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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da inevitabilidade

 

Olhei para os bancos da cozinha todos juntinhos debaixo da mesa que os acolhia num abraço de sossego. Cada um estava pintado da sua cor: azul, verde, vermelho, rosa forte, amarelo-canário e branco. Nos topos da mesa as cadeiras dos pais e ao lado direito destas as dos avós. Aquela imagem surgia-me como a de um mundo melhor, um mundo no qual os espantos se trocavam à hora de almoço e se sufruíam em simultâneo no auge da vida fosse qual fosse a idade. Constatavam os mais velhos e diziam-no, que haveria sempre um quase morto que agradecia a Deus a criação da vida naquele momento, e nós, em franca alegria trocávamos as terrinas da sopa e as travessas da apetitosa comida da Julieta, e, atrevidos, olhando-nos uns para ou outros, lançávamos no ar naquele dia.

 

Então mas o quase morto não poderá antes dizer qualquer coisa do querer ir e do modo de ir ou da vontade de ficar? Não tem alternativa?

 

E continuávamos a falar inconscientes da pergunta. Também o éramos em relação ao tornarmo-nos adultos. Para nós, os dos bancos, a zona estimulante, propicia, romântica e realista era o facto de cada um de nós ter um banco com sua cor. Era o mesmo que nos sabermos pertencidos a algo pelo medo da possibilidade de se perder esse algo: o banco e a cor.

 

Naquele dia, que tão bem vejo daqui, a Maria levantou a lousa onde escrevera a giz azul.

 

Quem daqui sabe escrever sobre coisa nenhuma?

 

Respondeu o Zé, o mais velho de nós todos

 

Vocês sabem o que é a inevitabilidade? De certeza que não. Eu também não sei, escutei ontem a palavra ao tio Jorge, mas vou dissertar no meu caderno sobre ela e isso é escrever sobre coisa nenhuma.

 

Grita a Luísa

 

Olha, olha, isso é que não é, isso é porque és parvo e não sabes das coisas

A Alice, olhando para a mãe acrescentou

 

Mas eu não sei nadar e ontem, na praia, furei ondas e posso sim, escrever sobre o como é estar ali. E não sou parva.

 

Troquem de bancos!, disse a avó, a mais ríspida das duas que amávamos. Tenham juízo, não se insultem se fazem o favor!

 

Ó avó, hoje não, isto estava tão giro, lamuriou o Pedro. Pronto, inevitabilidade é como o que acontece às rodas das bicicletas quando pisam um prego e pronto, temos logo um furo. Mas mudar de bancos é o mesmo que aprender aos saltos sem proteínas e oxigénio. Ó avó, eu até leio Sócrates de novo, mas nestas férias prometeram-nos que cada um estaria no seu banco, sempre.

 

Não percebemos nem bem nem mal o que disse o Pedro, mas era o único que ia entrar para a universidade, e nós aspirávamos ao domínio do banco de cada um.

 

Dali, do ângulo onde estava, voltei a ver e a ouvir tudo muito nítido. Tão nítido que até parecia que por mim não tinha passado uma visão do mundo. Não tinham passado 40 ou 50 anos. Que os bancos não tinham desbotado na sua cor e que a inevitabilidade não me tinha feito perder o Pedro e a Alice, isto só para referir os por entre nós, os dos bancos.

 

Sentei-me a um canto da cozinha e procurei-me num caminho difícil mas possível para a liberdade. Um caminho que passa por muitos embaraços e revoluções de sofrimento e de sinceros esclarecimentos; um caminho que nos recorda que nenhuma palavra foi nossa em relação ao nosso nascimento e que face à inevitabilidade, devemos poder reivindicar autonomias de humanidade essencial que constatem o quanto a cor do banco de cozinha, fora uma escolha e um querer estar nela, em autonomia e dignidade, e sem perfume e luz e musica e tranquilidade não queremos ser.

 

A ajuda a uma hipotética reciclagem é uma devastação inumana que supostamente nos mantém vivos em coisa nenhuma. Vivos e sem bancos de cor. Vivos e sem a prodigalidade mensageira que nos diz que se pode passar a um sono ainda por vir, mas convidado certo à mesa dos bancos de cor que já então eram rumos pioneiros, danações, alquimia e elixir.

 

Teresa Bracinha Vieira

Março 2017

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, 1516

 

 

CANTIGA

Para mim tanto me monta

ser presente com’ ausente,

tudo vem a ũa conta,

porém mal por quem o sente.

 

Esta conta tenho feita

e fizeram-ma fazer,

com saber

que nada nam aproveita.

Assi que tanto me monta

ser presente com’ ausente,

tudo vem a ũa conta,

porém mal por quem no sente.

 

Como se sabe o Cancioneiro Geral, é uma compilação de poemas de poesia palaciana. Os poemas, são escritos em português na maior parte, mas também em castelhano e abordam diversos temas. Este Cancioneiro reúne a primeira coletânea de poesia impressa em Portugal. Recordar que o siso não é calar mas buscar a poesia. Ei-la assim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Tentaremos dar seguimento ao que escrevemos sobre as aulas de Jose Luis Aranguren. Referíamos, na penúltima Crónica da Cultura, que, antes mesmo de sabermos se o saber científico e técnico são o suficiente para a ordenação total da vida, a que estado deveria chegar o nosso raciocínio para provar a insuficiência desta afirmação e descobrir o quanto o conceito daquilo que se entende por «experiência de vida», deverá conquistar-se através dos conceitos filosóficos de prudência e sabedoria, de modo a que só no momento pleno em que saibamos o que é experiência de vida, e que relação ela estabelece com a moral, então poderíamos sim, preguntarmo-nos pelo modo de a adquirir e inclusive pela possibilidade ou não de a conseguirmos transmitir.

 

Entendemos estas questões como sendo do maior interesse para indagarmos qual o cerne que nos espreita da própria experiência de vida e assim determinarmos o seu posto e a sua função na nossa vida, na vida do homem.

 

Na realidade, muitos são os que entendem que a totalidade da vida se organiza a partir da ciência e segundo a ciência, e que mesmo a felicidade pode surgir por uma espécie de human engineering, e mesmo sendo as relações humanas muito complexas, a ciência pode reduzi-las ao princípio mais simples. Ainda que assim fosse, perguntaríamos onde ou como a verdadeira justificação científica pode surgir, se pensarmos em saberes costumeiros de uma vontade que muitas vezes, nem claramente foi identificada? Então estaríamos perante uma utópica ciência, se esta pretende formular uma pretensão de domínio do uso científico da razão sem que se chegue à realidade enquanto tal.

 

Julgamos que se pode responder às perguntas com a ciência, não sabemos, contudo, se neste caso não haverá um abuso da própria ciência?, na verdade é indeterminado e imprevisível o futuro da história ou o futuro pessoal. Não existe um cálculo da história como um cálculo matemático e a razão científica não o é em plena profundidade se o seu raciocínio se fizer desconhecendo os passos de uma experiencia a viver, ou mesmo da experiência vivida em diferentes realidades.

 

Como afirma Xavier Zubiri, a ciência é dirigida para a confirmação das suas hipóteses e a experiência é «algo adquirido en el transcurso real y efectivo de la vida, el haber que el espírito cobra en su comercio efectivo com las coas», em suma no lugar natural da realidade.

 

Enfim, se experiência da vida não é o mesmo que ciência, também não é o mesmo que filosofia, por mais perto que esteja desta, já que a filosofia assenta numa pretensão de um sistema, de um método, ambos afastados da experiência da vida, e a filosofia ainda que possa ser também «uma filosofia da vida», nem sempre o foi, nem tem que o ser primariamente.

 

Veremos se a prudência de que falamos não carece de vários graus de entendimento para ajustarmos as realidades, e tão bem que elas nos são propostas por Aranguren.

 

Teresa Bracinha Vieira

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Reflexão à verdade

 

A ciência começa com a observação, ou começa quando se não verificam as expectativas que aguardávamos? Como todos sabem, existem variadíssimas opiniões sobre este assunto. Ainda assim se pode dizer que uma teoria que se depara com dificuldades, essa teoria frusta expectativas e levanta problemas para os quais tentamos soluções. Estas soluções, por muito certas que sejam darão azo a novos problemas, a críticas mais engenhosas que as colocarão em causa. Acreditamos que desta forma o nosso conhecimento aumenta à medida que as nossas expectativas são refutadas, à medida que enfrentamos problemas.

 

E que fazer ao que até nós entrou pelos sentidos? Que fazer à nossa tábua rasa preenchida por estes? E que fazer ao que nos chega através de hipóteses ou seja pelo conhecimento hipotético? E como não ter em conta que existe conhecimento inato à partida? Certo é que correções e modificações do conhecimento anterior conduzem ao aumento do conhecimento, tendo por base as expectativas e hipóteses. Todavia, para observarmos temos de ter uma questão concreta em mente que seja resolvida pela própria observação, e aqui, recordo Darwin e o pouco que sei do seu conhecimento imenso, mas lembro que ele escreveu “Como é estranho que alguém não veja que toda a observação deve ser a favor ou contra uma opinião qualquer…”. Assim será que a observação vem depois da expectativa ou da hipótese e os problemas da perceção deveremos remete-los à filosofia ou, mais precisamente à epistemologia?

 

Colocando aqui ainda a base que virá de um problema teórico ou prático, temos sempre de nos familiarizar com ele, fazê-lo suportar soluções inadequadas para as criticarmos, trabalharmos o problema, sabermos das suas ramificações e as suas relações com outros problemas, aprender determinando os erros cometidos.

 

Diga-se que tudo o que tentei dizer esteve ligado ao abordar da verdade, pensamento com o qual iniciei este texto. Ora, bem creio que a poesia não aborda a verdade, mas bem creio que chega mais próximo da verdade que outra qualquer forma de literatura, e esta realidade que afirmo não é desprovida de significado, se porventura não nos esquecermos de a tentar melhorar com o rigor e a exigência da palavra que exprime o sentir que mais corresponda a uma aproximação da verdade.

 

A poesia tem em si uma metodologia sólida que não deve colocar em causa o modelo da transmissão do sentir da realidade apreendida e sempre posta em análise, e só assim pela reflexão de algo anterior que nos surge, chega o aproximar do real conhecimento do poeta em busca do princípio sagrado do dizer.

 

Teresa Bracinha Vieira
 

(1) (v. More Letters of Charles Darwin, organizado por Francis Darwine A. C. Seward Appleton, Nova Iorque, 1903, volume I, p, 195)
(2) (Cf. G. Polya, How to Solve it, Princeton University Press, Princeton, NJ, 1948.

BALADA

 

Querida irmã,

 

Fui ao palácio dos limões de ouro e pedi um para ti. Responderam-me que ainda não estavam maduros e que quando amadurecessem me dariam um. Aguardei. Voltei ao caminho real e trouxe-te o limão que aqui tenho para te dar.

 

Irmã minha, sei que estás doente, sei que estás de cama, mas vem à janela da sala e como sou eu, abre-me a porta e vem buscar este tempo dos limões de ouro maduro. Quando o tiveres na mão, vai abrir-se ao meio o tal caminho real, irás por ele até ao colo quente da mãe que tem para ti uma garça, e voltarás para tua casa com ela, mensageira de tanto.

 

O teu destino, irmã, vai bem cedo deixar-te os olhos sem medo e a resposta à pergunta vais tê-la no cesto onde guardas as memórias do teu coração.

 

Sei eu, e a mãe também, que, o ofício de ir ao cesto, nasce secreto para cada uma, e na torre da nossa linhagem, assim se concebe um filho ou não tivesses recebido por marido a notícia que mais querias.

 

Querida irmã, que tenho este limão de ouro para ti e uma arca de mil ducados e se levares a saia rodada, vai pela mão do nosso irmão, e diz-lhe que tenho um outro limão para ele e nossa mãe uma outra garça. Diz-lhe também que o pai lhe envia um beijo com formato de candeia e a carta, essa mesma que ele espera de pequenino. 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A sóbria partilha

 

Aristóteles respondeu:

 

«A coragem proporciona os riscos corridos para o fim procurado. Ela mantém-se no meio justo entre estes dois excessos que são a cobardia e a temeridade» 1.

 

De fato se a temeridade muitas das vezes anda por inúteis riscos, a coragem já deve ter assento numa inteligente reflexão. Estudámos que o herói grego é a coragem liberta do medo da morte e despojada de interesse pessoal. Referimo-nos a uma virtude de fundo guerreiro e de onde a violência que abarca é purificada pelo próprio dom que envolve o sacrifício da coragem. Então a coragem nunca será reflexão pois não se trata de pensar, mas de agir. Diríamos que a reflexão do próprio pensamento pode inibir a coragem já que lhe mostra os perigos. Vamos um passo mais e saltamos ao conceito de heroísmo, e é este, e não a coragem, que implica o desinteresse da vida, já que o herói será aquele que se expõe quando podia abrigar-se.

 

Curiosamente também poderíamos concluir que o herói não é «razoável» já que se esquece do seu instinto mais vital. Então justificamos que há razões de viver que afinal valem mais do que a vida.

 

E há aqui doçura. Há a música nos campos de batalha dos filmes. Há aqui algo mesmo de misticismo, mas que só se revela em extremo mobilizado por uma engrenagem interna que faz despoletar uma espécie de conversão.

 

Contudo, existe heroísmo quando alguém se lança à água para salvar a vida de um desconhecido, e ainda assim, o heroísmo mais puro é o de todos os dias, o de toda uma vida de situações difíceis oferecidas como leves para se não tornarem pesadas aos que nos rodeiam.

 

Abrigamos dentro deste exemplo o recomeço depois do fracasso. É ele o grande segredo da coragem, o grande segredo do desprendimento do verdadeiro herói que sem querer ter perdido ainda exige de si dar lugar a valores superiores; afinal, valores superiores àqueles a que todos nos queremos, de um modo ou de outro, vermo-nos destinados, e por não sermos capazes de ir do tudo ao nada, nunca nos é oferecido esse caminho.

 

E se tudo isto tiver fios à alegria, chegada está a eternidade que nos muda: a sóbria partilha, como vocação.

 

Teresa Bracinha Vieira

1.Aristóteles, Ética a Nicómaco, Garnier , 1965

CLAUDE ROYET-JOURNOUD

 

Claude Royet-Journoud nasceu em 1941 em Lyon. A legendária revista Siècles à main lhe devemos entre muitas dívidas como as de ser um tradutor excelente de George Oppen ou ter publicado Louis Zukofsky.

 

Claude tem livros traduzidos em grego, espanhol, dinamarquês, inglês e português. Em 1991 publica uma outra antologia em colaboração com Emmanuel Hocquard, referimo-nos a Un Bureau sur l’Atlantique. Em 1984 já tinha surgido pela Gallimard Les Objects contiennent l’infini por entre as suas inúmeras publicações. A Relógio d’Água apoiada pelos Serviços Culturais da Embaixada de França em Portugal e pela Direção do Livro do Ministério da Cultura francês, publica em 1993 o livro Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje, sob a coordenação de Guilhermina Jorge, Jean-Pierre Léger e Etienne Rabaté. Deste livro retiramos uma sempre excelente tradução de Pedro Tamen a poema de Claude Royet-Journoud de Les Objects contiennent l’infini

 

a gaze coloca-se na boca

«destaca-se da fábula»

 

se fala no meio da imagem

 

O frio bloqueia as articulações

comércio

dos objetos da memória

                                   

                                     mesmo junto do acontecimento

                                     ela faz-lhes as vezes de alfabeto

 

Diria que desta poesia se evoca a concavidade de um abraço acolhedor do futuro de um homem que procura e sabe já o que quer. Não se sabe o que resultará daí, mas tudo anda perto de um universo em desordem quando outro regaço se não quer. A amante surge sempre como aquela que aprisiona o trovador cativo. Esta amante será sempre o pensamento dentro do turbante que se desenrola ao longo da escrita de Claude Royet-Journoud.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Finitude

 

Ouvi-te dizer

 

Falta-me a força. Leio as missas do meu tempo e assim quisera hoje desafinar dos seus cantares e das suas teias antes que me salte a última fagulha sem me clarificar. Ao longo da minha vida sempre senti o tempo como meu predador insaciável. Ainda assim não o temi devidamente e agora sinto-me numa finitude inquieta e sedentária num idílio que ainda procuro. Não nego.

 

Com ou sem bagagem quero ir e levar-me comigo. Queria deixar claro que não sou um fugitivo, malgrado muitos «continua no próximo episódio do dia». Sei que tudo me sobreviverá e a ampulheta foi contratada para adivinhar a tolerância à última palavra que me dá ou que me recusa.

 

E caio na finitude que tem um “pré”. Esse “pré” é o que me ouve e ele a mim. Esse “pré” sou eu; que desaprova, ri, propõe, inventaria, quase tudo ama e tolera numa compreensão da condição humana que lhe risca as certezas da lista infinda da razão pela qual estou triste. Como outras tantas vezes depois de.

 

E juro-te pela enésima vez, no que respeita à minha finitude, estamos de acordo. Sei, sem equívoco que a mobília se desmobila e arrasta a sempre-viva questão: como será aproximar-me com rigor? Afinal sou eu que me não dou descanso nesta finitude e neste “pré” ou não é que há já anos que este transito dura?

 

Infinitamente, eu sou eu e a minha testemunha que no secreto compartimento me ajuda à voz e te grito

 

Amo-te.

 

Amo-te também nesta atração pela queda ingénua a fim de reconhecer a diversidade e assim me solto, embora ainda não sopre o vento e a finitude se coloque como pergunta penosa.

 

Enfim, um definitivo resumido este. Um ser livre quando um cansaço, uma finitude quase dorme, na renovada folha das horas igual a tudo. Mungido o sonho nesta minha combativa vitalidade, marco passo só para tomar balanço. Afinal.

 

Teresa Bracinha Vieira

UM CHÁ NO DESERTO: Título original THE SHELTERING SKY

 

Extraordinária adaptação ao cinema do romance do escritor Paul Bowles de quem já muito falámos. Bertolucci transforma esta reflexão num reino onde todos flutuamos numa procura inteira de pedaços que unidos nos unam.

 

E dá-me a tua mão, diria, dá-me a tua mão agora que chego onde pelas dunas de areia se explica a sabedoria do não me perder. E já é noite. E perdi-te nesta que será a tua última morada. Aqui te deixo e te levo comigo sempre até àquele vapor para lá do promontório e que é minha febre. Lá onde uma futura casa já minha não é sem ti.

 

And in the lazy valley there is no village

 

Proponho por imagens que revisitem este glorioso filme, esta gruta de realidades da obra de Paul Bowles.


É culpa minha que só ame a beleza depois dela morrer e eu não saber de que doença? Agora e de novo no comboio, a ignorância do porvir na minha carruagem-cama e a tua surda bondade. Mal te conheço e contigo embelezo feridas que não decifrei. Só um tigre me sorri. O do sorriso do meu amor.

 

I love you, but I must not think of you.

 

Estou aqui com um outro ser, digo-te que vou no comboio para um mesmo tempo, furando o mesmo ar e ainda que o tempo passe, não mudarei. Encontro-te no Egipto? Grita para que os pântanos não me possuam. Tua.

 

Teresa Bracinha Vieira