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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O TEATRO RIVOLI DO PORTO

 

Expressão da Arquitetura de Espetáculo

 

Em 2004, o Instituto Português de Património Arquitetónico – IPAR publicou um vasto e detalhado estudo, programaticamente denominado “Arquitetura Moderna Portuguesa 1920-1970”. Com coordenação científica de Ana Tostões, procede-se ao levantamento, descrição e análise de centenas de expressões de modernidade arquitetónica, e entre elas, um conjunto de teatros e cineteatros.

 

Aí se diz que “se em 1929 o projeto do Cineteatro Capitólio Lisboa marcava a rutura, a verdade é que ao longo dos anos 30 e 40 a campanha de construção de diversos cinemas e cine-teatros por todo o país constituiu processo de atualização alterando programas e vivências” E exemplifica: “Desde o Teatro Rivoli ao Salão Eborense ou ao Cinearte com a experimentação do sistema de vigas belgas a produção do primeiro modernismo define-se entre um gosto «Déco», e um purismo racionalista.”(ob. cit. pag. 351).

 

Precisamente: o Teatro Rivoli do Porto, através de um conjunto de documentos e fotografias, é um expressivo exemplo de modernismo.

 

Mas atenção: tal como aliás referimos em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) o Rivoli prolonga uma larga tradição de espetáculo no Porto. Antes da sua construção e inauguração, funcionou no local um chamado Teatro Nacional, que vinha do início do século XX. Mais concretamente, foi inaugurado em 1913 com um espetáculo que na altura fez-se notar: a opereta “O 31”, de Luis Galhardo, Pereira Coelho e Alberto Barbosa, música de Tomás del Negro e Alves Coelho, que nesse mesmo ano de 1913 – ano relevante para o teatro em Portugal! –  tinha já sido apresentado no espetáculo de estreia do Teatro Eden de Lisboa, e sucessivamente reposto, um pouco por todo o país.

 

Temos pois que no local do velho Teatro Nacional do Porto é inaugurado, em janeiro de 1932, o Rivoli, projeto do arquiteto José Júlio de Brito, que dirigiu as obras a partir de 1928. Vocacionado para espetáculos de teatro e música, logo no final do mesmo ano é instalado um sistema de projeção cinematográfica, e como tal funcionou preferencialmente, dirigido por Maria Borges, que aliás procedeu a obras vastas de renovação do edifício, ainda concebidas e orientadas, numa primeira fase, pelo referido arquiteto José Júlio de Brito.

 

E vem dessa época a construção e instalação do baixo-relevo alusivo às artes do espetáculo, da autoria do escultor Henrique Moreira, ligado ao Rivoli pelo menos desde 1935. (cfr. Rute Figueiredo in “Portugal Património” vol. I, ed. Circulo de Leitores 2006 pags. 362/363).

 

A entrada em gaveto marca assim a estrutura do Cinema e Teatro. Aliás, é oportuno lembrar que o Rivoli foi durante anos quase exclusivamente cinema.

 

Mas agora, no âmbito da Câmara Municipal do Porto, prossegue uma programação vasta e variada, de cariz e qualidade expressivamente cultural.

 

DUARTE IVO CRUZ

TRADIÇÃO DE TEATROS NO INTERIOR: O CASO DE ALCÁCER DO SAL

 

Referimos hoje uma tradição, devidamente comprovada e prolongada, de recintos de espetáculo em Alcácer do Sal, “famosíssimo porto resguardado, interior”, como qualifica, e bem, Fernando António de Almeida (in “Olhar Portugal – Viagens e Paisagens” – ed. Circulo de Leitores - 2013): e não é demais enfatizar, precisamente, a notável relevância do espetáculo e do edifício teatral/musical, em meios urbanos mais pequenos.

 

Alcácer do Sal conserva um património histórico notável, a começar no castelo de origem muçulmana (Al-Cassar, antes Salávia no período romano) mas que guarda desde o século XII a Igreja medieval de Santa Maria, e ainda as Igrejas renascentistas do Senhor dos Mártires, do Espírito Santo e do Convento de Santo António, todas do século XVI. Oliveira Marques lembra que “passado o Tejo, a fronteira deslocou-se para o Sado e as terras alentejana. Al-Qasr Abu Danis (Alcácer do Sal) foi conquistada em 1158” (cfr. “História de Portugal” vol I Edições Ágora 1958 pag. 91).

  

E faz-se ainda uma citação “definitiva” pela relevância da obra em si. É que Alcácer do Sal surge consagrado na citação de Camões nos Lusíadas: “E vós também, ó terras transtaganas/ Afamadas co dom da flava Ceres,/ Obedecendo às forças mais que humanas/ Entregando-lhes os muros e os poderes:/ E tu, lavrador Mouro que te enganas, /  Se sustentar a fértil terra queres;/ Que Elvas e Moura e Serpa conhecidas,/ E Alcácer do Sal estão rendidas”…   

         

Escusado seria dizer que os teatros são muito mais recentes… mas, mesmo assim:  no caso que agora nos ocupa, é oportuno referir uma tradição de cultura e de espetáculo, marcada pela sua diversidade e pela sua especificidade.

 

Referimo-nos pois, em primeiro lugar, ao Teatro Pedro Nunes, já citado por Sousa Bastos no “Dicionário de Theatro Português” publicado em 1908, como aqui temos visto. Edificado a partir de 1894, foi inaugurado no ano seguinte com uma adaptação de “Os Fidalgos da Casa Mourisca” de Júlio Dinis. Na época, o Teatro teria algo como 15 camarotes, 10 frisas e para cima de mais de 100 lugares de plateia, balcão, geral e superior, usando a terminologia da época. Notava-se o pano de boca de João Vaz, depois devidamente restaurado. “Já ali representaram diversas companhias, incluindo a do Teatro do Príncipe Real”, diz-nos ainda Sousa Bastos, e na época isto não era pouco. Acrescenta que “a iluminação é a acetilene”.  

 

Este Teatro terá sido fundado por uma então chamada Sociedade Civil Particular: entretanto, a entidade proprietária passa à designação de Sociedade Filarmónica Matos Galamba. E homenageou em devido tempo o compositor Rui Coelho (1892-1986), natural de Alcácer do Sal, que aqui iniciou a sua aprendizagem musical e teatral. O seu retrato foi então colocado no salão nobre do Teatro.

 

Ora importa então salientar que Rui Coelho constitui figura de grande destaque também na expressão teatral, designadamente (mas não só) como compositor de operas, a partir de nomes relevantes da literatura portuguesa em épocas diversas.  Vale a pena evocar aqui os dramaturgos que Rui Coelho “transformou” em autores de libreto de ópera: nada menos do que Gil Vicente, António Ferreira, Teófilo Braga, António Patrício, Carlos Selvagem, Júlio Dantas, Augusto de Santa Rita, Silva Tavares.

 

Mas voltemos aos teatros da região. Outro que merece referência, situa-se em Santa Suzana e remonta aos anos 40 do século passado. Trata-se, como já tivemos ocasião de noutro local referir, de um salão recreativo destinado (na época) sobretudo a trabalhadores rurais, criado por iniciativa de Henrique Louro Fernandes: pequena sala de festas típica da época, de arquitetura algo regionalista, na decoração à base de tijolo alentejano.

 

Mas acresce-se a referência à infraestrutura de espetáculo, chamemos-lhe assim, que a Câmara Municipal de Alcácer do Sal inaugurou em 2003. Trata-se agora de um projeto do Arquiteto João Resende, com uma plateia de cerca de 200 lugares. E também se citam os auditórios do Torrão e da Comporta, zonas de expansão turística.

 

O Teatro e os Teatros acompanharam o desenvolvimento urbano: e pelo menos assim deveria ser sempre. Mas pelo menos, a época de demolição sistemática de Teatros e Cineteatros para construção de imóveis no centro das cidades, se ainda não desapareceu, pelo menos diminuiu!...     

 

DUARTE IVO CRUZ

OS 150 ANOS DO TRINDADE (II) – A COMPANHIA PORTUGUESA DE ÓPERA

 

Ópera Serrana, de Alfredo Keil no teatro da Trind
    Ópera Serrana de Alfredo Keil, no Teatro da Trindade

 


Merece o maior destaque esta evocação da Companhia Portuguesa de Ópera - CPO, que marcou, entre 1966 e 1975, o meio musical-cultural português, na perspetiva aglutinadora da música e do teatro, essência da criação e realização operística – mas que, em Portugal, constituída como exceção nas temporadas aliás de grande qualidade do Teatro Nacional de  São Carlos – qualidade, sim, mas temporadas quase exclusivamente constituídas por produções basicamente italianas e/ou alemãs: o que não questiona a qualidade em si mesma  (bastaria recordar, entre inúmeros espetáculos, ter lá assistido à “Traviata” cantada por Maria Callas, nada menos!) mas que não correspondia em rigor à função cultural abrangente de um teatro do Estado. E note-se que frequento a ópera do São Carlos desde 1947. 

 

Nesse aspeto, a CPO, instalada no Trindade e dirigida por José Serra Formigal, constituiu um importante fator de divulgação do espetáculo de ópera, mas sobretudo da profissionalização dos cantores portugueses, e também, de reforço da própria expressão musical e teatral. De tal forma que se justifica esta evocação, tantos anos decorridos, na medida em que a CPO conferiu ao Trindade uma função singular. E isto, não esquecendo a própria qualidade, tradição e modernidade do Teatro em si nas sucessivas grande companhias e iniciativas que marcaram a sua atividade ao longo de 150 anos. 

 

Ou, tal como escreveu Tomaz Ribas, “os principais e salutares objetivos (da CPO) eram, por um lado, criar condições de estabilidade profissional e artística aos cantores portugueses e formar novos cantores, novos artistas do bel canto e, por outro lado, proporcionar ao grande público e à classe média espetáculos de ópera e opereta a preços módicos, populares”. O que se conseguiu. (cfr. Tomaz Ribas “O Teatro da Trindade – 125 Anos de Vida” ed. Lello e Irmão 1993).

 

Agora, passaram mais 25 anos!      

  

Ora bem: um aspeto relevante da CPO foi a produção de óperas portuguesa, sabendo-se que, historicamente não são muitas… Em qualquer caso, de acordo com o levantamento exaustivo de Nuno Domingos, entre óperas e operetas, o Trindade programou e executou, no período referido, ao todo para cima de 60 títulos, em sucessivas produções e encenações. E seis eram de autores portugueses: “A Serrana” de Alfredo Keil, logo como segundo espetáculo da temporada inaugural (1963), “A Vingança da Cigana” de António Leal Moreira, “A Condessa Caprichosa” de Marcos Portugal, “Inês Pereira” de Rui Coelho, “Variedades de Proteu” de António Teixeira, “Rosas de Todo o Ano” de Rui Coelho. (cfr. Nuno Domingos «A Opera do Trindade» - ed. Lua de Papel 2007). 

 

E no repertório operístico internacional destacaram-se, segundo a mesma fonte, produções de ópera de Rossini, Puccini, Schubert, Verdi, Mascagni, Donizetti, Leoncavallo, Gounod, Massenet, Belini, Wolf-Ferrari, Mozart, Menotti, Casavola, Bizet, Gluck, Giordano, delibes, Franz Léhar, Massenet, Hindemith. 

 

O repertório operístico conciliava assim os grandes títulos com revelações, clássicas ou modernas, para um público não especializado mas cada vez mais empenhado na participação dos espetáculos: e importa também lembrar que a produção de cada uma das óperas não se limitava, como há décadas sucedia no São Carlos, a dois espetáculos (6ª feira à noite, domingo à tarde) por cada produção.   

 

E mais: a CPO era formada principalmente por cantores portugueses, dos quais citamos, com injustiça para os não citados, nomes como Maria Teresa de Almeida, Maria Cristina Castro, Hugo Casais, Guilherme Kjolner, Ana Lagoa, Armando Guerreiro, Álvaro Malta, Zuleika Saque, Carlos Jorge, e tantos mais… 

 

E tudo isto em sucessivas encenações de nomes notáveis da cena portuguesa, como Álvaro Benamor, Tomaz Alcaide, Artur Ramos, Couto Viana, ou o grande cantor italiano Gino Becki… E maestros também notáveis, como Silva Pereira, Ruy Coelho, Manuel Ivo Cruz, Joly Braga Santos, Filipe de Sousa…   

     

Havemos de evocar ainda, no Teatro da Trindade, dois grandes momentos seletivos: o Teatro Nacional Popular - TNT, dirigido por Francisco Ribeiro (Ribeirinho), e a Companhia Nacional de Teatro, de António Manuel Couto Viana. Ambas marcaram por um repertório avançado para a época. Recordo em particular o que foi a estreia de “À espera do Godot” de Samuel Beckett, numa época e num enquadramento que não se mostraria especialmente adequado a estas expressões dramatúrgicas!   

 

DUARTE IVO CRUZ

OS PRIMEIROS TEATROS DO BRASIL

 

Nesta série de artigos, tivemos já ocasião de evocar os teatros romanos da Lusitânia, com destaque adequado para o teatro de Mérida.  Referiremos agora alguns teatros que, historicamente, estiveram ligados a Portugal: e desde logo, os que, a partir do século XVIII, foram sendo contruídos dispersamente no Brasil.

 

Há, efetivamente, documentação de uma tradição de espetáculo que remonta pelo menos ao século XVIII. Por exemplo, uma Casa da Ópera funcionou no Rio de Janeiro, a partir de 1770, por iniciativa do “reinol” (como então se dizia de quem tinha nascido em Portugal) Manuel Luis Ferreira, com intervenção também, de um denominado Padre Ventura e onde se representaram dramas e comédias por atores locais ou idos de Lisboa; ou o Drama, assim mesmo designado, de José Eugénio de Aragão e Lima, “recitado” num aludido Teatro do Pará em honra do nascimento da futura Rainha D. Maria I, editado em 1776.

 

E vale a pena recordar que António José da Silva nasceu em 1705 no Rio de Janeiro, e só veio para Portugal em 1711. Falaremos dele mais adiante.

 

Mas o que agora nos prende a atenção é a criação do primeiro grande Teatro-edifício no Rio de Janeiro.  Remontamos então a 1810, regência do Príncipe D. João, futuro Rei D. João VI. Em 1810, determina, por meio de decreto, que “nesta capital se erija um teatro decente e proporcionado à população e ao seu maior grau de elevação e grandeza em que se acha pela minha residência nela.”

 

Foi este o primeiro grande edifício representativo (e a palavra não é redundante!…) na infraestrutura e na arquitetura de espetáculo do Brasil. Mas isso não significa que, na imensa geografia brasileira, fosse o único teatro em função.

 

Há efetivamente, fora do Rio,  pequenos edifícios  anteriores, com vocação de espetáculo: veja-se por exemplo a atividade em Vila Rica, hoje Ouro Preto, com as tragédias dos chamados Inconfidentes, percursores da independência do Brasil, designadamente Cláudio Manuel da Costa ou Alvarenga Peixoto. Temos notícia de salas construídas pelo menos desde 1805. E em 1812 funcionava um Teatro São João em Salvador da Bahia, e em 1817, um Teatro União, este em São Luís do Maranhão.

 

Em São Paulo, registam-se atividades teatrais já em 1797.  E em 1818, dois alemães, Von Mariius e Von Spix, deixam curioso testemunho citado por Décio de Almeida Prado, de um teatro e de um espetáculo a que assistiram na cidade, já então em crescimento:

 

«Assistimos, no teatro construído em estilo moderno, a representação de uma opereta francesa, “Le Deserteur”, traduzida para o português. (…) O ator principal, um barbeiro, emocionou profundamente os seus concidadãos. O fato de ser a música ainda confusa, a busca dos seus elementos primitivos, não nos estranhou, pois além do violão para o acompanhamento do canto nenhum outro elemento foi tocado com estudo”.

 

E prosseguem citações: «Foi representado “O Avaro” e uma pequena farsa. Os atores eram todos operários (…) A maior parte dos atores não era constituída por melhores comediantes, entretanto não se pode deixar de reconhecer que alguns deles possuíam inclinação para a cena”…  (cfr. “História Concisa do Teatro Brasileiro – 1570-1908” ed. Universidade de São Paulo - págs. 26-27; do mesmo autor,  “A Literatura no Brasil”, vol. VI págs.7 e segs.).

 

Ora bem: o “teatro decente” mandado construir no Rio de Janeiro em 1810 pelo Príncipe D. João está pois em pela atividade a partir de 1813. E para início, chamou-se a atriz Mariana Torres, então considerada “a primeira atriz portuguesa, sobressaindo muito nos papéis e na tragédia, diz a crítica da época. “De acidentada história, a rigor o nosso primeiro edifício público de teatro condizente com essa atividade, que passa então a ser estimulada”, refere José Aderaldo Castello. (cfr. “Manifestações Literárias no Brasil Colonial” ed. Cultrix pág. 212).

 

O Teatro São João do Rio de Janeiro sofreu sucessivos incêndios e alterações, desde o nome ao edifício em si. Mas a sala primitiva guardou uma memória e uma imagem que faz recordar o Teatro de São Carlos de Lisboa. A aguarela de Thomas Ender, que aqui reproduzimos, confirma-o amplamente.

 

E não será alheio ao surgimento de uma literatura dramática de expressão brasileira. Volto a António José da Silva, já acima referido. Cito, a propósito, Arlete Cavalieri, para quem “o surgimento de uma arte teatral nacional liga-se ao papel de Gonçalves de Magalhães (1811-1882), introdutor do romantismo no Brasil, cuja peça «António José ou o Poeta e a Inquisição» é considerada a primeira tragédia brasileira sobre tema nacional”. (cfr. “Teatro no B” no “Dicionário Temático da Lusofonia” - direção e coordenação de Fernando Cristóvão, Texto Editores pág. 909). 

 

DUARTE IVO CRUZ 

SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE

 

REFERÊNCIA A UMA ASSOCIAÇÃO TEATRAL CENTENÁRIA
 

A cultura e a prática teatral, no que respeita à criação de infraestruturas e à produção de espetáculos, é pródiga em surpresas, quando assumida numa perspetiva de análise que transcenda o imediatismo da atividade profissional em termos globais. O que significa, portanto, que o espetáculo teatral transcende em si mesmo o âmbito imediato do exercício da profissão e da produção profissional. Os grupos de amadores, por esse país fora, constituem assim uma expressão muito marcante da cultura e da prática teatral.


É evidente que o profissionalismo surge num plano abrangente, sobretudo no que respeita a atores, encenadores e técnicos do espetáculo: e a montante, encontramos uma função didática e cultural que subjaz e viabiliza o espetáculo em si, seja ele amador, seja ele profissional, para usarmos uma classificação imediatista, digamos assim. E vale acrescentar que quem anda neste mundo da criação/produção cénico-dramatúrgica terá sempre presente a realidade do meio teatral português, onde tais classificações, por motivos que todos conhecemos, são no mínimo subtis e quantas vezes meramente formais!


Vem tudo isto a propósito de uma entidade que, no plano de exercício cultural/ não profissional de ação ligada ao teatro, atinge, há mais de um século, um notabilíssimo nível e mérito. E mais: desenvolve a sua atividade teatral a partir de uma infraestrutura notável também no ponto de vista de espaços edificados. Trata-se da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), fundada em 1904 em Tavarede, concelho da Figueira da Foz: a qual, concretamente desde esse mesmo ano, mantem uma tradição de espetáculos teatrais de amadores, que dura até hoje, o que é realmente notável.


E pomos o maior destaque e elogio no termo e na expressão “amador”, aqui plena e exuberantemente justificada. É que efetivamente os atores que mantêm o grupo de teatro são amadores no duplo e integral sentido do termo: não são artistas profissionais, mas são artistas que amam, produzem e realizam, de forma digna e qualificada, a arte do teatro.


Em 2004, a SIT publicou um vasto volume de cerca de 300 páginas profusamente ilustradas, evocativo da ação centenária da agremiação. Sobressai a tradição de atividades teatrais, desde logo iniciadas. A inauguração deu-se precisamente com a estreia de um espetáculo a partir de duas comédias e um entreato cómico, tudo fruto de produção local: como de produção local foi o espetáculo seguinte, agora com uma opereta, da autoria de um compositor e maestro, de seu nome João Nunes da Silva Proa. E desde aí, e até hoje, encontramos centenas de produções teatrais e musicais, alternando autores-amadores com grandes nomes do teatro, sobretudo mas não só, do teatro português.


Citamos designadamente peças de Salvador Marques, Luis Maria Bordalo, Mark Twain, Manuel Laranjeira, Camilo, Bento Mântua , Octave Feuillet, Julio Dinis,, Ramada Curto, Jorge Ohnet, Pinheiro Chagas, Carlos Selvagem, Marcelino Mesquita, Manuel Frederico Pressler, Gil Vicente, Henrique Lopes de Mendonça, Rui Correia Leite, Alice Ogando, Garrett, Vasco Mendonça Alves, D. João da Câmara, Alexandre Casona, Luis Francisco Rebello, Shakespeare , Gervásio Lobato, Pirandello, Molière, Diego Fabri, Alves Redol, Camões, Molière, Marivaux, Henrique Galvão, Alfredo Cortez, Maria Rosa Colaço, Fernando de Passos, Adolfo Simões Muller, Gervásio Lobato, Bernardo Santareno, Anton Tchekov, José Régio…


Esta lista não é exaustiva, longe disso. E mais: acresce ainda uma larga referência a peças de teatro declamado e de teatro musical, de autores e temas ligados diretamente à região. Tudo isto referido, analisado e ilustrado numa excelente edição de Vítor Medina. (cfr. “Sociedade de Instrução Tavaredense – Cem Anos”).


Importa então recordar que a SIT se instalou, em 2004, num edifício conhecido como a Casa do Ourão ou Casa do Terreiro. Objeto de obras sucessivas, o edifício seria melhorado e como que reinaugurado em 1965, numa abrangência cultural que assume especial relevância da sala de espetáculos e na biblioteca, em fase aliás de nova remodelação. Trata-se, com efeito, de um excelente edifício de teatro, de convívio social e de cultura popular.


Em 1968, Luis Francisco Rebello referiu a ação da Sociedade de Instrução Tavaredense como a expressão de um ”verdadeiro amor pelo teatro”. De lá para cá, esse amor pelo teatro desenvolveu-se e consolidou-se: João Miguel Amorim, Vice Presidente da SIT e diretor cénico do grupo de teatro, que me acompanhou na visita, informou que no último triénio registou-se uma média de algo como 3 mil espetadores/ano.


O que é realmente notável.

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO DA TRINDADE, NOS 150 ANOS DA INAUGURAÇÃO (I)

 

Ocorre este ano o 150º aniversário da estreia do primeiro espetáculo do Teatro da Trindade, realizado em 1867, primeiro no salão nobre, com bailes no Carnaval daquele ano, e depois com espetáculos musicais de declamação e já de representação cénica, ao longo dos meses, até que, a 30 de setembro, verifica-se a primeira grande estreia na sala do teatro propriamente dita, sala essa que até hoje perdura, com alterações que não a desvirtuam.  

O evento merecerá pois aqui, ao longo do ano, uma breve  sucessão alternada e complementar de  evocações.    

E isto porque o Trindade representou na época e até hoje representa e significa, sem grandes períodos de inatividade, um referencial de cultura e de espetáculo, cénica e arquitetonicamente enquadrado no modelo de teatro oitocentista que perdura, mas conciliado com sucessivas intervenções, designadamente na tecnologia de cena. E importa também lembrar a sua função cultural, com destaque para algumas iniciativas inovadoras e/ou muito representativas na cultura de espetáculo – desde o teatro declamado, à ópera, aos concertos, ao cinema, sobretudo quando o cinema era inovação ímpar ou quase… 

Mas também em épocas posteriores: e nesse aspeto específico, que hoje já quase não se recorda, vale a pena assinalar que foi no Trindade a estreia, em 1943, do “Amor de Perdição” de António Lopes Ribeiro e estreia no cinema de Carmen Dolores.   

Mas voltemos a história do edifício. No ponto de vista arquitetónico, o Trindade deve à traça de Miguel Esteves de Lima Pinto a qualidade do projeto, conservada ao longo destes 150 anos e, pelo menos em certos aspetos, do interior, valorizada ao longo de sucessivas intervenções. Isto, não obstante uma alteração externa devida a construções empresariais contíguas. Mas referem-se no interior os 12 medalhões do teto da sala principal, representando dramaturgos, da autoria de José Procópio, discípulo dos “históricos” cenógrafos Rambois e Cinatti:  lá encontramos Gil Vicente, António Ferreira, Camões, Sá de Miranda, Garção, Bocage, Garrett, Manuel de Figueiredo, Inácio Maria Feijó, João Batista Gomes.  E cita-se também na sala principal, o belíssimo frontão da autoria de Leopoldo de Almeida, colocado nos anos 30 do século passado.  

 

E vale a pena pois lembrar que a inauguração “oficial” do Trindade, na grande sala do teatro, ocorre em 30 de setembro de 1867 com um duplo programa de modernidade indiscutível na época e desde logo, de heterogeneidade de géneros. É certo que os nomes das peças e até dos autores respetivos, hoje, já pouco dizem. Mas, na data, trata-se de expressões concretas e significativas de modernidade: o dramalhão ultrarromântico, em quatro atos, “A Mãe dos Pobres”, de Ernesto Biester, dramaturgo então de primeiro plano e projeção, e a comédia em um ato “O Xerez da Viscondessa”, adaptada por Francisco Palha, este também no auge do prestígio como autor teatral. É certo que, se os nomes dos dramaturgos hoje ainda marcam no ponto de vista histórico e estético, as peças em si já pouco dizem aos espetadores a não ser pela expressão epocal-documental.  

 

Mas o elenco desta primeira companhia do Trindade, a 150 anos de distância, ainda guarda ecos de qualidade: os atores Tasso, Isidoro, Rosa Damasceno, Eduardo Brazão, Augusto Rosa, Delfina do Espírito Santo, entre outros mais esquecidos, marcaram e muito o teatro da época e sobretudo documentam uma projeção da arte do teatro que não pode ser ignorada.  

 

E não o foi, desde a fundação até hoje. De tal forma que nos propomos evocar e analisar a função histórica do Trindade e a visão que dele nos deixaram, em sucessivas épocas, grandes nomes da literatura e da cultura portuguesa.  

 

E desde logo, porque será o mais marcante nesta perspetiva, Eça de Queiroz, designadamente em ”Os Maias” e ”A Tragédia das Rua das Flores” que antecede. 

 

Citemos breves passagens que contêm descrições do teatro: 

Em “Os Maias: “ (…)Ega, esguio e magro,  foi rompendo pela coxia atapetada de vermelho. De ambos os lados se serravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha até junto ao tabelado.(…) Em volta, de pé, encostados aos pilares vermelhos que sustêm a galeria, estavam os homens(…) O gaz sufocava, vibrando cruamente naquela sala clara, de um tom desmaiado de canários, raiada de reflexos de espelhos”… 

 

E também se recorda aqui o início e estratos do primeiro capítulo de “A Tragédia da Rua das Flores”: 

“Era no Teatro da Trindade, representava-se o Barba Azul (…) O segundo ato terminava: o regente aos pulinhos, brandia a batuta; os arcos das rabecas subiam, desciam, com um movimento de serras apressadas: agudezas de flautins sibilavam; e o bombo, de pé, de óculos, com o lenço tabaqueiro deitado sobre o ombro, atirava baquetadas na pele do tambor, com uma mansidão sonolenta.” 

Mas voltaremos ao Trindade! 


DUARTE IVO CRUZ 

A TRADIÇÃO DE TEATROS EM VILA REAL

 

Vila Real de Trás os Montes conservou, desenvolveu e renovou uma tradição de edifícios de espetáculo e atividades teatrais e musicais que vem, como vocação de espetáculo e ensino, pelo menos do século XIX: desde a construção, exploração e renovação de teatros, de que é exemplo e modelo de arquitetura moderna o recente Teatro Municipal, projeto do Arquiteto Filipe Oliveira Dias, inaugurado em 2004, até à tradição camiliana da estreia da peça “Agostinho de Ceuta” em 1846 - pois com o drama de Camilio inaugurou-se um então chamado Theatro de Vili Real, propriedade de João Pinto da Cunha, tio do escritor.

A gravura que até nós chegou deste velho Theatro oitocentista evoca uma eventual Igreja que antes lá terá existido: e não seria caso único no interior, então distante, do país.

Com efeito, assinala-se a existência de uma sucessão de Teatros em Vila Real. Fica a memória e documentação histórica de sucessivos edifícios vocacionados para o espetáculo, seja teatral, seja musical, como dissemos e adiante melhor veremos, e isto antes e depois do cinema. Cite-se designadamente, além dos referidos, um Teatro Avenida e um Cine-Teatro Real.

Em qualquer caso, a inauguração do atual Teatro de Vila Real, datada como vimos de 2004, assinalou a tradição camiliana através de um painel de cerâmica da autoria de João Botelho. Camilo viveu alguns anos em Vila Real, onde se fixou aos 10 anos, e lá casou em 1846 com Joaquina Pereira. E em 1851 escreve “O Lobisomem”, comédia de costumes “passada na Província de Entre Douro e Minho”.
 

O Teatro ostenta ainda uma escultura de João Rodrigues, num espaço teatral complexo, que abrange uma sucessão de salas de espetáculo, a partir do conjunto do Grande Auditório e do Auditório Exterior os quais, quando ligados, representam algo como cerca de 1200 lugares, o que é de fato notável.
 

E mais: o Teatro comporta ainda o chamado Pequeno Auditório, com lotação de 150 lugares, a que acresce um denominado Café Concerto com lotação de 80 lugares, uma Galeria-Bar com 50 lugares e ainda uma sala de ensaios e uma área museológica onde se instalou o chamado Museu da Imagem e do Som. Isto, além das instalações de cena, os camarins e o fosso de orquestra amovível.
 

É realmente assinalável, num edifício teatral-musical: e tenha-se presente ainda a própria integração geo-cultural, que se estende a toda a região e tanto em Portugal como em Espanha. Daí, a notável programação do Teatro de Vila Real.
 

Ora bem: dentro desta linha de construção/requalificação/adaptação de edifícios vocacionados, antes ou agora, para o espetáculo e formação cultural, há que referir o que se passou com o Conservatório Regional de Música de Vila Real: até porque não se exclui a ligação direta ao camiliano “Agostinho de Ceuta” acima referido. Na verdade, segundo o Arquiteto Belém Lima, autor do projeto, o Conservatório terá herdado a localização e parte da edificação do antigo Convento de São Domingos, que vem dos séculos XVI/XVIII e que foi sucessivamente hospital, quartel, hospedaria, e edifício de espetáculos teatrais e musicais.


Trata-se de um projeto em que a vocação e a modernidade não prejudicam, antes pelo contrário, a linha tradicional do edifício e sobretudo a sua funcionalidade artística: insista-se – antes pelo contrário!  


DUARTE IVO CRUZ 

O CAPITÓLIO RENOVADO

 

Justifica-se esta nova  referência ao Capitólio, que há pouco mais de um ano já aqui foi analisado: e justifica-se porque o Cinema e Teatro Capitólio reabriu ao público, no final de novembro último, numa expressão arquitetónica que, em boa hora, mantém a fachada imponente de Cristino da Silva – mas, desde já se diga, profundamente alterado  no interior, na sequência aliás de mudanças e “atualizações”, chamemos-lhes assim, presumivelmente motivadas por finalidades de rentabilização da sala de espetáculos.

Como veremos adiante, a sala chegou a ter frisas e camarotes, há muito desaparecidos mas que amplamente se adequavam e justificavam no projeto original, este de 1925, tendo o edifício sido inaugurado em 1931.  

Não deixa de ostentar a expressão epocal do conjunto do edifício, a partir, insista-se, da fachada em si, com a sequência de janelões destacados e com o nome dominante na vertical. Mas as paredes laterais são hoje envidraçadas de alto a baixo, protegidas do exterior por cortinados negros, que quando encerrados isolam a sala, mas permitem, quando não encerrados, a observação do exterior. Quando lá estivemos, no primeiro dia de reabertura recente ao público, havia “espetadores” que, do lateral do edifício, espreitavam a sala e o palco…

E precisamente, o que até hoje singulariza o Capitólio é essa fachada dominada por uma coluna central, a que já chamamos torre e que, em boa hora conservada, marca um estilo epocal adequado e de excelente qualidade arquitetónica. Isso é reconhecido pelos maiores especialistas, tal como já aqui referimos em citações extensas que agora resumimos: “rutura enunciando as grandes questões da mudança que se operava na arquitetura portuguesa” (Ana Tostões), que o considera “um programa inédito”; “um dos primeiros exemplares da arquitetura modernista edificados em Portugal”( Sandra Leandro), “verdadeiro acontecimento arquitetónico que marca o início da arquitetura modernista em Portugal” (José Manuel Fernandes).

E acrescentamos agora referências antes não transcritas.

Margarida Acciuoli em “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano do Século XX”, historia e analisa todo o processo urbano e arquitetónico de construção do Capitólio no contexto do próprio Parque Mayer, a partir de 1920, na sequência da morte de Adolfo de Lima Mayer, proprietário do edifício onde se instalou a Embaixada de Espanha e dos jardins circundantes, que deram origem ao Parque  e à sucessão de teatros e cinemas que  foram sucessivamente construídos, o Teatro Maria Vitória, o Teatro Variedades e o Teatro ABC. Isto para além, acrescente-se, de instalações e áreas de recreio que iam desde um ringue de patinagem até edifícios onde se praticava a luta livre, e ainda numerosos restaurantes e até uma instalação de venda de livros…

E recorda que ainda nos anos 30 o Capitólio é modificado com a introdução de frisas em 1932 e de camarotes (depois suprimidos) em 1935. De qualquer maneira, sempre manteve a sua estrutura interna polivalente de teatro, cinema e, no terraço, ao ar livre, um recinto cinematográfico, o Terraço do Capitólio. Margarida Acciuoli detalha a modernidade do edifício:

“No interior, a tão celebrada circulação ascendente feita por um tapete rolante de madeira, que era então uma novidade absoluta em Lisboa, conduzia o público a um átrio de acesso à esplanada onde se tinham colocado espelhos deformantes que remetiam para a ilusão que o cinema oferecia; e no exterior o uso da iluminação, através de um pano envidraçado que sublinhava a fachada elevando-se como um «farol» chamava a atenção dos transeuntes e reorganizava a perceção, transpondo o sentido do cinema para a forma e estrutura do edifício”.

 Por meu lado, escrevi que “o Capitólio define um estilo. Arquitetonicamente e não obstante as sucessivas alterações, o Capitólio marca efetivamente uma expressão inovadora por exemplo na fachada dominada pela coluna ou torre central, que aparece recorrentemente em outros edifícios de teatro, e por semelhança no hoje arruinado Teatro Rosa Damasceno de Santarém” - que já aqui evocamos e descrevemos.

Ora bem: o Capitólio alcançou de certo modo a sua mais vasta e significativa expressão cultural de teatro e espetáculo quando, de 1968 a 1970, acolheu a Empresa Rey Colaço – Robles Monteiro, transformando-se assim em Teatro Nacional, na sequência dos dois incêndios que, em 1964 e 1967, destruíram o Teatro D. Maria II e o Teatro Avenida.

Num livro muito recente, Joana d’Eça Leal evoca as grandes linhas do repertório que Amélia Rey Colaço levou para o Capitólio, nos anos em que funcionou como Teatro Nacional: 

“Entre 1968 e 1970 a companhia continuaria a tentar manter-se à altura do seu nome, apresentando Pirandello, Garrett, e estreando vários textos de autores portugueses como «Os Visigodos» de Jaime Salazar Sampaio, «A Esfera Facetada» de Nuno Moniz Pereira, «O Cravo Espanhol» de Romeu Correia ou ainda «O Pecado de João Agonia» de Bernardo Santareno. Estes contrastavam com os ligeiros «O Segundo Tiro» de Robert Thomas, «Tchau» de Sauvajon, ou «A Celestina», um dos papéis de Amélia Rey Colaço que a própria considerava mais conseguidos.» E acrescenta que “a companhia teria, talvez de forma inesperada, um enorme sucesso neste período, com «Tango» do polaco Slawomir Mrozek, estreado em 29 de novembro de 1968”.

Para terminar: encerrei o artigo da rubrica Teatros do ano passado, com esta frase final: “vamos ver como ficará o Teatro Capitólio”. Ora está agora à vista. E há que elogiar a salvaguarda da fachada e a extensão do palco. Já as laterais em vidro me parecem questionáveis.

E vamos ver que acréscimo cultural comportará.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

BIBLIOGRAFIA  CITADA - Tostões, Ana – “Arquitetura Moderna Portuguesa- Os Três Modos”  ed. MC-IPPA 2003; Fernandes, José Manuel – “Cinemas de Portugal” ed. INAPA 1995; Acciaiuoli, Margarida – “Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno Urbano do Século XX” – ed. Bizâncio 2012; Cruz, Duarte Ivo – “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura”- ed. Mediatexto e CNC 2004; Leal, Joana dEça – “Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro” ed.INCM 2016. 

Cine-Teatro S. João de Palmela

 

Projetos, transformações, qualidade

Começo por esclarecer o título desta crónica, pois em rigor o edifício e Centro Cultural que aqui analisamos intitula-se Cine-Teatro S. João: e dá gosto ver o equipamento cinematográfico que o valoriza e aperceber a modernização que comportou como tal. Mas pretende-se aqui realçar a função cultural que, através da Câmara Municipal de Palmela, se desenvolve neste belo edifício de espetáculos que, desde o início dos anos 50 do seculo passado marca a cidade e marca a vida cultural de toda a zona e do País: no plano de espetáculos, insta-se, mas, desde já o dizemos, no plano da cultura.

É que o Cine-Teatro São João, municipalizado desde 1989 depois de quase uma década de inatividade, e antes que fosse demolido – como tanto ocorreu por esse país fora, nestes grandes edifícios situados em zonas urbanas valorizadas - funciona como centro de espetáculos e centro de formação musical e cultural, devidamente restaurado e arquitetonicamente e tecnicamente valorizado.

O que se conseguiu a partir, repita-se, da municipalização e da transformação do Teatro em centro musical mas também num verdadeiro Conservatório. E tenha-se presente dois aspetos relevantes de política local: por um lado, o desenvolvimento urbano e de infraestruturas, designadamente de comunicação, poderia ter conduzido, como tanto se verificou aliás por esses pais fora, à demolição do próprio edifício: Palmela dos anos 40/50 representava uma decentralização e distanciação relativamente a Lisboa, que hoje já não se verifica. Daí, o mérito da construção do Cine-Teatro num centro de mais complexo acesso na época: mas também o mérito da sua conservação, recuperação e manutenção urbana e cultural, hoje que (felizmente) é muito mais fácil ir e vir de Lisboa a Palmela do que na época de construção e inauguração.

Nesse aspeto, mais se justifica um certo “histórico” de infraestrutura cultural que marca o município. Desde logo, de acordo com publicações da Câmara Municipal de Palmela, regista-se um projeto de Teatro datado de 1948, da autoria do Arquiteto Raul Rodrigues de Lima, que tanto temos encontrado nesta sequencia de artigos sobre teatros e cine-teatros. Não passou de projeto: mas já na altura se pensava na extensão do edifício para uma esplanada de espetáculos que aliás não foi posteriormente construída. (cfr. “Meio Século de Magia – Cine Teatro S. João” ed. Câmara Municipal de Palmela - 2002).

A ideia manteve-se e em 1949 é apresentado um novo projeto de Cine-Esplanada, com então se denominou, agora da autoria do Arquiteto alemão Willy Braun, autor também de outras salas de espetáculo (construídas ou não) em Portugal. Esta foi erguida segundo o projeto inicial. Regista-se também o nome de Humberto da Silva Carvalho como elemento dinamizador. E é de salientar designadamente os estuques de Manuel Marques Dias. A esplanada é que nunca foi construída.

Constituído foi pois o Cineteatro, a funcionar em pleno desde 26 de julho de 1952. É interessante registar que a inauguração estava prevista para uma semana antes, com a exibição de “A Garça e a Serpente” filme de Artur Duarte extraído do romance homónimo de Francisco Costa. Acabou por atrasar sete dias, e desde logo com um duplo evento: no dia 26 de julho o filme americano “As Aventuras de D. Juan”; e no dia seguinte “a alegre revista alemã Que Pernas que Ela Tem!” diz o cartaz reproduzido, com mais documentação no Boletim do Museu Municipal de Palmela (cfr. “Museu”- Maio-Outubro 2010).

O Cineteatro encerrou em 1981 e foi adquirido pelo Município em 1989, devidamente recuperado com um acrescento do palco e outras obras, e a funcionar gerido pela CMP desde 1991.

E nesse aspeto, há que realçar a rentabilidade cultural e pedagógica do edifício, que permite, além do mais, a exibição de orquestras sinfónicas. E mais ainda: no Cineteatro São João funcionam serviços ligados à gestão camarária da Cultura, à atividade docente artística e ainda espaços adequados a museologia.

Com tudo isto, mantém-se a beleza do edifício, marcado por uma varanda - torreão que, na sua originalidade, porque aplicada a uma sala de espetáculos, domina com grande qualidade arquitetónica e estilística o centro urbano de Palmela.

 

DUARTE IVO CRUZ 

Evocação dos Teatros de Ventura Terra nos 150 anos do seu nascimento

 

Já tivemos aqui ocasião de referir o Teatro Politeama, obra referencial do arquiteto Ventura Terra no que toca a edifícios de teatro. Importa agora, no âmbito das comemorações dos 150 anos do seu nascimento, recordar outros projetos e edifícios relacionados com o espetáculo teatral.

Realça-se então a própria estrutura e vocação arquitetónica em si, mesmo nos casos em que os projetos e edifícios de Ventura Terra foram, ou alterados (caso do Politeama) ou pura e simplesmente reaproveitados para outras atividades: e menos mal quando se matem a vocação cultural e patrimonial respetiva.

Veja-se então o Teatro Clube de Esposende. O projeto de Ventura Terra é de 1908, mas só decorridos alguns anos o teatro entrou em funcionamento. Vale a pena recordar que a esplendorosa fachada do Politeama data de 1912/13. E é interessante o cotejo entre os dois edifícios. Muito mais pequeno o de Esposende, ainda assim a fachada em arco de janelas, independentemente da dimensão indicia, nos arcos e varandas, uma expressão arquitetónica semelhante. Mas a função cultural - social de ambas as salas converge: e assumiu obvia maior representação urbana no Teatro Clube, pois é o único na cidade.

E importa ainda salientar a convergência estilística de ambas as fachadas, independentemente das dimensões de cada um dos edifícios e da função cultural que na origem desempenharam. Isto, sem querer obviamente comparar a relevância de cada uma das cidades… Mas é notável, isso sim, a iniciativa arquitetónica e, repita-se, cultural convergente: e grande diferença obviamente marcava o cotejo socioeconómico de Lisboa e de Esposende no início do século.

Tenha-se no entanto presente uma curiosa tradição de edifícios de espetáculo teatral na então vila piscatória de Esposende, anteriores portanto ao Teatro Clube de Ventura Terra. Com efeito, assinala-se a existência de um Teatro de Santo António, destruído por um incêndio em 1899.

E mais: segundo recorda Manuel Albino Penteado Neiva, há registo de atividades para-dramáticas na então vila piscatória de Esposende desde pelo menos o século XVIII (in “Esposende- Paginas de Memórias” – ed. CM Esposende - 1991). E por seu lado, Ivone Batista de Magalhães realça a decoração arte-nova da fachada, referindo em particular os balcões sobrepostos e as mísulas que suportam expressões de máscaras tradicionais na arte do teatro (in “Um Programa de Conservação Preventiva para o Museu Municipal de Esposende” – Universidade do Porto - 2002).

O Teatro Clube de Esposende teve um destino no mínimo insólito. No início dos anos 80 do século passado funcionava como armazém de uma empresa de têxteis e confeções: mas houve o mérito de conservar a fachada e os frisos de azulejos que Ventura Terra instalou no interior. Entretanto a Câmara Municipal adquiriu o edifício e instalou lá Museu Municipal, segundo projeto do arquiteto Bernardo Ferrão, garantindo assim a vocação cultural, e salvaguardando a traça exterior de Ventura Terra.

E esclareça-se ainda que a intervenção de Ventura Terra no património de salas de espetáculo não ficou por aqui. Para além do Politeama, há que registar a colaboração na recuperação do Teatro de São Carlos, como aliás também já vimos nesta série. E mais: participou nas Comissões que avaliaram os projetos do Teatro Circo de Braga e do Teatro São João do Porto.

E finalmente: é-lhe atribuída a recuperação do chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira, em Monção, imponente edifício contruído entre 1806 e 1834, segundo a traça de Carlos Amarante, e posteriormente restaurado e valorizado pela inclusão do Teatro.

Cito, a terminar, o que escrevi sobre este pequeno teatro, atribuído, repita-se, a trabalhos de Ventura Terra.

“O Teatrinho, algo como 50 lugares em suave declive, além de mostrar os interesses culturais do proprietário, revela ainda hoje, por conta de um restauro e conservação exemplares, uma harmonia e uma ambiência que se concilia com a funcionalidade do palco, não obstante as reduzidas dimensões. E acresce, a reprodução em telão da própria fachada do palácio”  (in “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed. Mediatexto e Centro Nacional de Cultura – 2008).

Um comentário final de enquadramento histórico:

José Augusto França refere “uma invenção mais parisiense” no “ecletismo” da obra e do estilo de Ventura Terra (e de Norte Jr., que já referimos nesta série – cfr. José Augusto França – “O Modernismo na Arte Portuguesa” ed. ICLP). No contexto do que acima se descreveu, essa intervenção modernista marca e valoriza sobremaneira, até hoje, o estilo urbano de tantas e tantas cidades, como, neste caso, Esposende.

 

DUARTE IVO CRUZ