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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MEMÓRIA DO TEATRO DO SALITRE

 

O programa de visitas organizado pelo Centro Nacional de Cultura no eixo da Avenida da Liberdade justifica esta evocação do setecentista Teatro do Salitre, a certa altura (1858) também chamado Teatro das Variedades, o que desde logo define o seu âmbito de programação, mas também documenta a antecipação urbana e cultural que a sua construção e atividade representa relativamente ao eixo central urbano da Avenida da Liberdade e ao próprio Parque Mayer.

 

É interessante e oportuno por isso referir que o Teatro do Salitre, inaugurado em 27 de novembro de 1782 e demolido em 1879, logo no início das obras de implantação da Avenida, representou durante um século como que a antevisão do que viria a ser, ali mesmo, o Parque Mayer: curiosa antevisão,  insista-se,  de funções urbanas e culturais desta zona da cidade!

 

O Teatro do Salitre foi edificado por iniciativa de um negociante, de nome João Gomes Varela, que encomenda o projeto ao arquiteto Simão Caetano Nunes. Varela terá sido pois o primeiro empresário, diríamos hoje, do Parque Mayer. E para o espetáculo de estreia, é também contratado um equilibrista na altura muito prestigiado, Tersi de seu nome.

 

Mas quem mais marcou o Teatro do Salitre como cena referencial foi o ator António José de Paula que a partir de 1794 explorou o Teatro com um repertório notável para a época: inclusive, estreou em Portugal duas peças adaptadas de textos de Voltaire. E anos mais tarde, lá se instalaria uma companhia dirigida por Emile Doux, nome referencial no seu tempo e de certo modo ainda hoje.

 

Mas em 1840 o Teatro do Salitre estava em fase de decadência. Teófilo Braga, no seu estudo intitulado “Garrett e os Drama Românticos” (1905) transcreve um artigo onde se traça uma visão muito negativa do Teatro nessa época:

 

“O Teatro do Salitre era o único regular de Lisboa, e este mesmo, que mais se assemelhava a uma baiuca do que a um lugar de recreio público, só era frequentado pela classe ínfima da sociedade: ali, as graças mais obscenas eram unicamente aplaudidas, os ditos mais desonestos eram os que melhor soavam aquela plateia”…!

 

E mais adiante, na mesma obra, mas reportado a 1806: “o Teatro da Salitre tornou-se um asilo para os literatos pobres, assalariados para trucidarem a arte e a língua com traduções de dramas franceses”… (pág. 135).

 

A crise vinha pois de trás. E nesse sentido, Ana Isabel de Vasconcelos assinala agora   que “o Teatro do Salitre tem desde sempre sido referido como um parente pobre da arte dramática. (…) Já no fim do século XVIII, quando não havia atores em número suficiente, este teatro é preterido relativamente ao Condes, que se apropria da designação de teatro nacional”.  Mais refere ainda que “o Salitre tinha uma boa lotação – 900 espetadores em plateia, frisas e camarotes” (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT  2003 págs 30-31).

 

E é interessante recordar que quando Garrett, em 1836, elabora a sua reforma estrutural do teatro português, as duas salas dominantes de Lisboa – e do país inteiro,  em rigor -  eram precisamente o Teatro do Salitre e o Teatro da Rua dos Condes, sem referir, claro, o Real Teatro de São Carlos, esse inaugurado em 30 de junho de 1793 e vocacionado, como bem sabemos, para a música, para a ópera.

 

O teatro de D. Maria II seria inaugurado em 13 de abril de 1846. Pode referir-se também o pequeno Teatro das Laranjeiras, do Conde de Farrobo, inaugurado em 1825 e restaurado em 1842. O Teatro do Gymnasio data do mesmo ano de 1846. O Teatro da Trindade é de 1867, o Teatro Gil Vicente de Cascais de 1869, o Teatro Taborda de 1870... 

 

Mas recorde-se então que o Teatro São João do Porto é inaugurado em 13 de maio de 1798, e antes dele existiram Teatros em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país: de muitos deles temos falado aqui, e  desses e de outros voltaremos aqui a falar.

 

DUARTE IVO CRUZ 

A TRADIÇÃO SETECENTISTA DO TEATRO VARIEDADES

 

É interessante constatar que, no ponto de vista histórico, o Teatro Variedades, edificado em 1923 no Parque Mayer e hoje praticamente abandonado na imponência do edifício original, não obstante a data de origem e as alterações nestes quase 100 anos decorridos, guarda uma tradição que remonta ao século XVII, mais ou menos no mesmo local, mas muito antes da abertura da Avenida da Liberdade e obviamente, muitíssimo antes portanto da implantação do próprio Parque Mayer.

 

É que, na potencialidade da zona urbana, à época obviamente muito diferenciada, ergueu-se, a partir de 1782, um Teatro, denominado Teatro do Salitre, na área que viria a ser urbanisticamente absorvida pela Avenida, mas que, repita-se, já definindo uma zona central do desenvolvimento. Aliás, sabemos bem que a Rua do Salitre começa junto ao Parque Mayer. Daí também que se remonte a tradição ao então chamado Teatro do Salitre.

 

Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos historia essa tradição hoje com quase dois séculos: «Edificado em 1782 pelo arquiteto Simão Caetano Nunes, possuía “lotação para 900 espectadores, distribuídos por 21 frisas, 27 camarotes de 1ª ordem, 22 de 2ª, 207 lugares de plateia, 147 de superior 120 de geral e 60 nas varandas”.» E acrescenta: «Já no fim do século XVIII quando não havia atores em número suficiente para aguentar duas companhias, este teatro é preterido relativamente ao Condes que se apropria da designação de “teatro nacional”.»… (cfr. Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT 2003 pág.25 e nots. cits.).

 

Sousa Bastos, escrevendo na transição dos séculos XIX/XX descreve os dois teatros. No que respeita ao Teatro do Salitre, dá-o como inaugurado em 27 de novembro de 1752, “tomando parte no espetáculo o célebre equilibrista Tessi, mandado vir expressamente do estrangeiro como grande novidade da época” (in “Dicionário do Theatro Português” 1908, pág. 362).

 

E remete para 1858 a inauguração do chamado então Theatro das Variedades e referindo que naquele ano «formou-se uma associação para com este título explorar o antigo Theatro do Salitre»: e acrescenta, noutra obra. que «a peça de abertura, que teve extraordinário agrado e alcançou grandes receitas, foi a mágica em 3 atos e 19 quadros arranjada por Francisco Palha e Joaquim Augusto de Oliveira, a “Lotearia do Diabo”. No papel de Abdalah obteve enorme sucesso o ator Izidoro»… (cfr. Sousa Bastos “Carteira do Artista” ed. 1898 pág 55/56).

 

E ainda, José Augusto França refere um Novo Teatro das Variedades, inaugurado no Rato em 1880 (cfr. José Augusto França “Lisboa História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pag.613).

 

Mas voltemos à inauguração do atual edifício novamente chamado Teatro Variedades.

 

Num estudo intitulado precisamente “O Parque Mayer – Cinquenta Anos de Vida”, Albano Zink Negrão historia a inauguração desse Teatro. E logo se define uma “vocação revisteira”, chamemos-lhe assim, desse novo Variedades. O estudo referido sublinha então, e de certo modo sublima essa constante de espetáculo que, ao longo de dezenas de anos, sempre dominou o próprio Parque e os seus Teatros – e isto, não obstante a tradição cinematográfica do Capitólio e as temporadas de teatro declamado que lá tiveram lugar e que aqui já temos evocado, desde Maria Della Costa/ Sandro Polónio a Amélia Rey Colaço. Ou a menor atividade do então chamado (e hoje desaparecido) Teatro ABC ou a atividade do Teatro Maria Matos.

 

O Teatro Variedades foi, salvo raras exceções de espetáculos alternativos, um teatro de revista. Vejamos o que diz Zink Negrão:

 

«Em 8 de Julho de 1926, com a revista “Pó-de-Arroz”, abria as suas portas o “Variedades”, construído no local onde tinha existido um dos dois lagos dos Jardins Mayer. Sob o pseudónimo de “Troianos” se ocultaram os nomes dos autores da revista “Pó-de Arroz”, espetáculo em dois atos e dez quadros, com musica de Tomás del Negro e Raul Portela».

 

Cita um notável elenco, a começar pelo “grande Vasco Santana” assim mesmo referido. E acrescenta que neste espetáculo de estreia do Teatro, «o Compère não podia ter sido melhor: nem mais nem menos do que Augusto Costa, o popularíssimo “Costinha” que, na revista, dava pelo nome insólito de “Zé Pom-Pom”.» Estava-se em 1926! (ob. cit. pag.17).

 

E Marina Tavares Dias recorda outros espetáculos: «No futuro pertenceriam ao Variedades alguns dos maiores sucessos do Parque Mayer: “Arre Burro”, com Beatriz Costa, “Olaré quem Brinca?” com Mirita Casimiro, “Alto lá com o Charuto”, com Vasco Santana, etc., etc., etc.» (cfr. Marina Tavares Dias “Lisboa Desaparecida” vol. 9 Ed. Quimera 2007 pág. 74).

 

Ora bem: não se põe em dúvida a qualidade do elenco da revista de estreia do Teatro Variedades. Mas certamente se porá em dúvida a qualidade da revista em si. Luis Francisco Rebello cita a crítica de Avelino de Almeida publicada na época em “O Século”: «pela ausência de graça, pela pobreza de fantasia, pela falta de originalidade, pela monotonia que a caracteriza, uma das mais lastimosas coisas que no género ultimamente vira»!... (in ”História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 2 – “Da República até Hoje”, Publicações D.. Quixote 1984 pág.84).

 

Na mesma obra, Rebello procede ao levantamento de muitas dezenas de revistas levadas à cena no Variedades, com sucesso e com qualidade, e de muitas centenas de autores, atores, encenadores, músicos, que as criaram e/ou nelas atuaram, e que ainda pude diretamente testemunhar e aplaudir.

 

Hoje, o Teatro Variedades continua encerrado, mas cercado por tapumes – o que mais justifica a pergunta que aqui se formula: o que se vai passar com o Teatro Variedades?

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO DE REVISTA EM PORTUGAL (X)

Teatro Variedades.JPG
Teatro Variedades (fachada), 1961, fot. C. Madeira [Museu Nacional do Teatro, cota: 57625].

 

BREVE NOTA SOBRE AUTORES INESPERADOS

Uma breve nota final sobre este ciclo de evocações sobre o teatro de revista em Portugal.

Como temos visto, o teatro de revista, na sua componente global texto/espetáculo, representa, desde meados do seculo XIX, uma das mais constantes expressões do teatro português: e temos salientado, ao longo desta série de referências, a qualidade de muitos textos e a afirmação de não poucos autores.

Cabe agora referir que, nesse conjunto relevante de textos e autores, há uma distinção que aqui tem sido assumida: pois ou estamos perante dramaturgos que só se dedicaram à revista, ou perante dramaturgos que, na opção por vezes subtil entre revista e opereta, completam, digamos assim, obras globais de diferente género e estilo, com “incursões” no teatro musicado.

E desde logo se diga que dramaturgos indiscutíveis na pluralidade de géneros, como designadamente Bernardo Santarenos – e o exemplo é em si mesmo relevante – não desdenharam a revista – no caso de Santareno, uma única vez, é certo, e em colaboração ou “parceria”, termo usado no género, com César de Oliveira, Rogério Bracinha e Ary dos Santos. Os primeiros não são inesperados, antes pelo contrário.
Mas é de assinalar a colaboração de Ary dos Santos, em diversas revistas, de títulos e textos alusivos à conjuntura politica: “Uma no Cravo, Outra na Ditadura”, “A Paródia”, “Ó Calinas Cala a Boca”, “Em Águas de Bacalhau”,  “Ó da Guarda”, “A Paródia”,  sendo que, na primeira, o próprio Ary declamou um poema evocativo de Allende.

Mas voltemos atrás. É que, desde pelo menos os anos 50/60, a produção de revistas trouxe sobretudo aos teatros do Parque Mayer um conjunto notável de autores e de atores que não raro preenchiam as duas funções… São numerosas as revistas escritas e interpretadas por Vasco Santana, José Viana, Henrique Santana, Eugénio Salvador, Francisco Nicholson e tantos mais até hoje.

José-Augusto França historia o Parque Mayer desde a sua inauguração em 1922, e assinala a inauguração dos Teatros Maria Vitória e Variedades, “para proveitosas carreiras de revistas, em acentuado e bem significativo gosto lisboeta de pilhéria e crítica sobremodo politica”. Evoca a inauguração do Capitólio em 1931, projeto do arquiteto Cristino da Silva e hoje em demoradas obras de recuperação. E evoca o ajuste politico das revistas de 1922 a 1974,mais tolerante do que no teatro declamado,   sendo certo que entretanto abriu e fechou um pouco significativo Teatro ABC, e sendo certo também que as outras salas e com elas o próprio Parque, perderam o brilho… (cfr. “Lisboa História Física e Moral” –  ed.2008).

Ora bem: em matéria de autores, temos aqui referido as incursões revisteiras de grandes dramaturgos portugueses: citamos, como mero exemplo a “Terra e Mar” de Alfredo Cortez. Mas refira-se que se verificou, a certa altura, como que uma “profissionalização” dramatúrgica da revista.

Terminamos assim com a evocação “histórica” mas recente da chamada Parceria – João Bastos, Félix Bermudes e Ernesto Rodrigues, que durante anos alimentaram, com qualidade e atualidade, o espetáculo de revista em Portugal.

Hoje, quem garante a qualidade do espetáculo é Filipe La Feria, que, entre outros géneros de espetáculo, recuperou o Politeama para  o Teatro de Revista.


DUARTE IVO CRUZ