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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo IV

 

 

     - Como poderia ser, pensou Jaime, tinha-a visto morta e estava ali, viva da costa, com os olhos fixos nele, e ele a sentir-se já culpado da sua ressurreição?

     E lembrou-se de que a morena lhe falara da irmã gémea, tal qual como ela, a não ser um sinal a meio da coxa grossa, e ele agora perplexo. Seria esta a morta, ou seria a outra? Os jeans e o blusão impecáveis não deixavam margem para dúvidas, era da bófia, só elas se aperaltavam assim, ao contrário da que deixara morta e tinha jeans rasgados, um blusão mais para engate do que outra coisa, o cabedal sem cor, de tão coçado, e ele sempre a dizer-lhe que se aperaltasse, assim é que não iria a lado nenhum, e ela a perguntar-lhe:

     - Mas para que lado queres que eu vá?

     Tivesse ele sabido que iria encontrar a gémea, e não teria dúvida, antes de sair do prédio e que o fogo consumisse tudo, faria o que nunca tinha feito, despir-lhe-ia os jeans e confirmaria que ela tinha o sinal onde lhe tinha dito que estava, a meio da coxa grossa, agora é que não havia nada a fazer. Não ia voltar à cena do crime, falar com a médica legista que já lá devia estar e perguntar-lhe:

     - Doutora, havia um sinal tal e coiso em tal parte?

     E só avivaria desconfiança, como é que sabe do sinal? Para que quer a informação? Identifique-se.

     E ele a balbuciar desculpas, a procurar explicações, só queria confirmar que esta é uma e não a outra.

     Mas agora era tarde. Em frente da que pensava ser a gémea, mas que podia ser a outra, a morta, não sabia o que fazer, a não ser que não lhe iria perguntar:


     - É verdade que tem um sinal a meio da coxa? 

     Se lhe perguntasse, ela puxaria do cartão da polícia, e ele a ver-se metido em sarilhos, com a judite não se brinca, lá iria para o interrogatório, e sabia que iria cuspir tudo cá para fora, ainda por cima a irmã, se fosse ela, havia de querer saber da coisa ao pormenor, como é que ele sabia do sinal, que intimidades teriam, se teria sido naquele dia, naquele apartamento, que ele tinha sabido do sinal? Tê-la-ia despido, visto o sinal, teria sido droga, violação, o diabo a quatro é que ele sabia o que fora, mas a forma como ela o olhava é que não era de quem nunca o vira, e ele a tentar lembrar-se. De tantas morenas, de tantas noites, de tanta luz ofuscante em concertos em que as caras se confundem, podia ser que tivesse levado a morena para um banco de jardim, que ela lhe tivesse contado a vida toda e ele, que chatice, quero é voltar para a confusão, mas ela a insistir com a conversa.

     Pouco importa, a gémea estava morta, ele tinha pegado fogo ao corpo, e agora estava ali, viva, e ele sem saber se era ela ou a outra, e qual delas era chui? Aqui, era crime agravado: ainda se fosse a morena da vida a que ele incendiou, agora a irmã é que não, quase se sentia criminoso, afinal o que fizera fora apenas pôr-se ao fresco e não deixar pegadas, e era tão inocente que nem olhara para trás, ao atear a chama; e se o corpo não tivesse ardido, ainda haveria razões para o incriminar?
     

    E a gémea a olhá-lo, ou seria a morena? Que tem para me dizer? Confesse tudo. Onde está a arma com que matou a minha irmã?


     Olhou para Nelson, que se aproximara da gémea e a abraçara, como que a protegê-la, sentira que havia ali alguma coisa estranha, um enigma.


     E sentiu-se subitamente aliviado. Afinal, basta que pegue em Nelson por um braço e o levasse para fora dali, se ele a abraçava é porque havia intimidade entre eles.


     - Ouve lá, uma pergunta, ouvi dizer que ela tem um sinal a meio da coxa?

     E o seu reino por uma resposta, acrescentaria se tivesse cultura para tanto, pedindo a Deus, o que quer que fosse, que ele não lhe dissesse:


     - Sinal, com tanta tatuagem na coxa, como queres que eu saiba se há ali um sinal?

 

 


UM ESTRANHO ENIGMA
| Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

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