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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TERÁ DE SER AMOR UMA TRAGÉDIA?

 

Minha Princesa de mim:

 

Disse Brahms que a Medeia do Cherubini "é a obra que, nós, músicos, entre nós reconhecemos como o cume mais alto da música dramática". A ópera, com libreto de François-Benoît Hoffman, estreou-se no Théâtre Feydeau, em Paris, a 13 de Março de 1797. Conheci-a em 1952, por ocasião do 16º Maio Musical Florentino, com a Callas em Medeia. Mais tarde, sentia-a intensamente, outra vez com a Callas, numa sala de cinema, em filme do Pasolini. O drama de Eurípides, aprendera-o, há muito, na escola. Fiquei sempre com uma dúvida minha: será drama? Ou tragédia? É drama enquanto afrontamento de paixões: amores e ódios, traições, desconfianças, ciúmes, frustrações e vinganças. Paixões que confrontam as personagens entre elas, mas todas, cada uma delas, sobretudo Medeia, consigo mesma. E a contradição que a habita confunde-a e demoniza-a. Medeia destroi-se porque se amou demais nos amores que tinha. Porque não soube distinguir entre o desejo de amar e a esperança de ser amada. Não pensoussentiu que confiar e esperar não pode exigir retribuição, valem o que significam, são dádiva, não são conquista nem posse. Querer bem não é querer o outro, só para que nos queira. Se assim fosse, o amor seria sempre devorante. Ora, há amores que, por humanos, são necessariamente aleatórios e insaciantes. Têm, como única possível, íntima satisfação, a generosidade com que se vai correndo o risco sem outra esperança que a do próprio amor que se dá. A tragédia de Medeia não é a indiferença dos deuses ao seu destino. É a voracidade do seu demónio interior. E será essa tragédia uma prisão fatal? Ocorre-me esse juramento de S. Francisco de Borja, perante os restos mortais da que fora a luminosa imperatriz, mulher de Carlos V, Isabel de Portugal, que o Duque de Gândia devotadamente servira: "Nunca mais servirei senhor que possa morrer!" E assim pôs a sua vida ao serviço dos outros todos, feito jesuíta e pobre. Esperando, como única retribuição, a alegria de um dia ver a Deus. Como os de coração puro. A trágica Medeia fecha-se na vertigem da sua vingança de Jasão, e matará todos, até os próprios filhos, para que o Argonauta não deixe descendência. Creio que, depois, quando se suicida, afinal já estava morta. Não sei porquê  --  talvez por pensar em ti  --  lembrei-me agora da história de Aetius,general romano,vencedor de Átila,no tempo do imperador Valentiniano III (século V). Narra Procópio,no seu De Bellis ,a deterioração das relações do imperador com o seu general. O poeta Metastasio, no século XVIII, aproveitará a circunstância para escrever um libreto para a ópera Ezio, que será aproveitado por dezenas de compositores desse século, de Porpora (Veneza,1728) a Händel (Londres, 1732). O enredo desta também mete amores frustrados, traições, pais pouco escrupulosos, paixões trocadas... Mas tem um fim feliz, por isso perceberás porque te envio, adiante, dois poemas do Carlos Drummond de Andrade. Mozart não fez ópera desse libreto, mas compôs (em 1781) um ária lindíssima para uns versos do seu libretista de La Clemenza di Tito (ópera em que Metastasio também conta amores,traições,ambições e perdão)... A ária Misera! dove son? quando Fulvia  -  a amante de Aetius, que Valentiniano, com apoio de Máximo, pai dela, cobiça para esposa  -  julga que já foi morto, com a cumplicidade de seu pai, o seu amado. Engana-se, tudo acabará bem.

Mas ela ainda não sabe: Infeliz! onde estou? Será a brisa do Tibre que agora respiro? Ou andarei errante pelas ruas de Tebas e de Argos? Ou será que,vindas das costas gregas,fecundas em tragédias,as fúrias surtas da linhagem de Cadmos e de Atrides,chegaram a estas paragens? Aí,de um injusto monarca a ingrata crueldade me enche de horror! De um pai perjuro a culpa me gela! E diante de mim tenho sempre o esposo inocente. Ó funestas imagens,ó lembranças,ó martírio! E será que falo,infeliz,e que respiro? Não,não sou eu que falo. É a dor cruel que me rasga o coração e me faz delirar. O céu tirano não cura do tormento em que me vejo. Peço-lhe um relâmpago e nem um me fulmina! Acabará casada com Aetius,e com a aprovação de Valentiniano e Máximo. Mesmo de Honória que lhe cobiçava o heróico general. Para quê morrer de amor no século XVIII? Assim chego ao nosso Drummond, na sua Balada do Amor através das idades:

      Eu te gosto, você me gosta

      desde tempos imemoriais.

      Eu era grego,você troiana,

      troiana mas não Helena.

      Saí do cavalo de pau

      para matar seu irmão.

      Matei, brigámos, morremos.

      Virei soldado romano,
      perseguidor de cristãos.

      Na porta da catacumba
      encontrei-te novamente.

      Mas quando vi você nua

      caída na areia do circo

      e o leão que tinha vindo,

      dei um pulo desesperado

      e o leão comeu nós dois.

      Depois fui pirata mouro,

      flagelo da Tripolitânia.

      Toquei fogo na fragata
      onde você se escondia

      da fúria do meu bergantim.

      Mas quando ia te pegar

      e te fazer minha escrava,

      você fez o sinal da cruz

      e rasgou o peito a punhal...

      Me suicidei também.

      Depois (tempos mais amenos)

      fui cortesão de Versailles,

      espirituoso e devasso.

      Você cismou de ser freira...

      Pulei muro de convento

      mas complicações políticas

      nos levaram à guilhotina.

      Hoje sou moço moderno,

      Remo, pulo, danço, boxo,

      tenho dinheiro no banco.

      Você é uma loura notável,

      boxa, dança, pula, rema.

      Seu pai é que não faz gosto.

      Mas depois de mil peripécias,

      eu, herói da Paramount,

      te abraço, beijo e casamos.

   O outro poema fica para a próxima carta. Já basta de tragédia. Dou-te a mão,

           

Camilo Maria

     
Camilo Martins de Oliveira