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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Com tanto alarido à volta do filme do Scorsese, Silêncio tem havido pouco. Nem tampouco ouço vozes que nos aproximem do drama dos cristãos japoneses, nem sequer de uma compreensão mais próxima do combate obsessivo de Endo Shusaku pelo entendimento da sua própria fé cristã. Este, tanto quanto possamos depreender de passos da sua obra literária, tem muito a ver com sentimentos de divisão e traição (ao pai ou à mãe), com solidão e separação (rasgões que experimentou através da companhia e deserção de animais domésticos) e, já no plano mais propriamente racional, cultural, filosófico e religioso, com o problema do mal, do pecado e da graça, da misericórdia de Deus. Começo por te referir um passo do romance Rio Profundo (Deep River, na versão inglesa, Le Fleuve Sacré, na francesa), em que Otsu, seminarista jesuíta japonês em Lyon, França, desabafa assim: Não posso perceber a diferença entre o que as pessoas de cá chamam o bem e o mal. Penso que no bem se esconde o mal, e vice versa. E aí intervém a magia de Deus. Até pode servir-se dos meus pecados para os transformar em salvação...   ... A Igreja considera-me herético. Corrigiram-me: "Não distingues claramente as coisas, tens de agir com mais discriminação. Deus não é assim". A pobre personagem quererá pensar num cristianismo que se coadune com a mentalidade japonesa. Eis um ponto fulcral para o entendimento, não só de atitudes e comportamentos de católicos japoneses perante os  estrangeiros (lembra-te do que eu já contei da minha experiência com a família católica dos meus senhorios em Tokyo ou das diligências que, enquanto Comissário Geral de Portugal na Exposição Universal de Aichi, fiz junto da hierarquia da Igreja em Nagoya) mas sobretudo da estranheza - para não dizer dificuldade de aceitação, desconfiança, ou mesmo aversão - que uma pregação rígida da ideia cristã pode causar nos japoneses. Já no século XVI, em debates entre missionários jesuítas e bonzos budistas, os japoneses interrogavam sobre se poderia ser infinitamente misericordioso um Deus omnipotente que, todavia, condena e castiga gente, mesmo até ao inferno eterno. Ou como poderia o mesmo Deus ser justo, ao pretender que há uma só religião verdadeira, quando, afinal, tanta e tanta gente nunca ouviu nem ouvirá a boa nova evangélica, do que não têm culpa. Nesse romance de Endo, Otsu afirma que estou persuadido de que o homem elege o seu Deus em função do seu local de nascimento, da sua cultura, das suas tradições e do seu ambiente. Os europeus escolheram o cristianismo porque assim o haviam feito os seus antepassados, e a cultura cristã era predominante no seu país. Não se pode dizer que os habitantes do Médio Oriente se tornaram muçulmanos, nem a maioria dos indianos hindus, após terem feito rigorosas comparações com outras religiões. Quanto a mim, foi a minha mãe e a sua particular influência que fizeram de mim o que sou. [Este passo é claramente autobiográfico, num romance em que Endo Shusaku se revê, ou descreve, sobretudo noutra personagem, Numada de seu nome]...   ..." Mas nunca pensaste que teres nascido numa certa família foi graças à bênção de Deus e ao seu amor?" - perguntou-me certo dia o meu diretor espiritual. "Sim, mas foi também graças à Sua bênção que aqueles que nasceram noutros lares acreditam noutras religiões... - responde Otsu/Endo.

 

   O tal Numada, como Endo ele-mesmo na vida real, passara a infância em Dalian, na Manchúria, que à época fora colonizada pelos japoneses. Ajudado por um jovem criado chinês - que seu pai mais tarde despediria - recupera da vadiagem das ruas um cão manchu, que criará e a quem chamará Negrão. Quando os pais se divorciam, na sequência do alcoolismo crónico do marido, Numada/Endo parte para o Japão com a mãe. E assim, depois de ter perdido Li, o criado amigo, terá de se separar de Negrão. Mais tarde, o menino já adulto nunca esquecerá o olhar de despedida do seu cão. Foi graças a ele e a Li que aprendeu o significado da palavra separação. Já casado e escritor conhecido, Numada adquire um estranho pássaro tropical, um calau. Este acabará por voar livremente no gabinete do romancista, que com ele conversa e o calau observa enquanto escreve. Quando a ave morre, a mulher de Numada, que muito discutia e protestava contra a sujidade que o bicho lhe fazia em casa, oferecer-lhe á outro pássaro diferente. Percebera que o marido era incapaz de explicar o seu desejo intenso de se religar a todos os seres vivos. A semente nele plantada pelo Negrão, na infância, tinha lentamente frutificado num mundo imaginário que ele só podia descrever através das histórias que contava. Aí, as crianças eram capazes de compreender o murmúrio das flores, as conversas das árvores, e até de ler os sinais trocados pelas abelhas entre elas, ou as formigas. Apenas um cão e um calau tinham compreendido a solidão que, já adulto, ele não conseguira dissipar... 

 

   Essa sentida solidão - em Endo autor e muitas das suas personagens - acaba sempre por ter uma proposta de companhia: a de Jesus. No romance Chinmoku (Silêncio), o padre apóstata ouve em confissão o renegado Kichijiro, que o traíra. Ambos haviam pisado o fumie, a imagem de Cristo. - "Senhor, ressenti o teu silêncio". - "Eu não estava silente. Sofri ao teu lado". Após a confissão secreta, Kichijiro chora mansamente e sai. E o livro termina assim: O padre tinha administrado o sacramento que só um padre pode administrar. Sem dúvida de que os seus colegas padres condenariam o seu ato porque sacrílego; mas mesmo que estivesse a traí-los, ele não traíra o seu Senhor. Amava-o agora de uma maneira diferente de dantes. Tudo o que ocorrera até agora fora necessário para o trazer a este amor. "Agora mesmo sou o último padre nesta terra. Mas Nosso Senhor não estava silencioso. Mesmo que estivesse calado, a minha vida até hoje teria falado dele". William Johnston, jesuíta da Universidade Sophia, em Tokyo, amigo e tradutor de Endo Susaku, escreve, a abrir um prefácio ao romance, algo que traduzo para ti:

 

   Shusaku Endo tem sido apelidado de Graham Greene japonês. Se com isso se quer dizer que ele é um romancista católico, que os seus livros são problemáticos e controversos, que a sua escrita é profundamente psicológica, que ele descreve a angústia da fé e a misericórdia de Deus - então é certamente verdade. Porque o senhor Endo chegou à ribalta do mundo literário japonês escrevendo sobre problemas que, a dado momento, pareciam longe deste país: problemas de fé e Deus, de pecado e traição, de martírio e apostasia.

 

   Sobre o pano de fundo desta história - que é o século cristão do Japão - já escrevi bastante. Mas talvez volte a escrever, em carta só para ti. Por hoje, basta lembrar-te de que, como já te disse, Silêncio não é um romance histórico, muito menos uma análise da missionação dos jesuítas no Japão dos séculos XVI-XVII. É um cenário e uma ficção para questões que o seu autor foi interrogando, sofrendo e meditando.


Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

Blogue CNC _ A Palavra de João Bérnard da Costa.

 

     A ÚLTIMA CEIA

     por João Bénard da Costa

 

1 - No mundo latino, não há sacra imagem mais reproduzida e mais divulgada. Nessa divisão, normalmente situada ao fundo de longos e desabridos corredores, a que no século XIX e em grande parte do século XX, se chamou casa de jantar, a burguesia e a pequena-burguesia, mesmo quando maçónicas ou jacobinas, entronizaram, quase sempre, gravuras, litografias ou, nas casas de pior gosto, horrendos baixos-relevos esmaltados ou pintados, reproduzindo o cenáculo davinciano pendurado sobre o aparador com torcidinhos. Nenhuma dessas reproduções reproduzia a pintura de Leonardo, como ela estava ou como ela era à época da sua mais intensa popularidade. Bem cedo depois de ter sido pintada (1495-1497), "L'Ultima Cena" já começara a obscurecer-se. Em 1568, Vasari escreveu que "a obra de Leonardo está em tão más condições que pouco mais se vê do que uma mancha fosca". Mas a fama de Leonardo era tamanha, tamanha era a reputação da "tavola" pintada no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, que, na primeira metade do século XVI, já se multiplicavam as cópias a óleo de discípulos do Mestre, como Solari ou Luini. A mais famosa dessas cópias data de 1625, quando o cardeal Federico Borromeo a encomendou a um tal Vespino, para que a "reliquiae fugiente" da "Ceia" ficasse para a posteridade.


Assim, o que essa posteridade, entre a qual me incluo, conservou e emoldurou, não foi a pálida imagem de Leonardo, mas a pálida imagem de maquilhadíssimas cópias. Quem foi ou quem ia a Santa Maria delle Grazie, mesmo após os sucessivos restauros de 1851, 1870, 1901 ou 1924, recuava cheio de espanto. Não via um quadro, como, baseado nas reproduções, tinha suposto ir ver; não via um fresco porque Leonardo nunca pintou um fresco nem usou a técnica dele; via, na parede oposta à Crucificação de Montorfano, uma pintura descomunalmente horizontal (já houve quem lhe chamasse a única pintura do mundo em cinemascope) onde a custo se descortinavam os rostos de Cristo e dos doze Apóstolos e onde o celebérrimo "sfumato" vinciano se esfumava na sombra e no silêncio.


Como as estátuas gregas do século V, que hoje só conhecemos pelas cópias romanas, a memória da "Ceia" vinciana foi transmitida, ao longo de quatro séculos, por imagens claras de uma imagem obscura. É verdade que, de Milão, em 1788, Goethe escreveu ao Duque Carlos Augusto, de Weimar, que ela era "uma obra-chave no campo da concepção artística. Absolutamente única e nada lhe pode ser comparado". Falaria do que viu? Ou foi Goethe o primeiro a perceber que a prodigiosa singularidade da "Ceia" reside no próprio sentido de efémero que lhe presidiu? É que Leonardo só não pintou "a fresco" porque não quis. Se pintasse "a fresco", não tinha podido corrigir, nem mudar. "Leonardo é o primeiro artista insatisfeito, atormentado não tanto por uma obcecante necessidade de perfeição mas pelo objectivo fundamental que perseguiu. Não concebeu a "história" como uma acção definida, mas como uma situação psicológica complexa, tecida de actos e reacções mutuamente intrincados, inseparáveis uns dos outros e só passível de valorização face ao resultado global" (...) "O desenho, a pintura são uma busca contínua; não se pode saber de antemão onde conduzirá e que facto revelará de que se não pode prescindir." Estou a citar Argan, o historiador. Podia citar Leonardo, que o disse em menos palavras, aqui deixadas em italiano: "Il bono pittore ha da dipingere due cose principali, cioè l'homo e il concetto della mente sua; il primo è facile, il secondo difficile, perché s'ha a figurare con gesti i movimenti delle membra." Eventualmente, Leonardo terá querido que da sua obra (a "Ceia" é a obra de Leonardo mais dedicada ao instante) ficasse a sombra. Sombra do imenso movimento dos 12 homens que se sentaram com Cristo à mesa naquela tarde; sombra da imensa imobilidade de Cristo naquela tarde e naquele momento (não consigo dizer-vos se a pintura é terrivelmente dinâmica ou terrivelmente estática); sombra que se projectou, como se luz fosse de um projector cinematográfico indesligado e indesligável, na pálida luz das cópias, as únicas que fixaram o que em Leonardo, para sempre, ficou em aberto, movente e comovente.

 

2 - Vai árido este texto? É bem possível, mas não sei de outra via. Como sempre me acontece, amenizo subjectivando. É que até eu, e até ao dia 11 de Novembro de 2003, nunca vira "La Cena" senão em reproduções. Em 1967, da primeira vez que fui a Milão, o Cenáculo fechou-se-me tanto por má fortuna como por amor ardente. Quando voltei, nos anos 80, já se encerrara para o último restauro, esse que durou de 1977 a 1999. Quando, agora, surgiu inopinadamente e sem qualquer premeditação a possibilidade de uma estada de 24 horas em Milão, soube que era chegado o momento. O dia 10 (uma segunda-feira) era o dia de encerramento? Era. Para o dia 11 já não aceitavam mais reservas (o Cenáculo, como tantos outros lugares altíssimos de Itália só se visita hoje por "prenotazione", bela palavra para tão feia acção)? Não aceitavam. Eu tinha que estar no Aeroporto de Malpensa às 11 horas da manhã? Tinha. Mas os modernos dragões (burocracias, turistas japoneses, horários) são como os antigos. Saltamos-lhes às goelas. Comigo próprio assinei o pacto de me levantar às 6 e meia da manhã (não conheço outros Leonardos nem outras Leonardas que a tanto me obrigassem). Às 8 em ponto estava junto à porta amarela do Cenáculo e às 8h15, após mendigar junto de três guias, surgiu aquela (louvada seja!) que tinha um bilhete a mais. Às 8 e 30, a porta de vidro automática do refeitório das Graças abriu-se para mim e para mais 49 terrestres pedestres. Fora avisado da regra, como nos mitos e lendas antigos. Só dispunha de 15 minutos, 15 exactos minutos. Ao fim deles, seria implacavelmente varrido. Nem olhei para a "Crucificação" da parede sul. Os 35 metros de largura da parede norte esperavam por mim. 68 anos esperaram. A primeira coisa que pensei, como Henrique III diante do cadáver do Duque de Guise, foi: "Mon Dieu! Comme il est grand!" Depois, eu, que demoro tanto tempo a ver, puxei dos olhos com quanta força tenho. Vi o triângulo equilátero da figura de Cristo, a forma indestrutível. Vi o perfil efeminadíssimo de Filipe, o mais alto de todos. Vi Tiago Menor, o único da família de Jesus, seguindo alguns até seu irmão, visivelmente inspirado no mesmo modelo que serviu para a imagem de Cristo, dos doze o mais bonito, com os cabelos louros tão bem penteados. Vi o suavíssimo João, o único tão imóvel quanto Cristo, o único que não gesticula. Mas vi sobretudo o Senhor, sentado de costas para a maior das três janelas, com o espaço todo à direita e à esquerda, sem ser tocado por ninguém e sem tocar em ninguém, abertamente sozinho.

 

3 - Em tempos, impressionou-me muito um agudíssimo paralelo feito por George Steiner ("Two Meals") entre "O Banquete" de Platão e a "Última Ceia". Steiner - como Leonardo - parou o tempo na passagem do Evangelho de São João em que Cristo diz: "Amen dico vobis quia unus vestrum me traditurus est" ("Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de trair"). S. João, sempre segundo o mesmo Evangelho, estava reclinado no peito de Jesus, como discípulo amado que era. Pedro faz-lhe sinal para que ele interrogasse Jesus e soubesse quem era o traidor. João assim fez e Jesus respondeu: "É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado." E, molhado o bocado de pão, tomou-o e deu-o a Judas. Steiner escreveu: "Num plano naturalista, o que aconteceu só é inteligível se o que Jesus disse ao discípulo que amava não foi ouvido por mais ninguém. A não ser assim, porque é que Judas aceitaria o 'pão que eu vou molhar', o sinal que trairia o seu anátema?" Mas Leonardo não viu a cena como quase todos os pintores e comentadores a viram, nem sentou Pedro longe de João, o que "naturalisticamente" explicaria o pedido, que Pedro, de onde estava, não teria podido fazer. Pela primeira vez, na história de uma representação da Última Ceia, João não está reclinado no colo do Senhor, mas muito afastado dele, inclina-se para a direita, ouvindo S. Pedro, que se levantou do seu lugar. Este, João e Judas formam um outro triângulo, em que Pedro passa para trás de Judas, para falar ao ouvido de João. Judas, virado para os dois (único que volta as costas ao espectador), não pode deixar de ouvir o segredo. A não ser que o momento representado seja posterior a ele, hipótese que ao 7º minuto me comecei a pôr. Ou seja, João fez a pergunta a Cristo. Este já respondeu e é essa resposta que João, deixando o colo do Senhor para se aproximar de Pedro, transmite ao futuro papa, sem curar de Judas, que, incauto, já foi identificado e já não pode fugir. Mas nem todos o sabem àquela mesa e por isso tanto se dividem os grupos: os apóstolos, à esquerda do Senhor (mais longe de João, Judas e Pedro) em imensa agitação, protestam inocência; os da direita estão gelados pela descoberta. Por isso, a mão direita do Senhor retira-se da de Judas a quem deu o pão e a mão esquerda fica aberta sobre a mesa, no último sinal de oblação. Por isso, também, o olhar de Cristo é o único olhar que não vemos e não nos olha. Só a boca e os braços abertos exprimem a solidão suprema, nimbada ao fundo pela luz crepuscular, a mesma luz da transcendência, essa que, no mesmo ano, Bramante filtrou na cúpula de Santa Maria delle Grazie. Nunca tanta sombra deu tanta luz.
Um segundo de tempo num infinito de espaço. Foi, também, o que me foi dado. E mais não peço e mais não quero.

 

 

(14 de Novembro de 2003, in Público)

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

A Coroação de Carlos Magno.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A Regra que governava os Templários teve certamente forte influência de São Bernardo, o ritmo dos dias conventuais era marcado pelas horas canónicas ou ofícios divinos, as celas eram sóbrias, o silêncio era disciplina geral, só a dieta lhes permitia maior consumo de carne: afinal, se frades eram, guerreiros lhes cumpria ser, precisavam de forças... Será difícil para um espírito hodierno entender essa obsoleta figura de monge guerreiro, em que se confundem a vocação religiosa e a militar ou bélica.

 

   As cruzadas devem ser entendidas à luz das sociedades e dos sobressaltos da época: dois séculos depois da queda do Império Romano do Ocidente, ou latino, a Europa debate-se numa barbárie caótica, de que irá procurar sair, sobretudo por força da cristianização dos bárbaros e do labor civilizacional da Igreja. E o surto islâmico irá conquistar e ocupar, não só os territórios africanos e palestinos do Império, mesmo os que sobraram para Bizâncio, como muitos da Ásia Menor, tirados à já Constantinopla e aos Persas. E a Península Ibérica. Sabes, Princesa de mim, como nestes cenários em que a vontade política  - essa afirmação da força do poder temporal e bélico - sobreleva o gosto da paz, tão chão dos povos e dos seus soldados possíveis, e podem ser arrastadas, arrasadas e esquecidas afinidades e pertenças mútuas, amizades e fronteiras aceites de convívio e entendimento...

 

   As Cruzadas, a exemplo da Jihad, foram isso também, mas o que mais me chocou nessa saga foi o orgulhoso afrontamento entre cristãos latinos e gregos... Constantino, dando, em 330, a Bizâncio o nome de Constantinopla, fez dela uma nova Roma, capital do Império. Mas o Império, institucionalizado cristão, guardaria a saudade fundadora do martírio de Pedro na antiga capital-símbolo...

 

   Facto é que o Império Romano do Oriente sobreviveu ao do Ocidente, sendo assim o rei dos reis na terra, o depositário do poder divino da realeza, o imperador bizantino. Mas Pedro, o primeiro papa, instalara-se e fora martirizado em Roma, de que era bispo. Por isso o imperador lhe reconhecia o primado honorífico, e a dado passo chegou mesmo a recorrer à sua arbitragem, sobretudo quando não lhe agradavam ou convinham as sentenças do patriarca bizantino. Por outro lado, não te esqueças de que o próprio São Gregório Magno, grande reformador da Igreja e papa de 590 a 602, se reconhecia, no plano temporal, súbdito do imperador de Constantinopla. Esta circunstância de tensão e animosidade latente - em que a questão da afirmação do poder até no plano religioso, determinou excomunhões mútuas - acabaria por conduzir ao Grande Cismo e, em 1204, à conquista e saque de Constantinopla pelos cruzados do ocidente. 

 

   Todavia, muito embora a coroação, pelo papa de Roma, de Carlos Magno como Imperador tivesse escandalizado o Império Bizantino, este acabara por aceitar que tal dignidade fosse reconhecida aos Carolíngios e, mais tarde, aos Otonianos, ainda que mantivesse a convicção de que, tal como há só um Deus e um só lugar tenente, também o Império é indivisível, pelo que, mesmo tendo o título de Imperador, o do Ocidente não podia ser, como o de Constantinopla, Imperador dos Romanos... Como vês, é sempre a "política".

 

   No plano propriamente religioso, ambas as tradições - romana e bizantina, grega ou latina - professam o Credo dos Apóstolos e comungam no mesmo Corpo de Cristo. Podem divergir em interpretações, calendários e ensino, mas nenhuma é considerada herética pela outra; podem variar formas de culto, línguas e liturgias, mas não esqueças que, no seio da mesma Igreja romana, por exemplo, se celebravam os ofícios divinos de acordo com ritos tão diferentes como o próprio romano, o moçárabe ou o visigótico. Afinal, o cristianismo sempre se deu com aculturações, tal como nunca deixou de sofrer tentações de autoritarismo, de vocação totalitária. Estas explicam o porquê de inquisições e perseguições, sobretudo quando divergências doutrinais pareciam ameaçar determinados processos de consolidação social e política. Há muitas histórias de guelfos e gibelinos, a compita entre papado e império, poder religioso e político, Igreja e Estados foi mudando de forma para permanecer...

 

   O processo dos Templários, a extinção da Ordem pela bula papal Vox in Excelso, bem como a respetiva recuperação pela sucessão atribuída a outras - como a de Cristo em Portugal - é quase vinte anos posterior ao fim da ação dos cavaleiros na Terra Santa, que a perda de São João d´Acre, em 1291 assinala. Resulta da presença templária numa França onde Filipe o Belo afirma o poder real e não gosta da dependência financeira em que a coroa está: na verdade, a Ordem do Templo é então o banqueiro dela. Noutros reinos, como Aragão, Castela e Portugal, o confronto da Reconquista continua e a vizinhança dos muçulmanos magrebinos é um facto. É aí bem diferente a circunstância da milícia templária. 

   Mas tal história fica para próxima carta.

 

       Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

   

   Minha Princesa de mim:

 

   Nestes últimos anos, multiplicaram-se as publicações, largamente sustentadas, do simples escrito à rádio, tv e cinema, de novelas, discursos e especulações pretensamente históricas ou científicas, com o propósito de abalar, ou mesmo arrasar, a fidedignidade de escritos antigos, de tradições e de crenças que, durante séculos, vêm alimentando a vida espiritual - e a religiosa - de milhões de pessoas nas suas culturas. Pensa, Princesa de mim, por exemplo, em The Da Vinci Code, do Dan Brown, que, curiosamente, na sua primeira edição (Doubleday, New York, 2003) ostentava o subtítulo A Novel - o que honestamente o situava no campo da ficção literária, a que pertence - e posteriormente foi sendo editado sem essa designação, assim se confundindo com possível investigação ou mesmo descoberta histórica. Isto dito, até sinto alguma simpatia pelo divertimento do Dan Brown, bem longe da parvoíce saloia de quem lhe copiou as receitas de enredos e lucros... A base dessa novela encontra-se numa obra de três autores - Michael Bagent, Richard Leigh e Henry Lincoln - intitulada Holy Blood, Holy Grail (New York, Delacorte Press, 1982) que especulativamente, e sem qualquer argumentação histórica ou hermenêutica consistente, pretendia demonstrar que Jesus se casara com a Madalena e dela tivera descendência. Tais relatos são aliás constantes de lendas várias, relacionadas com o Santo Graal, os Templários, os Cátaros e os Merovíngios, todas hoje comprovadamente meras ficções. A talho de fouce, observo ainda que  Bagent e Leigh - nomes que, aliás, vão "batizar" a personagem Leigh Teabing do Da Vinci Code, Teabing sendo um anagrama de Bagent - dois dos autores de Holy Blood... moveram uma ação judicial contra Dan Brown, por plágio daquela teoria nupcial, causa que perderam porque o tribunal entendeu que a novela apenas ficcionava a tese deles. Se bem me lembro, tal ideia teria origem no apócrifo Evangelho de Filipe, e mesmo deste só poderia deduzir-se o casamento com prole exorbitando uma ténue referência a um beijo... Por mim, antes ponho Maria Madalena, primeira testemunha da Ressurreição de Cristo, como conta o Evangelho de São João, em apóstola destacada entre os apóstolos, lugar que o papa Francisco insistiu em sinalizar... E volto a confessar-te, Princesa, que até gosto de ler apócrifos cristãos: afinal, são registos de crenças a devoções antigas, disseminadas num universo de gentes e padrões culturais vários, em tempos de comunicações difíceis, demoradas e aleatórias... E mais acho, curioso, que, apesar de tudo isso, frequentemente os escritos apócrifos não divergem muito, até corroboram e reiteram os textos canónicos. Sinal de que a pregação e o entendimento geral da fé cristã era, ainda assim, bastante regular e credível. Mesmo em textos dissonantes, ou simplesmente não sinópticos, a Igreja acabou por encontrar imagens e ensinamentos que a tradição da devoção cristã "canonizou"... Por acaso, até nem surgiu nenhuma Salomé esmagada entre escudos de guardas de Herodes - como na ópera...

 

   Ultimamente, parece que se generalizou a ideia de que factos históricos credíveis só se encontram em escritos apócrifos, tais como o chamado Evangelho de Judas, cuja descoberta, em 2006, levou mesmo um popular jornal londrino, de larga tiragem, a proclamá-la the greatest archeological discovery of all time, documento que, de uma assentada, ameaçava [desautorizava] 2000 anos de ensino cristão. Mas como pode comparar-se tal escrito, entre outros apócrifos, com os evangelhos canónicos, isto é, aqueles que a Igreja - através de longo e elaborado processo de consulta dos testemunhos e ensinamentos correntes nas muitas comunidades de cristãos, e de decisões conciliares - reteve como memórias fidedignas da vida e da mensagem de Jesus Cristo? Serão eles contemporâneos? Será o apócrifo Evangelho de Judas anterior aos canónicos e, por tal maior proximidade das origens, mais digno de fé? Lamentavelmente, para qualquer obcecado com a prova "evidente" de que, por misteriosa propensão ao poder discricionário e ao autoritarismo, a Igreja primitiva escamoteou textos originais e impôs ideias, construções falsas, veja-se o Evangelho de Judas é que é um documento tardio, provavelmente produzido no seio de uma seita marginal que, como várias outras, quiçá pelo afastamento daquela comunhão das comunidades cristãs na nascente Igreja católica, isto é, universal e abrangente, iam pretendendo que só a versão sua (delas) estaria certa, e por isso tomavam outra opção (que, em grego, se diz heresia). Na realidade histórica, desde os primórdios foram aparecendo várias e diversas interpretações das escrituras e dos ensinamentos cristãos, a tal ponto, Princesa, que se pode dizer que o próprio islão nasceu do judio-cristianismo. Mas Alcorão não é texto canónico da Igreja cristã, tal como os escritos apócrifos não foram referendados pelo sentimento religioso da maioria conciliar das comunidades cristãs.

 

   E vem a calhar aqui uma referência ao anglicano livro Heresy, de Alistair McGrath, professor em Oxford e, anteriormente, no King´s College de Londres e em Cambridge, que, a dado passo, escreve (traduzo): O Evangelho de Judas retrata Jesus de Nazaré como guru espiritual, semelhante aos mestres Gnósticos do segundo e terceiro séculos, com ainda pouca relação com o retrato de Jesus constante dos Evangelhos sinópticos. O Cristianismo torna-se assim num culto de mistério baseado numa imensa burocracia que governa o cosmos, que o tal Jesus vai explicando, em requintado e desassossegado pormenor, a Judas. É difícil evitar a conclusão de que Jesus de Nazaré foi reinventado como mestre Gnóstico, com ideias Gnósticas. O Evangelho de Judas tem, na verdade, o potencial de iluminar o nosso entendimento do Gnosticismo dos meados do século II e depois, especialmente, a sua já apontada relação parasita com visões do mundo então existentes. Mas parece nada ter, que seja historicamente credível, para nos dizer acerca das origens do Cristianismo ou da identidade de Jesus de Nazaré. E não é, certamente, uma significativa "ameaça" ao Cristianismo tradicional.   


   Finalmente, penso eu, Princesa de mim, a questão importante não é saber se tanto disparate "ameaça", ou não, a tradição da crença. Antes será, assim sinto, surpreender uma moda do espírito contemporâneo, essa de que é "brilhante", isto é, "inteligente", contestar ou pôr em causa algo e tudo o que recebemos como herança cultural - não por qualquer pertinente razão que justifique um inquérito, um esclarecimento, mas só por pensarmos que, afinal, alguém tentou enganar-nos durante séculos. Não medimos, então, até que ponto, afinal, é de nós próprios que já duvidamos... Pois, gostemos ou não, sermos hoje é reconhecermo-nos também no nosso passado, isto é, na nossa vida antes de nós. Lembra-te, Princesa de mim, de como já outras culturas marcam pontos sobre a nossa, só por queridamente invocarem a sua própria tradição. Com esta triste mania de sermos "espertos", vamo-nos esvaziando...

 

   Não defendo, Princesa, sabe-lo bem, qualquer cultura estática, sem aggiornamento. A nossa herança tem de ser vivida no tempo e no modo das nossas vidas. Se soubermos fazê-lo, além de autênticos, verdadeiramente, seremos um salutar desafio para os que, noutras culturas, teimam em manter e impor qualquer status quo. O vero-bem-belo não é relativo, mas só existe na relatividade do tempo. Por isso, muito e também, entender o passado não é, não pode ser, entregarmo-nos a fantasias. E fica para outra carta o que te queria traduzir do frei Tiago Voragino. Homem notável, tão só por ser, no século XIII, alguém que recolheu e registou contos e lendas de tempos antigos, sempre procurando entendê-los sem batota...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Transcrevo seguidamente um trecho do artigo de José Tolentino Mendonça no Jornal de Letras (6 a 19 de julho de 2016), acerca de Anunciações de Maria Teresa Horta, não para debater contigo o tema Iconoclastia e Mística (título do texto de JTM), menos ainda o «Romance» da poeta. Vou tão somente chamar a tua atenção para um pormenor, uma observação que servirá de pretexto à tese do autor do artigo (indiciada no próprio título escolhido), e que, a meu ver, ignora símbolos da iconografia cristã e da literatura bíblica, que eu gostaria de contrapor às Anunciações de MTH, não para as contestar, mas apenas para distinguir culturas. Aliás, a própria autora pressente a diferença, por exemplo, num poema da oitava estação do seu livro: 

 

   Num dia de calamento
   de onde a luz já fugia
   sem a olhar nos seus olhos
   ele contou a Maria: 
   - No princípio era o verbo
   onde o verbo se dizia...
   Sem perceber sua fala
   embora sempre entendesse
   o quanto ele lhe queria
   uma coisa ela sabia:
   No início eram as asas
   onde depois do amor
   estonteada se estendia.

 

   Mas vamos então ao texto de JTM. Reza assim o trecho que destaco:

 

   Contudo, o poema guarda um estratégico silêncio sobre aquele que é porventura o elemento mais intrigante (e menos consensual) na obra de Boticelli: a inesperada sombra que o corpo angelical possui e que se alonga dramaticamente sobre o pavimento, acompanhando a deslocação das mãos. Estamos perante uma natureza angélica que rompe com o cânone das representações, uma natureza não só não-privada de sombra, como seria de esperar, mas cuja sombra é mesmo o signo mais avançado, prolongando-se para lá do espaço onde o corpo se sustém. Um corpo angelical com sombra é, claramente, um corpo alterado, em metamorfose. E de que metamorfose se trata? Aquela que sabiamente, Maria Teresa Horta depois enunciará: "Fico a ver-te.../ ganhares o corpo físico / na perda do corpo místico". A sombra é uma grafia da carnalidade, estando comummente do lado dos corpos históricos e ausente dos espíritos puros.

 

   Parece-me, a mim, diferente o símbolo da sombra na Bíblia. Curiosamente, surge muitas vezes a sombra associada a asas: Quando no meu leito penso em Ti, / e ao longo das vigílias em Ti medito, / em Ti, que vieste socorrer-me, / rejubilo à sombra das tuas asas. / A minha alma encosta-se a Ti, / a tua mão direita me sustém... (Salmo 63, 7-9). Aquele que habita onde o Altíssimo se esconde / passa a noite à sombra do Deus Soberano […] Com suas asas te dá abrigo / e sob as suas penas te refugias... (Salmo 91, 1 e 4). Guarda-me como à menina dos olhos, / esconde-me na sombra das tuas asas (Salmo 17, 8).

 

   É certo que há, na Bíblia outro conceito distinto de sombra, onde se encontra a região da morte, mas a sombra trazida por Deus é benfazeja, sinal eficiente do oculto poder divino. Tal como, na narrativa de Lucas, o anjo Gabriel anuncia a Maria o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, por isso o ser santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus (Lucas 1, 35), assim também a sombra dos enviados de Deus tem poderes taumaturgos, como a sombra de Pedro nos Actos dos Apóstolos: ...a tal ponto, que até se transportavam doentes para a rua e ali os deixavam, em leitos ou em macas, para que, pelo menos, a sombra de Pedro, ao passar, cobrisse um deles (Actos 5, 15). E eis também que a extensão da mão ou do braço de Deus ou seu enviado significa o comando da realização da sua vontade. A um Moisés inquieto, Deus responde : «Será assim tão curta a mão do Senhor? Verás agora se a minha palavra para contigo se realiza ou não.» (Números 11, 13). O gesto da mão de Jesus comanda os elementos, chama e investe as pessoas, cura, perdoa, ressuscita, abençoa. A que o anjo dirige a Maria é a mão de Deus, que dá vida e transfigura. Aliás, é curioso atentar no conto da transfiguração, em qualquer dos evangelhos sinópticos: em todos se refere a nuvem que os cobre, a Pedro, João e Tiago, com a sua sombra, donde cai, retumbante, uma voz dizendo, de Jesus, este é o meu Filho, o eleito, escutai-o!  (Mateus 17, 5; Marcos 9, 7; Lucas 9, 35). Na versão de Marcos, diz-se que essa nuvem é luminosa. O Deus bíblico não é visível, faz ouvir a sua voz, esconde-se numa nuvem que é, simultaneamente, luz e sombra.

 

   Na Anunciação de Carlo Braccesco (circa 1480, no Louvre), o anjo vem voando sobre uma nuvem de luz e sombra, na de Fra Angélico (de 1430, no Prado), o anjo inclina-se frente à Virgem, e sobre ele passa, vindo do esplendor celeste, um raio de luz - onde se vê o Espírito Santo em forma de pomba - que atinge diretamente Maria. Nestas, Deus Pai, representado, ou não, desta ou daquela maneira, está sempre lá, indiciado pela luz e pela sombra. Esta será, portanto, "a grafia" da divindade.

 

   Vemos a sombra do anjo noutras pinturas, de outros autores: na Anunciação de Leonardo da Vinci (Galeria degli Uffizi, Florença); na de Lorenzo Lotto (Pinateca Comunale, Recanati); de Pinturicchio (Chiesa di Santa Maria Maggiore, Spello).

 

Em todas estas representações, a sombra do anjo se projeta para a Virgem Maria, e para ela aponta a mão direita do mensageiro celeste, a esquerda segurando um lírio, símbolo de castidade. O anjo e os seus atributos são os gestos da presença e do feito de Deus invisível. A sombra do anjo não é carnal, é, na iconografia cristã, sinal da presença de Deus, tal como, na Bíblia, os anjos são manifestações de Deus.

 

   A Anunciação de Caravaggio (1608-1610, Musée des Beaux Arts, Nancy) mostra-nos o anjo, pairando sobre a Virgem ajoelhada, em atitude de aceitação, na sombra que contrasta com a forte luz que bate nas costas de Gabriel e lhe percorre o braço direito e a mão que, apontada a Maria, transmite a vontade e o poder de Deus. Corresponde tal imagem ao que Tiago Voragino, na Legenda Aurea, escreve: «E o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra». Isto vem explicado na Glosa: «A sombra é produzida pela luz e por um corpo que se interpõe, e a Virgem, como qualquer ser humano natural, não podia absorver a plenitude da divindade, mas o poder do Altíssimo trará a sua sombra quando a luz incorpórea da divindade tomar nela o corpo da natureza humana para que ele assim possa receber Deus». Bernardo parece concordar com esta explicação quando diz: «Posto que Deus é Espírito, quando nós somos a sombra do seu corpo, adaptou-se a nós a fim de que possamos ver, por intermédio de uma carne viva, o Verbo na carne, o sol na nuvem, a luz na candeia, a cera no candelabro».

 

   A representação angélica de Boticelli enquadra-se, pois, nos cânones gerais conhecidos. Aliás, vê-se bem, a direção da própria sombra do anjo assim o indica, já que se projeta, não em função da luz do dia que está fora da porta aberta, mas sim, em sentido oposto, determinada pela luz do Altíssimo que vem de cima e de trás do enviado Gabriel. Boticelli, autor também do famoso Nascimento de Vénus, não leu, como JTM, o Anunciações de MTH. Limitou-se a pintar uma Anunciação, de acordo com o relato dos evangelhos sinópticos e servindo-se dos símbolos tradicionais da iconografia cristã. Pessoalmente, gosto muito deste conto bíblico, bem como da sua ilustração por Boticelli. Mas não creio que ele tenha que ver com as Anunciações de MTH.

 

   Estas falam-nos de outras experiências, em que, como diz JTM, do mistério de Deus só é inteligível o que puder ser declinado a partir do eros. E, atentando bem no que nos é dito, será então algo diferente. Porque parte de uma confusa contestação inicial, entre o que se lê num texto evangélico - que, aliás, se inscreve na tradição bíblica, vétero-testamentária, de que retoma passos e sumariza – e o desejo, a ansiedade, a reivindicação de alguém que o lê. A própria MTH referiu expressamente a figura autoritária de seu pai na origem da rebeldia dela contra qualquer autoridade ditadora, e ainda, à mistura, a figura de Maria como paradigmática da submissão feminina: Deixei de acreditar em Deus por causa de Maria, porque ela não tinha sido mãe porque queria... 

 

   Para mim - e escrevo-te, Princesa, como sempre, com liberdade e franqueza - nem o texto dos sinópticos que referem a anunciação a Maria, nem a sua pintura por Boticelli, foram feitos, tanto quanto toca aos seus autores, por qualquer motivo ou com qualquer intenção erótica. Isto de modo algum repudia a possibilidade de ser erótica a leitura de MTH, ou qualquer outra, diversa, de qualquer outro de nós. Tampouco contesto que o erotismo seja, ou possa ser, como afirma JTM, um caminho amplamente percorrido por exploradores do divino em todos os tempos, e em relação ao qual o próprio cristianismo tem um património considerável. E também já ouvi que um importante teólogo ortodoxo, Olivier Clément, deixou escrito que "o amor carnal permanece, juntamente com a beleza do mundo, um dos últimos caminhos do mistério"... Muitas vezes recordo a definição de Georges Bataille (L´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort), tal como saboreio as palavras escolhidas com que MTH tão poeticamente exprime a vibração sensual do corpo e a tensão íntima da alma que o encontro erótico vai lavrando. É bonito o modo como ela diz o excesso e o pudor do êxtase.

 

   Mas - como, em entrevista ao JL, ela própria confessa - a minha [dela] Maria, ao contrário da figura da Igreja, é desobediente […] não assumi Maria, peguei nela e transformei-a um pouco numa feminista. E, à pergunta seguinte (Libertando-a dos dogmas?), responde: Sim, dou carta de alforria a Maria. Na verdade este livro tem a ver com feminismo e só uma feminista podia pegar na Maria com tanto amor. Ela é uma figura de uma beleza e uma coragem infinitas, uma mulher sexuada, determinada. Por isso terminará assim o post-scriptum do livro, a sua carta a Maria: «Faça-se em mim a vontade do Senhor» / - não disseste. E por isso Maria te imagino / te narro e adivinho, te invoco, reconheço / e finalmente te lavro, suponho e amanheço. Quadra tão lindamente dita e tão sincera!

 

   A Maria das Anunciações não é a Maria da Anunciação que os evangelhos e a iconografia cristã apresentam. Esta é figura que se firma na obediência como dom recíproco, fortaleza e graça. Mas não será por isso menos subversiva: seguindo o relato de Lucas 1,38 (Maria disse então: «Sou a serva do Senhor, cumpra-se a tua palavra!» E o anjo deixou-a), acompanhamos Maria na sua visita a Isabel que, ao vê-la, exclama: «Bendita és entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre! E como me é dado que venha a mim a mãe do meu Senhor? Pois , vê tu, assim que ouvi a tua saudação, o menino [João] estremeceu de alegria no meu seio... Sim, bem aventurada a que acreditou no cumprimento do que lhe foi dito pelo Senhor!» (Lucas 1, 42-45). Ficamos a saber que a obediência gerou a renovação do mundo. Como conta a resposta de Maria, o Magnificat. Reza assim: Maria disse então: «A minha alma exalta o Senhor e o meu espírito alegra-se em Deus meu salvador! Porque lançou os olhos sobre a pequenez da sua serva... Sim, doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo Poderoso fez por mim grandes coisas. Santo é o seu nome, e a sua misericórdia estende-se, de idade em idade, sobre aqueles que o temem. Estendeu a força do seu braço e dispersou os homens de coração soberbo. Derrubou os potentados dos seus tronos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias... (Lucas 1, 46-53). A obediência de Maria a Deus é o princípio da subversão do mundo.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Discursos políticos - diversamente corretos consoante quem fala e quem ouve - vão cansando muita gente, sente-se que, na viragem presente da nossa vida social e internacional, faltam lideranças claras, vozes de sensatez e esperança, vozes de prudência, a tal virtude que eu tanto gosto de ver definida como amor sagaz. Tem fraternalmente chamado a atenção de todos nós para o nosso exemplo samaritano o papa Francisco. Com insistência cristã. O resto, ou quase tudo, é o que possa trazer votos ou pretenda deixar entender que há quem seja mais esperto e resoluto do que os outros.

 

   Achei graça, no tal suplemento de Le Monde intitulado Lectures pour temps troublés, à chamada de atenção da Lydie Salvayre - autora de Pas Pleurer, livro de que em tempos te falei por associação com a guerra de Espanha e Les Grands Cimetières Sous la Lune do Bernanos - para um ensaio do filósofo esloveno Slavoj Zizek, recentemente editado em francês, pela Fayard, em tradução da Christine Vivier, com o título La Nouvelle Lutte des Classes - Les vraies causes des réfugiés et du terrorisme. Zizek é, como o foi o francês Louis Althusser, um marxista praticante da chamada filosofia psicanalítica que, por exemplo, revendo e corrigindo Marx, estuda as ideologias como mecanismos que formam aquilo em que acreditamos e como nos comportamos. A ideologia será então um processo inconsciente, gerador de justificações e simbologias ou rituais sociais...

 

   Se recordarmos tal intuição, a leitura que Lydie Salvayre faz do livro do esloveno torna-se mais transparente: Todos os livros, ou quase, me parecem em atraso relativamente à obscena violência do mundo. Vão remando, no sulco dessas imagens que me impedem de dormir, ou tentando, com mais ou menos felicidade, distrair-me delas. Será porque, acrescentados ao terror que nos paralisa, vão ficando alguns tabus que nos impedem de o pensar? Slavoj Zizek, no seu novo ensaio, discute alguns desses tabus. Pois está cansado dos lamentos das almas rectas sobre o destino dos refugiados, já que tais rectas almas, seguras de que serão travadas, no seu impulso compassivo, pela revolta populista que se poderia seguir, assim vão balindo, no conforto dos seus salões, a sua simpatia pelos migrantes, num mundo cujo egoísmo denunciam, sem deixar de beneficiar das suas vantagens. Ele está igualmente cansado dos discursos populistas que, a seus olhos, mais não são do que o reverso dos discursos islamofascistas, discursos que pretendem ver, na presença dos migrantes, uma ameaça aos nossos modos de vida, quando o que, assegura ele, o que antes do mais os ameaça é, acima de tudo, o mercado mundial.

 

   Confesso, Princesa de mim, que, em linguagem certamente menos contundente, eu diria fundamentalmente o mesmo. Como bem compreendo, creio eu, que - assim diz Salvayre - Zizek esteja farto da interdição que pesa sobre qualquer crítica do islão, desse medo da esquerda liberal que estremece só de pensar que pode ser acusada de islamofobia... Mas, quando ela acrescenta que haveria urgência  em pensar no sombrio poderio das religiões, islão incluído, lembro uma carta que te escrevi, há poucas semanas, a respeito do Penser l´Islam do Michel Onfray. Pois me parece que as três religiões monoteístas, as tais do Livro, ao longo da sua história, foram apresentando Deus em Janus, isto é, com duas faces: a da misericórdia e a do castigo. E o que, nos tempos hodiernos, me surge como motivo de alegria e esperança é a insistência com que número crescente de líderes religiosos vem insistindo no valor inestimável da misericórdia como princípio fundador de qualquer relação.

 

   É, aliás, curioso observar como, na fundamentação do seu apelo ao ideal, quiçá utópico, de um combate universal - que juntasse as forças de migrantes e nossas - contra o neocolonialismo ocidental, o fundamentalismo islâmico, o antissemitismo e o sionismo agressivo, Zizek proponha que, escreve Salvayre, se repense, face à incompreensão recíproca que se possa levantar entre eles e nós, a noção de próximo. Qualquer próximo é acentuadamente ambíguo, declara Zizek citando Adam Kotsko, qualquer próximo é um intruso cujo comportamento incomoda, porque qualquer próximo nos confronta com a impenetrabilidade do seu desejo e do seu gozo. Então, em vez de nos perdermos em lamentações patéticas que nos dispensem de agir, em vez de querermos a todo o custo que esses refugiados se assemelhem a nós, deveremos, diz ele, ter a coragem de encarar uma «universalidade de estrangeiros», isto é, de indivíduos confrontados com a impenetrabilidade do seu desejo para com os outros e consigo mesmos.

 

   Falando como católico, com tristeza reconheço que a Igreja muitas vezes falhou na apresentação do rosto misericordioso de Deus. Pelo que acabo de te traduzir, Princesa, o próprio conceito de próximo parece ter sido posto do avesso: na verdade, se lermos com atenção a lição evangélica do samaritano - que, ao jeito de "dames patronnesses" (lembras-te da canção do Brel?), insistimos em chamar bom samaritano - veremos que, no fim do conto, a pergunta de Jesus é: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele». Disse-lhe Jesus: «Então vai e faz o mesmo». Assim aprendemos que o nosso próximo não é um objeto da nossa pena. O próximo é aquele que primeiro se aproxima do outro e, porque se transforma o amador na coisa amada, é também essoutro, quando dele nos aproximamos.

 

   Observei, nesta resenha feita por Lydie Salvayre, outro passo que vai ao encontro do que pensossinto e já tantas vezes te disse, não porque seja psicanalista, mas por intuição do outro, se assim posso dizer. Ocorre-me tal ideia, sempre que me interrogo sobre o porquê de haver mais oferta de acolhimento em Portugal do que refugiados candidatos a ela, já que preferem ir para os países onde se anunciam economias mais prósperas. Limito-me, aqui, a traduzir-te o que li, sei bem que perceberás o que quero dizer: É preciso, diz Zizek, compreender o seguinte: os migrantes não fogem apenas da sua pátria desfeita pela guerra. Esses migrantes têm um sonho, uma utopia. Encontram-se nesse paradoxo da utopia que faz com que seja, precisamente, quando os homens têm falta de tudo, e poderíamos esperar que se contentassem com migalhas, que se põem a desejar tudo, a desejar a impossibilidade. E esse desejo do impossível, afirma Zizek, depois de Badiou e outros, é o desejo do Ocidente, é o desejo do capitalismo. Desejo que, se não for satisfeito, pode virar ódio mortífero, o islão fornecendo-lhe então apenas a forma que permita alicerça-lo.

 

   Arrisco agora, Princesa de mim, repetir uma pergunta que já tantas vezes fiz: não teremos nós de rever vários motores condicionantes da nossa presente cultura do sistema capitalista?
Será que o lucro - e o correspondente desenfreado gosto dele - é, humanamente, uma motivação benéfica, um princípio moral?
Pensa só em como a ganância, esse desejo quase animal do lucro próprio, promove o incitamento publicitário ao consumo e ao endividamento, agitando imagens tentadoras, prometendo a materialização de sonhos. Terás assim descoberto como foram surgindo e crescendo as circunstâncias propícias ao aparecimento de dívidas insustentáveis, crédito malparado, bancos em crise (incluindo grandes casas da mui rigorosa Germânia)...

Não contesto, Princesa, a conveniência de mercados livres, de iniciativas privadas e sua concorrência. Mas aflige-me o desgoverno atual da libertinagem financeira e os seus efeitos perversos, desde a iniquidade na distribuição da riqueza criada à imoralidade do princípio de que o lucro é a medida de todas as coisas.

 

   Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

   

   

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A inesperada carreira da equipa de futebol do País de Gales no campeonato europeu, em tempos de surto de "Brexit", trouxe-me à lembrança um livro notável, publicado em 1998 pela Sutton, intitulado The English Nation - the great myth. É seu autor um galês católico, o doutor Edwin Jones, dedicado à investigação historiográfica, e que trabalhou na Universidade de Cambridge. Lá o fui tirar do sono da minha biblioteca, e vou-me deliciando. Sem cerimónia, logo no prefácio que ele mesmo escreveu para a primeira edição desta obra, chama a nossa atenção para o facto de todos sermos grandemente afetados pela nossa história, que pode ser vista como a única memória de um indivíduo ou como a coletiva memória de uma nação. Eis o que nos dá um sentido de identidade em relação a uma comunidade. E aponta então para a fabricação quinhentista (Thomas Cromwell e Henrique VIII) de uma falsa visão do passado inglês como raiz da singularidade com que o povo inglês se irá identificar. Só muito recentemente nos mostraram em pormenor como uma nova teologia política e nacional, com a obediência ao rei - representando a "palavra de Deus" - no seu centro, foi utilizada com propósitos políticos e, depois, por Thomas Cromwell, para propaganda governamental. De modo semelhante, uma nova visão de todo o passado inglês, baseada nessa mesma teologia política, foi criada como propaganda pelo governo henriquino, a fim de justificar a revolução a que chamamos Reforma.

E é por causa desta deliberada incompreensão da sua história que os ingleses se iriam esquecer de que são europeus [e cita V. Bogdanor em Remembering and Forgeting: "England once lay in the mainstream of European development and after the sixteenth century it became an eccentric tributary"...]. Iriam tornar-se crescentemente nacionalistas e insulares na apresentação, com o peso da aquisição de um grande império ultramarino. Desenvolveram outras qualidades inspiradas pela sua própria visão do passado, incluindo um sentido de "especifidade", auto suficiência, superioridade e separação de todos os outros povos do mundo. Esta falsa memória influenciou a sua psicologia e o seu olhar para o mundo. Isto a longo prazo explica as particulares dificuldades que encontraram, quando a Inglaterra finalmente perdeu o seu império e teve de lutar para encontrar um novo papel no mundo, e quando as forças da mudança política e económica lhe impuseram ser outra vez parte da Europa. Em meados do século XX, poucas vozes apoiaram tal perspetiva, e ainda há muita gente, no fim deste século, que muito dificilmente a aceita.

 

   Escritas em 1998, estas palavras de Edwin Jones ganham hoje mais força e repercussão. A Reforma que origina a Igreja Anglicana não é fundamentalmente religiosa, ainda hoje a doutrina e o culto anglicanos - tal como acontece nas suas descendentes episcopalianas - se aproximam muito dos da Igreja Católica Romana, sobretudo se os compararmos com os de outras Igrejas Reformadas, como a Luterana ou a Calvinista. A Reforma Anglicana tem uma motivação política que foi em busca de uma raiz teológica, para justificar a obediência nacionalista ao rei - logo tornado chefe da Igreja de Inglaterra - acima de qualquer outra.

 

   Outros reinos europeus, continentais, também adotariam, com os seus respetivos soberanos, a Reforma de Lutero ou Calvino, como a Dinamarca, a Suécia, a Holanda, mas manter-se-iam no concerto europeu, no qual, aliás, também ficaram, protestantes ou católicos - de acordo com o princípio ejus regio cujus religio - os vários estados germânicos. Os italianos, o Império Austríaco, como o dos Habsburgos de Espanha, e os reinos de Portugal e de França permaneceram católicos. E foi esta Europa católica que, na tradição da Cristandade de antanho, se opôs à progressão do Império Otomano, finalmente derrotado na batalha de Lepanto. Terá sido o canto do cisne da Europa como Cristandade. Porque mesmo as nações católicas iriam enveredar por uma crescente independência do papado e afirmação do poder régio como diretamente proveniente de Deus. O nacionalismo triunfa.

  

   A insularidade como natureza ou o isolacionismo inglês e, por extensão, britânico afirma-se, pois, apenas no século XVI, pela emancipação henriquina da tutela papal, símbolo da sua secessão da Europa católica. Antes disso - e ainda no século XV - a Inglaterra, não só comungava na cultura europeia e latina, como participava intensamente e intervinha nos movimentos, afrontamentos e conflitos continentais. Aliás, o próprio casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão ("a woman of most gentleness, of most humility, and buxomness" [amabilidade], dizia dela o rei seu marido) é sinal dessa atualidade. Mas dali em diante, ainda que desenvolvendo relações comerciais com o continente, a Inglaterra concentra-se no seu império ultramarino, e os próprios conflitos com outras nações europeias acontecem além-mar. Só já no século XIX, com as guerras napoleónicas e o bloqueio continental, o Reino Unido voltará a entrar na Europa e no jogo político europeu.

 

   Na segunda metade desse século, desenha-se outro mosaico de nações e potências europeias, quer em função da unificação da Alemanha e do Risorgimento italiano, como em virtude da ocupação das terras africanas - que irá ditar os acordos e tratados da Conferência de Berlim - e do enfraquecimento e desmembramento do Império Otomano, que colocará o norte de África e o Médio Oriente sob tutela, sobretudo, da França e do Reino Unido, tal como permitirá a independência da Grécia.

 

   A época vitoriana (a rainha Vitória era de sangue alemão), não só coincidirá com a colocação de príncipes da família Saxe-Coburgo em tronos europeus (Grécia, Bélgica, Bulgária e, por via do casamento de Fernando, primo de Alberto, consorte de Vitória, com a rainha Maria da Glória, em Portugal), como reforçará a ingerência dos britânicos na política europeia, iniciada pelas guerras napoleónicas, ainda que pragmaticamente definindo os seus limites: estar com a Europa, sem ser europeu. É interessante observarmos, Princesa, como se repetiram as origens alemãs da realeza britânica: depois dos Hanover, os Saxe-Coburgo: o serem protestantes ajudava, o serem alemães era um aviso à tentação expansionista da França. Mas a 1ª Grande Guerra levaria os Coburgo de Inglaterra a anglicizarem o nome para Windsor, traduzindo igualmente, à letra, o dos seus próximos Battenberg para Mountbatten.

  

   Tal "naturalização" de nomes e famílias significa também o fim de uma afinidade anglo-alemã, e o princípio de nova aproximação à França, apesar de diferendos e rivalidades, quiçá mais fora do que dentro da Europa. Os impérios germânicos (alemão e austríaco) saem derrotados da guerra, tal como o otomano, que Mustafá Kemal (Ataturk) transformará numa república laica. A Áustria fica diminuta, sem peso estratégico. Só a Alemanha, na sua inteireza, e com o seu ressentimento, se virá a afirmar como ameaça, sobretudo a partir do advento do nacional-socialismo. Contra ela, na Europa e não só, o Reino Unido só pode contar com um aliado natural, porque na linha da frente: a França. Na verdade, os EUA reiteram a sua opção isolacionista. Ou então, se isso for ainda possível, poderá apostar na aproximação pacífica da Alemanha e da França. Será essa a "doutrina" de Churchill, logo em 1930, num conhecido artigo publicado no Saturday Evening Post, a 15 de Fevereiro, em que defende a ideia de uns Estados Unidos da Europa, mas com os ingleses de fora: É uma ideia justa. Todas as iniciativas nesse sentido são boas, podem acalmar ódios do passado e recordações de tiranias. Fomentam trocas de bens e serviços, levam os povos a desistirem de se armarem, o que será bom para eles e para todos... [fica aqui bem clara a preocupação de Churchill: nada tinha a opor, antes pelo contrário, à prosperidade económica da Alemanha, só não a queria armada]... Nós estamos com a Europa, mas não fazemos parte dela. Embora tendo interesses em comum, não queremos ser integrados.

Já no pós 2ª Guerra, entregar-se-á à sua cruzada europeia - assim lhe chama François Bédarida no seu Churchill (Paris, Fayard, 1999) – em que se destacam uma conferência na Universidade de Zurique, a 19 de Setembro de 1946 e, sobretudo, o discurso de 7 de Maio de 1948 no Congresso Europeu da Haia.

 

   Descobri, entre as fotografias muitas que ilustram o Churchill - a Life de Martin Gilbert (na edição de Londres, Random House, 2000), uma comovente: com 73 anos, sentado à tribuna donde falou para a oito centenas de participantes, Winston Churchill enxuga as lágrimas abundantes que lhe provocou o aplauso unânime e caloroso ao seu discurso. Rodeiam-no, batendo palmas, o Dr. Kerstens (Holanda), Paul Ramadier (França), o Dr. Retinger (Secretário Geral do Congresso), e Denis de Rougemont (um dos fundadores do Movimento Europeu).

 

   Já em Zurique Churchill havia proposto uns Estados Unidos da Europa, que, por espantoso que fosse, deveriam começar assim: The first step in the re-creation of the European family must be a partnership between France and Germany, não sendo qualquer renascença europeia possível without a spiritually great France and a spiritually great Germany. Na Haia, reitera o apelo à unidade, mesmo que tal implique renúncias a atributos de soberania nacional e, pensando certamente na potência soviética, também promove a NATO e a OCDE. A referência a essas duas organizações não é despicienda: na verdade, ambas pressupõem parceria com os EUA, quer para a defesa comum (o facto de os americanos possuírem bomba atómica é importante), quer para a recuperação económica da Europa (pensa no plano Marshall). Mas significa algo mais: na altura, senhor ainda de um império ultramarino (que, aliás, Churchill zelosamente amava), o Reino Unido fazia deste a sua prioridade; depois, vinha os EUA, esteio importante do mundo anglófono e da cultura anglo-saxónica; só em terceiro lugar surgia a Europa, parceiro comercial que se poderia formar e se desejava próspero, aliado que se queria forte, pois geograficamente encostado ao bloco do Pacto de Varsóvia.

 

   Tal doutrina será exposta ao Congresso do Partido Conservador, ainda em 1948, por um Churchill que, apesar de tudo, era, ao tempo, além de ferrenho defensor do British Empire (e, consequentemente, seria do Commonwealth), se tornara já também oponente do bloco soviético, fervente pró americano (filho de americana, seria também feito primeiro cidadão honorário dos EUA), e defensor da "sua" união europeia. Esta última opção, todavia, não era popular nos círculos políticos britânicos. Por isso, aliás, se constituiria a EFTA, em Maio de 1960, o grupo ou associação dos outer seven (Áustria, Dinamarca, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça) contraposto à CEE dos inner six (Alemanha Federal, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos). Esta era já uma união aduaneira, enquanto a EFTA era apenas uma zona de livre-câmbio, agremiação mais pragmática e menos vinculativa. Quando, finalmente, e apesar da oposição de De Gaulle, virá a integrar, em 1973, a CEE, fá-lo também por razões pragmáticas: sentia os prejuízos advenientes da perda do império, não podia ficar de fora de um novo bloco económico e financeiro em construção.

 

   Por tudo isso, Princesa de mim, já escrevi que o BREXIT não me surpreende, nem me apavora. Nem estranho o "apoio" que lhe deu Donald Trump. Vejo sobretudo o regresso a uma situação conhecida, sem grandes sustos nem novidades. Mais preocupante, para mim, é verificar o progresso de alguma cegueira para o mundo novo que se desenha, bem como o egoísmo reacionário motivador de várias outras insistências em "exits" que por aí vão surgindo: o receio xenófobo da necessária convivência num mundo em que tudo e todos somos, seremos, cada vez mais ubíquos. Sobre isso, Princesa, temos o dever moral de nos interrogarmos. Tal como, por outro lado, perguntar como reorganizar, democrática e eticamente, uma unidade europeia de nações e regiões, de culturas e povos... Temos de reaprender a olhar para nós e para o mundo, tentar perceber o muito que ideias feitas nos esconde. Quando acima te falo do Henrique VIII ou do Churchill, não procuro identificar causalidades, apenas aponto circunstâncias e exemplos.

 

   Ainda esta manhã me lembrava da nomenclatura das civilizações do Huntington - de que discordo, como já te disse - de como ele separa a cultura ibero-américa da civilização ocidental, esta abrangendo apenas a Europa Ocidental, a América anglófona e a anglófona Oceânia. Isto é: para Samuel Huntington e muitos outros, o mundo anglo-saxónico é outro universo (será quiçá, a "Europa" seu vassalo?). Assim como ao jeito daquela brincadeira entre o Michael Bloomberg e o Boris Johnson a falarem de trocarem entre ambos New York e London... O Michel Rocard, francês e huguenote, lá sabia porque é que apontava brexit aos britânicos: só porque estes vivem noutro mundo, não se acomodam com europas... E tal não é ficção, apenas realidade, sem que mal algum venha por isso ao mundo.

 

   Aliás, todo esse alarido em redor do BREXIT mais parece conversa de comentadores de futebol do que análise serena de uma situação que, afinal, não é muito diferente do que já sabíamos e, até à data, incomodou sobretudo aqueles especuladores financeiros, a quem, erradamente, por aí se chama "investidores"... Há pouco, dei comigo a perguntar se o Tony Blair - que tão obedientemente seguiu George W. Bush no disparate dramático da guerra do Iraque, cujas consequências continuamos a sofrer - terá sentido muito o BREXIT, ou simplesmente achado nova oportunidade de "brilhar", como o Durão Barroso, vazio e vaidoso, a aconselhar outro qualquer Goldman Sachs... Não terei esquecido tão cedo aquelas imagens dos Açores, com os chefes dos governos ibéricos a juntarem-se aos anglo-americanos da guerra no Iraque. Ainda ontem, as associei, instintivamente às imagens chocantes do atentado em Nice.

 

   Afinal, bem vistas as coisas, a Europa sofre mais pelos "políticos" que tem, e por oportunismos, demagogias, ganâncias e preconceitos, do que pela riqueza que possui na diversidade das suas identidades culturais... O projeto europeu foi, e terá de ser, um pacto de convivência na paz, na abertura aos outros. Sejamos pragmáticos e fraternos, deixemo-nos de voluntarismos constitucionalistas "à la Delors" ou rigorismos financeiros "à la Schäuble". Vale bem mais a pena sabermos viver uns com os outros, para o bem maior de todos, do que estafarmo-nos em intermináveis reuniões com o propósito de definir e impor regras que, mais do que governar-nos, nos incomodam, quando também não injustiçam muita gente. Não nos faltam leis nem regulamentos, falta-nos essa ética elementar que se chama amor do próximo. Quiçá seja mais acertado dizer-te o tanto quanto sinto a falta de um espaço espiritual de liberdade, nesta Europa circunscrita por receitas económicas e financeiras, minada por vaidades consumistas e apetites de dinheiro, deformada por desequilíbrios, desigualdades, esquecimentos.

 

   Devo estar a envelhecer. Definitivamente. Mas mentiria se escondesse que acho loucura esse estafado "sonho europeu" (?) de construção de uma nova grande potência. Posso estar gagá, mas não sou, nem quero ser, russo "à la Poutine" ou chinês com pretensões hegemónicas. Quero estar onde se abram portas e janelas de convivência e criatividade.

 

      Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

  


   Minha Princesa de mim:

 

   Em carta anterior à minha última, já te falava de condicionantes que dificultam maior liberdade de interpretação do Corão e mais dinamismo progressista do Islão. Tal questão é também abordada por Michel Onfray:

 

   Tudo começa com um problema que deu lugar, na filosofia muçulmana, a abundantes debates: foi o Corão criado (tese mutazilita) ou é ele incriado (tese axarita)? Tudo decorre da resposta que se der a esta pergunta. Se o Corão foi criado, foi-o por homens que, mesmo inspirados por Deus, podiam ter-se enganado, porque é humano errar. Se não foi, é diretamente palavra de Deus; consequentemente, é verdade absoluta, e cada vírgula é vontade de Deus...  ...O mutazilismo permite tornar a razão em instrumento de leitura do Corão, porque faz dele um livro escrito pelos homens e podemos lê-lo com os mesmos olhos com que lemos Homero, enquanto o axarismo faz da fé o a priori necessário a qualquer leitura: devemos acreditar, ponto, parágrafo.

  
   E Onfray, conhecedor de correntes contemporâneas do pensamento islâmico, sabe como as muitas contradições detetadas entre passos do Corão - que não se explicam mutuamente, mas antes se excluem - têm justificado a orientação mais racional das escolas muçulmanas herdeiras do mutazilismo (que nasceu em Bassorá, no século VIII). E, em favor dela, cita também este trecho da sura III do Corão: «Há um só Deus, o Poderoso, o Sábio! É Ele que sobre ti faz descer o Livro. Neste encontramos versículos claros - a Mãe do Livro - e outros figurativos. Aqueles cujo coração se inclina para o erro agarram-se ao que é dito em figuras, pois procuram a discórdia e são ávidos de interpretações. Mas só Deus conhece a interpretação do Livro. Os que estão enraizados na Ciência dizem: "Nós cremos nele! Tudo vem do nosso Senhor!", mas apenas os homens dotados de inteligência dele se lembram.»

 

   Pessoalmente, pelo conhecimento que vou tendo de escritos de pensadores islâmicos do nosso tempo, creio que se vão afirmando - à margem e contra o fanatismo de muitos imãs e o terrorismo de alguns movimentos, e também governos, islamistas - correntes e escolas teológicas e sociais que se comprometem com a modernidade do islão e lhe descobrem uma versão universalista que já não assenta em qualquer império.

 

   Nesse sentido, também se impõe uma limpeza do nosso olhar para o mundo. E eu, que não subscrevo, nem a nomenclatura das civilizações que Huntington propõe, nem quaisquer teorias de conspirações ou da fatalidade de conflitos - mas antes e sempre insisto na procura e partilha de pontes e pontos de encontro - recorro aqui a um texto desse professor da Universidade de Harvard:

 

   O Ocidente é a única civilização que teve um impacto importante e por vezes devastador sobre todas as outras. A relação entre o poderio e a cultura do Ocidente e o poderio e culturas das outras civilizações é também uma das chaves do mundo civilizacional. Na medida em que aumenta o poderio das outras civilizações, a atração que apresenta a cultura ocidental esbate-se, e os não-Ocidentais ganham confiança nas suas culturas indígenas e vão-se implicando mais nelas. O problema central das relações entre o ocidente e o resto do mundo é por conseguinte a discordância entre os esforços do Ocidente - em particular da América - para promover uma cultura ocidental universal e a sua declinante capacidade para fazê-lo.

   A queda do comunismo exacerbou esse fenómeno, reforçando no Ocidente a ideia de que a sua ideologia democrata liberal teria triunfado globalmente e seria portanto universalmente válida. O Ocidente, particularmente os Estados Unidos, que sempre foi uma nação missionária, pensa que os não-Ocidentais deveriam adotar os valores ocidentais, a democracia, o livre-câmbio, a separação dos poderes, os direitos do homem, o individualismo, o Estado de direito, e conformarem as suas instituições a estes valores. Há minorias que abraçam estes valores e os defendem, no seio de outras civilizações, mas a atitude dominante, nas culturas não-ocidentais, antes vai do ceticismo à rejeição. O que parece universalismo aos olhos do Ocidente, parece imperialismo alhures.

 

   Estamos aqui em acordo. Mas isto que se disse não pode ser justificação para conflitos. Simplificando, direi que, tal como a cristandade europeia gerou iluminismo e laicidade, os ideais "ocidentais" de liberdade, igualdade, fraternidade, não impostos, mas simplesmente propostos, se poderão acasalar em sociedades e culturas que, como tudo no mundo, e nas nossa vidas, vão mudando, tomando sempre novas qualidades. Ou melhor: como diz, ao João Semana (Nicolau Breyner)médico agnóstico da série da TV com o seu mesmo nome, o padre reitor António (João d´Ávila), na hora em que ambos, gastos pela vida, morrem na igreja da vila que Júlio Dinis inventou para As Pupilas do Senhor Reitor: Os homens não valem pelo que pensam, mas pelo que amam...

 

   Mas, da "civilização ocidental", o que recentemente mais contagiou o mundo, outras culturas, foi o gosto do dinheiro, o culto das finanças, o prazer do consumo. A tal ponto que no dia-a-dia das vidas humanas já menos se apercebem fatores culturais de identidades e diferenças, mas cada vez mais motivos normalizadores de comportamentos económicos. Nesse sentido, à parte pormenores aparentes que os distinguem, o chinês médio, o carioca, o "yankee", o "alfacinha", têm condutas cada vez mais semelhantes, com as suas TV, os seus frigoríficos, automóveis, computadores e "net". Os mesmos desportos os entusiasmam e enchem estádios, e ei-los que escutam as mesmas músicas, da clássica à "pop", passando pela "world", etc... O contacto generalizado faz-se hoje sem filtros, quem disponha de um computador pessoal tem acesso à omnipresença, sem outro controlo além do seu próprio. Que cultura ou culturas se vão tecendo e como nos envolverão é algo talvez ainda do foro da ficção. Tudo sempre foi mudando - todo o mundo é composto de mudança - mas hoje muda depressa e muito imprevisivelmente. Até se fala de trans-humanismo (neologismo inventado em 1957 pelo biólogo Julien Huxley, irmão de Aldous, o autor do Brave New World) e pós humanismo, este querendo já significar o advento de uma nova espécie humana, de vidas longas e quiçá eternas, de uma nova inteligência (artificial?) liberta da gravidade dos nossos corpos biológicos, algo como a noosfera de que falava Teilhard de Chardin...

 

   Meu Deus, meu Deus, onde eu já vou, Princesa, a solidão põe-me a divagar, quando falo comigo mesmo torno-me perdido vagabundo, vou por onde não sei, nem ouço o que grito, mas apenas ecos vários do que já pensei ou me disseram. Paro aqui, espero por próxima carta, talvez acerte.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Na minha carta precedente, falei-te, muito livre e pessoalmente, da constituição e tradição dos nossos textos evangélicos. Por seu lado, o Corão deve a sua reunião em livro a um ato político, preparado pelo segundo califa (ou sucessor de Maomé), Omar, e feito pelo terceiro, Osmã. Na verdade, durante a vida e imediatamente depois da morte do Profeta fundador, apenas circulavam revelações divinas, lado a lado com ditos do mesmo Maomé, e relatos da sua vida. Tais ditos e relatos também seriam reduzidos a escritos, conhecidos, respetivamente, por Hadiths e Sira. Já as revelações divinas, recebidas pelo Profeta através do anjo Gabriel, seriam coligidas num livro a que se chamou Corão, precisamente por conter essas qurra ou recitações. Foram, aliás, os al qurrâ, os recitadores que se presumiam depositários exclusivos da revelação maometana, que mais se opuseram à versão oficial do Corão decretada pelo califa Osmã, como instrumento indispensável à preservação da unidade e força de um império nascente, que lutas intestinas, numa circunstância de rapidíssima expansão, ameaçavam. Não olvides que, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dez anos depois da hejira (início da era muçulmana, em 622), lhe sucederam, imediatamente, os quatro califas ortodoxos (os "bem guiados"): Abubacar, Omar e Osmã, até 657, período em que o islão conquista, para além da península arábica, o Egipto e o norte de África, e, derrotando os exércitos persa e bizantino, os territórios que hoje constituem a Síria e o Iraque; e Ali, o quarto, que Maomé teria preferido para sucessor, foi califa de 657 a 661, data em que foi assassinado. Nele radicará a secessão xiita. Apesar da importância do conceito de Umma ou comunidade dos crentes, no Islão, a continuação da mensagem de Maomé não se faz, como acontece no cristianismo primitivo, por uma Igreja independente do poder político, temporal, mas pela transmissão de um império.

 

   Escreve o doutor Nabil Mouline, no seu Le Califat - Histoire politique de l´islam (Paris, Flammarion, 2016): Desde o seu acesso ao poder, Abubacar [o primeiro califa, sucessor imediato de Maomé] tem de enfrentar um grave problema. A maioria das tribos e regiões que se aliaram à causa de Maomé, nomeadamente depois da conquista de Meca, rejeitam a autoridade de Medina [onde o Profeta falecera e está sepultado], por razões religiosas, económicas e políticas. Vários grupos estimam que o juramento de vassalagem prestado ao Profeta é estritamente pessoal. Recusam, portanto, reconhecer o novo chefe. Outros afirmam que, não deixando de ser muçulmanos e reconhecendo a preeminência de Medina, deixarão de pagar o imposto - sinal de subordinação universal. Outros grupos vão ainda mais longe: não se contentam com declarar a sua independência, mas põem profetas - que a tradição classificará como impostores - à cabeça, para se diferenciarem dos muçulmanos e mostrar que nada têm para invejar [...] Com força e determinação, Abubacar decide reprimir essas rebeliões.

 

   [Entendida esta e outras condicionantes, não quero deixar de te referir que, pouco antes de morrer, Maomé recebeu numa mesquita uma delegação  de cristãos de Najran, aos quais garantiu a proteção da Umma muçulmana. Facto para lembrar.]

 

   Mas daí também decorre outra questão quanto à interpretação das escrituras cristãs e muçulmanas: enquanto umas são consideradas inspiradas pelo Espírito Santo, mas obra humana, passíveis, portanto, de análise e interpretações que tenham em linha de conta o tempo e o modo  em que foram redigidas, ou seja, a sua circunstância, as outras são geralmente afirmadas como ditados de Alá, do Deus único que em árabe falou a Maomé, o analfabeto que as transmitiu, não por escrito, mas no seu dialeto da língua árabe, esta sendo, portanto, a língua divina por excelência. Posteriormente, é a autoridade do califa que as fixa por escrito. Aliás, talvez já Abubacar, por sugestão de Omar, que lhe sucederia, teria mandado redigir - antes, portanto da versão oficial de Osmã - a revelação de Maomé, texto que, então, viria a servir para as recitações ou qurra. Todavia, nota bem, Princesa de mim, a tentação totalitária de possuir a exclusiva revelação de Deus não envenenou apenas o islão, mas também a cristandade, como, hoje ainda, verificamos no "bible belt" dos EUA e noutras seitas de raiz cristã, ou, mais infelizmente, em agrupamentos ditos "católicos"... Também, no mundo islâmico, podemos entender diferentes achegas à interpretação, quer do Corão, quer dos hadith, quer da própria Sira, ou vida do profeta Maomé, pese embora o radicalismo intransigente de muitos imãs e ulemas.

 

   Dounia Bouzar, muçulmana francesa que a revista Time elegeu, em 2005, "herói europeu do ano", pelo seu trabalho inovador sobre o islão, respondia assim à jornalista que, em 2014, lhe perguntava se não seria necessária uma reforma teológica que impedisse os extremistas de se apoiarem em versículos do Corão, apelando à violência, para legitimarem um discurso que ignora outros trechos do Livro que defendem o respeito pelos outros: Qualquer muçulmano conhece, em teoria, a reforma de 1930, cujo objetivo era o de distinguir os passos do Corão ditos "principais" - que enunciam verdades constantes - dos "circunstanciais" - ligados ao contexto histórico da época da revelação. Ora os princípios básicos do Corão afirmam o respeito da vida humana, de toda a vida humana, inclusive a das pessoas de outras religiões ou mesmo ateus! Tal como o cristianismo conheceu episódios sangrentos - a Inquisição, o dia de S. Bartolomeu de 1572 - o islão também os teve. Mas tal não significa que a regra seja a violência. Do mesmo modo que no cristianismo, foi quando o islão se tornou religião de Estado que a violência emergiu.

 

   Acho interessante esta observação, eu próprio várias vezes te disse, Princesa, quanto receio a tentação totalitária dos monoteísmos, como de qualquer ideologia da exclusividade, tal como, em nossos dias, tantas vezes ocorre com o laicismo. Não sou, nem pretendo ser, filósofo, teólogo, historiador ou especialista seja do que for. Sou, simplesmente, um simples amador de pensar, procuro ir entendendo as coisas. Mas pensar é, também, correr o risco de me enganar. Tenho de ter a humildade de reconhecer que o erro é humano, como eu sou. Nisto de que agora te falo, penso que um problema que o islão tem com a circunstância histórica da sua revelação advém do facto desta se ter processado numa sociedade de clãs rivais e divididos, étnica, política e religiosamente, grupos que coexistiam, nem sempre pacificamente, sem um poder único que lhes fosse superior. Assim, se a pregação de Maomé se inscreve na descendência de Abraão, na linhagem do monoteísmo judaico-cristão, o ambiente em que ela se desenvolve não conta apenas com judeus e cristãos, mas maioritariamente com tribos politeístas. Além disso, o nomadismo, as caravanas comerciantes, por trilhos traçados entre oásis e poços de água, nessa terra de ninguém que é um deserto, por muitas regras e códigos de honra que se respeitem, são sempre propícios à eventualidade de afrontamentos e conflitos. Daí o pendor bélico, e a tentação do poder, na expansão original do islão. Aliás, o próprio Corão se distribui por quatro períodos de revelação, três em Meca e um em Medina, e sente-se bem, no longo decurso das sequentes discussões sobre a sucessão do Profeta, como se arrastaram fraturas e discórdias acerca da própria revelação e dos ensinamentos de Maomé. A fixação do texto do Corão, por ordem do califa Osmã, como acima te disse, é, pois, um ato eminentemente político... que se, por um lado, pretende uma versão "oficial" da mensagem transmitida pelo Profeta, por outro, não se dispõe a escamotear ditos circunstanciais, sobretudo aqueles que possam apoiar eventuais medidas coercivas.

 

   Diferentemente, cristianismo primitivo desenvolve-se principalmente em meio judeu, quer na Palestina, quer na Diáspora. No meio dum povo submetido ao império de Roma, isto é, ao poder político de um estado estrangeiro e ocupante, praticante de outra religião, que divinizava o imperador. O cristianismo torna-se, nessa época, não só na esperança do cumprimento da promessa messiânica ao povo judeu, mas num movimento de vocação universal e subversiva que, por outro lado, não tem qualquer possibilidade de pegar em armas. Aliás, até ideologicamente, o cristianismo inicial é uma variante do judaísmo que, deste, expressamente rejeita o projeto político da realização temporal do Reino de Deus: o meu Reino não é deste mundo. Ou ainda: a Deus o que é de Deus; a César o que é de César. Mas tal não significa que não tivesse havido, no próprio seio da Igreja, ou nas igrejas primitivas, divergências quanto a doutrinas e cultos, designadamente quanto à relação do cristianismo nascente ao judaísmo, quer no tocante à secessão da nova religião (lembra-te das polémicas em redor da obrigatoriedade de serem circuncidados os gentios que se convertessem à Boa Nova), quer à sua própria universalização, em oposição ou ultrapassagem da implantação próxima do reino messiânico prometido ao povo judeu. Ao São Paulo que defendia não haver, aos olhos de Deus, diferença entre judeu e gentio, escravo e homem livre, grego e romano, homem e mulher, igrejas cristãs - em Jerusalém ou na Galácia, por exemplo - insistiam na filiação prévia no povo eleito, o judeu, de qualquer pretendente a cristão. Aliás, os diferentes evangelhos atribuem ao Jesus histórico afirmações que tanto abonam um lado como outro. Serve este parêntese para ilustrar que tudo isso se passou em meio humano, cultural, tal como muitas outros debates e acontecimentos na vida da Igreja. Mas esta nasceu no Pentecostes, tem consigo e por si a fé em que o Espírito Santo vai soprando a vida do mundo...

 

   Alcorão começa por invocar o nome de Deus clemente e misericordioso. E todas as suas suras, exceto a nona, assim se iniciam. Tal é a fé de Abraão que, para as três religiões do Livro é o pai de todos os povos. Cronologicamente sendo o último dos monoteísmos vindos de Abraão, diz Ghaleb Bencheikh, doutor do Islão, franco-argelino de reconhecida autoridade, que a tradição religiosa islâmica se quer continuadora do ensinamento da Tora e propagadora da mensagem evangélica. Os seus valores assentam num alicerce ético comum ao judaísmo e ao cristianismo. Por muito tempo, aliás, a pregação maometana não falava de "islão", mas antes da imutável religião da coorte de Abraão. Em próxima carta falarei contigo sobre este tema.

 

   Sabes bem, Princesa, que sempre cuido mais de procurar o que aproxima do que o que separa, inclino-me mais para a descoberta da comunidade intrínseca da condição humana do que para a denúncia de conflitos de culturas ou civilizações. Onfray, a dado passo da sua reflexão sobre o islão, recorre às teses de Samuel Huntington. Todavia, eu penso que, para além da presença universal e indiscriminada do bem e do mal - ainda que, evidentemente, o tempo e o modo possam ser, e têm sido, mais ou menos propícios a um ou a outro - nenhuma etnia, cultura ou religião é necessariamente maligna ou benigna, nem qualquer conflito fatalmente inevitável. Não concordando com a opinião de muitos, inclusive Michel Onfray, de que há civilizações superiores a outras, prefiro uma achega antropológica e histórica, que nos ajude a compreendermo-nos nas nossas diferenças e a procurar o significado partilhado de um humanismo.

   Fica para outra carta, Princesa.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

  

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   

 

 

      Minha Princesa de mim:

 

   Posso concordar ou discordar de afirmações de Michel Onfray, filósofo francês, ateu confesso, homem de esquerda ("esquerda" sendo, para mim, tal como "direita" um conceito plurívoco, quiçá equívoco, mas ele declara-se nietzscheano de esquerda e pós anarquista), ou, ainda, admitir que, pela insistência com que vai, parece-me, em jeito de maré, reiterando as suas teses, por vezes me cansa um pouco, mas reconheço a deontologia com que vai cumprindo o seu ofício de pensador. Para ele, ser filósofo é procurar refletir sobre a realidade no tempo longo, diferentemente do jornalista que dá notícias a curto prazo. Creio que já te falei do Michel Onfray, não por ser seu leitor assíduo, mas por me terem estimulado a reflexão alguns dos seus escritos e declarações sobre a questão do islamismo. São passos pensados, trabalhados, mesmo se partindo de pontos de vista que eu nem sempre partilho, ou chegando a conclusões um tanto ou quanto divergentes das minhas próprias. Adiante te dou alguns exemplos desse meu secreto diálogo com o filósofo francês, sobretudo em volta do seu Penser l´Islam, que a Grasset editou em Março de 2016.

 

   Respondendo a interpelações da jornalista argelina Asma Kouar sobre vários aspetos da questão islão/guerra/terrorismo, afirma, quando ela lhe pergunta se não será injusto visar os muçulmanos, acusando o islão de ser globalmente responsável pelo terrorismo atual: Há pelo menos duas maneiras de ser muçulmano, conforme as suras sobre as quais cada um constrói o seu islão: ou as que afirmam «Exterminai os incréus até ao último» (Corão VIII, 7) e, ainda, «Matai qualquer judeu que apanheis» (Sira,II, 58-60), «Matai os politeístas seja onde for» (Sira XVII,58); ou, pelo contrário, as que dizem «Não haja coação em matéria de religião» (Corão II, 256) ou, ainda, «Aquele que salvar um só homem é considerado como se tivesse salvo todos os homens» (Corão V, 32) - e digamos, a talho de fouce, que esse mesmo convite, nos mesmos termos, se encontra também entre os judeus (Micha Sanhedrin, 4:5). Os segundos podem afirmar que o islão é uma religião de paz, de tolerância e de amor, mas em detrimento das suras invocadas pelos primeiros, que tornam possível um islão de guerra, de intolerância e de ódio. O mesmo se passa com o cristianismo, que permite - se nos reclamarmos do Jesus que oferece a outra face, perdoa os pecados, responde ao ódio com amor, convida ao amor do próximo e ao perdão dos pecados - um cristianismo pacífico, tolerante (o de Montaigne); ou que permite o contrário, se se reclamar, nos próprios Evangelhos, do Jesus que expulsa a chicote os mercadores do Templo (o passo dos Evangelhos que Hitler preferia), ou que diz: «Não vim trazer a paz, mas a espada» (Mateus X, 34-36), uma espada que se tornará no símbolo de São Paulo, com o qual o cristianismo oficial construiu a sua ideologia, mais do que com o Jesus da paz, da tolerância e do amor, esse que nunca teria tornado possíveis as cruzadas, a Inquisição, o Index, a colonização e o genocídio dos povos da América.

 

   Em cartas várias te tenho dito como sempre me parece mais positivo insistir na versão pacífica do islão, do que apontar-lhe um carácter necessariamente bélico... E em muitas conversas e escritos outros vou apresentando exemplos de tolerância e convivência de muçulmanos com gentes e culturas diferentes. Nunca me parece demais insistir na lembrança dos construtores de paz. Tal como não posso negar nem devo escamotear episódios da história da cristandade que, infelizmente, revelam sobranceria, intolerância, antagonismo e inimizade. Ainda hoje deparamos com muitos cristãos, sobretudo clérigos, que se dedicam mais a denunciar e ser contra do que a anunciar a alegria da boa nova da misericórdia de Deus. Felizmente, sempre foram e vão surgindo reações evangélicas, como, em séculos passados, as de Bartolomeu de las Casas e outros dominicanos, na América Central, e dos missionários jesuítas, na do Sul, à exploração e ao abuso colonialista dos índios americanos. E, hoje em dia, as de um Papa Francisco! A tal história dual da Igreja, de que já te falei. Também a personagem de São Paulo terá muito que se lhe diga, como ele mesmo muito teve para dizer. Mas a espada com que a iconografia cristã o distingue, nem sequer é a que, antes de se converter, usou contra os seguidores de Cristo: é, sim - como tão bem se vê na Decapitação de São Paulo, do Petrini, pintura de 1710 exposta em San Giulio, Altavilla Monferrato - aquela que lhe cortou a cabeça, fora das muralhas de Roma, como a lei romana determinava que fossem executados os seus cidadãos. Aliás, se bem me lembro, Princesa, Santo Ireneu diz algures, no seu Adversus Haereses, que o evangelho de São Lucas - também conhecido, precisamente, por evangelho da misericórdia - é aquele que S. Paulo pregava. Na verdade, Lucas, pagão convertido ao judaísmo e, depois, ao cristianismo, era discípulo de Paulo, que acompanhou em muitas viagens. Tenho, recentemente, tido conhecimento da tese, entre alguns historiadores e exegetas do Novo Testamento, de que os evangelhos sinópticos terão sido todos, primeiro, redigidos antes do ano 70 (data da destruição do templo de Jerusalém por ordem do imperador Tito), quiçá em aramaico e hebraico, registando assim as tradições orais correntes nas várias comunidades cristãs. Muito embora os originais tenham desaparecido, terão deixado rasto em aramaicismos e hebraísmos reconhecíveis na versão grega, aquela que a Igreja reteve. Se o de Lucas transmite a pregação ou tradição paulina, o de Marcos traz a de São Pedro. O de Mateus, abraçando essas correntes e outras, será aquele que mais proximamente regista as palavras do próprio Jesus em terras da Galileia e da Judeia, sendo Levi (Mateus), o seu autor, a julgar pela sua profissão, homem necessariamente letrado, tal como Lucas era médico, e Marcos, de acordo com outros estudiosos, o autor do evangelho mais antigo, escrito a pedido dos cristãos de Roma, pessoa culta. O evangelho de São João é mais obra de autor, e mesmo já uma construção teológica, além de quiçá ser o historicamente mais rigoroso, sobretudo no relato da fase final da vida de Jesus, e do seu ministério público. Mas todas estas hipóteses continuam sendo discutidas por especialistas e investigadores: o professor Geza Vermes, da universidade de Oxford, por exemplo, judeu húngaro regressado ao judaísmo depois de se ter convertido ao catolicismo e ser ordenado padre (creio que jesuíta), sendo considerado um dos mais sagazes investigadores do Jesus histórico, afirma a veracidade da crucifixão do Nazareno (consulta os seus The Authentic Gospel of Jesus The Passion, ambos na Penguin, um em 2003, o segundo em 2005) atestada não só pelos escritos neotestamentários, mas ainda pelos historiadores romanos coevos Josephus e Tácito, bem como, indiretamente, pelo Talmud judeu. No primeiro dos seus livros que te indiquei, Vermes procura determinar, entre vários ditos atribuídos a Jesus, aqueles que Ele terá realmente proferido, concluindo que, mesmo assim, surgem, consoante qual dos evangelhos, e em que trecho, discrepâncias e aparentes contradições. Mas nada suficiente para desvirtuar a mensagem fundamental de amor, de misericórdia e paz, a tal que, no decurso da História, muitas vezes a "Igreja oficial", a cristandade, ou cada um e qualquer de nós, tem esquecido ou afastado. Também não creio que a datação certíssima dos textos evangélicos originais, nas suas presumíveis línguas, ainda que disciplina importante, seja essencial ao seu entendimento. Lembra-te de que há "casos piores". O primeiro aspeto insólito é o facto de os primeiros poemas da literatura europeia terem sido compostos numa língua que nunca ninguém falou. O grego da Ilíada e da Odisseia é uma língua artificial, que mistura elementos de dialetos diferentes: jónico, eólico, árcado-cíprico, ático, etc. (Frederico Lourenço, no Grécia Revisitada, Lisboa, Cotovia, 2004). Como também seis séculos separam Virgílio dos seus primeiros manuscritos conhecidos, treze Platão, dezasseis Eurípides. Apenas retenho para aqui que exegetas cristãos, e não cristãos, não se cansam de procurar entender o que o Jesus histórico terá mesmo dito e pretendido transmitir. Mas tanto não obsta a que a tradição cristã fundamental - afinal sempre revisitada e recorrente - incessantemente nos recorda o mandamento do amor, e que a fixação dos textos canónicos, por oposição aos apócrifos, se foi fazendo durante três séculos (do II ao IV), pelo labor de sínodos e concílios, respeitando três critérios sine qua non: datarem da geração apostólica, enunciarem verdades ortodoxas sobre Jesus Cristo, serem reconhecidos pela maioria das comunidades eclesiais. Se atentares bem nestes critérios, Princesa de mim, verificarás que, antes de se revestir dum autoritarismo central e hierárquico - ainda hoje invocado por muitos, mas sempre igualmente contestado - a tradição católica se enraizou na vinda e na vida humana de Jesus, e na reunião da Igreja, por obra e graça do Espírito Santo. É a Tradição do Pentecostes no Povo de Deus. Por muito que contrarie ou exaspere os chamados "fundamentalistas", defensores de uma interpretação literal dos textos bíblicos - o que, aliás, fatalmente os empurra para perplexidades, consequentes afrontamentos emotivos e múltiplos sectarismos - a Igreja sempre acreditou que a revelação se descobre nos textos, sim, mas ainda na tradição que os vai lendo e interpretando. Assim também se explica a diversidade de correntes e a atualidade de debates no seio da própria Igreja, bem como, em contracorrente, a propensão do clericalismo conservador para o autoritarismo.

 

   Penso, Princesa de mim, que se atentarmos, sem preconceito nem hipocrisia, para a tradição islâmica, descobrindo que, nela também, há correntes inspiradas pelo espírito da misericórdia e da paz, encontraremos o muito de essencial que temos em comum com os fiéis muçulmanos. E veremos ainda como a graça ou propósito de distinguir entre a mensagem de Deus e o poder temporal, político, e entre a letra e o Espírito (com propósito uso aqui um E maiúsculo) tem sido (como, apesar dos desvios e abusos do autoritarismo clerical ou político, foi mais livremente acontecendo na cristandade) fator fulcral de uma dialética de debate e concórdia, de progresso e atualização.

 

   Mas fica mais disto para próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira