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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Este ano fui às noites de Santo António procurar o cheiro das terras do meu país. Fui saudar o rosmaninho e a erva-pinheira, os manjericos, os funchos e todos os cheiros explicativos que a memória prendeu. Nada encontrei tão casto, tão idílico quanto a ideia paisagista e bucólica que tinha e que fazia o caminho inocente das tradições que nos amparavam as estações dos anos. O melhor mesmo seria, pensei para mim, que cada pedaço de terra celebrasse naquelas noites e a seu modo, as noites, numa virtude de livre concorrência até que de um justo equilíbrio do que por lá se passa, restasse para nós o imposto do consumo.

 

Afinal, há muito que o iate de recreio de Júlio Verne produziu mais impressão do que as Viagens Maravilhosas escritas pelo talento deste escritor.

 

Todos de um modo ou de outro, na procura – se procura houver - dos cheiros das terras do mundo, sempre entenderão e acreditarão que um ser possua génio, julgando, porém, dificílimo que por esse mesmo génio obtenha um barco que navegue.

 

Este ano fui às noites das aldeias do meu país; ufanei-me com o que pude, passei uma vista de olhos de estrangeira na fachada dos Jerónimos, frequentei o Chiado ladeado pelas casas dos milhões, aquelas mesmas que abrem portas para deixar sair os cinco cães de família de olhar vago e nostálgico como os dos donos. Todos, bichos e bichos homens, já procuraram remédios para a profunda tristeza que os tolhe nestes locais de mundo. Já usaram a erva-pinheira antes e depois das refeições. E nada.

 

Assim num Portugal muito longe do mundo me senti. Um Portugal de agradecimento que lhe não cabe ter me atordoou, ou não se soubesse que seu não é o turbante nem o selim que vão compondo o artefacto com o qual nunca em verdade se vestiu.

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

A resistência da palavra de António Alçada Baptista

 

Revi então toda a minha vida de homem casado com as suas mais pequenas experiências. Em primeiro lugar o casamento como um fim. Toda a construção do meu universo moral estava sujeita a este princípio: ou se vai para padre ou se casa. (…) mas o problema nunca foi o deixar de casar: a imposição do casamento exercia-se não só perante uma sexualidade que devia ser considerada, como pela impossibilidade de a viver fora do casamento. De certo modo, só nos interrogámos sobre a forma de viver o nosso casamento, nunca sobre a sua viabilidade.

 

Eu ainda fui educado a ouvir dizer que o «destino da mulher é ser esposa e mãe» e até demorei a reparar que isso é tão bizarro e inadequado como dizer que o «destino de um homem é ser esposo e pai».

 

António Alçada Baptista, in “O Tecido do outono” 1999, ed. Presença

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Um imenso ouvido

 

Descia a ruela de terra batida que ia dar ao pinhal dos medos. Normalmente cantarolava durante o percurso, ou não soubesse que assim o medo se confundia pelo descaramento provocativo ou encantatório de um qualquer cantar. Aí chegada, o perfume das pinhas esvaziava-me dos receios todos. Baixava-me, olhando fixamente para o meio das espigas agrupadas aos pares que se soltavam dos pinheiros, a fim de encontrar a pedra adequada ao partir dos pinhões. Depois, sentava-me no chão e ali fazia a refeição que me dava forças para não temer a chegada à saibreira dos cães.

 

Antes desta, eu tinha ainda de fazer um pequeno percurso, a que chamara o ainda-não-mundo. Era terra à semelhança de nada. Terra temida mesmo pelos agricultores locais: terra sem língua própria ou sequer revés.

 

Quase corria a fazer este caminho, mas sempre atenta aos cães da saibreira que me viessem fazer frente como já acontecera diversas vezes. E lá chegava ao local que sempre achei ser só de mim conhecido. E ali contava tudo. Dizia do pai da mãe, da avó, das criadas, das amigas, dos irmãos, do Tim-Tim, de Jesus, da vaca que parira, do formato das foices, dos poderes do pão sozinho face às brasas que o coziam, das cruzes desenhadas nas tampas dos fornos de pedra, dos queijos lá alto em cestos junto ao telhado das adegas, e só depois me atirava a falar da pura salvação ou da pura perda do mundo que entre as minhas mãos tinha uma ideia nítida entre princípios opostos.

 

Surgia-me então ao pensar um imenso ouvido. Devagar, uma realidade aos poucos e poucos revelava-se física e não fragmentada da Coisa que era poder e revelação. Peripécia de lógica que enfim me acalmava e me permitia fazer perguntas ao acesso à liberdade.

 

De olhos fechados prometia voltar a este imenso ouvido, tessitura que nunca me levara ou levaria do zero para o Nada.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho/Agosto 2017

NÓS

 

Houve um momento a partir do qual

Falar da morte

Se tornou algo dirigido à dimensão do mundo

Que vivo

E não tranquei a porta para que não ficasse vedado

Esse mistério

Apago as luzes

Sim

E faço deslizar o meu pente de marfim

Pelos cabelos

Faúlhas destinadas

Ao esclarecimento

À chave que decifrará

O que selado está

De jeito sensual, solene e secreto

Na ambiguidade do porvir

No imenso amor

Que te tenho

Vida

Que os teus olhos permanecem

No meu percurso ideal

E nem a urgência do perecer

Quando ela é

Ultrapassa a necessidade dos teus braços

Onde me quero

Nós

Sussurrados um no outro

Frémito de um significado

Total 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Enquanto a partilha de mundo é feita com muito menos caridade do que a feita por Deus segundo a balada de Schiller, alega-se que a humanização atinge glórias no nosso tempo. Falo daquela que por aí veem passar arrastada, a trote ou a galope ou em pose, consoante lhe propõe a selfie (photo you take of yourself com muita alegria e muita joy and others you may know) e desconhecendo a idade do tempo, a impaciência da fome e seus géneros.

 

As notícias negras de tudo o que aconteceu no dia anterior ou no exato momento, chegam-nos com o timbre de uma gutural água furtada, que pinga comoção e objetividade, em dose q.b. para não atrapalhar os poetas e comentadores de serviço e de função. E aí está o exclusivo que se quer oferecer a todos. O exclusivo sem procedência, mas proprietário de uma escola temente aos dias, não vá um dia não acordar igual ao outro e nascer desalmada, uma guerra do tira-olhos que para si não diligencie que os bonitos sempre dono têm na contenda disto tudo.

 

Enfim, no meiinho das mãos, no very deep inside da esmagadora maioria e de certas minorias, cada um de per si, como dizia um colega meu quando nada entendia do que lhe perguntavam, encontra uma petição de mercê e se não puder ser tanto, ao menos uma assinatura devota de gratidões, nesta crise entre a escola velha e a escola nova, quando os conteúdos de ambas se abraçam pelos ermos sucessos que festejam de si, Helas! num desgraciadamente promissor.

 

Aqui chegados, les gens, também conhecidos pelos hi people! continuam a partilhar mundo e nele o triunfo dos porcos, heróis de sentimentais melenas e gestos inspirados – o que não é muito fácil de realizar, cantando.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017

PERIVALDO LÚCIO DANTAS

Foi-se embora hoje de entre nós, impaciente de encontrar sua mãe lá num céu exclusivo onde a colocara desde sempre.

 

Mesmo mendigo nas ruas de Lisboa, convocou a vida e nela se sinistrou: «deixa a vida me levar que ela leva eu», cantarolava. E sempre dizia «vou morrer devagar, falamos mais tarde».

 

A palavra “solidão” franzia-lhe até as pupilas dos olhos num querer dizer “agora já sei”, e ligava como podia os encontros do tempo. Lúcio Dantas, de nome Perivaldo o que agarrava o esférico como quem doma o mistério. Perivaldo que tanto sofria com a solidão, deixou-nos sozinhos neste atoleiro.

 

PERIVALDO
 

A solidão é vagabunda no meu peito

E recorda-me de agulhão a vida feliz

Com minha mãe

Única visita na minha saudade

A porreta dona Antonieta

Plumazinha de tanta força

Que me ensinou que quando a coisa me assustasse

Enfrentar o fim

Não seria realidade que pudesse sequer atrasar

Antes jogar, driblar e levantar-me mesmo sem saber

Então, depois ou agora

Para onde quero ir

 

 

Teresa Bracinha Vieira

28.07.17

CRÓNICA DA CULTURA

 

A LINGUAGEM DE UM RIAD

 

Um chamamento provém do que propulsiona de um Riad para nós, para fora de si e para dentro do nosso momento a cada matiz que o vivemos.

 

É estranho, mas ali percebe-se a música do mar, bem como a do deserto envolvente. É um local de enigmas que conhece as estações da vida e sabe pensá-las fundamente. Uma exceção sensual habita ali perguntas fundamentais cujas respostas afinal só conhecíamos de indícios de outros poderosos mundos. O misterioso que se deixa perseguir num Riad protagoniza tudo o que mostra, ou, pelo menos reúne uma fantástica coleção de saberes o que expõe à nossa versão sem receio de se sentir mutilado.

 

Há algo muito forte num Riad e que paira entre nós e a nossa liberdade, ajuizando coisas por abraços convincentes que confidenciamos também por beijos e seios despertos.

 

Invocam-se caprichos da imaginação e o prestígio deste local aumenta-a num desejo nascente. Aqui a mulher é bela e fresca e senta-se no ângulo que melhor a vejam e vai até ao implausível, sobrepõe-se assim às do mundo externo. Os feitiços abalam, mas nunca sem antes se deixarem absorver o bastante.

 

Tudo é muito mudo na viagem de volta.

 

Uns dias mais tarde, uma lua no nosso quarto. Uma lua prateada leve, volteada em estrelas, livros, âncora: a linguagem de um Riad.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

ARTESÃOS

 

Assim como de entre o sol e a tempestade

Uma específica lente húmida

Extrai uma infinidade de cores

Do arco-íris

Assim as miragens de quem visualiza realidades

Do saber do ofício óptico da alma

Prisma único

Que tudo entusiasma

Em proporções tais

Que fortemente

Lembra delírios

De verdade

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

O PODER DA MEDINA

 

Foi quando, movida pela irracionalidade, avancei a correr atrás do homem que vendia punhais. Em segundos olhei para todos os lados e vi todos e ninguém. A pesada porta do silêncio perdido avançava para mim e nem tentei uma entrada precária pela blindada fresta luzidia dos pregos de metal. Fatalmente o poder da Medina seduzia-me e apavorava-me e encarcerava-me. Estava perdida à porta de uma porta. Num instante sorvera o discorrer para dentro do senso das especiarias; voava num tapete até ao sensual local dos banhos de rosas argalistas. Desconhecia porventura o destino do jogo que jogava impotente, entregue ou não, não sabia. O tempo não existia, mas antes um poder sábio, hierárquico, precedente à noção.

 

O que vivia em segundos era um movimento não isento de passividade, nem de agressividade, era algo que se revelava numa explosão de sons e cheiros e movimentos do mundo da morte e do mundo da vida.

 

Os dentes enormes do homem do punhal sorriram-me num excesso, assediando-me com preços obstinados, perguntando-me, impacientemente, quanto ofereceria eu por dois deles. Então, naquilo que senti como sendo a penumbra de um hemiciclo, fez-se luz, de súbito. A multidão abrira espaço, era uma possibilidade-limite e o teu olhar ali tão perto dos meus olhos agora, e já a memória em mim dispunha daquela liberdade separada que me envolvera no perder-me no poder da Medina.

 

Local sem corpo, local informe e todo ele torneado. Local pensante de uma inteligência infalível. Local sem escolhas livres e no entanto frémito, emoção, afeto todo ele muito além da simples vontade de o pensar.

 

O poder da Medina prende-nos às essências dos mundos e a trança que nele nos enrola e nos perde é um antigo comportamento em nós.

 

Sob um calor que nos desencaminha, o vai-vem de uma passagem recomendava que uma distância prudente fosse preservada. No entanto, os números e símbolos e cheiros, destinados a permanecerem vedados, permanecerão sempre em densos mistérios que não nos serão dados a conhecer. E no entanto, também ali, nós e o nosso princípio, como se pedra e pássaro e beijo e caos e incitação num balanço de opostas forças nos segurasse numa estranha mistura de tempos do sentir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 24.6.2017

PERGUNTA

 

Ao longe o encontro

Com a ilha escarpada

Sob um céu de presságio

Aguardava-me em jeito de chamamento.

E mal olhei para o disco do sol

Um cobre fundente descrevia-me

A rua dos heróis antigos.

Tentei atravessar o enigma

E abraçar a violenta e vã esperança

Na qual retomara sozinha o meu percurso.

 

Quem era? Quem deveras queria o que ainda não cruzara?

O que procurava sem notícia?

E assim continuava esta longa jornada de chegar até mim.

 

Quando jovem superara muitos tons de fogo

E nunca mais sendo o que fora

Naquele fim de terra agora

Um outro eu

Aquele que na errância perseguia

O sentido do seu viver

Do seu tão longo caminhar

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 17