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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

De cogitar em cogitar enche a ufana galinha o seu papo: tel quel

 

Um dia acordou uma inteligência toda empertigada e mal dormida e resolveu bradar de rompedura qual aristocracia tocada a gota:

 

Não há pachorra! Não aguento ter de aturar as vaidades ocas e possidónias de certos ambientes. Como é sabido estão todos em dívida para comigo ainda que não o digam, ou, ainda que seja eu a pedir-lhes que me escutem, pois é para o bem deles. Só por isso. É para o bem deles. Eles não sabem o grau de indecifração de pensar que têm e eu quero ajudar. De nada preciso. É só para ajudar que faço isto do meu cogitar: ou seja, produzo inteligência, o que é o mesmo que dizer que o meu saber sempre viajou em primeira classe e eis agora a qualidade! É gente inculta e ufana esta que me rodeia hoje, é gente que se vende já que uma mão limpa a outra.

 

Agora eu? Eu? A minha inteligência é rara em grau e dimensão e nem se fala mais nisso. Não me restam dúvidas. Ora. Ora, então o gajo diz-me xxxxxx e ainda me cita sem autorização e fazendo dele o que é do saber da minha inteligência? Eu tenho a minha identidade muito clara e impoluta e se já fiz algumas foi dentro do necessário e sem deixar impressão digital. Agora o que me cerca? Valha-me Deus, posso viver em milhares de lugares melhores e renová-los por competência própria. Não há pachorra para tanta vírgula desencontrada, nem para o alívio das reticências. Num ponto de exclamação não se toca nunca! desde que lá esteja posto por mim, obedecendo às melhores e assépticas regras gramaticais. Mas os meus pobres olhos, até já fazem a correta pontuação onde a não vejo ou a minha inteligência não lesse muito e não fosse dona do livre-trânsito da condescendência de fazer borlas à correção do mal que possa ler. E ainda acham que me estão a dar uma oportunidade à minha inteligência? Isto disse-me o amigo xxxx, à boca fechada, aquele que me chama de excecional e me envia e-mails quase a desconvidar-me: a mim e comigo à minha inteligência, ao meu saber que sabe que há milhares de lugares melhores!

 

Cambada de monocromáticos!

 

Que tempo sem caridade este que não partilha como eu uma sessão de condecorações, uma talhada de presunto do tempo do défice, uma missa cantada à hora de dormir. E mais digo, se a minha inteligência é sarcástica, é tao somente por ter uma teoria muito minha sobre todos e que nunca revelei, nem revelarei.

 

Mas que há milhares de lugares melhores, ai há sim senhora! O que por lá comi foi cozinhado com tédio, é certo, mas com uma exigência….tel quel! Tel quel!

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Que me dizes? Já passou o futuro? Então e a gente já não o vai viver? E passou em que tempo e em que rua? Quem te disse?

 

- Pois disse-me o desejo do futuro.

 

- Qual desejo? O teu desejo ou o desejo de todos? Ou o teu desejo do Pedro?

 

- Olha, estou confusa com as tuas perguntas. Não pensei que reagisses tão alarmada. Não vês que o futuro é o presente, e nele o futuro é uma espécie de vida suspensa, e quem o topa, vai, e vive-o. Pronto é isso o que sei.

 

- Mas isso é uma crueldade. Não vês que estou com gripe e a febre não me deixa ir a lado nenhum. Vieste visitar-me para me dizer isso? Ó Rita tem dó, há muitas maneiras de desperdiçar o tempo e dentro dele o tal tempo de futuro que se apanha numa porção especial do presente, mas dizeres-me assim essas coisas sabendo como eu estou? Até já nem sei quando me começou a febre, e se o tal pedaço de presente que é futuro, não tem em consideração uma espécie de suspensão para ser vivido mais tarde, se acaso a culpa não for nossa? Se não tiver em conta a nossa ausência de culpa, então sim, é que estou tramada: perdi imenso com a gripe.

 

- Alexandra tem calma ou a febre sobe-te. Disse-me o Pedro que estes dias em que a gente não topa o futuro, têm mais de 24h e é nesse acima 24 h que está o futuro que, às vezes, pode ser 1h, 10h, ou 1 segundo a mais das 24h. Ninguém sabe mais nada. Acontece.

 

- O quê pode ser um segundo? Pode ser só um segundo para se viver o futuro daquele dia? Ai! que já me sinto muito pior. Vou chamar o médico.

 

- Não! Não chames ninguém. A porção desse segundo foi o melhor beijo que o Pedro me deu. Foi uma porção de segundo imensa! E nada digas a ninguém. Isto é um segredo enorme, pois imagina tu se naquele dia, a porção fossem 10h?

 

- 10h? Que tarefa! Achas que o Luís pode saber disto e nada me ter contado até que chegue o tempo máximo das 10h?

 

- Não sei. Ele olha-te muito, mas enfim, a preparação rouba muito tempo à porção, e entretanto ele gasta-a pondo-te à prova.

 

- E a prova real será eu provar-lhe que aceito viver com ele no futuro? Deus! Não me quero de adivinha, mas pressinto que a sucessão do tempo, se não a acalmarmos, faz o futuro ser agora, e já ter passado, e tudo ao mesmo tempo. Que embrulhada me trazes, Ritinha!

 

- Alexandra, eu é que vou daqui confusa e a pensar que eu e o Pedro fomos mesmo muito parvos.

 

- Porquê?

 

- Ora porque se tu estás certa, e nós que só vivemos aquele futuro num segundo, devíamos era ter esperado mais. Ter esperado que o segundo fossem horas. Estou mesmo a ver que tu aproveitas a gripe e te preparas para as 10h, e ao tempo, dás ainda, na altura certa, um Lexotan à penúltima das horas, ou seja, às 9h. Estou mesmo a ver que primeiro que cheguem as 10h, tens um futuro imenso pela frente!

 

- Bom, a ideia tem pernas ó Rita, mas eu estou doente. Saberás tu quanto tempo dura isso do futuro ser presente? E sabes se se gasta? O meu maior receio, digo-te, nem é bem esse do futuro se gastar, mas o do desejo de o viver se tornar escasso, se acaso não depender só de nós.

 

- Agora é que me afundei. Viraste o tempo contra nós, contra o futuro, contra a tal porção que te falava no início, e tudo isto por conta do desejo estar só em nós. O futuro do qual falamos - cuida-te-, que mal uma pessoa se distrai e as 10h já eram… mas se o desejo for nosso e de alguém, então é que o futuro não é de ninguém e dura para além das 24h, sem que se intua o tempo que estará no para além das 24h.

 

- Talvez não seja como eu penso. Acalma-te! Afinal se esta gripe que me apanhou for a das aves – não te rias - eu contagio-te já, e até podemos voar para além das 10h.

Como sabes, os voos são sempre aproximações aos momentos e estes são bem maiores que os segundos, e até maiores que as horas, aliás estas até se espantam por não saberem quanto tempo a mais das 24h, têm os momentos. Foste uma querida em vir visitar-me. Foste uma querida por me trazeres um algo muito especial e ambas a podermos ir em direção a ele. Já viste? Livrámo-nos da vontade dos outros de nos tornarem distraídas face aos nossos desejos. Aos nossos desejos das porções de tempo de futuro que estão contidos em todos os nossos presentes. E la grande question est de décider ce que l’on sacrifiera: il faut savoir qui, qui, sera mangé, como dizia Valéry.

 

- Nós ou o tempo do futuro?

 

Teresa Bracinha Vieira

30 novembro

SEGREDO ABERTO

 

Olhei e vi

O que não gostei

E de mim não perdoei

O que noutros

Encontrei

Igual

 

Todos julgam

Julgar o que não julgam

Julgando

 

Apartam-se do similar ou diverso

Como se a diferença

Em profundidade

Existisse

 

Pobres somos

Pois todos tão perto

Do lago

Onde morreremos

Num afogamento

Trôpego e heroico e nada

Só agua

 

Que enfim é mesmo

Uma realidade

Verdade da natureza

Daquela que tudo sabe

 

E nós

Nem do amor

Fábula

Máscara

Conhecemos caminho

 

Tu

Só tu

Só eu

Só lágrimas unidas

Um dia

 

Quando a bater

O coração parou

Na direção

Da estrada esperançada

Que ainda não nos

Reconheceu

 

E ainda assim 

 

Bate, bate na minha alma

Um nascimento

 

Poesia

 

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

A MORTALHA DA INDIFERENÇA: a separação dos destinos num único


Um vídeo divulgado pela agência Reuters mostra um bote ocupado por refugiados chegando à Playa de los Alemanes, em Andaluzia, na Espanha, (…) depois de cruzar o Estreito de Gibraltar. O bote com pelo menos 50 refugiados africanos chocou os banhistas da praia. Assim que a embarcação se aproximou da areia, os imigrantes saltaram e fugiram correndo. (10.08.17)

 

Escravos do nosso tempo, gente sem defesa, exposta à violência de todas as partes, alvejados pela indiferença dos banhistas que tanto incomodaram nas praias dos nossos dias.

 

Não sabem eles, nem o amortalhado mundo a que chegam, que, por aqui também o rasgão no diafragma da alma laqueou as artérias da compaixão e sob o calor, na praia, só o bronzeado é pista de vida. Os moribundos de roupas andrajosas fogem, arrastam-se fixa e silenciosamente da morte da partida e da morte da chegada.

 

Não existem médicos, nem medicamentos que atenuem a dor dos que sem clemência, debruçados no chão, vão suportando o olhar inquiridor que até exprime desdém ou ódio ou pasmo ou simplesmente lhe perscrutam a morte pois que com ela se iria embora um problema.

 

Não sabem as gentes que ao aceitarem diariamente a oferta em saldo, de imagens de horror, passam a agonizar em pasmo, sem qualquer surpresa, de que o próprio caminho seja o do abismo. Contudo quando lhes toca algo de mau, em vão tentam traduzir por palavras o seu silêncio: «Porquê eu? Porquê isto? E para onde agora?»

 

Não sei se se deram conta estes sortudos do lado de cá que só têm escolhido profundos ferimentos a seu cargo e semeado as terras de sementes hostis à abundância da fome. Agonizam pois numa viagem que celebram com champanhe. Então, imóveis, os abutres aguardam por óbvias razões que os festins lhes caiam aos pés como espectros de mortos ainda insepultos. Talvez a hora do que deveras deveriam ter feito se chame indiferença hipotecada a preço de sol roxo.

 

Um jornalista ainda pergunta aos persistentes banhistas: quanto tempo vai ficar assim? E por cá? E quando volta? Conte-nos de si dos seus desejos. Acha que politicamente partimos para um futuro sólido?

 

Com justa e impiedosa clareza o amor treme de frio. A indiferença traça a separação dos destinos num único. A revelação dramática da solidão usa protetor solar mascarando o lado atroz da guerra que o mundo enfrenta, sem vergonha de si, como se fosse brutalmente insuspeito.

 

Depois a velhice, a doença, a falta de afeto, as incompreensões, os abandonos, enfim todos os males, são culpa alheia. Fantástica cocaína!

 

Teresa Bracinha Vieira
11.08.17

Van Gogh

 

já que me deste o que de ti jamais me separará, do meio das mãos que te imploram horizontes, te saúdo sempre, e no meio dos meus vestidos nus - tuas ilhas conhecidas – o espaço teu, total, único horizonte do teu olhar que dá vida aos sonhos, à ternura, a todos os lados das paredes cegas, à voz que te reconhece nos dedos a pintura de eternidade. Só para ti chorarei profundamente, se a minha força te não levar o trigo do céu. Perdoa-me, de algum modo, do fundo dos teus cachos de luz, teus frutos maduros; perdoa-me de dentro desse teu coração que tanto quis ser amado, e a vida, menos, tão menos do que amor, de uma flecha mata o pássaro que só depois viveu

e sempre lúcido, afinal, sempre liberto no tempo de sentir

 

starry, starry night.
Paint your palette blue and grey,
Look out on a summer's day,
With eyes that know the darkness in my soul.
Shadows on the hills,
Sketch the trees and the daffodils,
Catch the breeze and the winter chills,
In colors on the snowy linen land. Now I understand what you tried to say to me

 

how you suffered for your sanity
how you tried to set them free.
They would not listen
they did not know how

 

perhaps they'll listen now.

 

A Paixão de Van Gogh é o primeiro filme do mundo totalmente pintado à mão. 

É um filme que não tem ninho tem apenas asas.

Um filme que nos condena a todos ao ritmo do que somos onde longamente continuamos a viver.

 

  http://www.vangoghgallery.com/painting/starrynightlyrics.html

 

Teresa Bracinha Vieira

Dezembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA


Existe sim uma tristeza nas gentes daquilo que possa acontecer. E é estranho que este sentir que intuo no ar e nos olhos, dorme ao lado da felicidade. Na fusão da noite dos sentimentos, o medo não enfraquece, antes mina e deixa-nos a temer todas as realidades como modo de ocupação permanente, desde a hora em que o despertador nos acorda até à hora da sonolência cansada nos levar ao sono, e este ao sonho que abarca também a possibilidade de nele perdermos alguém que amamos, como se esse perder nos levasse o amor que por esse alguém sentimos.

 

Dá a sensação de que os passos das gentes assentam em coisas demasiado transitórias e insustentáveis. Em compromissos estranhos de entendimentos, em pactos de silêncio e de sofrimentos.

 

Será tudo isto afetação própria da época em que se nasceu? Não será tudo isto mais conjeturado do que propriamente verdadeiro? Não haverá aqui algo de nonsense pelo nonsense? tal como o princípio que decreta a arte pela arte?, ou a congruência de tudo o que é incongruente? A aptidão da inaptidão? Pergunto-me se os matemáticos estão a fazer férias demasiado grandes deixando espaço a inversões descomprometidas por parte do lógico? E só de o pensar, dá-me calafrios.

 

O que seja a biblioteca de cada um, não lhes passa pela cabeça retirá-la da estante. Contudo vejo bolhas de sabão. Muitas. E, enquanto mundo e nele gentes, em intervalos lúcidos de insanidade, vendo-se a braços com as bolhas de sabão, desnorteiam com sentido, e eu só consigo desejar-lhes casa, desejando-me e desejando-lhes também sítio de mundo para onde queiram sempre voltar no encalço das razões dos livros clássicos.

 

E pergunto-me se os poetas se conseguem erguer tendo no céu e no chão tantas nuvens por determinar, quer no crepúsculo do nascer ou do pôr-do-sol.

 

Teresa Bracinha Vieira

AGOSTINHO DA SILVA

 

Muito me reprovo e o aprovo tanto quanto outrora aprovei o que hoje me reprovo.

Agostinho da Silva

 

Já várias vezes tentei escrever nesta página acerca da minha admiração profunda pela cultura de Agostinho da Silva. Nunca sei se o que escrevo é o que senti de o ler, de o ouvir e o ter conhecido um pouquinho – orgulho meu – por com ele ter estado duas vezes após conferências a conversar um nadinha, ao meu sentir, um nadinha grande, ou, se o que escrevo dele, agarra-se sempre ao fascínio que em determinada altura senti pelo estudo dos milenarismos e por aí o segui, ou o final dos tempos não trouxesse um novo mundo de paz e felicidade e não fosse esse motivo bastante para lhe perguntar o quanto a vinda do Messias interrompia esta esperança; o quanto um reino com duração de mil anos é reino indefinido e curto para mudanças.

 

Depois (antes?) não sei, procurei-lhe nas palavras aquela liberdade única a que se referia com excelência como sendo a mais importante qualidade do ser humano e sendo que só através dela se mudaria a sociedade. 

 

Um dia, numa conferência, com o Mário Soares na mesa, começou Agostinho a falar de protocolo, afirmando nada saber a respeito, e durante mais de uma hora, deixou-nos extasiados com o seu poder de explicar o protocolo num imenso mundo de o saber como sendo um tema que o ligaria ao ser-estrangeiro, numa inteireza acordada de gestos e sinais em comunhão de escuta e de encontro com a «norma», a fim de se poder ser-se reconhecido num determinado papel de influência de grupo. E por aí adiante. E quando se sentou dando por terminada a intervenção, ficámos todos- diria assim - numa expectativa de identificação com um lugar que, ao menos com a clareza que o explicou, nunca o tínhamos visitado.

 

Sempre na luta desafiando melhores dias, também Agostinho da Silva escrevia poemas fortificados como este

 

Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses 
tivessem senso de humor 
e não vissem como génio 
todo aquele que é doutor 

sobretudo se é o próprio 
que se afirma como tal 
só porque sabendo ler 
o que lê entende mal 

todos os que são formados 
deviam ter que fazer 
exame de analfabeto 
para provar que sem ler 

teriam sido capazes 
de constituir cultura 
por tudo que a vida ensina 
e mais do que livro dura 

e tem certeza de sol 
mesmo que a noite se instale 
visto que ser-se o que se é 
muito mais que saber vale 

até para aproveitar-se 
das dúvidas da razão 
que a si própria se devia 
olhar pura opinião 

que hoje é uma manhã outra 
e talvez depois terceira 
sendo que o mundo sucede 
sempre de nova maneira 

alfabetizar cuidado 
não me ponham tudo em culto 
dos que não citar francês 
consideram puro insulto 

se a nação analfabeta 
derrubou filosofia 
e no jeito aristotélico 
o que certo parecia 

deixem-na ser o que seja 
em todo o tempo futuro 
talvez encontre sozinha 
o mais além que procuro. 

Agostinho da Silva, in 'Poemas' 

 

Saudade tenho de o saber entre nós. Saudade terei sempre de o ouvir a convidar-nos a não ter medo.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017

CRÓNICA DA CULTURA

 

Fiz a terceira classe numa escola de aldeia por precisar que bons ares me recuperassem de tremendas alergias. Eu e a avó e a criada ficámos numa das casas de férias de meus pais, que me inscreveram nessa escola para que não perdesse o ano. Enfim, não só não o perdi, como foi o ano em que numa escola primária mais aprendi acerca de tudo e fui muito, muito feliz. Exclui-se desta felicidade que a professora da dita escola, a mim, fingisse que me dava reguadas - eu era a menina fina – e às colegas as ditas reguadas lhes deixassem as mãos marcadas e inchadas. O meu único contributo à correção desta injustiça, passou a ser o de eu começar a chorar muito alto, desde que as reguadas às minhas colegas começassem, e mal a professora as interrompesse e me chamasse para indagar de tão forte choro, eu respondia

 

Dá trauma professora! O meu pai diz que do trauma faz-se queixa à polícia.

 

E pronto, as reguadas terminavam logo ali, e eu sem saber o que era trauma e por óbvio o meu pai nunca dissera aquilo que eu ali afirmara.

 

Assim passei a heroína naquela escola e as minhas colegas, até as da quarta classe - pois estudávamos todas na mesma sala da 1ª à 4ª classe -, davam-me em troca a possibilidade de lhes conhecer os esconderijos das histórias dos beijinhos, em relação às quais eu nada perguntava por não perceber o interesse, mas quanto aos esconderijos, achava-os maravilhosos, cheios de fantasia e fantasmas bons e, foi para um deles que corri quando o Tim-Tim caiu e magoou-se num local onde não era provável que o salvassem. Ali, descobri, naquele dia, o interesse dos beijinhos e enviei muitos ao Tim-Tim dando-lhe força para não ter medo.

 

Desde então, desde esta escola, descobri a maravilha dos caminhos de vinda para casa, coisa inexistente em Lisboa. Cantávamos a tabuada toda durante o percurso 2x1 =2 e 3x4=12/3 e prova dos 9 e prova real e tudo o mais que fosse e sobretudo se calhasse em verso, nós o dizíamos a cantar pelo meio dos campos. Também comíamos umas florinhas amarelas cujo caule era adocicado, e que metíamos dentro do pão, feito na casa de forno de lenha de alguma colega. Alguma delas nos disse que se comêssemos estas florinhas, a falecida costureira de uma velha casa ali perto, nunca nos faria ouvir o dar ao pé no pedal da máquina, envolvendo esse ouvir alguma carga de coisas más que aconteceriam. Por esta razão quis comer também umas bolinhas vermelhas de umas plantas que ali vira e, foi uma menina da 2ª classe que me gritou logo

 

Essas não, minha parva, essas são rebenta bois!

Rebenta bois? Perguntei.

Sim, se rebentam bois o que farão a ti?

 

Enfim, não pedi mais explicações e só chamei a atenção em casa para a minha avó ter cuidado com elas, mas a avó disse-me que as que usava ou eram de piripiri ou de pimenta.

 

Meu Deus! as coisas semelhantes e diferentes afinal e que eu desconhecia! Como era possível em Lisboa encontrar rebenta bois, se bois não eram visíveis, ao menos no bairro onde morava.

 

Por troca de ideias de brincadeiras boas, aferidas por mim como tal, eu fazia às minhas colegas a caligrafia – a umas 7 colegas - dentro dos cadernos de duas linhas, e confesso que nunca achei trabalho tonto, ainda hoje acho um triunfo gráfico que implica beleza e legibilidade.

 

Depois vinha o dia do pão por Deus e lá íamos todas bater à porta de casa de cada um a pedir pão por Deus – fosse lá o que isto fosse, era tradição e pronto - e receber laranjas e uns tostões pelo pedido que logo entregávamos ao pároco. Noutros dias, vinha a Sagrada Família passar uns dias à aldeia, tocando o sino da capela próxima, excitadamente. Esta Família, às vezes, pernoitava em casa de ricos com o consentimento do padre que a conduzia até às respetivas moradas. Escusado será dizer que perguntei logo à avó se éramos ricas para eu poder examinar o que lá ia por dentro da redoma onde vivia a Sagrada Família. Em rigor, uma colega minha chegou a dizer-me que em casa da Sagrada até havia bonecas com longas tranças e que as bonecas as faziam sozinhas! Ora, descoberta esta, fazia-me logo contar algo à altura, e também lhes expliquei, muito baixinho, às minhas amigas e colegas, que não havia milagres pois 2x3 eram 6 e pronto, alguma que desmentisse! Mas, um dia, uma delas contou à minha avó este segredo e lá levei com duas rezas de terços antes de dormir.

 

Não havia net, por óbvio, havia musgo que se arrancava com os dedos para levar para o que fosse o presépio de cada um. Também nos perguntavam sempre na escola, a que dinastia pertencia D. Afonso Henriques. E bem recordo que, aquando de uma destas perguntas, a minha colega de carteira me disse a rir e com a cabeça encoberta pelos braços

 

Este sei sempre. É o que bateu muito na mãe dele para a gente hoje morar aqui.

Ao que acresci

E se te perguntarem que rios conheces na Guiné, deves dizer: todos!

 

E por esta e por outras lá voltei a chorar alto para que a professora não lhe batesse mais pois era trauma de que o meu pai apresentava queixa à polícia.

 

Uma maravilha esta minha 3ª classe! Uma bênção aquelas minhas alergias.

 

Teresa Bracinha Vieira

Novembro 2017