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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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VERGILIO FERREIRA E O PANTEÃO


Vergilio Ferreira nasceu em 28 de Janeiro de 1916 em Melo, freguesia beirã, pertencente ao concelho de Gouveia, cuja biblioteca é depositária de todo o seu espólio e documentação. Perto de comemorar o centenário do seu nascimento, Vergílio Ferreira foi um espantoso escritor, mas que a inveja dos seus pares e a ingratidão dos poderes reinantes remeteram para o limbo do esquecimento. Embora apreciado por muitos leitores e autor de diversas obras, com reedições significativas (cite-se, a esse nível, o seu romance “Aparição”, com cerca de cinquenta reedições) V. Ferreira, em quem reconheço o maior escritor português do século vinte, sempre foi um mal amado, e nunca lhe foi concedida a consagração nacional que merece.
A obra de Vergílio Ferreira é vasta e profunda. A vastidão comprova-se pelos 17 romances que nos legou, (a que se acrescenta “Promessa”, a título póstumo) pelos diversos livros de prosa diarística que escreveu, a que deu o título de Conta-Corrente, para além da sua obra ensaística que condensa uma impressionante reflexão sobre múltiplos temas. A profundidade está patente em toda a sua obra, superando amiudadas vezes a dimensão cultural de autores que exalta, como é o caso de Malraux e Sartre, evidenciando-se tal em “A interrogação ao destino” e ”Da Fenomenologia a Sartre”, não esquecendo a original e marcante “Carta ao Futuro” e esse fascinante ensaio que se chama “Invocação ao meu Corpo”. Vergílio Ferreira era um sábio conhecedor da cultura clássica, dos grandes pensadores da história e no superior domínio das diversas correntes filosóficas, como o demonstra a sua polémica com os estruturalistas. Vergílio Ferreira poderia, por isso, ter sido um brilhante professor de humanidades ou de filosofia. Licenciou-se com a média brilhante de 17 valores na faculdade de letras da Universidade de Coimbra. Convidado para docente, recusou o convite, pois a carreira universitária, pensava, roubar-lhe-ia o ócio necessário para a escrita. A sua paixão pela literatura superava tudo o resto, embora por vezes sentisse alguma frustração. “Gastei a vida toda com a literatura, para quê?...Tudo se reduziu à esperança de que a minha iluminação me pudesse segurar na rede do meu aprisionamento. E só aprisionei o meu vazio…”.
Mas um desabafo vale o que vale e poucos na literatura portuguesa terão levado, como ele, a escrita a um plano de tanta grandeza trágica e sublime e na qual a memória e o silêncio o inundam como um raio de sol- a memória em incessante e interrogativa impulsão emotiva e o silêncio, como forma superior da sabedoria, numa espécie de êxtase niilista ou “uma aparição sem fim”, na expressão feliz de Eduardo Lourenço.
Efetivamente, toda a obra de ficção vergiliana é o lugar para uma revelação constante e nela assenta, fundamentalmente uma interrogação permanente do homem.
É, por isso, um espaço da solidão plena, espaço sideral da imortalidade, crepúsculo vagaroso e triste, desafio angustiante á ordem cósmica, do absoluto da “morte de Deus“ e “da morte dos pais”, ou seja a libertação do “eu” dos seus personagens.
Escritor do congelamento do tempo, á procura da revelação da vertigem da liberdade humana, senhor dum silêncio torrencial que atravessa o “encontro do eu consigo mesmo”, constrói com todas estas veredas uma literatura de inquietude que dá os primeiros passos em “Mudança” e tem a sua epifania em “Aparição.” Esta é uma obra de rutura no panorama literário português, hegemonizado até então pelo neo -realismo, estética e literariamente muito pobre, segundo o escritor. Tal aparição de Damasco, esse notável romance exprime uma espécie de visão que tem com o seu “eu” “……olho as minhas mãos, sei-me, penso-me, sinto-me eu, um todo indivisível e irredutível, um ser instalado numa inefável eternidade necessária, um ser com um quê único…tão fascinante que me causa terror”. Este era, então, o espelho literário do escritor em consonância com o seu pensamento filosófico, admirador do existencialismo de Sartre, Camus e sobretudo de Malraux. Vergílio despedia-se da racionalidade cartesiana (“penso, logo existo”)e inseria-se no paradigma ontológico: (“existo, logo penso”)
Os romances que Vergílio publica, posteriormente, com realce para Nítido Nulo, Alegria Breve, Para Sempre e “Em nome da Terra” retratam eloquentemente o sémen dum pensamento novo. As obras do escritor beirão foram-se despojando das narrações clássicas para darem lugar à introspeção do narrador que aparece como um refletor da emoção do seu “eu”, na habitação única do universo. Ao reler as suas obras, sinto a sensação que a palavra se despe até ao limite e o silencio se confunde com o mundo original, daí se erguendo o homem em toda a sua plenitude existencial.
É na busca do incognoscível e indizível, que se situa a sua vivência literária, no “ sol novo dos começos do mundo”.”Os grandes sonhos só nascem depois de terem morrido. Primavera de luz, do fulgor de ser, incorruptível eterno.”
É a sagração da palavra e do tempo.
“Amo o impossível da eternidade do teu ser”.
A crónica já vai longa, mas muito fica por dizer. A escrita de Vergílio Ferreira é uma estrada sem fim. Escultor sublime da língua portuguesa, ao nível de Vieira e Eça, merece o abraço do país, quando o autor de “Em nome da Terra” comemorar o seu centenário que é já daqui a dois anos.
Vergilio Ferreira não foi comtemplado com o Prémio Nobel, prémio que aliás merecia amplamente. Talento não lhe faltava. Faltou-lhe, eventualmente, uma Pilar, um lobby ou um partido, pagando o preço da sua independência cívica e ideológica.
Num tempo em que se discute, frivolamente, quem merece ou não poisar os restos mortais no “Panteão”, Vergílio tem o perfil adequado a nele figurar. Ele que entrou no Paraíso a escrever: “em nome da terra, dos astros, da perfeição”.

 

Joaquim sarmento