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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS DOIS TEATROS SÁ DA BANDEIRA

 

É interessante constatar e existência de dois Teatros homónimos, separados por dezenas de anos e centenas de quilómetros, e ambos evocando um nome que não é propriamente uma grande referencia atual às artes cénicas. Referimo-nos aos Teatros Sá da Bandeira do Porto e de Santarém.

 

Realmente, não se diga que o nome de Sá da Bandeira contem hoje um significado especifico nas artes do teatro. E no entanto, os dois Teatros Sá da Bandeira que hoje aqui evocamos assumem função de relevo local e nacional.

 

O Teatro Sá da Bandeira do Porto é o herdeiro de sucessivas salas de espetáculo que, primeiro com o nome de Teatro(s) do Príncipe Real, marcaram a atividade cénica da cidade e mesmo, pode-se dizer, do país. Sousa Bastos, escrevendo em 1908, regista a existência, no local, de três sucessivos Teatros denominados do Príncipe Real: entende-se que a partir de 1910 a designação mudou. Mas em qualquer caso, estamos perante a mesma sala, ou melhor, perante a localização e a tradição de sucessivas salas de teatro, música e artes circenses, que no mesmo local marcam a vida sócio-cultural do Porto.

 

A primeira dessas salas não passava de um barracão de madeira vocacionado para o circo. Resistiu alguns anos, mas foi substituído por um edifício agora “de pedra e cal”, com 21 camarotes e 2 frisas. Este já servia alternadamente para companhias dramáticas, equestres e ginásticas. Passados anos foi de novo demolido para se fazer o que hoje existe” diz-nos então Sousa Bastos em 1908. Escusado será de referir que mudaria em breve de designação… 

 

E é com o nome de Teatro Sá da Bandeira que esta sala referencial do Porto mantem atividade tendo aliás beneficiado de sucessivas alterações e melhorias no interior.

 

Mais moderno é o Teatro Sá da Bandeira de Santarém, este inaugurado em 1924 e construído sobre as ruínas de um antigo hospital denominado João Afonso. A fachada ostentava um arco que fazia lembrar, dizem as crónicas, o politeama de Ventura Terra, esse inaugurado cerca de 10 anos antes. Vocacionado desde a origem para espetáculos de teatro e cinema, o Sá da Bandeira de Santarém funcionou numa primeira fase até cerca de 1977.

 

A Câmara Municipal adquire-o e a partir de 2000 inicia um vasto projeto de restauro orientado pelo arquiteto Alberto Mendonça Gamito.  E tem interesse assinalar que o interior sofre uma total remodelação. Pelo contrário, a fachada conserva muito da estrutura original, em arcos sucessivos encimados por uma varanda com elementos de art-deco.

 

Hoje o Teatro Sá da Bandeira de Santarém ostenta uma lotação de cerca de 200 lugares e, tal como já escrevemos, além da sala de espetáculos propriamente dita, alberga uma sala estúdio, um piano-bar, uma galeria e uma sala de convívio. Foi instalado um teto em gesso e a sala revestida por painéis de madeira. A teia foi aumentada, designadamente pela integração de um edifício contíguo.

 

Mas mais interessante: o Teatro recuperou vestígios do claustro do antigo hospital.

 

E tudo isto valoriza a cidade de Santarém.

 DUARTE IVO CRUZ

TEATRO CARLOS ALBERTO DO PORTO: FUNDAÇÃO, RECONSTRUÇÃO

 

Em 1897, Manuel da Silva Neves, empresário no Porto, toma a iniciativa de edificar o primeiro Teatro Carlos Alberto, inaugurado em 14 de outubro daquele ano com a opereta, hoje esquecida, denominada “O Diabo”. O Teatro tinha na época 252 lugares de plateia, 299 lugares de geral e ainda mais 500 lugares do que na altura se denominava galeria, isto, além de 32 camarotes, numa lotação total de mais de 1200 espetadores, o que é assinalável.

 

Não identificamos os autores da opereta, mas é de registar a iniciativa em si mesma, expressão de uma renovação do urbanismo de espetáculo, à época marcante em todo o país, e por maioria de razão numa cidade como o Porto.

 

Estaria ainda presente a lembrança do incêndio que, em 20 de março de 1888, destruiu o portuense Teatro Baquet, também durante um espetáculo de opereta, provocando algo como 120 mortos. Daí que este primeiro Carlos Alberto fosse construído ainda na memória da tragédia, mas também homenageando o Rei Carlos Alberto do Piemonte, que morreu exilado no Porto.

 

Este primeiro Teatro Carlos Alberto seria o que na época se denominava Teatro-Circo, com palco à italiana, como na época (e em rigor ainda hoje) se dizia, portanto preparado para espetáculos de teatro declamado, mas também com a versatilidade de transformação da plateia em pista de circo, o que desde logo eliminava o declive da sala.

 

Importa entretanto frisar que os sucessivos Teatros Carlos Alberto, que entretanto foram reconstruídos no local, mantêm a implantação e a estrutura do edifício, com alterações do interior e da fachada, mas sem grande mudanças da sala de espetáculos propriamente dita. Ainda assim, é de assinalar as alterações decorrentes da elevação da zona do palco e a reforma do átrio, bilheteiras e áreas de acesso do público. Mais relevante foi a supressão dos camarotes, ocorrida nos anos 30 do século passado, para maior adaptação ao cinema que, durante décadas dominou e exploração do Carlos Alberto: e bem sabemos que não foi o único…

 

Nesse sentido, assinalam-se duas grandes fases de transformação, ambas decorrentes da municipalização do então Cine-Teatro Carlos Alberto, ocorrida em 1993.

 

Desde logo a “transformação” em Auditório Municipal Carlos Alberto, assumindo uma mais vasta polivalência cultural.

 

Mas mais relevante terão sido as transformações e alterações decorrentes dos  investimentos e programas  no âmbito da celebração do “Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura”. O Teatro Carlos Alberto reabre então e retoma atividade como Teatro Nacional. Beneficia de obras de restauro e modernização, da autoria do Arquiteto Nuno Lacerda Lopes.

 

Assim, procede-se à renovação do foyer aberto, no sentido de uma maior ligação do público com a sala de espetáculos em si mesma. Procurou-se reforçar a complementaridade arquitetónica com a sala, através da utilização do vidro para maior acessibilidade das imagens vindas do palco. A sala ganhou também uma maior convertibilidade aos formatos de arena ou à italiana. O equipamento foi modernizado: e sobretudo, aumentou-se a rentabilização do interior do Teatro em função da potencialidade do espetáculo em si.

 

E procedeu-se a outras alterações significativas, sem com isso desvirtuar a tradição oitocentista do edifício.  A zona de produção é modernizada. A sala foi “transformada” em dois auditórios: o chamado Grande Auditório, com 374 lugares, e o chamado Pequeno Auditório, com 150 lugares. E mais: criou-se um anfiteatro ao ar livre, uma sala de exposições e uma chamada teatroteca.

 

E assim se “edificou” um Teatro Carlos Alberto bem moderno, sem destruir o Teatro Carlos Alberto que vem da tradição do século XIX! 

DUARTE IVO CRUZ 

O TEATRO RIVOLI DO PORTO

 

Expressão da Arquitetura de Espetáculo

 

Em 2004, o Instituto Português de Património Arquitetónico – IPAR publicou um vasto e detalhado estudo, programaticamente denominado “Arquitetura Moderna Portuguesa 1920-1970”. Com coordenação científica de Ana Tostões, procede-se ao levantamento, descrição e análise de centenas de expressões de modernidade arquitetónica, e entre elas, um conjunto de teatros e cineteatros.

 

Aí se diz que “se em 1929 o projeto do Cineteatro Capitólio Lisboa marcava a rutura, a verdade é que ao longo dos anos 30 e 40 a campanha de construção de diversos cinemas e cine-teatros por todo o país constituiu processo de atualização alterando programas e vivências” E exemplifica: “Desde o Teatro Rivoli ao Salão Eborense ou ao Cinearte com a experimentação do sistema de vigas belgas a produção do primeiro modernismo define-se entre um gosto «Déco», e um purismo racionalista.”(ob. cit. pag. 351).

 

Precisamente: o Teatro Rivoli do Porto, através de um conjunto de documentos e fotografias, é um expressivo exemplo de modernismo.

 

Mas atenção: tal como aliás referimos em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) o Rivoli prolonga uma larga tradição de espetáculo no Porto. Antes da sua construção e inauguração, funcionou no local um chamado Teatro Nacional, que vinha do início do século XX. Mais concretamente, foi inaugurado em 1913 com um espetáculo que na altura fez-se notar: a opereta “O 31”, de Luis Galhardo, Pereira Coelho e Alberto Barbosa, música de Tomás del Negro e Alves Coelho, que nesse mesmo ano de 1913 – ano relevante para o teatro em Portugal! –  tinha já sido apresentado no espetáculo de estreia do Teatro Eden de Lisboa, e sucessivamente reposto, um pouco por todo o país.

 

Temos pois que no local do velho Teatro Nacional do Porto é inaugurado, em janeiro de 1932, o Rivoli, projeto do arquiteto José Júlio de Brito, que dirigiu as obras a partir de 1928. Vocacionado para espetáculos de teatro e música, logo no final do mesmo ano é instalado um sistema de projeção cinematográfica, e como tal funcionou preferencialmente, dirigido por Maria Borges, que aliás procedeu a obras vastas de renovação do edifício, ainda concebidas e orientadas, numa primeira fase, pelo referido arquiteto José Júlio de Brito.

 

E vem dessa época a construção e instalação do baixo-relevo alusivo às artes do espetáculo, da autoria do escultor Henrique Moreira, ligado ao Rivoli pelo menos desde 1935. (cfr. Rute Figueiredo in “Portugal Património” vol. I, ed. Circulo de Leitores 2006 pags. 362/363).

 

A entrada em gaveto marca assim a estrutura do Cinema e Teatro. Aliás, é oportuno lembrar que o Rivoli foi durante anos quase exclusivamente cinema.

 

Mas agora, no âmbito da Câmara Municipal do Porto, prossegue uma programação vasta e variada, de cariz e qualidade expressivamente cultural.

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

  

De 7 a 13 de novembro de 2016.

Miguel Veiga em «Os Poemas da Minha Vida» (Público, 2004) lembra Wislawa Szimborska: «na língua da poesia, em que cada palavra é cuidadosamente pesada, nunca nada é vulgar nem normal (…) E sobretudo nem uma qualquer existência neste mundo».

 

UMA PERSONALIDADE ESPECIAL
«Menino e moço cedo me levaram os meus pais a ler poesia» - assim começa a apresentação de «Os Poemas da Minha Vida» de Miguel Veiga. Falo de uma personalidade especial. É um paradigma do que há de melhor no Porto – a cidade livre, que acolheu D. Pedro de braços abertos, como sua casa constitucional. Um dia o Miguel disse: «não passo de um buscador do mundo. O segredo da busca é que não se encontra. Nunca se encontra. Acho-me um obstinado errante». Assim, foi sempre fascinante encontra-lo, contar com a sua palavra, com a sua inteligência. Acontece isso comigo há mais de quarenta anos. O seu infinito foi sempre a curiosidade das coisas. Vi-o sempre desperto para compreender o lado misterioso das coisas, mas com uma clareza de espírito digna do nosso Sá de Miranda – de «antes quebrar que torcer». Para ele, política sem ética é uma vergonha. E tem razão. Por isso, pensou sempre por si e agiu segundo a sua consciência. Foi sempre incómodo, Sendo a política a mais nobre das atividades cívicas, tem de ser exercida com independência. E Miguel Veiga sempre me ensinou que temos de estar permanentemente em condições de dizer não., com todas as consequências – sem dependências ou receios. A ética da responsabilidade é a natural contrapartida da ética da convicção. E, sendo um homem de valores, liga o bem, o belo, o bom, o justo e o verdadeiro. O culto da estética é a consequência de uma ética enraizada na vida. Tem a ver com as pessoas de carne e osso, como dizia Unamuno. Daí a compreensão do pluralismo e das diferenças – na linha de Popper e de Isaiah Berlin. Filho de mãe francesa e de pai beirão soube sempre ligar o requinte e a subtileza da cultura parisiense ás antigas raízes do Portugal inconformista e cioso das suas liberdades, que Garrett e Herculano defenderam de armas na mão e também pela escrita e pelo estudo. Em casa de Miguel Veiga, na sua infância, dir-se-ia que coexistiam Descartes e o lirismo lusitano. «Busque Amor novas artes, novo engenho, / Para matar-me, e novas esquivanças; / Que não pode tirar-me as esperanças, / Que mal me tirará o que não tenho…». Quantas vezes ouvimos o Vasco Graça Moura a repetir a supremacia de Camões… E não podemos esquecer como Miguel não esquecia o seu tio Pedro, homem do Movimento de Renovação Democrática (com Domingos Monteiro, Delfim Santos ou Eduardo Salgueiro…) e dos combates pelas liberdades públicas – cujos traços de personalidade tantas vezes se encontram em Miguel.

 

MARCAS DE UMA PERSONALIDADE
Liberdade e independência eram as marcas da sua personalidade e da sua ação. Com Francisco Sá Carneiro e Artur Santos Silva participou ativamente na fundação em maio de 1974 do PPD. Então o conheci e iniciámos uma relação muito boa, até aos dias de hoje – em que as afinidades eletivas da cultura portuguesa e de um necessário cosmopolitismo têm sido constantes. As idas ao Porto (cidade de algumas das minhas raízes, que representei com muita honra no Parlamento durante década e meia) eram sempre motivo de uma imersão total no fervilhar das ideias. E, como disse já, Vasco Graça Moura fez parte desde muito cedo desse Porto de encontro, acolhedor e hospitaleiro. No Campo Alegre estavam bem presentes Sophia e seu primo Ruben A., mas havia ainda o magistério intelectual do Bispo do Porto D. António. Na Foz, os passeios a usufruir do sol e do mar eram inesquecíveis. «As gaivotas. Vão e vêm. Entram / pela pupila. / Devagar, também os barcos entram. / Por fim o mar. / Não tardará a fadiga da alma. / De tanto olhar, tanto / olhar» - com disse Eugénio de Andrade. Foi assim pela vida fora, designadamente com um amigo comum, o Mário Melo Rocha, muito jovem, de quem tenho muitas saudades… Não esqueço uma memorável noite com Gonzalo Torrente Ballester. Foi um banquete de puro espírito, no sentido do humor e do prazer de encontrar um grande escritor e uma personalidade fascinante, que nos lembrou a génese de «Filomeno, a mi pesar», com todas as suas peripécia galaico-portuguesas, e com quem rimos com gosto sobre a «Crónica del rey pasmado»… As amizades constroem-se pela riqueza das experiências, não pela superficialidade dos chistes.

 

DIÁLOGO SEMPRE ENRIQUECEDOR
Miguel Veiga é uma referência, cujo diálogo é sempre enriquecedor. Já tive oportunidade de recordar como foram importantes o Francisco Sá Carneiro, o Artur Santos Silva, o António Leite de Castro – e ainda o grupo de Coimbra, o António Barbosa de Melo, o Mota Pinto, o Figueiredo Dias, o Costa Andrade. Ao lermos a declaração de voto sobre a Constituição da autoria de Barbosa de Melo compreendemos como o compromisso de 1976 pôde tornar-se duradouro e enriquecer-se em 82, em 89 etc. Assim se pensava o futuro como uma sementeira de ideias. Sinto haver nesta tradição de liberdade, personificada por Miguel Veiga, algo da causa de D. Pedro de autonomia e solidariedade. E o Miguel gosta de falar de «decência» - como seriedade, trabalho competente, higiene de espírito, hombridade… Tem razão. Eu sei que hoje se acha pessimista, mas não esqueço que para os mais novos (como eu era em 74), o Miguel Veiga apontava-nos o caminho da cidadania ativa e empenhada. Ele é do Camus e do Raymond Aron – e continua a ser. Ele é da «Heterodoxia» do Eduardo Lourenço. Miguel Veiga é um exemplo de independência, de liberdade, de horizontes claros e abertos…

 

UMA NOTA FINAL SOBRE O PORTO
Nos últimos anos, a minha relação com o Porto foi marcada pelo encontro com Paulo Cunha e Silva. Antes de o conhecer pessoalmente li os seus textos e amigos comuns fizeram-me chegar as melhores referências. Sendo mais novo que eu dez anos, era alguém que marcou desde muito cedo os campos em que agiu. Era mais um exemplo de um médico que se sentia bem no mundo das artes e da cultura. Quando o encontrei pessoalmente, tudo o que me tinham dito dele foi amplamente excedido. Era um homem culto, atento, disponível, inteligente, multifacetado, desperto para o que de mais importante ia acontecendo e ciente do que uma cidade europeia como o Porto precisaria. Nas primeiras conversas que tivemos revelou-se uma personalidade com sentido prático, sem tempo a perder em aspetos laterais ou em superficialidades. Tinha ideias claras, sabia que o importante era poder obter consequências positivas na valorização da cidade do Porto. Deixou-nos, porém, inesperadamente. Poucos dias antes teve a amabilidade de ir a uma iniciativa em que eu participava. Foi sempre de uma grande generosidade na partilha de ideias e de projetos. O Porto deve-lhe muito. Ainda agora, quando Paulo Cunha e Silva já não está entre nós, o seu impulso e o seu exemplo continuam a fazer-se sentir. A melhor homenagem que pode fazer-se a um homem de ação é reconhecer-se que o seu trabalho e a sua orientação continuam a influenciar o campo de ação!

 


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

Acerca das Pontes do Porto – D. Maria Pia, D. Luís e Arrábida.

 

Só no início do séc. XIX (em 1806) foi construída a primeira ponte que liga a cidade do Porto a Vila Nova de Gaia e que atravessa o rio Douro. Era constituída por 20 barcas ligadas por cabos de aço e por isso designada por Ponte das Barcas. O aumento do tráfego e a grande actividade comercial que caracterizava o Porto, fez com que a Ponte das Barcas fosse substituída pela Ponte Pênsil, em 1843, a primeira ponte metálica construída em território português.

 

Em Portugal, a revolução industrial arrancou mais tarde do que em outros países da Europa (como em Inglaterra e na Alemanha). Mas entre as décadas de 1850 e 1880, Fontes Pereira de Melo propôs-se a criar riqueza para consolidar o regime constitucional e a transformar o país de modo a integrá-lo numa Europa que passava por uma época de grande prosperidade. Com a abertura de estradas e ao introduzir o caminho-de-ferro, Fontes Pereira de Melo permitiu a ligação entre povoações num país cujo principal meio de locomoção ainda era a mula. O primeiro troço de via-férrea em Portugal foi inaugurado em 1856 e ligava Lisboa ao Carregado. Nas décadas seguintes o Estado promoveu, em associação com empresas privadas, a expansão de uma considerável rede de transportes – só entre 1856 e 1890 foram lançados 1689 Km de linha férrea. Na década de 1880, empreendimentos grandiosos como a ponte ferroviária D. Maria Pia e ponte rodoviária D. Luís I representavam um esforço acrescido e importante por parte do Estado na promoção de uma certa ideia de prosperidade. Ao promover melhoramentos materiais, fazer circular com mais facilidade bens, capitais e pessoas e ligando Portugal com o resto da Europa (a construção da linha de caminho de ferro permitiu que Paris ficasse de Lisboa somente a dois dias de distância) aspirava-se a aumentar a matéria colectável e assim habilitar os poderes públicos a poder acorrer às despesas necessárias.

 

De facto, a utilização do ferro fundido, muito divulgado na Era Industrial aquando da expansão das linhas de caminho-de-ferro, trouxe aos projetistas a possibilidade de construir pontes com soluções inovadoras no que diz respeito à geografia do terreno e a sua vasta aplicação (em estações, mercados, salas de espectáculo, armazéns, elevadores, garagens, quiosques, lavadouros, fábricas, etc.) deveu-se à facilidade do seu manejamento, à rapidez da sua montagem e à economia de meios. Sendo assim a Ponte D. Maria Pia (1876-77),da autoria de Théophile Seyrig, na altura colaborador da empresa do engenheiro francês Gustave Eiffel (que se instalou em Barcelos entre 1875 e 1877, para poder seguir o curso das obras da ponte de mais de perto), apresenta um modelo pioneiro de uma ponte construída em tempo recorde, em ferro fundido com um grande vão. Esta ponte somente ferroviária era na altura da sua construção, a que apresentava o maior vão da Europa. Foi também a primeira ponte ferroviária a atravessar o rio Douro e a ligar as Fontaínhas a Vila Nova de Gaia. É constituída por um arco biarticulado que, através de pilares em treliça, suporta o tabuleiro ferroviário. A ponte foi inaugurada em 4 de Novembro de 1877 e contou com a presença do casal real D. Luís I e D. Maria Pia. Após 114 anos de funcionamento, a Ponte D. Maria Pia foi desactivada. Era dotada de uma só linha e só uma composição com uma carga limitada podia passar de cada vez, a uma velocidade máxima de 20 Km/h. E assim em 1991, a Ponte de S. João foi construída para passar a servir a Linha do Norte.

 

Na segunda metade do séc. XIX o comércio progredia no Porto, o tráfego para Gaia e para Lisboa aumentava e por isso a necessidade de uma ligação rodoviária ainda mais eficaz, levou ao desmantelamento da Ponte Pênsil para no mesmo local se construir a Ponte D. Luís I, inaugurada em 1886. A Ponte D. Luís I é uma ponte rodoviária e é a ponte mais antiga do Porto ainda em funcionamento. Tornou-se um dos símbolos da cidade pela sua estruturação em dois tabuleiros metálicos (um inferior e outro superior), sustentados por um grande arco de ferro e cinco pilares. Os dois tabuleiros, originalmente serviam como ligação rodoviária entre as zonas baixa e alta de Vila Nova de Gaia e do Porto. Durante décadas a ponte ligou o norte e o sul do país. O projecto da Ponte D. Luís foi também executado pelo engenheiro belga Théophile Seyrig. Em 1879, fora aberto um concurso para a construção de uma ponte metálica que substituísse a Ponte Pênsil. Diversas propostas e concorrentes apresentaram-se a concurso e o projecto da empresa de Gustave Eiffel foi rejeitado porque só contemplava um tabuleiro ao nível da Ribeira. Foi assim vencedora a proposta da empresa belga Société de Willebroeck, com o então projecto do engenheiro Théophile Seyrig, autor da concepção e chefe da equipa de projecto da Ponte D. Maria Pia. Em 1881, inicia-se a construção da Ponte D. Luís I e à inauguração do tabuleiro superior, em 1886 sucedeu a abertura do tabuleiro inferior em 1888. Nos dias de hoje, o tabuleiro superior serve uma das linhas do metro do Porto e o tabuleiro inferior serve ainda para peões e veículos automóveis.

 

Por sua vez, a Ponte da Arrábida, da autoria do engenheiro Edgar Cardoso, foi a segunda ponte rodoviária a ser construída sobre o Douro, e que liga também o Porto a Vila Nova de Gaia. Inaugurada em 1963 veio dar resposta a um aumento significativo do fluxo de circulação rodoviária na ponte D. Luís I, sobretudo causado pelo acentuado crescimento demográfico que se registava na área metropolitana do Porto. A necessidade de uma travessia alternativa tomou forma por iniciativa da Junta Autónoma das Estradas, que em 1952, adjudicou a elaboração de um anteprojecto, para uma ponte entre a zona da Arrábida e o nó do Candal, ao engenheiro Edgar Cardoso. O projecto foi aprovado em 1955 e a sua construção iniciou-se em 1957. Aquando da sua inauguração, em 1963, a ponte registava o maior arco construído em betão armado do mundo. O arco sustenta uma plataforma com um comprimento total de 615m, apresenta um vão de 270m e 52m de flecha e é constituído por duas costelas ocas paralelas de 8m de largura, ligadas entre si por contraventamentos longitudinal e transversal. Originalmente, apresentava duas faixas de rodagem e duas faixas laterais para peões e ciclistas. A ponte dispõe de quatro elevadores para peões, para permitir a travessia pedonal entre as duas margens. Nas torres dos elevadores podem observar-se quatro esculturas ornamentais da autoria de Barata Feyo e de Gustavo Bastos. A ponte faz parte da auto-estrada que faz a ligação entre o norte e sul de Portugal.

 

 Ana Ruepp