaií) para a fonética da sua língua... E que nós, hoje, teimamos em pronunciar à "alemã"! Ignorantes de que também dizemos Molucas em vez de Malucas, quando nomeamos as ilhas cujo nome malaio indonésio foi corretamente transcrito para a fonética portuguesa, por portugueses, e mais tarde, a partir dessa, para a inglesa por ingleses, que escreveram Molucas para lerem Malucas. O nosso desentendimento com o rigor decorre da nossa educação: transmite-nos mais sentimento do que pensamento (os nossos debates públicos, sobretudo políticos, são exemplares dessa carência intelectual), mais desejos e fantasia do que capacidade de análise fria e espírito crítico. A tal diferença sergiana entre política de fixação e de transporte é muito mais profunda do que possa parecer: não foi, ou é, só perder oportunidades de criação local de riqueza, por indústria transformadora ou comércio sustentável, é quase repugnância por obra construtiva a longo prazo, é a pressão da mentalidade de um indigente para que a realização da riqueza, por altos que sejam os riscos, se faça rapidamente e em força. Os trunfos que elites portuguesas detiveram no século XVI foram desbaratados pela ganância de uma classe comerciante que não chegou à humildade de vindouros emigrantes, desses que, sobretudo nossos contemporâneos, foram lá para fora aprender o que é trabalho organizado e produtivo e a realizá-lo por conta própria. Destes, pouco ou nada falam os nossos intelectuais, que insistem em repetir o que os nossos humanistas da Renascença espalhavam pela Europa culta e curiosa sobre os inauditos feitos dos portugueses de então, em textos e traduções latinas, o latim sendo a língua franca da ciência daquele tempo...

 

   Tenho à minha frente um texto curioso, redigido por um tal Zinadim (não o Zidane, que também se chama Zinadim, mas é cidadão francês de origem argelina e, em pleno século XXI, treinador do Real Madrid, da equipa de futebol cuja estrela polar é o português CR7...), este Zinadim a que me refiro foi um árabe do Malabar, ali vivo e ativo no século XVI. Esse texto, de que apenas transcrevo alguns trechos, foi traduzido do árabe e publicado sob o título de História dos Portugueses no Malabar, por um tal David Lopes, em Lisboa, em 1899:

   Em nome de Deus, o Piedoso e Misericordioso!

   Os muçulmanos no Malabar viviam no bem estar e comodidade da vida graças à brandura dos príncipes do país, ao respeito dos seus antigos usos e à amenidade do seu trato. Eles, porém, esqueceram o benefício, pecaram e revoltaram-se contra Deus. Por isso, pois, Deus mandou-lhes como senhores os Portugueses, franges cristãos - queira Ele abandoná-los! - que os tiranizaram, corromperam e praticaram contra eles atos ignóbeis e infames. Eram sem conta as violências, o desdém, o escárnio, quando os obrigavam a trabalhar; punham as suas embarcações a seco; lançavam-lhes lama ao rosto e ao resto do corpo, e escarravam-lhes; despojavam-nos no seu tráfego, impediam sobretudo a sua peregrinação [a Meca], roubavam-nos, queimavam as suas cidades e mesquitas, a apresavam-lhes os navios, maltratavam o seu Livro Santo e os livros, pisando-os e queimando-os; profanavam os recintos sagrados das mesquitas; incitavam os muçulmanos à apostasia e à adoração da cruz, peitando-os para tal; enfeitavam suas mulheres com as joias e os ricos vestidos arrancados às mulheres dos muçulmanos; assassinavam os peregrinos e os demais muçulmanos com toda a espécie de violentações; insultavam o Apóstolo de Deus publicamente; cativavam os muçulmanos e aos cativos punham pesadas cadeias [...] Quantas mulheres de distinção eles cativaram e violaram até terem delas filhos cristãos, inimigos da fé de Deus e danosos dos muçulmanos! Quantos senhores, homens de ciência e principais cativaram e violentaram até que os mataram! Quantos muçulmanos e muçulmanas eles converteram ao cristianismo! E muitos outros atos semelhantes eles cometeram, tão afrontosos e ignóbeis que a língua se cansa a narrá-los, e tem repugnância em pô-los a claro: queira Deus, glorioso e omnipotente puni-los!

 

O nosso padre António Vieira escreve algures:

Se não tivessem ido os comerciantes em busca de tesouros terrenos na Índia Oriental e Ocidental, quem teria então transportado os pregadores que levavam consigo os tesouros celestiais? Os pregadores levaram o Evangelho e os comerciantes levaram os pregadores. 

Cita este trecho da História do Futuro de Vieira o professor Charles Boxer, no seu The Portuguese Seaborne Empire - 1415-1825, mais precisamente a abrir o capítulo III (Converts and Clergy in Monsoon Asia - 1500-1600), na página 65 da edição que possuo (Hutchinson & Co, Londres, 1969). Mas antes dessa transcrição, Boxer refere que the importance of Japanese silver, Chinese silks, Indonesian spices, Persian horses, and Indian pepper in Portuguese Asia should not obscure the fact that God was omnipresente as well as Mammon. E logo a seguir à citação do jesuíta, continua (traduzo do inglês): Se o comércio seguiu a bandeira no império britânico, o missionário vinha mesmo atrás do mercador no império português. Admite-se geralmente que se os homens de Vasco da Gama disseram que tinham vindo à Índia em busca de cristãos e especiarias, a procura destas foi feita com muito mais vigor do que o posto em cuidar de achar os outros durante as primeiras quatro décadas da atividade portuguesa no Oriente. A alusão a Vasco da Gama refere-se, penso eu, Princesa, a um episódio relatado no Diário de Álvaro Velho, aquando da chegada do Gama a Calecute. Vale a pena relê-lo, sobretudo como aqui te lo deixo no contexto em que Sanjay Subrahmanyam o apresenta no capítulo III do seu O Império Asiático Português, 1500-1700. Digo-te isto, minha Princesa de mim, por me parecer que a livre abertura das nossas interpretações ao critério e análise de outros nos ajudará certamente a melhor entender como a complexa realidade das coisas se pode disfarçar - ou descobrir - pela contraposição de pontos de vista e pelas intenções que os inspiram...

 

Começa assim esse capítulo, intitulado Dois Modelos e a sua Lógica: a Criação de um Império, 1498-1540 (na versão portuguesa da DIFEL, Lisboa, 1995): A chegada dos portugueses à Ásia em 1498 não passou despercebida nas obras asiáticas de História de então. Um dos trabalhos mais pormenorizados dedicado às suas atividades é uma crónica árabe Tuhfat al-Mujahidin (ou "Dádiva aos Guerreiros Santos"), escrita nos finais da década de 70 por um tal Zaid al-Din Ma´bari, [o mesmo Zinadim que te citei], que pretendia glorificar os feitos dos adversários muçulmanos dos Portugueses na Ásia. Mas Zain al-Din queria igualmente elaborar um argumento teórico, justificando a guerra contra os Portugueses e demonstrando como estes haviam desrespeitado os modelos de comportamento […] Zain al-Din escreveu quase três quartos de século depois da chegada dos Portugueses à costa do Malabar, no sudoeste da Península Indiana. Uma vez que escreveu a posteriori não se pode julgar a sua visão como representativa da reação espontânea das elites islâmicas locais para com os recém chegados. É de facto o primeiro a sugerir que os muçulmanos do Malabar (os chamados Mapilas) «pecaram e desobedeceram-lhe [a Deus]. Então, Ele mandou-lhes como senhores um povo frangue, os Portugueses - queira Deus abandoná-los! - que os oprimiram, vexaram e hostilizaram com toda a sorte de opressões e vexames!» [Subrahmanyam também retoma aqui a tradução de Zinadim ou Zain al-Din, editada por David Lopes, em Lisboa, 1899]. E, adiante, comenta:

   Como visão dos factos, Zain al-Din é, de um modo perturbante, próximo de alguns dos primeiros textos portugueses respeitantes aos seus feitos na Ásia. O conceito de guerra santa está tão presente nestes últimos como na "Dádiva aos Guerreiros Santos" daquele. Subrahmanyam realça e sublinha que a cronologia e geografia dos factos imputáveis aos recém chegados portugueses é corretamente notada por Zinadim, designadamente o despoletamento da "Guerra Santa" logo desde o final da segunda viagem: As hostilidades entre os recém chegados e os "mouros" não foram porém indiscriminadas: os Portugueses faziam agora uma cuidada distinção entre os mouros da terra e os mouros de Meca (ou seja, do Médio Oriente); viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia, porém, resultado de uma árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável acerca da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental... Mas, paulatinamente e porque a "experiência é madre de todas as cousas", como nos lembrou Duarte Pacheco Pereira, lá se foram adquirindo novos conhecimentos e perspetivas...

 

Deixo mais desenvolvimentos para próxima carta, em que te falarei também do Tratado das Cousas da China, do dominicano frei Gaspar da Cruz, impresso em Évora por André de Burgos, em 1569/70, e primeira obra sobre a China a ser publicada na Europa. Trabalho pioneiro.

 

 

     Camilo Maria 

  

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira

MIA COUTO: o poeta de hoje e do meu antigamente.

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POEMA DIDÁTICO


Já tive um país pequeno,

tão pequeno

que andava descalço dentro de mim.

Um país tão magro

que no seu firmamento

não cabia senão uma estrela menina,

tão tímida e delicada

que só por dentro brilhava.

 

Eu tive um país

escrito sem maiúscula.

Não tinha fundos

para pagar a um herói.

Não tinha panos

para costurar bandeira.

Nem solenidade

para entoar um hino.

Mas tinha pão e esperança

para os viventes

e sonhos para os nascentes.

 

Eu tive um país pequeno,

tão pequeno

que não cabia no mundo.

 

Teresa Bracinha Vieira