Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, 1516

 

 

CANTIGA

Para mim tanto me monta

ser presente com’ ausente,

tudo vem a ũa conta,

porém mal por quem o sente.

 

Esta conta tenho feita

e fizeram-ma fazer,

com saber

que nada nam aproveita.

Assi que tanto me monta

ser presente com’ ausente,

tudo vem a ũa conta,

porém mal por quem no sente.

 

Como se sabe o Cancioneiro Geral, é uma compilação de poemas de poesia palaciana. Os poemas, são escritos em português na maior parte, mas também em castelhano e abordam diversos temas. Este Cancioneiro reúne a primeira coletânea de poesia impressa em Portugal. Recordar que o siso não é calar mas buscar a poesia. Ei-la assim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Reflexão à verdade

 

A ciência começa com a observação, ou começa quando se não verificam as expectativas que aguardávamos? Como todos sabem, existem variadíssimas opiniões sobre este assunto. Ainda assim se pode dizer que uma teoria que se depara com dificuldades, essa teoria frusta expectativas e levanta problemas para os quais tentamos soluções. Estas soluções, por muito certas que sejam darão azo a novos problemas, a críticas mais engenhosas que as colocarão em causa. Acreditamos que desta forma o nosso conhecimento aumenta à medida que as nossas expectativas são refutadas, à medida que enfrentamos problemas.

 

E que fazer ao que até nós entrou pelos sentidos? Que fazer à nossa tábua rasa preenchida por estes? E que fazer ao que nos chega através de hipóteses ou seja pelo conhecimento hipotético? E como não ter em conta que existe conhecimento inato à partida? Certo é que correções e modificações do conhecimento anterior conduzem ao aumento do conhecimento, tendo por base as expectativas e hipóteses. Todavia, para observarmos temos de ter uma questão concreta em mente que seja resolvida pela própria observação, e aqui, recordo Darwin e o pouco que sei do seu conhecimento imenso, mas lembro que ele escreveu “Como é estranho que alguém não veja que toda a observação deve ser a favor ou contra uma opinião qualquer…”. Assim será que a observação vem depois da expectativa ou da hipótese e os problemas da perceção deveremos remete-los à filosofia ou, mais precisamente à epistemologia?

 

Colocando aqui ainda a base que virá de um problema teórico ou prático, temos sempre de nos familiarizar com ele, fazê-lo suportar soluções inadequadas para as criticarmos, trabalharmos o problema, sabermos das suas ramificações e as suas relações com outros problemas, aprender determinando os erros cometidos.

 

Diga-se que tudo o que tentei dizer esteve ligado ao abordar da verdade, pensamento com o qual iniciei este texto. Ora, bem creio que a poesia não aborda a verdade, mas bem creio que chega mais próximo da verdade que outra qualquer forma de literatura, e esta realidade que afirmo não é desprovida de significado, se porventura não nos esquecermos de a tentar melhorar com o rigor e a exigência da palavra que exprime o sentir que mais corresponda a uma aproximação da verdade.

 

A poesia tem em si uma metodologia sólida que não deve colocar em causa o modelo da transmissão do sentir da realidade apreendida e sempre posta em análise, e só assim pela reflexão de algo anterior que nos surge, chega o aproximar do real conhecimento do poeta em busca do princípio sagrado do dizer.

 

Teresa Bracinha Vieira
 

(1) (v. More Letters of Charles Darwin, organizado por Francis Darwine A. C. Seward Appleton, Nova Iorque, 1903, volume I, p, 195)
(2) (Cf. G. Polya, How to Solve it, Princeton University Press, Princeton, NJ, 1948.

CLAUDE ROYET-JOURNOUD

 

Claude Royet-Journoud nasceu em 1941 em Lyon. A legendária revista Siècles à main lhe devemos entre muitas dívidas como as de ser um tradutor excelente de George Oppen ou ter publicado Louis Zukofsky.

 

Claude tem livros traduzidos em grego, espanhol, dinamarquês, inglês e português. Em 1991 publica uma outra antologia em colaboração com Emmanuel Hocquard, referimo-nos a Un Bureau sur l’Atlantique. Em 1984 já tinha surgido pela Gallimard Les Objects contiennent l’infini por entre as suas inúmeras publicações. A Relógio d’Água apoiada pelos Serviços Culturais da Embaixada de França em Portugal e pela Direção do Livro do Ministério da Cultura francês, publica em 1993 o livro Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje, sob a coordenação de Guilhermina Jorge, Jean-Pierre Léger e Etienne Rabaté. Deste livro retiramos uma sempre excelente tradução de Pedro Tamen a poema de Claude Royet-Journoud de Les Objects contiennent l’infini

 

a gaze coloca-se na boca

«destaca-se da fábula»

 

se fala no meio da imagem

 

O frio bloqueia as articulações

comércio

dos objetos da memória

                                   

                                     mesmo junto do acontecimento

                                     ela faz-lhes as vezes de alfabeto

 

Diria que desta poesia se evoca a concavidade de um abraço acolhedor do futuro de um homem que procura e sabe já o que quer. Não se sabe o que resultará daí, mas tudo anda perto de um universo em desordem quando outro regaço se não quer. A amante surge sempre como aquela que aprisiona o trovador cativo. Esta amante será sempre o pensamento dentro do turbante que se desenrola ao longo da escrita de Claude Royet-Journoud.

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Morreu, neste último 16 de janeiro, a poeta suíça francófona Anne Perrier. Perfaria, a 16 de junho próximo, 95 anos. Filha de mãe alsaciana e pai suíço valdez, ela católica, ele calvinista, ambos não praticantes, Anne Perrier converter-se-ia à confissão católica aos 32 anos de idade. Recebeu vários prémios literários, dos quais quero destacar, não o Grand Prix de Poésie, o mais importante, mas o Rambert, pois lhe foi atribuído pelos poemas reunidos em Lettres Perdues, um ciclo dedicado àquele que ela chamava seu irmão de cristal, o poeta português Cristovam Pavia, da geração e amizade de Pedro Tamen, M. S. Lourenço, João Bénard da Costa, Nuno Cardoso Peres (hoje o dominicano frei Mateus), que se suicidara. Em homenagem a esse encontro de poetas, e a todos os que procuram caminhos de Deus no canto e meditação das palavras, deixo-te aqui a minha tradução dos primeiros daqueles poemas. A série das Lettres Perdues é uma sucessão de composições sem título, nem pontuação, com maiúsculas apenas a marcar versos ou ritmos. A poeta, cujo pai, arquiteto nascido em Viena, gostava de levar com ele a concertos de música clássica, chegou a hesitar entre a entrega às letras ou à música. Creio que acertou na opção, pois as palavras que nos deixou dizem-nos lindamente a limpidez do seu olhar espiritual.

 

                              Pelas frinchas da eternidade

                              Falaremos juntos

                              Procurando os nossos sopros

                              Pouco a pouco deixando as nossas vozes

                              Reacordarem-se

                              Tu céu eu terra

                              Falaremos muito tempo muito

                              Até que o verão

                              Nos cubra de flores campainha

 

                              À minha volta as grandes flores

                              Amordaçadas pelo dia

                              Meu coração como o mar

                              Se retira

                              É meio dia

                              Meia noite?

                              A hora prenhe de folhas mortas

                              Dobra-se

                              Meu irmão entre a salva e a sombra

                              Repousa

                              Que o dia sobre o dia

                              Cruze as suas trepadeiras

                              Vês

                              A morte cheira a erva e a orvalho

                              O teu coração está cheio de grilos 

                              Repousa

                              Meu irmão entre a menta e a sombra

                              Para ti

                              O tempo seca num ervário

                              Eu à beira da terra

                              Ainda espreito

                              A próxima partida dos pássaros

                        

Por florestas e fetos Por mil nascentes Pelas águas do abismo Pela neve inacessível Meu irmão te chamo

                              Como queres que durma?

                              De uma a outra chuva

                              Tanta pimenta nos olhos

                              Oh! no vento de outono

                              Este nunca mais

                              Como janela que bate

                              Esse infinito bater de asas!

                              Se buscasse frutos flores

                              Nada acharia

                              Altíssimo no céu

                              As nossas almas se cruzavam

                              Como cotovias

                              O espaço foi o nosso reino

 

   Convido-te, Princesa, a entrares comigo nesta comunhão de dois grandes poetas, transcrevendo aqui dois poemas de Cristovam Pavia, pensandossentindo que ele e Anna Perrier estão a falar juntos, procurando o acordo das suas vozes no eterno reino do infinito espaço. 

 

                            Estamos juntos quando nos vencemos e nos purificamos dia a dia,

                            e quando rezamos a Deus, e pedimos mais purificação...

                            E quando um descanso grato e humilde é a recompensa.

 

                            Estamos juntos, quando a Poesia nos toca

                            e entramos como reis no Reino do Silêncio...

                            Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo

                            em nós amadurece...

 

                            Estamos juntos, quando a noite é fria e o calor custa a suportar,

                            quando a solidão é mais solidão

                            e vemos como na boca de tantos a palavra Amor é profanada...

                            Oh! Ainda que nos separem Oceanos,

                            estamos juntos, bem juntos, bem o sabes, numa profunda
                            companhia!
         

 

                           Na noite da minha morte

                           Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...

                           E os campos libertos enfim da sua mágoa

                           Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

 

                           Na noite da minha morte

                           Ninguém sentirá o encanto antigo

                           que voltou e anda no ar como um perfume...

                           Há-de haver velas pela casa

                           E xailes negros e um silêncio que eu

                           Poderia entender.

 

                          Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar

                          Vejam subitamente...

                          Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,

                          E mesmo que tu não saibas de onde vem nem porque vem

                          Talvez só tu o não esqueças. 

 

   Não resisto, Princesa - por achá-la tão clara de verdade e beleza - a transcrever ainda a Epígrafe de Cristovam Pavia:

 

                          Um barco sem velas

                          E sem rumo

                          Singrando um mar de fumo,

                          Mas descobrindo estrelas...

                          Nisto me resumo.

 

   E vai, no seu francês original, a resposta que, imagino eu, Anne Perrier lhe teria dado, quando escreveu:

 

   Je pense, ou je rêve à une manière de "posséder comme ne possédant pas", de prendre en acceptant de perdre aussitôt, je rêve à des gestes désappropriés, à une sorte de possession aux mains ouvertes où le chant passerait comme l´eau entre les doigts. Fala aqui a mesma poeta que confessou (agora traduzo):

 

                            Paro por vezes debaixo de uma palavra

                            Precário abrigo da minha voz que treme

                            E luta contra a areia

                            Mas onde está a minha morada

                            Ó aldeias de vento

                            Assim de palavra em palavra passo

                            Ao eterno silêncio

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

MARIANA BERNÁRDEZ: “los que escribimos todo el tiempo estamos leyendo”

 

Mariana Bernárdez nasceu na cidade do México em 1964. Poeta e ensaísta cedo se debruça pelas ciências da comunicação colaborando em inúmeras revistas e não descuidando, todavia, uma formação em Filosofia entre outras áreas de investigação. Debruça-se com particular interesse sobre a análise da experiência quotidiana desamparada entre a violência e o fazer face aos meios de comunicação, entre a guerra do individuo com o seu próximo e consigo mesmo numa desesperança inconsolável.

 

Hoje venho propor uma leitura do seu livro de poesia “Escreve-me nos olhos” numa tradução de Nuno Júdice para a Glaciar. Este livro constitui uma edição bilingue e desafia-nos à interpretação das realidades passadas para que se tente saber até onde se entendeu o jogo, na altura e no agora e no onde, e como decifrar a desconexão que nós próprios fomos capazes de viver sem a termos sentido. Confusões também muito próximas do lugar-comum. Exercícios de mando sobre outrem convocando dores que os justifiquem.

 

Devolves-me o mar

diverso daquele que acompanho a infância

viver será só esse alcance?

 

Pergunta Mariana neste poema? E acrescento: pode afinal esta realidade ser apenas como uma notícia da semana passada? e no entanto existiu qualquer coisa que viveu numa suposta limusine de estrelas de afeto ou este, quantas vezes, poderá não ter sido mais do que pedaços de colchão insuflável do nosso coração que oferecemos tantas vezes quantas as necessárias a que o nosso amor se não magoe, tantas que o fizeram dele mesmo desistir.

 

Assim interpretei.

E a poeta acresce

 

Vamos ao contrário

de dentro para fora

porque perguntas o que já sabes?

(…) Escríbeme en los ojos o encuéntrame en sus aguas

 

Teresa Bracinha Vieira

O meu alimento é agora

 

Sou uma linha

Que se confia ao vento

De um pensamento de Pessoa

 

Levo amigos

Levo ninhos

Levo o que intuo de Fernando

 

Desço ao passado

Habito no futuro

Mas o meu alimento é agora

 

Esta curiosidade da luz

Esta inquietude constante

 

Elementos vitais

Vida

Pressentida nas singularidades

De outras

 

Infinitos mundos

Viagens, venturas

Até onde

 

Assim eu possa

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2017

ROGO

 

E o amante é

Aquele

Que soube ser

Uma mariposa

Antes mesmo

De ser amante

Antes mesmo de existirem árvores

Ou céus sem estrelas perdidas

 

O amante é

Aquele

Cujo instante de eternidade

Recordará

Quem parte indo ou ficando

Depois de ser nomeado

Verde vizinho

Realidade

Ponte

Que o ama por mais tempo

 

Naquela fórmula aqui

Apátrida

Seu lugar

Onde e aonde

 

As acácias em flor

Nós

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2016

Bem-aventurança

 

Da janela

Um pássaro

De recados

Transmitiu-me

Que o que seja

Há-de andar rápido

Ou não voasse a minha poesia

Para a tua direção

E eu máscara

E eu mulher

Loucura que finge não sentir dor

E tu

Tu

Sei que nunca encontraste

Uma magia de amor

Tão cheia de intenções

Que há tempos que

Não termino uma coisa

E aqui estou

Mais outro resto de noite

Por contar

A estender-te o coração

O peito, a mão e o olhar

E eis-me a mulher que bem conheces

Agora a dizer-te

De um ponto de vista diferente

Que em salvação morrerei

Sendo sempre capaz de te amar

A partir dessa experiência que não conheço

Mas que há-de ser a mesma

Contida no recado do pássaro

E que reside na história que vive

Dentro de ti, de mim, de nós

E que não sendo impostura

O que quer que seja

Há-de andar rápido no para sempre

Ou não voasse a minha poesia

Para a tua direção

Nossa

Ou não fosse escusado dizer

Que esta é a minha história

Tu

E que só irei embora depois de roubares

Dela a minha parte

Tu e eu

Embrulhados na árvore que ambos já tecemos

À espera do beijo, beijando-nos sempre

E enfim, restará a espera

De ouvir bater o meu caminho

Naquela canção que te escrevi

Em ti

No quanto

A minha provocação foi

Quando nos amávamos

Sem que fossemos mais uma experiência

Antes uma noite de magia e eu

Tu

À espera que esta verdade

Fosse a cura

Na busca das palavras 

Que assim te canto

 

Teresa Bracinha Vieira

2016  dezembro