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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ALIMENTO


Vivo nesta terra

E pergunto-me

Se acaso nela viveria

Se ausente fosses dela

 

No cerne dos frutos nossos

Tudo é flor e amadurece

 

Na noite límpida e fresca

De outros olhos iguais

 

Mas diferentes dos que me torno

Por fim

 

E sempre esta necessidade de saber que te vi

Alimento meu

Insigne 

 

Teresa Bracinha Vieira

O BEM

 

E sobre que delícias e certezas

Ninguém compreendia

 

Mas sabiam que a memória desconhecida

Faria melhor do que a esperança

E a vida

 

Com sementes ao vento

E sem cuidar o mal

Enrolar-se-ia

Na bola de cristal

 

Que reuniria o olhar e o pensar

Unindo desejo e despertar

Para lá do gradeamento

Profundo

 

E o tempo desanuviado e resplandecente

Caule de luz, delicia, certeza

A entrar na história

Sussurro

 

Lá onde se guardam os dias

Entre tantos pássaros

Que hão-de vir

 

Para que o seu cantar escoe o medo

E este

Sorridente e renascido

Num alvorecer

 

De Primavera 

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2017

ALGOS

Blogue CNC - Algos.jpg

 

A mulher que a meio da ponte

Dá a impressão de distraída

É uma mulher que não é senão vontade

 

Olha à volta e assegura-se de que ninguém a espera

 

Não hesita

Antes intensifica a sua concentração

O seu desejo é que um imprescindível ódio permaneça com ela neste momento

 

Salta

 

E assim se lança no vazio

Morrer será fácil

O seu maior inimigo tem sido o seu reflexo de boa nadadora da vida

E nela tem salvo a sua morte

 

Agora

Deitada na água

Desprovida do vigor

 

Ela regressa a casa por um caminho que não existia

Ainda que o futuro já não existisse quando tomou a decisão

E ei-la

 

Ninguém descobriu o que se passou

Ninguém lhe pedirá que peça perdão

 

Tornou-se uma situação de silêncio

Denunciado publicamente pela sua morte

 

Por agora, só sei que no fim houve um anjo

Um anjo não rejeitado do céu

Uma bondade que a escutou do além

 

Um encontro com o esquecimento

Agora

Como se todos vivêssemos exilados destas proximidades

 

 

 

Teresa Bracinha Vieira
Outubro 2017

NÓS

 

Houve um momento a partir do qual

Falar da morte

Se tornou algo dirigido à dimensão do mundo

Que vivo

E não tranquei a porta para que não ficasse vedado

Esse mistério

Apago as luzes

Sim

E faço deslizar o meu pente de marfim

Pelos cabelos

Faúlhas destinadas

Ao esclarecimento

À chave que decifrará

O que selado está

De jeito sensual, solene e secreto

Na ambiguidade do porvir

No imenso amor

Que te tenho

Vida

Que os teus olhos permanecem

No meu percurso ideal

E nem a urgência do perecer

Quando ela é

Ultrapassa a necessidade dos teus braços

Onde me quero

Nós

Sussurrados um no outro

Frémito de um significado

Total 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017