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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EVOCAÇÃO DE UM ESPETÁCULO DE PRISIONEIROS DE GUERRA

 

Acaba de chegar às livrarias um interessante estudo histórico da autoria de Maria José Oliveira, intitulado “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia -1917/1918” onde se relata com desenvolvimento e qualidade literária e científica os 100 anos da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, e designadamente a permanência de prisioneiros de guerra portugueses. (ed. Saída de Emergência-2017).

 

Damos notícia desse estudo, pois nele se refere a realização de um espetáculo teatral pelos prisioneiros de guerra portugueses, no campo de Breesen.

 

 

Trata-se de um texto dramático da autoria de Alexandre José Malheiro, denominado “O Amor na Base do CEP” (Corpo Expedicionário Português).  

Tal como refere Maria José Oliveira, «a comédia estreou no campo, a 27 de outubro de 1918, e foi interpretada por 15 prisioneiros, dos quais sete representaram personagens femininas. Foi um divertimento que pretendia sobretudo reabilitar o “moral” dos expedicionários.»

 

 

Ora bem: este espetáculo de prisioneiros de guerra é referido por outro oficial, Bento Esteves Roma, o qual viria a desempenhar funções de Governador–Geral de Angola, e que escreveu um diário e mais recordações da sua participação na Guerra e do período de reclusão nos campos alemães. Designadamente “Os Portugueses nas Trincheiras da Grande Guerra” e “Algumas Passagens do Diário de Bento Roma como Prisioneiro de Guerra”, ambos citados no estudo aqui analisado.

 

E precisamente: na segunda das obras citadas, Bento Esteves Roma recorda então a peça de Alexandre José Malheiro mas engana-se no nome do texto, chamando-lhe “A Guerra na Base do CEP” e não, como efetivamente Alexandre Malheiro a denominou, “O Amor na Base do CEP”.

 

Escreveu então Bento Esteves Roma:

«Foi hoje a inauguração do teatro com a peça “A Guerra na Base do CEP” escrita pelo Tenente Coronel Malheiro e que quer ser uma charge sobre a base do CEP. A ação desenrola-se em torno de uma aventura amorosa havida entre uma artista francesa que se encontra no Tréport a passar a época calmosa e um médico português básico. Combinam passar uma noite em Paris-Plage e ela faz-lhe ver só poder ir invocando, por causa da mãe, uma récita em que tome parte, mas previne-o de que está habituada a ganhar muito. Reúnem-se em Paris Plage e depois da noite passada, quando o médico quer saber quanto tem a despender, ela diz-lhe num último beijo: “não quero nada, direi à minha mãe que foi uma récita de caridade”».

 

Mas o comentário seguinte de Bento Esteves Roma é duro, e revela detalhes sobre a vida no campo de concentração: «A peça não vale nada. Sem movimento, com diálogos enormes, figuras suplementares metidas à força. O desempenho foi horroroso. E gastou-se dinheiro com isto. Foi uma peça que custou 500 e tal marcos. Cada vez provamos mais o nosso pouco juízo. Adiante.”».

 

Referimos aqui este espetáculo pelo ineditismo do local: o “teatro” era um estrado no campo de soldados portugueses do Corpo Expedicionário Português presos na Alemanha em 1918.

 

Mas aí se fez teatro…

 


DUARTE IVO CRUZ

ELE HÁ QUALQUER COISA…

CNC Diário de Agosto.jpg

DIÁRIO DE AGOSTO (XXVIII) - 28 de agosto de 2017

 

Mais uma do Gualdino Gomes, nosso velho conhecido.

O Fialho de Almeida tinha uma espécie de amor-ódio por ele e estava sempre a meter-se com ele, por não ter obra e por desperdiçar o seu talento em linguados de jornal…

- Oh! Gualdino estou a ver os nossos netos a lerem as tuas obras completas… 

O Gualdino, calado, ouvia, ouvia, e ia enchendo o saco. A certa altura, não se continha e rebentava. E lembrava-se de que o Fialho casara tarde e rico no Alentejo.

- Oh Fialho, diz-me aí as horas no relógio do teu sogro…

Outra vez, foi na estreia do «Tamar» do Alfredo Cortez, no Teatro Nacional, que se passava numa praia, com o cenário do mar ao fundo. Iam chegando os pescadores, com a mão na testa, em forma de pala, e passavam da direita para a esquerda no palco, olhando o horizonte, numa estranha marcação. Passou o primeiro, passou o segundo e, quando passou o terceiro, o Gualdino levanta-se e diz:

- Ele há qualquer coisa e é ali para o Intendente… Vou lá ver…

 

 

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

A «ABERTINHA» DE GUALDINO...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XII) - 12 de agosto de 2017

 

Já conhecemos Gualdino Gomes, o crítico de teatro que tinha presença certa na boémia de Lisboa e fazia escritório na «Brasileira».

Na sessão de estreia de uma peça bastante publicitada, que tinha lugar no Teatro Ginásio, o conhecido jornalista estava pronto para comentar o espetáculo em cujo elenco havia figuras de proa do meio artístico...
Tudo começou e desenvolveu-se, a preceito como mandam as regras – no entanto depressa se percebeu que aquele não era dia de sucesso. A peça era vulgar, os atores não estavam em forma, o ensaio deixava muito a desejar, as fragilidades eram tais que a voz do ponto era demasiado audível e as deixas estavam mal combinadas.
Gualdino preparou um estratagema para se libertar daquele suplício – e, meu dito meu feito, a certa altura, havia uma tempestade em cena, que amainava para alegria do crítico... E então o escriba, levanta-se de modo ostensivo e diz: - «Vou-me andando, deixa-me aproveitar esta abertinha»...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEATRO ABC

 

O ÚLTIMO TEATRO CONSTRUÍDO NO PARQUE MAYER

 

O Teatro ABC foi a última sala de espetáculos inaugurada no Parque Mayer: e, no que se refere ao espetáculo propriamente teatral, terá sido a primeira a ser encerrada. Vocacionado para a revista, que na prática e salvo eventuais iniciativas esporádicas, foi a expressão dramática lá dominante, o ABC estreou como teatro em janeiro de 1956, e durou até 1997. Desde a origem fazia-se notar o carater algo provisório do edifício, fundado pelo empresário José Miguel e instalado em áreas antes ocupadas por outras expressões de espetáculo e/ou de serviço público: restaurantes, ringue de patinagem, cinema ao ar livre.

 

Em 1955 José Miguel era um nome determinante do espetáculo de revista. Procedeu à adaptação do espaço, privilegiado pela localização, em recinto repetimos, vocacionado para o espetáculo.

 

De acordo com o levantamento exaustivo de Jorge Trigo e Luciano Reis, o Teatro ABC alternou esporadicamente a revista com espetáculos de teatro infanto-juvenil, tal como dizemos hoje: e o carater esporádico dessas iniciativas dispersas não desmerece da qualidade de elencos e da exigência dos autores envolvidos: entre autores e atores, surgem nomes como Eduardo Damas, Rui de Carvalho, Francisco Nicholson, Canto e Castro, Luís Cerqueira, Maria Clara Machado, Curado Ribeiro e até o francês Labiche, traduzido por César de Oliveira… isto, em elencos que no total excedem  centenas de artistas, muitos deles de primeiríssimo plano artístico e profissional.

 

Porque a revista, foi sempre relevante, e o teatro infanto-juvenil,  era-o já também,  na época, e muito o foi nos anos seguintes: basta lembrar o Teatro do Gerifalto de António Manuel Couto Viana.

 

Ora, é de salientar que o Parque Mayer, independentemente da heterogeneidade de expressões cénicas e musicais que lá se produziam, e que temos aqui evocado nesta série de artigos, ainda constituía à época, e aliás não era novidade, o grande centro de produção de revista no país.

 

Só que, como temos aqui visto, os outros teatros do Parque Mayer – Capitólio, Maria Vitória, Variedades -  ao longo de dezenas de anos, iam alternando, é certo que uns mais do que outros, o género de espetáculo dominante:   nesse aspeto, aliás, o mais heterogéneo será o Capitólio, durante dezenas de anos vocacionado quase exclusivamente para o cinema: e mesmo assim, como já tenho recordado, lá se instalou por exemplo a companhia brasileira de Maria Della Costa e Sandro Polónio, que estreou Brecht, ou a Empresa Rey-Colaço – Robles Monteiro na época marcada pelos sucessivos incêndios dos Teatro D. Maria II e do Avenida…

 

Em qualquer caso, o Teatro ABC foi sobretudo um teatro de revista. Fundado e primeiramente dirigido pelo empresário José Miguel, e a partir de 1971 dirigido por Sérgio de Azevedo, produziu, escreveram Jorge Trigo e Luciano Reis, um total de 47 revistas, o que é assinalável, tendo em conta que as revistas ficavam meses em cartaz. (cfr. Jorge Trigo e Luciano Reis “Parque Mayer” vol. 2 ed. Sete Caminhos págs. 127 e segs.)

 

A primeira revista foi “Haja Saúde” da autoria de José Galhardo, Carlos Lopes e Frederico de Brito, com Curado Ribeiro no primeiro papel. Seguiram-se, como já referimos, mais 46 revistas, intercalando com os espetáculos infantis e outros espetáculos diversificados: mas efetivamente, o Teatro ABC foi predominantemente um teatro de revista.

 

Fazemos aqui uma transcrição da “História do Teatro de Revista em Portugal” de Luis Francisco Rebello que evoca valores notáveis das sucessivas temporadas da ABC (vol. 2 – Publicações D. Quixote -  1985):

 

“Num dos primeiros dias de janeiro de 1956 inaugurava-se, ao lado do Maria Vitória, o quarto teatro do Parque Mayer, o ABC – construído no mesmo local onde haviam funcionado o Alhambra e o Pavilhão Português”. Refere que “à semelhança da sala, a companhia era modesta”. Mas refere que foi sobretudo na revelação de novas personalidades que em empresário José Miguel e o seu sucessor Sérgio de Azevedo apostaram”. E cita nomes que realmente hoje fazem parte da história do espetáculo em Portugal: por exemplo Hermínia Silva, Raul Solnado, António Silva, Humberto Medeira, Manuel Santos Carvalho, Ivone Silva irene Cruz, Henriqueta Maia, José Viana, Aida Batista, Camilo de Oliveira, e tantos mais. E mais refere que “1972 foi um ano fausto para a revista portuguesa” e “foi o ABC, uma vez mais, o palco dessa aventura que se iniciou com «É o Fim da Macacada» segunda revista montada pelo novo e ativo empresário do Teatro mais recente do parque Mayer, Sérgio de Azevedo (ob. cit.págs 131 e 142).

 

Ora bem: em 1990, o Teatro ABC arde! Carlos Santos toma conta dos trabalhos de reconstrução, e o ABC reabre em 1993. Mas em 1977 fecha definitivamente.

 

E hoje, nem o edifício resta!

 

DUARTE IVO CRUZ 

UM DRAMATURGO ESQUECIDO E UM TEATRO DEBATIDO

 

Trata-se, aqui, de uma situação no mínimo insólita: um dramaturgo que, pela qualidade e prestígio epocal da sua obra, justificou, na transição dos séculos XIX/XX, a denominação de um teatro que, ao menos no edifício, dura até hoje. E isto, apesar do abandono, seja permitida a expressão, em que o teatro se encontra, não obstante integrar (hoje) o património municipal.

 

Trata-se então do Teatro Salvador Marques de Alhandra. E vale a pena então recordar que Salvador Marques (1838-1907) marcou de forma esteticamente assinalável a transição do teatro romântico para o realismo-naturalismo, movimento consagrado a partir de “Os Velhos” (1893) de D. João da Câmara (1852-1894): assim se iria definir, de certo modo até hoje, a expressão estética e de conteúdos da dramaturgia portuguesa. E vale a pena recordar que D. João da Câmara é hoje, como sempre certamente será, um nome referencial do teatro português.

 

Mas quem se lembra hoje das peças de Salvador Marques, e da relevância na época, e isto, tanto na perspetiva dramatúrgica em si, como na atividade do autor? E no entanto, pelo menos algumas das peças merecem atenção, pela qualidade da escrita, mas também pela conceção de certo modo adiantada para a época, mesmo quando reflete uma influência do romantismo já na altura algo tardio.

 

Estamos a citar “Fome e Honra”, Santa Quitéria”, mas sobretudo “Os Campinos” (1874), peça referencial de Salvador Marques. E aqui, há que salientar a iniciação a uma corrente muito marcada até hoje, que qualificamos já como teatro regional rural.

 

Trata-se de uma evocação de amores clandestinos numa ambientação social que envolve as relações profissionais da época, com bons e maus patrões, fidalgos tradicionalistas mas também o “fidalgo novo” D. Luís que acaba casado com a filha do velho abegão Diogo: e isto era, na época considerado uma expressão de renovação social. Pelo meio, um velho Prior marca também o conteúdo da peça. 

 

E curiosamente, o que sobretudo sobressai é a tendência então modernizante do conflito social e da problemática socio-económica, tudo num enquadramento regional.

 

Ora bem: esta evocação de um dramaturgo hoje completamente esquecido, serve para melhor compreender as razões que levaram um grupo de individualidades de Alhandra a empreender a construção do Teatro Salvador Marques, homenagem marcante ao dramaturgo então ainda em plena atividade.

 

O Teatro Salvador Marques foi inaugurado em 10 de abril de 1905, em espetáculo a cargo da companhia do Teatro Ginásio, com “O Comissário de Polícia” de Gervásio Lobato, o que teve a maior relevância: importa recordar que o Teatro marcou sobremaneira o ambiente cultural mas também patrimonial da região.

 

Salvador Marques salientou-se sobretudo como empresário e dirigente de teatros e iniciativas de espetáculo. Esteve ligado OS Teatros Avenida, Rato, Príncipe Real e Teatro da Rua dos Condes. Em todos eles exerceu também a função de ensaiador, como na época se dizia. 

 

O Teatro Salvador Marques tinha na época 40 camarotes, duas frisas, para cima de 200 lugares de plateia e balcão e mais 90 lugares de geral. Tudo isto marcado no exterior por uma bela fachada. Nos anos 50 do século passado albergou por exemplo espetáculos dos Companheiros da Alegria, de Igrejas Caeiro, à época de enorme sucesso na rádio e em teatros poe esse país fora…

 

Diga-se ainda que o Teatro Salvador Marques funcionou até 1984. Encerrado, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira adquire-o em 2001. Dura até hoje o debate acerca do destino do edifício, debatido designadamente em sessão da Câmara deste mês.

 

Garrett, nas “Cartas de Vale de Lobos” refere-se a “Alhandra a toureira”. E Oliveira Martins, nas “Cartas Peninsulares”, é eloquente: considera Santarém “o coração deste paraíso do mundo” que abrange “as pequenas povoações ribeirinhas do Tejo, Vila Franca e o Carregado, Alhandra, Tancos e a Barquinha, debruçadas sobre a margem alimentadas pelo rio onde se mira e que as criou e fecundou”…

 

Vamos ver o que acontece ao Teatro Salvador Marques!

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DOS TEATROS DE PORTALEGRE

 

A evocação de Portalegre como expressão, inspiração ou localização de uma tradição teatral alargada, envolve necessariamente, e desde logo, a referencia a José Régio e a Amélia Rey Colaço –  por razões obviamente diversas mas em certos casos convergentes.

 

José Régio, como se sabe, foi durante décadas professor do Liceu de Portalegre. Não espanta por isso que grande parte da sua obra tenha sido concebida na cidade. Aí se integra a dramaturgia, com o circunstancialismo de três peças referenciais.

 

Em primeiro lugar, a criação textual e de espetáculo da sua primeira peça conhecida, “Sonho de uma Véspera de Exame”, escrita e representada em 1935 por alunos finalistas do Liceu no Teatro Portalegrense. E é de assinalar que entre esses finalistas-atores estava o futuro grande ator Artur Semedo: aí se terá iniciado uma notável carreira.

 

E por outro lado, no Teatro Portalegrense, Amélia Rey Colaço efetuou a sua ultima aparição em cena, em 1985, no espetáculo único de “El-Rei Sebastião”, de José Régio, evocação-homenagem ao dramaturgo, falecido em 1969.

 

E finalmente: Benilde, protagonista da peça de Régio “Benilde ou a Virgem-Mãe”, publicada em 1947, ouve as suas vozes numa casa “em qualquer solidão do Alto Alentejo”, onde se situa “uma casa sinistra”...

 

Assinale-se então que em 1858 inaugura-se em Portalegre o Teatro Portalegrense, projeto do Arquiteto José de Sousa Larcher: um exemplar notável da geração de teatros que foram sendo construídos no interior do país. Tinha entretanto precedentes: José Martins dos Santos Conde refere pelo menos duas salas, ambas com nome de grandes atrizes da época: Emília das Neves, denominada a “linda Emília” por Brito Camacho, e Beatriz Rente, esta “de olhos grandes e lânguidos” escreveu então Sousa Bastos. 

 

Mas em 29 de setembro de 1953, Amélia e a Companhia Rey-Colaço – Robles Monteiro inaugura em Portalegre o Cine-Teatro Crisfal, projeto do Arquiteto Domingos Alves Dias e do Engenheiro Raul Dias Subtil. E o então já decadente Teatro Portalegrense acentua essa decadência: nos anos 80, um grupo desportivo nivelou o palco e a plateia, e “transformou” o teatro num insólito ringue de patinagem rodeado de frisas e camarotes!

 

Ora bem:  em 2007 abre ao público o Centro de Artes e Espetáculos de Portalegre, segundo projeto dos Arquitetos Manuel Gonçalves e Patrícia Rocha Leite. Trata-se de um edifício de espetáculo, notável pela modernidade e pela dimensão, pois comporta um conjunto de dois auditórios de 500 e de 170 lugares, o que permite uma rentabilização que a proximidade com Espanha de certo modo internacionaliza.

 

É de assinalar aliás um certo contraste ou heterogeneidade arquitetónica nas zonas de espetáculo. E desde logo porque o Centro Cultural comporta como vimos duas áreas distintas. Tal como já escrevi, o auditório maior retoma, de certo modo, e dentro de certos limites, a tradição da sala à italiana, aqui dominada por uma decoração moderna que ainda assim evoca certa linha de continuidade. E no exterior, um conjunto arquitetónico de corpos sobrepostos que confere uma nota de modernidade no conjunto urbanístico em que o Centro de Artes e Espetáculos se edificou.

 

Evoco, como já tenho feito, duas referências, das inúmeras que na sua obra, José Régio faz a Portalegre, cidade onde viveu dezenas de anos.

 

Desde logo, o longo poema intitulado precisamente “Toada de Portalegre”, publicado em “Fado”:

 

“Em Portalegre, cidade/ do Alto Alentejo, cercada/ De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,/ Morei numa casa velha,/ Velha, grande, tosca e bela,/a qual quis como se fora/ Feita para eu morar nela”. E seguem mais 228 versos – “verso musical, de rumores solitários, de angústias a meia voz”, como nos diz Urbano Tavares Rodrigues.

 

E no dia 5 de março de 1965, José Régio escreveu: “De regresso enfim a Portalegre; e que alívio! Retorno a minha solidão tão cheia, depois daquela brilhante balbúrdia tão vazia, exceto quendo, apesar de tudo, a minha solidão nela se insinuava”. 

 

E acrescento que hoje, José Régio não teria já qualquer pretexto para falar da “solidão” de Portalegre, a não ser da sua própria solidão!

 

(obras citadas: Sousa Bastos - “Dicionário do Teatro Português”-1903;  Urbano tavares Rodrigues – “O Alentejo” in” Antologia da Terra Portuguesa ”; José Régio – “Páginas do Diário íntimo” 2ª ed. 2002; José Martins dos Santos Conde - “Teatro em Portalegre”- 1989; Duarte Ivo Cruz - “Teatros de Portugal 2005 e “Teatros em Portugal- Espaços e Arquitetura” 2008; José Régio “Páginas do Diário Íntimo” 2ª ed.  - 2002).

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO LUÍS DE CAMÕES, PRECURSOR DOS TEATROS DE BOLSO

 

O pequeno Teatro Luís de Camões, na Calçada da Ajuda em Lisboa, datado de finais do século XIX e em fase de recuperação, constitui exemplo de certo modo percursor dos chamados Teatros de Bolso que hoje marcam numerosas cidades e vilas por esse país: e é interessante desde já referir o caráter, insista-se, percursor desta iniciativa, que, curiosamente, se ficou a dever a um comerciante local, João Açucar de nome.

 

A inauguração oficial do Teatro Luís de Camões ocorre em 10 de junho de 1880, no quadro das comemorações do tricentenário da morte do poeta. A peça foi “Camões e o Jau” de Casimiro de Abreu. Em qualquer caso, insistimos, surge percursor, dos pequenos teatros (e hoje até cineteatros) que existem um pouco por todo o país. Só que este, particularmente pela reduzida dimensão e lotação, é percursor de o que chamamos hoje, bem ou mal, Teatros de Bolso, não obstante constituir um edifício autónomo.

 

José Augusto França, ao historiar a construção do palácio da Ajuda, esclarece que “nenhuma igreja (só uma capela), nenhum grande teatro estava previsto no plano: o complexo arquitetónico tradicional cedia lugar a uma definição mais civil ou mais cívica, e portanto mais moderna, de residência régia” (cfr. “Arte em Portugal no Século XIX, vol. I Bertrand ed. pág.95 e segs.) 

    

E no entanto, o Teatro Luís de Camões da Ajuda marcou, ao longo destes 137 anos, com os altos e baixos inerentes, uma certa “política” cultural na época fortemente descentralizada, até no ponto de vista administrativo. Belém era na época concelho. E não obstante a relevância óbvia que decorria inclusive da proximidade do Palácio, a construção e exploração de um pequeno Teatro aberto ao público assumiu um significado específico, sendo certo entretanto que o Teatro do Palácio da Ajuda ou Casa da Ópera de Belém foi inaugurado em 4 de novembro de 1737 segundo projeto de Bibiena, que seria autor também do Teatro da Ópera do Tejo, este destruído pelo terramoto de 1755.

 

Muito diferente é desde a origem o Teatro Luís de Camões. A sala reproduzia, na sua dimensão de pequeno teatro, sobretudo pequeno para a época, a estrutura sócio-económica de exploração de espetáculo da época de fundação: plateia, frisas, camarotes, tribuna, num dimensionamento adequado à dimensão percursora, insista-se, de um teatro de bolso, nesse aspeto também percursor.

 

 Em 1899, o Teatro Luís de Camões passa a servir de sede ao Belém Clube. E entretanto, ao longo destes mais de 100 anos, o historial do Teatro assinala uma tradição de iniciativas culturais e de intervenções artísticas dignas de registo histórico.

 

Lá se estreou e lá se despediu do público Adelina Abranches. Lá atuaram nomes históricos do teatro luso/brasileiro, como Rafael Alves, João Villaret. Auzenda de Oliveira, Sales Ribeiro, Mirita Casimiro, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira…

 

E lá se estreou o grande cantor e encenador de ópera Tomás Alcaide, evocado, entre outros numa placa inaugurada em 1953.

 

DUARTE IVO CRUZ 

MEMÓRIA DO TEATRO DO SALITRE

 

O programa de visitas organizado pelo Centro Nacional de Cultura no eixo da Avenida da Liberdade justifica esta evocação do setecentista Teatro do Salitre, a certa altura (1858) também chamado Teatro das Variedades, o que desde logo define o seu âmbito de programação, mas também documenta a antecipação urbana e cultural que a sua construção e atividade representa relativamente ao eixo central urbano da Avenida da Liberdade e ao próprio Parque Mayer.

 

É interessante e oportuno por isso referir que o Teatro do Salitre, inaugurado em 27 de novembro de 1782 e demolido em 1879, logo no início das obras de implantação da Avenida, representou durante um século como que a antevisão do que viria a ser, ali mesmo, o Parque Mayer: curiosa antevisão,  insista-se,  de funções urbanas e culturais desta zona da cidade!

 

O Teatro do Salitre foi edificado por iniciativa de um negociante, de nome João Gomes Varela, que encomenda o projeto ao arquiteto Simão Caetano Nunes. Varela terá sido pois o primeiro empresário, diríamos hoje, do Parque Mayer. E para o espetáculo de estreia, é também contratado um equilibrista na altura muito prestigiado, Tersi de seu nome.

 

Mas quem mais marcou o Teatro do Salitre como cena referencial foi o ator António José de Paula que a partir de 1794 explorou o Teatro com um repertório notável para a época: inclusive, estreou em Portugal duas peças adaptadas de textos de Voltaire. E anos mais tarde, lá se instalaria uma companhia dirigida por Emile Doux, nome referencial no seu tempo e de certo modo ainda hoje.

 

Mas em 1840 o Teatro do Salitre estava em fase de decadência. Teófilo Braga, no seu estudo intitulado “Garrett e os Drama Românticos” (1905) transcreve um artigo onde se traça uma visão muito negativa do Teatro nessa época:

 

“O Teatro do Salitre era o único regular de Lisboa, e este mesmo, que mais se assemelhava a uma baiuca do que a um lugar de recreio público, só era frequentado pela classe ínfima da sociedade: ali, as graças mais obscenas eram unicamente aplaudidas, os ditos mais desonestos eram os que melhor soavam aquela plateia”…!

 

E mais adiante, na mesma obra, mas reportado a 1806: “o Teatro da Salitre tornou-se um asilo para os literatos pobres, assalariados para trucidarem a arte e a língua com traduções de dramas franceses”… (pág. 135).

 

A crise vinha pois de trás. E nesse sentido, Ana Isabel de Vasconcelos assinala agora   que “o Teatro do Salitre tem desde sempre sido referido como um parente pobre da arte dramática. (…) Já no fim do século XVIII, quando não havia atores em número suficiente, este teatro é preterido relativamente ao Condes, que se apropria da designação de teatro nacional”.  Mais refere ainda que “o Salitre tinha uma boa lotação – 900 espetadores em plateia, frisas e camarotes” (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT  2003 págs 30-31).

 

E é interessante recordar que quando Garrett, em 1836, elabora a sua reforma estrutural do teatro português, as duas salas dominantes de Lisboa – e do país inteiro,  em rigor -  eram precisamente o Teatro do Salitre e o Teatro da Rua dos Condes, sem referir, claro, o Real Teatro de São Carlos, esse inaugurado em 30 de junho de 1793 e vocacionado, como bem sabemos, para a música, para a ópera.

 

O teatro de D. Maria II seria inaugurado em 13 de abril de 1846. Pode referir-se também o pequeno Teatro das Laranjeiras, do Conde de Farrobo, inaugurado em 1825 e restaurado em 1842. O Teatro do Gymnasio data do mesmo ano de 1846. O Teatro da Trindade é de 1867, o Teatro Gil Vicente de Cascais de 1869, o Teatro Taborda de 1870... 

 

Mas recorde-se então que o Teatro São João do Porto é inaugurado em 13 de maio de 1798, e antes dele existiram Teatros em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país: de muitos deles temos falado aqui, e  desses e de outros voltaremos aqui a falar.

 

DUARTE IVO CRUZ 

O QUE RESTA DO EDEN?

 

A pergunta é pertinente, e mais se justifica no quadro das visitas que o Centro Nacional de Cultura está a efetuar no eixo urbano central de Lisboa, e designadamente na Avenida da Liberdade.

 

O que resta então do Eden? Sem dúvida apenas a fachada, tal como “sobreviveu” às sucessivas alterações/demolições deste notável Cine-Teatro que vinha do início do século passado, e que, durante décadas, manteve, em sucessivas adaptações e alterações, uma estrutura interna de espetáculo e de cultura, entretanto desaparecida: ao menos a fachada subsiste.

 

Evidentemente, há, neste processo, componentes e variantes que transcendem em si mesmas os critérios de conservação arquitetónica: mas no caso do Eden-Teatro e Cinema, amplamente se justificava essa conservação, desde logo pela qualidade arquitetónica, insista-se nela, mas também pela expressão urbana, social e cultural decorrente da tradição e da própria localização.

 

E não se diga que o eixo Rossio-Restauradores-Avenida de Liberdade merece hoje menos atenção e menos consideração. Os programas em curso do CNC são nesse aspeto extremamente relevantes.

 

O Eden, ou a área urbana que ocupa, começou por albergar uma sucessão de espaços de vocação de espetáculo, designadamente, de teatros mas também de cinemas, em edifícios provisórios desde o início do século passado. José Manuel Fernandes refere «uma sala de cinema “fim de século” (em 1918)» (in “Cinemas de Portugal” ed. INAPA 1995); Margarida Acciaiuoli por seu lado refere que «em 1928, uma vistoria da Inspeção Geral dos Teatros, empenhada na sua ação fiscalizadora, deteta anomalias no Eden-Teatro, um recinto  inaugurado em 25 de setembro de 1914, na Praça dos Restauradores, depois de três pareceres negativos que  consideravam a sala de teatro- cinema como “uma obra desastrada e perigosa”» (in “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano de Século XX” Bizâncio ed. 2012)”.

 

A primeira peça em 1914 foi “O Burro do Senhor Alcaide” de Gervásio Lobato. E refira-se que em 1911 tinha sido inaugurado no local, um pequeno cinema denominado Chantecler, integrado no antigo Eden e mais tarde “autonomizado” com a denominação de Cinema Restauradores. Como tal funcionou de 1935 a 1968.

 

O certo é que existiu no local uma tradição de recintos mais ou menos improvisados para espetáculos de teatro e/ou de cinema. E essa tradição ganha um registo consolidado em finais da década de 20 quando Cassiano Branco projeta e inicia as obras de construção deste ambicioso cine-teatro na Praça dos Restauradores.

 

Só que o projeto de Cassiano acaba por ser alterado logo na fase inicial dos trabalhos de construção. E de tal forma que, em 1931, o arquiteto desliga-se da empreitada, entretanto já em fase de iniciação no terreno. E as obras prosseguem sob a orientação e de acordo com projetos revistos pelo arquiteto Carlos Florêncio Dias, o qual, note-se bem, não renega mas adapta a traça original, com alterações tanto internas como na fachada mas sobretudo viabilizando a construção e assim salvando o investimento respetivo, que já era significativo…

 

Independentemente do contributo arquitetónico de cada um dos arquitetos, o que se deve enfatizar é a grandiosidade e a qualidade exterior do edifício, e a capacidade de adaptação do interior, face à necessidade de ajustar a estrutura da sala de espetáculos aos compromissos anteriores no que respeita à estrutura comercial pré-existente.

 

Ou por outras palavras: havia de conciliar um grande Cine-Teatro com os estabelecimentos comerciais já existentes na zona térrea do edifício, que deveria corresponder ao foyer de entrada e de acesso, isto, na fase de início da construção. E essa circunstância determinou uma estruturação interna do Cine-Teatro, designadamente na “deslocação” da plateia para uma área ao nível de um  primeiro balcão: e as frizas ao nível de camarotes. E a arquitetura interior de grandes salas de espetáculo da época mantinha a estrutura tradicional de frisas, camarotes, plateia e um ou dois balcões: assim foi pois com o Eden, mas à custa de uma estrutura complexa de acesso através de escadarias e elevadores.

 

Entretanto, a fachada valorizou sobremaneira a zona urbana, e conciliou-se totalmente com o estilo arquitetónico diferente do vizinho Palácio Foz. O friso de dez baixos relevos de Leopoldo de Almeida valorizou a fachada do Eden: mas a própria estrutura arquitetónica, com a sucessão de janelões, singularizou o projeto e valorizou também a Praça dos Restauradores.

 

E não obstante o Eden ter sido, ao longo de décadas, sobretudo cinema, não obsta a que lá se tenha produzido teatro de qualidade. E aí, evoco designadamente, a partir de um texto que na época publiquei, a realização de temporadas de teatro infantil e juvenil, que se conciliavam com a exploração cinematográfica dominante. Recordo a propósito a critica que escrevi em 1968, sobre uma peça infanto-juvenil de Norberto Ávila, “A Ilha do Rei Sono” encenada por Couto Viana, interpretada por Maria Albergaria, Maria Emilia Batista, Luis Cerqueira, Eduardo Silveira e outros, com cenários de Juan Sotulho: isto no Eden, aí realmente o Cine-Teatro que a designação da fachada ainda hoje mantém.

 

Mas desde 1993 que não é nem cinema nem teatro!

 

O que resta então do Eden?

 

DUARTE IVO CRUZ

OS DOIS TEATROS SÁ DA BANDEIRA

 

É interessante constatar e existência de dois Teatros homónimos, separados por dezenas de anos e centenas de quilómetros, e ambos evocando um nome que não é propriamente uma grande referencia atual às artes cénicas. Referimo-nos aos Teatros Sá da Bandeira do Porto e de Santarém.

 

Realmente, não se diga que o nome de Sá da Bandeira contem hoje um significado especifico nas artes do teatro. E no entanto, os dois Teatros Sá da Bandeira que hoje aqui evocamos assumem função de relevo local e nacional.

 

O Teatro Sá da Bandeira do Porto é o herdeiro de sucessivas salas de espetáculo que, primeiro com o nome de Teatro(s) do Príncipe Real, marcaram a atividade cénica da cidade e mesmo, pode-se dizer, do país. Sousa Bastos, escrevendo em 1908, regista a existência, no local, de três sucessivos Teatros denominados do Príncipe Real: entende-se que a partir de 1910 a designação mudou. Mas em qualquer caso, estamos perante a mesma sala, ou melhor, perante a localização e a tradição de sucessivas salas de teatro, música e artes circenses, que no mesmo local marcam a vida sócio-cultural do Porto.

 

A primeira dessas salas não passava de um barracão de madeira vocacionado para o circo. Resistiu alguns anos, mas foi substituído por um edifício agora “de pedra e cal”, com 21 camarotes e 2 frisas. Este já servia alternadamente para companhias dramáticas, equestres e ginásticas. Passados anos foi de novo demolido para se fazer o que hoje existe” diz-nos então Sousa Bastos em 1908. Escusado será de referir que mudaria em breve de designação… 

 

E é com o nome de Teatro Sá da Bandeira que esta sala referencial do Porto mantem atividade tendo aliás beneficiado de sucessivas alterações e melhorias no interior.

 

Mais moderno é o Teatro Sá da Bandeira de Santarém, este inaugurado em 1924 e construído sobre as ruínas de um antigo hospital denominado João Afonso. A fachada ostentava um arco que fazia lembrar, dizem as crónicas, o politeama de Ventura Terra, esse inaugurado cerca de 10 anos antes. Vocacionado desde a origem para espetáculos de teatro e cinema, o Sá da Bandeira de Santarém funcionou numa primeira fase até cerca de 1977.

 

A Câmara Municipal adquire-o e a partir de 2000 inicia um vasto projeto de restauro orientado pelo arquiteto Alberto Mendonça Gamito.  E tem interesse assinalar que o interior sofre uma total remodelação. Pelo contrário, a fachada conserva muito da estrutura original, em arcos sucessivos encimados por uma varanda com elementos de art-deco.

 

Hoje o Teatro Sá da Bandeira de Santarém ostenta uma lotação de cerca de 200 lugares e, tal como já escrevemos, além da sala de espetáculos propriamente dita, alberga uma sala estúdio, um piano-bar, uma galeria e uma sala de convívio. Foi instalado um teto em gesso e a sala revestida por painéis de madeira. A teia foi aumentada, designadamente pela integração de um edifício contíguo.

 

Mas mais interessante: o Teatro recuperou vestígios do claustro do antigo hospital.

 

E tudo isto valoriza a cidade de Santarém.

 DUARTE IVO CRUZ