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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

A única forma que tenho de trabalhar os meus livros, é colocá-los, de quando em vez, arrumados nas minhas estantes, encontrando-lhes fundamento e afeto e cumplicidades nessas arrumações. Desta feita dei comigo a colocar ao lado do Alçada, não só o Alexandre como o grande Borges, bem como a Yourcenar, e encostado às Peregrinações, o Régio, o Ruy Belo e o Manuel Bandeira. Desta vez envolvi-os assim. Pareceu-me que todos falavam bem entre si e que o triunfo sem perda seria o saberem extrapolar princípios e vastidões. Foi uma forma de colocar os crentes destes caminhos a dividirem o destino humano em boa disposição. Estas arrumações fazem-me muito bem, confesso, sobretudo porque lhes reconheço por antecipação a alegria do chão no caos que se seguirá – aquele caos que mal me deixa ver em cima da secretária o teclado onde escrevo. E enfim breve, breve chega afinal o momento dos livros arrumados descerem de novo à secretária e aos sofás e ao chão. Chegam das arribas tocados pela ideia de mundo, querendo-se amar uns aos outros, muito próximos fisicamente e espiritualmente apesar dos riscos.

 

Esta é a melhor gente do mundo, esta gente de desmedidos projetos de procura através de migalhas cósmicas que lhes desencadeiam custos e peripécias de luz…

 

E Mallarmé, onde te coloco? Ao lado de Kafka, Flaubert, Tolstoi, Celan, Torga e Comte-Sponville? Ah e Camões? Deus que isto é um universo inviável e que compromete a unidade! Digo para mim com um sorriso que convoca a ideia de relativismo que forma o meu mise en abyme no discorrer destas tardes de arrumações de livros. Também lhes peço a eles, ajuda em nome de todos os que retendo alguma coisa quando os leem, imaginam logo qualquer coisa saber: perigoso e desapiedado cesto de Pandora!

 

E assim ao fim de uns dias, um azul próprio do céu dos livros deixa-se ver em volta de um ponto invisível que me roda sempre a leitura e releitura dos mesmos. Mesmo quando começo a escrever, espreito esse ponto invisível porque o sei lá onde e aonde imprecisa é a vida e a morte.

 

E acontece-me de novo pegar num livro, sondá-lo, buli-lo, incitá-lo a desafiar-me o namoro e a partir da paixão já sem recato, que ele me permita frui-lo até onde eu o possa levar. Só por lá a fórmula da natureza humana.

 

E não me sinto estranha assim perdida, assim envolvida no trabalho de arrumar os livros entre os sensuais ecos das palavras dos filósofos que, insidiosamente, são sabedores da direcção do engenho por onde ando.
 

Teresa Bracinha Vieira

HOJE

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É o tempo em que uns dos outros nos faremos irmãos em plena diversidade.

 

É o tempo em que hora grácil responde ao silêncio opado.

 

É o tempo de dialogarmos com mãos-à-obra sobre a mais definitiva despedida de tudo o que rejeitamos.

 

É o tempo das malas estarem prontas para esta viagem.

 

É o tempo de partirmos para que vivamos ainda no presente o futuro que desejamos.

 

É o tempo dos alguéns se juntarem neste percurso e se se de justificação necessitarem, as palavras de António Variações:

 

   a culpa é da vontade!

 

ou, as de Duras:                               

 

   je ne peux me résoudre à être rien !

 

 

          Teresa Bracinha Vieira
               Outubro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

Blogue CNC - crónica da cultura.jpg

 

De filho a acessório de moda nos casamentos de hoje: consequências para o cão

 

Uns amigos nossos, no meio de uma conversa sobre muitos jovens casais que não têm filhos estando já numa idade mais avançada do que o “normal”, referem-nos, a propósito, o quanto os estudos estão avançados na análise do comportamento que leva estes casais a adquirirem um cão mal iniciam a sua vida conjunta, ou este não fosse meio de trazer responsabilidade e laços que se podem assemelhar aos de um filho – mesmo que queiram fazer crer que é apenas uma companhia - e logo se cria um pré núcleo de família nos encargos, responsabilidade e amor e, sobretudo ajuda a criar no parceiro/a ideia de que são três a conviver, e não dois, terrífica ideia para quando houver necessidade de substituir conversa ausente pela da preocupação com o cão, evitando-se sempre a coragem de viver a conjugalidade. Terrível jogo, o de transpor ao parceiro ou parceira que agora estão obrigados a cumprir por actos, pensamentos, palavras e obras que assim é a realidade composta, e que suportarão as vicissitudes de um grave divórcio se assim o não entenderam. Leva tempo, mas dizia a nossa amiga que, ficar só, é uma coisa, mas ser-se deixado só com um animal, é crime de lesa-majestade. Investiu-se imenso no determinar quem era a vítima e finalmente descobre-se que é a que fica com o cão, mesmo que lhe acresça a devida pensão de alimentos graças ao desejado encargo.

 

Acresce, diziam-nos, que se provou há muito, que estes casamentos, estão assentes numa espécie de amizade, avassaladoramente jurada acima de qualquer espécie de amor, muito transmitida por tatuagem, ou o amor não se pudesse partir e, se acaso a relação matrimonial terminar, aquele que sempre apelou por bem, à amizade, fica com o justo direito a intrometer-se permanentemente na vida do outro, que, sai da relação atraiçoado se quiser viver a vida em liberdade. Deus! aqui, a vingança de quem é deixado – parece que se diz assim - serve-se gelada pela manipulação eternamente encapotada da vida do outro, que, não compreendera, afinal, o quanto o cão que tinham adquirido era de raça “de bolsa” de grife, e estes mordem sempre a quem preza verdadeiros sentires, tais como as pessoas que não querem ninguém igual a quem tiveram, ou procuram, enfim, alguém que seja alguém. Alguém que saiba viver consigo próprio antes de ser pendura na vida dos outros; alguém que não esteja mal incubado e que só sobreviva com os tais milhares de companhias “amigas”. Os tais que não leram o suficiente para saberem que as amizades se não contam às dúzias.

 

E diziam-nos os nossos amigos:

Agora imaginem se em vez do cão, nesta cena toda, fosse um filho real? Pois é, aqui tem de se ensinar os filhos a mostrarem dentes raivosos, aquando de uma separação, face ao que tomou essa decisão e de preferência muito face àquele ou àquela com quem poderá ser feliz, receita certa para que o vinagre dos cérebros se transformem em pickles e se dirija a quem sabe que a solidão é um amor vivido em companhia de outro amor maior, viva o tempo que viver, mas plenamente e são e belo.

 

E quais as consequências para o cão dos ensinamentos recebidos em todo o tempo de matrimónio ou depois da separação? Perguntámos:

 

Pois bem, o cão ou entrou em pasmo depressivo durante o matrimónio da amizade e faz psicanálise dentro da própria mala L.V, ou aprendeu uma sísmica despedida para agradar a quem com ele/a fica, e, de tempos a tempos, faz crise de epilepsia, durante a qual telefona ao ex dono/a que o/a abandonou, enviando-lhe força, pois que logo que possa se pirará e até lá ele/a aguenta confortável e envia saudades.

 

De facto, não há como ter cão, diríamos! Cão de co-matrimónio, cão acessório de moda. Cão espertalhoco. Cão, que cão saiba ser, e que tal como as pessoas sempre felizes do olá tudo bem? Maravilhosos! não sofra ele/a quase nada.

 

E se non è justo, é bene trovato, esta manha antiga das gentes que vivem a vida assistindo ao próprio funeral, nunca descuidando de tentar matar o tal amor que, se o sentissem, as engravidaria de possibilidades.

 

Teresa Bracinha Vieira

CALCUTÁ

Blogue CNC - Calcutá.jpg

 

 

Um largo de gente entrançada na dor

Enrolada em rastilhos de morte

Aguardando numa oficina de mundo

Que as cordas lhes atem as unhas

E sejam estas colocadas ao lado dos crânios

Enquanto as orações macias lhes digam

Vede que ainda aqui estamos

Neste corredor sem meta

Que a cada passo ecoa

Agora agora agora

E mais não se ouve dizer

Por muito que se escute a pintura de Max Ernest

 

 

     Teresa Bracinha Vieira
      Outubro 2017

 

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

Voando sobre um ninho de cucos

Um filme de Milos Forman com Jack Nicholson- 1975. As características de um estar contemporâneo, redescoberto por indivíduos e equipas geniais no exercício do temor. Um filme que se estende a muitas realidades diferentes com consequências tendencialmente inescapáveis.

E UM POUCO COMO McMURPHY. É FÁCIL ENTRAR. O DIFICIL É SAIR.

 

 

Governar pelo medo, governar pelo poder, governar pela capacidade de infligir tristeza, governar pela falta de cognição, pelo ajoelhamento, pela culpa na alma dos outros, governar para que vença quem torna o outro culpado, governar contra a existência digna, governar contra o sono, governar para interromper a pulsação da esperança, governar condenando, governar pela insignificância de governar, pela festa de tudo controlar, governar chamando a figura admoestadora do chicote, governar contra o número dos vivos que dolorosamente tenta ganhar com que viver, governar como quem mata a sede a cativos, governar para ser auditor dos próprios milhões em registo de prece, governar invocando religiosidades de fação, governar com a virtuosidade de impor, governar por analogia da dor, pelo raio laser focado em quem se pergunta, governar humilhando os homens em frente dos homens que os roubam, governar de bandeira seca, governar a cada segundo tornando-o longo, governar sem que se descubra o que se passa, governar para fazer tremer a vontade alheia, governar para nunca confessar o seu erro, governar com os anjos rejeitados pelo céu, governar com ódio, hipocrisia, mentira, governar como intruso em corpo alheio, governar provocando uma solidão rodeada de solidões, governar pelo direito com bolor, governar prometendo mais medo, governar para que o poeta só escreva um verso, governar brutalmente como coveiro dos sorrisos, governar como se o filho pudesse ser mais velho do que a mãe, governar sem compaixão pelos encontros de jardim, governar esquecendo que os nossos pais nos educaram transmitindo-nos que a partir do ano anterior de nós, rejuvenesceria a casa, o tempo velho, as missões impossíveis, e que uma mulher sempre longilínea, sempre bela, ergueria embrulhado num gracioso xaile de recém-nascido, o seu filho, aos olhos de seu pai e de um mundo feliz, e eis o abraço célebre da vida, que, comovida abria o peito, resguardando a criança fora deste estar de desabridos caninos e molares prostitutos com que se governa em jeito de fast-food inimputável, o horror universal.

 

Bem-haja quem pelo seu caminho e arte, aspira a que de si fique uma memória imperecível, e seja ela prova de que governar poderá não ser uma sátira astuta protagonizada por personagens ridículas de sorrisos canalhas face ao destino de uma civilização.

 

E governar justapondo lugares distantes, reflexões brilhantes, estilos de vida superiores?

 

Governar sem utopias para além das necessárias ao impulso das mudanças, governar numa epopeia de se construir o melhor, sabendo a sério o quanto a seriedade é discussão com um louco que deve saber onde é a vida, a identidade, a circunstância.

 

E saudade. Não se governa a saudade.

 

A saudade não tem dimensão e o seu lugar é todo um coração que alberga toda uma emigração seja de que género for. A saudade é catalisadora na nossa viagem de regresso ao país natal, país seja ele como seja, mas feliz onde se focalize e no que se transforme.

 

Saudade é pujante condição humana que não constará nunca dos programas dos atos de governança, e mais, mesmo que seja uma tristeza do pensamento, saudade é livre, é fogo, é luta, ela é um sentimento que vê, ela é um som de sentir isolado que definirá modo e lugar que enfim, existem, sem que governar seja deixar um Big Bang ao nascimento do Ser.

 

Saudade é também acreditar que é difícil sair para uma verificação última da verdade ou do erro. Mas saudade é a que sabe negar o estatuto de um absoluto ou este não tivesse afinal qualquer história. Saudade é um pensamento no decorrer da vida e que abre caminho por ser capaz de chegar a algum lado.

 

Saudade é um saber que também conhece o quanto as tonalidades da mentira são inesgotáveis e que a certeza se desdobra em múltiplas camadas. Mas a saudade de uma paz humana conhece-lhe os complexos filtros para a atingir ou não vivesse nas relações perturbadas entre pensamentos e amor e luta.

 

Teresa Bracinha Vieira
Outubro

RADUAN NASSAR, “UM COPO DE CÓLERA”: poder e submissão no espírito do tempo

 

Prémio Camões 2016, “Um Copo de Cólera” (…) «tem mais poder nas suas poucas páginas do que a maioria dos livros com cinco ou dez vezes mais páginas» e assim é, tal como publicou o The Guardian. Depois de ler “Um copo de cólera”, lancinante extremo da literatura portuguesa, as perguntas fundamentais e seus sinais são força de fogo.

 

Trata-se de um livro profundamente invulgar, de uma ferocidade sôfrega que se desenvolve a partir de uma noite de amor e de erotismo em que dois amantes se entregam numa experiência intensa e rara, e eis que surge o extraordinário de assim a escrever, e a necessidade presente do alguém que tem de pagar queira ou não, o suporte espontâneo da cólera ou não fosse esta o melhor alívio da culpa que se suporta no eixo do peito.

 

E muitas vezes fiquei sem ar nas páginas deste livro. Tudo nele é de rajada numa verdade hemorrágica, lasciva e ungida na força dos pensamentos independentes, quando se sabe que os cães acorrentados trazem feras no avesso, e que mais não somos nós do que acorrentados? mesmo quando rogamos que os pés do nosso homem possam ser dois lírios brancos, e a nossa cela os aceite como macho absoluto do nosso barro numa prosternação de meu amor sacana.

 

«que tanto você insiste em me ensinar?».

«estou descalço» dizia, e ela nunca tivera dele o bastante, só o suficiente. Sempre o dissera.

 

Ela, essa femeazinha fascista que se regozijava da perspicácia que lhe atinava também como mulher que atua, e que enxotava quem é fraco, querendo-o. E ele querendo sempre transformar em graça o ferrete que ele próprio carregava, Deus meu! numa forte iluminação da bofetada no rosto dela, gritando-lhe o quanto, o que contava na vida era a qualidade da descida, ó carcaça, cérebro de pilantra, tudo o que vomita, é tudo coisa que você ouviu de orelhada.

 

Mulher mais gatuna é a que abre a boca e os dentes não contam idade, para sob ela encobrir que quer castrar seu homem, chamando-lhe de «mestre» e alfinetando-o com o fogo das palavras e das ancas, misturando razão e comoção e sempre metodicamente a querer que ele seja seu filho igualzinha à maioria das mulheres que nos momentos de emancipadas querem seu macho num tempo diferente da geometria passional.

 

E num instante ele era o canalha da cama e o canalha que ela ama com volúpia e recuo, e ele, descalço, e ele a levá-la à entrega hipnótica por sua tão própria linguagem, essa linguagem que fora ele que lhe ensinara, ele, o sem estudo, e ela metálica de curso feito, tanto quanto o seu riso escárnio não entendia que era a fascista pior do que ele, pois não sabia que o era em nome da sua razão.

 

Gritavam um ao outro os demónios internos de cada um, as velhacarias bem sufocadas que tanto insistiram em os ensinarem numa farsa tão sinistra quanto esplendida, sobretudo quando tudo se incendiara com a demolição da cerca que as formigas metodicamente tinham derrubado. Ou talvez não. Talvez tudo se iniciara com a decisão de usar veneno para as sufocar na toca que se pisaria depois com um calcar definitivo ao ar. Uma força contra a vida ou contra uma outra direção, mas uma força.

 

E ele recebia dela umas mãos no banho que lhe dava depois do amor ou do sexo, movendo-se doidamente quando ela lhe apanhava os cabelos num ritmo que ela cumpria e ele só sabia que se entregava (…) «para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo».

 

Sempre, de um modo ou de outro a nossa infância recorda-nos ideias acabadas e sem a confusão da idade grisalha. Li neste livro a dor desta claridade da infância ser mais pedra que saudade, mais absoluta solidão depois do concluir o austero dejejum do colo dos pais imperfeitos, e tão amados, naquele tranquilo labirinto dos enigmas do então.

 

E começara já os latidos mais desesperados entre ambos como se se quisessem aniquilar um ao outro, abrindo covas fundas e de inesquecíveis dores um no outro, com tudo o que certeiramente se diziam, pois que ambos não eram gente, ou eram-no porque.

 

E já em indicações díspares de destino ela fugira para sempre e ele fingira que adormecera até ao dia seguinte, abandonando-se qual menino na sua própria cama, mulher anforal, e ela entrava já devagar no dia depois, pela manhã, e clareando a emoção por entre as lágrimas secas, acedia à condição relativa, sabendo que numa porventura certeza aos dois e a um tempo, se embalava a realidade, enquanto um seio despertava a vontade de a ambos e em ambos se proteger.

 

Assim li este mundo que Raduan Nassar, num ímpeto de copo de cólera, partilhou, bem como, o quanto a fórmula de a beber, assim estilhaçada, é cortante, mas esclarecedora. E deste modo, Nassar deu unidade à Coisa depois do confronto dos violentos segredos que nos prendem e nos racham numa única razão de amor e de vida. Numa razão de perder princípios, por vezes, avaliando mal o tamanho das formigas e do medo.

 

Por mim diria, que neste livro os amantes ainda se disseram um ao outro, serem a única coisa que se deixavam mutuamente. E se este dizer era ataviado, sem dúvida, eles o conheciam como lugar central.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014

CRÓNICA DA CULTURA

 

É altura de partir o calor, o bom calor de julho e o de agosto que dantes esvaziava o Chiado. O calor dos desejos dos sorvetes e dos refrescos, o calor que amolece o cérebro e o asfalto, o calor das toilettes em desalinho e o recordar das histórias imensas do António Alçada.

 

Estávamos ambos sentados no Largo do Camões a registar o que por ali fulgia em agosto e, na sequência de falarmos em publicações de livros com empurrões de quem tem os ditos conhecimentos e os exerce em função de trocas, e o António diz-me - no meio de um «ó que óptimo gelado este

 

Sabes Teresa, um dia aconteceu-me uma fantástica. Não é que o diretor do jornal x, bem conhecido como sabes, escreveu-me uma delicadíssima carta a convidar-me para escrever uma coluna semanal nesse jornal, e depois de me deixar clara a honra que seria para o Jornal se eu aceitasse, acresceu

«E saiba V. Exa que nada terá de pagar por isso.»

 

E entupimos ambos o engolir do gelado e rimos tanto que bamboleámos os gelados no ar de jeito a que os não perdêssemos na totalidade espraiados no chão.

 

E mais calmos continuámos a dialogar sobre o futuro próximo de setembro e das saídas dos livros no Natal fazendo apostas em quem os iria lançar nas respetivas apresentações explicando as razões das pressões nas escolhas. E assim o país das dignidades de todas as ordens e de todas as vacinas, nada pergunta ou perguntava que fizesse ou pudesse fazer estranhar. Concluíamos. Também achávamos que cavaleiros e comendadores ansiavam pelo Inverno, de modo a que usassem os mantos por baixo do pardessus, sobretudo quando atravessavam a Rua dos Retroseiros e uma leva de vento lhes enfunasse as insígnias.

 

E aguardávamos setembro. Já tínhamos ido ao Vau estar com o Mário que enviava carro a Lisboa para levar o Alçada até ao Algarve e este por sua vez, por duas vezes me levou a mim também. E assim sendo setembro aproximava-se com o conselho do António:

 

Teresa, querida Teresa, nunca passes uma camisa a um homem. Dás cabo dele e de ti. Ambos se habituam a uma espécie de filoxera dos sentimentos.

 

Bora que o calor ainda é muito!

Prodígio inaudito pode ser um nariz? Não achas?

Hum!, prefiro sublime, para nariz. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Outubro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Sim, caminhar pelo nosso pé, sempre será diferente de andar pela mão que suporta os estilos e as ideias dos outros. Caminhar pelo nosso pé não carece de dissertações, mas pode não explicar a magnitude de um trabalho de vida. Em rigor, quem nos cerca, cria uma atmosfera de somenos a fim de desanimar o pé e o facto de ele ser nosso. E se eles conseguirem que o oxigénio faleça devagar, que a brisa da noite se torne enganosa, a procissão do nosso pé ou rasga de imediato a avenida e ali se afirma, ou, o carnaval invade as ruas de um jeito que, das ideias dos outros tudo fica dito e a peça-chave da independência do pensar com autonomia, só sobrevive com ironia, violando as urnas de voto entretanto violadas. E enfim, assim tudo se confunde como a febre das condecorações e suas proximidades nos cargos. Afinal, pede-se a quem caminha pelo seu pé, tudo o que o se não favorece. De louvação, recorde-se, vive um estranho sedentarismo nacional das ideias de fácil digestão no parlatório dos almoços a charge.

 

Também se inicia neste chão pardo, o autoelogio de quem se sente superior por bem do que é capaz, e logo os teatros dominam sobre os demais espetáculos, fazendo questão, os personagens notáveis, de não esquecer a nota de necrologia de quem lhe é igual ou similar, e gerindo o silêncio total à volta de quem sozinho ainda vive e por seu pé se atreve ou atreveu a caminhar.

 

Como nos compunge dizê-lo! mas se nas almas eles possuem os mesmos sentimentos que na atmosfera dos manjares, a ópera cómica só nos mostra o constante e violador procedimento dos bailes de máscaras, enquanto nem um artigo tantos do código o proíbe. Enquanto caminhar pelo nosso pé, foi preocupação do mundo no adivinhar o enigma, e como o sucesso lhes escapasse, pois que a nós tocasse nadar em mar revolto sem cinto de salvação ou queixa.

 

E saber que as violetas tinham mais perfumes e as rosas mais expansões; e que Verdi exclamou cheio de nobre orgulho: - Estais acordados? Venci.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2017

C’EST TOUT

 

Le 3 mars.

C’est moi poursuite du vent.

Silence, et puis.

Il y a des papiers que je dois ranger à l’ombre de mon intelligence.

C’est indélébile ce que je fais.

Samedi 25 mars

Je suis peinée que les décennies passent si vite. Mais je suis quand même de ce côté-là du monde.

C’est tellement dur de mourir.

A un certain moment de la vie,

les choses sont finies.

Je le sens comme ça : les choses sont finies.

C’est comme ça. 

 

Marguerite Duras (1995)

 

Teresa Bracinha Vieira