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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

IV - O ABSTRACIONISMO EM KANDINSKY

 

1. A expressão arte abstrata descreve pinturas ou esculturas que não têm qualquer relação com a natureza, em que a obra de arte usa uma linguagem puramente abstrata, procurando o dinamismo e o ritmo através da cor, numa proeza de imaginação onde não se reconhece qualquer coisa do mundo físico, material e visível que conhecemos. É misteriosa e subversiva, invertendo a nossa mente racional formatada para acreditar que pinturas e esculturas têm de contar uma história, representando-a e tornando-a compreensível.

 

São arte abstrata as obras plásticas em que não há figuração, nem representação do espaço e do mundo real que percecionamos, de objetos ou de paisagens, de seres humanos ou animais, de luz ou perspetiva, detendo-se apenas numa visão das trajetórias, dos ritmos, de modo a que as matérias se valorizem por si mesmas, os fundos se oponham às formas, as técnicas se sobreponham ao desenho e à cor, criando uma teia geométrica plana não representativa, mas sim impositiva de elementos de ordem e de simbolização do espaço.

 

Embora a abstração remonte aos tempos pré-históricos em que o ser humano fez pinturas rupestres ligadas à magia, surgiu e desenvolveu-se essencialmente como vanguarda artística no século XX, em oposição à exaltação figurativa do Renascimento e do naturalismo.

 

2. Todavia, a primeira obra não figurativa consciente parece ser de Kandinsky O russo Wassily Kandinsky, após uma fase expressionista em que foi membro do movimento alemão Blaue Reiter (Cavaleiro Azul), juntamente com F. Marc, R. Delaunay, A. Macke, G. Munter, Paul Klee, entre outros, orientou-se para o abstracionismo e tornou-se um dos expoentes da arte abstrata. Ao defender a autonomia da obra de arte em relação ao seu criador, estabelece relações entre a música e a pintura, porque a música, quando não cantada ou acompanhada de palavras, é uma arte totalmente abstrata, chegando a comparar as cores a instrumentos musicais, em que o azul atuaria numa tela como uma flauta numa sinfonia, o verde como um violino, o branco como o silêncio, numa paisagem visual que permitisse ao observador ouvir o som interior da cor, só ouvido quando um quadro não continha um significado convencional que distraísse o observador-ouvinte.

 

No decurso da sua investigação escreve o livro Do Espiritual na Arte, surgindo a primeira fase da sua obra abstrata, conhecida por cromática, daí datando a sua Primeira aguarela abstrata (1910), em que usa a cor pura, omitindo o figurativo, com uma profunda ligação e influência da música.  

 

Já Wagner tinha compreendido as potencialidades de comunhão entre a música e a arte em geral, ambicionando uma obra de arte total, influenciado por Schopenhauer, para quem o único modo de nos libertarmos dos nossos desejos básicos, monótonos e insaciáveis, eram as artes, possibilitando-nos transcendência, fuga, alívio e compensação espiritual. Opina que a  arte que melhor o proporciona é a música, devido à sua abstração, em que as notas são ouvidas e não vistas, libertando a nossa mente e imaginação do aprisionamento da nossa vontade e da nossa razão.

 

Mas seria o compositor austríaco Schoenberg, de que (Kandinsky) foi amigo, que o emocionou, encorajou e influenciou a avançar, surgindo em 1911 Pintura com um Círculo, tida como a primeira obra de arte de Kandinsky totalmente abstrata. Pretendia que a tela fosse similar a uma partitura musical, o mais sonora possível, mas completamente abstrata, liberta da representação e proveniente do instinto. Uma fuga à representação na pintura que se aproximasse e fosse alma gémea com o universo da música. Compreensível que, na sua maioria, as obras de Kandinsky se intitulem Composição, Improvisação, Impressão, lembrando a numeração de trechos musicais. O que pretendia, por exemplo, nas suas telas com o prefixo Improvisação era criar uma paisagem visual que permitisse ao usufruidor ouvir o som interior da cor. Já Composição VII é tida como um apogeu da sua carreira, criando uma pintura passível de ser comparada com uma sinfonia.  

 

Esta subjetividade espiritual de Kandinsky tinha as cores e as formas puras como meios significantes da expressão pictórica, através dos quais se expressava o ritmo. A cor era a tecla, que pelo som musical exercia uma influência direta na alma, sendo esta um piano de muitas cordas.

 

A segunda fase, do abstracionismo ou geometrismo lírico, é a busca de uma linguagem universal a partir da matemática, por contraste com a arte geométrica de Malevitch, coincidindo com a sua atividade como professor da Bauhaus.

 

3. Podemos concluir que para W. Kandinsky a vida espiritual era mais importante que a material, colocando o seu critério de valores essenciais fora do universo físico, numa subjetividade transposta para um abstracionismo espiritual, lírico, poético, mental,  imaginário, bíblico, religioso e transcendente.  

 

Além de Kandinsky, também Frantisek Kupka, Robert Delaunay e Klee passaram por uma fase abstrata, avançando para ela através da música, fazendo da cor e da música a sua arte, sem esquecer a influência das teorias de Einstein, Freud e Bergson.

 

Como pintor de permanente experimentação e de várias influências, também Amadeo de Souza-Cardoso aderiu, entre nós, numa fase posterior, ao abstracionismo, por impressiva influência de Delaunay.    

 

18.04.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

III - VANGUARDA FUTURISTA

 

1. Marinetti, um calculista e provocador poeta e romancista italiano, apresentou ao mundo, no jornal parisiense Le Figaro, em 20.02.1909, o Manifesto do Futurismo para a literatura, numa jogada de publicidade antecipada, sabendo que o melhor meio das suas ideias serem lidas, faladas e ouvidas, era serem publicitadas em Paris, núcleo central da elite artística e intelectual de então. No ano seguinte, em fevereiro de 1910, um grupo de jovens artistas apresentaram o Manifesto dos Pintores Futuristas, assinado por Carrà, Boccioni, Russolo, Balla e Severini e, dois meses depois, o Manifesto Técnico da Pintura Futurista.

 

Era um movimento artístico nascido em Itália, orientado para o futuro, com um corte radical com a tradição artística (passadismo), negando radicalmente todas as tradições, procurando traduzir a atividade frenética das grandes cidades, exaltando o homem de ação e fazendo o culto do dinamismo, do movimento, da velocidade, da liberdade, da energia, da força física e da violência, do perigo, do arsenal, do estaleiro e da máquina, a que corresponde o aparecimento da bicicleta, do automóvel e do comboio.

 

Inspirando-se no progresso industrial e no mito da velocidade, exaltando a técnica e a civilização, defendiam uma nova doutrina estética que proclamava o reconhecimento da máquina como parte fundamental da existência humana. Daí que Marinetti, no seu Manifesto, declarasse que o esplendor do mundo fora enriquecido pela nova beleza da velocidade e ser um automóvel de corrida mais belo que a Vitória de Samotrácia.

 

Apesar de elitistas, os futuristas pretendiam abranger todos os âmbitos, desde a arquitetura à moda, do desenho à decoração, do teatro ao cinema, sem esquecer a música, a literatura e a política, sobressaindo nas artes plásticas a pintura e a escultura.

 

Na pintura retratam as sensações que tinham do dinamismo da vida moderna, através de trajetórias cromáticas e luminosas, sendo os seus quadros enérgicos, cheios de movimento, com agressividade da cor e decomposição cromática, luminosa e das formas. Embora copiassem a ideia de ver e dissecar o objeto de múltiplos ângulos, à semelhança dos cubistas, não se fixavam estaticamente no momento, repudiando representar o mundo interior estático dos cubistas, introduzindo-lhe a aceleração, o dinamismo, a velocidade, a vibração, o futuro, como na tela Vibração Abstrata e Ruído, de Giacomo Balla. Compreensível dizer-se ser o futurismo o cubismo acelerado.

 

Na escultura procuraram mostrar a dinâmica do objeto, como o exemplifica a obra de Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço, de 1913, alegórica à velocidade e ao progresso, retratando um ciborgue, metade homem, metade máquina, de corpo curvado e aerodinâmico, locomovendo-se a passos largos, numa tensão dinâmica nova, via decomposição e intersecção de volumes.

 

2. Em Portugal teve a sua principal manifestação na poesia, com poemas futuristas de Fernando Pessoa, em especial sob o seu heterónimo de Álvaro de Campos, como a Ode Triunfal e a Ode Marítima, que o seu próprio inventor tem como poeta sensacionista e escandaloso, que rejeita o sentimentalismo luarento e contemplativo, retratando-o como engenheiro de profissão, um homem de ação e civilizado, da indústria e da técnica, escrevendo sob a luz das lâmpadas elétricas da fábrica. A que acresce a influência de Whitman. Outra composição poética de cariz futurista é Manicure, de Mário de Sá-Carneiro.

 

Refira-se também o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, de Almada Negreiros, por este pronunciado, pela primeira vez, em 14.04.1916, no teatro da República, atual São Luís, em Lisboa, no âmbito da 1.ª Conferência Futurista, comemorando agora cem anos. Apresentando-se no palco de modo chamativo, irreverente e provocador, vestindo um fato-macaco de operário ou aviador, alusivo ao futurismo, corroborado por palavras inflamadas e violentas, Almada procura chocar e indignar o público, exaltando a juventude, a guerra, a tecnologia e a velocidade, enquanto meios dinâmicos e força motora dos heróis futuristas.

 

3. Ao criarem uma ideologia poderosa do gesto e da palavra, inspirados no progresso industrial e no mito da velocidade, reforçada pela defesa do patriotismo, do militarismo e da guerra, os futuristas faziam declarações políticas, sendo Marinetti, seu principal mentor, amigo de Mussolini. Ao invés dos cubistas, para quem o tema da sua arte era a sua arte, a arte pela arte, sem manifestos.    

 

O que não serve para classificar, sem mais, este movimento como conservador, reacionário ou revolucionário, dado que os critérios de valoração artística não são necessariamente coincidentes com os políticos, a começar pelos politicamente corretos, tendo presente o valor intrínseco de uma obra de arte, que vale por si.  

 

Não esquecendo que o futurismo é uma das mais importantes vanguardas artísticas do século XX, com influências e consequências na atualidade, pois se, por exemplo, cada vez mais, queremos somar ao biológico (humano) aquilo que de melhor existe no artificial (máquina), pode questionar-se se nesta nova cultura não renascerá um novo futurismo. 

 

11.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

II - VANGUARDA CUBISTA

 

1. O cubismo, com o seu vanguardismo, contribuiu decisivamente para uma abordagem inovadora da arte e para a extinção de velhos conceitos estéticos, ao escolher a via não figurativa ou abstrata, à semelhança do futurismo e do abstracionismo.

 

Nunca teve um manifesto, programa ou manifestações políticas, ao invés do futurismo.

 

Tem como antecedentes, entre outros, Lorenzetti e Piero de la Francesca na volumetria dos objetos, Gauguin no apelo ao exótico e ao primitivo da arte africana e da Oceânia. Mas é em Cézanne que reside a base do movimento cubista, ao tratar a natureza a partir de formas geométricas. Para Cézanne, tudo na natureza tem como suporte o cilindro, a esfera, o cone e o cubo. Quando olhamos para uma paisagem vemos na realidade formas e não pormenores. Cada objeto segue as constantes geométricas. Daí fazer sentido reduzir as árvores, as casas, as montanhas e até as pessoas a formas geométricas. Uma casa representada por um cubo, um campo por um retângulo verde e assim sucessivamente.

 

O que vai permitir ao cubismo revelar as faces ocultas dos objetos, quebrando e dissecando os seus contornos, interpretando intelectualmente o mundo visível numa tentativa de o tornarem mais real. Por uma geometria intelectual e mental, os cubistas opõem-se à sensibilidade dos impressionistas.

 

Guillaume Apollinaire, ao falar de Picasso, seu amigo, disse que ele dissecava um objeto do mesmo modo que um cirurgião dissecava um cadáver. Eis a verdadeira essência do cubismo: fazer uma dissecação dos objetos e da natureza, pegar nos objetos e desconstruí-los através de uma observação analítica, intelectual e mental intensa e permanente.

 

Procuram entender a estrutura dos objetos, tentando revelá-la, através do estilhaçar do espaço, da figura, do próprio objeto, decompondo os volumes naturais em planos que pelas diferenças de cor, iluminação, grandeza, situação, possibilizem, ao observador, reconstruí-las mentalmente, pondo de lado a pintura-pintura.

 

2. Demoiselles D`Avignon (As Meninas de Avignon), de Pablo Picasso, é a obra chave de arranque do cubismo. Além da pouca profundidade espacial e da natureza bidimensional do quadro, os cinco corpos femininos nus são reduzidos a grupos de triângulos e losangos, as cabeças das duas mulheres à direita foram substituídas por máscaras africanas, a da esquerda lembra uma estátua egípcia antiga, as duas centrais são tidas como caricaturas estilizadas, parecendo cortadas por um corta-papel de um papel cor de terracota. Após este início, estabelece-se uma espécie de duo entre Braque e Picasso, fundadores do cubismo, atingindo ambos uma arte verdadeiramente cubista, entrando no cubismo analítico de que As Meninas foram suas percursoras.

 

Na sua fase analítica, o cubismo é caraterizado pela decomposição dos objetos, do ponto de vista de quem observa, em que a figura é dissecada, estilhaçada, fazendo lembrar um vidro quebrado ou estilhaçado, permitindo a visão simultânea quer de frente, de perfil, de cima, de baixo, pelos seus contornos inferiores e posteriores, olhando e dissecando o objeto de todos os ângulos concebíveis. Interessa a estruturação e a maior informação dos objetos, em que a cor é reduzida ao mínimo, com gradação de cores. É como abrir e desmanchar uma casa a fim de fazer uma planta dela e de nos mostrar todos os lados ao mesmo tempo, numa análise obsessiva de um objeto e do espaço por ele ocupado, estimulando o nosso funcionamento mental. Introduz-se a quarta dimensão, olhando para lá do que é visível à superfície, retratando o que não pode necessariamente ser visto, mas que se sabe existir, à semelhança dos raios X. Violino e Palheta, de Braque, é um exemplo.

 

Segue-se o cubismo sintético, em que não há a decomposição do objeto mas a sua invenção. Surgem as primeiras colagens, letras, textos, na superfície dos quadros. Recorresse a colagens de papel de parede e de jornal, de pedaços de oleado, a acrescentos de areia, a misturas de areia e gesso para dar mais textura às tintas quando usadas na tela, fazendo experiências técnicas com pentes, em vez do pincel, cortando e colando, inventando a colagem, utilizando materiais do dia-a-dia, incluindo ganchos de cabelo e pautas de música. Enfim, um novo modo de fazer arte. A Garrafa do Velho Marco, de Picasso, exemplifica-o.

 

Com o orfismo, cubismo órfico ou cromático, há um reavivar da cor, com influências do fauvismo, uso de círculos cromáticos, cores puras, saturadas, onde imperam os Delaunay, Robert mais influenciado pelo cubismo. Sonia mais influenciada pelo fauvismo.

 

Com o cubismo e a decomposição, dissecação e desmontagem de objetos e figuras, sobreposição de planos, plano sobre plano, a pintura mudou radicalmente, em oposição à renascentista.

 

Ao nível da escultura, predomina a ausência de monolitismos, entrando o espaço nas peças escultóricas, chegando a ser perfuradas, por buracos, por onde as pessoas podem entrar e sair, ou decompondo e recompondo os vários planos do objeto, surgindo uma nova relação entre o espaço e a forma.

 

Aderiram ao cubismo pintores como Braque, Picasso, Gris, Delaunay, Léger, Gleizes, Herbin, Picabia e escultores como Archipenko, Lipchitiz, Henri Laurens e Raymond Duchomp-Villon.

 

Eis toda uma geração de contestação e de vanguarda, que rejeitou o ensino académico então vigente, que também influenciou, entre nós, Amadeo de Souza-Cardoso, um pintor de constante experimentação, com influências cubistas, entre outras.

 

04.04.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

 

I - VANGUARDAS ARTÍSTICAS DO SÉCULO XX

 

ENQUADRAMENTO

1. A arte oficial entendia a obra de arte como uma cópia fiel da realidade. O advento da fotografia, imitando fielmente a natureza, numa multiplicação de imagens reais, libertou a pintura dessa função.

 

Libertando-a da necessidade de copiar ou imitar a natureza, a obra de arte autonomizou-se, emancipou-se, ganhou força própria, uma linguagem específica.

 

Sempre existiu um processo de destruição da imagem artística tradicional, mas é com  os vanguardistas que atinge o seu auge no século XX, nomeadamente com os pintores, que negam a tradição, a academia e os mestres, rompendo com toda e qualquer norma estabelecida.

 

Avant-garde, designação dada, em linguagem militar, aos soldados que combatiam na primeira linha de combate, começou mais tarde a designar, em França, anos antes da primeira guerra mundial, os que lutavam e queriam transformar a sociedade, no campo das artes, contra os academismos vigentes, pretendendo ser uma guarda-avançada ou movimento vanguardista de um novo processo criativo de criação artística em liberdade, numa procura permanente de novos materiais e técnicas.

 

Este movimento cultural e artístico, de caraterísticas avançadas, inovadoras e modernistas, não se confinou à pintura, mas por uma união das artes em geral contra a tradição, tida como impeditiva do progresso e da evolução, dado que as mesmas regras se aplicam ao cinema, ao teatro, à escultura, à arquitetura, à literatura.

 

Pela experimentação constante, que lhes é inerente, são efémeras, uma vez que ao romperem com o passado, inventam o futuro, protagonizando uma revolução plástica incompreendida e pouco inteligível para a época, tornando-se elitistas, nos primeiros tempos, sendo assimiladas, com o decurso temporal, por muitos daqueles que antes as tinham criticado.

 

Havia o culto de uma vida excêntrica, de pessoas tidas como não comuns que viviam a vida no limite. Era uma espécie de novo Renascimento, em que o artista livre vive o momento presente em liberdade, espontaneamente e sem constrangimentos, sem planos ou planeamento.

 

ESCOLA DE PARIS E VANGUARDAS HISTÓRICAS

2. Distinguem-se, nas primeiras décadas do século XX, as vanguardas históricas. Desde o fauvismo, ao expressionismo, cubismo, simultaneísmo, abstracionismo, futurismo, neoplasticismo, construtivismo, suprematismo, dadaísmo, pintura metafísica e surrealismo, onde a rutura com os velhos conceitos estéticos passa essencialmente pela inovação do não figurativo ou abstrato.

 

Dominava a Escola de Paris, com Picasso, Braque, Chagall, Modigliani, Pierre Mondrian, Pierre Bonnard, Matisse, Juan Gris, Robert e Sonia Delaunay, Fernand Léger, Picabia, Max Jacob, Utrillo, Soutine, Jean Cocteau, Miró. Com a grande criatividade e depuração de Brancusi, na escultura. Com a música de Debussy, Ravel, Satine. E Heminguay, Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, todo um areópago de gente que dispunha de salões onde se reuniam e conversavam sobre todos os temas artísticos.

 

Criando, inovando, amando, bebendo, fumando, divertindo-se, escandalizando, trabalhando, estudando, vivendo e fazendo-o com gosto. Numa libertação de costumes, vida boémia, experimentação, inspiração e intuição. Até ao limite. Por isso alguns não resistiram. Com influência na primeira geração do modernismo português, nomeadamente em Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor e Mário de Sá- Carneiro.

 

Sem esquecer uma literatura experimental que antepunha a originalidade à perfeição, onde impera, como vanguarda, o expressionismo alemão, com Brecht e Kafka. Nos anos 30 e 40 surge a tendência literária existencialista, com Sartre, Camus, Simone de Beuvoir.

 

ESCOLA DE NOVA IORQUE E VANGUARDAS MAIS RECENTES

3. Depois da segunda guerra mundial, com a ascensão da Escola de Nova Iorque, surgem as vanguardas mais recentes. Após a literatura e a arquitetura, é a vez da pintura alcançar a sua maturidade, libertando-se dos modelos do Velho Mundo, tornando-se uma verdadeira declaração de independência da arte americana. Os artistas nova-iorquinos coabitam com os colegas europeus, em fuga da segunda guerra mundial com destino aos Estados Unidos. Não os vemos apenas a criar, mas também a socializar uns com os outros. Numa nova e permanente experimentação, em que a dúvida e a busca permanente geram sempre qualquer coisa.

 

Na pintura surge a expressão action painting, designando os pintores do expressionismo abstrato. Exaltou-se o ato de pintar em si, excluindo a figuração e valorizando o gesto e o tratamento expressivo da matéria. A tela não é tida como um espaço para reproduzir ou exprimir um objeto, mas como o teatro de uma ação. Os trabalhos de Pollock são criados por gotas de tinta ou por tinta atirada à tela. Incentivaram-se as pinturas murais, mas também as artes gráficas, a fotografia, a música e o teatro. Sobressaiem nomes como De Kooning, Arshile Gorky, Gottlieb, Hans Hoffman, Franz Kline, Jackson Pollock, Mark Rotcko, Clyfford Still, Mark Tobey, Helen Frankenthaler. Sem esquecer, como colecionadora e mecenas, a extravagante Peggy Guggenheim.

 

A que acresce, na cena europeia do pós-guerra, a nível da pintura, o tachismo e o informalismo. Na escultura, Giacometti e Calder.

 

A que se seguiriam a arte pop, a inglesa, mais intelectual, e a americana, mais popular. Utilizando imagens e objetos ligados à comunicação de massas e à vida quotidiana, onde se distinguem os norte-americanos Oldenburg, Segal, Rosenquist, Roy Lichtenstein e Andy Warhol.  

 

Sem deixar de lado o novo realismo, o neodadaísmo, a op art (arte ótica), o minimalismo, a arte conceitual. E a arte do corpo (body art), ao fazer do próprio corpo humano o objeto da arte.  

 

07.03.2017 
  Joaquim Miguel De Morgado Patrício