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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca da arquitetura de Tadao Ando (Parte II)

A herança do movimento moderno e a criação de uma linguagem individual.

 

'In 1969 I set up a small design office in Osaka. This was my first step toward resisting social injustice through my work as an architect.', Tadao Ando, 2012

 

No livro 'Tadao Ando. Conversations with Students' (2012) clarificam-se as referências mais importantes que ajudam a caracterizar a arquitetura de Tadao Ando:

 

1. A importância do contexto.

 

Tadao Ando acredita que a arquitetura requer elementos verdadeiros e tangíveis enraizados no clima e estilo de vida do lugar. Aspetos como o contexto geográfico e cultural, relacionados com a história e a identidade específica do local são essenciais. Mas também importantes são as experiências pessoais retiradas da vivência da arquitetura, de impressões e de memórias. 

 

2. A importância da intuição no processo de criação.

 

O processo de projetar em arquitetura requer uma consideração de diversos elementos, matérias e relações. É a intuição que consegue transcender todos estes domínios: 'It is within the logically indescribable or clearly unrecognizable that the unlimited potencial of analog thinking resides.' (Tadao Ando, 2012)    

 

3. A herança do movimento moderno. 

 

Para Tadao Ando a emergência do movimento moderno trouxe a oportunidade para homogeneizar o mundo das formas construídas - os arquitetos modernos acreditavam na arquitetura como volume, na geometria e na expressão adquirida através da proporção e dos materiais. Tadao Ando retirou grandes lições do Imperial Hotel in Tokyo de Frank Lloyd Wright, da Villa Savoye de Corbusier e da Casa em Farnsworth de Mies Van Der Rohe. Mas foi sobretudo através dos exemplos de La Tourette e da Unidade de Habitação de Marselha de Le Corbusier que Ando adquiriu a vontade em usar o betão na sua forma mais natural, mais escultural, mais liberta e expressiva.

 

4. A arquitetura tradicional Japonesa.

 

'Our neighborhoods became overwhelmed with banal, formulaic boxes. However, gradually, the ubiquity of the International Style led to the question: Does this truly enrich people's lives? Soon a rationalistic approach emerged that sought to reclaim a rich humanistic environment by merging architecture with a region's traditions, history and lifestyle.', Ando, 2012

 

Os materiais e as cores usados na arquitetura tradicional japonesa são muito específicos - vermelhos e verdes intensos aparecem em templos Budistas e as casas são construídas com os materiais na sua aparência mais natural. Ao trabalhar com uma limitada paleta de cores e materiais, os arquitetos são forçados a encontrar originalidade através de outras formas. De facto, no Japão existe uma cultura orientada para a natureza e por isso existe um incentivo para que se incorporem na arquitetura materiais e cores na sua forma mais natural. E é esta cultura que gera nos habitantes uma acentuada sensibilidade para todo fenómeno natural - por exemplo a presença delicada da luz numa casa é um elemento essencial, tal como descrito no livro 'In Praise of Shadows' de Juni'chirō Tanizaki. Ao viajar intensamente por todo o Japão, Ando tomou consciência do grande potencial da arquitetura tradicional e  da grande capacidade que a arquitetura tem em transmitir pensamentos e ideias. Ando acredita na transmissão espiritual da tradição.

 

5. A escultura de Isamu Noguchi

 

'Through more than ten years of interaction with him, I learned of the rigor and hardship of the artist's life. I came to truly realize that art gives rise to humanity itself.', Ando, 2012

 

De Noguchi, Tadao Ando aprendeu que se a pedra é manipulada demasiadamente nunca poderá ser uma escultura, porque a pedra morre. E por isso, Ando acredita sobretudo na importância do processo do pensamento que direciona  a execução do objeto criado. Basta por vezes uma pequena alteração a uma pedra para trazer à superfície a sua identidade e o mesmo se pode pensar da humanidade. Noguchi por sua vez aprendeu de Brancusi a desafiar continuamente os seus limites e a desenvolver com o máximo de profundidade e persistência os seus pensamentos e ideias -'each individual must work out his own truth'. 

 

'Architecture is born out of abstract ideas. However, when architecture is built within an existing context of place and diverse valise, dialog must occur as well. Architecture cannot exist without a relationship with the people who make up society.', Ando, 2012

 

Tadao Ando deseja então encontrar o espírito inserido na forma da arquitetura e assim recuperar um sentido de identidade e especificidade - ao incluir elementos naturais tais como luz, vento e água e ao expressar elementos da cultura local. Porém estão incluídos simultaneamente elementos que fazem parte de uma linguagem individual (porque a arquitetura resulta de um necessário conflito introspetivo para ser expressão de uma ideia) e universal ('Regardless of the period or style in which one is rooted, something universal can be learned from all architectural styles and cultures.', Ando 2012).

E por isso a arquitetura para Ando tem de se unir intensamente com a natureza e ser capaz de transmitir valores de simplicidade, estabilidade, homogeneidade, resistência e durabilidade porque o homem é um ser em constante relação e é mutável e suscetível de ser constantemente moldado.

 

'If you fail to cultivate within yourself a fight-back mentality, society will end up controlling you. Deciding to live with conviction will enable you to persevere. I truly believe that it is a commited approach to life that will allow you to play a vital role in society.', Tadao Ando, 2012

 

Ana Ruepp

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

 

Acerca da arquitetura de Tadao Ando (Parte I)

A importância do vazio.

 

'A living space should be a sanctuary.'
Tadao Ando

 

A arquitetura de Tadao Ando (1941) é uma experiência física que enfatiza o nada e o vazio. Ando anuncia simplicidade e leveza, embora através de uma arquitetura de betão, pesada, de contornos rígidos e geometrias claras e por vezes complexas. Tadao Ando deseja afirmar na sua arquitetura a importância da negação do eu perante a circunstância. Ao esvaziar-se, o homem de si mesmo pode devolver autenticidade a si próprio e assim unificar-se com tudo e com todos que o rodeiam.

 

Ando anseia assim que o homem se renuncie a si próprio e se entregue na totalidade ao espírito e à natureza sentida sempre de forma direta (grandes envidraçados abrem-se ao exterior). Os espaços organizam-se através da sensação que conduz o homem pelas entradas de luz e pelo silêncio. A arquitetura de Ando deseja dar espaço à reflexão acerca do sentido da vida. 

 

'Dwelling in a house is not only a functional issue, but also a spiritual one. The house is the locus of mind, and the mind is the locus of God. Dwelling in a house is a search for the mind as the locus of God, just as one goes to church to search for God. An important role of the church is to enhance this sense of the spiritual. In a spiritual place, people find peace in their mind.', Tadao Ando

 

Além de Ando materializar a arquitetura do espírito, o arquiteto declara uma associação franca entre a natureza e o o objeto construído. O objeto existe para o homem experienciar a profundidade e a beleza da natureza. Tadao Ando acredita deste modo que a arquitetura é responsável por evidenciar o carácter do sítio e torná-lo visível (é assim materialização viva da identidade do lugar). Esta atitude torna claro qual a relação que Ando tem com a sociedade em que se insere - simplicidade, humildade e despojamento. 

 

Os seus projetos são em betão e caracterizam-se por serem volumes rígidos e austeros de superfícies planas e aberturas estratégicas para permitirem a entrada cuidada da luz natural. Porém retomam igualmente o vocabulário da arquitetura tradicional japonesa —o intercalar vincado do cheio e do vazio, do aberto e do fechado e do grande contraste entre o escuro e o claro.

 

'The real importance of architecture is its ability to move people’s hearts deeply. Architecture is the reconciliation or synthesis of opposing concepts; it arises from the subtle interstices of conflicting ideias. In other words, it is the sublimation of polar opposites - inside and outside, east and west, part and whole, history and the present, art and reality, past and future, abstract and concrete, simple and complex - into a single expression of personal will.’, Tadao Ando

 

No livro 'Tadao Ando. Conversations with Students' lê-se que o filósofo Tetsurō Watsuji - ao afirmar a importância do espaço físico que nos rodeia porque molda a maneira de ser do homem desde o momento em que nasce - fascinou Ando, especialmente através do livro Fūdo, Climate and Culture (, vento e Do, terra). Clima para Watsuji, são as características físicas do lugar em que o homem vive, mas também os seus padrões climáticos e todo o ambiente social como a família, a comunidade, a sociedade e o modo de vida e até todo o suporte tecnológico disponível. Há assim, segundo Watsuji, uma influência mútua entre o homem e o ambiente físico que o rodeia. Clima é assim toda uma rede concreta de influências que em conjunto criam/moldam/determinam os valores e as atitudes do homem.

 

Cultura é a influência do passado sobre a cultura do presente. O que o homem é - não é só determinado por vontade do pensamento ou por uma decisão individual e solitária - afirma-se sim como resultado de todo o espaço climático que o acompanha desde o nascimento, durante a vida e até à morte.

 

As viagens são, para Tadao Ando, a mais importante forma de aprendizagem, porque segundo Ando para entender a arquitetura de verdade é preciso experienciá-la no local através dos cinco sentidos: 'however, travel is not only accomplished through physical migration. Recollection or even daydreaming can also be a means of travel. Travel is a dialogue with yourself that takes you away from the inertia of daily life (...) On climbing to the top of the Empire State Building and gaining a full view of the city, I was struck by the diversity of human endeavor that was represented before me. '

 

Ana Ruepp