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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NÚRIA ALBÓ

 

QUE PREGUIÇA

(Quina mandra)

 

Ai que preguiça viver, hoje que não faz vento

e as pedras são prostradas por um calor tardio!

O bosque despiu-se. Há papéis

sujos de humanas misérias. O pudor presente

afoga velhas lembranças de perfumes velhos.

Este é o meu bosque, que apareceu

quando ruíram todos os antigos mitos.

Mas há um júbilo profundo na áspera verdade

e saí a recebê-lo com os braços estendidos.

 

Escritora e política, Núria é uma poetisa a não perder. A sua investigação em Filosofia na Universidade de Barcelona trouxe-lhe claridade e objetividade à escrita tendo colaborado na conhecida revista Inquietud de Vich (em catalão Vic) que se trata de um município espanhol situado na província de Barcelona. 

 

Foi alcaide de La Garriga em 1979 e também neste cargo nunca descurou a importância das artes na formação do individuo, particularmente na formação das emoções como modo de aclaramento dos sentires em maturidade.

 

Autora de livros infantis, de novelas e de poesia, sempre resultou da sua escrita uma falta de cansaço no rebentar dos ferrolhos de cada um para que a luz entre. E assim nós. E assim nós e os navios.

 

Teresa Bracinha Vieira

ANTECÂMARA

 

Envolvia a ânfora e seu segredo

Fonte oculta em que mergulhava

A minha mão

A minha vida

Agora visitante ao mausoléu

Onde a tua

Para não trair o ritmo transbordante do nosso coração

Núbia e ardente se encontrava com a minha

E ambas decifravam forças, saberes insuspeitados

Espaços-encruzilhadas

Danação

Incompletude 

 

Teresa Bracinha Vieira

ILHA DOS AMORES


Não me ouves chamar ó ilha dos amores

Para que hoje te cante e seja esta noite

De novo a tua/ nossa magia

A vara do nosso barco

Teu coração pousado

Doado num abandono

Entregue ao tempo do nascimento de uma mudança

Tão veloz

Que o céu se desenraizou e veio a nós

Suspirar entre beijos

Uma felicidade

Solitária

Nas horas em que tudo se deve consumir como o orvalho

Apertado nos seios das mãos

E o trono

O trono, a espada, a coroa

Altos mistérios

Tudo preso nesta trança vagabunda

Que te ofereço e ofereci

E em ti chamo

Entre nós

E peço, só peço

A formusura das estrelas

De novo

A iluminarem

O caminho dos nossos pés.

 

Não me ouves chamar ó ilha dos amores?

Eu que pedi ao coração para escrever este pobre verso

Ante ti

Porta de mar flamejante

Mâscara de mulher que se expõe e se expôs

 

À tua experiência 

 

Teresa Bracinha Vieira

Abril 2017

For the joy of it

 

A mais alegre entre as manhãs

Foi aquela de Maio

O meu amor passeava-se pela rua

E seus parentes vieram à boda

Assistiram à missa nova

Cantando as epístolas da estrela maior

O meu amor

De rosa na mão

Colocou a carta no correio

Aquela em que agradecia o céu na terra

A casa

O pão

Os beijos do barril de mel

E o meu amor dançou todos os mistérios

De um dia hei-de

Jejuar

Para te amar

E em ti o óvulo

Mais fértil entre as manhãs

De Maio

Quando só uma toda ela

A razão  

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

LOPE DE VEGA

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«Lo que cuenta no es mañana, sino hoy. Hoy estamos aqui, mañana tal vez, nos hayamos marchado»

 

«Amada pastora minha,

Teus repentes me maltratam,

Os teus desdéns atormentam-me,

Teus desatinos me matam.

(…) Parti uma vez de ti

(…) ditoso o pastor que alcança

Tão prazenteiro fim de sua esperança!

De pano barato a sela

(…) no peito todas as cartas.»

 

A Assírio e Alvim em março de 2011 assume uma Antologia Poética de Lope de Vega, com uma tradução de José Bento, colocando-nos na mão a possibilidade de entendermos um dos melhores poetas barrocos da literatura espanhola. Nascido em 1562 em Madrid oriundo de família humilde, não lhe faltaram inimigos a acusá-lo de mentiras, nomeadamente sobre eventuais fidalguias a que se dava por familiar e mesmo colocando-se dúvidas sobre a autoria de certos romances. Cervantes, não obstante tê-lo incluído entre os grandes talentos de então, veio mais tarde a torná-lo alvo dos seus ataques. Em 1602 publica Lope de Veja um dos seus livros de poesia mais importantes - 200 sonetos incluem a primeira parte deste livro juntamente com o extenso poema La hermosura de Angélica - e expoente inequívoco do Barroco espanhol. A obra deste escritor pela sua extensão e variedade colocou-nos sempre perante a dificuldade de o conhecermos, desde logo pela falta de acesso a livros seus há muito não editados. Seguramente só um especialista deste lopista acede e rejeita invulgaridades das quais não somos conhecedores. Sabemos que Lope aprendeu muito com o teatro de Gil Vicente, e, também conhecemos esta vontade de expor a pujança e a ousadia de uma escrita que à data ultrapassava e muito o homem e o poeta que ousou ser.

 

Um instrumento, mesmo harmonioso,

em mãos distintas é muito dif´’rente;

a espada no cobarde ou no valente

tem um efeito assustado ou corajoso.

 

(…) pide segurida a la fe griega,

Consejo al loco (…)

Verdade al juego )…) e fruta al polo donde el sol no llega.

 

Vejo e sinto nas palavras de Lope de Veja um noturno filho da terra, mas fonte clara de muitas interrogações.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Entre muitíssimos livros sobre Lope, li apenas José Montesinos, Estúdios sobre Lope de Veja, Edições Anaya, Salamanca, 1967. Por entre edições modernas que foram recomendadas pela nossa Faculdade de Letras, recordo aqui uma edição de Macarena Gómez de 2008, Rimas humanas y divinas del licenciado Tomé de Burguillos.

AS CERTEZAS DO JAPÃO NO FEMININO

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A história da literatura japonesa também se encontra dividida em vários períodos. O período Heian nome da capital da época, Heian-Kyo, atual Kyoto foi marcado especialmente pela poesia. No Japão – final do séc. VIII até ao final do séc. XII - a forma poética tanka brilhou pelas mãos de duas mulheres: Izumi Shibiku e Ono No Komachi, ambas pesos raros na fixação do japonês como língua poética.

 

Apesar de a escrita chinesa (kanbun) continuar a ser a língua oficial do período Heian, esta poesia originou o desenvolver da literatura japonesa.

 

O tanka (de 31 sílabas) que dá lugar ao haiku (de 17 sílabas e inicialmente masculino) constituem uma arte do olhar e do interpretar, e o haikai, igualmente forma poética,  busca pela subtileza uma unidade compacta entre impressão e realidade que na sua concisão tudo devem dizer.


Recordo que num livro quis prestar homenagem a esta conciliação e por entre outros Hai-Kai o arriscado


Quando tardas

Adio o essencial.

 

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Há quem afirme que esta escrita representada pelos tankas é inscrita por signos, tal a lenda na história de tão fortificada e contida arte.

 

De salientar que a consciência religiosa e erótica de Komachi e Shibiku permite-nos avaliar, o quanto estes tempos foram igualmente marcantes na liberdade e cultura das mulheres, sendo aceites sem reparos os seus múltiplos casos amorosos, bem como a sua independência monetária podendo usufruir de rendimentos próprios.

 

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A sensualidade proverbial desta poesia relata-nos conversas, atos ou omissões auspiciosas no papel da interpretação da vida e da própria política, avaliada pelo sentir gracioso destas mulheres de pincel da escrita, que assim registaram as emoções humanas face ao mundo.


Izumi Shikibu uma das mais importantes figuras da Literatura japonesa era uma rebelde social determinada a viver a vida sem receios, e, num misto de eros e de meditação budista escreveu:


Costumava dizer dos homens: «como é poético»,

Mas agora sei

Que o erguer da madrugada é apenas cansativo.

 

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E Ono No Komachi mulher astuta na intuição da impermanência do ser, escreve


Quando o meu desejo se torna intenso de mais,

Visto a roupa de dormir virada pelo avesso.


Aqui a poetisa segue o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que os desejos se cumpram.


E também eu vesti roupa do avesso tentando aproximar-me, e no meu livro


A outra ponta de mim tens tu. Mostra-me o futuro!


Enfim, não creio que exista uma versão portuguesa dos tankas, menos ainda uma tradução, talvez antes uma aproximação, mas de referir que em 2007 a Assírio e Alvim ajudou-nos no à deriva em relação a este género literário.

pois como dizer


Os vivos vão sendo menos (…) o luar derramado espreita


Então, talvez atentar a Jane Hirshfield que nomeia o sentir destes textos japoneses como único «leap of faith». 


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Em maio de 2012 publiquei este texto no blogue do CNC. Esta semana um amigo japonês releu-o com tal sentir que em sua homenagem o republico.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizes que te tenho escrito muito pouco, quase nada. Amigos meus também me mandam recados, aconselhando a que não me isole tanto... E todas essas vozes me soam distantes, indistintamente as ouço. Sem querer parafrasear o António Alçada Baptista, sinto-me em peregrinação interior. Talvez porque a necessária arrumação de objetos, livros e escritos com décadas de repouso, quiçá esquecimento, em malas e caixas, em armários fechados, donde os vou retirando atentamente, ainda que sem apreensão, me devolva um caminho de vida que, afinal, passou e ficou. A memória acordada restitui-me a mim, como se o retrovisor fosse um espelho constitutivo. Desenha-se-me meu o rosto que descubro em papéis velhinhos, apontamentos que fui fazendo, desde menino... E fico estupefacto: afinal, todos estes anos de vida não me mudaram muito, permaneço aquele rapaz de vinte anos, em que reconheço o que ainda hoje são as minhas cismas. Este texto data do início dos anos sessenta, escrito a tinta, por caneta célere, mas arrumadora, sem hesitações nem rasuras, num caderno chamado Sebenta, fornecido pela Papelaria Americana, de Leiria:

 

   «A angústia surge quando chega a idade da opção (que em muitos parece nunca chegar), quando nos encontramos como possibilidade, como responsáveis, como autodetermináveis vitalmente por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é então o não ter certezas absolutas, o inquietar-se porque não sabemos se havemos de apostar a vida pela fé ou contra ela, por isto ou por aquilo.

 

   A angústia é a marca do homem adulto e a passagem necessária para uma fé autêntica, ou para uma autêntica aventura humana quotidianamente acompanhada pelo desespero.

 

   Nós não escolhemos entre a angústia e a fé (isso seria uma falsa opção e a fé seria então um lenitivo), mas escolhemos a fé para além da angústia ou, se quisermos, assumimos a nossa angústia na fé, tal como a poderíamos assumir no ateísmo.

 

   Talvez, sim, talvez, liberdade e angústia sejam simultâneas.

 

   Kierkegaard vê bem quando diz que a angústia é diferente do medo e coisas parecidas, que sempre se referem a um objeto preciso. Porque a angústia é a realidade da liberdade porque é o possível dela.

 

   Mais perto de Heidegger, a angústia é essa inquietação que surge a "ligar"- me ao meu projeto.

 

   E continuando mais com Kierkegaard, a angústia é como que o imenso nada da ignorância.

 

   Enquanto que, para Heidegger, o homem é ser-para-a-morte e a angústia é, de certo modo, diríamos, a consciência disso, para Kierkegaard a morte é para a vida.

 

   O desespero é precisamente esse saber que não se será mais nada, aquilo que queríamos ser, e, simultaneamente, o não poder aniquilar-se. E isto é o sinal do eterno no homem. Diferentemente, Kierkegaard olha tudo numa perspetiva cristã.

 

   O Absurdo é um divórcio.

 

   Divórcio entre o desejo de vida que sinto em mim e o quotidiano que a minha condição me oferece, e a morte.

 

   Divórcio entre a sede da minha inteligência e a insuficiência ou a "mentira" de tudo o que "conheço".

 

   Em suma: divórcio entre mim e o mundo, entre mim e a minha condição.»

 

   Quase sessenta anos depois de ter escrito isto num caderno só para mim, reencontro-me comigo numa questão precisa, e pego outra vez na 7ª edição do Sein und Zeit, de Martin Heidegger (Max Niemeyer Verlag, Tübingen, 1953) que será, como muitos pretendem, uma "análise existencial". Ocorre-me então a explicação que dá Fernando Savater, professor de filosofia na Complutense de Madrid, a propósitos do filósofo de Tubinga: A morte é sempre a minha morte, a própria para cada um dos que podem dizer "eu", isto é, para os Dasein ou seres que existimos aqui, atirados para o mundo e destinados ontologicamente a perecer. Como a morte é essencialmente a minha e não o destino genérico de uma espécie de que sou simplesmente membro de número, é a morte que me constitui com irrepetível propriedade. O mesmo professor madrileno, aliás, no seu Diccionario Filosofico (Editorial Planeta, 1995; tradução portuguesa de Carlos Aboim de Brito nas Publicações Dom Quixote, 2010, donde tiro as citações) diz, ele próprio, na entrada Morte: Não o facto da morte e sua espantosa frequência estatística mas a certeza da morte, como destino próprio e de todos os nossos semelhantes, conhecidos ou desconhecidos, odiados ou amados... essa certeza universal é que nos converte em humanos. A previsão certa da morte - própria, alheia - é a diferença específica da estirpe humana, não a razão ou a linguagem. A segurança da morte é o único segredo que conhecemos de todos os nossos semelhantes e também de nós mesmos, embora intimamente permaneçamos incrédulos perante tão fatal perspetiva.  Assim, para o incréu Savater, isso a que, Princesa de mim, chamamos espírito, o nosso espírito, nasce da presciência da morte. Escreve: Que significa ter espírito? Não é gozar de algum misterioso elemento sobrenatural misturado com o barro comum da nossa natureza nem sentir o latir do imortal dentro do que tem de morrer, mas sim o contrário. Ter espírito é sermos conscientes de que não podemos dar o nosso corpo por garantido (como fazem o resto dos animais que, por isso, chegam a ser muito espertos mas nunca espirituais); ter espírito é dar o corpo por perdido e amá-lo assim, na sua marcha e no seu quebranto. O espírito é a celebração do corpo (do complexo de vida e mundo que corporalmente se manifesta) porque valentemente ainda vive no seu resvalar certo para a morte. O espírito não é, pois, o que nunca morre, mas o que sabe sempre que vai morrer.

 

 

   Aqui chegado, o leitor que sou lembra-se do que escreveu, e muito daquilo que te disse, sobre o amor, em tantas cartas. O amor que é a única vitória possível para um ser em relação, como sempre defino (ou indefino) o ser humano. E volto a recordar o São Paulo que nos fala da permanência única do amor. Curiosamente, o artigo de Fernando Savater sobre a morte encerra-se com um poema do argentino Macedonio Fernandez, que foi precedido por considerações que, sem o desligarem de Heidegger, o aproximam do cristão que eu sou e continua a repetir a pergunta: Ó morte, onde está a tua vitória? Escreve o madrileno: A morte permanece e continua a permanecer inassimilável. Talvez tenha sido precisamente isso que pretendeu Espinosa ao assegurar que o homem livre em nada pensa menos do que na morte e toda a sua sabedoria está concentrada na vida...   ...O pensamento morre quando aceita que o seu tema mais próprio é mergulhar na morte, apropriar-se dela. Em contrapartida, os poetas assumem a morte mas opondo-lhe a outra grande força que nos individualiza, que nos personifica: o amor. O incompatível com a morte não é viver (a vida exige a morte) mas amar: o amor desconhece a força da morte, embora amemos a partir da consciência da nossa mortalidade e da do amado.

 

   A revelação íntima do Evangelho está bem dita, para mim sempre esteve, Princesa, na 1ª Carta de São João, no capítulo 4º, de que destaco os versículos 7 e 8: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e seja quem for que ame nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é amor. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, venceu a morte. Os três últimos versos do poeta argentino que Savater cita:  Pouco mais a Morte logra, pois não pode / entrar seu medo no peito onde Amor pode. / Que a Morte rege a vida; o Amor a Morte.

 

   O rapaz de mim que escreveu aquelas linhas num simples caderno de apontamentos tinha então vinte anos. Foi por essa altura que conheci o Ruy Belo, com quem conversei muito. Meia dúzia de anos depois (em 1966), ele publicava, pela Ática, o seu Boca Bilingue. Lembrei-me hoje, ao ver-me ao tosco espelho de um velho caderno de apontamentos, de uma das Sete Coisas Verdadeiras que o poeta ali recorda, com o título de Em Cima de Meus Dias, poema de que transcrevo as duas primeiras estrofes, por tão minhas as sentir neste momento:

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse 

          e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida

          e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

 

          Muita gente me tem falado a meu respeito

          mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece

          e já nem sei ao certo quantos dias meço

          Regresso com o gado contra o sol rasante

          Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas

          aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

 

   Olho para dentro de mim e talvez encontre a saída de um caminho.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

Embora As Asas

 

Sim, haverá uma colmeia

E nela eu

Abelha

Na minha meia-noite

Numa plenitude de asas

Vou erguer-me

E vou

Parto da noite para o dia

Galgo o mel

E logo vejo

À beira do céu

A estrela azul

Ló onde

O tempo afinal

Entregue ao descanso

Das pedras tecidas com fio de seda e aço.

 

Não, não fui capaz de ser a ave branca

Aquela que flutua na espuma do mar

Meteoro de abelha enfim

Cera de vela

Apenas

Esperança, desejo ou medo

Tudo carmesim enquanto morre

Talvez

Mas sempre as crinas, os tumultuosos cascos

E os deuses, esses atentos e intemporais que somente eles

Não fecham os olhos 

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

Previa-se mais chuva, mas a manhã surpreende-nos com um sol já primaveril. Talvez de pouca dura, mas ofereceu-me uma visita à "minha" cerejeira do Japão, prometedoramente coberta de rebentos anunciadores de sakura em flor, beleza mágica e efémera. Encheu-se-me o coração de memórias do Japão, sobretudo dessa ternura de comunhão com a natureza que nos embala a vida...

 

Lembrei-me dos hanámi, passeios e piqueniques debaixo das cerejeiras em flor (mankai no sakura): fazem-se por toda a parte, no deslumbramento da vida nova, ainda que efémera. Mesmo nos cemitérios: quantas vezes vi, em anos seguidos, centenas de japoneses, sentados em esteiras dispostas sob as árvores das avenidas do cemitério de Aoyama, em Tokyo, petiscando e bebendo saké e cerveja, na alegria da renascença... Pela Primavera, o arquipélago nipónico enfeita-se de muitas e variegadas flores, e campos e jardins alegram-se com elas e com os milhares de japoneses que acorrem a contemplá-las. Mais impressionante do que a tagarelice dos piqueniques, todavia, é precisamente o respeito, a íntima comunhão de todos e tudo nessa contemplação da beleza sempre efémera, renascente, eterna. Ocorre-me agora um poema de Tatsuji Miyoshi (1900-1964), Kiri no Hana, a flor da paulównia, que traduzo para ti:

 

          Subitamente mais fugitivas do que um sonho

          Flores de paulównia deixaram os seus ramos

          E mansamente dançando foram caindo

          Duas três quatro...

          E as felizes levadas pelo vento

          Desceram afagando o teu ombro...

          Que ciúmes tenho

          Dessas flores tão ricas de cor e de perfume

          Que em tardia hora do chão

          Foram recolhidas pela tua mão...

 

   Nem Salomão, disse Jesus, se vestiu com tanta glória.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira