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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Solidão: um lugar de morada

 

Escutei pela radio que uma senhora fazia renda numa farmácia das 9h às 19h todos os dias. Escolheu um cantinho onde desse sol e dizia: é maravilhoso estar aqui na farmácia a fazer renda.

 

Diz que assim nunca está sozinha. Não imagina melhor sítio para estar e o doutor da farmácia entende. É tão discreta que parece-se a uma existência reduzida, ela o banco e a renda. A tensão arterial é branca e as análises que um dia fez acusaram apenas solidão. Há quem precise de explicações para este facto, ela não. Sabe que na morte somos todos iguais e na aflição também. Sabe que aquele que está lá em cima olha por ela, até lhe arranjou a farmácia, e esconde dela as caras dos clientes que não gostam de a ver ali.

 

Às vezes, sente que não descansa nunca, mas não é depressão, é que a renda que faz é complicada e renda, renda, renda a subir e a descer os desfiladeiros da vida da ponta dos dedos ao fundo da alma, são coisas que cansam lá dentro dela. Contudo a farmácia é um local maravilhoso: repete sempre.

 

Também lhe acontece que as linhas entrelaçadas da renda lhe levam à memória os 4 filhos e a viuvez, e, se assim acontece, pensa logo no almoço que só pode em certos dias, pois a reforma é pouco mais de 200€. Este exercício da falta do almoço recorda-lhe uma das filhas, a única, que, de quando em vez, lhe chega uma ajudinha pouca, e o doutor da farmácia, esse, que a deixa estar ali é uma pessoa maravilhosa e ela tem muita sorte.

 

Fazer renda numa farmácia pode ser o promontório possível de uma vida que bem sente a indiferença de quem tudo tem e canta o hino da vitória ao dinheiro que tudo suplantará.

 

Nos tempos que correm a solidão é prevalente nesta sociedade dilacerada, na qual se medem aos palmos e às rendas, o bem-estar inferior de cada um. Não há caminho que concretize o maior desejo do ser humano que é o de ser amado e a vitória afinal é a do descartar dos seres.

 

Também em busca de suposto sentido a sociedade moderna exalta os génios e os de alta performance para a economia e para o superior pensar. Mas a maioria da humanidade não é genial, senão apenas normal e aos normais ainda se retira o pouco, mesmo que ser normal seja a superior capacidade de suportar a dor com um fio de esperança de que a sua vida tenha sentido. O sentido do porque viver. Porque se ganha fidelidade a meio metro quadrado de uma farmácia, chegando a acreditar-se que afinal ali já se vivia antes de nascer.

 

E quem toma como sua esta apelidada de tranquila morada? Quem tem essa coragem onde porta alguma se insinua? Quem de tudo distante, pode manter seu refúgio?

 

A Paulo Moura que tão empenhadamente descreve o exílio das flores regadas a destroços desta sociedade de solidões, me junto, e assim me aceite, para entender com ele o quanto lá ao fundo por entre as rendas, mágoa alguma serena.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Anthony Caro e a expansão no espaço.

 

‘I never work from maquettes, I never make drawings. I work from the material. It is a sort of technique for letting it flow out of yourself, without worrying too much (...) It comes directly from cubism, from collage and I am able to do things in an immediate way. There is less space between the idea and what you make.’ Anthony Caro

 

No início dos anos 1960, o escultor Anthony Caro (1924-2013), na esperança de tornar o seu trabalho mais puro, mais real, mas ainda expressivo, enveredou por um território mais aberto e ambíguo. Caro afirmava assim uma ideia de claridade de intenções e de intuição, diretamente expressa sobre os materiais empregues.

 

Qualquer semelhança com a figura humana voltaria a transportar o trabalho de Caro para a linguagem da representação. E de modo, a perseguir um estado mais puro e sem qualquer tipo de conotação, Caro abandonou toda e qualquer referência antropomórfica. Por isso, talvez, os seus primeiros trabalhos abstratos, tenham surgido pelo uso de um novo material já existente - nomeadamente o aço (em forma de painéis, vigas, redes e tubos) - e pela influência da pintura de Kenneth Noland (ver Twenty Four Hours, 1960).

 

Surgia então assim e pioneiramente, uma escultura de formas irreferenciáveis, fisicamente próxima, colada ao chão e de uma gravidade leve.

 

‘In pictorical sculpture the structural solidity of the object is evaporated.’ Anthony Caro

 

O trabalho de Caro tem a incrível capacidade de incluir todo o diálogo que existe com o material, com aqueles que ajudam na execução da obra e com o espaço. Ao retirar a base da escultura e ao colocá-la diretamente no chão, o fruidor passa a reconhecê-la como um objeto, como uma estrutura aberta.

 

Em esculturas como Aroma (1966) e Smoulder (1965) afirma-se a fluidez em vez da solidez; a quase inexistência em vez da monumentalidade; a ligeireza em vez da massa; contenção e amplificação; ausência e intersecção. Define-se espaço (feito de pontos, linhas e planos) com grande eficácia e imediatismo. E são precisamente as descontinuidades, as distâncias, as transparências e a escala que permitem as várias e diferentes leituras de espaço. A redução dos elementos permitiu a exploração de conceitos como rotação, pausa, extensão e a quase imaterialidade (porque se estabelece fora das referências do mundo das coisas).

 

A noção de escultura como massa fechada e compacta explode e passa a dar-se importância à profundidade espacial - à expansão dos elementos que flutuam no espaço, em diferentes planos. A leveza é aparente, virtual porque na verdade a matéria física, que Caro utiliza, é real e pesada.

 

‘I think the edges of subjects are interesting: where sculpture meets drawing, where sculpture meets architecture - these are borderlines which invite exploration’, Anthony Caro

 

Ana Ruepp

SEIS ANOS DEPOIS: DESAFIOS PARA FRANCISCO

 

1. Fez no passado dia 13 seis anos que Francisco, ao anoitecer em Roma, compareceu como novo Papa perante a multidão que o aguardava, saudando-a com um “boa noite” e pedindo-lhe a bênção, antes de ele próprio a abençoar. Que os cardeais o tinham ido buscar ao “fim do mundo”. Pelo nome, Francisco, lembrando Francisco de Assis, a quem Jesus crucificado tinha pedido que restaurasse a sua Igreja em ruínas, pelo novo estilo, pela humildade e simplicidade, ficou a percepção nítida de que iria estar a caminho um modo novo de pontificado papal: nem sequer se chamou Papa, mas Bispo de Roma, e era um pontífice, no sentido etimológico da palavra: alguém que quer estabelecer pontes.

 

E o povo cristão e o mundo não se enganaram. O nome de Deus, foi dizendo Francisco ao longo destes anos, é Misericórdia. É necessário perceber que o princípio primeiro não é o cartesiano “penso, logo existo”, mas outro, mais essencial: “sou amado, logo existo”. E agir em consequência, e Francisco tem estado, por palavras e obras, junto de todos, a começar pelos mais frágeis, pelos abandonados, marginalizados, migrantes, pobres, pelos menos amados ou pura e simplesmente sem amor. Um cristão, que põe no centro Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e felicitante, contra “a globalização da indiferença”.

 

A Igreja não pode entender-se em auto-referencialidade, pois tem de estar permanentemente “em saída”, ao serviço da Humanidade, como “hospital de campanha”. A Igreja “somos nós todos” e, por isso, é preciso que caminhemos juntos, “em sinodalidade”. O poder só se legitima enquanto serviço e, assim, não se cansa de denunciar os bispos “príncipes e de aeroporto”. O clericalismo e o carreirismo são uma “peste” na Igreja, repete permanentemente. A Cúria, cujas doenças gravíssimas denuncia, precisa de uma reforma radical, tal como se impõe a transparência no Banco do Vaticano. A Igreja não pode viver obcecada com o sexo, havendo uma nova orientação neste domínio: pense-se na possibilidade da comunhão para os recasados, na nova atitude face aos homossexuais, na nova compreensão para as novas formas de casamento. A Igreja tem de praticar no seu seio os direitos humanos que prega aos outros e, portanto, nunca mais houve condenação de teólogos; pelo contrário, escreveu a vários, que tinham sido condenados, elogiando e agradecendo o seu trabalho, como aconteceu, por exemplo, com Hans Küng ou José Maria Castillo.

 

Francisco publicou uma encíclica de relevância global sobre o cuidado da casa comum, a ecologia e a salvaguarda da criação, Laudato sí, impulsionou o diálogo ecuménico com as outras Igreja cristãs, aprofundou o diálogo interreligioso, concretamente com o islão moderado, sendo exemplar a sua recente viagem histórica aos Emiratos Árabes Unidos, com a assinatura do “Documento sobre a Fraternidade Humana”, que aqui já referi. Como líder político-moral global, tem desempenhado papel relevante em processos de paz internacional. Não sem razão, Francisco é o líder mundial mais apreciado e estimado do mundo, segundo a Sondagem Mundial Anual de Gallup International, realizada em 57 países e publicada nos inícios de Fevereiro.

 

Devo esta última informação a um texto de Hernán Reys Alcaide, subordinado ao tema dos desafios para Francisco neste seu sétimo ano como Papa, precisamente o ano que teve início no passado dia 13.

 

2. Que desafios? Enuncio alguns.

 

2.1. Perante o abismo da chaga da pedofilia do clero, Francisco tomou a iniciativa que se impunha: como dei amplo conhecimento aqui, convocou para o Vaticano os responsáveis máximos da Igreja, concretamente os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, representantes das Igrejas católicas do Oriente, representantes dos superiores e das superioras gerais de Congregações e Ordens religiosas. Homens e mulheres foram confrontados com testemunhos vivos de antigas vítimas, para que tomassem consciência da situação terrível que destruiu vidas e a fé de tantos e colocou a Igreja no fosso da descredibilização.

 

A tragédia era inimaginável. Quem suporia que um cardeal, a terceira figura do topo da Igreja, o cardeal australiano George Pell, havia de estar condenado e preso na cadeia, por abuso de menores? Neste momento, 37% dos católicos norte-americanos põem a questão de abandonar a Igreja, por causa da pedofilia... Francisco prometeu que todos os acusados serão entregues à justiça. O abuso de menores e adultos vulneráveis é não só um pecado mas também um crime, que é obrigatório denunciar. Já não haverá lugar para os encobridores... Operou-se uma verdadeira revolução copernicana, no sentido de que agora o centro será ocupado pelas vítimas e a sua defesa e apoio sem tréguas.

 

Desafio maior para Francisco neste novo ano de pontificado é o cumprimento da promessa da formação de um grupo de peritos multidisciplinar, de um novo “Motu Proprio”, decreto papal, para reforçar a prevenção e a luta contra a pedofilia e a protecção dos menores e pessoas vulneráveis, com medidas concretas, e de um “vade-mecum”, isto é, uma espécie de manual para orientação dos procedimentos dos bispos neste domínio. É imperioso e urgente que a Igreja se torne um lugar seguro para os menores, inclusivamente para ir ao encontro da vontade explícita e dramática de Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era melhor atar-lhe a mó de um moinho à volta de pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. A Igreja tem de tornar-se exemplar, também para poder tornar-se credível na denúncia e na ajuda para a libertação de tantas crianças e adolescentes (centenas de milhões) que no mundo são vítimas de abusos sexuais, físicos e psicológicos, da fome e da guerra.

 

Se não forem tomadas todas as medidas necessárias para acabar com esta brutalidade da pedofilia clerical, a Igreja caminhará não só para a sua irrelevância mas também para a sua autodestruição.

 

2.2. Desafios ético-diplomático-políticos, concretamente em relação à China e à Venezuela.

 

A situação na Venezuela é pura e simplesmente insuportável, a ponto de me perguntar como é possível, face à tragédia — não há de comer, não há remédios, não há electricidade, a fome campeia, não há liberdade... —, haver partidos que ainda apoiam e defendem Maduro. Que vai Francisco fazer, para intermediar o intolerável?

 

Como vai Francisco conseguir implementar, em casos concretos, o acordo assinado com a China em Setembro passado para a nomeação conjunta dos bispos, depois de 60 anos de desencontros entre Roma e Pequim quanto a esta questão essencial para a Igreja? Xi Jinping passará por Roma em finais deste mês de Março. Será recebido pelo Papa?

 

2.3. Está em processo de redacção uma nova Constituição Apostólica, Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), para a Cúria Romana, governo central da Igreja. Que novas estruturas, que divisão de competências? Qual a presença e a participação de leigos, incluindo mulheres? Que descentralização, que relação com as Conferências Episcopais do mundo, com que competências para a participação no governo da Igreja universal? De qualquer modo, as Conferências Episcopais serão consultadas para a nova Constituição.

 

2.4. Provavelmente, haverá um novo Consistório cardinalício, para a nomeação de novos cardeais. Quem? Com que orientação? E se o sucessor de Francisco, em vez de ser escolhido só por cardeais, o fosse por um colégio de representantes semelhante ao da Cimeira que se reuniu em Roma para pôr termo à pedofilia, portanto, mais representativo da Igreja universal, com a presença inclusivamente de mulheres?

 

Aliás, um dos desafios para o novo ano tem a ver precisamente com a justa reivindicação de maior presença e participação das mulheres na Igreja nos seus vários níveis, incluindo na formação dos candidatos a padres. Francisco tem afirmado que a Igreja não pode continuar “machista”.

 

2.5. Acontecimento de enorme relevância será o Sínodo para a Amazónia, de 6 a 27 de Outubro próximo, que não será fácil também por causa do novo Governo do Brasil com Jair Bolsonaro.

 

De qualquer forma, é em conexão com este Sínodo que são referidas questões tão importantes como o lugar e a participação das mulheres nas decisões da vida da Igreja ou a possibilidade da ordenação de homens casados. É neste contexto que é necessário repensar a formação dos novos padres e a questão da lei do celibato obrigatório.

 

Precisamente neste quadro e voltando à Igreja clerical e aos abusos sexuais e ao clericalismo, “peste” na Igreja, deixo aí, para reflexão final, um texto duro do teólogo José Arregi, que, depois de citar aquele dito de Francisco, pouco feliz, se não for entendido no seu contexto, de que “todo o feminismo é um machismo com saias”, escreveu: “Sim, o problema talvez tenha que ver com saias, mas com as saias do clero com sotaina. Tem muito que ver com o clericalismo que sacraliza e enaltece os clérigos, que exalta a figura desencarnada de Maria Mãe e Virgem para assim humilhar a mulher de carne e osso, que impõe o celibato como estado mais perfeito e sagrado, que ‘sacrifica’ o sexo a troco de poder sagrado e hierárquico, que reprime e por isso exacerba a sexualidade. O clericalismo é um sistema patogénico. E, enquanto não se libertar dele, esta Igreja não será crível nem um lugar habitável, por mais liturgia penitencial que ostente.”

 

Entretanto, a Conferência Episcopal Alemã acaba de anunciar um debate interno sobre o celibato, o abuso de poder e a moral sexual na Igreja Católica, com base na Cimeira sobre a pederastia, há pouco realizada no Vaticano.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 17 MAR 2019

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NÃO HÁ TERRA 2…
19 de março de 2019

 

Continuo a dar-vos páginas do meu “Cavaleiro Andante” para meu e vosso deleite. Desta vez, recordo as aventuras de “Lolocas e Pompom”, no original “Modeste e Pompon”. Trata-se de uma criação de André Franquin (1924-1997) em 1955, para a revista Tintin, que também foi publicada fugazmente na revista “Spirou”. Os autores foram nomes consagradíssimos: Greg, Peyo, Tibet e mesmo Goscinny. Os desenhadores foram, além de Franquin, Dini Attannasio, Mittéi e Godard, Griffo, Bernard Duponr e Walli e Bom… Mas, por que razão me lembrei desta série? Não porque seja central na história da BD, mas porque me lembra a natureza, as traquinices, o ar livre…

 

É que esta semana, acompanhei do meu jardim com muito agrado os movimentos dos mais jovens na defesa do meio ambiente. Estou de alma e coração com o alerta lançado pela jovem sueca Greta Thunberg. Lembramo-nos do que disse em dezembro passado na reunião da COP 24 (24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima):  “Só fala de crescimento econômico eterno verde quem  está com muito medo de ser impopular. Trata-se de seguir em frente com as mesmas ideias erradas que nos meteram nessa confusão, sobretudo quando a única coisa sensata a é puxar o travão de emergência. Isso está errado. Não se está maduro o suficiente para dizer como é. Mas não podemos tolerar que esse fardo seja deixado para a nossa geração”. A jovem Greta é descendente por parte do Pai de um Prémio Nobel da Química de 1903,  Svante Arrhenius, e lançou um alerta sério, que não pode ser visto como algo de passageiro ou formal. É um movimento de tipo novo, que obriga cidadãos e cientistas,  artistas e criadores de todas as idades a empenharem-se na adoção de medidas concretas, para que o ambiente não seja irremediavelmente destruído. Não temos uma Terra número Dois, não há Plano B para a destruição do Meio ambiente. Há cinquenta Anos em Estocolmo foi dado um grito de alerta que ninguém ouviu. Destruímos desde então mais do que tudo o que tínhamos destruído desde o início da humanidade. Esse movimento é mortal. Toda a humanidade está ameaçada. O apelo dos jovens, o alerta dado em todo o mundo tem de ser ouvido. Temos de dar-nos as mãos – cientistas e cidadãos, artistas e políticos!

 

E deixo-vos um poema de Pedro Tamen:

 

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões”.

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de março de 2019

 

Este ano, as “Correntes d’Escritas”, na Póvoa de Varzim, partiram de versos e frases de Sophia de Mello Breyner, nomeadamente, para três conversas, esta: “a cultura é cara. A incultura acaba por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo”.

 

 

O VALOR INCOMENSURÁVEL DA CULTURA
O tema deu pano para mangas, e permitiu glosas diversas para o mesmo mote. Naturalmente, que havia que lembrar a primeira lição de economia, que muita gente esquece. De facto, o que tem mais valor é o que não tem preço. Isto significa que se queremos compreender as relações humanas e sociais, somos obrigados a entender a dificuldade das escolhas que somos obrigados a fazer. O mercantilismo cego tem levado a cairmos nas armadilhas do imediatismo e do curto prazo. Por isso, Sophia dizia, como se estivesse a ver o que a cada passo nos circunda, que a demagogia custa sempre caríssimo. Se é verdade que nem tudo o que reluz é ouro, o certo é que a corrida atrás do que é fácil e imediato só leva a exacerbar egoísmos e consumismos, numa corrida desenfreada para a destruição do que melhor recebemos por parte das gerações que nos antecederam. E regresso ao velho tema da exigência de não deixar ao abandono o património cultural em todas as suas vertentes.

 

DO QUE FALAMOS? 
De que cultura falamos? Da arte, onde tudo começa, já que a educação da criança se inicia pelos sentidos e pela admiração, curiosidade e espanto por tudo o que é belo, seguindo a maravilha dos números, que nos permitem unir e distinguir, e continuando na magia das letras e das palavras. Voltando à poeta de “Mar Novo”: “A Arte deve ser livre, porque o ato de criação é em si um ato de liberdade. Mas não é só a liberdade individual do artista que importa. Sabemos que quando a Arte não é livre, o povo também não é livre. Há sempre uma profunda e estrutural unidade da liberdade. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma que significa sempre opressão de um povo inteiro”. Eis o que está em causa. A liberdade corresponde a uma dimensão pessoal e comunitária. Lembro-me bem de Sophia a invocar estas duas palavras, do mesmo modo que Francisco de Sousa Tavares demarcando-se dos entendimentos totalitários que partiam da lógica transpersonalista. Em tantos debates no Centro Nacional de Cultura essa questão tornou-se pedra de toque. Liberdade e diferença, igualdade e responsabilidade – eis o que obrigava a partirmos para uma democracia de pessoas, como nos ensinaram na sala histórica da António Maria Cardoso: Gabriel Marcel, José Bergamín, Schillebeeckx, Padre Manuel Antunes, Maria de Lourdes Belchior, Almada Negreiros, Fernando Amado, Gonçalo Ribeiro Telles… Todos por lá passaram, militantemente. E a liberdade era defendida na encruzilhada da raiz e da utopia – ou como queria Bergamin, na capa da sua revista “Cruz y Raya” como mais e menos. Só poderemos ser livres, se a justiça não for parcial, unidimensional e abstrata. Daí esses dois sinais gráficos da adição e da subtração. Que é a cultura senão essa capacidade de distinguir o que acrescenta e o que diminui. A vida é isso mesmo. E a criação cultural corresponde à aproximação das pessoas concretas – numa relação que tem de ser estabelecida olhos nos olhos… Os criadores são pessoas de carne e osso que partilham a sua capacidade de fazer da arte um valor para todos. Como ainda dizia Sophia: “Existe uma arte para todos à qual o povo deve ter acesso porque esse acesso lhe deve ser possibilitado através dos meios de comunicação social”. Os aedos cantaram nos palácios, os rapsodos nas praças públicas, e com Homero, a arte foi posta em comum – e por isso os gregos inventaram a democracia. E que é a Arte? Um dom pelo qual acrescentamos valor ao que a natureza nos faculta. Como diz Eduardo Lourenço, “o sentido real da cultura é a produção de coisas valiosas e de valores”. Quando pomos em diálogo os poetas, os escritores, os pintores, os escultores, os músicos, os artesãos, os atores, os dramaturgos, os cientistas – é o mundo e a natureza que pomos a falar.

 

A QUE PREÇO?
A cultura é cara? Sim, porque corresponde ao que tem mais valor. Àquilo que não cabe nos cânones do mercado. E falamos de uma noção ampla e rica, a cultura que não pode ser deixada ao abandono. Não é mercadoria, do mesmo modo que a educação e a ciência o não são. Por isso, estamos perante um investimento reprodutivo, transversal e abrangente. Os públicos da cultura formam-se nas escolas. A criatividade do artista e do cientista, do músico ou do artesão têm raízes comuns. Falamos das identidades como realidades dinâmicas, diversas e abertas. Falamos de fundamentos e raízes que temos de enriquecer permanentemente. Falamos de pessoas, de hábitos e costumes, de pedras vivas, mas também de monumentos, de vestígios arqueológicos, de pedras mortas, que têm significado para o nosso ser. E falamos do património genético e do digital, do genoma e da inteligência artificial, bem como da natureza e da paisagem, e igualmente da capacidade criadora de hoje e de sempre. É este o sentido comunitário que foi bandeira cívica de Sophia e de Gonçalo Ribeiro Telles, num combate sem tréguas contra a ilusão e a indiferença. Que são Humanidades? Nunca domínios fechados, mas diálogo vivo de saberes. Lembramo-nos do trivium e do quadrivium medievais. Lá está tudo o que importa, e sobretudo os horizontes abertos: a Gramática, a Lógica e a Retórica, e ainda a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música. E como não lembrar a fantástica figura de Leibniz? Não há melhor cultor das Humanidades. Foi filósofo, matemático, escritor, historiador, cientista, figura máxima de todas as artes liberais. Eis por que razão ao falar de cultura, não falamos de uma tribo fechada sobre si. Falamos de educação, de ciência, de comunicação, de artes. E ao falar de educação, referimos o fator essencial de desenvolvimento humano - que é a aprendizagem. Luísa Dacosta insistia na ideia de que a educação é sempre uma troca, desde tenra idade… E esta leva-nos ao exemplo e à experiência. Cultivar a pergunta e a capacidade de ver o que nos rodeia e saber responder – eis o essencial. O espírito científico significa cultivar a atenção, e saber ligar os saberes; ter a humildade suficiente para reconhecer que o valor do conhecimento obriga a saber acrescentar. E só compreendemos se soubermos comunicar, distinguindo o trigo do joio. Tornar a informação conhecimento e o conhecimento sabedoria. E assim temos de nos prevenir contra o erro, a manipulação e as notícias falsas, já que o sentido crítico, sendo indispensável, corresponde a entender os limites. A cultura como dom leva-nos a perceber que só vamos mais além se vencermos passo a passo. E a incultura representa um enorme desperdício.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - I

 

Minha Princesa de mim:

 

    Entre os escritos demasiados e múltiplos que fui guardando - e ocasionalmente destruindo - vão sempre ficando uns rascunhos e alguns textos arquivados daquele meu projeto, em português, de uma "História Dual da Igreja Católica" (de que já te falei) e dum livro, já acabado, em francês: Éloge de la Jouissance. Tem este duas partes: Les Menus Plaisirs e La Grandeur de la Joie. A primeira estende-se por três capítulos (Les Innocents; Les Malicieux; Les Inesperés), em que vou "moralizando" acontecimentos e feitos da vida quotidiana, desde conversas e tertúlias de amigos, almoços e vinhos bem saboreados, feitiços namoradeiros, aos prazeres do campo e do mar, da leitura, das artes e da música, ou desde momentos de gozada malícia ou gratuito humor às surpresas que nos oferecem gestos próprios ou alheios de generosidade e de carinho humano. Já a parte segunda, talvez um pouco mística, contempla a alegria como trindade: La Joie de vivre la Vie, dans l´Amour et la Mort.     

 

   Finalmente, um apêndice discorre sobre a lembrança e o esquecimento: La Joie du Souvenir et l´Artifice de l´Oubli.  Muito do que ali está dito em francês já terá sido escrito no português familiar e chão das cartas que, por tantos anos, te fui escrevendo. Não direi que esta, agora, seja o último segredo ao ouvido da tua leitura, mas faz certamente parte das minhas derradeiras confidências, alimentadas por pedaços do meu pensarsentir, colhidos no tal acervo de escritos meus que te nomeio acima, sem sequer nele aí os localizar, pois, muito provavelmente, logo de seguida irei destruir os respetivos textos originais. O que doravante te vou enviando poderá, assim, ser ou não novidade para ti, mas nada terá de construído. Apenas será um último aceno de memórias ou lembranças que apenas vou revendo porque delas me despeço. Dizendo-lhes, como os antigos no fim de um auto teatral: acta est fabula!


   Longe de mim qualquer intento de recordar ou registar algo para quaisquer galerias, antes pelo contrário pretendo apenas  -  sempre guardadas as evidentes distâncias intelectuais, e não só - emular o retrato de Michel de Montaigne, que Stefan Zweig pinta assim: Poucos homens se bateram com mais dedicação e empenho para preservar o seu eu mais íntimo, a sua essência, de qualquer mistura, de qualquer atentado vindo da espuma perturbadora e malévola da agitação dos tempos, e poucos terão conseguido salvar do tempo, e para sempre, o que eles viveram, o seu eu mais profundo. 

 

   Montaigne travou tal combate para salvaguardar a sua liberdade interior, e esse terá sido, talvez, o mais consciente e tenaz jamais travado por um espírito humano, sem ter em si nada de patético nem de heroico.

 

   Seria violência a Montaigne força-lo a pertencer ao grupo de poetas e pensadores que verbalmente combateram pela «liberdade da Humanidade». Ele nada tem dos discursos inflamados nem das explosões de Schiller ou Lord Byron, nem tão pouco da causticidade de Voltaire. Fá-lo-ia sorrir a ideia de querer transferir para outros seres humanos, e ainda mais para as massas, algo de tão pessoal como a liberdade interior. Detestou, com toda a alma, os reformadores profissionais do mundo, os teóricos, os mercadores de ideologias. Já sabia bem demais quanto custa o aturado trabalho de manter consigo, em si mesmo, a independência interior...

 

   ... Assim, não tem Montaigne uma biografia. Não se confronta seja com quem for, nunca se destacou, pois nunca quis contar com audiências nem aplausos.

 

   Eu tampouco, sem escamotear esse abismo que me separa dos merecimentos de Michel de Montaigne, que não tenho, nem sequer sonhei ter. A minha única obsessão, e contínua perseguição interior do dom da vida, foi a busca da independência da minha inquirição, como modo de ir percorrendo e discorrendo o tempo que me foi dado, no ato de um esforço alegre, na liberdade de filho de Deus. Sou visceralmente alérgico a vendilhões de dogmas e a gurus de tudo o que as culturas gripadas vendem como sendo política, económica, social, literária ou culturalmente correto. Por outro lado, fui sempre tentado a considerar que não é necessariamente necessário (pleonasmo voluntário e significante) ser-se muito inteligente, nem erudito, nem eloquente, para se ser culto ou, muito simplesmente, um pensador dedicado à procura de entendimento das coisas (pormenores de tudo) e, muito humanamente, de mim, de mim e da minha circunstância, de mim como o de mim que sou eu, de mim como o eu que cada um dos outros, enquanto ele mesmo, também é, em tudo o que a condição humana nos faz comuns. Também aí busco a inabalável raiz da minha fé católica: nessa comunhão com Aquele que é tudo em todos. Eis a grandeza, a raiz mística da Alegria.

 

   Muitas vezes te falei da fidelidade como coluna vertebral da pessoa moral, mas também te referi sempre que ela não é, não pode nem deve ser, um facto consumado: o ecossistema do ser moral não é um tempo parado, estagnado, como se a vida, movimento divino, pudesse parar. O que, por paradoxal que pareça, tampouco significa que o tempo moral seja uma continuidade, já que, como escreve Laure Barillas, interpretando o seu mestre Vladimir Jankélévitch, ele tem uma temporalidade própria, a do Súbito e da conversão: O tempo da moral só pode ser o da descontinuidade, feita de instantes que se opõem à mediação olvidável da duração. Afirma o próprio Jankélévitch no seu Le Pardon (Éditions Montaigne, 1967): A vida moral não é um processo, mas um drama, um drama pontuado por decisões custosas, O progresso moral só avança pelo propositado esforço de uma decisão intermitente e espasmódica e na tensão dum incansável recomeço; o querer, incessantemente querendo e voltando a querer, em caso algum conta com a inércia do movimento adquirido, nem nunca vive das rendas do mérito acumulado. E é assim que o progresso moral recomeça sempre do zero. Não há outra continuidade ética além dessa esgotante continuação do reimpulso e da retoma; o progresso moral é, portanto, mais laboriosamente continuado do que espontaneamente contínuo, assemelha-se mais a recriar do que a crescer.

 

   Neste contexto ganha o seu sentido aquela expressão do mesmo filósofo no seu Traité des Vertus (Flammarion, 1983-86): O que está feito está por fazer. E assim entendemos como, no tempo descontínuo da moral, tudo fica sempre por fazer, por ser retomado: Ce qui est humain ce n´est pas l´oubli mais la mémoire, la vigilance et la fidélité (em La Presse Nouvelle Hebdomadaire, 15 de junho de 1979).

 

   Tenho trazido comigo, como regra de oração e de vida, que manter-me humano e procurar ser mais cristão passa, necessariamente, pela identidade da minha memória, da minha vigília, da minha fidelidade a ser.

 

   Noutras cartas, Princesa de mim, talvez te traga reflexões, no tempo atual, sobre a diferença entre crime e pecado, esquecimento e perdão. E sobre a face dogmática e canónica da igreja clerical, dessa que lamentavelmente teima em permanecer como poderio temporal - ao ponto de até pretender que Jesus Cristo assim como tal a instituiu - e vai fechando os olhos e os ouvidos aos ensinamentos e profecias do Evangelho do Mestre. E, ainda infelizmente, reforçando a razão desse conceito de pecado (que tantas vezes te tenho referido): O pecado é a paixão dos nossos limites. Tal clerical instituição ganharia em reconhecer-se naquela máxima de Antoine de Saint-Exupéry que nos ensina que o ser humano se conhece pela medida do obstáculo que supera. A tal questão voltaremos, minha Princesa de mim. Até lá, deixa-me só, uma vez mais, recordar o "meu" Ortega, que tanto me fez refletir no ser e na circunstância (eu sou eu e a minha circunstância), para te dizer (ideia central da minha "História Dual da Igreja") que a igreja clerical, o instituto canónico e os seus funcionários, é a igreja circunstancial, que se foi arranjando com tempos e modos da história... A Igreja Católica, a assembleia universal dos fiéis que, na sua múltipla diversidade, constituem o corpo místico de Cristo - essa, sim, é a Igreja mesmo. E talvez tenha chegado a hora dos senhores clérigos começarem a pensar na Igreja, não como sua empresa ou seu estado político, algo que simplesmente dirijam ou em que "sacramentalmente" mandem, mas como povo em si mesmo sacerdotal. O grande desafio à Igreja hodierna é procurar pôr direito o muito que tem arrastado às avessas. Já agora, lembrados de Francisco de Assis, que viveu com tão grande alegria o exemplo evangélico de Jesus, que nunca quis fundar um organismo hierárquico, nem mostrou qualquer condescendência pelos que pretendiam ter primazia no Reino de Deus...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

NOVA REFERÊNCIA AO TEATRO SÃO JOÃO DO PORTO

 

Em janeiro de 2015 fizemos uma referência desenvolvida ao Teatro São João do Porto, destacando sobretudo a tradição e situação urbana idêntica de espaços de espetáculo que vinha do século XVIII, a saber: o chamado então Teatro do Corpo da Guarda e dois Teatros São João ou D. João, que, dissemos nesse texto, antecedem no mesmo local o São João de hoje. E mais recordamos que o primeiro Teatro São João foi inaugurado em 1764 e não deixou grande memória: mas já o segundo São João erguido segundo a traça do cenógrafo italiano Vicent Manzoneschi, seguiu a traça do Teatro de São Carlos e valorizou-se com um pano de boca de Domingos António Sequeira.

 

Destes sucessivos Teatros São João ficou alguma documentação. Designadamente, por Decreto de 30 de janeiro de 1838, este Teatro São João considerado, juntamente com o Teatro de São Carlos, como o que na altura se chamou “Teatro de Primeira Ordem”, seja lá o que isso na época significava.

 

Em qualquer caso, uma Lei datada de 7 de abril de 1838 concede subsídios ao Teatro da Rua dos Condes em Lisboa e ao Teatro São João do Porto. E mais: em 1846, ano da inauguração do Teatro de D. Maria em Lisboa, o Governo reconhece como “teatros de primeira ordem”, assim mesmo, o D. Maria, o São Carlos e o São João.

 

Mas o Teatro São João ardeu em 1908, e só seria reinaugurado 12 anos decorridos, portanto em 1920, agora segundo projeto do arquiteto Marques da Silva. Valorizou-o os gessos e baixos relevos de Diogo de Macedo, Sousa Caldas e Henrique Moreira.

 

Foi adquirido pelo Estado em 1992, recuperado pelo arquiteto João Carreira, e classificado como Teatro Nacional.

 

Ora bem: na semana em que se escreve este texto, Pedro Sobrado, Presidente do Conselho de Administração do Teatro São João, apresentou um denominado Programa do Centenário do Teatro Nacional São João a desenvolver de 7 de março de 2020 a 7 de março de 2021.  Aspeto de relevo que merece destaque será desde logo a descentralização da atividade da companhia, abarcando pelo menos todo o Norte e Centro do País.  

 

E simultaneamente, será criada uma companhia que garanta não só a atividade sequencial do Teatro em si, como ainda, segundo foi referido,  toda uma atividade teatral/cultural para  assinalar de forma eficaz este centenário que, em rigor,  representa a tradição de espetáculo cultural da cidade.

 

Vamos ver como será!...

DUARTE IVO CRUZ

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

24. O IMATERIAL

 

Diz o povo que há três coisas que não se veem: o vento, a dor e o pensamento.
Há também o ar, o falar, a inteligência, a música, a eletrónica. 
O vento, a dor e a música sentem-se.
O ar, o falar, a inteligência, o pensamento e a eletrónica não se sentem.
Há o que se não vê e se sente.
Há o que se sente e se não vê. 
E o que não se pensa.   
Por exemplo, a morte, em rigor, não é pensável.
É uma ausência que não pode ser dita.
Não a conhecemos.
Mas o vento, a dor, o pensamento, o ar, o falar e a música são pensáveis, mesmo que não visíveis, podendo ser audíveis, sentidas, ditas ou só percecionadas mentalmente. 
Não têm peso nem ocupam espaço, ao arrepio da matéria e das leis da física.
Nenhuma se vê, tem peso e ocupa espaço. 
São impalpáveis, incorpóreas, intocáveis, intangíveis, insubstanciais. 
Não se agarram, fogem ao determinismo.
São imateriais. 
E livres, essencialmente livres. 
Um grito de liberdade na sua não materialidade. 
Se não há machado que corte a raiz ao pensamento, porque é livre como o vento, porque é livre, de igual modo não há arma que corte ou mate a raiz ao ar, ao falar, à música, ao vento, à dor, à inteligência, à mente, razão e sabedoria, porque são livres como o pensamento.   
Imateriais e livres.       
Irmãos gémeos da liberdade.   

 

12.03.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

AVENTURAS E DESVENTURAS LONDRINAS…
14 de março de 2019


 

Esta semana segui atentamente as transmissões televisivas das sessões da Câmara dos Comuns. E sofri alguma coisa. É verdade que já não dá para ter muitas surpresas, mas tenho uma legítima angústia sobre o futuro da relação europeia com a Velha Albion. No entanto, todos os dias recebo mensagens de amigos ingleses, manifestando-me o mesmo sentimento: “Ils sont fous ces  Bretons”, como me dizia um admirador confesso de Astérix, na sua personalidade resistente. Mas é desgostante ver como o Brexit se tornou um motivo de chacota geral. O velho Gladstone revira-se no túmulo ao ver os irlandeses baterem garbosamente o pé aos britânicos. E quem hoje visita Belfast julga estar em Dublin perante a profusão de bandeiras republicanas nas janelas da cidade. Nesta trapalhada, o Reino Unido arrisca-se a ficar amputado de toda a ilha do Eire. Ainda tenho esperança que haja bom senso. E depois, é preciso ver que farão os Escoceses. A procissão ainda vai muito no adro. Já citei aqui o que dizem os estudantes de Oxford e de Cambridge – os velhos que votaram vão morrer primeiro que nós… Para bom entendedor, meia palavra basta. A ilusão do Império de antanho não responde aos problemas atuais. Há quem ainda não tenha percebido que a Rainha Vitória já não está entre nós… Grandes empresas financeiras anunciam a saída.

 

A Agência Financeira Europeia já está em Paris. E, a pouco e pouco, vai havendo mais saídas importantes. Os japoneses da Nissan também se põem ao fresco. A Holanda está a ter um número importante de registos de empresas vindas da City. E, pasme-se, o Senhor Farage pediu a nacionalidade alemã. Será que também deseja pôr-se ao fresco. Ou será que quer seguir o destino dos velho “Mini”, que foi já nacionalizado pelos alemães. Tanta e tão trágica ironia… Custa a crer… Para já, a Senhora May acumula derrotas parlamentares. É facto que tem pele dura de réptil, mas isso não basta. Que lugar lhe reservará a História? Em suma, os ingleses vão ter votar para o Parlamento Europeu, o adiamento da saída aí está. E quem conhece razoavelmente a História dos Povos Britânicos, sabe bem que estamos a assistir a uma regressão muito suspeita e tremenda. Se o fantasma do Grand Old Man se debate na maior das angustias – também os fantasmas de Thomas Morus, Walter Raleigh, Shakespeare, Disraeli e mesmo Churchill andam todos na maior das confusões. Chesterton dizia que os fantasmas dos castelos ingleses tinham morrido quando morreram aqueles que neles acreditavam… A afirmação era do passado. Tudo mudou, porém. Os fantasmas regressaram todos, cada vez mais agressivos e assustadores…  O meu amigo Coronel Clifton anda desolado.

 

Somos solidários quanto ao futuro dos nossos queridos MG. O dele é um TF roadster de 1954… Pelo menos o adiamento do Brexit significa que continuamos a ter as peças dos nossos vetustos automóveis sem direitos por mais algum tempo…

 

Para vosso deleite deixo-vos outro retrato do meu querido Clifton, na minha coleção de Histórias de Quadradinhos…

 

Agostinho de Morais

 

ALMEIDA GARRETT

 

O narrador anuncia: De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede.

 

“Há em todo este enredo um claro simbolismo político e social: o emigrado é filho do frade, como o Portugal revolucionário é filho do Portugal clerical; e só por acidente aquele não assassina o pai, como o novo Portugal liquidara pela base o Portugal antigo.” Esta uma das opiniões criticas que li acerca das “Viagens na minha terra”.

 

“Viagens” fazem referência a uma série de reflexões políticas, históricas, filosóficas e existenciais que o autor-narrador trabalha no texto e a viagem, diga-se, é interpretada como busca do conhecimento: assim, pode-se dizer, que a literatura de viagem não é apenas encontrar e conquistar pelo saber do sentir, novos territórios, mas, conhecendo outros povos e culturas refletir de um novo angulo sobre o nosso próprio eu.

 

E quando pego nesta edição de 1857 da Imprensa Nacional, leio, a dada altura, as palavras deste magnífico Garrett:

 

Comêmos, conversámos (vieram visitas, falou-se de politica, falou-se litteratura, falou-se de Santarem sobretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo´-nos deitar.

 

(…) Nunca dormi tam regalado somno em minha vida (…).Saltei da cama no outro dia (…) recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o género me afluíam ao espirito, e me tinham como n’um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se sucedem umas ás outras. Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!...

 

Lembraram-me aquelles versos de Goeth (…)

Vêem os primeiros símplices amores

(…) Dos labyrinthos da perdida vida;

(…) Em horas bellas por fallaz ventura

Antes de mim na estrada se sumiram.

 

É tão evidente neste livro que cada geração, pelo facto de ter nascido no interior de uma continuidade histórica, beneficia e carrega fardos anteriores, reordena ideias, sentires e tempos para, no pensamento e na ação, renovar mundo, aquele mesmo mundo que já lá existia antes do livro e que ele deixará a todos os que o lerem. Ficará o mundo deste livro, viajado também, no quarto de múltiplas estradas, por onde erradamente nos sentimos em excesso culpados e em excesso livres de culpa, quando nem o amor é inocente durante a viagem.

 

Cada peça da engrenagem deste livro é o mesmo que dizer que cada pessoa é um quadro de referência distinto, é um grau de participação no nosso processo interior, respondendo perante o nosso tribunal para que este interprete o que se deve entender, nomeadamente, nas palavras de Garrett por

 

o pouco da noite que lhe restava passou-se (…) combateu-se larga e encarniçadamente – como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que já foi amor – o mais cruel odio que tem a natureza!”

 

Depois, depois, proponho que o critério do nosso juízo seja o mundo, isto é, que da janela do quarto de cada um, se olhe para a rua. Permitam então que sugira que deste modo se releia o livro e se faça a viagem. Que se espreite a linguagem a viver ao lado de nós com muitas razões a serem aferidas contra as probabilidades a que estamos habituados, e talvez nos chegue de outra viagem, com a qual nascemos, o entender de parte da Carta de Carlos a Joaninha no Capítulo XLVII (SEGUNDO DAS VIAGENS)

 

Tambem deve ser assim a morte: um descanso apathico e nullo depois de inexplicável padecer.

 

(…) E já não pensava em ti, já te não via na minha alma: eu não existia, estava alli.

 

A militância ideológica de Garrett não é descurada nunca neste livro, ela é uma fonte de informação sobre os sinais de vida do seu tempo e das suas opções, agregada sempre ao fogo intenso e intimo dos amores.

 

Teresa Bracinha Vieira