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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

O PODER DA MEDINA

 

Foi quando, movida pela irracionalidade, avancei a correr atrás do homem que vendia punhais. Em segundos olhei para todos os lados e vi todos e ninguém. A pesada porta do silêncio perdido avançava para mim e nem tentei uma entrada precária pela blindada fresta luzidia dos pregos de metal. Fatalmente o poder da Medina seduzia-me e apavorava-me e encarcerava-me. Estava perdida à porta de uma porta. Num instante sorvera o discorrer para dentro do senso das especiarias; voava num tapete até ao sensual local dos banhos de rosas argalistas. Desconhecia porventura o destino do jogo que jogava impotente, entregue ou não, não sabia. O tempo não existia, mas antes um poder sábio, hierárquico, precedente à noção.

 

O que vivia em segundos era um movimento não isento de passividade, nem de agressividade, era algo que se revelava numa explosão de sons e cheiros e movimentos do mundo da morte e do mundo da vida.

 

Os dentes enormes do homem do punhal sorriram-me num excesso, assediando-me com preços obstinados, perguntando-me, impacientemente, quanto ofereceria eu por dois deles. Então, naquilo que senti como sendo a penumbra de um hemiciclo, fez-se luz, de súbito. A multidão abrira espaço, era uma possibilidade-limite e o teu olhar ali tão perto dos meus olhos agora, e já a memória em mim dispunha daquela liberdade separada que me envolvera no perder-me no poder da Medina.

 

Local sem corpo, local informe e todo ele torneado. Local pensante de uma inteligência infalível. Local sem escolhas livres e no entanto frémito, emoção, afeto todo ele muito além da simples vontade de o pensar.

 

O poder da Medina prende-nos às essências dos mundos e a trança que nele nos enrola e nos perde é um antigo comportamento em nós.

 

Sob um calor que nos desencaminha, o vai-vem de uma passagem recomendava que uma distância prudente fosse preservada. No entanto, os números e símbolos e cheiros, destinados a permanecerem vedados, permanecerão sempre em densos mistérios que não nos serão dados a conhecer. E no entanto, também ali, nós e o nosso princípio, como se pedra e pássaro e beijo e caos e incitação num balanço de opostas forças nos segurasse numa estranha mistura de tempos do sentir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 24.6.2017

PERGUNTA

 

Ao longe o encontro

Com a ilha escarpada

Sob um céu de presságio

Aguardava-me em jeito de chamamento.

E mal olhei para o disco do sol

Um cobre fundente descrevia-me

A rua dos heróis antigos.

Tentei atravessar o enigma

E abraçar a violenta e vã esperança

Na qual retomara sozinha o meu percurso.

 

Quem era? Quem deveras queria o que ainda não cruzara?

O que procurava sem notícia?

E assim continuava esta longa jornada de chegar até mim.

 

Quando jovem superara muitos tons de fogo

E nunca mais sendo o que fora

Naquele fim de terra agora

Um outro eu

Aquele que na errância perseguia

O sentido do seu viver

Do seu tão longo caminhar

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 17

CRÓNICA DA CULTURA

 

Perdeu-se a leveza da inocência?

 

Germinaram milhares de anos feitos jardineiros em muitos raciocínios e sem qualquer remédio para responsabilizar a inocência que se entregou ao conflito de um influxo vindo de muitos Eu.

 

Combina-se de nós para nós alcançar a cada passo um contorno de mundo onde as árvores não abdiquem da vida e, sem que entendamos que neles, nesses contornos de mundo, a possibilidade da inocência ter partido seja real e longínqua a sua leveza.

 

Empenham-se os homens na previsão profunda dos seus destinos e esforçam-se por ver nas carapaças das tartarugas as fissuras que lhes confirmem que ainda possuem em si a tão ansiada leveza da inocência. Aquela que lhes apagará o donde são oriundos tantas vezes.

 

Abre-se então uma carta e cai-se num sono fundo para acordarmos perplexos e jubilosos. O que era ingénuo e leve superou a frágil ligação à hora da aceitação da condição humana.

 

Volta-se à natureza. Espiamo-nos e perguntamo-nos qual teria sido o caminho tomado. Evitamo-lo. E é inútil que o façamos.

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017

PEDRO MEXIA

 

Coordenador da coleção de poesia da Tinta-da-China, cronista, crítico literário, é um dos membros do Governo Sombra, foi diretor interino da Cinemateca Portuguesa, é um extraordinário poeta, tradutor excelente e entre múltiplas atividades exercidas com a qualidade que lhe é prumo constante, organizou também um volume de ensaios de Augustina Bessa-Luís, Contemplação Carinhosa da Angústia e, Deus como interrogação na Poesia Portuguesa com Tolentino Mendonça.

 

Escuto-o com atenção e leio-o, tendo sempre presente que lhe encontro uma certa tristeza inescapável que, para mim, lhe serve de fundamento à verdade, estando esta na base da sua perceção num mundo extenso de curiosidades quase todas escolhidas. Às vezes, quando nos identificamos com as posturas de alguém é porque surgem similaridades que temos como reais e “partilhadas”. Em mim a melancolia e a capacidade para a superar são a base da vida do intelecto e creio sentir esta realidade em Pedro Mexia.

 

Ando mão na mão com o seu livro uma vez que tudo se perdeu.

Releio

 

Amigo Inimigo

|Dylan Thomas|

 

(…) tu meu amigo

(…) que escondias a mentira quando ousadamente devassavas

o meu segredo mais desamparado

(…) Convoco-te agora para que te assumas como ladrão

(…) Foste outrora aquela criatura tão franca, tão alegre,

um parente que nada exigia

e que eu nunca quis defraudar,

enquanto deslocavas a verdade na atmosfera.

 

E sobre a poesia de Thomas Hardy, pode ler-se neste livro:

«o tempo passa nos poemas. O tempo é o meio através do qual o presente se torna irrecuperável, e no qual a observação se torna memória.(…)

a esperança e a felicidade destruídas, simplesmente porque o tempo passa»

 

E

 

Quarenta e Dois

 

(…) Escrevo, mas tudo o que escreva está submerso pelo queixume

dos pássaros que enchem as arvores e se ouvem no futuro.

 

Inelutavelmente, as nossa futuridades também surgem de profiláticas autoilusões, e bem creio que Pedro Mexia sabe que de um modo ou de outro a esperança sofre de um vício de frustração e ainda assim é a responsável pela luz da madrugada.

 

Este o modo como leio a escrita deste poeta de que tanto gosto: Pedro Mexia.

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

 

Carta ao meu tio Victor

 

Pois é voltei a dizer que o tio é bastante alto. É o tio do fato quase branco, suspensórios e chapéu azuis- mar, olhos fundos e mãos de aristocrata e que me espera na plataforma do comboio como um príncipe quando até si chego vinda de lá do meu lugar. Também disse que o tio tira o chapéu para me abraçar e me pergunta sempre: foi boa a viagem? podemos almoçar no mesmo restaurante? E lá vamos num transporte público, um de frente para o outro, e eu a ouvir as descrições dos motivos das casas serem fatiadas, terem azulejos ou outras características que as releve na sua opinião.

 

Depois vem a tarde quente na sua sala de avançado envidraçado. Conversamos. A PIDE é sempre tema ou o tio não tivesse de ir buscar forças e perdê-las quando o colocaram de estátua na prisão de Caxias. A política é por si falada com sarcasmo e não entendo bem porquê e o tio sabe disso. Digo sempre.

 

O nosso jazigo de família também é tema; ou por ser visitado pelas viúvas da vida, ou para lembrar que o sino toca e nestes casos os caixões ouvem e por isso, num futuro, imaginando-nos lá dentro, nos faz logo ali decidir rejeitar o apartamento e ir conhecer a terra funda ou as brasas, depois se vê.

 

E continuamos tarde fora a falarmos de partidas e chegadas à vida que o tio me quer fazer saber. Também falamos de livros e dos pardais rasantes ao solar, sobretudo quando junto à porta da cozinha tudo nos cabia na palma da mão ou casa não fosse lar, e as criadas o bem-estar dos quartos de antigamente.

 

Também disse que dou muitas vezes com o tio a espreitar de lado o meu sorrir e o meu olhar, a confirmar a minha total parecença com a minha mãe e a dizer-me o quanto relê as minhas cartas e nelas eu a crescer e eu bem as vejo pousadas na mesinha ao nosso lado, empilhadas com rigor.

 

Sobrinha, que te quero tanto tirar um medo de entre os que irão aprontar-se no teu caminho. E afinal nem o terem-me feito de estátua me faz saber como limpo o caminho aos teus passos.

 

E de casaco já vestido ouço-o chamar um táxi. Está na hora do comboio. Diz. É tempo da plataforma do adeus.

 

Antes o tio recordou-me de novo: estou a ficar tão feio e já tremo de velhice. Ando a sentir-me sempre com margaridas de outono. Espero por ti de novo. Quando voltas? Gostava de te explicar melhor o que me levou a fazer engenharia. Ai eu e os comboios! Não há forma de lhes escapar. E vês? já faço chantagem para que venhas antes que eu não possa. Antes que eu não tenha qualquer história, qualquer comboio.

 

E foi assim, não foi tio meu? Porque é só isso que quero agora que lhe escrevo: saber se foi assim naquele dia.

 

Beijo

Sobrinha 

 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

Simone Veil

 

Numa entrevista à France Culture em 2010 garantia: «Não tenho vontade de chorar com os livros, já chorei demasiado na minha vida».

Simone Veil

 

Julgo existir uma equação secreta do saber melhor entendida nas fotografias que remetem para a vida e para a morte.

 

Vi sempre Simone Veil como a mulher que conheceu a essência dos vivos e dos mortos ou do que ambos persiste.

 

Atravessou uma barreira em sentido oposto quando na luta bem sabia que só deste modo algo perduraria. Vejo-a como exceção numa memória indelével e nunca selada. Sinto-a como uma exigência repetida no transpor das fraturas face a novos destinos. Do seu pensar e do seu agir surgiram dificílimas decifrações que até nos pareciam transparentes, familiares. Quantas vezes as suas palavras transportavam o fulgor do inexprimível convocando a claridade e que o demais mundo intentasse.

 

Estarei atenta. Sempre.

Saudade

 

Teresa Bracinha Vieira

Julho 2017

CRÓNICA DA CULTURA

E escreveste-me:


Agora as mãos tremem-me em qualquer momento do dia ou da noite. E sabes a razão Isadora? É que as palavras que conhecem a verdade pendem-me da boca e preciso de uma cadeirinha para as descansar e de um pouco de sol que saiba a sol no coração. Ajuda-me. Tenho as dores da alma tatuadas no meu corpo inteiro. Naquele corpo despido que ele tanto amou e banhou em cascatas solares e que agora só lhe convoca a desatenção.

 

Estou só, no entanto, essa circunstância não me dói. Acima de tudo o que me é feroz é a completamente desentendida em mim, realidade; é a capacidade dele para ter a certeza absoluta que me magoa. Essa obstinação errática que alguém fez entrar nele e ele aceitou, e o faz mentiroso como um rato; ingrato como um animal a quem dei mel e me devolve, à minha fome, grãos de pedra.

 

Sabes amiga, é estranho, mas não me sinto destronada sequer como muito se lê nos livros. Bailo num punhal e estou consciente disso, enquanto vejo num espelhinho de jade, os meus seios rosa a friccionarem-se num vestido sem espinhos e nada mais. Soltos.

 

Isa, se o meu sofrer e nele se as minhas palavras te ensinarem nesta carta o quanto deves - se por inferno similar situação viveres – semear-te entre os fuzilados e ganhar tempo para arder e chegar a ti a decisão de não morrer em lábios alguns, antes recordares não incauta o que quererás esquecer, depois lavares no tempo certo a sábia ferida, então toma, toma que por minhas mãos te dou o meu colar de lágrimas inteiro, tratado interpretativo dos dias da agonia, razão da minha maior tristeza ainda hoje, se a penso, e abre a porta e que ele saia de ti. Que vá.

 

Aprenderás que os dias ficam exaustos de não terminarem de se contarem a si mesmos quando o jogo mudou de camisa como uma cobra e tu, ainda limpa, lá no centro. Verás Isadora, que de novo um semearás e um cento colherás, enquanto te aguardas do outro lado da vida. Refiro-me ao lado indizível, também aquele que nunca se escreve ou descreve, aquele que passará enfim, a ser a tua gruta, lugar onde e aonde soletras as letras de teu destino e que tem uma agua vinda da fonte da humidade que também é só tua, tal como o teu olhar tão diferente, agora que acima de tudo te tens a ti completamente.

 

O resto é gente que não cintila e se acaso pirilampo algum dia, foi a tua sombra generosa e que o saibas. Lança-te amiga e não consintas. Guarda que nesta carta dei a volta ao movimento e a minha pulsação é!

 

Irei amá-lo de olhos de mágoa acumulada? Irei amá-lo num angulo de porta proibida? Não sei. O vento levantou-se e perguntou por nós.

 

Sabes? Existem caules invisíveis de uma única brancura que só o bosque da tua alma entende.

 

Como compreender que certas pessoas que, por essência, nos são alheias, venham prender-se à nossa vida? De imediato entendemos quem são, contudo escapa-nos o paradoxo do devir, o próprio duvidar. Quem és? E a mim como chegaste? O que sabes da morte das árvores? Por acaso tens nome ou és amor?

 

Eu? Arquitetura.

 

Dulce 

Teresa Bracinha Vieira

Junho 2017

E cito:

 

Tal é a tristeza inseparável de toda a vida finita, uma tristeza, porém, que nunca se torna realidade e serve tão-só para dar a alegria eterna de a superar. Dela vem o céu de pesar que se estende sobre toda a natureza, a melancolia profunda e indestrutível de toda a vida.

 

Apenas na personalidade há vida; e toda a personalidade assenta num fundamento sombrio, que, não obstante, tem também de servir de fundamento ao conhecimento.

 

Schelling,
Da essência da liberdade humana

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Constitui a consciência uma instância de apelo quando as certezas se inquietam?

 

Ainda que assim seja este apelo parece frágil se o confrontarmos com a evocação da Lei como sendo a melhor saída em sede de Moral.

 

Creio ser de nos debruçarmos sobre uma polémica que no séc. XVII opôs Pascal e os jansenitas – que tão só conheço como movimento teológico distinto dentro da Igreja Católica e que surgiu postumamente do holandês Cornelius Jansen - a um enorme número de católicos.

 

Não esqueço que na Igreja católica a Lei infalivelmente transmitida será e foi sempre a que levou à estrada da vida moral autêntica.

 

Contudo, parece poder-se afirmar que o que visa uma moral recta, num regime de uma sociedade, é o que leva ao recurso da instância da consciência, sem se poder admitir que não existem flutuações afetadas pelo relativismo pois que o recurso à fé não é o único pelo qual se optou, e, nem mesmo a fé, é sempre vivida como montanha de infraestruturas inabaláveis.

 

Gostava de chegar a tratar este tema com a profundidade que merece. Inquieta-me não saber ainda explicar com segurança e clareza o quanto sinto que as tradições não constituem já base de decisão, mas sim, devemos procurar dentro da articulação tão difícil da Ética e da Moral o compromisso que nos acuda, assente em consciências, que, afinal são em si, situações culturais e por onde cada um pode encontrar carreiro sensato.

 

Herdámos uma coexistência de sistemas morais. Cabe-nos fazer deles uma força e entendê-los nos seus paradoxos e nas nossas fraquezas.

 

Que todos nos saibamos submeter à prova de expor sem medo as regras da cidade de cada um, o que supõe um trabalho de discernimento de valores e seus opostos que irão ditar a nossa decisão face ao nosso projeto de vida, decidindo ou não recorrer à consciência como instância.

 

Permitam que assim deixe uma proposta.

 

Teresa Bracinha Vieira

NÚRIA ALBÓ

 

QUE PREGUIÇA

(Quina mandra)

 

Ai que preguiça viver, hoje que não faz vento

e as pedras são prostradas por um calor tardio!

O bosque despiu-se. Há papéis

sujos de humanas misérias. O pudor presente

afoga velhas lembranças de perfumes velhos.

Este é o meu bosque, que apareceu

quando ruíram todos os antigos mitos.

Mas há um júbilo profundo na áspera verdade

e saí a recebê-lo com os braços estendidos.

 

Escritora e política, Núria é uma poetisa a não perder. A sua investigação em Filosofia na Universidade de Barcelona trouxe-lhe claridade e objetividade à escrita tendo colaborado na conhecida revista Inquietud de Vich (em catalão Vic) que se trata de um município espanhol situado na província de Barcelona. 

 

Foi alcaide de La Garriga em 1979 e também neste cargo nunca descurou a importância das artes na formação do individuo, particularmente na formação das emoções como modo de aclaramento dos sentires em maturidade.

 

Autora de livros infantis, de novelas e de poesia, sempre resultou da sua escrita uma falta de cansaço no rebentar dos ferrolhos de cada um para que a luz entre. E assim nós. E assim nós e os navios.

 

Teresa Bracinha Vieira