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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Tenho o meu gabinete no rés do chão, abrindo sobre uma fileira de miosporos e a "minha" cerejeira do Japão, antes de um vale de pereiras, em cujos baixos está a charca grande, rodeada de choupos. Diverti-me, esta manhã, a observar um casalinho de melros espertos que, mesmo à beirinha de mim se ia entretendo com o que chamo a sua, deles, saltitante restauração matinal. Apareceu então uma pega, muito senhora de sua voz. Ave bonita, com graças de senhora estouvada, terá fugido do seu salão no Palácio da Vila, em Sintra, ou saiu direitinha de Les Bijoux de la Castafiore, pega tão ladra quanto rossiniana, atraída talvez pelo fascínio de algum brilho esquecido no chão? Mais certo é ter ninho por aí, alto posto num dos grandes plátanos, aqui mesmo diante da casa, ou num dos choupos que avisto lá em baixo. Irei ver: os ninhos de pegas também são depósito de quinquilharia, não é só nas aventuras do Tintin que atua a operática Gazza Ladra. Mas não creio que esta ave que por aí vai voando e pousando seja cleptómana; antes fará tudo, como as suas parentes de Sintra, por bem... Esta pega rabuda, por enquanto, vai saltitando e picando pelas ervas, como os melros; ao vê-la não diria que é omnívora como o homem, ainda que também seja pega de um só pego, ou pego de pega única, coisa que o humano nem sempre é. Encontro-a muitas vezes silenciosa, é ave prudente e ciosa, ainda que seja tida por palradora, quiçá porque, dizem, imita os sons alheios... Mas eu só lhe surpreendi berros de alarme. Surpreso fui eu, logo pela manhãzinha, quando avistei sobranceiramente, de secreta janela do meu quarto, uma poupa planando no ar sereno, ao carinho de uma luz de oiro que lhe afagava as cores inesperadas da cabeça e do pescoço e o branco e negro das asas abertas... Não era um pássaro, era uma "apassarição"! Fez-se de súbito franciscano o meu coração, noutras vezes tão distraído da beleza: há milagres assim. 

 

   Não sei porquê, deu-me então para pensar a beleza como sentido íntimo e último das coisas todas. A contemplação do belo é a descoberta da nossa vida, o encontro final, a fruição dessa essência trina (belo, bom, vero) que hoje apenas temos enquanto saudade, desejo e busca. Somos peregrinos do amor, eis todo o nosso sentido. A Teresa Calem, querida amiga, reencaminhou-me, um dia destes, um vídeo sobre um miúdo de 12 anos, chamado Campbell, que dedica as suas horas de recreio, enquanto irmãos, amigos e colegas juntos brincam ou jogam à bola, a costurar bonecos de pano, para depois os levar e oferecer a crianças doentes. Os bonecos são todos diferentes, cada um com sua personalidade e seu nome. Em comum apenas têm o cuidado com que foram feitos e a secreta beleza que torna cada um deles um ser amável, um amigo para ser querido, uma companhia como testemunho de humanidade. Campbell também fez um para o pai, ao saber que este era vítima de cancro. E o pai, comovido, diz que já sente melhoras e, com o filho, acredita que anda ali poder mágico...

 

   Pensossinto que as evidências íntimas não têm necessariamente de ser aparições, alucinações, visões ou ilusões: não são, não podem ser, projeções dos nossos nós mesmos. São o reconhecimento do nosso encontro com o Outro. Narciso afogou-se por muito se ter debruçado sobre a água que lhe servia de espelho. Mas eu, quando, ainda que em fotografia, sinto sobre mim o olhar de magoada misericórdia de Madre Teresa de Calcutá, ardo de assombro perante a mulher mais linda do mundo.

 

Camilo Maria 


Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Creio que é em Tintin au Pays de l´Or Noir que o nosso herói e o seu inseparável Capitaine Haddock escaqueiram as existências, em armazém, das bilhas de barro que o amigo Oliveira da Figueira ia vendendo às mulheres do sítio, para irem buscar água ao poço. Tal razia não se deveu a qualquer ataque de fúria ou mesquinha vindicta contra o simpático português que, aliás, prestável como sempre, apenas pusera as bilhas ao dispor dos dois amigos, para que, durante a noite, se fossem treinando a levá-las à cabeça... Na verdade, perseguidos pela polícia local, apenas poderiam deixar a cidade que os prendia, partindo de um poço nos limites dela, onde os aguardaria auxílio e transporte. Mas para tanto, teriam de lá chegar incógnitos, vestidos de niqab, uma espécie de burka negra, em que só os olhos se desvendam, levando à cabeça as tais bilhas com que as mulheres iam ao poço abastecer-se. Já o arguto Hergé, nos anos 50, percebia que niqab e burka podem muito bem servir de excelentes disfarces. Por isso mesmo compreendo e concordo que o porte de tal indumentária seja proibido, por exemplo, na União Europeia. Por razões de segurança, não por fobias outras, muito menos por excesso de zelo laicizante.

 

    Quanto ao chamado burkini, neologismo derivado de burka e bikini, é termo inventado pelo ocidental comércio para promover um novo artigo, novidade achada para um potencial mercado que "marketingadamente" os tais comerciantes vão criando. O efeito maior que isso me faz é dar-me riso, não vejo aí qualquer desafio civilizacional - menos ainda um choque -nem manifestação propriamente religiosa. Que umas senhoras queiram banhar-se, em cálidas águas de Verão, envergando calças justas compridas, camisa de manga até aos punhos, xaile e véu longo, parece-me, quanto muito, uma bizarra noção de conforto corporal… mas o desejo é delas, não me diz respeito! Todos nós também já vimos fotos dos nossos pais e avós, gozando as carícias do mar em elegantes estâncias de veraneio europeias, vestidos da cabeça aos pés. Eu mesmo ainda me recordo de que, já em tempos da minha mocidade, o cabo de mar verificava, nas nossas praias, se os próprios homens traziam o peito coberto, e também a extensão do pudor dos fatos de banho femininos. Na própria Câmara Corporativa, uma espécie de câmara alta da Assembleia Nacional do Estado Novo, se discutiram medidas ideais para o vestuário dos banhistas!

 

   Se, desde essa altura, nem o rigor das leis, nem alguma censura social - e religiosa! (lembras-te, Princesa, dos "guardas" que, às portas das igrejas de Lisboa, vigiavam e corrigiam a abertura dos decotes e o comprimento das mangas dos vestidos das senhoras, no Verão, à entrada da missa?) - impediram que, a médio e longo prazo, os veraneantes se fossem progressivamente despindo, quem me garante que, hoje em dia, as banhistas em burkini, muçulmanas ou não, não façam como as meninas finas do Chiado que, invejosas do penteado da violeteira, foram deixando crescer tranças pretas? No caso atualmente presente, digo, deixando decrescer tecidos e vestes?

 

   Mas talvez eu esteja enganado, quiçá venha a acontecer o inverso: antes teremos a visão aterradora de praias europeias pejadas de mulheres veraneantes vestidas, da cabeça aos pés, com pudicos trajes de banho expressamente desenhados pelos nossos "diores" e quejandos... Imagino então uma autoridade política francesa, por exemplo, um governante sóbrio e de austeros costumes, o qual, vendo-as assim, sucintas, tão pouco nuas, vai suspirando, à beira mar, como o nosso queirosiano conde de Steinbroken: C´est très grave, c´est excessivement grave!  E nas cortes hodiernas, um deputado bem republicano, radical e laico, parafraseará, sem conscientemente o saber, outra talentosa personagem do Eça (...os que, nas escolas, com mão ímpia, querem substituir a cruz pelo trapézio!...) exclamando: "Ai daqueles que, com mão ímpia, querem substituir o topless pelo burkini!". Terá razão: é que não se admite mesmo, Princesa de mim, tão insidioso ataque aos pilares morais da democrática república!

 

   Bem sei que a questão deve ser tratada de modo mais severo do que o jeito jocoso desta feita. E procurarei fazê-lo na minha próxima carta.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira