Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A Mulher Infiel

 

Romance de Jules Roy com tradução de José Saramago para a Estúdios Cor

 

Jules Roy é um escritor da linhagem de Saint-Exupéry. Pierre Loewell recorda mesmo que é o único escritor francês que a guerra fez aparecer. Direi que não obstante os prémios que a sua obra recebeu, a profundidade com que escreve faz dele uma marca das obras clássicas. O presente romance foi Grande Prémio de Literatura da Academia Francesa e orgulho sincero de Nataniel Costa o publicar na Coleção LATITUDE da editora Estúdios Cor.

 

E também julgo que o meio-dia estava próximo quando no esbulho dos livros amados o encontrei de novo. Coloquei-o em cima da secretária.

 

Dentro e fora de um avião que se despenhara no mar, a mulher infiel, e dentro dele o homem que tão bem e tão mal amava a sua mulher infiel ou, tão só e tão tudo: a mulher infiel.

 

Sabia que o caminho até ela seria percorrido através dos homens que ela tivera e, no entanto, este caminho ia dar ao mar, para sempre num atrevimento de quem o decifrasse.

 

Um telegrama anuncia na base dos capitães a queda deste avião trôpego, mas que cumpria a sua função como nenhum outro, ou, o seu piloto, a cada dia não fosse nele como quem vai para o amor eterno e com ele medisse forças.

 

A morte podia tornar insuportável o que a vida de um modo ou outro ajudara a aceitar. A presença da mulher infiel que ainda não tinha tido conhecimento da notícia, era uma presença de corpo de desejo que desafiava as regras estabelecidas. Era uma mulher que todos queriam pela carga de felicidade que lhes tornava mais tensa a posse que com ela mediam forças para se não deixar partir. Era como quem dizia o dono sou eu.

 

Todavia, a espécie de alegria confusa e sombria, depois do amor, arrastava-se nos homens até a amarem e amarem e admirarem o marido, excelente pessoa, o melhor piloto da base, agora morto e que nunca explicara a tolerância do que fingira não conhecer ou ele não fosse o único que a levava, à mulher infiel, nos braços, céu adentro no cockpit do pequeno avião, conjuntamente com as asas que lhe desenhara para a eventualidade de um avião inimigo atingir o seu. Então, ele iria para o mar. Ela não. Diante da maldade dos homens, ela sobreviveria, e, eles, honrados como eram, montariam uma encenação de tristeza para reduzirem a crueldade de lhe terem roubado a mulher, a ele, um excelente colega, um corajoso e invejado piloto que tão bem entendia que os seus voos eram tão tiranos quanto a sua mulher, e se abandonados o trairiam. Quando é que abandonara o voo? Só naqueles segundos em que se via a despenhar no mar, e ela? Só naqueles dias a partir dos quais, sem querer, a colocara a seguir ao voo e com ela não fizera suficiente ninho na terra.

 

A perda de velocidade até ao mar, imaginada pelos colegas, fazia senti-los mais impudicos, e afinal ainda não a encontraram para lhe dar a notícia que qualquer um, só a queria dar com um beijo, ou mil beijos que lhe cobrissem a ela o grito e a culpa do que eles lhe tinham despertado. Pois que era menos desejada do que o céu, mas estava próxima.

 

Caiu ajoelhada que a culpa de não chegar ao mar com o marido era dela.

 

No início fora fiel por indiferença e por vocação e por deixar de competir com o destino. Depois os vestidos colados ao corpo sem nada por baixo, deram-lhe o que um dia repentinamente lhe faltara ainda que ao seu lado. E eis uma nova liberdade. E ei-la de joelhos. E eis que bem conhecia que os homens não possuíam o dom de observação e que a vaidade os impedia de acreditar que as mulheres lhe podem sempre ser infiéis. Mas não, de joelhos, gritava não, não, não, ele observava o céu. Eu sei. Ele soltara seguramente as asas, as minhas, para voarem sozinhas e não intuírem a horrenda morte.

 

Ambos os capitães que deram à mulher infiel a notícia da morte do marido estavam perdidos com o rosto e as palavras da amante, ali, ajoelhada à frente deles, quase nua, para eles agora, como algumas santas nas igrejas, e, a memória do marido morto, salvo enfim pela própria morte da humilhação extrema que ambos sentiam. Não sabiam o que dizer. Muitas tinham sido as indecentes menções que fizeram à mulher infiel. E eis que a busca amorosa estivera sempre ferida pela admiração ao marido da amante infiel. E por ela, provocante, sem medo afinal.

 

Julgo que colocado em cena este romance, aqui chegado

 

Só um deles a levantou do chão e ajoelhando-se, ele, lhe disse:

 

sei que me não vais querer, mas quero que saibas que o que sinto por ti é mais forte que a minha vergonha. A partir daqui, sim, a minha vida será banal.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

A criatividade é sobretudo a ideia nova da curiosidade

 

A fome da experiência diferente existe. O excesso que quebra o entorpecimento e nos faz sentir a necessidade de espreitar pela janela, é em si, uma abordagem da consciência sem medo das emoções: a raiz da força da ideia nova.

 

Pelos canais das intuições, as empatias do entender o fundo que se não mostra, separa-se mesmo dos outros sentidos, e, dão o salto sozinhas, num processo interno de diálogo e de recolha interpretativa à precisão das nossas perceções. Este um dos caminhos da intensidade e das razões por que ocorre; este um processo vivo de interatividade que até pode ser doloroso, insuportável mesmo, face à decisão do que fazer com a nova informação. Como reagir à nova cor? À nova palavra? Ao novo som? Como criar a nova substância, face ao que existia, quando em peças isoladas a intuímos?

 

Não é fácil. Há que abrir passagens na própria barreira das nossas emoções. Há que ter aprendido a necessidade da curiosidade, aprendizagem que sempre se iniciará e acabará no nosso coração, nem sempre generoso ao trabalho de sapa que nos leva às razões.

 

Criar é também tornarmo-nos fluxo e refluxo do nosso próprio entender, e expô-lo a interagir, e, por aqui, quantas vezes, enrolados nós até aos outros, e a luz do mapa que percorremos e que afinal não foi suficiente. Ainda assim a criatividade vai decidir como proceder para alterar esta situação e afinar desculpa, corrigindo o processo energético desperdiçado num saber que o não chegou a ser, ao menos pela diferença da criatividade e da curiosidade, ambas, quantas vezes, sem libertação suficiente para a todos convidar ao mais longe possível, por onde sempre podemos começar um décimo segundo passo, no validar da criatividade, atributo de uma curiosidade fértil e atenta e responsável.

 

Também dentro do ato criativo, dentro e bem dentro da curiosidade imparável, existe uma hospitalidade universal em nós, que significa um direito do que é estrangeiro e que chega até nós - sua nova morada - e não invoca acolhimento, antes visita, e nos convida a ir até ao outro lado da terra prometida sem qualquer mapa que nos oriente.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

Que mais diga deste livro?


Pois que também aborda a inversão do medo, quando grande era a satisfação protetora que a personagem sentira ao encontrar as serpentes que lhe protegiam a casa, enroladas nos troncos de madeira seca junto à porta de entrada. E sempre assim sentira no começo do Outono. Julgo que chegou mesmo a reconhecer três víboras de corpos entrelaçados que se enrolavam como aspirais insinuando uma presença concertada.

 

Era natural espreguiçar-se pela manhã cedo, virada para os ângulos do lago perto da cabana. Eram ângulos propícios à vida: águas de desejo espesso, águas que limpavam temores e absorviam quereres sem deles se apossarem; águas onde se perdia nos espelhos dos mergulhos. Tudo era fonte de entendimento para ela, até o adeus sanguíneo do lentíssimo pôr-do-sol a que assistia sempre, rezando ao deus que sabia, sem drama, que para ela nunca existira ou, em dado momento, qual? se desvanecera.

 

Escutava as aves, cuidadosamente, a caminho da sua tosca casa para entender o nevoeiro que a cercava e as lanças enegrecidas dos pinheiros contra o céu. Assim a cerimónia do dia se prolongava, mítica e captativa do mundo que a separava do mundo.

 

Pescava por seu próprio engenho usando uma pequenina fateixa que com gesto vigoroso atirava ao lago com uma destreza certeira que a fazia sorrir – julgo.

 

Que mais diga deste livro?

 

Pois que talvez saibamos viver em intimidade com a natureza. Talvez conheçamos a linguagem corporal, até dos habitantes das águas, desses que afinal nunca nos deixam sós, ou não conhecessem afinal as fórmulas melhor do que quem os olha.

 

Não se descuida pensar que ainda assim, naquele mundo, sempre os enfraquecidos seres suscitam dos predadores a avidez. Haverá sempre que os cansar, digo, conseguir aqui e além secá-los, fazendo do nosso caminho percurso selado nas essências, e remar sempre até à fronteira material entre a vida e a morte.

 

Do mais fundo de mim, só sei que deste livro me chagaram múltiplos sinais de destinos e que, outro reino do conhecimento, me apontou a não liberdade da origem e a energia imensa da presença, afinal jogadores e mundos e reinos que podem não entorpecer a vida.

 

Obs. A António Vieira (autor) entre vento e canto, eis as palavras de que fui capaz.
À & etc, editora que martela traves de portas por abrir.
Às minhas notas de alma reencontradas - deste livro que perdi - e cujo titulo não recordo. A publicação terá sido de fins de anos 80? 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Hoje eu e meu marido - casal jovem que só visto – fizemos esta bela figura:

Veio o metropolitano, e o meu marido desatou a correr gritando-me, corra, corra que são só três carruagens e corria, corria, e eu, obediente mas sob protesto, corria também, mas sempre a gritar o metro está escuro, todo escuro e corria, corria. Até que parámos pois todos olhavam para nós e de resto o metro não parava, nem parou.

Enfim. Carruagens à experiência e adultos em plena interpretação interpretativa da realidade.

Eu ainda disse ao meu marido quando me sentei bastante cansada:

Os do outro lado da plataforma estão a pensar: aqueles velhos correm que se fartam! Daqui a nada estão no Tejo!

E não é que de repente veio o metro deles só com três carruagens e eles, os da outra plataforma, que tanto se riram de nós, corriam que nem desalmados, atras das três carruagens e a fazerem gestos para o motorista parar? Pareciam doidos. O metro cheio, cheio, e eles, a correrem como se coubessem se o apanhassem.

Ele há coisas!  

Teresa Bracinha Vieira

Escrita alquímica, a tua Poesia

 

António, António Gamoneda, querido e doce amigo,

Como pensas que me esqueci de te escrever? Regresso a casa, como tu, atravessando a vida, e há sempre aquela erva cuyo nombre no se sabe; asi há sido mi vida por estes tempos. E por assim o saberes, te rogo que não julgues nada do meu silêncio. Recordo bem quando me deste a tua mão para entrar na neve e tinhas tanta razão! ou não é que se atravessa o inverno até chegarmos aos ossos humanos?

 

Querido António que a tua poesia é uma paz en mis ojos mesmo quando escuto o descrever da morte, desconhecendo o quanto o dia do seu perfume não me pertence. E tudo cessa y cae Dios, um dia, naquele em que nada é verdade.

 

Escrevo-te também hoje por ser sábado, o primeiro de 2018. E tanto me lembro quando te conheci. Era sábado e senti que has llegado al gran sábado de la vida y amei as desaparições, sem receios.

 

Tudo o que me ensinaste seria redutor se o dissesse, até a escuridão dos teus paralelismos com as paisagens, pinturas, palavras, músicas, cores, nunca elas seriam tão escuras que nos esclarecessem a todos. A descoberta da vida também é dolorosa e exige a descrição da mentira com uma precisão rara, e para isso é precisa a escuridão.

 

E quantas vezes encostei o meu ouvido à tua poesia e por ela tu prision en la melancolía, pois tudo na vida, durante algum tempo, é, el alimento por la esperanza. E só!

 

António, deixa que te lembre que atravessando los aniversarios, a veces viajan las palomas ébrias soy la ciudad y el viento, ah y los jardines! Estuve a punto de llorar hasta tu trono.

 

Juntos estamos, estaremos numa escrita rodeada de frutos. Tu o mais vestígio do que procede. E eu sou sim, o mar, tal como disseste, e entre nós, os dois, estou. 

 

Teresa, Teresa Bracinha Vieira

 

P.S. Não tenhas medo que eu também já sei que o amanhecer quando chega vem em pastilhas pardas. Peço-te: mira mis ojos en el instante de la nieve. Luego. 

 

Teresa Bracinha Vieira

O mau sinal

 

(…) – Não tens nada?

- Não, nada. Está tudo em ordem. Exceto o armagnac… Já não há. Desculpa-me, Alain!

- O papel de desculpador é meu – disse Alain -, foi culpa minha ter-te deixado subir a essa velha cadeira estragada. – Depois, preocupado: - Mas, meu amigo, estás a coxear!

- Só um bocadinho, mas não é grave.

(…) – O que é que se passou?

- Parti a garrafa – anunciou-lhe Caliban. – Já não há armagnac. Um mau sinal.

- Sim, um péssimo sinal. Preciso de ir depressa para Tarbes – disse Charles. - A minha mãe está a morrer. 

Milan Kundera in “A Festa da Insignificância”

 

Kundera: uma indefinida nostalgia sobre a finalidade da escrita explorando a existência. O imenso saber da partida quando o saber das identidades que se dissolvem abordam desse modo temas essenciais.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA


Diria que saber pensar é o vocativo, a circunstância vital que dá contexto à nossa existência. A insuficiência do esforço é o que nos torna arrogantes na aproximação ao saber pensar. Julgo que teremos de nos ensinar a ler a partir de um nível humilde para avançarmos passo a passo e evitarmos cometer os erros das grandes passadas na vida, que não são mais do que grandes golpadas à vida que se diz não querer viver. Queria dizer que muitas vezes senti que só o ensino é a transmissão de uma fruição, só o poema em qualquer realidade que se manifeste, é superior à falsidade, até aquela que, na súmula, entende ter ganho em todos os tabuleiros do bel canto, ou essa outra que uiva mais alto do que os lobos, e atraiçoa a amiga ou cativa o estranho com fantasias de rapto, afinal, vulgar, pois a solidão escapou-se a ser entendida por falta de uma cultura articulada, por não repudiar inequivocamente uma mesquinhez à qual se justificou ser por amore e con amore.

Quelle effrayante responsabilité, pour nous!

Em resumo, digo que proponho um conjunto de pensares sobre o pensar do pensar. Proponho o pólo oposto até hoje não alcançado, e, façamos sim, tudo de novo, entre a inocência e nós próprios. Tentem-se as novas formas de literacia humanística, e atente-se que são musicais e não textuais ao raciocínio. Então talvez o discurso nos seja incapacitado pelas mentiras da moral que afinal tanto deixámos que nos enfeitasse, tanto quanto o ato de julgar quem menos merecia e que afirmámos, enfim, não fazer a ninguém a partir da consciência do nosso próprio processo de crescimento. Saibamos também desembaraçar as metamorfoses dos valores depois de despidos das análises das suas causas.

Na primeira chuva que vier, uma cerimónia evocará outro contrato cultural, outro recurso que nos será acessível, se para tanto: nós!

Exclamação à nossa sorte! a penetrar a grande profundidade e talvez não inteiramente má.

 

Teresa Bracinha Vieira

Janeiro 2018

CRÓNICA DA CULTURA

 

CINTILAÇÕES

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande. Ele sabia do seu posto de vigia que mundos eu espreitava e que ele unira como uma tribo que em comum afinal possuía a religiosidade.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e senti o quanto ele se separou dos seres intermédios na busca do significado armilar dos mundos com vocação de abraço.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e entendi um especial significado sagrado e simbólico de matar para entreabrir portas como quem oferece o beijo quente do êxtase inaugural de um conhecer.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e toquei no início dos caminhos dos grandes sistemas que explicam o que se prescreve e se permite e o quanto a história nos fala também num tom piedoso e repreensivo como quem nos diz que afinal, um dia, não se pode evitar fazer de outra maneira e só na caça cumprimos os vestígios do nascimento do homem, sempre que o homem não mate apenas para obter a presa.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e ciumei o seu perceptor Aristóteles e a sua Macedónia e o seu ímpeto de unir impérios e fundar Alexandria onde hoje procuro uma vez mais o Livro.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande aquele que expandiu o helenismo também rumo ao Oriente, aquele que erigiu Bucéfala no atual Paquistão, em memória do seu fidelíssimo cavalo que se assustava com a própria sombra e se deixou domar contra o Sol: cintilações.

 

Um dia espreitei e escutei Alexandre o Grande através do Somewhere in Time, disco da banda inglesa Iron Maiden e creio ter intuído o Helesponto, a atual Dardanelos, estreito na vida de cada um com o grande passo por dar.

 

Um dia, eu quero espreitar cada um a desembainhar a espada com a qual cortará o nó górdio que impede a revelação das múltiplas verdades, esse que impede a alma do ofício do entendimento, e sem nunca revelar o mistério completo, eu quero espreitar a grande nobreza a prometer-se de novo no Ano que chega, a despedir-se do ano que finda e a cumprir-se na notícia do tempo que todos os seres vivos têm para a mudança.

 

Um dia espreitei Alexandre o Grande e soube disso na caça das palavras evocativas do… Que sabias realmente?

 

Teresa Bracinha Vieira

Obs Publicado em 27.12.09 no blogue de José Adelino Maltez “TEMPOQUEPASSA”