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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

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Ao que poderíamos chamar a grande arte ou a grande poesia, exigem memória precisa, clareza de interpretação e finura na concentração. O que é erudito tem sempre um faro escondido atrás da mão da alma, e só assim descortina o que existe por baixo da profundidade. Chega-me à memória um vedor que visitava com regularidade a quinta de meu pai. A mim parecia-me que ao rodarem os pauzinhos que o vedor tinha entre as mãos, escreviam eles no ar, a palavra silêncio, ou não estivéssemos perante a indicação de um pormenor da ínfima luz que se mostra claríssima, na pujança da erudição maior, tão logo a água jorrasse intérprete da primeira grandeza.

 

Desta água ao tecido que o poema expõe surge a voz escrita do estilo do intérprete que vai cartografando realidades alquímicas que reiteram sem dificuldade a força do que está em causa.

 

Inevitavelmente recordo a erudição tamanha de Gershom Scholem, as suas explicações de textos cabalísticos (mística judia) de influência fantástica sobre a teoria literária em geral, sobre o modo de ler a poesia de críticos e investigadores não judeus e plenamente agnósticos. Sabe-se que fechados em revistas escritas em hebraico se encontram algumas das obras de Sholem não obstante títulos publicados pela Princeton University Press que se dirigem inequivocamente a um público instruído.

 

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A Life In Letters (1914-1982) de Gershom Scholem que tive a oportunidade de ler em plena convivência com um admirador e conhecido de Scholem, deixou-me a necessidade de conhecer aquele que fosse o grande poema, a grande arte como tributo a este enorme servidor da inteligência.

 

Scholem é aquilo a que eu chamaria um homem do pensamento formado na erudição. Do pouco conhecimento que dele tenho e sempre terei, intuo dele uma mestria grávida de uma realidade nunca herdada. Sinto-lhe um anarquismo necessário à desconfiança pelas convenções, um misticismo religioso com origem no cético. E mais não ouso. Era e foi sempre ele um dos grandes vedores que conheci ou imaginei nas mil quintas do mundo. Dele tenho obtido muitas ajudas para a minha iniciativa de lhe reler as páginas que possuo. Ajuda-me a compreender o passado como o faria um profeta da luz sobre o futuro.

 

E não serão os escritores da profundidade estes profetas da luz? Scholem também sempre voltou a Kafka sobretudo quando a tensão se instalava de si para si.

 

E Scholem pedia que lhe perguntassem

O que entende por «o nada da revelação»

Ou a revelação não fosse o processo que está para aparecer, com ou sem validade, com ou sem significação.

 

E se entretanto o só, nele está Celine, Borges, Canetti, Duras, Aristóteles, a Geografia, o Desenho, as Línguas, a Ciência, a Economia Política, a Astrofísica, a Paleontologia, a Poesia enfim a recompensa extraordinária que em nós só a universidade é e pode.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

LOPE DE VEGA

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«Lo que cuenta no es mañana, sino hoy. Hoy estamos aqui, mañana tal vez, nos hayamos marchado»

 

«Amada pastora minha,

Teus repentes me maltratam,

Os teus desdéns atormentam-me,

Teus desatinos me matam.

(…) Parti uma vez de ti

(…) ditoso o pastor que alcança

Tão prazenteiro fim de sua esperança!

De pano barato a sela

(…) no peito todas as cartas.»

 

A Assírio e Alvim em março de 2011 assume uma Antologia Poética de Lope de Vega, com uma tradução de José Bento, colocando-nos na mão a possibilidade de entendermos um dos melhores poetas barrocos da literatura espanhola. Nascido em 1562 em Madrid oriundo de família humilde, não lhe faltaram inimigos a acusá-lo de mentiras, nomeadamente sobre eventuais fidalguias a que se dava por familiar e mesmo colocando-se dúvidas sobre a autoria de certos romances. Cervantes, não obstante tê-lo incluído entre os grandes talentos de então, veio mais tarde a torná-lo alvo dos seus ataques. Em 1602 publica Lope de Veja um dos seus livros de poesia mais importantes - 200 sonetos incluem a primeira parte deste livro juntamente com o extenso poema La hermosura de Angélica - e expoente inequívoco do Barroco espanhol. A obra deste escritor pela sua extensão e variedade colocou-nos sempre perante a dificuldade de o conhecermos, desde logo pela falta de acesso a livros seus há muito não editados. Seguramente só um especialista deste lopista acede e rejeita invulgaridades das quais não somos conhecedores. Sabemos que Lope aprendeu muito com o teatro de Gil Vicente, e, também conhecemos esta vontade de expor a pujança e a ousadia de uma escrita que à data ultrapassava e muito o homem e o poeta que ousou ser.

 

Um instrumento, mesmo harmonioso,

em mãos distintas é muito dif´’rente;

a espada no cobarde ou no valente

tem um efeito assustado ou corajoso.

 

(…) pide segurida a la fe griega,

Consejo al loco (…)

Verdade al juego )…) e fruta al polo donde el sol no llega.

 

Vejo e sinto nas palavras de Lope de Veja um noturno filho da terra, mas fonte clara de muitas interrogações.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Entre muitíssimos livros sobre Lope, li apenas José Montesinos, Estúdios sobre Lope de Veja, Edições Anaya, Salamanca, 1967. Por entre edições modernas que foram recomendadas pela nossa Faculdade de Letras, recordo aqui uma edição de Macarena Gómez de 2008, Rimas humanas y divinas del licenciado Tomé de Burguillos.

CRÓNICA DA CULTURA

 

   Um gosto extremo pela verdade.

 

Um legado do meu tio-avô que em seus velhos anos sentia, no saber, satisfazer-se com o que tinha. 

 

Não sei até onde se contentou este meu tio em viver uma vida que ele chamava tão-somente desculpável e que não pesasse para ninguém. E eis esta outra consciência de que nesta verdade teria de se encontrar. Nesta verdade que queria dizer vida em total soberania, na qual, nem a lealdade dos filhos que não tinha, deixava de ser guardada num lenço de nariz amarrotado e que chegava aos olhos numa vigilância clara de quem faz contas às certezas.

 

E o desconhecido meu tio? como era?

 

Em silêncio, presumiu os vícios depois de os ter, mais ou menos estragados pelo exemplo de os repetir. Mais ou menos diferentes quando em si se acarinhavam. Também sentia este meu tio, como uma desgarrada de mentiras, quando alguém o acusava de furto, de uma espécie de furto por poder duvidar de que os outros é que estariam certos. Imprudência seria o que sobrava aos outros para causar boa impressão à mercê de a todo o tempo ser aprovada. Assim pensava e dizia, baixinho, enquanto rolava na cama que o sustinha em dor, em muita dor. E lá chegava a memória do livro que seguiria para Lisboa com os vinte escudos apertados entre a página 32 e 33.

 

Nunca fora avaro. A verdade ensinara-lhe que o dinheiro era coisa transitória e mundana, papelada poeirenta, a das contas. Ou, o que é pior, a do negócio. Toda a vida procurara desleixar e relaxar sem obrigações ou servidões ao dinheiro. Por temperamento e por sua condição coube-lhe pertencer segundo a sua vontade, à fotografia de si e das pessoas em si, e assim, tudo fluiu e fluiria até à sobrinha-neta, eu, que julgo ter entendido dele que o que nos imprime a condição de viver da comparação com outros, faz-nos sempre muito mais mal do que bem, pois atira lama ao gosto extremo pela verdade, no sentido de nos privarmos daquilo que queremos para atender às opiniões dos outros.

 

Com ele, com este meu tio-avô, ficou-me a possibilidade de me auto incentivar às viagens, ou elas não fossem em mim um desacordo com os costumes daquilo com que me querem e quiseram conformar. E a essa corrupção, eu digo e disse não, mesmo que na fotografia em seu dia esteja eu submetida a quem não tenha um gosto extremo pela verdade do entendimento, tal como este meu tio-avô, meu padrinho de batismo de vida, aristocrata de guerra aberta a quem lhe fedia, amante de ópera obstinado. Digno.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

SALVADOR SOBRAL: AMAR PELOS DOIS É AMAR PELO MUNDO (For The Both Of US)


Nunca é possível marcar uma data para vermos surgir Salvador, se dentro de nós nunca tivermos deixado de acreditar que ele representa a humanidade em processo constante e sem fim. Data afinal de olhar e surpreender o sonho. Eis.

 

Com 28 anos, define caminho. Sente-se que é ausente das imitações comportamentais de hoje. Tem dimensão e forma de pensamento.

 

Salvador Sobral, tão jovem, tão ele, tão nosso desejo, sabe o que é a libertação, conhece que a partir do momento em que ela se inicia, esse processo, nunca mais deixa de crescer até que daqui a bocadinhos quando por nós perguntarem, exaustos e devagarinho amaremos por dois, por ti que és mundo, por mim, que também me quero permitir saber ser mundo, e mesmo sabendo o que é sofrer, insiste Salvador em dizer 

 

Ninguém que foge da morte é imigrante. É sim, refugiado!

 

E há que ceder e sentir paixão até que a praia-mar se instale no coração e em nós esse local de encontro, Salvador que aceitamos agradecidos por coexistirmos na proposta que ofereces: – IN NAME OF THE WORLD, I LOVE 

 

Teresa Bracinha Vieira
Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Caro padre Jesuíno;

 

Respondo-lhe mesmo antes de ler o livro que tão gentilmente me enviou.

 

Creio, padre Jesuíno que se sabe muito bem o que está por fazer, porque quase tudo está por fazer.

 

Observo que nos encontramos tão distantes do que entendemos por prosperidade de uma nação, por bem-estar generalizado que, durante muito tempo, não cairemos no risco de vivermos num país desenvolvido. Talvez por estas razões entre outras, a frustração dessa falta de comodidade mínima de vida, pode-se definir não como tendo na base uma acesa causa económica, mas antes por falta de uma enorme sova moral, não distribuída ou não auto atribuída ao esforço de todos e de cada um, como efeito de agulha no plano da ética pessoal e social que gerasse o início do trabalho que conduzisse à felicidade possível.

 

Só através de um caminho pessoal e institucional se conduz as pessoas individualmente consideradas a não se sentirem impotentes face ao Leviatã, tão difícil de descortinar atualmente, quando os próprios Estados e os grupos de pressão, em vivência de globalização de comunhão adquirida, aderiram a um pacto de sujeição morno quanto baste, e que impede a luta contra o conformismo e contra o marasmo, o que conduz a um sentido bem expresso da necessidade da atividade dos intelectuais.

 

Padre Jesuíno, quando nas anteriores cartas lhe referi o quanto receava a moral e a ética reféns das instituições da política contribuindo para a dificuldade do estudo da ciência da política nos dias de hoje, era exatamente a este ponto que queria chegar: o consumidor, o consumidor de tudo, dos bens materiais, do amor, da religião, da juventude, da criação, da saúde, da solidariedade e a consequente perda de mira de todos os olhares, constituem o mais conseguido Leviatã que Hobbes pensaria poder gerir.

 

Deito mão de um papel que encontrei (tenho tantas destas anotações!) por entre as páginas de um livro meu, onde uma frase escrita por alguém que me despertou interesse, sem que o livro me pertencesse, e eu, deste modo guardava memória, e que, infelizmente neste caso concreto não anotei o nome, tão só sei tratar-se de um jornalista espanhol que escreveu:

 

«no tiene condiciones para ser verdadeiramente dichoso un país en que los infelices son tan ricos de alma que prefieren cuatro horas de sol a cuatro pesetas de jornal.»

 

E afinal hoje nem se poderá ser tão livre assim?…

 

Saudades a Paris

Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há que provar de tudo à mesa. Há que não se dizer não gosto disto ou daquilo, um dia, prometo-vos, irão comer os vossos próprios erros e entenderem que de todos se não safam sem prejuízo. Que muitos serão mesmo piores que os peixinhos da horta que agora vos causam repulsa.

 

E o olhar da Dulce tornava-se vago quando escutava estas palavras secas do pai, o mesmo pai que também a mimava.

 

Sabem, continuava o pai da Dulce, os madamos e as madamas ricas podem mudar de ideias, os e as pobres, é que não. Mesmo assim a estes de nada adiantava mudarem, por cima ficavam sempre os outros. Vá comam a sopa toda. Os ricos puxam as colchas até ao queixo para encobrirem os fios de ouro. Comam a sopa a toda! Mesmo que fossemos surdos podíamos ouvi-los, aos ricos, com o olhar a guardarem a caixa do dinheiro.

 

E vá comam a fruta que faz bem. Para uma certa maioria que visse essas maçãs, haveriam de ver como os olhos deles eram duas velas a derreter-se por elas.

 

Um dia saberão que nunca se deve beber água por nada de metal. Deve ser bebida por uma cabaça. Oram vejam, nós já usamos copos de vidro e os ricos usam de ouro! Limpem a boca e vá, vão brincar.

 

Depois destes almoços, ficávamos, nós crianças, todos tão velhos e tão desentendidos que a brincadeira era como uma professora boa que em tempos fugira da escola para não aprender de cor 7x8.

 

Olhávamos para as bicicletas como se pedalar nada fosse. Sentávamo-nos no chão ao lado delas e de calcanhares fincados, sorrateiramente, como se alguém nos espreitasse, deitávamos fora os peixinhos da horta que tanto detestávamos e que tínhamos enrolado nos lenços de assoar aquando da hora do almoço.

 

Tá quase dizia-me a Dulce. Tá quase e podemos brincar em paz. 

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

NO SOPÉ DO MUNDO

 

No sopé do mundo

Contaram-me uma noite

Uma fábula verdadeira

Vinha ela dos afagos de uma alma

E de uma mão minha laçada à entrada de um deserto.

Disse-me o estrangeiro:

O teu início

Aquele que errou pelo meu peito durante toda a noite

Descobriu-me entre duas guerras:

A que me impediu que a respiração se unisse enquanto sonho

E a outra que em mim tu cantaste e em ti me quis

Solitário

Exposto à chegada de todos os exércitos

Antecipando a época

Da grande viuvez.

 

E eis-me assim e agora

A lavar com leite

As faces escarpadas

Dos recifes

Sem te aprisionar

Em mapa algum

 

Mas procurando-te 

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

CRÓNICA DA CULTURA

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Ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, a razão de seu nascimento, da sua aparência e frequência e morte. A dada altura, confesso, julguei começar a ver no núcleo enlouquecido de um deles, todos nós a debatermo-nos num torvo para respirar e mergulhar de novo naquela força tão desigual à nossa. E pensei-nos a tirar proveito daquela natureza brutal, ganhando tempo para nos familiarizarmos com os elementos e respondermos. Pensei na raiz humana da crise.

 

Não sei quem hoje se aproxima mais do entendimento das mudanças no mundo. Não sei até que ponto se vive um desafio intelectual face às novas realidades ou se lhe sobrepõe um estado de angústia no procurar ver as coisas com bom senso, o que torna tudo bastante arriscado, e exige coragem, quando a exigência é a de um começar. O exorcismo do medo e da desconfiança que existe não carece apenas do encontro dos grupos que, quantas vezes apenas cultivam as suas distâncias. Atuar isoladamente ainda que de aparência grupal é muitas vezes o mesmo que atuar desconfiadamente, e deste facto surge o não avanço contra aquilo que é a raiz mais profunda da loucura do tornado quando deixa de ser fenómeno local e apanha o mundo numa mutação global. Então tudo é suscetível de ser confundido: recebe-se a liberdade e foge-se como prisioneiro.

 

A ameaça entrou no nosso raciocínio como um acontecimento em relação ao qual o poder político ficou de fora, há muito, e sem capacidade de nos tranquilizar.

 

E pergunto-me se toda esta convulsividade não favorece o ato criativo do pensar? ou serão os acontecimentos, mais acontecimentos do que modificações? Tenho para mim que se viveu uma aglutinação, um adormecimento que impediram muitas clarificações, e que de um referver de receios mais claros, se poderia colher aproximações às realidades que pressentíamos poderem surgir de há muito. E quase todos, mais ou menos, modestamente estamos por dentro de similares processos. E quase poucos foram os que sentiram que as interrogações não eram mais do que certezas que já tinham.

 

Diria que a força e a capacidade de pensar e de se exprimir e de refletir vivem numa coragem específica de quem aguardou a decantação no tempo para adquirir uma repulsa à carência do que não seja vida. Então o núcleo louco do tornado, em nós, deixa de ser uma procura de sair dele, mas uma experiência ativa de que a nossa interrogação é um silêncio de quase insuperável dificuldade, como referiu Paul Thibaud, ou o «sem fundo» de Castoriadis ou ainda a circunstância que enfim nos despertou para a importância da ação estética no quotidiano do homem comum. Afinal, cabe aqui dizer que a democracia será sempre um futuro ou não relevasse da incerteza, e julgo que nela nos interessa mais a sua dinâmica do que o seu longínquo ideal de sociedade quase perfeita.

 

A homogeneização é a negação da diferença dos valores dos tornados das sociedades. A título de exemplo a sociedade francesa de hoje conhece uma crise tremenda que sobretudo resulta de uma desagregação entre a sociedade e as instituições, se pensarmos nomeadamente que a grandeza da sociedade democrática reside na sua divisão intrínseca, tanto quanto uma sociedade justa é uma sociedade em que a justiça é de facto uma realidade sempre em aberto ao permitir que a dissimulação se torne visível e o seu combate um garante do Estado que aguardamos, afinal.

 

Como não recordar Marcel Gauchet

A tomada autêntica do poder pela sua verdade pode prevenir os totalitarismos. Atente-se.

 

E acrescento como um dia li: «se não descuidarmos que os partidos políticos agem hoje como se fossem um para além da sociedade.»

 

E ontem escutei e vi num canal de televisão a explicação dos tornados, e nada me pareceu apatia, obediência, conformismo naquele estreito funil e ainda assim.

 

Nós.

 

Teresa Bracinha Vieira

Maio 2017

AS CERTEZAS DO JAPÃO NO FEMININO

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A história da literatura japonesa também se encontra dividida em vários períodos. O período Heian nome da capital da época, Heian-Kyo, atual Kyoto foi marcado especialmente pela poesia. No Japão – final do séc. VIII até ao final do séc. XII - a forma poética tanka brilhou pelas mãos de duas mulheres: Izumi Shibiku e Ono No Komachi, ambas pesos raros na fixação do japonês como língua poética.

 

Apesar de a escrita chinesa (kanbun) continuar a ser a língua oficial do período Heian, esta poesia originou o desenvolver da literatura japonesa.

 

O tanka (de 31 sílabas) que dá lugar ao haiku (de 17 sílabas e inicialmente masculino) constituem uma arte do olhar e do interpretar, e o haikai, igualmente forma poética,  busca pela subtileza uma unidade compacta entre impressão e realidade que na sua concisão tudo devem dizer.


Recordo que num livro quis prestar homenagem a esta conciliação e por entre outros Hai-Kai o arriscado


Quando tardas

Adio o essencial.

 

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Há quem afirme que esta escrita representada pelos tankas é inscrita por signos, tal a lenda na história de tão fortificada e contida arte.

 

De salientar que a consciência religiosa e erótica de Komachi e Shibiku permite-nos avaliar, o quanto estes tempos foram igualmente marcantes na liberdade e cultura das mulheres, sendo aceites sem reparos os seus múltiplos casos amorosos, bem como a sua independência monetária podendo usufruir de rendimentos próprios.

 

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A sensualidade proverbial desta poesia relata-nos conversas, atos ou omissões auspiciosas no papel da interpretação da vida e da própria política, avaliada pelo sentir gracioso destas mulheres de pincel da escrita, que assim registaram as emoções humanas face ao mundo.


Izumi Shikibu uma das mais importantes figuras da Literatura japonesa era uma rebelde social determinada a viver a vida sem receios, e, num misto de eros e de meditação budista escreveu:


Costumava dizer dos homens: «como é poético»,

Mas agora sei

Que o erguer da madrugada é apenas cansativo.

 

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E Ono No Komachi mulher astuta na intuição da impermanência do ser, escreve


Quando o meu desejo se torna intenso de mais,

Visto a roupa de dormir virada pelo avesso.


Aqui a poetisa segue o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que os desejos se cumpram.


E também eu vesti roupa do avesso tentando aproximar-me, e no meu livro


A outra ponta de mim tens tu. Mostra-me o futuro!


Enfim, não creio que exista uma versão portuguesa dos tankas, menos ainda uma tradução, talvez antes uma aproximação, mas de referir que em 2007 a Assírio e Alvim ajudou-nos no à deriva em relação a este género literário.

pois como dizer


Os vivos vão sendo menos (…) o luar derramado espreita


Então, talvez atentar a Jane Hirshfield que nomeia o sentir destes textos japoneses como único «leap of faith». 


Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Em maio de 2012 publiquei este texto no blogue do CNC. Esta semana um amigo japonês releu-o com tal sentir que em sua homenagem o republico.

CRÓNICA DA CULTURA

 

Não existem dívidas Miguel. O tempo nunca desgastará aquela idade em que se não é pequeno nem grande, talvez majestosamente médios, sem propensões para romances ou peças de teatro. No entanto tudo arrebatador era, foi, em tentações que não macularam espíritos.

 

Não existiam dívidas Miguel. Nem mesmo quando os sobressaltos se avizinhavam e um de entre o nosso grupo nos acudia, ou quando a melancolia se agarrava a nós sem se explicar ao que vinha e depois ver-te, bastava, e saltávamos à corda a um ritmo de almas gémeas afinadas.

 

Não existiam dívidas Miguel. Por muito que não conseguisse imaginar nenhuma tempestade tão paralisante quanto a tua ausência na sala de aula. Sabia que te tinham colocado de castigo atrás de uma porta do fundo corredor da escola, e eu logo esquecia a tabuada toda. Titubeava que três vezes cinco era onde estava o Miguel e lá ia eu, muito ufana de merecer o castigo, e de ele me proporcionar a tua companhia e a do meu querido irmão que também já lá estava há mais tempo do que tu, e eu, sem saber, tinha cantarolado de manhã uma tabuada certa.

 

Não existiam dívidas Miguel. Ou antes o que existiu foi a ausência de se prender o indivíduo que nos recitava rimas que na verdade não rimavam, sendo essa atitude cruel. Era o professor de português que se permitia de quando em vez uma soneca enquanto nos deixava a pensar na razão das palmatórias tanto se afeiçoarem às nossas mãos.

 

Pela parte que me tocava, aquela régua a estalar-me na mão era o diabo à solta, mas enfim, eu tinha feito por isso para poder ir para perto de ti e do meu irmão. Enfrentava o diabo com tolerância, como por vezes hoje aceito má poesia escrita por bons poetas. Depois enquanto ali estávamos os três de castigo de cabeça para o canto da parede, íamos juntando mentalmente os tostões de todos para sabermos se dava para um furo na caixa dos chocolates Regina que faríamos depois do castigo terminar.

 

Sempre um de nós tinha mais uns cinco tostões do que o outro, mas o chocolate que saísse em brinde pela cor da bolinha que se aguardava por detrás do plástico da caixa e que traduzia o que nos tocava em sorte, era sempre dividido por igual, tranquilamente, na hora do recreio. Tentávamos mesmo compensar o meu irmão pelo tempo extra que estivera de castigo, dando-lhe mais chocolate do que a proporção dos tostões que dera.

 

Com muito afinco gabávamos sempre excelsamente o sabor do chocolate ou ele não nos tivesse aguardado até depois do castigo.

 

Não existiam dívidas Miguel.

 

Não existem dívidas.

 

Todos os caminhos vão dar a Roma quando o amor é o que faz girar o mundo.

 

Todos os caminhos vão dar à rima do professor das sonecas, ou não soubéssemos hoje que contra essa rima, deve ser interpretada uma grande parte da nossa vida.

 

Teresa Bracinha Vieira