Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEATRO VILLARET DE LISBOA

 

O Primeiro Teatro de Bolso em Portugal

 

Deve-se a Raul Solnado a construção e direção artística do primeiro chamado teatro de bolso do país, Teatro Villaret de seu nome, homenagem ao grande ator João Villaret (1913-1961) que ao longo de dezenas de anos desenvolveu uma longa e prestigiosa carreira de ator e encenador.

 

Mas, mais do que a homenagem em si, importa enfatizar a iniciativa: nos anos 60, investir num teatro que não fosse (ao menos!) cineteatro, constituía um atrevimento no ponto de vista socio-económico e até, de certo modo, no ponto de vista artístico e da própria exploração teatral, ainda extremamente condicionada na época. Não se põe em dúvida, note-se bem, o prestígio e a recetividade de Solnado.

 

Mas o teatro e os Teatros, na época, ainda envolviam um certo distanciamento junto do grande público, para quem a “ida ao teatro” representava não só uma abordagem do espetáculo em si, como uma expressão social. E sendo assim, a constituição, em 1963, de uma sociedade precisamente e rigorosamente denominada TEBO – Teatros de Bolso, e a sua concretização num espaço construído e vocacionado para garagem na cave de um prédio no centro de Lisboa, representa na época um ato de lúcida coragem artística e económica, digamos assim e dizemos bem…

 

A verdade é que, a partir dessa iniciativa, construíram-se ou adaptaram-se espaços para cinemas e teatros, incrustados nas caves de numerosos edifícios um pouco por todo o país.

 

O Teatro Villaret constitui assim um percursor/renovador da atividade de espetáculos em Portugal. O teatro e mesmo o cinema, na época exigiam uma tradição de larga escala, de forma a permitir, inclusive, uma exploração diferenciada no ponto de vista socio-económico. Basta lembrar a estrutura dos edifícios, inclusive os que não vinham da transição do século -  mesmo os construídos já para o cinema: integrados no centro das cidades, estruturados com áreas bem distintas de acesso interno e espetáculo: plateia, 1º balcão, 2º balcão – e isto, insiste-se, mesmo nos que foram já projetados e construídos como cinema. Porque, se formos veros edifícios mais antigos - e citamos entre numerosos exemplos, o São Luis, o Politeama, o Eden, o Odeon – ainda encontrávamos estruturas das salas respetivas com camarotes e mesmo frisas. E sendo assim – e assim era ainda nos anos 50/60! – a adaptação de um espaço “de garagem” a teatro, constituiu, insista-se, um percurso de relevante inovação arquitetónica e cultural.

 

Recorde-se que o Cinema São Jorge, inaugurado em 1950 mas projetado pelo menos desde 1946,/1947 segundo projeto de Fernando Silva e inaugurado em 1950, tinha quatro zonas de publico e de acesso – plateia, balcão de luxo, balcão central e balcão superior -  devidamente estruturadas e exploradas, mesmo que  ligadas entre si. E Não obstante, tal como refere Margarida Acciaiuoli, “com o cinema São Jorge a natureza das funções do recinto especifica-se e a sua estrutura é moldada pelas exigências do espetáculo e pela notoriedade da artéria onde se erigia.” (cfr. Margarida Acciuoli “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano do Século XX” Bizâncio ed. 2002 pag.182). E havemos de ver que também se fez teatro no Cinema Império, este inaugurado em 1952.  

 

Em qualquer caso, até pela sua implementação nas caves de um prédio, o Teatro Villaret foi um percursor de novas formas de espetáculo/publico, pela estrutura da sala, que aqui nos ocupa, mas também pela qualidade e inovação do programa desenvolvido por Raul Solnado, em peças que alternavam a comédia com expressões dramáticas muito diversas.  O projeto arquitetónico é de Trindade Chagas, a decoração de Daciano Costa, e refere-se também um estudo económico de Carlos Faustino.

 

Estreou com “O Impostor Geral”, grande espetáculo musicado por Jorge Costa Pinto a partir do “Impostor Geral”, clássico do Nicolau Gogol. Para alem da inovação estrutural – teatro “concentrado” numa plateia, no rés do chão de um edifício - o Villaret marcou desde início pela  pela qualidade dos espetáculos e pela modernidade dos repertórios.

 

Leonor Xavier recorda essa programação original: “Além das comédias e dos musicais a apresentar nas duas sessões da noite pela companhia titular dirigida por Raul Solnado, terá peças de teatro declamado feitas por outra companhia dirigida por Jacinto Ramos, às seis e meia da tarde nos dias de semana. Esta companhia de Teatro do Nosso Tempo, a estrear também em janeiro,  criou expectativa designadamente pelo regresso da atriz Maria Barroso, depois de dezasseis anos de ausência do palco”. (cfr. Leonor Xavier - “Raul Solnado – A Vida não se Perdeu” ed. Difusão Cultural,1991 pag.116).

 

Foi realmente um “regresso” inesperado e muito justamente aplaudido: e na mesma temporada, seria a notável estreia, em Portugal, da “Antígona” de Jean Anouilh.

 

E em boa hora, o Teatro Villaret continua em plena atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

Teatro Cine de Gouveia

 

Evocação dos Teatros de Gouveia, a propósito do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira


Assinala-se este ano o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira.
Nascido em Melo - Conselho de Gouveia, em 1916 e falecido em 1996, o que nos remete para a evocação também dos 20 anos da sua morte. Esta circunstância justificará uma evocação do imponente e hoje em plena atividade Teatro Cine de Gouveia, construído em 1942 e devidamente restaurado e requalificado no ano 2000.


Mas também devemos evocar, não só o grande escritor, dramaturgo episódico e teorizador da arte do teatro, que dá o nome à Biblioteca Municipal da cidade, e também a própria tradição de edifícios e atividade teatral de Gouveia.


E nesse aspeto, é interessante recordar, no seguimento destas crónicas, que a então interioríssima Gouveia do século XIX inaugurou o seu primeiro teatro em 1878, denominado Teatro Hermínio, iniciativa de uma então pujante Associação de Beneficência Popular. A obra foi dirigida por José Pinto de Sousa e o espetáculo de estreia esteve a cargo de uma companhia protagonizada pelo ator Francisco Taborda, então um nome primordial no teatro português como aqui temos dito.


Transcrevemos a propósito parte da referência que o sempre citável “Diccionário do Theatro Português” de Sousa Bastos dedica, em 1903, a este Teatro Hermínio de Gouveia: “Tem 13 camarotes, 20 cadeiras, 94 lugares de plateia e 111 de galeria.  (…) É lindamente iluminado a luz elétrica. (…) 

Ultimamente têm sido feitos grandes melhoramentos na sala havendo ao centro do arco do proscénio um escudo com o nome de Taborda”

Vejamos então o que se passou com o Teatro Cinema de Gouveia.
Foi inaugurado em 13 de novembro de 1942 com uma sucessão de espetáculos a cargo da Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro, na época, como bem sabemos, referencial (e de certo modo ainda hoje…) do meio teatral português. A companhia permaneceu três dias em sucessivos espetáculos, o que também é de assinalar. A lotação rondava os 350 lugares.


Mas sobretudo, impunha-se a imponência modernista do edifício, com galeria exterior e dupla fachada em que domina a própria designação programática de Teatro Cine numa coluna vertical em rotunda, a unir as duas fachadas, uma delas totalmente envidraçada: exemplo notável de arquitetura de espetáculo.

 

 

Vergílio Ferreira escreveu uma única peça, “Redenção”, que publicou em 1949 na revista “Vértice” mas que não inclui na sua bibliografia. Mesmo, assim, tal como noutro lugar já referi, é um texto com interesse, no conflito existencial do “poeta”, que se encerra na sua própria solidão angustiada e “hesitante” recusando a participação que os amigos lhe propõem para no final morrer no terror desse mesmo isolamento social.


É, repita-se, a sua única peça conhecida.


E no entanto, no livro intitulado “Pensar” (1992) Vergílio Ferreira traça uma longa e profunda análise sobre a arte do teatro, que aqui transcrevemos em parte:


“De todas as artes espetaculares a que o mais o é, é o teatro. Ela é por isso mesmo aquela de que mais normalmente se diz que é um «espetáculo». E de tudo o que se caracteriza por um grande efeito público se diz que é «espetacular» (…) Isso explica ainda porque é o teatro a forma de arte privilegiada para um tempo de ação revolucionária, um tempo em que, estando-se fora dele pela arte, está-se dentro dele pelo que de real e imediato há nesse estar em público de seres reais que são os atores” …


DUARTE IVO CRUZ

 

 

O Teatro Pax Julia de Beja


REVIVALISMO MOURISCO EM TEATROS DO ALENTEJO

Não se pretende neste artigo referir exaustivamente o conjunto de Teatros e Cineteatros do Alentejo, mas salientar, numa primeira abordagem que depois se irá especificando, a evocação de um chamado “estilo mourisco” em sucessivas salas de espetáculo da região, construídas a partir de finais do século XIX e em muitos casos ainda hoje em plena atividade. De tal forma que, repita-se, a algumas delas voltaremos com mais detalhe.

 

O mais significativo dessa linha arquitetónica será o Teatro Garcia de Resende, de Évora, já estudado nesta série: projeto do Arquiteto Silva Monteiro, datado de 1887, constituiu até hoje um dos grandes centros de cultura teatral da região. Mas também oportunamente referiremos por exemplo o Teatro Marques Duque de Mértola ou o Cine-Teatro Sousa Teles de Ourique, entre outros mais.

 

Hoje falaremos do Teatro Pax Julia de Beja, já pelo edifício em si, já pela própria trajetória funcional, cultural e arquitetónica e da relevância que sempre assumiu, em funções diferenciadas (e não pouco!...) mas sempre muito relevantes.

 

Com efeito, estamos neste caso perante a adaptação do antigo Hospício de Santo António, contíguo ao Convento da Conceição, ao qual pertencia quando foi contruído nos anos 20 do século passado. E é caso para dizer que o processo de intenções, no sentido de dotar Beja de um Teatro, vinha pelo menos de 1866, ano em que se começou a falar da necessidade de um teatro…

 

O edifício atual foi inaugurado em 1928. Em 1949 sofre obras profundas de atualização e reforça a atividade de exploração cinematográfica. Por essa altura, introduz-se um segundo balcão e procede-se à demolição das frisas e camarotes originais. Não é caso único por esse país fora: e em qualquer caso, funcionou como cinema até ao início dos anos 90.

 

Em 1994 a Câmara Municipal de Beja adquire o Cinema Pax Julia e um edifício vizinho, para reformulação da sala de espetáculos. Beneficiando de apoios do Ministério da Cultura, a Câmara procede então a uma vasto programa de obras de restauro, conduzidas segundo projeto da Arquiteta Maria Francisca Romão. E desde logo, no edifício contíguo, é instalada uma sala-estúdio que reforçou e de certo modo diversificou a atividade de espetáculos.

 

E talvez devido a esse prolongamento de vizinhança, o velho Teatro Pax Julia beneficia também de profundas alteações estruturais.

 

Desde logo, um segundo balcão, acrescentado nas obras de 1949, é suprimido, adequando melhor a sala, precisamente, a espetáculos de teatro e não de cinema. Ganha-se espaço para equipamentos técnicos e áreas de apoio ao espetáculo. E também a própria plateia é reduzida para maior conforto dos espetadores.

 

Desse modo, a lotação do Teatro reduz-se a 650 lugares: mas o termo “reduz-se”, num teatro, é força de expressão!

 

E fazemos ainda referência a dois Teatros que, na proximidade geográfica e cultural, assumem também, como o Pax Julia, evocação do estilo arquitetónico “mourisco”, digamos assim mesmo.

 

Desde logo, o Teatro Marques Duque, de Mértola, sala de pequenas dimensões, construída em 1913, restaurada pelos Arquitetos M. Andrade e Manuel Transmontano, hoje com menos de 170 lugares. E o Cine-Teatro Sousa Teles, de Ourique, este praticamente abandonado no princípio do século mas agora recuperado pelas Arquitetas Céu Oliveira Pinto e Luisa Biscaia, lotação de 183 lugares, com uma área e uma função museológica relevante.

 

Mas desses dois teatros falaremos em outra crónica.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

O Teatro Taborda, um sobrevivente

 


Em 31 de dezembro de 1870, inaugura-se em Lisboa, na Encosta do Castelo um teatro a que foi dado o nome de Teatro Taborda. Não será o único e não seria o último: já aqui falamos do Teatro   Taborda de Cernache do Bonjardim, e Sousa Bastos, no Dicionário de Teatro Português, escrevendo em 1908, assinala mais dois, em Oeiras e em Abrantes. Precisamente em Abrantes nasceu em 1846 o ator Francisco Taborda que lhes deu o nome – e Sousa Bastos não lhe poupa elogios: “incomparável, carater de ouro, artista sublime, joia mais preciosa do palco português, a mais veneranda relíquia da arte nacional”… nada menos! Viria a falecer em 1909.


O certo é que o Teatro Taborda corresponde ainda à geração de salas de espetáculo que, na sequência da fundação do Teatro D. Maria II em 1843, foi marcando zonas urbanas com especificidades e vida própria acentuada pelo local em que se insere.

O Teatro Taborda teve, ao longo de século e meio, uma atividade no mínimo irregular. Construído sobre antigas instalações conventuais cuja origem remontava ao século XVI, a iniciativa deveu-se a um grupo heterogéneo de “capitalistas”, chamemos-lhes assim, que constituíram uma chamada Sociedade Taborda, e encarregaram um arquiteto de renome da época, Domingos Parente da Silva, de elaborar e executar o projeto, enriquecendo-o, no que respeita ao espetáculo, com cenários de Rambois e Cinatti, recuperados do velho Teatro das Laranjeiras, entretanto destruído por um incêndio.

Fernando Midões, num texto livro sobre o Teatro Taborda, editado em 2006 pela Câmara Municipal de Lisboa, recorda com detalhe a inauguração, ocorrida, como vimos, em 31 de dezembro de 1870:

“A festa, muito à maneira da época, e devido à extensão do programa, durou até de madrugada. Iniciou-se com uma surpresa, a do «Hyno da Sociedade», oferta do Prof. Augusto de Carvalho ao que se seguiram:  declamações de poesia («A Sociedade aos seus Convidados» de José Inácio de Araújo, recitada por Jesuíno Chaves) o drama em três atos «O Mundo e o Claustro» de Thomaz Lino da Assumpção e duas comédias («A Gramática» e «O Claustro»)”.

Tudo isto entremeado por números musicais diversos: não admira que o espetáculo, segundo crónicas da época, tenha terminado de madrugada!

É interessante recordar, entretanto, que o edifício desde origem foi utilizado, como até hoje aliás, numa heterogeneidade de funções, desde restaurante a centro de convívio e estrutura de atividades sociais. A implantação num bairro histórico com uma magnífica vista panorâmica de Lisboa, pode prejudicar a exploração teatral propriamente dita, mas valoriza a rentabilidade social, digamos assim: foi e é também um restaurante desde há muitos anos. E essa estrutura diversificada permitiu a rentabilização do edifício e, repita-se, dura até hoje.

 O Teatro Taborda sobreviveu assim ao longo de dezenas de anos, mesmo sem grande projeção artística, numa exploração irregular que talvez se percebe melhor na perspetiva da expressão urbana da Lisboa, tal como se foi desenvolvendo ao longo do século XX, pelo menos no que respeita ao espetáculo teatral.

Sofreu obras de alteração interna a partir de 1909. Manteve-se numa exploração irregular, de que dão notícia placas evocativas de espetáculos e atividades designadamente da Academia de Recreio Artístico em 1924, ou da Banda da GNR em 1926.

 A CML adquire-o nos anos 60 mas a atividade manteve-se intermitente.  

Até que em boa hora é recuperado no início dos anos 90, através de projeto dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral, tendo recomeçado a laborar, depois das obras de recuperação, em 1 de junho de 1995. Instala-se lá, e mantém um programa de renovação, o Teatro da Garagem, companhia experimental, fundada em 1989 e até hoje dirigida por Carlos J. Pessoa.

O que queremos agora salientar é que o Teatro Taborda conserva a estrutura original, na harmonia arquitetónica e no ambiente dos pequenos teatros de bolso do século XIX, como ainda subsistem alguns, mas infelizmente poucos, através do país –  como temos vindo a  referir: plateia enquadrada por duas galerias, devidamente reformuladas e abertas mas mantendo a estrutura correspondente à arquitetura de frisas e camarotes que marcaram e marcam os grandes e os pequenos teatros da época, mesmo que  já não funcionem como tal…

 

DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO JOAQUIM DE ALMEIDA DO MONTIJO

 
A SALA E O ATOR 

 

Merece destaque esta convergência, pois representa em si mesma como que a homenagem bem merecida à tradição de arte e de espetáculo teatral, numa área urbana que, por esta via, muito se valorizou no aspeto cultural. E no entanto, é legítimo perguntar até que ponto a magnificência arquitetónica do Teatro Joaquim de Almeida do Montijo e a sua atividade constante, conduzem à memória do grande ator da transição dos séculos XIX/XX que dá o nome ao Teatro e a outras salas que o antecederam.

Com efeito, Joaquim de Almeida (1838-1921), nascido no Montijo, onde hoje se situa o Cinema Teatro que o invoca, deu nome a pelo menos três salas de espetáculo, e isto desde 1911. Escrevendo em 1908, Sousa Bastos já lhe elogia o prestígio e a versatilidade de forma que desde logo alude à ligação do nome a salas de Teatro: “Trabalhava hoje em D. Maria, amanhã no Rato; agora no Trindade, logo no Coliseu, duma vez no Ginásio, doutra na Rua dos Condes, e assim percorrendo todos os teatros de Lisboa, Porto, províncias, ilhas e Brasil (…) e sempre brilhantemente” (“Diccionário do Theatro Português” 1908).

Ora, vale a pena então referir que houve Teatro(s) Joaquim de Almeida em Lisboa, este situado no largo do Rato e demolido em 1930, mas sobretudo no Montijo, onde um recinto de madeira mais ou menos improvisado mas já denominado Teatro Joaquim de Almeida em 1911,  deu lugar, em 1957, ao Cinema Teatro Joaquim de Almeida, projeto original do arquiteto   Sérgio Gomes “com excelentes esculturas em friso de José Farinha e Martins Correia, representando as quatro artes do espetáculo e ainda, o Talento”, tal como noutro lado escrevi a propósito desta  sala de espetáculos. (cfr. “De Volta aos Teatros” Livraria Civilização Ed., 2008, pag.149)

E acrescente-se que no mesmo dia 20 de outubro de 1957,foi também inaugurado o Mercado Central do Montijo, projeto do arquiteto Paulo Cunha. Assinale-se uma certa convergência arquitetónica e urbanística entre estes dois grandes edifícios. Ambos apresentam uma fachada em pilastras, com um remate de varanda no Mercado e de uma cobertura que no Cinema, protege o acesso e completa-se na fachada lateral em curva.

Tal como escrevi no texto acima citado, “O Cinema Teatro correspondeu a uma definição urbana de certa transição na expansão da cidade. E revelou também uma mudança de hábitos do espetáculo. Foi construído no local da antiga Praça de Touros, na cerca e jardim de um convento. Mas a traça é bem característica de certo modernismo que perdurou até tarde”.

Ou, como escreveu José de Matos Cruz, “caracterizando-se como um belo exemplar da arquitetura civil do gosto modernista, este imóvel apresenta, a par da sua grandiosidade, uma fachada de linhas sóbrias, constituindo uma peça fundamental do património arquitetónico e cultural do Montijo” (in “Cinema e Teatro Joaquim de Almeida – Montijo e o Cinema” – Publicações D. Quixote e CM Montijo -2001 pag.27).

Em qualquer caso, importa referir que o Cinema Teatro Joaquim de Almeida inscreve-se também no seu historial, na própria evolução e significado do espetáculo teatral e cinematográfico, desde a época da inauguração.  Quem o inaugurou foi a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro: nisso integra-se bem na cronologia cultural/teatral. Mas rapidamente passa a concentrar-se no cinema. E nesse aspeto, a sala correspondia às exigências habituais naquele tempo: desde logo a lotação exagerada (1220 lugares), a separação em plateia, dois balcões e uma geral (terceiro balcão como então se dizia), um pequeno palco e um avantajado foyer, como também se dizia.

Netas condições, não é de estranhar que o Cinema Joaquim de Almeida tenha perdido a designação de Teatro e tenha encerrado em 1991. Em boa hora, porém, a Camara Municipal do Montijo adquire-o em 1999, e reinaugura-o em 2005, devidamente restaurado no exterior e reconstruído no interior. Desaparece o terceiro balcão, reduz-se a lotação a metade, alarga-se o palco.

E recupera-se a zona de circulação do público, agora valorizada por atividades de cultura e convívio: livraria, café-concerto, sala de música, galeria de exposições, espaço de conferências.


DUARTE IVO CRUZ

O TEATRO GIL VICENTE DE CASCAIS

  

 

MODELO DO AMBIENTE CÉNICO-ARQUITETÓNICO DO SÉCULO XIX

 

O Centro Nacional de Cultura realizou um “Passeio de Domingo” a Cascais, que incluiu alguns dos mais notáveis exemplos de património histórico e arquitetónico de expressão cultural e religiosa, designadamente a Igreja da Assunção, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, o Palácio da Cidadela, o Museu Condes de Castro Guimarães e o Teatro Gil Vicente. Dirigiu o conjunto da visita Anísio Franco, com quem partilhei a abordagem sobre o Teatro.

Ora, importa situar a construção do Teatro Gil Vicente no contexto global da Cascais histórica tendo em vista, no que respeita especificamente ao Teatro, alguns fatores que até hoje, o singularizam no contexto do património teatral português, perspetivado na abrangência da expressão: edifício e atividade cénica e cultural.

Trata-se, antes de mais, de um dos poucos “sobreviventes” em plena atividade daquilo a que chamo a geração dos teatros que, um pouco por todo o país, foram sendo contruídos na sequência da inauguração do Teatro de D. Maria II em Lisboa, no ano de 1843. Não restam muitos, como aliás aqui temos visto: e no caso presente, há que assinalar a conservação da arquitetura teatral da época e a respetiva rentabilidade cénica a artística.

Este Gil Vicente de Cascais data de 1869: Sousa Bastos, no “Diccionário do Theatro Português” (1909) evoca a inauguração, em 15 de agosto daquele ano, com um drama, “O Ermitão da Cabana” e uma comédia, “Matheus do Braço de Ferro”: programa habitual na época! E mais diz que que o Teatro foi construído por iniciativa algo inesperada de um capitão da marinha mercante e armador, de seu nome Manuel Rodrigues de Lima, no espaço urbano em que teria existido um pequeno teatro adaptado de um armazém.

Os trabalhos foram dirigidos por José Vicente Costa “carpinteiro de Caparide”, assim mesmo: e mais, acrescenta Sousa Bastos “o cenário (das peças da estreia) consta de três salas ricas, uma pobre, jardim, praça e mar, deve ser magnífico, pois foi ainda pintado por Rambois e Cinatti”, efetivamente grandes nomes da cena portuguesa da época.

Curiosamente, Sousa Bastos ainda esclarece que o Teatro já servia de sede da “Associação Humanitária Recreativa Cascaense com 4 secções: bombeiros voluntários, filarmónica, grupo dramático e sócios contribuintes”… Ora, passado mais de um século, manteve-se a ligação institucional aos Bombeiros de Cascais, entidade com a designação, a partir de 1942 de Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais.

Por seu lado, Ferreira de Andrade recorda que “pelo Gil Vicente passaram as maiores figuras do teatro de então”, citando grandes nomes da época: Vale, Beatriz Rente, Mercedes Blasco, Pereira da Silva… (cfr. “Cascais Vila da Corte” e “Monografia de Cascais”, ed. Câmara Municipal de Cascais). E ao mesmo tempo, o Gil Vicente acolhia récitas de amadores, animadas até pelo Rei D. Luís, que era espectador habitual: ”gostava de assistir aos espetáculos no Gil Vicente”, diz-nos Maria José Pinto Barreira de Sousa, que reproduz um longa conversa do Rei em 1878, recordando alguns desses espetáculos. No estudo referido são evocadas sucessivas temporadas de teatro até finais do século XIX. (cfr. “Cascais - 1900”, ed. INAPA, 2003)

Por meu lado, assinalei designadamente uma récita de 1895, dirigida por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e, em 1915, um facto pouco conhecido: a estreia de uma revista composta e cantada pelo então jovem Pedro de Freitas Branco (1896-1963) que tanto marcaria, como maestro, a história da música portuguesa. (cfr. “Teatros de Portugal”, ed. INAPA, 2006, pág. 36)

Mas é altura de passarmos a anos mais recentes.
Em 1965 Carlos Avilez inicia, no Teatro Gil Vicente, a atividade do Teatro Experimental de Cascais. E lá se conservou, na direção desta companhia referencial, até 1977. Note-se bem a expressão: “referencial” foi efetivamente o TEC que, ao longo de dezenas de anos, procedeu (e ainda procede, noutro teatro) a uma renovação da cultura e do meio teatral português, ao nível de repertório, ao nível de elencos e até do relacionamento do público com o teatro.

Importa ter presente que as versões/encenações de Carlos Avilez no TEC assumiram sempre uma expressão de modernidade, mesmo quando se trata de autores clássicos ou românticos, nacionais ou estrangeiros. Recordem-se alguns, entre tantos mais: Gil Vicente, António José da Silva, António Ribeiro Chiado, André Brun, Paço d’Arcos, Bernardo Santareno, Alice Vieira, Norberto Ávila, Shakespeare, Frederico Garcia Lorca, John Osborne, Arrabal, Jean Tardieu, Samuel Beckett, Jean Genet, Bertold Brecht e tantos mais…

Efetivamente, como noutro lado escrevi, o grande momento histórico do Gil Vicente de Cascais decorre nos anos 60 e 70 do século passado, com o Teatro Experimental de Cascais mas também com os Cursos Musicais de Verão da Costa do Sol. O TEC marca de facto uma época, formara um público e dezenas de artistas e, mais ainda, renovara um repertório e cria uma certa mentalidade - até hoje.

 

DUARTE IVO CRUZ

  

 

 

Evocação histórica dos dois Teatros de Faro (II) - O Teatro das Figuras

 

 

O TEATRO MUNICIPAL - TEATRO DAS FIGURAS

 

Vimos, em crónica anterior, o historial e a atividade do Teatro Lethes de Faro. Na sequência, referiremos hoje o Teatro Municipal de Faro, inaugurado em 2005 mas também conhecido por Teatro das Figuras, evocação de uma tradição urbana que vem do século XVIII: aliás, recorde-se que o Teatro Lethes surge em 1843, na adaptação de um edifício monástico que esse, começou a ser construído em 1599.

 

A expressão “Teatro das Figuras” decorre pois de uma construção de 1740, junto ao Solar da Horta do Ourives, cuja capela data daquele ano. O edifício ou o que dele resta denominava-se A Casa das Figuras pela decoração com figuras híbridas de pessoas e animais, numa alegoria insólita. Na mesma zona da cidade, assinala-se ainda o Solar de Veríssimo de Mendonça Manuel, também classificado.

 

 Mas vejamos A Casa das Figuras. Tânia Pereira descreve “os seres meio humanos e meio animalescos, quase antropomórficos, meio diabos e meio figuras jocosas, típicas do teatro barroco, uma feminina e outra masculina (que) marca no centro da imagem. O ser que encima a empena é um homem ou uma entidade, mas sem pernas. É ele o ser mais humano (…) Os outros são uma mistura de alegoria com zoologia. Entende-se uma ponta de ironia no conjunto que também olha para quem passa”. (in “A Horta do Ourives” - revista “Monumentos”, ed. DGMN, Março 2006, pág. 119).

 

Este conjunto arquitetónico (Teatro e Casa das Figuras) valoriza e caracteriza a zona central da cidade que para ali se prolongou. Com efeito, a traça setecentista do Solar harmoniza-se com a força arquitetónica e com a modernidade do Teatro, projeto final do arquiteto Gonçalo Byrne, numa implantação em H, alternando fachadas com zonas de janelões e contraste na implantação de paredes revestidas de pedra de tom amarelo, também notáveis na conciliação com a modernidade do conjunto do edifício e da área urbana.

 

A sala principal comporta 800 espectadores, com um fosso de orquestra para 70 executantes e uma estrutura cénica designadamente no palco, que permite, como tem sucedido ao longo da década, concertos de grande orquestra e ópera.

 

Esta proximidade e simultaneidade do Lethes e do Teatro Municipal devem ser devidamente realçadas. Tal como tive já ocasião de escrever, “a diferença de dimensões e lotação (do Teatro Municipal) relativamente ao Teatro Lethes, parece marcar uma certa vocação para cada uma destas salas, na medida em que o concerto sinfónico e a ópera, em geral exigem maior espaço e chamam mais público, até porque os espetáculos são em menor número para cada programa. Isto, com as exceções para ambos os lados, que bem se conhecem!” (in “Teatros em Portugal - Espaços e Arquitetura”, ed. Midiatexto, 2008, pág. 98).

 

 

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

Evocação histórica dos dois Teatros de Faro (I) - O Teatro Lethes

 

Tem interesse cotejar, no ponto de vista histórico e arquitetónico, as duas principais salas de espetáculo teatral de Faro, tanto pelos edifícios em si e na sua funcionalidade artística, como na perspetiva do que representa esse cotejo na própria evolução urbana, económica e cultural da cidade e do país.

 

E isto porque a existência e o historial de um teatro reflete diretamente e reciprocamente, as mudanças que entretanto vão decorrendo: neste caso através do cotejo e das implicações significativas dos dois Teatros de Faro, o Teatro Lethes e o Teatro Municipal, também chamado Teatro das Figuras.


O primeiro ocupa um edifício do século XVII, transformado em teatro no século XIX. O segundo foi inaugurado em 2005. Vejamos hoje o primeiro, e em próxima crónica o segundo.

 

O edifício do Teatro Lethes remonta pois ao século XVII e corresponde, com poucas alterações no exterior, ao antigo Colégio dos Jesuítas que se instalam na cidade em 1599. Lá se mantêm até 1769: e exatos 10 anos decorridos, o edifício retomou a sua vocação religiosa, abrigando a Ordem dos Carmelitas, até 1834. Ficou a tradição de um impressionante conjunto de talha entretanto desaparecida. E o exterior mantem fortes vestígios da traça original.

 

Mas em 1843 o edifício é adquirido por um médico italiano, Dr. Lázaro Doglioni, nascido em Veneza em 1778. Quis o destino que em 1804, embarcado a caminho de Inglaterra, Lázaro tenha naufragado ao largo do Cabo se São Vicente. Sobreviveu e fixou-se no Algarve. E nesse ano de 1843 adquire o Convento devoluto e inicia trabalhos de transformação/adaptação a Teatro. Para isso, contou com o apoio de um sobrinho também médico, Justino Comano, chegado a Faro em 1840.

 

O mais extraordinário é que o Teatro Lethes fica na família até 1951, tendo começado a funcionar também como cinema no início do século. Naquele ano, entretanto, é vendido à Cruz Vermelha. E manteve, não obstante o ciclo de transformações, o caráter arquitetónico exterior do Convento e a estrutura interior de sala de espetáculos dos séculos XVIII/ XIX, com a rede de camarotes adequada à dimensão da sala.

 

José Carlos Vilhena de Mesquita descreve as adaptações da antiga Igreja e Convento a sala de espetáculos. “No lugar do altar-mor ficava a Sala Verde do teatro e no coro da Igreja que se situava junto à frontaria, erigiu-se o respetivo palco” (in “O Teatro Lhetes”, 1988, pág. 24).

 

No início do século passado fazem-se novas adaptações, com intervenção de José Filipe Porfírio. Mas, tal como refere Paulo de Almeida Fernandes no “Portugal Património” que temos aqui citado, “o teto é a parcela mais importante do sistema decorativo: sob um cenário celestial exibem-se quatro figuras mitológicas (duas masculinas e duas femininas) a tocar flauta, clarinete, harpa e violoncelo, sob o regozijo de uma superior figura alada, que lhes lança coroas de louro em sinal de glória a aplauso”… (ed. Círculo de Leitores, vol. IX, 2008, pág. 322).

 

E assim perdura até hoje o Teatro Lethes: como noutro lado escrevi, “o aspeto continua a ser algo insólito, com a velha e poderosa fachada jesuíta encimada pela divisa Monet Obletanto e com a sala de traça romântica, frisa, três ordens de camarotes e uma belíssima alegoria à música no teto e na boca de cena” (in “Teatros de Portugal”, ed. Inapa, 2005, pág. 73).

 

Em próximo texto evocaremos o moderno Teatro Municipal de Faro, também conhecido por Teatro das Figuras.



DUARTE IVO CRUZ

 

 

Teatro Tivoli


Tivoli - Manifestações de renovação e internacionalização no espetáculo teatral

 

Vale a pena recordar, como início de evocação, as palavras de Raul Lino, autor do projeto arquitetónico, relativas à fundação e direção do Cinema e Teatro Tivoli, a partir da inauguração ocorrida em 30 de Novembro de 1924, num texto coligido por Diogo Lino Pimentel no Catálogo da Exposição Retrospetiva da Fundação Calouste Gulbenkian, em Outubro/Novembro de 1970:

 

Diz Raul Lino: «Levou mais de 4 anos a construir. (…) era grande a vontade de fazer alguma coisa de original na decoração interna e cheguei a propor uma decoração que principalmente consistia em uns ramalhetes de cerâmica policromada em grande relevo, de estilo moderno e cores muito vivas (…) mas não convenci o meu bom amigo; no entanto este pediu-me que me quisesse incumbir de organizar os seus programas, o que eu fiz durante 7 anos…». O “bom amigo” era Frederico de Lima Mayer. E efetivamente, de 1924 a 1931, Raul Lino dirigiu a atividade cinematográfica do Tivoli. Está agora em elaboração um livro-memorial da atividade do Tivoli, coordenado por Duarte de Lima Mayer, com um texto meu.

 

Efetivamente, há que referir a seletividade que, ao longo de décadas, o Tivoli sempre manteve. Escreveu José Manuel Fernandes que «era o cinema de referência para os setores “cultos” da cinefilia, desde o início (ilustrado na gravura de Vasco Regaleira), passando pelas “Terças-Feiras Clássicas» dos anos 1949-1950, em cujos programas descubro comentários “ao vivo” de Jorge de Sena e de Vitorino Nemésio, ou textos de José Augusto França». E acrescenta que o Tivoli, na exploração cinematográfica, «foi também popular: quem se esquece do mais de um ano de exibição da “Música no Coração?”» (in “Cinemas de Portugal”, ed. INAPA, 1995, págs. 32/33, com a gravura de Vasco Regaleira). 

 

Por seu lado, Margarida Acciaiuoli desenvolve a “conciliação” entre as funções de sala de teatro/sala de cinema, através daquilo que qualifica como uma «redefinição das funções do edifício» que faz com que «essas referências ao teatro transformaram-se em referências ao cinema». E refere as alterações introduzidas posteriormente (in “Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano do Século XX”, Bizâncio, ed. 2012 pág. 77)

 

Ora, o que quero agora sublinhar é a atividade teatral do Tivoli, em sucessivas temporadas ou em espetáculos avulso que, desde a inauguração marcaram a atividade cultural e fidelizaram o público. E isto, tanto em produções nacionais como em espetáculos de companhias estrangeiras, mas sempre, insista-se, numa perspetiva de renovação, mesmo a partir de textos clássicos.

 

Acrescente-se que estas referências não são exaustivas, pois o Tivoli acolheu ao longo dos vastos anos de atividade, numerosíssimas iniciativas ligadas ao teatro: isto, além da expressão musical, com participações de nomes como Stravinski, Rubinstein, Mennuhin, Kempff, Viana da Mota, Pedro de Freitas Branco, Silva Pereira, Ivo Cruz, Frederico de Freitas, Álvaro Cassuto, Tania Achot e tantos mais. 

 

Mas no teatro se assinala, desde logo em 1925, a estreia, no foier (como estão se dizia) do Tivoli, da companhia chamada de Teatro Novo, dirigida por António Ferro, que constitui de certo modo a primeira verdadeira iniciativa “experimental” da cena portuguesa, “importante no seu experimentalismo” escrevi na “História do Teatro Português” (Verbo Ed., 2001). Sobretudo, note-se, na expressão de uma dramaturgia então de vanguarda e, como tal, inesperada no meio teatral português.

 

O protagonista, na estreia, foi Joaquim de Oliveira, ator de destaque na época, e que recorda a experiência num livro de memórias precisamente intitulado “O Teatro Novo”. E num texto posterior, produzido para o boletim da então Sociedade de Autores e Compositores Teatrais Portugueses (hoje Sociedade Portuguesa de Autores) é perentório: «Lima Mayer facilitou tudo para que se levasse a efeito o Teatro Novo no salão ao correr da Avenida da Liberdade, consentindo até no esboroamento das paredes e teto»…

 

O evento é referido até hoje como expressão de renovação do meio teatral da época, em obras de Jorge de Sena, Luis Francisco Rebell, o Tomás Ribas ou eu próprio.

 

Ora bem: temos pois o Tivoli como sala de referência, alternando ou conciliando, a partir da exploração cinematográfica uma marca de seletividade em espetáculos de teatro português e estrangeiro. E nesse aspeto, destacamos as sucessivas temporadas da Comédie Française, a partir de 1959, com um repertório de qualidade, na base de dramaturgos franceses. Recorda-se Molière, Jean Giraudoux, Marcel Achard ou Henry de Monterlan. Em 1960 e 1962, Marcel Marceau apresentou-se em espetáculos a que chamou “Pantomimas de Bip”.

 

Estas temporadas sucessivas de Comédie Française assumiam a relevância que na época marcava, certamente mais do que hoje, as “relações teatrais” com a França…

 

Mas importa também salientar que, alternando com espetáculos “clássicos”, de Molière a Marivaux, foram apresentados, por vezes revelados, no Tivoli autores contemporâneos, a partir de produções notáveis - e posso recordá-las agora - da Comédie: a “Eletra” de Jean Giraudoux, o “Port Royal” de Monterland. E mais tarde, num intercâmbio com o Theatre du Vieux Colombier, “L’Otage” de Claudel. 

 

Registe-se que por um lado, a influência cultural francesa era na época de certo modo dominante, mas por outro lado as oportunidades de viagem, para um público interessado eram bem menores. O contacto, mesmo episódico, digamos assim, com o que de melhor de fazia em França valorizou durante anos as sucessivas temporadas.

 

E em 1972/1973 as chamadas “Galas Kersenty-Herber” retomaram essa linha de internacionalização a partir de espetáculos de grande qualidade a nível de repertório e elenco. O Tivoli marcou então novamente a atividade de espetáculos internacionais, num repertório de qualidade: Terence Frisby, Henry de Monterland, Peter Luke, Franciss Veber, Jean  Anhouil, Françoise Dorin, Barrillet e Grédy, Neil Simon entre muitos outros mais.

 

Mas não era só teatro francês. E o teatro brasileiro como é óbvio, assumiu, por todas as razões, uma relevância e um significado diferente.

 

Importa então agora referir que Cacilda Becker e a companhia que dirigiu durante anos, precisamente denominada Teatro Cacilda Becker, apresentou-se no Tivoli com o repertório de grande qualidade, até pelo que representa de cobertura de épocas estilos e estéticas teatrais. E mostra ainda a perenidade de peças-espetáculos que aparentemente poderiam ser consideradas de menor atualidade. A companhia fora fundada em 1958. E é de assinalar a heterogeneidade, digamos assim, do repertório. Vejamos:

 

“A Compadecida”, de Ariano Suassuna, e “Santa Marta Fabril SA” de Abílio Pereira de Almeida, peças referenciais do teatro brasileiro contemporâneo. Mas também a “Maria Stuart” de Schiller, “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas, “Pega Fogo” de Jules Renard e “Os Perigos da Pureza” de Hug Mills.

 

E recordem-se ainda mais dois espetáculos de companhias estrangeiras de prestígio e qualidade.

 

Desde logo, a Shakespeare Festival Company de Stratfor-on-Aven nos Shakespereanos “O Mercador de Veneza” e “Sonho de Uma Noite de Verão”, com Barabara Jefford e Ralph Richardson, nada menos. E em 1963, o Piraikon Theatron de Atenas com musicais da “Eletra” de Sófocles” e na “Medeia” de Eurípedes: notáveis espetáculos de teatro universal.

 

E entretanto, novamente o dizemos, o Tivoli acolheu numerosíssimos espetáculos de companhias portuguesas. Esperemos que recomece…!

 

DUARTE IVO CRUZ

Agosto 2016