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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PERGUNTA

 

Ao longe o encontro

Com a ilha escarpada

Sob um céu de presságio

Aguardava-me em jeito de chamamento.

E mal olhei para o disco do sol

Um cobre fundente descrevia-me

A rua dos heróis antigos.

Tentei atravessar o enigma

E abraçar a violenta e vã esperança

Na qual retomara sozinha o meu percurso.

 

Quem era? Quem deveras queria o que ainda não cruzara?

O que procurava sem notícia?

E assim continuava esta longa jornada de chegar até mim.

 

Quando jovem superara muitos tons de fogo

E nunca mais sendo o que fora

Naquele fim de terra agora

Um outro eu

Aquele que na errância perseguia

O sentido do seu viver

Do seu tão longo caminhar

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 17

PEDRO MEXIA

 

Coordenador da coleção de poesia da Tinta-da-China, cronista, crítico literário, é um dos membros do Governo Sombra, foi diretor interino da Cinemateca Portuguesa, é um extraordinário poeta, tradutor excelente e entre múltiplas atividades exercidas com a qualidade que lhe é prumo constante, organizou também um volume de ensaios de Augustina Bessa-Luís, Contemplação Carinhosa da Angústia e, Deus como interrogação na Poesia Portuguesa com Tolentino Mendonça.

 

Escuto-o com atenção e leio-o, tendo sempre presente que lhe encontro uma certa tristeza inescapável que, para mim, lhe serve de fundamento à verdade, estando esta na base da sua perceção num mundo extenso de curiosidades quase todas escolhidas. Às vezes, quando nos identificamos com as posturas de alguém é porque surgem similaridades que temos como reais e “partilhadas”. Em mim a melancolia e a capacidade para a superar são a base da vida do intelecto e creio sentir esta realidade em Pedro Mexia.

 

Ando mão na mão com o seu livro uma vez que tudo se perdeu.

Releio

 

Amigo Inimigo

|Dylan Thomas|

 

(…) tu meu amigo

(…) que escondias a mentira quando ousadamente devassavas

o meu segredo mais desamparado

(…) Convoco-te agora para que te assumas como ladrão

(…) Foste outrora aquela criatura tão franca, tão alegre,

um parente que nada exigia

e que eu nunca quis defraudar,

enquanto deslocavas a verdade na atmosfera.

 

E sobre a poesia de Thomas Hardy, pode ler-se neste livro:

«o tempo passa nos poemas. O tempo é o meio através do qual o presente se torna irrecuperável, e no qual a observação se torna memória.(…)

a esperança e a felicidade destruídas, simplesmente porque o tempo passa»

 

E

 

Quarenta e Dois

 

(…) Escrevo, mas tudo o que escreva está submerso pelo queixume

dos pássaros que enchem as arvores e se ouvem no futuro.

 

Inelutavelmente, as nossa futuridades também surgem de profiláticas autoilusões, e bem creio que Pedro Mexia sabe que de um modo ou de outro a esperança sofre de um vício de frustração e ainda assim é a responsável pela luz da madrugada.

 

Este o modo como leio a escrita deste poeta de que tanto gosto: Pedro Mexia.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

A VIDA DOS LIVROS

 

De 3 a 9 de julho de 2017.

 

Quando António Nobre publicou em Paris, em 1892, «Só», a poesia portuguesa deparou-se com uma obra única, difícil de definir, com reminiscências românticas, pendor melancólico, um sinal nitidamente simbolista e uma originalidade que a liga á criatividade da língua, de acordo com sensibilidade popular de Garrett e Júlio Dinis.

 

 

SENTIMENTO TRÁGICO

Poucos poetas assumiram tão íntima e pessoalmente o drama de um povo, caído na contradição suprema de ter um passado glorioso e um presente sujeito à humilhação. O «Ultimato» inglês resume esse momento dramático de incapacidade nacional, que se projeta nas angústias individuais. Conhecedor das novas correntes literárias, António Nobre não segue um simbolismo de escola ou de cartilha. Prolonga a tradição lírica, vinda dos trovadores, de Bernardim Ribeiro e sublimada em Camões, e procura na genuína língua portuguesa uma interpretação própria, baseada num diálogo melancólico, que articula a história trágico-marítima e o sentimento contraditório da saudade. E no desenvolver de um diálogo vital que o poeta se singulariza. «Georges, anda ver o meu país de Marinheiros, / O meu país das naus, de esquadras e de frotas! / Oh as lanchas dos poveiros / A saírem a barra, entre ondas de gaivotas! / Que estranho é! / Fincam o remo na água, até que o remo torça, / À espera de maré, / Que não tarda aí, avisa-se lá fora! / E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, / Clamam todas à uma: "Agôra! agôra! Âgora" / E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo / (Às vezes, sabe deus, para não mais entrar...) / Que vista admirável! Que lindo! Que lindo / Içam a vela, quando já não têm mar: / Dá-lhes o Vento e todas, à porfia, / Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, / rosário de velas, que o vento desafia, / A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas: / Senhora Nagonia! / Olha acolá! / Que linda vai com o seu erro de ortografia... / Quem me dera ir lá! / Senhora Daguarda!». Dir-se-ia que nesta passagem se ilustra a razão de ser de uma independência e de um coração aberto – de lembrança e desejo, gosto e amargura, «mal de que se gosta e bem de que se padece», na expressão de Francisco Manuel. O «Só» é o livro mais triste que houve em Portugal – mas como compreender a sua oportunidade, quando Garrett e Júlio Dinis, que Nobre tanto admirava, souberam pôr em comum paradoxalmente a melancolia e a genuína alegria dos dias solarengos? E quando se travaram de razões Ílhavos e Bordas-de-Água – foi o mar que prevaleceu sobre o toiro, no testemunho de Garrett - «os campinos ficaram cabisbaixos; e o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo». Não está em causa o reconhecimento para ambos, mas a importância maior de enfrentar as vagas implacáveis, para cuidar da vida e da sobrevivência.

 


O MAR E A VONTADE DOS PORTUGUESES
O mar e a vontade dos portugueses são as razões da nossa independência para Alexandre Herculano. No entanto, o fim do século XIX trouxera-nos a triste consciência de que tudo agora parecia vão. Unamuno chamou-nos «país de suicidas», impressionado com o momento dramático de contradições supremas. Era um excesso simplificador, que o mestre de Salamanca amenizou considerando a metáfora do purgatório. António Nobre é símbolo dessa estranha e singular circunstância. «…Saudade! Saudade! Palavra tão triste / E ouvi-la faz bem: / Meu caro Garrett, tu bem a sentiste, / Melhor que ninguém…». Muitas vezes deparamo-nos com esse trágico cruel do autor do «Sentimento Trágico da Vida» e temos consciência de que há aí uma certa injustiça. Mas, ao lermos, o autor de «Lusitânia no Bairro Latino» parece-nos que podemos compreender, com as limitações naturais… Depois das ilusões sobre como se poderia chegar à civilizada Europa, a dívida pública, a periferia, a instabilidade, a incerteza prevaleciam. «Amigos! Que desgraça ter nascido em Portugal». Urgia romper com o fatalismo. Antero de Quental traçara a linha que definira a fronteira da decadência, mas num grito de alerta recusara o fatalismo do destino. E se Unamuno fala de uma tendência suicida (de Camilo, Soares dos Reis, Antero e Laranjeira), também aponta para a existência de um século de ouro português e nesse ponto foi profético, pois descobriu energias escondidas, que funcionaram como uma pulsão de Renascença… E António Nobre simboliza a ambiguidade da tristeza e da revolta, num crescendo de dor («Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Cala, ó Job os teus ais / Que os tem maiores este filho de seus Pais»)… Do que trata é de maximizar a melancolia, como exercício de exorcismo que procura dar sentido á «terra encantada, cheia de Sol», aos campanários, às luas-cheias, à lavadeira, às ermidas, aos sinos das aldeias, à ceifeira que cega cantando, ao moleiro das estradas, aos carros de bois, chiando, às flores dos campos, aos beiços de fadas, aos poentes de julho, aos choupos, aos luares e às regas de verão… No fundo, há vida para além da dor. Há contradição? Garrett dissera que Camões tivera a desventura de não ser romântico. Muitos demos graças aos céus pelo anacronismo. António Nobre quis-se intérprete de um momento trágico e a sua vida e a sua poesia misturam um drama existencial e uma experiência coletiva. Não há contradição – há, sim, exacerbamento da melancolia, como marca de emancipação. E o sebastianismo funciona, não como justificação da inércia do destino, mas como exigência de superação da decadência e da desistência. Como José Carlos Seabra Pereira tem salientado, a geração de 90, em que Nobre se insere, assume o combate do positivismo e do naturalismo pela inquietação metafísica, e assim procura considerar os mitos como meios libertadores pela crítica. Daí o carácter contraditório da poética do «Só». E Unamuno, mais do que simplificar sobre o que Portugal seria verdadeiramente, fala-nos de um «Purgatório de almas» e nele de uma ânsia libertadora. É disso que se trata quando deparamos com a dramaturgia de António Nobre.      

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Terminava a minha última carta, traduzindo-te um haiku do Kobaiyashi Issa, poeta que viveu de 1763 a 1828, bem depois de Basho. Jiro Taniguchi inclui-o no seu Furari, creio que por ser contemporâneo de Ino Tadataka, sob cuja direção se mediu e desenhou o Dai Nihon enkai yochi zenzu (1832), o primeiro mapa completo do território e mar do Grande Japão. Para o efeito, utilizaram-se técnicas europeias que, já no período Edo, antes mesmo da era Meiji, - na qual, erradamente, te disse que Tadataka Ino ainda teria entrado - começavam a "modernizar" o Japão. Terá sido esse cartógrafo, ou um seu colaborador, o inspirador da personagem sem nome do herói de Furari. O poeta Issa que, menino ainda, perdera a mãe e foi malquerido pela madrasta, tinha também hábitos peregrinos e um olhar cheio de ternura pela natureza e pelas pessoas, sobretudo as crianças e os mais fracos. Cedo perdeu os seus quatro filhos, deixando-nos este haiku pela morte do último sobrevivente, comparando a insignificância deste mundo e desta vida com a eternidade no paraíso de Buda:

 

          Tsuyu no yo wa

          Tsuyu no yo nagara

          Sarinagara

 

   É tempo de nada / de despedida de nada / despedida só - traduzo eu, muito livremente. Mas nota bem: neste, como noutros, em português, conto, ao nosso jeito, 5-7-5 sílabas.

 

  (Vou guardando cá por casa os meus achaques, distrai-me e até me alivia este meu entretenimento com letras japonesas) 

 

   E faz como eu: conta também,em cada verso japonês (aqui posto em caracteres latinos ou romaji), as suas 5-7-5 sílabas, somando 17 no haiku inteiro, o verso nipónico sendo sempre um penta ou um heptassílabo. Diferentemente da língua chinesa, que é pobre foneticamente, servindo-se mais de tonalidades do que de diversidade de sons, o japonês tem uma fonética comparável, por exemplo, à do italiano ou do português, sendo cada sílaba formada por uma consoante e uma vogal. Todavia, a poesia nipónica não procura a rima, antes a evita. Por outro lado, é evasiva, o poema japonês é, por regra, inconclusivo, por vezes até só uma impressão da qual o próprio autor se ausenta. Como neste haiku de Basho (1644-94):

 

          kumo no mine

          ikutsu kuzurete

          tsuki no yama

 

que traduzo assim:  cúmulo de nuvens / descompõe-se em muitos flocos / montanha de lua...

 

 Escolhi-o por acaso, mas ocorre-me que o mesmo serviu para o seguinte comentário do professor Donald Keene, da Columbia University (New York), quiçá um dos ocidentais que melhor conhece a literatura nipónica: Um poeta ocidental teria provavelmente acrescentado uma conclusão pessoal, tal como D. H. Lawrence no seu Moonrise, em que diz que aquela visão lhe deu a " certeza de que a beleza é algo para além do túmulo, essa perfeita experiência do brilho nunca cairá no nada". Eis algo que nenhum poeta japonês diria explicitamente: ou o seu poema o sugere, ou então falhou. Os versos de Basho acima citados terão claramente falhado se o leitor acreditar que o poeta ficou impassível perante o espetáculo que descreve. Mesmo para leitores sensíveis às qualidades sugestivas do poema, a natureza da verdade percebida por Basho diante da súbita aparição da montanha iluminada pela lua variará consideravelmente. Na verdade, Basho consideraria falhado o poema se este apenas sugerisse uma experiência de verdade. O que os poetas japoneses mais frequentemente procuram é criar com poucas palavras, o mais das vezes através de algumas imagens insinuantes, o enquadramento de uma obra cujos pormenores devem ser fornecidos pelo leitor, assim como numa pintura japonesa umas poucas pinceladas podem sugerir um mundo inteiro. Eis também porque pensossinto que traduzir poesia japonesa é como tentar captar o etéreo, tanto ela nasce de surpresas íntimas e instantâneas. Cada leitor sentirá a seu modo revelações de um poema surto noutro tempo. A forma poética normaliza comunicações, não comanda conteúdos.

 

   Sendo fraquíssimo conhecedor do idioma nipónico, tenho lido toda a literatura que me chega através de traduções francesas ou inglesas. Mas sempre que se trata de encontrar uma versão portuguesa para algum curto texto, um qualquer conceito que repute importante, ou, sobretudo, um poema, encho-me de brios, deixo de contar o tempo a consumir, e atiro-me à obra. E ora decifro kanji (que me parecem fundamentais para o entendimento de certos conceitos e certamente do significado de nomes de pessoas, épocas e lugares) ou vou em busca de transcrições em romaji, que directamente traduzo, servindo-me rigorosamente do Dicionário Universal Japonês-Português, do padre Jaime Cepeda Coelho, SJ., querido amigo -para cuja edição pela Shogakukan, Tokyo, em 1998, também dei a minha ajuda -, mas sem esquecer A Guide to Reading & Writing Japanese (Charles E. Tuttle Co. Inc., 1959), pelo apoio que me dá ao reconhecimento dos romaji em caracteres sino-nipónicos. Fundamental. Não será obra, mas dá trabalho. Trabalho muito compensador, pois me aproxima mais das origens e espírito dos textos, e me traz um entendimento novo. Já agora, Princesa de mim, deixa-me dizer-te que esse esquecimento das nossas raízes, que me aflige, e de que tanto te tenho falado, essa transformação da memória e da cultura do espírito das nossas sociedades hodiernas em vagos registos efémeros, me recorda com frequência aquela imagem dada pelo Zygmunt Bauman: a dos registos magnéticos, em fitas ou discos, ou no que for, que depressa se apagam e substituem. Já não sabemos quem somos. Tampouco saberemos o que quer dizer muito do que dizemos: a nossa errante levitação audiovisual, acompanhada de novas ortografias e da ignorância geral das raízes da nossa língua, parece-me que nos corta o entendimento... Mas estou mesmo velho. Novo é ainda o professor Toru Maruyama, da Universidade Nanzan, em Nagoya - com quem mantive longas e amigas conversas - que se dedicou à aprendizagem do português só para poder restaurar a fonética da língua japonesa nos séculos XVI//XVII, já que a transcrição da mesma era feita, nesse tempo, pelos jesuítas portugueses ... em romaji ! Com o padre João Rodrigues, o tçuzu (intérprete), à cabeça, inventaram um sistema de transcrição que ainda hoje funciona! E a mim, por exemplo, me ajuda a dizer um haiku. Sem todavia me esquecer de chegar o melhor possível ao original, mesmo não tendo quaisquer pretensões a tradutor de poemas nipónicos, coisa que faço só por gosto, para afinal recitar a minha induzida inspiração. Assim, qualquer "haiku" meu é apenas o que essa palavra quer dizer em dois kanji lidos da direita para a esquerda: verso (ku) por graça ou gosto (hai). Just for fun. Sobretudo quando manhas de saúde não me deixam sair de casa...

 

   Waka é, originalmente, desde o século VI, a designação da poesia japonesa, para a diferenciar do kanshi, ou verso chinês. Na verdade, este, composto em chinês por poetas chineses ou japoneses, não se casava com a poesia oral nativa, a Yamato no uta, ou canto do Japão Antigo (Yamato), pelo que foi este sendo registado em escrita sínica japonizada, obedecendo então a novas formas poéticas. Assim, o poema japonês de 31 sílabas (5-7-5-7-7) ou tanka (canto breve ou poema curto), torna-se a forma dominante do waka, confundindo-se com ele, contrapondo-se ao chosai ou poema longo. Surgem também, pela cultura nova de uma língua japonesa escrita:

 

 1- o renga, poemas encadeados (como uma "desgarrada"!), que se encontra já no Kojiki (registo das coisas antigas, de 712) e é, na sua forma mais simples, um tanka cujos três primeiros versos são escritos por uma pessoa e os dois últimos por outra; lembra-me um pouco a nossa tradição de mote e glosas ou voltas, ao reparar em que, no decurso da era Heian, era passatempo de cortesãos, em que o segundo compositor procurava coroar os três versos do primeiro; mas, na verdade, o renga era muito praticado nos mosteiros budistas e entre poetas populares, e, afinal, podia desencadear-se quase sem fim  --  um dos seus estilos tornando-se conhecido por haikai, no sentido de ligeiro, livre, simultaneamente, de regras restantes das composições chinesas e de temas sempre sérios;

 

 2- o hokku, que é esse terceto inicial, dará origem a outra forma poética, largamente praticada ao longo de séculos, e hoje internacionalmente reconhecida e imitada, ainda que só no XIX lhe seja atribuído o nome de haiku; o primeiro terceto pode pois ser glosado como mote, mas ir-se-á chamando haikai ao que, originalmente, mais não é do que a autonomização do hokku, isto é, a "promoção" do primeiro terceto de um tanka renga a poema independente.  Certo é que se confunde muitas vezes a designação haiku com hokku ou haikai... Mesmo entre poetas e letrados nipónicos surgem, em matéria literária, hesitações e confusões. Para melhor entenderes esse passo de tanka-renga-haikai (haiku), vou buscar ao Shin Kokinshu (Nova Antologia de Poesia Antiga e Moderna, de 1205) um poema de Minamoto no Toshiyori, que traduzo do japonês, com o indispensável auxílio do "meu" dicionário e do "meu" guia de regresso aos pertinentes caracteres sino-japoneses:

 

          furusato wa

          chiru momijiba ni

          uzumorete

          noki no shinobu ni

          akikaze zo fuku

 

   na casa natal / caem as folhas do bordo /  cobrem o chão todo / e vão  prender-se aos beirais / ao sopro do outonal  vento...

 

   Lê, Princesa, os romaji à portuguesa, mas abrindo as vogais todas, e contarás, por esta ordem, versos de 5-7-5-7-7 sílabas. Os três primeiros somam 17 sílabas e, por si, formam aquilo a que se pode chamar um haiku. Os dois últimos, acrescentados por um segundo compositor aos três primeiros, vão formar um renga. Mas se este mesmo poema tivesse sido escrito por idêntico autor seria simplesmente um tanka, com as suas 31 sílabas.

 

    A escrita japonesa faz-se em kanji, ou caracteres chineses, em hiragana, ou caracteres chineses simplificados e cursivos, silábicos e fonéticos, e katakana, isto é, kanji cortados, constituindo um silabário fonético que serve para escrever nomes estrangeiros. Kanbun apelida qualquer texto em chinês clássico, composição literária, mesmo japonesa,  escrita em chinês. É uma prática de escrita, reservada a letrados. De facto, só pelo século VI se começou a escrever no Japão: em letra chinesa, pois do Império do Meio viera a escrita então introduzida no do Sol Nascente. Aliás, os letrados nipónicos começaram por ler e escrever textos chineses, passando depois a utilizar a escrita sínica para redigirem textos em japonês, desde documentação comercial a histórias, lendas e narrativas constantes da tradição oral da cultura japonesa. Progressivamente, foram-se simplificando caracteres chineses, de modo a constituir-se um silabário fonético e a introduzir partículas próprias à sintaxe nipónica. Dos milhares de caracteres chineses, a gramática e a escola japonesas retiveram apenas 1850 - 881 dos quais considerados básicos e obrigatórios - mais uns tantos apenas utilizáveis em alguns nomes ou apelidos pessoais. A talho de fouce, posso acrescentar que também em coreano, que desde o século XVI inventou uma escrita própria, muito diferente da chinesa e das japonesas, os nomes que lemos em cartões de visita, por exemplo, se escrevem em caracteres sínicos...

 

   Como aliás anteriormente te disse, Princesa, cada caracter chinês tem, pelo menos, duas leituras fonéticas possíveis em japonês: a on-yomi (leitura china) e a kun-yomi (nipónica). Mais ainda: um kanji, a compor uma palavra, pode esquecer o seu significado de ideograma, para reter tão só um seu valor fonético. Tal como pode reter ambos: assim, kanbun (nome dos primeiros escritos - em caracteres sínicos, claro, no Japão) - escreve-se com dois kanji, o primeiro (kan) querendo dizer chinês e o segundo (bunescrito (ou composição literária).  As pronúncias são, aqui, sínicas, tal com em kanji, que quer dizer chinesa letra. Bungaku significa literatura, já que bun é o escrito e gaku a ciência, ensino ou aprendizagem da escrita. Ora, nos primórdios da literatura no Japão - ainda no período de Nara - a escrita chinesa e a sua literatura eram apanágio e privilégio dos letrados, apesar de senhoras da corte imperial, já na era Heian, como a célebre Murasaki, autora do Genji Monogatari, terem acesso a elas. Mas, para escreverem (e eram relativamente correntes os diários, cartas, bilhetes e poemas, até porque mandavam as regras de uma corte polígama - onde se insinuavam clandestinas promiscuidades - que só aos maridos as mulheres pudessem mostrar o rosto, pelo que falavam com amigos e amantes, por detrás de um biombo ou outra divisória, e comunicavam, o mais das vezes, através de flores e bilhetes poéticos) recorriam ao silabário hiragana, não só porque esse lhes era autorizado, mas também porque lhes facultava uma expressão mais autêntica, fluente e matizada, do pensarsentir japonês... Aliás, desde muito cedo, os próprios caracteres sínicos foram sendo utilizados para se lerem à japonesa, isto é, sendo ideograma, o mesmo caracter podia ser pronunciado consoante a palavra chinesa correspondente, ou a sua equivalente nipónica, donde as leituras on-yomi e kun-yomi... E logo o idioma japonês se apropriou dos mesmos caracteres para reproduzir sons em textos. Explico: o ideograma chinês shu (mão), poderá ler-se em japonês, com o mesmo significado, mas também como simples sinal fonético na composição de outra palavra. Quando, para tal função, ele é mais simplesmente desenhado ou caligrafado em hiragana ou, mais tarde, em katakana, o fonema serve exclusivamente a língua nipónica escrita, que assim se emancipa do colete da letra chinesa.   

 

   Da primeira antologia escrita da poesia japonesa, a Man´yoshu, já te falei há tempos, ou sobre ela escrevi alhures. Man diz dez mil, yo folha de papel, shu é sufixo para contagem de poemas, posso pois concluir que se fala de dez mil folhas de poemas ou antologia. Na verdade, tal coletânea de poesia japonesa anterior ao ano 759, contém, em 20 livros, 4516 waka, dos quais 4200 tanka (poemas curtos), 265 choka (poemas longos) e mais poucos poemas chineses e notas nesta língua, em também se escreveu o título da compilação. Curiosamente, o caracter usado para folhas (yo) pode, em leitura japonesa, querer dizer, era, reino, geração... Mas de antologias, espírito e inspirações da poesia nipónica te falarei noutra carta. Tal como voltarei ao Genjimonogatari, obra prodigiosa, escrita por uma mulher, e que tanto nos diz da vida da corte imperial e da estética da era Heian, período em que a capital que Kyoto foi, enquanto residência dos imperadores, durante um milénio, acolhia também o governo... O vício do esteticismo e o relaxamento dos costumes da corte fizeram todavia que este acabasse por se instalar noutras partes, começando por Kamakura, onde surgiu o primeiro shogun, Minamoto no Yoritomo em 1192...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

NÚRIA ALBÓ

 

QUE PREGUIÇA

(Quina mandra)

 

Ai que preguiça viver, hoje que não faz vento

e as pedras são prostradas por um calor tardio!

O bosque despiu-se. Há papéis

sujos de humanas misérias. O pudor presente

afoga velhas lembranças de perfumes velhos.

Este é o meu bosque, que apareceu

quando ruíram todos os antigos mitos.

Mas há um júbilo profundo na áspera verdade

e saí a recebê-lo com os braços estendidos.

 

Escritora e política, Núria é uma poetisa a não perder. A sua investigação em Filosofia na Universidade de Barcelona trouxe-lhe claridade e objetividade à escrita tendo colaborado na conhecida revista Inquietud de Vich (em catalão Vic) que se trata de um município espanhol situado na província de Barcelona. 

 

Foi alcaide de La Garriga em 1979 e também neste cargo nunca descurou a importância das artes na formação do individuo, particularmente na formação das emoções como modo de aclaramento dos sentires em maturidade.

 

Autora de livros infantis, de novelas e de poesia, sempre resultou da sua escrita uma falta de cansaço no rebentar dos ferrolhos de cada um para que a luz entre. E assim nós. E assim nós e os navios.

 

Teresa Bracinha Vieira

ANTECÂMARA

 

Envolvia a ânfora e seu segredo

Fonte oculta em que mergulhava

A minha mão

A minha vida

Agora visitante ao mausoléu

Onde a tua

Para não trair o ritmo transbordante do nosso coração

Núbia e ardente se encontrava com a minha

E ambas decifravam forças, saberes insuspeitados

Espaços-encruzilhadas

Danação

Incompletude 

 

Teresa Bracinha Vieira

ILHA DOS AMORES


Não me ouves chamar ó ilha dos amores

Para que hoje te cante e seja esta noite

De novo a tua/ nossa magia

A vara do nosso barco

Teu coração pousado

Doado num abandono

Entregue ao tempo do nascimento de uma mudança

Tão veloz

Que o céu se desenraizou e veio a nós

Suspirar entre beijos

Uma felicidade

Solitária

Nas horas em que tudo se deve consumir como o orvalho

Apertado nos seios das mãos

E o trono

O trono, a espada, a coroa

Altos mistérios

Tudo preso nesta trança vagabunda

Que te ofereço e ofereci

E em ti chamo

Entre nós

E peço, só peço

A formusura das estrelas

De novo

A iluminarem

O caminho dos nossos pés.

 

Não me ouves chamar ó ilha dos amores?

Eu que pedi ao coração para escrever este pobre verso

Ante ti

Porta de mar flamejante

Mâscara de mulher que se expõe e se expôs

 

À tua experiência 

 

Teresa Bracinha Vieira

Abril 2017

For the joy of it

 

A mais alegre entre as manhãs

Foi aquela de Maio

O meu amor passeava-se pela rua

E seus parentes vieram à boda

Assistiram à missa nova

Cantando as epístolas da estrela maior

O meu amor

De rosa na mão

Colocou a carta no correio

Aquela em que agradecia o céu na terra

A casa

O pão

Os beijos do barril de mel

E o meu amor dançou todos os mistérios

De um dia hei-de

Jejuar

Para te amar

E em ti o óvulo

Mais fértil entre as manhãs

De Maio

Quando só uma toda ela

A razão  

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

LOPE DE VEGA

lope de vega.jpg

 

«Lo que cuenta no es mañana, sino hoy. Hoy estamos aqui, mañana tal vez, nos hayamos marchado»

 

«Amada pastora minha,

Teus repentes me maltratam,

Os teus desdéns atormentam-me,

Teus desatinos me matam.

(…) Parti uma vez de ti

(…) ditoso o pastor que alcança

Tão prazenteiro fim de sua esperança!

De pano barato a sela

(…) no peito todas as cartas.»

 

A Assírio e Alvim em março de 2011 assume uma Antologia Poética de Lope de Vega, com uma tradução de José Bento, colocando-nos na mão a possibilidade de entendermos um dos melhores poetas barrocos da literatura espanhola. Nascido em 1562 em Madrid oriundo de família humilde, não lhe faltaram inimigos a acusá-lo de mentiras, nomeadamente sobre eventuais fidalguias a que se dava por familiar e mesmo colocando-se dúvidas sobre a autoria de certos romances. Cervantes, não obstante tê-lo incluído entre os grandes talentos de então, veio mais tarde a torná-lo alvo dos seus ataques. Em 1602 publica Lope de Veja um dos seus livros de poesia mais importantes - 200 sonetos incluem a primeira parte deste livro juntamente com o extenso poema La hermosura de Angélica - e expoente inequívoco do Barroco espanhol. A obra deste escritor pela sua extensão e variedade colocou-nos sempre perante a dificuldade de o conhecermos, desde logo pela falta de acesso a livros seus há muito não editados. Seguramente só um especialista deste lopista acede e rejeita invulgaridades das quais não somos conhecedores. Sabemos que Lope aprendeu muito com o teatro de Gil Vicente, e, também conhecemos esta vontade de expor a pujança e a ousadia de uma escrita que à data ultrapassava e muito o homem e o poeta que ousou ser.

 

Um instrumento, mesmo harmonioso,

em mãos distintas é muito dif´’rente;

a espada no cobarde ou no valente

tem um efeito assustado ou corajoso.

 

(…) pide segurida a la fe griega,

Consejo al loco (…)

Verdade al juego )…) e fruta al polo donde el sol no llega.

 

Vejo e sinto nas palavras de Lope de Veja um noturno filho da terra, mas fonte clara de muitas interrogações.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Entre muitíssimos livros sobre Lope, li apenas José Montesinos, Estúdios sobre Lope de Veja, Edições Anaya, Salamanca, 1967. Por entre edições modernas que foram recomendadas pela nossa Faculdade de Letras, recordo aqui uma edição de Macarena Gómez de 2008, Rimas humanas y divinas del licenciado Tomé de Burguillos.