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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RELIGIÃO A MAIS? DEUS E DIGNIDADE

 

1. O filósofo Henri Bergson, na obra famosa As Duas Fontes da Moral e da Religião, mostrou a distinção entre dois tipos de religiosidade. A primeira - a religiosidade estática - tem a sua base na angústia da morte e no sentimento de abandono perante uma Natureza tantas vezes cruel, e, a partir do instinto de sobrevivência, procura protecção divina para a pequenez humana. A outra - a religiosidade dinâmica - assenta na intuição do Mistério Último experienciado como amor. Esta exprime a grandeza do ser humano e apoia-se na experiência de pessoas excepcionais - os místicos. Mas a mística autêntica e completa é acção, pois o místico verdadeiro, "através de Deus, por Deus, ama a Humanidade inteira com um amor divino".


Não há corte radical entre as duas formas, mas é necessário reconhecer que há vivências mais e menos perfeitas da religião e uma consciência de nível mais alto neste domínio. Quando o núcleo da religião é vivido no amor, não só termina a intolerância como se impõe a compreeensão entre as pessoas, independentemente da sua confissão religiosa. Foi assim que, por exemplo, no sufismo, corrente mística do islão, houve a visão clara de que, insistindo no aspecto amoroso da religião, se dava a aproximação com Jesus, sem necessidade de abandonar a profissão islâmica. Kamil Hussein escreveu: "Se sentes no profundo de ti mesmo / que isso que te incita ao bem é o teu amor por Deus / e o teu amor pelos homens que Deus ama; / se pensas que o mal consiste em afastar-se dos homens / porque Deus os ama, como te ama a ti, / e que perdes o teu amor a Deus se causas dano àqueles que Ele ama, / isto é, a todos os homens, / tu és discípulo de Jesus, seja qual for a religião que professes".


Há um tremendo equívoco na afirmação corrente "católico não praticante", referida só à prática dos rituais religiosos. De facto, como escreveu Nietzsche, "só uma vida como a dAquele que morreu na cruz é cristã". No Juízo Final, não se pergunta se se foi à Missa ou a Fátima, mas se se foi ao encontro dos mais necessitados: deste-me de comer, de beber, de vestir, foste ver-me ao hospital, na cadeia... Os primeiros cristãos tiveram de defender-se da acusação de ateísmo: de facto, não só recusaram o culto oficial romano como não tinham aqueles sinais que aparentemente fazem parte da essência da religião: templos, altares para o sacrifício... Mas amavam Deus e Jesus e o seu sinal distintivo era o amor: “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos. E celebravam com alegria o memorial que Jesus deixara na Última Ceia, a Eucaristia.


Na perspectiva cristã pode-se e deve-se perguntar: para quê o culto oficial, em ordem a aplacar a divindade e propiciar a sua benevolência, se Deus se revelou definitivamente como amor? Só quando for vivida adequadamente no “templo” do mundo a religião verdadeira da justiça e do amor, terá sentido pleno celebrar nos templos a alegria gozosa da vida e da fraternidade em Deus. Por isso, enquanto "a prática cristã" a que se referia Nietzsche for anémica, poder-se-á dizer com razão que no sentido corrente de ritos e cerimónias até há religião a mais.


2. Nestes tempos conturbados, é urgente insistir na questão da religião e da dignidade. De facto, tantos homens e mulheres e crianças que foram escravizados, humilhados, torturados, física e espiritualmente, com base na religião! Pense-se na Inquisição, na tragédia dos abusos de menores ... E ainda se degola gente da forma mais bárbara, argumentando com o Alcorão...


Houve, e há ainda, homens e mulheres para quem teria sido preferível nunca ter ouvido falar em Deus, melhor: não ter tido contacto com certas formas de religião. De facto, a religião foi muitas vezes para muitos causa de desgraça, de infelicidade, de tortura física e interior: pense-se nas guerras de base religiosa, na queima das bruxas, nos escrúpulos, nos traumas sexuais...


Mas, depois desta constatação, é preciso também proclamar bem alto: o Deus em nome do qual se humilhou, se torturou, se escravizou, não é Deus. É apenas um ídolo que os seres humanos criam para satisfazer as suas loucuras, afugentar os seus medos e legitimar a sua ânsia de dominação. Uma religião que conduz à menoridade mental, que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, repito constantemente, pelo menos, melhor do que nós. Ora, um ser humano sadio não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade...


Por isso, é preferível não acreditar em Deus a acreditar num Deus que humilha o Homem, o escraviza, o torna menor... Se o crente, pelo facto de o ser, não se sente mais humano, mais livre, mais digno, com uma obrigação acrescentada de lutar por mais dignidade, por mais liberdade, por mais fraternidade, por mais alegria, só tem uma coisa a fazer: deixar de acreditar.


Nisto, os ateus, não os ateus vulgares, mas os que sabem o que isso quer dizer, vêem por vezes mais claro que os próprios crentes. Ernst Bloch, por exemplo, viu bem, quando, aliás na linha de Hegel, escreveu que na religião autêntica se exprime a infinita dignidade de ser Homem. Foi ele também que disse que até ele se inclinaria perante um cardeal ou bispo que dissesse e praticasse aquela palavra de Jesus, referente ao Juízo Final: “Aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 de novembro de 2021

ALMUDENA GRANDES


Uma das grandes escritoras do nosso tempo que às gentes caminhantes aconteceu.


Malena es un nombre de tango,
livro perturbador, corajoso que dá forma ao tempo do conhecer e do dar a conhecer, na busca de uma perfeição inalcançável.

Os Doentes do doutor Garcia, até nós pela mão da Porto Editora em 2020 entre outros.

As tuas palavras, as poucas que de ti conheci, senti-as como um convite à casa onde as coisas também estão como casa do morar.

Obrigada!

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR


“Whether architects like it or not, a building acts as a vehicle of meaning…”


Heinrich Klotz acredita que o significado é uma questão central da arquitetura.


No livro Periferia Perfeita, Jorge Figueira escreve que Klotz declara que a poesia superou a utopia da arquitetura eternamente nova, somente funcional e auto-referencial. O mais importante na arquitetura depois do modernismo é a ficção ou imaginação, que realiza uma arquitetura que emerge do improviso e da espontaneidade e que favorece o imperfeito e não a perfeição.


Klotz deseja pois redefinir o conceito de pós-modernismo e tentar afastar qualquer conotação negativa e superficial e até procura encontrar saídas: “… if a ‘modernist’ is capable of employing modern architecture’s repertory of forms in a new and significant way and thereby revitalizing it (…) then it is nonsensical to ignore him in the name of a merely historicized postmodernism.” (Klotz 1988, 5)


No livro The History of Postmodern Architecture (Massachusetts Institute of Technology, 1988), Heinrich Klotz anseia, por isso, valorizar o conceito da arquitetura como um veículo de significados. A arquitetura não é só evocação do passado, nostalgia, conceção de formas eternas, contraditórias ou complexas. Nem é só colagem, nem tem de responder somente ao contexto e à função e não tem de viver só do ornamentalismo e da monumentalidade. Sem dúvida, Klotz enfatiza a ideia de que uma nova forma de arquitetura surgiu desde meados dos anos setenta e que esta se coloca em oposição ao estabelecido progresso do Movimento Moderno.


“Postmodernism then appears to us to be a premodernism a return to a state antecedent to the Enlightenment. Hence we find ourselves asking whether we have exchanged progress for regression. It seems that society, caught as it is in ecological crises, withdraws its trust in progress by drawing back in discouragement from the threshold of the new, seeking instead to recapture the old and to derive security from the past.” (Klotz 1988, 2)


A dúvida acerca do progresso parece assim justificar o regresso ao conteúdo histórico. Klotz levanta as seguintes questões: será o pós-modernismo a negação da utopia que acredita na potencialidade e na salvação através do design? Ou será uma nova forma de controlo, de poder e de opressão?


Para Klotz o advento do pós-modernismo trouxe de facto o desvanecimento de uma verdade. Tudo parece perdido - o futuro, o totalmente novo, a humanização, a democracia e a moral. Mas mesmo assim, talvez o pós-modernismo seja o natural desenvolvimento de uma arquitetura que quer evitar o funcionalismo extremo e a catastrófica erosão urbana - “isn’t it a continuation of modernism by new but not entirely different means?” (Klotz 1988, 2)


Para Klotz, o pós-modernismo traz sobretudo a possibilidade de dar a uma forma particular um conteúdo específico. As formas em si só não têm importância, relevante é o seu significado. Por muitas décadas o significado das formas arquiteturais foi totalmente esquecido, ora por oposição ora por recusa os principais aspetos de interesse eram meramente estruturais, funcionais e sociais. E a consideração consciente de que a forma da arquitetura poderia ser um veículo de significado era uma coisa rara de se fazer. Porém segundo Klotz a história da arquitetura contemporânea pode ser considerada como uma história da forma e do seu significado.


“Whether architects like it or not, a building acts as a vehicle of meaning even if it is supposed to be meaningless. One way or another it presents a visual aspect. Even the vulgar postwar functionalism that cut the characteristic features of a building to a minimum produced buildings that, as they entered one’s visual field, acquired a meaning: an apparently neutral and monotonous uniformity.” (Klotz 1988, 3)


As novas tendências tentam dar atenção a outras características que vão para além das qualidades meramente funcionais - e apresentam uma possibilidade de fuga ao modo não-objetivo e da forma pura. A salvação do modernismo nunca esteve na abstração. O perigo está em construir formas desprovidas de significado. Tal como Norberg-Schulz em Intentions in Architecture, Klotz acredita que só através do simbolismo cultural, a arquitetura pode mostrar que o dia-a-dia tem um significado que vai para além da situação e do contexto imediato e tem uma participação ativa na sequência contínua da história.


Klotz deseja acima de tudo alargar o conceito de pós-modernismo para que se possa ir além de uma simples repetição nostálgica do passado: “Whenever present-day architecture observes other laws in addition to functional aptness and maximum simplicity of basic forms, whenever it moves away from abstraction and tends toward representational objectivization, I call it postmodern.”


Para Klotz, a arquitetura pós-moderna é assim toda aquela que se afasta da abstração e tende à objetivação representacional. Não procura o fim em si própria, nem serve somente objetivos práticos. A arquitetura pós-moderna é sim um meio visual que torna visível a emergência do belo e é capaz de materializar um significado. Provoca uma descontinuidade na tradição do Movimento Moderno, sendo sobretudo decisivo as intenções dos diferentes vocabulários usados.


O método capaz de dar vida a vocabulários históricos ou modernos é, para Klotz o da ficcionalização da arquitetura. O conteúdo da arquitetura, durante estes anos, passa a ser então, de substância narrativa. Passa de novo a significar um esforço criativo, que não responde somente a factos, a programas e a formas mudas, mas principalmente a ideias e a símbolos de natureza poética e que poderão ser apreendidos multisensorialmente.


“The final goal is to liberate architecture from the muteness of ‘pure forms’ (…) Then the results will no longer be repositories of function and miracles of construction, but renderings of symbolic contents and pictorial themes - aesthetic fictions which do not remain abstract ‘pure forms’ but which emerge into view as concrete objectivizations to be multisensorially apperceived.” (Klotz 1988, 5)

Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

De 29 de novembro a 5 de dezembro de 2021


Francisco Velasco de Gouveia (1580-1659)
foi um eminente legista defensor da causa da independência de Portugal em 1640 – autor de «Justa aclamação do sereníssimo rei de Portugal D João IV: Tratado analítico dividido em três partes: Ordenado e divulgado em nome do mesmo reino, em justificação de suas ações, Lisboa, 1644» - repositório fundamental na defesa da Restauração da Independência.

 

RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA
O mais antigo feriado nacional decretado pela República em 1910 foi o Primeiro de Dezembro, como Dia da Bandeira. Tratou-se do reconhecimento de um momento fundamental da História portuguesa. A Restauração da Independência de Portugal correspondeu a uma reação direta à tentativa de Filipe III (IV de Espanha) e do Conde Duque de Olivares de centralização e unificação dos reinos ibéricos. Estava em causa o desrespeito das condições definidas nas Cortes de Tomar (de 1581). Se Portugal nunca perdeu a soberania formal, o certo é que, como Francisco Rodrigues Lobo bem viu, o que havia era uma “Corte na Aldeia”. Os constrangimentos da guerra dos 30 anos, os efeitos da crise económica, o aumento dos impostos para financiar as forças armadas espanholas, a subalternização política portuguesa, a invasão holandesa do Brasil – tudo isso determinou grande descontentamento e alterações populares em todo o país, como as do Manuelinho em Évora. A reação não se fez esperar e os conjurados apoiaram a causa do Duque de Bragança, D. João, contando com o apoio da França do Cardeal Richelieu e a exigência da mobilização espanhola para a guerra da Catalunha. A Vice-Rainha de Portugal, Margarida de Sabóia, Duquesa de Mântua, bisneta de Isabel de Portugal e de Carlos V de Habsburgo, não resistiu e sairia de Portugal ainda em dezembro de 1640, tendo o Secretário de Estado Miguel de Vasconcelos sido morto e defenestrado pelos conjurados.


O PAPEL DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA
Depois de 1640, ao lado de D. João IV, o mais célebre dos Conselheiros do novo rei foi o Padre António Vieira (1608-1697), figura ímpar da cultura portuguesa. Foi um visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade de todos, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita. O império vinha-se esboroando, num processo longo que vinha do último quartel do século XVI. As riquezas perdiam-se ou dissipavam-se, os “fumos da Índia” avolumavam-se, havia divisões profundas. Assim se delineou uma estratégia, segundo a qual seria necessário compatibilizar o humanismo universalista e uma nova ideia de império. E o Padre António Vieira retomou então o que os franciscanos espirituais há muito defendiam (na linha do monge calabrês Joaquim de Flora, que falava das Idades do Pai, do Filho e do Espírito Santo). Pode falar-se de audácia e atrevimento, bastando lembrar o poderoso “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda”, dito na Igreja baiana de Nossa Senhora da Ajuda em Maio ou Junho de 1640 (“arrependei-vos misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos da vossa piedade, ide à mão da vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas da vossa ira, e não permitais tantos danos e tão irreparáveis”). Mas os exemplos multiplicam-se. António Vieira atraiu ódios que juraram pela sua pele, primeiro entre os colonos, depois na corte, entre os invejosos do lugar proeminente que assumiu junto de D. João IV, alvitrando, aconselhando e agindo, e ainda na Inquisição, pela qual foi perseguido, julgado, preso e, por fim, perdoado apenas graças à intercessão papal… Leia-se ainda o Sermão da Dominga Vigésima Segunda depois do Pentecostes (1649), onde, partindo de S. Mateus (“É lícito ou não pagar o imposto a César?”, 22,17), verbera a hipocrisia dos fariseus, ataca o fanatismo cego e sem caridade, e lembra os escrúpulos falsos de Pilatos, sempre a pensar nos inquisidores: “Ó julgadores que caminhais para lá com as almas envoltas em tantos, e tão graves escrúpulos de fazendas, de vidas, de honras, e cuidais cegos, e estúpidos, que essas mãos com que escreveis as tenções e com que firmais as sentenças, se podem lavar com uma pouca de água. Não há água que tenha tal virtude”. Nunca fugiu das dificuldades nem da denúncia dos erros e atropelos, como se vê bem no Sermão do 5º Domingo da Quaresma, dito no Maranhão: “E se as letras deste abecedário se repartissem pelos Estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida que o M. M Maranhão, M murmurar, M motejar, M maldizer, M malsinar, M mexericar, e sobretudo M mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente…”. O Sermão de Santo António aos Peixes, dito também no Maranhão, da 3ª Dominga da Quaresma, pregado na Capela Real, e do Bom Ladrão, apresentado na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), de 1654 e 1655, são bem ilustrativos da coragem acusatória de Vieira contra abusos e injustiças: “Encomendou el-Rei D. João o Terceiro a S. Francisco Xavier o informasse do estado da Índia, por via de seu companheiro, que era mestre do Príncipe; e o que o santo escreveu de lá, sem nomear ofícios, nem pessoas, foi que o verbo rapio na Índia se conjugava em todos dos modos…”.


OS EFEITOS DA GUERRA DOS TRINTA ANOS
Com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) a finar-se, havia que preparar um alinhamento que permitisse uma presença segura na nova balança europeia. E a justificação espiritual (que a Inquisição considerou heresia) poderia abrir novos horizontes, sobretudo através da criação de bases sólidas no Brasil e na Índia. Assim, o Quinto Império não era um sonho desligado da realidade nem uma ilusão centrada no território da loucura, era a tentativa de regresso à epopeia de quinhentos, com um repensamento estratégico que tirasse lições dos erros cometidos. Assim foi concebida a “História do Futuro”, antecipada pelo Sermão dos Bons Anos (1.1.1642), onde as Escrituras, as profecias de S. Frei Gil de Santarém e as “Trovas” do Bandarra levaram-no a transferir o mito do Desejado de um rei morto em Alcácer-Quibir (Sebastião) para um rei vivo (João, ali presente na Capela Real). Seria nesse império que se reuniriam todos os povos sob a égide do Vigário de Cristo e sob um mesmo governo temporal do Rei de Portugal… A obra de Velasco de Gouveia reúne os argumentos fundamentais para defesa da causa do Duque de Bragança D. João, invocando conclusões que viriam a ser consideradas apócrifas das Cortes de Lamego, onde se consideraria que «a filha fêmea de el-Rei que casasse com príncipe estrangeiro, que não fosse português, não pudesse herdar nem suceder nele para que assim nunca o reino saísse fora das mãos dos Portugueses nem reinasse nele pessoa que o não fosse».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

O AMOR DAS TRÊS LARANJAS...

 

"O Amor das Três Laranjas", ópera em 4 atos de Sergei Prokofiev, é mais conhecida e escutada, na forma da suite sinfónica, do que outras raras produções teatrais e escassa discografia operática do mesmo autor. Subiu pela primeira vez à cena em Chicago, a 30 de dezembro de 1921, sendo o libreto da autoria do mesmo Prokofiev, escrito em francês com a ajuda de Vera Janocopoulos, a partir da fábula "L’Amore delle Tre Melarance" que o nobre Carlo Gozzi escrevera para o carnaval de Veneza de 1761. A fantástica história passa-se num imaginário reino de cartas de jogar, cujo soberano, o Rei de Paus, se vê impotente para travar o definhamento do seu único filho e herdeiro do trono, que padece de destruidora hipocondria... Na verdade, Leandro, primeiro-ministro (e Rei de espadas), deseja o trono e pensa obtê-lo, com a morte do príncipe herdeiro, pelo casamento com Clarissa, sobrinha do Monarca e segunda na ordem de sucessão.


Entretanto, como se crê que só o divertimento e o riso poderão curar o príncipe e salvar o Estado, cómicos, trágicos, líricos, excêntricos e tolos, todos concorrem com a oferta dos seus estilos e formas de distração, mas com a sistemática contestação dos ridículos... Finalmente, será uma maldição da fada Morgana, protetora de Leandro, condenando o príncipe e amar três laranjas, que irá salvá-lo. Do corte de duas laranjas que os homens fazem para matar a sede, saem duas princesas que de sede morrem; mas do terceiro e último fruto surge uma jovem linda, que Morgana ainda tenta transformar em rato, mas que  é restituída ao esplendor da sua graça e casará com o herdeiro do trono, assim o curando e salvando o trono e o país.


É curioso observar como o libreto e a composição musical da ópera se processam a partir de maio de 1918, quando Prokofiev deixa Petrogrado para seguir para os EUA, via Vladivostock e Japão, após ter obtido do comissário do povo Lunatcharski autorização para deixar o país. A razão da partida é a necessidade de trabalhar em sossego. Ao compositor, eram-lhe indiferentes a revolução e a contra-revolução: "A mim. não me interessa a política, a arte nada tem a ver com isso. Evito pensar na política quando trabalho". Seria sincero, mas o certo é que regressaria à URSS, em 1936, ao que parece por razões de interesse próprio. "O Amor das Três Laranjas" é uma sublimação da dura realidade política e social através de uma fantasia irónica: afinal, o poder procura a sua continuidade, mas quem encontra solução é um hipocondríaco, rodeado de conspiradores, que pede propostas e iniciativas a uns quantos cómicos, trágicos, líricos e cabeças vazias, que os ridículos ora aprovam ora desaprovam, pois no fundo tudo querem, tal como nós, rindo de tudo... Nesta história, a salvação chega pelo amor de uma princesa surgida de uma laranja, que a sede desenfreada dos homens não chegou a destruir. E na nossa história real? A ironia vivaz, da suite sinfónica, que agora escutámos, aponta para esse incansável e insaciável "marketing" político que, todos os dias, nos coloca no meio de uma barafunda de pregões, de promessas e de protestos... Não sei porquê, ocorre-me o conselho de S. Domingos, fundador de uma ordem de pregadores, aos seus irmãos: que me apague, me tape, me esconda, para não esconder a voz do meu Senhor. Antes de falar, precisamos de silêncio. Fala-se demais, esquecemos que a agitação das palavras no frenesi dos discursos foi já sinal de grandes tragédias.

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 17.08.2012 neste blogue.  

BREVE EVOCAÇÃO DO TEATRO GARCIA DE RESENDE


Evocam-se hoje os 140 anos da fundação em Évora da chamada Companhia Fundadora do Teatro Garcia de Resende, iniciativa que se desenvolve a partir da aquisição e início da edificação do edifício e, segundo então se pretendiam da atividade cultural inerente. A obra inicia-se em 1881, prossegue mas suspende-se em 1883. O grande animador foi José Maria Ramalho Perdigão.


Mas o certo é que a obra é suspensa por falta de meios e Ramalho Perdigão morre em 29 de janeiro de 1884. Três anos decorridos, a viúva, de seu nome Inácia Fernandes Ramalho, casa em segundas núpcias com Francisco Eduardo Barahona Fragoso, o qual assume grande parte da herança do primeiro casamento de Inácia: e desse casamento resultou, entre tantas mais consequências, o avanço das obras então interrompidas.


Uma vez terminadas as obras, Fragoso doa o Teatro à Câmara Municipal.


E assim surge, concluído, um dos mais antigos teatros municipais inaugurados em Portugal!...A inauguração data de 1 de junho de 1892. E é de assinalar a inspiração direta de aspetos relevantes do projeto e da sua execução.


Evoca-se aqui o que escrevemos sobre este teatro, no estudo intitulado “Teatros de Portugal”: e é de assinalar então que este marcou de forma ainda hoje amplamente assinalável o que na época se fez no sentido da descentralização na arquitetura do espetáculo, digamos assim.


Aí se recorda então, e cito, que um grupo de cidadãos em 1881 constituiu a chamada Companhia Fundadora do Teatro Garcia de Resende e, a custas próprias, adquirem terreno e lançam-se na empreitada da construção. Como mecenas animador aparece José Maria Ramalho Perdigão. Ora a obra parou em 1883 por falta de meios e Ramalho Perdigão morre em 29 de janeiro de 1884. Ocorre então que em 1887 a viúva, Inácia Fernandes Ramalho, casa com Francisco Barahona Fragoso, o qual assume o passivo do Teatro, avança com as obras e doa-o à Câmara Municipal de Évora.


Trata-se de um dos mais antigos teatros municipais do país…


E mais acrescento na obra citada que se trata de uma típica sala à italiana excelentemente equipada e com maquinaria da época. A decoração comportava evocações do Palácio de D. Manuel e também do passado muçulmano da cidade. Mas assinalava-se como uma inspiração direta da estrutura do Teatro de São Carlos: frisas e três ordens de camarotes com decoração naturalista e ainda medalhões de atores a dramaturgos, como era hábito nos teatros da época.


E é de assinalar que o teatro abre ao público para estreia em 1 de junho de 1892. Representou-se uma peça de Eduardo Shwalbach intitulada “O Íntimo”. E acresce uma comédia francesa, tudo isto representado pela Companhia Rosas e Brasão, à época uma das mais notáveis no meio teatral português!...


E cito então aqui o que escrevi, em “Teatros de Portugal” a propósito da visita que Fialho de Almeida fez ao Teatro Garcia de Resende.


Aí recordo que Fialho de Almeida reporta-se a uma visita efetuada com o edifício ainda em obras. Aproveita, com uma proverbial verrina, para apoucar o S. Carlos e o D. Maria mas, dado o estado de ambos em 1872, certamente com razão: “riquezas de pacotilha, bancos sujos, os oiros delicados, papéis de seis vinténs, salões de grisalha besta e plafons de botequim de cavalinhos”…


Pelo contrário, acrescento, o Garcia de Resende, apesar das reservas que lhe merece o exterior, e o acesso, e apesar da sala ser “defeituosamente alta”, merece elogios. A sala apresenta “uma espécie de arcaria gótica de bom gosto”. A decoração do ebenista Leandro Braga é (cito) um “trabalho delicado, sóbrio e elegante, deixa uma impressão de riqueza e de nobreza esparsa”…


Nada menos!...

 

DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

33. CIDADANIA ORIGINÁRIA E DERIVADA


Ascendência (ius sanguinis) e território (ius soli) são os elementos causais da cidadania originária.


Casamento, filiação, residência, naturalização, são exemplos de conexões relevantes para aquisição da cidadania derivada.


A cidadania originária relaciona-se com a nacionalidade, o que herdámos biologicamente, por via sanguínea, com o não escolhido, transmitindo-se de pais para filhos, de ascendentes para descendentes, enquanto consequência do sangue e do solo.


A cidadania derivada agarra mais de perto o âmbito do desejado, querido, aceite, contratado, consentido e não herdado.   


A retórica da cidadania como signo de identidade tem conteúdos primariamente conservadores: pátria, mátria, patriotismo, natureza, tradição, costumes, origens, raízes, terra.       


A da cidadania como símbolo de comunicação tem conteúdos basicamente funcionais e de substituição, usando-a por me ser necessária e útil.     


De um discurso tendencial e potencialmente sacralizador, (cidadania originária), transita-se para um dessacralizador (cidadania derivada).   


Vem isto a propósito da controvérsia sobre emigrantes e estrangeiros que escolheram Portugal para seu país agudizada, recentemente, pela nossa representação nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em que havia 19 atletas não nascidos em terras lusas.


Naturais de Angola, Brasil, Cabo Verde, China, Camarões, Costa do Marfim, Congo, Cuba, Estados Unidos, França, Geórgia, São Tomé e Príncipe, Suíça e Ucrânia.


Com particular destaque para três dos quatro medalhados: Pedro Pichardo, Patrícia Mamona e Jorge Fonseca. Com ênfase para Pichardo, medalha de ouro, não nascido português, sendo naturalizado.


Sucede que a ideia de português (ou pátria portuguesa) não exige, nem reclama ou reivindica, uma herança ou transmissão por via biológica ou genética, antes sim, e cada vez mais, uma opção desejada, necessária, querida, sentida e útil, uma compensação e um reconhecimento tão ou mais poderoso que a cidadania originária de nascença, em favor de uma cidadania derivada de uma livre escolha, por imigração, mas não só.


Tendo presente sermos um país de emigrantes, de longas viagens e misturas, em que a atual noite demográfica, uma baixa taxa de natalidade e um envelhecimento demográfico, exigem medidas adequadas e proporcionais que razoavelmente as anulem.

 

26.11.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Ana Ruepp

 

DO CÓDIGO NOVO – Projeto 4


Artigo 20º
    

À consistência das posturas dos autores e destinatários das cartas missivas confidenciais e não confidenciais, aplicam-se as regras das redes sociais vigentes com exceção do WhatsApp tendo em conta que este só reproduz encriptadamente.

Artigo 21º      

1.Entende-se por domicílio a residência habitual da pessoa e não necessariamente o local onde dorme.

2. Para efeito de colmatar dúvidas contidas no número anterior, entende-se por domicílio o local onde o sujeito se encontrar.

3. Se a pessoa exercer uma profissão a bordo de navios ou aeronaves determina-se o domicílio em função das circunstâncias mais competentes, sejam elas quais forem.


Artigo 22º

Quando seja necessária a prestação de contas que derivem da administração de bens próprios ou alheios e caso estes bens tenham desaparecido sem que deles se saiba parte, entende-se que estes sejam relacionados à responsabilidade de quem deles desconhece paradeiro pelo qual devesse responder.

 

Teresa Bracinha Vieira

OUVIR O SILÊNCIO. VER O INVISÍVEL

 

1. Há perguntas ingénuas que parece quase tocarem o ridículo. No entanto, são das mais interessantes.


Exemplos: Onde começa um ser humano? Começar, não apenas no sentido cronológico, mas quase diria topográfico... Em que instante começou um ser humano? Aliás, a pergunta do início é similar à do fim: Que instante é esse em que um ser humano deixa, pela morte, de pertencer a este mundo e ao tempo? No tal sentido quase topográfico, a pergunta poderia assumir a seguinte formulação: O que é que um ser humano vê, quando olha, não os olhos, mas o olhar de alguém? Hegel disse  que vê o abismo do mundo. Se estivermos atentos, é isso: quando dois olhares se olham no olhar contemplam o abismo do mundo e o seu mistério.


A pergunta pode explicitar-se, perguntando: O que é que está por detrás e no íntimo e no fundo do que se vê? O que é o invisível do visível? Ou então: O que é que o visível torna visível? Melhor: O que é que o visível, precisamente ao mostrar, esconde? O que é que está na raiz do que vem à luz, do que se manifesta?


Onde é que radica qualquer pergunta digna desse nome senão aí onde habita o imostrável, mas precisamente para mostrá-lo enquanto imostrável? O que é que um rosto mostra senão alguém que está a vir à janela de si próprio, ocultando-se?


Afinal, o que vem à luz acende-se na noite... E as nossas palavras, onde é que se acendem também senão precisamente na noite do Silêncio? Mas há o silêncio morto e vazio, e o Silêncio habitado, que fala. E ouvir o Silêncio que fala não é o que propriamente se deveria chamar oração?


Quando não se ouve o Silêncio que fala, as nossas tempestades de palavras não passam de verborreia e barulho caótico, ensurdecedor. De facto, quem não bebe na fonte do Silêncio que fala, o que é que diz, quando fala? Não quero apontar para os parlamentos...


Não será precisamente porque já não há tempo para ouvir o Silêncio que os pais pouco ou nada têm a dizer aos filhos, que a palavra dos professores anda gasta e murcha, que os padres proferem palavras engasgadas e mortas, que a vida pública se vai tornando pura poluição sonora?


2. De repente, tropecei no título da rádio TSF: Como se visse o invisível. É isso: o ser humano anda distraído, mas pode acontecer que subitamente se dê conta. Aliás, o homem é homem, diferente do animal, precisamente porque não vive estando aí pura e simplesmente, mas se dá conta de que vive, reflecte sobre as coisas, sobre a existência, sobre si próprio.


Como se visse o invisível... Afinal, como é? Trata-se de um simples "como se" ou vê-se mesmo o invisível? E se se vê, que invisível é esse? E como é que se vê o que é invisível? E esse ver é privilégio de alguns ou todos podem vê-lo? Ou acontece até que todos o vêem, simplesmente não se dão conta disso?


Quem ouve como se visse o invisível não espera ouvir dizer que alguém viu Nossa Senhora ou bruxas ou o diabo ou um anjo aí numa esquina qualquer, numa igreja, numa esplanada, no cimo de um monte... Mas então quem fala em Como se vissse o invisível o que é que viu de especial para ousar falar do invisível, como se o tivesse realmente visto? Afinal, o que é que ele ou ela viu ou vê?


Quando não andamos completamente distraídos, sabemos que vemos sempre mais do que aquilo que julgamos ver, ouvimos sempre mais do que pensamos ouvir, pensamos sempre mais do que pensamos. Toda a experiência é sempre experiência com experiências. Seja qual for a esperiência, sabemos dela, de nós e das condições de possibilidade do experienciar. Quando vemos algo, não vemos apenas esse algo que estamos a ver, pois vemo-nos também a nós que estamos a ver, embora não tenhamos imediatamente consciência disso. Por outro lado, por mais que vejamos de nós, nunca nos vemos completamente: somos sempre mais do que vemos de nós ou sabemos de nós. Nunca conseguimos ir até ao fundo de nós, tornar-nos completamente transparentes a nós próprios.


O olho vê o que vê, mas nunca se vê a si mesmo; sabemos, no entanto, que está lá. Como dizem os Vedas, livros sagrados dos Hindus, "o que vê não pode ser visto; o que ouve não pode ser ouvido; e o que pensa não pode ser pensado". O mais fundo de nós nunca pode vir à consciência, é, por sua própria natureza, invisível. Quando demos por nós já lá estávamos, e a existência nunca pode ser reflectida adequadamente nem tornar-se plenamente consciente de si própria. Assim, quando nos vemos é sempre com o invisível que contactamos.


Antes da execução, aos condenados à morte vendam-lhes os olhos, porque o olhar da vítima é intolerável. Afinal, quando vemos alguém no olhar o que é que vemos senão o invisível na sua visibilidade, mas precisamente de tal modo que permanece invisível? Uma pessoa no seu corpo, melhor, um corpo pessoal não é simplesmente uma estrutura fisiológica visível: ninguém faz amor com uma estrutura orgânica visível, mas ama-se uma pessoa na sua invisibilidade palpável e visível. Um corpo humano é uma "alma" visível e vista, cheirada, palpável...


Quando olhamos para o mundo com olhos de ver é sempre com o invisível visível que entramos em contacto. A realidade toda é a visita do invisível. Na raiz de tudo está um mistério que se diz, que vem à luz, mas que ao mesmo tempo continua velado e sem se ver: vê-se precisamente como invisível.


Como se visse o invisível: apontamentos para chamar a atenção para o mistério do ser, para a dignidade de ser homem, para a justiça, para a religação última à fonte invisível de tudo o que se vê...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 de novembro de 2021

A FORÇA DO ATO CRIADOR


Em Lisbon Story o olhar e a existência desejam unir-se.


“Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”, Álvaro de Campos, Ode Triunfal.


Em Lisbon Story (Wim Wenders, 1994) a evasão no espaço sugerida por Fernando Pessoa é descrita pela atitude da personagem de Friedrich que se tornou ninguém perante a cidade. Captar a cidade somente através da lente tornou-se uma prisão para Friedrich. O caminhar e o olhar desejam estar em uníssono. E no filme, também o som resgata a verdadeira existência das coisas.


“Todos os dias a Matéria me maltrata (…) Busco-me e não me encontro. (…) O meu amor ao ornamental é sem dúvida porque sinto nele qualquer coisa de idêntico à substância da minha alma.”, Fernando Pessoa em “Livro do Desassossego” (Pessoa 134-142)


Os objetos e as imagens que fazemos desses objetos constroem-nos. A experiência de sentir confirma a nossa existência. O posicionamento das coisas no mundo ajuda a determinar os nossos limites físicos - nós nunca nos chegamos verdadeiramente a ver de fora. O mundo que nos rodeia é o nosso espelho, é uma ajuda para a descoberta do sentido da nossa existência - mesmo que não saibamos quem somos o espaço que nos rodeia com o tempo nos dirá.


“Sou nada...
Sou uma ficção...
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?”
Álvaro de Campos, Ali não havia eletricidade


Capturar uma cidade através de um filme, segundo Wim Wenders só é possível através de uma narrativa que tente estabelecer uma ordem e uma possível estrutura. A história traz sempre uma ilusão, porque afirma uma espécie de coerência e significado aparente à circunstância indeterminada que nos rodeia.


“Stories give people the feeling that there is meaning, that there is ultimately an order lurking behind the incredible confusion of appearances and phenomena that surrounds them.”, Wim Wenders In The Cinema of Wim Wenders: The Celluloid Highway (Graf 2002, 2)


É impossível conter o espaço todo de uma cidade numa película, mas o cinema pode ajudar a resgatar a existência das coisas que estão à frente dos nossos olhos. Para Wim Wenders, o cinema ao ajudar a ver de novo pode tornar-se então numa experiência poética única - as imagens filmadas podem até contribuir para a formação e fixação da identidade de uma pessoa.


Em Lisbon Story, a personagem de Friedrich explora o indeterminado e impreciso espaço de uma cidade. Friedrich deseja simplesmente pertencer ao que existe, porque diante da cidade talvez consiga entender aquilo que é verdadeiramente. A experiência de decifrar o espaço da cidade através dos sentidos pode levar paradoxalmente à perda de si mesmo. Existe o desejo do mundo e da pessoa humana se transformarem num só.


“E às vezes, em pleno meio da rua - inobservado, afinal - paro, hesito, procuro como que uma súbita nova dimensão, uma porta para o interior do espaço, para o outro lado do espaço, onde sem demora fuja da minha consciência dos outros, da minha intuição demasiado objetivada da realidade das vivas almas alheias.”, Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Pessoa 2014, 134)


A vida de Friedrich paira sobre a cidade e casa impede-o de ser. O olhar e a existência desejam unir-se, porque a vida também pertence às coisas. Friedrich caminha pelas ruas da cidade e tenta captar e colecionar imagens que nunca foram vistas, imagens puras, que conservam a realidade tal como é - imagens que não vendem nem histórias nem coisas, imagens que não estão contaminadas por um determinado olhar. Friedrich acredita que se não for vista, a imagem e o objeto poderão permanecer para sempre juntos. Mas, ao longo de Lisbon Story, apercebemo-nos que afinal a criação das imagens têm de ser feita sempre com um determinado olhar, porque é através da sensibilidade única e singular de cada um de nós que se criam imagens que realmente são indispensáveis e que criam para sempre ressonâncias.


“No magno dia até os sons são claros (…)
Quisera, como os sons, viver das coisas
Mas não ser delas…”, Ricardo Reis

Ana Ruepp