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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O TEATRO FAIALENSE E A SOCIEDADE AMOR DA PÁTRIA

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES – III 

 

Nesta evocação de teatros dos Açores, que visitamos e referenciamos em livros sucessivos sobre o património português de arquitetura de espetáculo, referiremos hoje dois exemplos de boa arquitetura mas, sobretudo, de descentralização cultural, vinda de tempos e épocas em que deslocar uma companhia teatral ou uma orquestra para os Açores não era fácil. E o mesmo se dirá da própria projeção arquitetónica dos edifícios, alguns do século XIX, outros mais recentes: e muitos deles de qualidade indiscutível.

 

A cidade da Horta, no Faial, dá-nos pelo menos dois exemplos dessa qualidade e modernidade epocal e permanente.

 

O Teatro Faialense, na Horta, consagrou uma tradição que vem pelo menos de meados do século XIX, com a edificação, em 1856, de um entretanto desaparecido Teatro da União Faialense. Este seria demolido nos anos 10 do século passado, para edificação, no mesmo local, do Teatro Faialense.

 

Trata-se de um belo exemplar de arquitetura de teatro, sobretudo na estrutura, que se mantém, com camarotes que marcam, efetivamente um estilo e merecem uma conservação tantas e tantas vezes descurada… É certo que o camarote, como tal, pode dificultar a visão do palco e sobretudo do ecrã de cinema, nas salas que, a partir dos anos 20 do século XX, foram adaptadas à exploração cinematográfica, sofrendo adaptações, quando não a demolição pura e simples: não faltam exemplos.

 

 Porém, repetimos, do ponto de visita arquitetónico, as salas e edifícios mais antigos representam um fator de indiscutível qualidade.

 

A primeira vez que visitei o Teatro Faialense foi num período de menor atividade da sala. No que se refere ao historial recente, Márcia Dutra informa que o Teatro funcionou até 1980, tendo sido municipalizado e reaberto em 2003, e beneficiando de obras de restauro dirigidas pelo Arquiteto José Lamas, que manteve a estrutura do edifício e da própria sala.

 

 Mas houve uma intervenção global de restauro e modernização: tal como refere Márcia Dutra, o edifico “beneficiou de uma nova caixa de palco, um auditório e um centro de conferências” alem da renovação da infraestrutura de serviços. E mais: no teto da sala de espetáculos “exibe-se uma nova pintura contemporânea, alusiva à musica, do artista plástico açoriano Nuno da Câmara Pereira” (cfr. “Teatro Faialense” in “Portugal Património” ed. Circulo de Leitores  2006 –vol. X  pág. 40).

 

E nesta crónica dedicada a salas de espetáculo na Horta, é oportuno referir a Sociedade Amor da Pátria, inaugurada em 1934, e que aqui já evoquei, a propósito dos teatros e cineteatros do Arquiteto Norte Júnior: destaquei a fachada dominada por elementos decorativos e heráldicos, típicos de uma época e de uma estética e que, nesse aspeto, contrasta com a ortodoxia do Teatro Faialense.

 

Citei então uma referência de José Sarmento de Matos, a propósito do velho Cineteatro Carlos Manuel de Sintra, hoje Centro Cultural Olga Cadaval, também segundo projeto inicial de Norte Júnior: “neste seu desenho sintrense (Norte Júnior) não levou até às ultimas consequências a conjugação do espírito imaginativo com bom gosto que deixou bem vincado no magnífico edifício afim da Sociedade Amor da Pátria na Horta, Açores” (cfr. “Teatros em Portugal-Espaços e Arquitetura” ed. CNC e Mediatexto  2008 pág. 64).

 

O que só por si mostra a qualidade do património da cidade da Horta, na Ilha do Faial.

  

 

DUARTE IVO CRUZ 

TEATRO ANGRENSE

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES II 

 

Fazemos hoje uma referência ao Teatro Angrense, pois constitui ele também um belo exemplo, em plena atividade, do que chamamos a “geração” dos teatros oitocentistas, construídos ao longo do país e mesmo, como aqui se vê, nas zonas mais descentralizadas – mas nem por isso, evidentemente, menos relevantes no ponto de vista urbanístico, arquitetónico e cultural: geração definida e efetivada na sequência do garreteano Teatro de D. Maria II, inaugurado, como bem sabemos, em 1846.

 

E vem a propósito, então lembrar que Garrett e António Feliciano de Castilho, deixaram a sua marca específica nos Açores, onde estiveram, em épocas separadas, por razões e permanências diversas, ambas aliás algo episódicas – mas nem por isso, note-se bem, menos relevantes e significativas na cultura nacional e local.

 

Em qualquer caso, o que agora nos interessa é evocar a fundação e a permanência, em plena atividade deste Teatro Angrense, devidamente adaptado também ao espetáculo cinematográfico, modernizado no ponto de vista da atividade técnica e cultural, mas sem que isso implique a destruição da sala oitocentista: exemplo que, como temos aqui visto, não foi nem é acompanhado em tantos e tantos casos, por esse país fora… E nesse aspeto só há que elogiar a politica urbanística prosseguida em Angra do Heroísmo, que aliás lhe valeu ter sido classificada como Património Mundial da UNESCO.

 

O Teatro Angrense representa um belo exemplo dessa descentralização, acentuada pela insularidade, que à data da construção e inauguração, era ainda mais evidente. Trata-se, de facto, de um belo exemplo de arquitetura de espetáculo, inaugurado que foi em 22 de novembro de 1860. As notícias da época dão-nos conta de uma celebração que envolveu, além de representações dramáticas cindas de Lisboa, um concerto no salão nobre, a cargo da Banda do Regimento de Infantaria: celebração típica da época!…

 

O Teatro Angrense beneficiou de obras de remodelação funcional e arquitetónica, primeiro em 1926, posteriormente já na década de 80 do seculo passado, tendo sido entretanto municipalizado.

 

Ora, tal como já escrevi na sequencia de uma detalhada vista para a elaboração do livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) e que posteriormente repeti,  o Teatro Angrense mantem-se com alterações aceitáveis numa estrutura original oitocentista que se conservou,  apesar de mudanças, como a do fosso da orquestra, que  mal se descobre.

 

E acrescente-se uma nota de história que valoriza o próprio teatro em si, pelo enquadramento urbano.

 

Em 1599 havia no local um armazém de depósito de fazenda e mais mercadorias vindas do Oriente. Num surto de peste que assolou a cidade, o armazém foi incendiado: entendeu-se, bem ou mal, que a epidemia tinha lá a sua origem…

 

Passados mais de dois séculos, constrói-se então o Teatro. E em qualquer caso, a sala “resistiu” às adaptações a cinema, e é notável no seu conjunto de balcão, frisas e camarotes.

 

Acrescente-se que essa estrutura basicamente inscreve-se na sequencia histórica de infraestruturas de cultura e de espetáculo que marcam os Açores, e que, na Ilha Terceira, ainda se concretiza hoje nos Centros Culturais de Angra do Heroísmo e de Praias da Vitória, ambos segundo projetos do arquiteto Miguel Cunha, autor ainda de um Centro Cultural na Graciosa.

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO MICAELENSE

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EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES I

 

Faremos aqui, tal como o título indica, algumas evocações dos principais teatros e cineteatros dos Açores, na perspetiva habitual da análise histórica e da situação atual. Como é costume, temos presente o enquadramento geográfico mas também cultural de cada um dos casos referidos. Ora, se essa abordagem se justifica em termos históricos de âmbito centralizado, mais se impõe na evocação, análise e descrição critica dos teatros-edifícios de zonas menos centrais por razões históricas e/ou geográficas.

 

Há que ter em conta, porem, que tal descentralização mais reforça o mérito da própria iniciativa de construção e funcionamento de edifícios teatrais, numa época em que não era obviamente fácil nem o acesso nem a garantia de exploração…

 

Ou por outras palavras: era mais fácil construir e rentabilizar, no ponto de vista económico, um teatro em Lisboa do que em São Miguel ou nas outras ilhas dos Açores, e na Madeira.

 

Ou não será? Estamos a referir designadamente os séculos XIX/XX e não remontamos por agora a épocas e cidades mais distantes: lembrando entretanto que já aqui evocamos desde os teatros romanos até a teatros portugueses mais antigos de África e do Brasil.

 

Sem ir tão longe no tempo e no espaço, lembramos hoje a tradição de teatros em São Miguel: e iremos recordar teatros mais ou menos históricos dos Açores e da Madeira. E vem a propósito então referir que, de acordo com estudos de José Leite de Vasconcelos, fazia-se já teatro popular nos Açores a partir do seculo XVI, com significativo incremento no século XVIII. (cfr. “Teatro Popular Português” vol. III).

 

Mas não vamos tão longe: o seculo XIX já é pródigo em teatros nos Açores e na Madeira. Especificamente, evocamos então um Teatro Micaelense, ou melhor, os Teatros Micaelense. Porque, de acordo com Helena Dias, começa a falar-se de um Teatro Micaelense em Ponta Delgada ainda antes de 1850. Castilho, que lá viveu de 1847 a 1850, terá sido um dos grandes entusiastas da construção. (cfr. Helena Dias in “Teatro Micaelense” ed. Ponta Delgada 2004).

 

Mas só em 1865 é aberto ao publico o primeiro Teatro Micaelense, situado em Ponta Delgada e construído a partir das ruinas de uma Igreja. O projeto inicial foi concebido pelos arquitetos Augusto Serra e Herculano Gomes Machado, que confiaram a decoração do interior aos cenógrafos Hercules Lambertini e Cândido Xavier.

 

A iconografia da época mostra-nos uma fachada clássica de 5 portas encimadas por cinco janelas do salão nobre. A sala à italiana tinha 16 frisas e 38 camarotes.

 

E para variar, transforma-se em cinema pelos anos 20 e arde em 9 de fevereiro de 1930! Destino corrente nos teatros portugueses!...

 

Até que em 31 de março de 1951 é inaugurado um novo Teatro Micaelense, a partir de um projeto de Raul Rodrigues de Lima. Encerra decorridos anos, reabre em 4 e setembro de 2004 depois de uma “modernização pacífica” da autoria de Manuel Salgado, que assim mesmo a classifica!...

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DUARTE IVO CRUZ

O OITOCENTISTA TEATRO AVEIRENSE

 

Temos referido nesta série de artigos numerosos casos de alteração/transformação de edifícios de espetáculo que se adaptam a novas necessidades e expressões urbanísticas e culturais, mantendo entretanto uma raiz arquitetónica e funcional. E de facto, mesmo os mais antigos, como o São Carlos, inaugurado em 1793 ou o D. Maria II, inaugurado em 1843, e que efetivamente são os mais “fieis” ao projeto inicial, mesmo assim, como aliás temos visto aqui, foram objeto de alterações e “modernizações” diversas. E isto, sem referir as constantes alterações daquilo a que chamamos a geração dos cineteatros.

 

Este processo tem muito a ver, obviamente, com a expansão e transformação urbana dado que esses antigos edifícios de espetáculo se situam sistematicamente em zonas de centralidade: e também tem a ver obviamente com a evolução cultural. Basta lembrar, como aliás aqui temos referido, a instalação de salas de espetáculo chamadas “de bolso”, normalmente cinemas mas também teatros nos espaços de garagem, cave e rés do chão de grandes edifícios comerciais ou de habitação.

 

Ora bem: o que hoje nos ocupa é a “transformação” secular, podemos dizê-lo, do velho Teatro Aveirense, inaugurado em 6 de março de 1881, no atual Teatro Aveirense, este datado dos anos 40 do século passado e reinaugurado, nas sua nova versão, exatamente em 1949. Mas mais: o projeto inicial do Teatro Aveirense dataria de 1854, para substituir um pequeno Teatro dos Artistas Aveirenses ainda mais antigo.  Só que essa primeira versão arquitetónica do Aveirense levou 27 anos a concretizar.

 

A sala inicial foi projetada pelo arquiteto Araújo Silva. Mas só em 1878 a Câmara criou uma Sociedade Construtora e Administrativa do Teatro Aveirense. E a inauguração realiza-se como vimos em 1881, com um espetáculo da Companhia do Teatro de D. Maria II, já na altura uma sala referencial.

 

 Esta primeira versão do Teatro Aveirense tinha, além da plateia, 14 frisas, 19 camarotes de primeira ordem, 5 de 2ª ordem, balcão, geral e galeria. Típico dos teatros da época, como aliás as gravuras da fachada bem documentam: o Theatro Aveirense ostentava três portas principais em arco, encimadas por três varandas e por um frontão e mais duas portas laterais também em arco e também encimadas por janelas.

 

E por lá passaram as grandes companhias da época: de Rosas e Brazão, de Ciríaco Cardoso, Sousa Bastos, Alves Rente, José Ricardo, Taveira…

 

Em 1949, o Aveirense elimina os camarotes e cria no interior um relevante salão nobre. A fachada foi também alterada, eliminando-se o frontão. Em 1950, celebra um acordo de exploração com a outra grande sala de espetáculos da época o Cine-Teatro Avenida. Vão articulando as atividades por forma a garantir, no contexto da época, uma atividade Mais complementar do que concorrencial. Progressivamente, o Teatro Aveirense concentra a sua atividade no teatro e na musica.

 

Até que em 1992 o Aveirense encerrou e assim se manteve até 1998. Em boa hora, a Câmara Municipal assume o controlo da exploração, “resistindo” às pressões que certamente se fizeram sentir para a demolição, como tanta vez ocorre, hoje menos é certo, nestas salas de espetáculo antigas, semiabandonadas por vezes, situadas em pelo centro urbano e como tal muito valorizadas.

 

A Câmara assume pois o controlo total do edifício em 1998. Procede a obras de transformação e restauro segundo projeto do Arquiteto João Carreira. O teatro reabre em 2003.  Renovou-se a sala, com lotação de 623 lugares. E equipou-se devidamente toda a estrutura do palco e da cena. Modernizou*-se o fosso de orquestra e a tecnologia de cena criou-se uma sala-estúdio no último piso. O salão nobre comporta hoje 120 espetadores e serve também de galeria de exposições.

 

Por esse país fora, encontram-se cinemas e cineteatros, abandonados que merecem, por todas as razões, a recuperação. Aqui vamos dando notícia de muitos deles. E neste caso do teatro Aveirense, há que referir esta obra de recuperação e esta atividade cultural decorrente…

 

DUARTE IVO CRUZ   

TEATRINHO DO PALÁCIO DA BREJOEIRA


Referimos hoje o chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira, em Monção: e desde logo se destaca a denominação, que vem da transição dos séculos XIX/XX. Trata-se efetivamente de uma pequena sala de teatro que valorizou o já em si mesmo notável Palácio da Brejoeira. E desde logo também se assinale que é relevante, para além da imponência e qualidade do Palácio, ter-se incluído, na vastidão imponente do edifício, uma pequena mas belíssima sala de espetáculos, o que, reconheçamo-lo não é muito habitual, no histórico da arquitetura e da sociedade portuguesa.

 

Importa então ter presente o circunstancialismo deste pequeno teatro.

 

O Palácio inicia o processo da de construção em 1806: é dado como concluído em 1834. Projeto do arquiteto Carlos Amarante, excelente na qualidade, assume uma conciliação estilística do tardo-barroco comum na época com uma expressão  romântica, valorizada no jardim e nas evocações históricas que o singularizam - desde o lago a uma torre gótica e ao recurso ao estilo inglês.

 

A tradição familiar solarenga é entretanto interrompida em 1901, quando o Palácio é adquirido pelo Presidente da então Associação Comercial Portuense Pedro de Araújo. E como noutro lado escrevi, pode-se fazer uma comparação com edifícios que na época marcaram: por exemplo o Palácio da Bolsa do Porto, este num revivalismo árabe que aliás a Brejoeira não assume, mas, em qualquer caso, recorrente também na época e no meio empresarial de então.

 

Importa salientar agora a intervenção de Ventura Terra, a quem se deve este Teatrinho, mas não só: o chamado Salão Nobre do Teatro de São Carlos, o Teatro e Cinema Politeama, o Teatro Clube de Esposende. E no que se refere ao Politeama, cite-se José Augusto França, que aliás ao Arquiteto dedica extenso estudo:

 

“O Politeama, em Lisboa, construído em 1912-13, com o seu amplo espaço interior e a fantasia decorativa do janelão do 1º andar foi a melhor obra do género neste período, bem inscrita dos trabalhos de Ventura Terra” (cfr. ”A Arte em Portugal no Século XIX” volume  II 1966 pág.78).

 

E José Augusto França refere também o Palácio de Brejoeira com expressões de encómio: “o último grande solar fidalgo português (…) curiosa construção de carater híbrido” salientando “a importância do seu portal setecentista, a vastidão das suas fachadas em L, já viradas para Oitocentos”. Cita designadamente “o pequeno e elegante teatro” instalado em meados do século passado. (ob. cit. volume I pág. 182).

 

O Teatrinho, com cerca de 50 lugares em suave declive, além de mostrar os interesses culturais dos proprietários, revela uma harmonia e uma ambiência que se concilia com a funcionalidade do palco, não obstante as reduzidas dimensões da sala.

 

Singulariza-se e singulariza, da melhor maneira, o Palácio em que está integrado.

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS DE EMPRESAS: NOVA EVOCAÇÃO DO TEATRO DA VISTA ALEGRE

 

Há cerca de um ano, referimos aqui a recuperação e próxima reabertura do Teatro da Vista Alegre de Ílhavo, então em processo de recuperação pela Câmara Municipal. Recordamos então que o edifício data de 1826, mas foi objeto de sucessivas obras de restauro, assinaláveis pelo menos a partir de 1851. E aí, referimos ainda que se trata de um exemplo referencial de sala de espetáculos construída e animada, ao longo hoje de quase 200 anos, quase todos como extensão da atividade de uma empresa, depois como centro da politica de património e de cultura da Câmara Municipal.

 

 Ocorre que Ílhavo definiu agora um programa de ação cultural denominado “Projeto 23 Milhas”, que integra designadamente a Casa da Cultura e o Laboratório das Artes e o Teatro da   Vista Alegre.   

 

No artigo anterior, citamos a propósito um estudo publicado pela empresa, designado “A Fábrica da Vista Alegre – O Livro do seu Centenário – 1824-1924”.  Aí se evoca a muito meritória tradição de edifícios e atividades de espetáculo.

 

Recorde-se:

«O primeiro teatro foi demolido e o que se construiu em 1851 tinha o pano-de-boca e o teto pintados por Rousseau. Quando foi aumentado, foram substituídas essas pinturas, que infelizmente desapareceram. O atual pano foi pintado por João Cazeaux, desenhador na Fábrica (…). No teatro representam empregados e operários da fábrica, que têm levado à cena muitas comédias e operetas. “Os Milagres de Santo António” é uma das peças que mais sucesso tem tido. Já se representou o “D. César de Bazan”. Alguns operários e operárias recitam poesias e monólogos»…   

 

Esta “intervenção teatral” de uma empresa merece ser evocada. E nesse sentido, novamente remeto para o livro  que intitulei “Teatros de Portugal – Espaços e Arquitetura,  coedição do CNC e da Mediatexto (2008) ” prefaciado por Guilherme d’Oliveira Martins, onde se referem algumas salas de espetáculo construídas no âmbito de empresas ou entidades ligadas, de uma forma ou de outra, à atividade económica industrial.

 

Citei designadamente, o chamado “Teatrinho” de Peso da Régua, do início do século passado, ainda ostentando sinais e elementos de uma certa Arte Nova, o qual em 1912 estreou também o então chamado animatógrafo. E na mesma linha de ligação a meios empresariais, referi diversos exemplos que evidentemente não esgotam nem de longe  a convergência empresarial-cultural. Uns são mais antigos, outros muito mais recentes. Alguns deles, aliás, têm sido referidos nesta série de artigos.

 

Vejamos então:

Desde logo, a adaptação da antiga fábrica da Empresa de Moagem, no Fundão, edificada a partir dos anos 20 do século passado, e agora convertida num conjunto de duas salas de espetáculo, projeto do arquiteto Miguel Correia, equipamento inaugurado em 2007 com a designação de Moagem- Cidade do Engenho e Artes.

 

Mais antigo, o Teatro Stephens, da Fábrica dos Irmãos Stephens da Marinha Grande, datado de 1941, numa tradição industrial (e cultural) que vem do século XVI e foi restruturada por iniciativa do Marquês de Pombal, isto em 1748!... Daí para cá muita coisa obviamente mudou, mas manteve-se uma tradição: o Teatro Stephens atual data de 1940.

 

E temos ainda o Teatro Mascarenhas Gregório da chamada Fábrica do Inglês em Silves, esta fundada em 1894 e que, junto das instalações fabris propriamente ditas, instala em 1909 o Teatro (e cinema desde 1911), projeto do arquiteto Júdice da Costa, entre a Arte Nova e a chamada arquitetura do ferro, hoje também recuperada pela Câmara Municipal com intervenção do arquiteto José Pedro Castanheira e reinaugurado, como sala de espetáculos, em 2005.

 

E a propósito desta representatividade dos Teatros na expressão urbana e nas iniciativas locais, transcrevo uma passagem do Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins, acima citado. Aí se  referem “as perspetivas patrimonial, arquitetónica, funcional, histórica e pedagógica e teatral, o que abre pistas muito fecundas para o melhor conhecimento do património cultural, quer para uma melhor compreensão da história do teatro em Portugal. E como é bem de ver, consegue-se deste modo encontrar a herança patrimonial como um fator de incentivos e de estímulo para iniciativas de futuro” (in “Prefácio – Teatros: Lugares de Vida” ob. cit. pág. 7).

 

E assim é com este Teatro da Vista Alegre, hoje municipalizado.

 

Designadamente, aludi no texto acima referido, ao teto com uma alegoria de Apolo e as Musas, e ao pano de boca com uma suposta evocação de Macau, tudo pintado por um mestre de oficinas da fábrica, de seu nome Victor Rousseau. Em 1905, havia aliás outro pano de boca, da autoria de João Caseux, também funcionário da empresa. E finalmente, antes do restauro atual, refiro um painel de outro mestre de oficina, Palmiro Peixe de seu nome.

 

O Teatro da Vista Alegre volta então à atividade. Será interessante ver o que se passa com outros teatros criados e edificados em empresas.

 


DUARTE IVO CRUZ

OS TEATROS OITOCENTISTAS


EVOCAÇÃO DE DIOGO BERNARDES EM PONTE DE LIMA

 

Aqui temos encontrado e analisado sucessivas gerações de teatros, cinemas e cineteatros ao longo do país, numa expressão contínua de centros de espetáculo: e é interessante verificar como a arquitetura teatral soube atualizar-se, em duas vertentes complementares: ou pela construção de edifícios originalmente vocacionados para o espetáculo, que em Portugal, no que foi construído e sobreviveu, origina-se o Teatro de São Carlos, inaugurado como sabemos em 17….; ou pela recente instalação de áreas de espetáculo em edifícios de vocação habitacional ou comercial, como ocorre na maior parte das mais recentes salas chamadas “de bolso”, em espaços antes vocacionados para garagens. E uns e outros temos aqui referido.

 

Ora, é caso para dizer: sendo certo que qualquer espaço de espetáculo é em si mesmo meritório, a recuperação de velhos teatros históricos, em meios socio-urbanos mais pequenos e mais descentralizados, constitui fator de relevo tanto no aspeto da produção cultural em si mesma, como no aspeto da conservação de edifícios valorizadores da tradição urbana dos meios respetivos.

 

Referimos hoje, precisamente, mais um exemplo flagrante desta valorização urbana decorrente da sobrevivência e recuperação de um teatro oitocentista, mantido na essência geral da sua arquitetura oitocentista, mas agora utilizado numa expressão constante e bem atual de espetáculo. Trata-se do Teatro Diogo Bernardes de Ponte de Lima, projetado a partir de 1893, inaugurado em 19 de Setembro de 1896 e adquirido pela Câmara Municipal em 1992: voltou a funcionar, depois de obras de recuperação, alguns anos depois. 

 

Segundo Sousa Bastos, o teatro terá sido “edificado por meio de ações, todas elas passadas entre os habitantes da vila”, assim mesmo: o projeto é do Arquiteto (ou engenheiro, segundo sousa Bastos) António Adelino de Magalhães Coutinho, e segue a estrutura dos edifícios de espetáculo da época, que, neste caso ainda hoje, em boa hora, se conserva: plateia, frisas, duas ordens de camarotes, geral e galeria.

 

É o que se lê numa publicação da Câmara Municipal, abaixo citada, e que historia e documenta o historial do Teatro, assinalando a reabertura em 4 de março de 1999.  E vale a pena recordar o anúncio de inauguração, data como referimos em 19 de setembro de 1896. O espetáculo é de assinalar: nada menos do que «a ópera-cómica portuguesa sob a direção de Francisco Cruz (com) a ópera cómica em 3 atos e quatro quadros “Os Sinos de Corneville”» de… …A estrutura interna do teatro e preços respetivos, que vale a pena recordar,  - é como segue:


«Frizas da frente com 6 entradas, 3$000. Ditas de lado, idem ,2$5000. Camarotes de frente idem, 3$000. Ditos de lado, idem, 2$5000. Ditos de 2ªordem, idem, 1$5000. Superior 500. Geral 400. Galerias de frente 240. Ditas de lado 140. Entradas avulso, 200 reis»… E recorda Adelino Tito de Morais, na publicação citada, que o cinema mudo inicia-se no Teatro Diogo Bernardes em 1921, e o cinema sonoro em 1934.

 

Nos anos 80 o Teatro encerra.  Mas em boa hora a Câmara Municipal adquire-o e a partir de 1996 inicia a reabilitação, segundo projeto do arquiteto Luis Faro Viana, que descreve as adaptações efetuadas: e sempre em boa hora, acrescentamos nós, essa reabilitação/modernização respeitou e recuperou a traça inicial desde teatro oitocentista, de excelente qualidade.

 

Finalmente: Diogo Bernardes dedicou ao Rio Lima uma obra poética notável e uma expressão literária que em si mesma valoriza, hoje como no século XVII, a cidade que o inspirou. Pois, tal como escreveu Ester de Lemos no Dicionário de Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, “o que melhor distingue Bernardes é a melancolia vaga e doce, um pouco à Bernardim; a aceitação cristã resignada, da morte entendida como porta para a vida; a profunda religiosidade que o aproxima por vezes do seu irmão Frei Agostinho da Cruz” (pág. 98).


E o próprio Diogo Bernardes evoca e qualifica o Lima em numerosos poemas: “Lima, que neste vale murmurando/Em quanto o sol se esconde em Ocidente/ A tua natural vizinha gente/ Fazes adormecer com teu som brando”; Águas do claro Lima que corria/ Pera mim, noutro tempo, claro e puro,/ eu correr vejo agora turvo, escuro,/ Quem afogou em vós minha alegria?”; “Num solitário vale fresco e verde/ Onde como veia doce e vagarosa/ O Vez, no Lima entrado, o nome  perde.”: ou “Cantava Alcido um dia ao som das águas/ Do Lima, que mais brando ali corria”…

 

DUARTE IVO CRUZ

CENTROS CULTURAIS POLIVALENTES

 

A Casa de Artes e Cultura do Tejo de Vila Velha de Ródão 

 

Temos referido a renovação e descentralização a nível nacional de centros de espetáculo e divulgação cultural em meios por vezes afastados das grandes áreas urbanas. São iniciativas muito meritórias, pois representam e dinamizam a descentralização cultural: e sobretudo acompanham e traduzem, no plano da cultura e do espetáculo, o desenvolvimento económico e a renovação infraestrutural do país, designadamente também no que significa no profissionalismo da atividade teatral. É de certo modo a desejável simbiose entre economia e cultura, ou, se quisermos, entre cultura e economia…

 

Acresce que esse movimento representa uma evolução daquilo que se processou, e aqui temos referido e estudado, a partir dos anos 40/50 do século passado, no que chamamos a geração dos cineteatros. Note-se que, em boa hora, esse movimento não acabou, quanto mais não seja pela conservação e atividade de tantos e tantos exemplos por esse país fora, de que aqui temos dado notícia.

 

É certo que a arquitetura, a economia e a sociologia do espetáculo mudou: hoje, são dominantes os cine-estúdios, tantos deles instalados na base de edifícios comerciais ou de habitação; tal como os centros culturais e museológicos polivalentes com salas de espetáculo, uns e outros nas zonas de expansão urbana. Mas o que importa é a existência e atividade em zonas antes menos acessíveis a essas atividades. O que também se liga à infraestrutura rodoviária e de comunicações: uma simbiose perfeita da economia e da cultura.

 

Exemplo notável deste movimento é a Casa de Artes e Cultura do Sul do Tejo, construída e dinamizada pela Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, projeto dos arquitetos Henrique Barros Gomes e Pedro Hébil: e como já escrevemos, a própria localização geo-urbanística  assim, valoriza sobremaneira tanto o edifício em si, como a área urbana – e consequentemente, o público e até a perspetiva de ambiente cultural e artístico que lá se pratica.

 

Trata-se efetivamente de uma Casa da Cultura, com todas as implicações e com toda a heterogeneidade de atividades que a expressão envolve, e tanto mais meritória, neste caso concreto, quanto mais significativa é a dimensão urbana em que se inscreve.

 

Desde logo, pela qualidade e modernidade do projeto arquitetónico em si. E essa modernidade não colide com o ambiente urbano em que se insere. E mais: realça a pluralidade de manifestações culturais que comporta e  perspetiva-se numa harmonia que em nada colide com a tradição urbana envolvente. Insistimos neste aspeto, porque ele é de realçar, no contexto de uma zona urbana de dimensões comparativamente reduzidas e tradicionais. Pois a Casa da Cultura contrasta pela modernidade mas integra-se no urbanismo tradicional.

 

E mais: a estrutura arquitetónica valoriza a sua própria implantação urbana e paisagística. O edifício marca pela presença dominante do Tejo, através da acessibilidade visual: um edifício de teatro, uma biblioteca e uma sala de exposições arquitetonicamente revestido de grandes janelas que trazem o Tejo para junto dos espetadores, permita-se a expressão.

 

A sala principal tem mais de 200 lugares e o edifício comporta ainda salas adaptáveis a menores lotações e a espetáculos de câmara, chamemos-lhes assim numa terminologia tradicional. Recorde-se que este Centro se chama Casa de Artes e Cultura do Tejo. Nesse sentido cito em parte o que noutra ocasião escrevi:

 

O que mais impressiona o visitante é a presença dominante do próprio Tejo, através de janelas que conferem ao conjunto uma visão “cenográfica”, tanto nas salas do interior como na possível instalação de público no exterior. Esta implantação no excecional ambiente paisagístico, valorizando a perspetiva do Tejo, dá uma utilização muito moderna aos materiais e mesmo aos processos de construção tradicionais.

 

E refira-se finamente o que significa esta modernidade harmonizada, num aglomerado que até há não muitos anos surgia “encravado” no interior do País. A pluralidade cultural da Casa das Artes é também por isso merecedora de citação, pelo que constitui em si mesma e pelo que significa.

 

DUARTE IVO CRUZ

OS 150 ANOS DO TRINDADE (III) – UM LIVRO DE EVOCAÇÃO E CELEBRAÇÃO

 

 

Este é o terceiro texto que, nesta série, dedico ao 150º aniversário do Teatro da Trindade, inaugurado em 1867. Outros textos se seguirão, pois não é demais, penso, referir, evocar e novamente analisar o que é hoje e o que tem sido, neste período, a exemplar estrutura e prática de cultura teatral e musical do Trindade: e isto, a partir da qualidade arquitetónica de origem (projeto do arquiteto Miguel Evaristo) e consagrada nas sucessivas alterações que, ao longo de século e meio, têm sido efetuadas, sem de modo algum desvirtuar o edifício, a sua funcionalidade e o património cultural-teatral inerente.  

 

Nesse sentido, tive o gosto de participar, em 2014 num ciclo de conferências organizado pela Fundação INATEL, proprietária do Teatro da Trindade. E foi agora editado pela Fundação um volume, “Conferências do Trindade” que reúne intervenções e textos diversos de Inês de Medeiros, Joaquim Paulo Nogueira, Isabel Pires de Lima, Luís Soares Carneiro, José Sarmento de Matos, Guilherme d’Oliveira Martins, Nuno Domingues e José Carlos Barros e da minha, no ciclo acima citado. (cfr. “Conferências do Trindade – História Cultural e Artística do Teatro da Trindade” ed. Fundação INATEL 2017).

 

Os textos introdutórios - “Um Palco de Todos Para Todos” de Inês de Medeiros – Vice Presidente do INATEL e diretora do Trindade – e “Fazer do Teatro da Trindade um Acontecimento Cultural” de Joaquim Paulo Nogueira, realçam precisamente a oportunidade do ciclo evocativo.

 

Pois, tal como refere Inês de Medeiros, “o que ressalta das leituras destes textos é uma certa continuidade na evolução, mesmo quando atribulada, deste Teatro, o qual sempre foi pensado como uma sala de espetáculos popular, com uma programação variada – tanto de teatro como musical – distinta e mais acessível do que a programação dos dois grandes teatros nacionais vizinhos: o D. Maria II e o São Carlos”. (cfr. “Um palco de Todos para Todos” cit., pág. 10).  

 

Teve-se então em vista, no ciclo e agora no livro citado, uma análise historicamente evocativa mas sobretudo culturalmente bem atual da atividade do Trindade na política teatral-musical dos anos decorridos desse a sua fundação (1867), inserindo-a aliás na dupla perspetiva de antecedentes históricos e de projeção para anos vindouros: e isto porque o Teatro da Trindade, ao longo deste tão variado século e meio de existência, soube alternar intervenções históricas e projeções de modernidade, numa ação constante de divulgação da cultura nas suas expressões de música, ópera e teatro.

 

Basta recordar, nessa perspetiva abrangente, o que significou, numa ação de política de cultura, por exemplo a Companhia Portuguesa de Ópera-CPO, dirigida por Serra Formigal, que viabilizou o profissionalismo do espetáculo lírico português, até aí residual no contexto das temporadas e das atividades profissionais e artísticas inerentes da tradicional ópera do Teatro Nacional de São Carlos, mesmo quando esses espetáculos se repetiam no Coliseu. Sem questionar obviamente a qualidade, tenha-se presente que não havia, antes da CPO do Trindade, viabilização de carreiras de cantores portugueses e acessibilidade mais alargada de público.

 

Mas tal como recorda Nuno Domingues, no ciclo de conferências citado e agora publicado, “a Companhia Portuguesa de Ópera não foi a primeira a atuar no Trindade. Em 1908, o empresário Afonso Taveira organizou uma Companhia Portuguesa de Ópera, que durou um ano”. (cfr. “O Trindade e a Ópera” in ob. cit. pág.159).  

 

No que se refere ao teatro declamado, é interessante recordar, com aliás fiz na conferência agora publicada, e que intitulei precisamente “O Trindade e o Romantismo”, a inauguração do Teatro, em 10 de Maio de 1867, com um espetáculo de declamação com intervenções de Bulhão Pato e Júlio de Castilho, nada menos.

 

E ainda, como referi na conferência, “a 30 de Novembro é inaugurado o conjunto Teatro da Trindade com duas peças: «A Mãe dos Pobres» de Ernesto Biester e «O Xerez das Viscondessa» que foi adaptado pelo grande empresário e diretor do Trindade até morrer em 1899 Francisco Palha”.

 

Descrevi então a importância assumida pelo Trindade na expressão pujante do teatro romântico em Portugal, bem como os elencos das companhias que, no Trindade, em dezenas de anos, recriaram o espetáculo teatral. E pude recordar que a música e a ópera alternavam, desde o inicio da atividade, com o teatro declamado: e neste, ganhava expressão o temário romântico na sua expressão sentimental, mas também, note-se, na sua expressão político-social. (cfr. “O Trindade e o Romantismo” in ob. cit. págs. 21 e segs.).

 

Mas há que insistir na constante atualidade que, em termos globais, o Trindade sempre soube manter. Certamente porque, ao longo do seculo e meio, e não obstante períodos intercalados se bem que breves de exceção ou apagamento, o Trindade marcou as épocas sucessivas da sua atividade. Ou como disse na conferência deste ciclo Guilherme d´Oliveira Martins, “As humanidades correspondem ao entendimento do género humano. As Humanidades são a compreensão de que, no «Auto da Lusitânia», não sabemos se «Todo o – Mundo e Ninguém» são os gémeos que Almada desenhou na fachada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ou se são diferentes como Gil Vicente os representou”… (cfr. “Pode a Economia Viver sem as Humanidades?” in ob. cit. pág. 147).

 

Ora bem: nos 150 anos decorridos, o Trindade não parou. E por isso, também apraz recordar, num plano de atualidade, o papel do Trindade numa modernização/renovação do teatro declamado português, e na atividade de espetáculo inerente, em períodos complicados da vida teatral portuguesa.

 

Em próximo artigo, evocarei alguns dos grandes espetáculos do Trindade: por exemplo, o que foi “À Espera de Godot” de Samuel Beckett!...

 

E referirei então os textos dos outros colaboradores deste livro evocativo das Conferências do Trindade.

 

DUARTE IVO CRUZ

A TRADIÇÃO SETECENTISTA DO TEATRO VARIEDADES

 

É interessante constatar que, no ponto de vista histórico, o Teatro Variedades, edificado em 1923 no Parque Mayer e hoje praticamente abandonado na imponência do edifício original, não obstante a data de origem e as alterações nestes quase 100 anos decorridos, guarda uma tradição que remonta ao século XVII, mais ou menos no mesmo local, mas muito antes da abertura da Avenida da Liberdade e obviamente, muitíssimo antes portanto da implantação do próprio Parque Mayer.

 

É que, na potencialidade da zona urbana, à época obviamente muito diferenciada, ergueu-se, a partir de 1782, um Teatro, denominado Teatro do Salitre, na área que viria a ser urbanisticamente absorvida pela Avenida, mas que, repita-se, já definindo uma zona central do desenvolvimento. Aliás, sabemos bem que a Rua do Salitre começa junto ao Parque Mayer. Daí também que se remonte a tradição ao então chamado Teatro do Salitre.

 

Ana Isabel Teixeira de Vasconcelos historia essa tradição hoje com quase dois séculos: «Edificado em 1782 pelo arquiteto Simão Caetano Nunes, possuía “lotação para 900 espectadores, distribuídos por 21 frisas, 27 camarotes de 1ª ordem, 22 de 2ª, 207 lugares de plateia, 147 de superior 120 de geral e 60 nas varandas”.» E acrescenta: «Já no fim do século XVIII quando não havia atores em número suficiente para aguentar duas companhias, este teatro é preterido relativamente ao Condes que se apropria da designação de “teatro nacional”.»… (cfr. Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT 2003 pág.25 e nots. cits.).

 

Sousa Bastos, escrevendo na transição dos séculos XIX/XX descreve os dois teatros. No que respeita ao Teatro do Salitre, dá-o como inaugurado em 27 de novembro de 1752, “tomando parte no espetáculo o célebre equilibrista Tessi, mandado vir expressamente do estrangeiro como grande novidade da época” (in “Dicionário do Theatro Português” 1908, pág. 362).

 

E remete para 1858 a inauguração do chamado então Theatro das Variedades e referindo que naquele ano «formou-se uma associação para com este título explorar o antigo Theatro do Salitre»: e acrescenta, noutra obra. que «a peça de abertura, que teve extraordinário agrado e alcançou grandes receitas, foi a mágica em 3 atos e 19 quadros arranjada por Francisco Palha e Joaquim Augusto de Oliveira, a “Lotearia do Diabo”. No papel de Abdalah obteve enorme sucesso o ator Izidoro»… (cfr. Sousa Bastos “Carteira do Artista” ed. 1898 pág 55/56).

 

E ainda, José Augusto França refere um Novo Teatro das Variedades, inaugurado no Rato em 1880 (cfr. José Augusto França “Lisboa História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pag.613).

 

Mas voltemos à inauguração do atual edifício novamente chamado Teatro Variedades.

 

Num estudo intitulado precisamente “O Parque Mayer – Cinquenta Anos de Vida”, Albano Zink Negrão historia a inauguração desse Teatro. E logo se define uma “vocação revisteira”, chamemos-lhe assim, desse novo Variedades. O estudo referido sublinha então, e de certo modo sublima essa constante de espetáculo que, ao longo de dezenas de anos, sempre dominou o próprio Parque e os seus Teatros – e isto, não obstante a tradição cinematográfica do Capitólio e as temporadas de teatro declamado que lá tiveram lugar e que aqui já temos evocado, desde Maria Della Costa/ Sandro Polónio a Amélia Rey Colaço. Ou a menor atividade do então chamado (e hoje desaparecido) Teatro ABC ou a atividade do Teatro Maria Matos.

 

O Teatro Variedades foi, salvo raras exceções de espetáculos alternativos, um teatro de revista. Vejamos o que diz Zink Negrão:

 

«Em 8 de Julho de 1926, com a revista “Pó-de-Arroz”, abria as suas portas o “Variedades”, construído no local onde tinha existido um dos dois lagos dos Jardins Mayer. Sob o pseudónimo de “Troianos” se ocultaram os nomes dos autores da revista “Pó-de Arroz”, espetáculo em dois atos e dez quadros, com musica de Tomás del Negro e Raul Portela».

 

Cita um notável elenco, a começar pelo “grande Vasco Santana” assim mesmo referido. E acrescenta que neste espetáculo de estreia do Teatro, «o Compère não podia ter sido melhor: nem mais nem menos do que Augusto Costa, o popularíssimo “Costinha” que, na revista, dava pelo nome insólito de “Zé Pom-Pom”.» Estava-se em 1926! (ob. cit. pag.17).

 

E Marina Tavares Dias recorda outros espetáculos: «No futuro pertenceriam ao Variedades alguns dos maiores sucessos do Parque Mayer: “Arre Burro”, com Beatriz Costa, “Olaré quem Brinca?” com Mirita Casimiro, “Alto lá com o Charuto”, com Vasco Santana, etc., etc., etc.» (cfr. Marina Tavares Dias “Lisboa Desaparecida” vol. 9 Ed. Quimera 2007 pág. 74).

 

Ora bem: não se põe em dúvida a qualidade do elenco da revista de estreia do Teatro Variedades. Mas certamente se porá em dúvida a qualidade da revista em si. Luis Francisco Rebello cita a crítica de Avelino de Almeida publicada na época em “O Século”: «pela ausência de graça, pela pobreza de fantasia, pela falta de originalidade, pela monotonia que a caracteriza, uma das mais lastimosas coisas que no género ultimamente vira»!... (in ”História do Teatro de Revista em Portugal” vol. 2 – “Da República até Hoje”, Publicações D.. Quixote 1984 pág.84).

 

Na mesma obra, Rebello procede ao levantamento de muitas dezenas de revistas levadas à cena no Variedades, com sucesso e com qualidade, e de muitas centenas de autores, atores, encenadores, músicos, que as criaram e/ou nelas atuaram, e que ainda pude diretamente testemunhar e aplaudir.

 

Hoje, o Teatro Variedades continua encerrado, mas cercado por tapumes – o que mais justifica a pergunta que aqui se formula: o que se vai passar com o Teatro Variedades?

 

DUARTE IVO CRUZ