Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEMÓRIA DO TEATRO DO SALITRE

 

O programa de visitas organizado pelo Centro Nacional de Cultura no eixo da Avenida da Liberdade justifica esta evocação do setecentista Teatro do Salitre, a certa altura (1858) também chamado Teatro das Variedades, o que desde logo define o seu âmbito de programação, mas também documenta a antecipação urbana e cultural que a sua construção e atividade representa relativamente ao eixo central urbano da Avenida da Liberdade e ao próprio Parque Mayer.

 

É interessante e oportuno por isso referir que o Teatro do Salitre, inaugurado em 27 de novembro de 1782 e demolido em 1879, logo no início das obras de implantação da Avenida, representou durante um século como que a antevisão do que viria a ser, ali mesmo, o Parque Mayer: curiosa antevisão,  insista-se,  de funções urbanas e culturais desta zona da cidade!

 

O Teatro do Salitre foi edificado por iniciativa de um negociante, de nome João Gomes Varela, que encomenda o projeto ao arquiteto Simão Caetano Nunes. Varela terá sido pois o primeiro empresário, diríamos hoje, do Parque Mayer. E para o espetáculo de estreia, é também contratado um equilibrista na altura muito prestigiado, Tersi de seu nome.

 

Mas quem mais marcou o Teatro do Salitre como cena referencial foi o ator António José de Paula que a partir de 1794 explorou o Teatro com um repertório notável para a época: inclusive, estreou em Portugal duas peças adaptadas de textos de Voltaire. E anos mais tarde, lá se instalaria uma companhia dirigida por Emile Doux, nome referencial no seu tempo e de certo modo ainda hoje.

 

Mas em 1840 o Teatro do Salitre estava em fase de decadência. Teófilo Braga, no seu estudo intitulado “Garrett e os Drama Românticos” (1905) transcreve um artigo onde se traça uma visão muito negativa do Teatro nessa época:

 

“O Teatro do Salitre era o único regular de Lisboa, e este mesmo, que mais se assemelhava a uma baiuca do que a um lugar de recreio público, só era frequentado pela classe ínfima da sociedade: ali, as graças mais obscenas eram unicamente aplaudidas, os ditos mais desonestos eram os que melhor soavam aquela plateia”…!

 

E mais adiante, na mesma obra, mas reportado a 1806: “o Teatro da Salitre tornou-se um asilo para os literatos pobres, assalariados para trucidarem a arte e a língua com traduções de dramas franceses”… (pág. 135).

 

A crise vinha pois de trás. E nesse sentido, Ana Isabel de Vasconcelos assinala agora   que “o Teatro do Salitre tem desde sempre sido referido como um parente pobre da arte dramática. (…) Já no fim do século XVIII, quando não havia atores em número suficiente, este teatro é preterido relativamente ao Condes, que se apropria da designação de teatro nacional”.  Mais refere ainda que “o Salitre tinha uma boa lotação – 900 espetadores em plateia, frisas e camarotes” (in “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” ed. MNT  2003 págs 30-31).

 

E é interessante recordar que quando Garrett, em 1836, elabora a sua reforma estrutural do teatro português, as duas salas dominantes de Lisboa – e do país inteiro,  em rigor -  eram precisamente o Teatro do Salitre e o Teatro da Rua dos Condes, sem referir, claro, o Real Teatro de São Carlos, esse inaugurado em 30 de junho de 1793 e vocacionado, como bem sabemos, para a música, para a ópera.

 

O teatro de D. Maria II seria inaugurado em 13 de abril de 1846. Pode referir-se também o pequeno Teatro das Laranjeiras, do Conde de Farrobo, inaugurado em 1825 e restaurado em 1842. O Teatro do Gymnasio data do mesmo ano de 1846. O Teatro da Trindade é de 1867, o Teatro Gil Vicente de Cascais de 1869, o Teatro Taborda de 1870... 

 

Mas recorde-se então que o Teatro São João do Porto é inaugurado em 13 de maio de 1798, e antes dele existiram Teatros em Lisboa, no Porto e um pouco por todo o país: de muitos deles temos falado aqui, e  desses e de outros voltaremos aqui a falar.

 

DUARTE IVO CRUZ 

O QUE RESTA DO EDEN?

 

A pergunta é pertinente, e mais se justifica no quadro das visitas que o Centro Nacional de Cultura está a efetuar no eixo urbano central de Lisboa, e designadamente na Avenida da Liberdade.

 

O que resta então do Eden? Sem dúvida apenas a fachada, tal como “sobreviveu” às sucessivas alterações/demolições deste notável Cine-Teatro que vinha do início do século passado, e que, durante décadas, manteve, em sucessivas adaptações e alterações, uma estrutura interna de espetáculo e de cultura, entretanto desaparecida: ao menos a fachada subsiste.

 

Evidentemente, há, neste processo, componentes e variantes que transcendem em si mesmas os critérios de conservação arquitetónica: mas no caso do Eden-Teatro e Cinema, amplamente se justificava essa conservação, desde logo pela qualidade arquitetónica, insista-se nela, mas também pela expressão urbana, social e cultural decorrente da tradição e da própria localização.

 

E não se diga que o eixo Rossio-Restauradores-Avenida de Liberdade merece hoje menos atenção e menos consideração. Os programas em curso do CNC são nesse aspeto extremamente relevantes.

 

O Eden, ou a área urbana que ocupa, começou por albergar uma sucessão de espaços de vocação de espetáculo, designadamente, de teatros mas também de cinemas, em edifícios provisórios desde o início do século passado. José Manuel Fernandes refere «uma sala de cinema “fim de século” (em 1918)» (in “Cinemas de Portugal” ed. INAPA 1995); Margarida Acciaiuoli por seu lado refere que «em 1928, uma vistoria da Inspeção Geral dos Teatros, empenhada na sua ação fiscalizadora, deteta anomalias no Eden-Teatro, um recinto  inaugurado em 25 de setembro de 1914, na Praça dos Restauradores, depois de três pareceres negativos que  consideravam a sala de teatro- cinema como “uma obra desastrada e perigosa”» (in “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano de Século XX” Bizâncio ed. 2012)”.

 

A primeira peça em 1914 foi “O Burro do Senhor Alcaide” de Gervásio Lobato. E refira-se que em 1911 tinha sido inaugurado no local, um pequeno cinema denominado Chantecler, integrado no antigo Eden e mais tarde “autonomizado” com a denominação de Cinema Restauradores. Como tal funcionou de 1935 a 1968.

 

O certo é que existiu no local uma tradição de recintos mais ou menos improvisados para espetáculos de teatro e/ou de cinema. E essa tradição ganha um registo consolidado em finais da década de 20 quando Cassiano Branco projeta e inicia as obras de construção deste ambicioso cine-teatro na Praça dos Restauradores.

 

Só que o projeto de Cassiano acaba por ser alterado logo na fase inicial dos trabalhos de construção. E de tal forma que, em 1931, o arquiteto desliga-se da empreitada, entretanto já em fase de iniciação no terreno. E as obras prosseguem sob a orientação e de acordo com projetos revistos pelo arquiteto Carlos Florêncio Dias, o qual, note-se bem, não renega mas adapta a traça original, com alterações tanto internas como na fachada mas sobretudo viabilizando a construção e assim salvando o investimento respetivo, que já era significativo…

 

Independentemente do contributo arquitetónico de cada um dos arquitetos, o que se deve enfatizar é a grandiosidade e a qualidade exterior do edifício, e a capacidade de adaptação do interior, face à necessidade de ajustar a estrutura da sala de espetáculos aos compromissos anteriores no que respeita à estrutura comercial pré-existente.

 

Ou por outras palavras: havia de conciliar um grande Cine-Teatro com os estabelecimentos comerciais já existentes na zona térrea do edifício, que deveria corresponder ao foyer de entrada e de acesso, isto, na fase de início da construção. E essa circunstância determinou uma estruturação interna do Cine-Teatro, designadamente na “deslocação” da plateia para uma área ao nível de um  primeiro balcão: e as frizas ao nível de camarotes. E a arquitetura interior de grandes salas de espetáculo da época mantinha a estrutura tradicional de frisas, camarotes, plateia e um ou dois balcões: assim foi pois com o Eden, mas à custa de uma estrutura complexa de acesso através de escadarias e elevadores.

 

Entretanto, a fachada valorizou sobremaneira a zona urbana, e conciliou-se totalmente com o estilo arquitetónico diferente do vizinho Palácio Foz. O friso de dez baixos relevos de Leopoldo de Almeida valorizou a fachada do Eden: mas a própria estrutura arquitetónica, com a sucessão de janelões, singularizou o projeto e valorizou também a Praça dos Restauradores.

 

E não obstante o Eden ter sido, ao longo de décadas, sobretudo cinema, não obsta a que lá se tenha produzido teatro de qualidade. E aí, evoco designadamente, a partir de um texto que na época publiquei, a realização de temporadas de teatro infantil e juvenil, que se conciliavam com a exploração cinematográfica dominante. Recordo a propósito a critica que escrevi em 1968, sobre uma peça infanto-juvenil de Norberto Ávila, “A Ilha do Rei Sono” encenada por Couto Viana, interpretada por Maria Albergaria, Maria Emilia Batista, Luis Cerqueira, Eduardo Silveira e outros, com cenários de Juan Sotulho: isto no Eden, aí realmente o Cine-Teatro que a designação da fachada ainda hoje mantém.

 

Mas desde 1993 que não é nem cinema nem teatro!

 

O que resta então do Eden?

 

DUARTE IVO CRUZ

OS DOIS TEATROS SÁ DA BANDEIRA

 

É interessante constatar e existência de dois Teatros homónimos, separados por dezenas de anos e centenas de quilómetros, e ambos evocando um nome que não é propriamente uma grande referencia atual às artes cénicas. Referimo-nos aos Teatros Sá da Bandeira do Porto e de Santarém.

 

Realmente, não se diga que o nome de Sá da Bandeira contem hoje um significado especifico nas artes do teatro. E no entanto, os dois Teatros Sá da Bandeira que hoje aqui evocamos assumem função de relevo local e nacional.

 

O Teatro Sá da Bandeira do Porto é o herdeiro de sucessivas salas de espetáculo que, primeiro com o nome de Teatro(s) do Príncipe Real, marcaram a atividade cénica da cidade e mesmo, pode-se dizer, do país. Sousa Bastos, escrevendo em 1908, regista a existência, no local, de três sucessivos Teatros denominados do Príncipe Real: entende-se que a partir de 1910 a designação mudou. Mas em qualquer caso, estamos perante a mesma sala, ou melhor, perante a localização e a tradição de sucessivas salas de teatro, música e artes circenses, que no mesmo local marcam a vida sócio-cultural do Porto.

 

A primeira dessas salas não passava de um barracão de madeira vocacionado para o circo. Resistiu alguns anos, mas foi substituído por um edifício agora “de pedra e cal”, com 21 camarotes e 2 frisas. Este já servia alternadamente para companhias dramáticas, equestres e ginásticas. Passados anos foi de novo demolido para se fazer o que hoje existe” diz-nos então Sousa Bastos em 1908. Escusado será de referir que mudaria em breve de designação… 

 

E é com o nome de Teatro Sá da Bandeira que esta sala referencial do Porto mantem atividade tendo aliás beneficiado de sucessivas alterações e melhorias no interior.

 

Mais moderno é o Teatro Sá da Bandeira de Santarém, este inaugurado em 1924 e construído sobre as ruínas de um antigo hospital denominado João Afonso. A fachada ostentava um arco que fazia lembrar, dizem as crónicas, o politeama de Ventura Terra, esse inaugurado cerca de 10 anos antes. Vocacionado desde a origem para espetáculos de teatro e cinema, o Sá da Bandeira de Santarém funcionou numa primeira fase até cerca de 1977.

 

A Câmara Municipal adquire-o e a partir de 2000 inicia um vasto projeto de restauro orientado pelo arquiteto Alberto Mendonça Gamito.  E tem interesse assinalar que o interior sofre uma total remodelação. Pelo contrário, a fachada conserva muito da estrutura original, em arcos sucessivos encimados por uma varanda com elementos de art-deco.

 

Hoje o Teatro Sá da Bandeira de Santarém ostenta uma lotação de cerca de 200 lugares e, tal como já escrevemos, além da sala de espetáculos propriamente dita, alberga uma sala estúdio, um piano-bar, uma galeria e uma sala de convívio. Foi instalado um teto em gesso e a sala revestida por painéis de madeira. A teia foi aumentada, designadamente pela integração de um edifício contíguo.

 

Mas mais interessante: o Teatro recuperou vestígios do claustro do antigo hospital.

 

E tudo isto valoriza a cidade de Santarém.

 DUARTE IVO CRUZ

TEATRO CARLOS ALBERTO DO PORTO: FUNDAÇÃO, RECONSTRUÇÃO

 

Em 1897, Manuel da Silva Neves, empresário no Porto, toma a iniciativa de edificar o primeiro Teatro Carlos Alberto, inaugurado em 14 de outubro daquele ano com a opereta, hoje esquecida, denominada “O Diabo”. O Teatro tinha na época 252 lugares de plateia, 299 lugares de geral e ainda mais 500 lugares do que na altura se denominava galeria, isto, além de 32 camarotes, numa lotação total de mais de 1200 espetadores, o que é assinalável.

 

Não identificamos os autores da opereta, mas é de registar a iniciativa em si mesma, expressão de uma renovação do urbanismo de espetáculo, à época marcante em todo o país, e por maioria de razão numa cidade como o Porto.

 

Estaria ainda presente a lembrança do incêndio que, em 20 de março de 1888, destruiu o portuense Teatro Baquet, também durante um espetáculo de opereta, provocando algo como 120 mortos. Daí que este primeiro Carlos Alberto fosse construído ainda na memória da tragédia, mas também homenageando o Rei Carlos Alberto do Piemonte, que morreu exilado no Porto.

 

Este primeiro Teatro Carlos Alberto seria o que na época se denominava Teatro-Circo, com palco à italiana, como na época (e em rigor ainda hoje) se dizia, portanto preparado para espetáculos de teatro declamado, mas também com a versatilidade de transformação da plateia em pista de circo, o que desde logo eliminava o declive da sala.

 

Importa entretanto frisar que os sucessivos Teatros Carlos Alberto, que entretanto foram reconstruídos no local, mantêm a implantação e a estrutura do edifício, com alterações do interior e da fachada, mas sem grande mudanças da sala de espetáculos propriamente dita. Ainda assim, é de assinalar as alterações decorrentes da elevação da zona do palco e a reforma do átrio, bilheteiras e áreas de acesso do público. Mais relevante foi a supressão dos camarotes, ocorrida nos anos 30 do século passado, para maior adaptação ao cinema que, durante décadas dominou e exploração do Carlos Alberto: e bem sabemos que não foi o único…

 

Nesse sentido, assinalam-se duas grandes fases de transformação, ambas decorrentes da municipalização do então Cine-Teatro Carlos Alberto, ocorrida em 1993.

 

Desde logo a “transformação” em Auditório Municipal Carlos Alberto, assumindo uma mais vasta polivalência cultural.

 

Mas mais relevante terão sido as transformações e alterações decorrentes dos  investimentos e programas  no âmbito da celebração do “Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura”. O Teatro Carlos Alberto reabre então e retoma atividade como Teatro Nacional. Beneficia de obras de restauro e modernização, da autoria do Arquiteto Nuno Lacerda Lopes.

 

Assim, procede-se à renovação do foyer aberto, no sentido de uma maior ligação do público com a sala de espetáculos em si mesma. Procurou-se reforçar a complementaridade arquitetónica com a sala, através da utilização do vidro para maior acessibilidade das imagens vindas do palco. A sala ganhou também uma maior convertibilidade aos formatos de arena ou à italiana. O equipamento foi modernizado: e sobretudo, aumentou-se a rentabilização do interior do Teatro em função da potencialidade do espetáculo em si.

 

E procedeu-se a outras alterações significativas, sem com isso desvirtuar a tradição oitocentista do edifício.  A zona de produção é modernizada. A sala foi “transformada” em dois auditórios: o chamado Grande Auditório, com 374 lugares, e o chamado Pequeno Auditório, com 150 lugares. E mais: criou-se um anfiteatro ao ar livre, uma sala de exposições e uma chamada teatroteca.

 

E assim se “edificou” um Teatro Carlos Alberto bem moderno, sem destruir o Teatro Carlos Alberto que vem da tradição do século XIX! 

DUARTE IVO CRUZ 

EVOCAÇÃO DO TEATRO BALTAZAR DIAS DO FUNCHAL

 

 

O Funchal tem uma tradição assinalável de teatros e salas de espetáculo em geral, o que merece obviamente referência encomiástica: para além da qualidade urbana e da tradição cultural e arquitetónica em si mesma, há obviamente que ter presente a distância, durante séculos, a complexidade de acesso. 

 

Pois mesmo assim, encontramos na Madeira um património de espaços teatrais que inesperadamente guardam  memória de origens a partir do século XVII: um chamado Teatro Jesuíta referido em crónicas da rota da Índia e, mais concretamente, o Teatro Grande, edificado junto ao Palácio de São Lourenço a partir de 1776 e demolido em 1833, quando era o maior teatro português depois do São Carlos;  a chamada Comédia Velha que abre em 1780 e subsiste até 1829; uns episódicos Teatros chamados do Bom Gosto ( 1820-1838), Thalia e da Escola Lancasteriana, pelos anos 50 do século XIX:  ou um Teatro Esperança que durou de 1859 a  1915…  

 

Tudo isto desapareceu: mas não o atual Teatro Baltazar Dias do Funchal, inaugurado no dia 8 de março de 1888 depois de obras que duram cerca de 8 anos: iniciativa de um notável da época, o Conde do Canavial. E curiosamente, foi, desde a fundação, propriedade da Câmara Municipal, o que não era muito habitual na época. Teve entretanto diversas designações: Teatro D. Maria Pia na inauguração, Teatro Funchalense a partir da implantação de República, Teatro Manuel de Arriaga em 1917, por ocasião da morte do antigo Presidente da República, que fora eleito deputado pela Madeira não obstante ter nascido nos Açores, e finalmente, Teatro Baltazar Dias a partir de 1930  até hoje.  

 

Há dúvidas quanto à autoria do projeto. Ao que apuramos tentou-se adaptar a planta de um teatro de Hamburgo. Encomendou-se depois o projeto ao jovem arquiteto Tomás Augusto Soler, que morre antes de o concluir. Foi então executado por um engenheiro ido do Porto, de seu nome José Macedo de Araújo. Mas o que mais notabilizou o Teatro foram as decorações de Eugénio Cotrim e Luigi Manini, este até hoje um nome referencial. 

 

E como já tive ocasião de escrever, o Teatro Baltazar Dias mantem exemplarmente uma fidelidade arquitetónica e um envolvimento cultural e cívico, no centro do Funchal, que merece destaque. Inclusive pelo respeito com que se conservou, para alem da sala, o próprio equipamento de palco e um camarim chamado “da prima-dona” evocativo do ambiente romântico das divas e atrizes do seu tempo… 

 

E para terminar: quem era Baltazar Dias? Poeta cego, natural da Madeira, a sua obra dramática em grande parte perdeu-se. Chegaram até nós quatro peças: “Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno”, e os “Auto(s) de Santo Aleixo”, “de Santa Catarina” e “do Nascimento de Cristo”.

 

Mas chegou também até nós a íntegra de um alvará datado de 20 de fevereiro de 1537, pelo qual D. João III concede direitos de autor, diremos hoje, a Baltazar Dias “cego, da Ilha das Madeira (…) que tem feito algumas obras assim em prosa como em metro, as quais já foram vistas e aprovadas e algumas delas imprimidas (…) por ser homem  pobre e não ter outra indústria para viver por o carecimento de sua vista senão vender as ditas obras” pelo que, diz o Rei, “hei por bem e mando que nenhum imprimidor imprima as obras do dito Baltazar Dias, cego, que ele fizer assim em metro como em prosa, nem livreiro algum nem outra pessoa as venda sem sua licença”…  

 

E resta dizer que a “Tragédia do Marquês de Mântua”, representada a bordo das caravelas, deu origem ao extraordinário “Tchiloli ou História do Imperador Carloto Magno” obra referencial em São Tomé e Príncipe, como tive aliás ensejo de lá constatar.  

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DOS TEATROS DE TORRES NOVAS

 

No final do mês de maio, o Centro Nacional de Cultura organizou uma visita cultural ao Concelho de Torres Novas, que incluiu o mais importante e bem significativo património histórico, arquitetónico e artístico da região, abrangendo desde as ruinas romanas de Villa Cardilium às diversas Igrejas e ao Museu Municipal Carlos Reis, Museus, e ainda com referências e visita à tradição de edifícios de teatros e de cultura em geral.  

 

No que respeita ao teatro há a assinalar um historial de edifícios que marcaram períodos e estilos sucessivos de atividade e expressão arquitetónica, mas também, expresso ou implícito, um relacionamento com a criação do espetáculo teatral, em épocas e tradições não muito habituais em zonas do interior do país:  isso pelos edifícios em si mas também ou sobretudo pelo substrato cultural e profissional subjacente e constante desde o século XIX. E não só na sede do Concelho. 

 

Refira-se em particular a tradição dos sucessivos Teatros Virgínia que marcam, há mais de 150 anos, o património e a atividade cultural da região.  

 

De fato, assinala-se a construção, a partir de 1845, de um primeiro Teatro, na época designado Teatro União. Esteve desde a origem ligado à Câmara Municipal, que apoiou em 1842 a construção dessa sala original, iniciativa dos sócios fundadores de uma entidade de beneficência, o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré. Mas diz-nos Sousa Bastos, no sempre citável «Dicionário do Teatro Português» (1903) que “quando este (Montepio) deixe de existir, a Câmara tomará posse de tudo”. Assim foi. 

 

Tinha na origem frisas, 30 camarotes, para cima de 150 lugares de plateia, balcão e geral. E em 1895, passa a denominar-se Teatro Virgínia.  

 

Sousa Bastos explica a mudança de nome do Teatro. Trata-se de uma homenagem à atriz Virgínia, de seu nome completo Virgínia Dias da Silva, conhecida na época por atriz Virgínia simplesmente. Nasceu em 1850 em Torres Novas, faleceu em 1924, com uma brilhante carreira em Portugal e por duas vezes em tournées no Brasil. Integrou as companhias do D. Maria II e do Trindade, à época os teatros mais relevantes da cena portuguesa. 

 

Em 1956 é entretanto inaugurado em Torres Novas um novo Teatro Virgínia, projeto do arquiteto Fernando Schiapa de Campos. Representou-se, no espetáculo de estreia, ocorrido em outubro daquele ano, um sucesso bem da época – “As Meninas da Fonte da Bica” de Ramada Curto, pela Companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. 

 

“O Virgínia era uma tentativa de inovação e foi até publicado na progressiva revista «Arquitetura» como isso mesmo (…) com desenho moderno «contra» imitações do passado” diz-nos José Manuel Fernandes em “Cinemas de Portugal” (1995). 

 

 O Teatro desenvolve ao longo do meio século uma atividade assinalável: mas tal como sucedeu a tantos teatros do interior, foi entrando em decadência. 

 

Até que em 2005 o Teatro Virgínia reabre com um projeto de remodelação do Arquiteto Gonçalo Louro. Integra-se na qualidade e variedade epocal e arquitetónica do património do Conselho. 

 

E acresce que desse património arquitetónico e cultural e da visita do CNC fez parte o pequeno Teatro Maria Noémia, localizado na freguesia de Meia Via, nas proximidades da sede do Conselho e também gerido pela Câmara Municipal de Torres Novas.  

 

Trata-se de uma pequena sala, em edifício próprio, com lotação de cerca de 100 lugares dispostos em plateia e galeria superior. Foi construída nos anos 30 do século passado, por iniciativa de um comerciante local, Manuel António Fanha, que deu à sala o nome de uma neta então recém-nascida, precisamente Maria Noémia, que «recebeu» os visitantes através de um vídeo.  

 

A sala é recuperada a partir de 2005 e alberga um grupo teatral que se estreou há cerca de 10 anos e mantem atividade assinalável.  

 

E muito assinalável foi pois esta visita do Centro Nacional de Cultura, orientada por Anísio Franco, em que tive o gosto de colaborar no que respeita ao património teatral. 

 

DUARTE IVO CRUZ

VISITA DO CNC A DOIS TEATROS DO CHIADO

 

O TEATRO DE SÃO CARLOS E O TEATRO DA TRINDADE

 

Tive o gosto de colaborar nas visitas que, em dias sucessivos, o Centro Nacional de Cultura organizou aos dois Teatros históricos do Chiado: o Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro da Trindade.

 

Sabemos bem que nesta zona da cidade, onde aliás se situa o CNC, existe e em parte subsiste uma óbvia tradição de salas de espetáculo, designadamente os dois agora (re)visitados: e é desde já de realçar que um deles, o São Carlos, vem do século XVIII, e o outro, o Trindade, vem do século XIX.

 

E nesta perspetiva epocal poderemos aqui lembrar, como aliás fizemos durante a visita, outras grandes salas de espetáculo que ainda marcam, ou marcaram ao longo do seculo passado, esta zona da cidade. Foram várias: mas, para alem das citadas e visitadas, resta apenas, em plena atividade, o São Luis, a que haveremos de voltar. Infelizmente desapareceu o Cinema e Teatro Ginásio, que pelo menos, em boa hora, mantem a fachada: e também, noutro plano, desapareceu o Chiado Terrasse, onde ocasionalmente se fez teatro.

 

Quem desce o Chiado e sobe a Avenida da Liberdade, escontra o edifício, ou pelo menos a memória de salas de espetáculo de grande tradição, algumas ainda hoje de qualidade arquitetónica. Desde logo o Teatro de D. Maria II, seguindo-se na proximidade o Coliseu, o Teatro e Cinema Politeama, o desaparecido Odeon e os sucessivos Teatro(s) e Cinema(s) Condes: e também o edifício e a memória do Eden Teatro e Cinema.

 

Para baixo, ficariam os bem antigos Animatógrafo do Rossio e Olimpia, e mais para cima o Tivoli, o São Jorge e o conjunto em parte recuperado dos velhos Teatros do Parque Mayer, a que voltaremos: Capitólio, Variedades, Maria Vitória, ABC, esse desaparecido. E em zonas urbanas mais recentes, o Teatro Villaret e o Cinema e Teatro Monumental e alguns cinemas em áreas adjacentes.

 

Mas fixemo-nos então na visita que o CNC organizou nos passados dias 20 e 21 de maio ao Teatro de São Carlos e ao Teatro da Trindade.

 

Quanto ao Trindade, muito recentemente aqui o temos evocado. Destacou-se entretanto a visita detalhada ao palco e camarins, zonas menos conhecidas e que proporcionam, além de tudo, uma visão menos habitual da sala, quando olhada a partir do palco.

 

E quanto ao São Carlos? Desde logo há que referir a notável qualidade, até porque excecional mesmo em temos europeus: e dizemos “europeus” porque não faltam casos e memória de teatros da época que arderam ou, alguns até, que foram demolidos por essa Europa fora.

 

Ora o São Carlos é inaugurado em 30 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa. Trata-se de um exemplo curioso de intervenção privada, com o distanciamento que a época impõe. Na verdade, o Teatro foi iniciativa de Joaquim Pedro Quintela, Barão de Quintela e pai do Conde de Farrobo, este por sua vez ligado à exploração do então chamado Teatro da Rua dos Condes e também à construção do D. Maria II.

 

A sua elegante traça terá sido, ao que parece, inspirada no antigo Teatro Real São Carlos de Nápoles, destruído por incêndio (como habitualmente) em 13 de fevereiro de 1816. Familiar dos teatros italianos, José da Costa e Silva não copiou, como correntemente se diz, o São Carlos de Nápoles... Nesse tempo, todos os teatros se construíam de forma semelhante. (in "O Teatro Nacional de São Carlos" de Manuel Ivo Cruz, Edições Lello & Irmão, 1992, pág. 15-16)

 

Muito há a dizer sobre o Teatro de São Carlos. Mas por agora refira-se que o Teatro beneficiou de sucessivas alterações estruturais, desde logo aliás em 1796, três anos após a inauguração, com a construção do chamado salão nobre. Em 1897, procedeu-se a uma extensão da plateia.

 

No capítulo XIII de “O Primo Basílio” Eça refere figuras desenhadas do o charuto nas paredes à entrada da plateia. Em 1921 estreou-se lá a “Zilda” de Alfredo Cortez e em 1922 o “Mar Alto” de António Ferro. E podíamos multiplicar as evocações no teatro declamado mas sobretudo na ópera: recordo como mero exemplo o que foi a estreia em Portugal de Maria Calas!

 

O Teatro foi recuperado nos anos 40. E até hoje, é um dos mais belos teatros a nível europeu. A ele voltaremos.

 

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO FAIALENSE E A SOCIEDADE AMOR DA PÁTRIA

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES – III 

 

Nesta evocação de teatros dos Açores, que visitamos e referenciamos em livros sucessivos sobre o património português de arquitetura de espetáculo, referiremos hoje dois exemplos de boa arquitetura mas, sobretudo, de descentralização cultural, vinda de tempos e épocas em que deslocar uma companhia teatral ou uma orquestra para os Açores não era fácil. E o mesmo se dirá da própria projeção arquitetónica dos edifícios, alguns do século XIX, outros mais recentes: e muitos deles de qualidade indiscutível.

 

A cidade da Horta, no Faial, dá-nos pelo menos dois exemplos dessa qualidade e modernidade epocal e permanente.

 

O Teatro Faialense, na Horta, consagrou uma tradição que vem pelo menos de meados do século XIX, com a edificação, em 1856, de um entretanto desaparecido Teatro da União Faialense. Este seria demolido nos anos 10 do século passado, para edificação, no mesmo local, do Teatro Faialense.

 

Trata-se de um belo exemplar de arquitetura de teatro, sobretudo na estrutura, que se mantém, com camarotes que marcam, efetivamente um estilo e merecem uma conservação tantas e tantas vezes descurada… É certo que o camarote, como tal, pode dificultar a visão do palco e sobretudo do ecrã de cinema, nas salas que, a partir dos anos 20 do século XX, foram adaptadas à exploração cinematográfica, sofrendo adaptações, quando não a demolição pura e simples: não faltam exemplos.

 

 Porém, repetimos, do ponto de visita arquitetónico, as salas e edifícios mais antigos representam um fator de indiscutível qualidade.

 

A primeira vez que visitei o Teatro Faialense foi num período de menor atividade da sala. No que se refere ao historial recente, Márcia Dutra informa que o Teatro funcionou até 1980, tendo sido municipalizado e reaberto em 2003, e beneficiando de obras de restauro dirigidas pelo Arquiteto José Lamas, que manteve a estrutura do edifício e da própria sala.

 

 Mas houve uma intervenção global de restauro e modernização: tal como refere Márcia Dutra, o edifico “beneficiou de uma nova caixa de palco, um auditório e um centro de conferências” alem da renovação da infraestrutura de serviços. E mais: no teto da sala de espetáculos “exibe-se uma nova pintura contemporânea, alusiva à musica, do artista plástico açoriano Nuno da Câmara Pereira” (cfr. “Teatro Faialense” in “Portugal Património” ed. Circulo de Leitores  2006 –vol. X  pág. 40).

 

E nesta crónica dedicada a salas de espetáculo na Horta, é oportuno referir a Sociedade Amor da Pátria, inaugurada em 1934, e que aqui já evoquei, a propósito dos teatros e cineteatros do Arquiteto Norte Júnior: destaquei a fachada dominada por elementos decorativos e heráldicos, típicos de uma época e de uma estética e que, nesse aspeto, contrasta com a ortodoxia do Teatro Faialense.

 

Citei então uma referência de José Sarmento de Matos, a propósito do velho Cineteatro Carlos Manuel de Sintra, hoje Centro Cultural Olga Cadaval, também segundo projeto inicial de Norte Júnior: “neste seu desenho sintrense (Norte Júnior) não levou até às ultimas consequências a conjugação do espírito imaginativo com bom gosto que deixou bem vincado no magnífico edifício afim da Sociedade Amor da Pátria na Horta, Açores” (cfr. “Teatros em Portugal-Espaços e Arquitetura” ed. CNC e Mediatexto  2008 pág. 64).

 

O que só por si mostra a qualidade do património da cidade da Horta, na Ilha do Faial.

  

 

DUARTE IVO CRUZ 

TEATRO ANGRENSE

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES II 

 

Fazemos hoje uma referência ao Teatro Angrense, pois constitui ele também um belo exemplo, em plena atividade, do que chamamos a “geração” dos teatros oitocentistas, construídos ao longo do país e mesmo, como aqui se vê, nas zonas mais descentralizadas – mas nem por isso, evidentemente, menos relevantes no ponto de vista urbanístico, arquitetónico e cultural: geração definida e efetivada na sequência do garreteano Teatro de D. Maria II, inaugurado, como bem sabemos, em 1846.

 

E vem a propósito, então lembrar que Garrett e António Feliciano de Castilho, deixaram a sua marca específica nos Açores, onde estiveram, em épocas separadas, por razões e permanências diversas, ambas aliás algo episódicas – mas nem por isso, note-se bem, menos relevantes e significativas na cultura nacional e local.

 

Em qualquer caso, o que agora nos interessa é evocar a fundação e a permanência, em plena atividade deste Teatro Angrense, devidamente adaptado também ao espetáculo cinematográfico, modernizado no ponto de vista da atividade técnica e cultural, mas sem que isso implique a destruição da sala oitocentista: exemplo que, como temos aqui visto, não foi nem é acompanhado em tantos e tantos casos, por esse país fora… E nesse aspeto só há que elogiar a politica urbanística prosseguida em Angra do Heroísmo, que aliás lhe valeu ter sido classificada como Património Mundial da UNESCO.

 

O Teatro Angrense representa um belo exemplo dessa descentralização, acentuada pela insularidade, que à data da construção e inauguração, era ainda mais evidente. Trata-se, de facto, de um belo exemplo de arquitetura de espetáculo, inaugurado que foi em 22 de novembro de 1860. As notícias da época dão-nos conta de uma celebração que envolveu, além de representações dramáticas cindas de Lisboa, um concerto no salão nobre, a cargo da Banda do Regimento de Infantaria: celebração típica da época!…

 

O Teatro Angrense beneficiou de obras de remodelação funcional e arquitetónica, primeiro em 1926, posteriormente já na década de 80 do seculo passado, tendo sido entretanto municipalizado.

 

Ora, tal como já escrevi na sequencia de uma detalhada vista para a elaboração do livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA – 2005) e que posteriormente repeti,  o Teatro Angrense mantem-se com alterações aceitáveis numa estrutura original oitocentista que se conservou,  apesar de mudanças, como a do fosso da orquestra, que  mal se descobre.

 

E acrescente-se uma nota de história que valoriza o próprio teatro em si, pelo enquadramento urbano.

 

Em 1599 havia no local um armazém de depósito de fazenda e mais mercadorias vindas do Oriente. Num surto de peste que assolou a cidade, o armazém foi incendiado: entendeu-se, bem ou mal, que a epidemia tinha lá a sua origem…

 

Passados mais de dois séculos, constrói-se então o Teatro. E em qualquer caso, a sala “resistiu” às adaptações a cinema, e é notável no seu conjunto de balcão, frisas e camarotes.

 

Acrescente-se que essa estrutura basicamente inscreve-se na sequencia histórica de infraestruturas de cultura e de espetáculo que marcam os Açores, e que, na Ilha Terceira, ainda se concretiza hoje nos Centros Culturais de Angra do Heroísmo e de Praias da Vitória, ambos segundo projetos do arquiteto Miguel Cunha, autor ainda de um Centro Cultural na Graciosa.

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO MICAELENSE

micaelense.jpg

 

EVOCAÇÃO DE TEATROS DOS AÇORES I

 

Faremos aqui, tal como o título indica, algumas evocações dos principais teatros e cineteatros dos Açores, na perspetiva habitual da análise histórica e da situação atual. Como é costume, temos presente o enquadramento geográfico mas também cultural de cada um dos casos referidos. Ora, se essa abordagem se justifica em termos históricos de âmbito centralizado, mais se impõe na evocação, análise e descrição critica dos teatros-edifícios de zonas menos centrais por razões históricas e/ou geográficas.

 

Há que ter em conta, porem, que tal descentralização mais reforça o mérito da própria iniciativa de construção e funcionamento de edifícios teatrais, numa época em que não era obviamente fácil nem o acesso nem a garantia de exploração…

 

Ou por outras palavras: era mais fácil construir e rentabilizar, no ponto de vista económico, um teatro em Lisboa do que em São Miguel ou nas outras ilhas dos Açores, e na Madeira.

 

Ou não será? Estamos a referir designadamente os séculos XIX/XX e não remontamos por agora a épocas e cidades mais distantes: lembrando entretanto que já aqui evocamos desde os teatros romanos até a teatros portugueses mais antigos de África e do Brasil.

 

Sem ir tão longe no tempo e no espaço, lembramos hoje a tradição de teatros em São Miguel: e iremos recordar teatros mais ou menos históricos dos Açores e da Madeira. E vem a propósito então referir que, de acordo com estudos de José Leite de Vasconcelos, fazia-se já teatro popular nos Açores a partir do seculo XVI, com significativo incremento no século XVIII. (cfr. “Teatro Popular Português” vol. III).

 

Mas não vamos tão longe: o seculo XIX já é pródigo em teatros nos Açores e na Madeira. Especificamente, evocamos então um Teatro Micaelense, ou melhor, os Teatros Micaelense. Porque, de acordo com Helena Dias, começa a falar-se de um Teatro Micaelense em Ponta Delgada ainda antes de 1850. Castilho, que lá viveu de 1847 a 1850, terá sido um dos grandes entusiastas da construção. (cfr. Helena Dias in “Teatro Micaelense” ed. Ponta Delgada 2004).

 

Mas só em 1865 é aberto ao publico o primeiro Teatro Micaelense, situado em Ponta Delgada e construído a partir das ruinas de uma Igreja. O projeto inicial foi concebido pelos arquitetos Augusto Serra e Herculano Gomes Machado, que confiaram a decoração do interior aos cenógrafos Hercules Lambertini e Cândido Xavier.

 

A iconografia da época mostra-nos uma fachada clássica de 5 portas encimadas por cinco janelas do salão nobre. A sala à italiana tinha 16 frisas e 38 camarotes.

 

E para variar, transforma-se em cinema pelos anos 20 e arde em 9 de fevereiro de 1930! Destino corrente nos teatros portugueses!...

 

Até que em 31 de março de 1951 é inaugurado um novo Teatro Micaelense, a partir de um projeto de Raul Rodrigues de Lima. Encerra decorridos anos, reabre em 4 e setembro de 2004 depois de uma “modernização pacífica” da autoria de Manuel Salgado, que assim mesmo a classifica!...

auditório.jpg


DUARTE IVO CRUZ