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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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VI UM BANDO DE ANDORINHAS…

 

 

Minha Princesa de mim:

 

Está cinzenta e fria esta manhã, um tanto estranha assim no avanço da Primavera... Vou assomando a janelas várias, procuro junto aos beirais da casa, perscruto o céu indiferente sobre campos adormecidos pela longa espera de um sol quente que tarda... quero ver uma andorinha e sonhar que voo com ela! Vi, há dias atrás, um bando delas em voo bailado, sobre o silêncio dos campos. Lancei-lhes um Bem hajam! de agradecida saudade. Mas não voltei a vê-las. Talvez se escondam noutra Primavera. Gosto das aves do céu, sobretudo das de arribação: porque me fazem estar sempre à espera delas, sem que saiba o dia e a hora certos, e porque, depois, partirão, sem que eu saiba certamente quando, nem exactamente para onde... Saberei, então, apenas, que esperar um regresso é a quintessência da condição humana. E pensarsenti-lo torna-me mais livre: a fé e a esperança são o único controlo que eu posso ter do meu destino. Amar é o único modo de poder preenchê-lo. As aves voadoras dão-nos uma lição de humildade. Posso correr e saltar, pendurar-me nas árvores, e mesmo armar-me em quadrúpede, pondo-me de gatas e bufando como um touro ou dando coices de mula. Posso ainda, rastejar como verme ou réptil, não necessariamente como o Yul Brynner a avançar para a Gina Lollobrigida no Salomão e a Rainha de Sabá  do King Vidor (1953), nem repetindo penosos exercícios de recruta militar... Posso nadar nos lagos e rios e no mar...  Mas erguer-me ao céu, levantar-me no ar, isso só metaforicamente ou com auxílio mecânico. Imagina-me a tentar voar, batendo energicamente os braços, ou levantando-os em ondulações de bailarina do Covent Garden... Pareceria, mais provavelmente, uma assustada, cacarejante galinha! Assim sendo, antes ser chorosa ave de capoeira do que Ícaro precipitado no mar, ao largo de Samos...ou talvez não, nem uma coisa nem outra! Aproveitei, no fim de semana passado, uma breve estadia na nossa Bruxelas, para um salto aos Museus Reais de Belas Artes, melhor dizendo, àquele que está defronte da sede social do Banco de Bruxelas, antes palácio do Conde de Flandres, que o nosso avô Camilo frequentava. Lembro-me de ter encontrado ali, contigo e quando jovens, duas representações da queda de Ícaro, feitas com a distância de 80 anos:  uma de Pieter Brueghel o Velho, em 1558; outra de Pieter Paul Rubens,de 1638. Para lá da diferença de estilos, com clara influência italiana em Rubens, ambos estes mestres flamengos nos contam a mesma história num modo diferente. Na Paisagem com a queda de Ícaro, Brueghel deixa-nos uma última perna do herói fora de água, perante ou, melhor, nas costas ou indiferença de todos: de um pescador, de um rebanho de ovelhas que pasta e seu pastor (rezando o Angelus?), de um lavrador que lavra. Cada qual em seu ofício. Só uma espécie de dragão, lagarto alado, parece agitar-se, como que a despertar o pescador à linha para um acidente que o céu, os montes, o mar e os navios nele, impassivelmente ignoram. O sonho de Ícaro  --  ambição de subir ou curiosidade de experimentar descobertas  -  é- lhes indiferente. Já em Rubens, se Ícaro cai desamparado  - derretida a cera que lhe segurava as asas, por ter querido aproximar-se demasiado do sol  -  Dédalo, seu pai, surge na precipitação da queda, igualmente voando, mas seguro em suas asas, pois não quis subir alto demais... Aqui, já não há, apenas, uma lição de moral sobre humildade e ambição. Há uma intenção prática: a de que a experimentação deve ser cautelosa e só depois sábia, nunca sabichona para ser atrevida. Assim caminhará o pensamento europeu, da renascença às luzes... Dédalo, o pai de Ícaro, era arquitecto. Por ordem de Minos, rei de Creta e pai de Ariana, concebera e construíra o labirinto, para encerrar Teseu e impedi-lo de fugir. Não contava o rei com a fidelidade inventiva de Ariana, que ao ingrato Teseu entregaria a ponta do fio libertador. Não contava Dédalo com que seu filho Ícaro se quedasse perdido e preso no labirinto de seu pai... Coisas! Para o livrar, o mesmo pai apõe a seu filho asas coladas com cera, para lhe permitir voar e fugir do labirinto. Afinal, todos nós, há milénios  --  ou simplesmente desde pequeninos  --  sonhamos com essas asas brancas que um anjo qualquer nos desse... Cada um terá de aprender o modo do seu sonho, na certeza, porém, de que será sempre uma viagem. Pus-me esta tarde de sábado a ouvir, de janelas abertas sobre a quietude dos campos sem vento e sem vizinhos, O Navio Fantasma do Wagner, gravado em Londres, em 1968, pelo Otto Klemperer. Lembrei-me desta ópera, talvez por querer ouvir a abertura, essa tempestade de um mar que soberanamente comanda tudo e todos e faz ecoar nas falésias os clamores dos marinheiros resistentes e aflitos, mas é sobretudo vencido pelos temas musicais da vontade de libertação do Holandês Voador  -   fantasma condenado a eterno naufrágio, por ter um dia desafiado as forças do além  - e do que virá a ser o resgate final de Senta, a mulher cuja paixão vencerá o demónio, depois da morte. Não te repetirei a história, já a conheces. Lembro apenas que, ao ver gorada mais uma oportunidade de se libertar do purgatório ambulante e infindável em que navega, Der fliegende Holländer  confessa a sua identidade e parte no seu navio fantasma. Mas Senta, a mulher amada, o porto final da sua navegação derrotada, precipita-se no mar, do alto de uma falésia, gritando: Preis deinen Engel und sein Gebot! Louva o teu anjo e o seu decreto! Aqui me tens, a ti fiel até à morte! E então se afunda também a nave do Holandês. E ao longe, transfigurados e abraçados, das águas do mar se elevam os dois apaixonados... Deixo-te a pensar  se será dilema ou não: Liberdade ou morte!  --  Morte e liberdade! Dou-te uma mão pacífica, vou lá fora ver se descubro as andorinhas. Tenho aprendido muito com elas.

 

            Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira