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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LARÁPIO APAVORADO

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XI) - 11 de agosto de 2017

 

Sophia de Mello Breyner foi exemplo de coragem, de talento e de determinação. A sua fragilidade aparente contrastava com um carácter surpreendentemente destemido. Conta-se que, ainda jovem, e numa zona pouco iluminada, foi assaltada, ou melhor, foi vítima de uma tentativa de assalto.
Convém explicar que, pela vida fora, Sophia revelou uma aversão completa, que tantas vezes se manifestava com pavor, a fantasmas e a elevadores. Na dúvida, preferia sempre as escadas e em casas desconhecidas certificava-se sempre se não estavam assombradas.
Um dia na PIDE descompôs um agente que pretendia levá-la de elevador para um andar superior do terrível antro...
Mas voltemos ao episódio da tentativa do assalto... Sempre aparentemente distraída, ia no seu passo apressado, quando o meliante lhe estendeu a mão à mala. Sophia não largou a carteira e deu um enorme grito, lancinante, que deixou o ladrão petrificado e Sophia acrescentou, alto e bom som: - Ah! Julgava que era um fantasma! Afinal, é apenas um ladrão!... E o larápio fugiu a sete pés apavorado...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEMPO DE FÉRIAS…


Sophia de Mello Breyner Andresen

 

O ENCONTRO DE SOPHIA E DE JOÃO CÉSAR…

 

João César Monteiro disse que a poesia não é filmável e que é inútil persegui-la, mas demonstrou que é possível uma aproximação numa das suas obras referenciais - «Sophia de Mello Breyner Andresen» (1969).

É um dos mais belos filmes da história do cinema português e é uma homenagem serena não apenas à poesia, mas ao mar português, à nossa costa fantástica.

Em cada momento desta obra, nós encontramos a sensibilidade do cineasta e o carisma de Sophia.

E quando Xavier estranha o tom de voz de sua mãe a ler «A Menina do Mar» ele está a dizer-nos que a poesia prolonga e completa a realidade.

Do mesmo modo, como quando a Mãe Sophia ralha com os filhos, o que encontramos é a vida vivida, imperfeita, dada a perturbações, que são o melhor elogio à liberdade de ser que nos leva diretamente à Dignidade do Ser.

As minúsculas e as maiúsculas não são indiferentes… Sophia e João César aqui estão, em memória de Carl Dreyer…

A memória e o elogio do génio poético.

A poesia não é filmável, mas o cinema pode levar-nos à essência da palavra…

"E o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, rodeado de cavalos-marinhos, e o seu manto de púrpura nas águas"…

 

>> Veja o Filme aqui


CNC

TEMPO DE FÉRIAS…


NAZARÉ COM ROQUE GAMEIRO…

 

NAZARÉ COM ROQUE GAMEIRO…

 

Eis-nos diante do cenário que muitos recordamos na nossa costa de longos areais.
O pintor é Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), o indiscutível patriarca da «tribo dos pincéis».


Já aqui tivemos há dias sua filha Raquel e outros virão por certo.


Como poderemos compreender Portugal, sem perceber «onde a terra se acaba e o mar começa»? Aqui temos a Nazaré. O cenário é inconfundível. Lá em cima, está o Sítio, o Santuário da Senhora da Nazaré e a memória do primeiro Almirante da nossa Armada, D. Fuas Roupinho, referência mítica de muitas lendas…

Veja-se o elegante lançamento das embarcações, lembrando as influências mediterrânicas e especialmente fenícias. E, estendidas na areia, estão as redes, que três crianças consertam em primeiro plano. É, por certo o fim da manhã, e nas águas diversas embarcações fazem-se à faina ou descansam dela. É talvez Primavera. Aqui é o Atlântico que se manifesta pleno de fulgor.

Sophia perante estas proas afiadas lembra-nos a vocação antiga:

   «Os que avançam de frente para o mar 
   e nele enterram como uma aguda faca 
   a proa negras dos seus barcos
   vivem de pouco pão e de luar».

E como intitulou a poeta estas palavras? «Lusitânia», a exprimir o mais fundo de nós mesmos, habituados a enfrentar o mar, capaz de nos dar alimento e riqueza e de nos trazer a tragédia dos naufrágios.
Mas o mar é a origem e o destino de quem somos!

 

CNC

 

A VIDA DOS LIVROS

 
de 14 a 20 de julho 2014

 

A melhor homenagem que podemos fazer a Sophia de Mello Breyner, como a qualquer poeta, é lê-la, lê-la sempre e interminavelmente. Leia-se agora «Poesia», «No Tempo Dividido» e «Mar Novo», Assírio e Alvim, 2014. É tempo de continuar a ouvi-la!

 

Sophia por Arpad Szenes

 

ESSE GRANDE VAGO QUE HÁ NA LUA…

Lemos: «Sinto os mortos no frio das violetas / E nesse grande vago que há na lua». Sophia de Mello Breyner Andresen é símbolo da cultura portuguesa contemporânea. E qualquer adjetivação diminuiria a sua força e o seu lugar único. A decisão da Assembleia da República da translação do seu corpo para o Panteão Nacional merece um especial apoio, que não pode resumir-se a uma homenagem circunstancial, mas tem de traduzir-se num sentido reconhecimento relativamente à figura de uma das nossas maiores. O meu velho amigo José Manuel dos Santos, ao lançar, em muito boa hora, a ideia, compreendeu bem o extraordinário alcance de um gesto como este, e viu que os espíritos mais lúcidos apoiaram com naturalidade a concretização da iniciativa. E neste ponto, importa deixar claro que cada decisão, cada gesto, cada pessoa tem a sua razão única e singularíssima. Por isso, é a memória de Sophia, e tudo o que significa, que neste momento especialmente interessa, enaltecendo todas as vontades e os espíritos que permitiram à Pátria reconhecer na sua memória a essência e a força profunda da nossa própria cultura. Poderíamos fazer outras alusões e lembrar outros casos, mas nesta circunstância do que se trata é de salientar o «suplemento de alma» que Sophia deu através do exemplo, do talento e de uma força de espírito, que a colocam no centro da perenidade da nossa língua e das suas culturas. E se é símbolo, é-o também pela atitude que sempre soube assumir, nunca numa lógica imediatista ou saudosista, paternalista ou ilusória.

 

VEMOS OUVIMOS E LEMOS…

Nunca foi uma voz acomodada, a de Sophia, ou capaz de baixar os braços perante as injustiças e as adversidades. E, para surpresa de muitos, tomou solidariamente atitudes firmes e inesperadas, como na célebre vigília da Igreja de S. Domingos, na madrugada de 1 de janeiro de 1969 - «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar (…) / Nos caminhos da terra / Os mapas continuam / De fome e sujeição / E continua a guerra /O cântico da flauta / E a música do banjo /Não podem apagar o concerto dos gritos (…) / O nosso tempo é tempo / De pecado organizado». E se referimos esse dia, temos de nos lembrar do clamor de revolta que significou «Mar Novo», em que Sophia - consciente da importância da História e das responsabilidades pessoais, demonstrou com nitidez que eram aqueles que, supostamente, queriam defender a pátria de antanho com velhos argumentos, os que com maior evidência se limitavam a olhar para trás, como se uma visão estática e ilusória do passado pudesse ser resposta. E foi essa exigência que fez Sophia escrever no final dos anos cinquenta, num tempo dilacerante, o «Poema inspirado nos Painéis que Júlio Resende desenhou para o Monumento que devia ser construído e Sagres»: «Nenhuma ausência em ti cais da partida / Impetuosas velas plenitude do tempo / Euforia desdobrando os seus gestos na hora gloriosa / Do Lusíada que parte para o universo puro / Sem nenhum peso morto sem nenhum obscuro / Prenúncio de traição sob os seus passos». A estranha palavra exprime uma profunda revolta, contra a recusa surpreendente do projeto, vencedor do concurso para o monumento «Mar Novo», proposto pelo irmão de Sophia, o Arquiteto João Andresen… E que significava a ideia de «Mar Novo»? Sophia não se limita a fazer eco do protesto, põe a nu o absurdo de um saudosismo retrospetivo, que recusa a ideia de uma aventura audaciosa orientada para os dias de hoje e para o futuro. Afinal, eram os anúncios de traição que ocupavam o lugar de uma cultura livre, de uma identidade aberta e historicamente enraizada.

 

ENIGMA DA CULTURA PORTUGUESA…

Ao lermos a sua poesia entendemos o enigma da cultura portuguesa: através da distinção entre as realidades e as esperanças, os dramas e as audácias. Em lugar da alternância entre euforia e depressão, Sophia propõe-nos uma serena procura da História como sinal de continuidade e de vida. Vasco Graça Moura disse-nos, por isso: «os que a conheceram ficaram, porventura, a compreender melhor essa sua constante recusa em abdicar da medida que tinha como própria, mesmo nos transes mais fulgurantes da revelação poética. Ressalvadas as metáforas e os outros recursos próprios da escrita, Sophia exprimia-se da mesma maneira na sua coloquialidade imediata, tinha a capacidade de se ‘distrair’ do que não lhe parecia essencial e ia diretamente ao cerne das situações e das coisas. A poesia era para ela ‘uma arte de ser’, uma elevação do solo, como a dança, uma musicalidade dotada de sentido desocultado pelas palavras, a partir da Natureza, da memória, dos meandros da alma…». E em «Lusitânia» está talvez tudo aquilo que somos e nos distingue: «Os que avançam de frente para o mar / E nele enterram como uma aguda faca / A proa negra dos seus barcos / Vivem de pouco pão e de luar». Eis a exigência dos limites e o sonho, eis da compreensão e a determinação. Mais do que todas as explicações vagas, eis que é a poesia de Sophia que pode responder quem somos.

 

PAÍS DE PEDRA E VENTO DURO…

Ao falar de Sophia temos de lembrar uma memória longínqua da criança, ao colo de seu avô, Thomaz de Mello Breyner, talvez em S. João dos Bem-Casados, a ouvir poemas antigos e marcantes, de Camões, de Garrett ou de Antero. Nessa recordação está a referência forte às raízes da poesia portuguesa e da nossa cultura, criando uma intérprete inovadora da genuína tradição. «Por um país de pedra e vento duro / por um país de luz perfeita e clara / Pelo negro da terra e pelo branco do muro / Pelos rostos de silêncio e de paciência / Que a miséria longamente desenhou / Rente aos ossos com toda a exatidão /Dum longo relatório irrecusável…». E é assim que Eduardo Lourenço, numa passagem essencial, nos diz que Sophia completa um vazio deixado por Pessoa. Se a «Mensagem» é ambígua e é feita de elementos contraditórios, que o «desassossego» desconstrói, Sophia não esquece o «espantoso sofrimento do mundo». É que, partindo das raízes, compreendendo a sua renovação permanente, e não esmorecendo: «Sophia inventa para o Dividido, um lar póstumo pelo qual Pessoa sempre suspirou. E em si mesmo integrou uma ausência na qual molhou os seus dedos sem se perder nela. Nela escondeu a sua noite que por ser coroada de estrelas como a de Dante não continha menos o seu peso em lágrimas». Deus é o Ausente por excelência, e não há um duplo idealizado, mas um transcendente fulgor «que como o de uma anunciação põe fim a uma espera confusa para convertê-la em presente pleno, Verbum Caro» (como diz E. L. no prólogo à antologia espanhola «Nocturno Mediodia»). «-Pedra rio vento casa / Pranto dia canto alento / Espaço raiz e água / Ó minha pátria e meu centro // Me dói a lua me soluça o mar / E o exílio se inscreve em pleno tempo». É Portugal que aqui está, delimitado, como Sophia fez com a serenidade que a fez entender a perenidade e a atualidade da liberdade como dignidade do Ser.

 

Guilherme d’Oliveira Martins

SOPHIA, SÍMBOLO INDELÉVEL…


Desenho de Ana Ruepp

 

Por Guilherme d’Oliveira Martins

 

A homenagem nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen é um ato de elementar justiça e de reconhecimento artístico e cívico! A poeta é uma das grandes referências da cultura portuguesa. Clássica e moderna, encontra e prolonga Fernando Pessoa por um caminho próprio e diferente. E Eduardo Lourenço afirmou que “desde os tempos de Pascoaes, a poesia portuguesa esforçava-se por conciliar Apolo e a sua mítica expressão solar da vida com Cristo, sombra sob tanto excesso de sol, deus morto para que a morte não fosse confundida com a vida digna desse nome. Se essa conciliação teve lugar em algum lugar foi na poesia de Sophia”. Sentimos a coexistência de Atenas e Jerusalém. Daí ter nascido “precocemente clássica”, talvez fora de uma modernidade, por definição em crise, mas ciente da importância dos novos caminhos em busca da dignidade do Ser. E assim Sophia chega a Nietzsche e à ligação dionisíaca, através de um “Cristo Cigano” – que não espera que o crucifiquem e que se oferece nu ao esplendor da vida que misericordiosamente o assassina – “mas a sua morte despe-o da sua aparência solar e esculpe-o em redentora agonia onde o rosto do Ausente se revela”. E sentimos a sede de justiça, que leva a não fechar os olhos ao “espantoso sofrimento do mundo”. Francisco Sousa Tavares disse, na melhor fórmula que conheço, que Sophia "tinha sinais do seu Deus na confusão dos homens". Eduardo Lourenço diagnosticou "uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio" que deve "ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional". Sophia foi com a sua escrita e o seu exemplo, uma referência forte que fica para além dos jogos de palavras e das circunstâncias. "Depois de tantos séculos de pecado burguês, a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa" (Arte Poética III, 1964). Todos quantos se cruzaram com Sophia, são unânimes em reconhecer que a capacidade criadora e a sensibilidade artística excecionais se aliaram sempre a uma inteligência política arguta. Os seus discursos políticos mostram-no. Os seus combates recusavam a ambiguidade. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo” – confessa-nos. Então “discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”. “Às vezes a polícia política (PIDE) aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico”. Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar. Contra a ambiguidade, “sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real (disse um dia). Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”. E lembremo-nos do entusiasmo posto por Sophia na tradução de «Anunciação a Maria» de Paul Claudel. Sente-se a proximidade relativamente ao artista de «Arte Poética». «Esta é a noite / Densa dos chacais / Pesada de amargura / Este é o tempo em que os homens renunciam». Longe da exclusiva busca de doçura, o que há, sim, é a permanente demanda de uma vida de drama, de dúvida e de contradição. Tomé e Pedro estão sempre presentes, antes e depois de pôr a mão na ferida aberta ou de ouvir o galo cantar, sempre perante o medo terrível que leva Mara ao ato de desespero perante Violaine. «Aquele que partiu / Precedendo os próprios passos como um jovem morto / Deixou-nos a esperança». É aqui que a poética de Sophia se aproxima e se afasta de Claudel. Aproxima-se porque há a procura silenciosa da esperança no equilíbrio da palavra e da justiça, nunca a confusão com qualquer certeza intolerante. Mas distancia-se, uma vez que não pode haver ambiguidade na luta agónica. Violaine é símbolo, a um tempo, da incerteza e da força, num gesto inusitado e necessário do beijo ostensivo ao leproso.