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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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UM ESTRANHO ENIGMA - capítulo VI

 

    Ainda eram nove horas da manhã quando Mamã Rosa lhe bateu à porta do quarto.


    - Levanta-te já, Jaime, estão lá fora à tua procura.

    Num primeiro momento, não percebeu se estava a sonhar ou acordado. Não eram horas de tirar da cama um cidadão desprevenido e não acreditava que qualquer dos manos o viesse importunar a uma hora tão imprópria.

    - Foda-se, Mamã Rosa! Quem é que me vem chatear a esta hora?

    - É a Judiciária, Jaime, dois agentes.

    Saltou da cama, estremunhado, abriu a porta e deu de caras com a negra gordíssima que o olhava com um misto de pena e de terror.

    - O que é que arranjaste agora, Jaime? Não gosto de ver polícias a bater-me ao ferrolho...

    - Deixe que eu já vou ver o que eles querem.

    Vestiu os jeans coçados que estavam pendurados no cabide, enfiou a t-shirt com o rosto do Morrison, enfiou nos pés os ténis velhos e sujos, e caminhou devagar até à porta onde os agentes o esperavam.

    - Tens de vir connosco, Jaime. O Inspetor Lima quer falar contigo.
 


    Quando Jaime entrou no gabinete, viu Fulgêncio Lima de costas. Ficou de pé, especado à porta, mirando de soslaio um poster do Benfica colado às três pancadas na parede à sua esquerda. Ao menos o gajo é do Benfica, pensou. Podia ser um desses lagartos de merda, convencidos de que são gente importante e que não passam de uns betinhos presumidos. No bar do Bill eram todos lampiões, claro, e muitos deles integrantes dos Diabos Vermelhos, a mais antiga claque do clube.

    Quando Fulgêncio Lima se voltou, Jaime adivinhou-lhe um sorriso trocista.

    - Senta-te – e apontou-lhe uma cadeira do outro lado da secretária. – Ao que parece, eras amigo da rapariga que foi apanhada pelo incêndio que houve lá no teu bairro. Como era o nome dela?

    - Não sei, inspetor. Era uma morena igual às outras.

    - Mas que tu foste visitar nesse dia?

    - Nunca a visitei, inspetor. Nem sei ao certo onde mora. Conhecia melhor uma irmã gémea que tem, que por vezes se amarra no bar do Bill com o meu amigo Nelson.

    Passou-lhe pela cabeça a imagem da coxa grossa e imaginou um sinal no meio das tatuagens que a cobriam. Se calhar não devia ter falado do Nelson.

    - Vamos a ver se nos entendemos. Aquela a que chamas morena estava no quarto com uma overdose das antigas quando alguém lhe chegou fogo à casa. Para a matar ou para destruir outras provas? Tu foste visto nas imediações e portanto vais-me contar a história toda tintim por tintim.

    Jaime sentiu um ligeiro tremor nas pernas. O sacana do polícia estava a tentar encalacrá-lo, mas ele conhecia muito bem essa técnica de dar como certo o que era apenas conjetura. Ou não fosse fã das séries policiais que o Bill punha à noite como chamariz, aproveitando-se do facto de quase ninguém por ali ter acesso ao cabo. Estás a tentar foder-me, pensou. Mas como é que sabes que estive ali por perto?


    - Não sei nada dessa história, inspetor.

    Fulgêncio Lima olhou-o de novo com o sorriso trocista que lhe adivinhara há pouco, pegou no telefone, marcou uma extensão e, quando o atenderam, ordenou:


    - Santos? Diga à agente Palmira que chegue aqui.


    Quando a porta se abriu, entrou uma mulher muito alta que Jaime julgava já ter visto.

 

 

UM ESTRANHO ENIGMA | Folhetim de Verão CNC 2016

Ilustração © Nuno Saraiva [Direitos reservados] 

 

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