Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Alfredo Cortez, s.d., fot. José Marques [programa O lodo, TNDM II, 1979]
ATORES, ENCENADORES (XXXIII) OS 90 ANOS DA NOVA COMPANHIA DE DECLAMAÇÃO por Duarte Ivo Cruz
Neste contexto sempre irregular do historial do teatro português na sua dimensão modernizadora e renovadora, apraz -hoje evocar uma iniciativa que, há exatos 90 anos, significou a tendência que, na época foi marcando, ainda que algo timidamente, a atualização do teatro-espetáculo em Portugal. E quando dizemos “teatro-espetáculo”, temos presente certo desfasamento verificável no que respeita não tanto à literatura, aí incluindo a literatura dramática, mas, isso sim, às iniciativas de modernização do espetáculo em si. Isto, apesar de já na época se manifestarem entre nós esforços dispersos para alinhar repertórios com o que se impunha em meios mais adiantados.
Alfredo Cortez, dramaturgo que, ao longo de mais de cerca de 20 anos e de mais de 10 títulos contribuiu, como dramaturgo e como animador teatral, para a renovação do teatro-texto e do teatro-espetáculo em Portugal – e basta lembra o escândalo e a pateada que assinalou, em 1934, a estreia de “Gladiadores”, primeira peça expressionista da dramaturgia portuguesa – surge em 1925 como fundador-diretor da Nova Companhia de Declamação.
Tratou-se efetivamente, de uma iniciativa destinada a renovar (no possível…) o contexto do espetáculo em Portugal. Hoje, podemos ponderar a modernidade do repertório em si mesmo considerado: mas estávamos em meados dos anos 20, e em Portugal: o que nos permite avaliar os valores relativos do programa de modernização/atualização, a nível não tanto, repita-se, de produção dramatúrgica, mas sobretudo a nível de realização e organização de espetáculos e da sua recetividade junto do público.
E nesse aspeto, podemos hoje melhor compreender a “modernidade” que esta companhia procurou atingir, junto de um público no mínimo desconfiado. E nem se diga que a Nova Companhia de Declamação era de somenos no que respeita ao elenco. Dela faziam parte, com efeito, grandes nomes da cena portuguesa da época: desde logo Adelina Abranches, Ester Leão, António Pinheiro, Clemente Pinto, entre outros mais. Nesse aspeto, nada haveria a dizer: eram, todos eles, grandes figuras de cartaz.
Já no que respeita ao repertório, a sua modernidade é hoje questionável: peças como “Apaixonada” de Porto-Riche, “A Malquerida” de Jacinto Benavente, “Uma Mulher Fatal” de André Birabeu, dizem-nos hoje menos do que na época, em matéria de renovação. Alfredo Cortez organizaria mais tarde, episodicamente, uma nova companhia com Ilda Stichini, para quem traduziu a peça “Wang, Sábio Três Vezes Sábio” de Henry Gheson, estreada em 1927 no Funchal.
Mas o mais importante terá sido “O Lodo” do próprio Alfredo Cortez, estreada com escândalo em 2 de julho de 1923, no Teatro Politeama, num único espetáculo organizado pelo próprio autor, despois de sucessivas recusas das companhias profissionais da época, que sistematicamente consideraram a peça no mínimo chocante… O que não diminuiu a qualidade, nem do texto nem, é de crer, do espetáculo, dado o nível do elenco: encenação de António Pinheiro, interpretação de Adelina Abranches, Amélia Rey- Colaço, Constança Navarro, Robles Monteiro, Maria Mesquita e Antónia Mendes.
A peça passa-se num bordel da Mouraria e acaba com um crime de morte: Julia, por ciúmes, mata a irmã, figura impoluta de moralidade. Ora, independentemente das mudanças ocorridas, é notável o realismo violento da cena e da linguagem. E é de assinalar que “O Lodo”, depois dessa estreia em espetáculo único, foi reposto dois anos depois, novamente por iniciativa do autor.
E para terminar: Luciana Stegagno Picchio, na “História do Teatro Português” (Roma 1964, trad. port. de Manuel de Lucena, 1969) relaciona a renovação teatral contida em “O Lodo” com a modernidade dos “Seis Personagens em Busca de Autor” de Pirandello, estreada em Roma dois anos antes (e só representada em Portugal no final dos anos 50): o que só por si atesta a renovação que Alfredo Cortez trouxe para a dramaturgia portuguesa.
Acrescente-se enfim que entre as centenas de atrizes e atores que estrearam as peças de Alfredo Cortez, encontramos sucessivas gerações de nomes que marcaram e sua época e hoje são recordados: alem dos que já citamos, evoque-se Raul de Carvalho, Vital dos Santos, Barroso Lopes, Ilda Stichini, Luz veloso, Alexandre de Azevedo, Palmira Bastos, Maria Lalande, João Villaret, António Lopes Ribeiro…
E, no que refere ao cinema, o filme “Ala-Arriba” (1942), realizado por Leitão de Barros sobre argumento e diálogos de Alfredo Cortez, exibido na Bienal de Veneza ganhou a Taça Bienale: e permito-me uma auto-citação, que retiro da edição do Teatro Completo de Alfredo Cortez (ed. INCM 1992):
“O texto de Ala-Arriba não é uma peça (…) é um verdadeiro guião cinematográfico poderosamente plasticizante na sua descrição, vigoroso no travejamento, épico e lírico na admirável linha literária. O rigor rítmico de cinema (…) mais minucioso ainda do que no teatro, é respeitado em perfeita simbiose: lemos o guião e recordamos, cena a cena, plano a plano, a força poética desde belo filme, que a esplêndida musica de Rui Coelho – também autor da ópera Tá-Mar (sobre a peça homóloga de Cortez) - reforça e sublinha”.
Duarte Ivo Cruz
Obs: Reposição de texto publicado em 22.07.15 neste blogue.
247. NOS 120 ANOS DO NASCIMENTO DE AGOSTINHO DA SILVA
Há 120 anos, neste dia, nascia Agostinho da Silva, professor, filósofo, escritor, ensaísta, poeta, educador, pedagogo, filólogo, biógrafo, tradutor, novelista, articulista, autor, conferencista, epistológrafo, urbanista, sociólogo, um visionário que não aceitava nenhuma forma de dogmatismo, que discorria sobre os perigos do consumismo, onde o ter se sobrepõe à essência do ser humano, tornando este escravo daquilo que julga possuir.
Um humanista de espírito livre, multifacetado, inconformista, com uma marca distintiva de originalidade, futurista que antecipou a urgência da abertura ecuménica, da ética animal, da consciência ecológica, da criação de uma comunidade luso-afro-brasileira e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Dizia que “nascemos para procurar a verdade; possuí-la é pertença de um maior poder…O mundo é escola de investigação. Não ganha quem corre mais, mas quem corre melhor… se toda a escola devia ter uma biblioteca do que já se sabe, devia ser-lhe paralela outra, ainda mais fecunda: a do que não se sabe”.
Defensor de um mundo pluricultural e universalista, dos ideais de São Francisco de Assis, do pensamento do monge cisterciense Joaquim de Fiore (que recuperou no culto do Espírito Santo), admirava profundamente Portugal e o povo português por albergar em si “tranquilamente, variadas contradições”, o que nos predispunha e fazia de nós uma “ideia a difundir pelo mundo”, não no sentido de convencer os outros a perderem a sua singularidade e a serem como nós, mas a se reconhecerem plenamente em si próprios, dignos da sua diferença, não porque superior a qualquer outra, mas pela sua individualidade.
Tido como um homem íntegro, que agia em coerência com o que defendia, a quem alguns apelidavam de Profeta do Terceiro Milénio, Mestre ou filósofo do povo (como vedeta televisiva, em “Conversas Vadias”), afirmou-se sempre como um Português de primeira água, quer em relação a Portugal, ao Brasil e demais países lusófonos, sendo a antítese do pessimismo, da carência de autoestima e do culto de dizer mal de nós.
A sua crença “quinto-imperista”, quanto ao futuro incentivador que nos esperava, dava-lhe uma autoconfiança e segurança ilimitada sobre as nossas capacidades, não só para resolução dos nossos problemas, mas também para se constituírem como uma referência para os outros, servindo de ponte entre culturas.
Perguntaram-lhe, pouco antes de morrer, se continuava a crer no Quinto Império, e respondeu: “É claro que acredito no Quinto Império, porque senão o ato de viver era inútil. Para quê viver se não achássemos que o Futuro vai trazer-nos uma solução que cure os problemas das sociedades de hoje?”.
Eis, pois, que o Futuro pode começar sempre agora.
Eis, também, que o pensamento de Agostinho da Silva persiste, sobrevivendo e ultrapassando contingências, aberto à sistematização e com uma preocupação constante pelo futuro do mundo.
Um prado de livros, qualquer que seja o suporte que o dá a ler
Um prado de livros que não apague o contexto, o motivo, a informação com conhecimento, o processamento profundo e o acesso à imersão sensorial do mundo.
Um prado de livros sem a pressa de avançar mais rapidamente do que a nossa capacidade de compreender.
Um prado de livros próprio de quem tem um pensamento crítico.
Naomi Baron, que tem investigado as diferenças entre a leitura online e em meio impresso, refere que "A verdadeira questão é saber se a extensão e a complexidade conceptual, a memória, a concentração e a reflexão, serão potencialmente perdidas pelos atributos da leitura no ecrã que nos conduzem a um novo normal".
Pode-se crer que, num ecrã, existe a franca possibilidade de se avançar na página, saltando e criando o hábito da «hiperleitura» que James Sosnoski refere e que é bem distinto da leitura lenta associada ao livro impresso.
Sosnoski defende que a leitura é um processo contextualizado e interativo e que a leitura deve ser entendida como processo cultural, social e político, pois é uma verdadeira atividade de reconstrução de sentidos.
No caso da hiperleitura, a satisfação instantânea parece também colher e pode fazer perder o apetite para uma leitura focada de longos períodos.
Enfim, digo que a fisicalidade do livro, o segurar o livro e virar-lhe as páginas, olhar para ele e repensá-lo, sempre foi como as canções que me exprimem melhor o que sinto. O livro nas minhas mãos é todo um compromisso com os canais de acesso às bibliotecas num exercício não isolado; é o entender a composição do solo que retém a fundamental água.
A eficácia mágica do livro permanece uma realidade que me permite sentir prosperar sem receio de que se deteriore ou afaste o que agrupa a humanidade no ver-se de perto.
A auto-reflexão que possibilita as páginas de um livro, enquanto movimento de liberdade (ler para libertar), impede a regressão a autoritarismos e possibilita o imaginar e o fazer acontecer algo melhor.
Desconhecendo o futuro, imagino que o livro impresso e o digital existirão numa civilização de prados mistos.
Irão, seguramente, continuar a existir objetivos de monopolização de saberes comandados pelos poderes que não têm a função de divulgar o conhecimento crítico.
Contudo, e na verdade, as ameaças, em qualquer época, nunca estiveram ausentes e até assumiram pressões muito concretas. Mas quero tender a acreditar que os seres humanos são uma espécie resistente e que a necessidade de ler e cultivar os prados de livros que nos oferecem fantásticas razões pode co-responsabilizar-nos pelo conhecimento e salvar-nos.
A arquitetura e o cinema permitem que o ser humano e o espaço se dissipem um no outro.
Imagem do filme Nostalgia (Andrei Tarkovsky, 1983)
“The place and the event, space and mind, are not outside of each other. Mutually defining each other, they fuse unavoidably into a singular experience; the mind is in the world, and the world exists through the perceiving mind. Experiencing a space is a dialogue, a kind of exchange - I place myself in the space and the space settles in me.”, Juhani Pallasmaa (Pallasmaa 2012, 165)
Aquilo que existe dentro de cada ser humano cria um contínuo imparável e infinito com o mundo exterior. O mundo cria imagens, que cada indivíduo incorpora dentro de si e a partir dessas imagens, cria outras imagens. O ser humano e o lugar dissipam-se um no outro, coincidem, existem em simultâneo.
No texto “The existential image: Lived space in Cinema and Architecture” (2012), Juhani Pallasmaa escreve que a arquitetura, tal como o cinema, articula espaços vividos de modo experiencial e permite a formação de imagens que constroem e contribuem para a vida. A arquitetura e o cinema definem a essência do espaço existencial e do espaço que transcende, ambos projetam imagens, dispõem bocados de vida, dão lugar a situações de encontro e possibilitam uma maior compreensão acerca dos outros e do que existe.
Segundo Pallasmaa, a arquitetura estrutura o ser no mundo e une experiência à existência física. O cinema dá a mostrar lugares onde situações e interações acontecem. Ambos possibilitam a construção de espaços, que pertencem a um sítio e a um tempo, que têm uma escala e uma luz. Tanto a arquitetura como o cinema são capazes de dar a entender os espaços através de perceções de natureza sensorial. E têm a capacidade de contribuir para a construção de imagens na mente do espectador, projetando assim um mundo que traz à superfície pensamentos, sonhos, desejos e memórias comuns.
“The world is wholly inside me and I am wholly outside myself”, Maurice Merleau-Ponty, 1962 (Pallasmaa 2012, 158)
Pallasmaa explica, que na verdade o espaço da arquitetura, apesar de ser matéria e geometria, ultrapassa os limites e a ordem física. O ser humano ao habitar um espaço, aí projeta os seus propósitos existenciais. Os espaços físicos, que fazem parte da vida, reverberam as construções efémeras do espaço interior de cada indivíduo. O espaço vivido define-se através do constante diálogo que existe entre o exterior e o interior, entre o passado e o presente, a memória e o sonho, o medo e o desejo, o valor e o significado. O espaço real, físico, deste modo, funde-se e coincide com a vida do sujeito.
Para Pallasmaa, não existe separação entre a dimensão material e a dimensão mental. O autor afirma que o mundo não é objetivo, é antes um entrelaçar infinito de experiências, sensações, espaços, objetos, lembranças, desejos e imaginação - de passado, presente e futuro. Cada objeto construído é uma transferência de realidades, de dimensões e de experiências - o objeto construído é simplesmente um mediador, uma imagem. E o cinema tem essa capacidade de acentuar a ideia de que os espaços são imagens efémeras e ilusórias que escapam e vão para além da realidade do ser humano.
Pallasmaa revela que a arquitetura e o cinema determinam a realidade física mas conseguem de igual modo acrescentar à realidade uma camada ilusória e imaginária. Pois, efetivamente o objeto construído, o ser humano e o cosmos estão incessantemente ligados. A arquitetura e o cinema têm a capacidade de reestruturar, articular e reordenar o tempo. Têm de facto, a faculdade de acentuar o significado do espaço vivido, que não é neutro, nem desprovido de valor - o significado de um gesto pode alterar-se de acordo com a hora do dia, a estação do ano, os sons que se fazem ouvir, a luz que entra - o lugar e a vida fundem-se de modo contínuo. O cinema e igualmente a arquitetura conseguem tornar a vida, o espaço e o tempo uma entidade inseparável.
“Alltogether, art articulates the boundary surface between the human mind and the world.”, Juhani Pallasmaa (Pallasmaa 2012, 162)
A arquitetura e o cinema têm a capacidade de concretizar a membrana, a superfície que separa a mente humana do mundo. Pallasmaa declara que, na verdade, toda a arte tenta criar contextos e definir lugares. Mas um espaço é um fenómeno que excede todas as capacidades de descrição, representação ou gravação - é sempre experiencialmente infinito. O cinema e a arquitetura têm a capacidade de enfatizar esta possibilidade de expansão e de ativar a imaginação de cada indivíduo através da projeção de um espaço - porque todas as imagens poéticas incidem uma força aberta e emancipatória que pode ajudar a reforçar o sentido de cada ser humano.
Por detrás de cada imagem criada existem outras ainda por criar. A arquitetura e o cinema conseguem promover a construção de imagens tão reais e ressonantes que permitem que o indivíduo interromper o curso habitual da vida e tenha como referência identidades e situações alternativas.
A arquitetura confere ao cinema definição do seu contexto e, por sua vez, os significados propagados pelo cinema são projetados na arquitetura. A arquitetura e o cinema são assim um veículo, um eco, um reflexo, um amplificador de ideias, pensamentos, emoções, sentimentos, memórias, sonhos e ilusões do sujeito. No cinema e na arquitetura os espaços deixam-se vulnerabilizar, transformar e metamorfosear pelo ser que os habita.
“A good space can’t be neutral, for an impersonal sterility gives no food for the imagination.”, Peter Brooks (Pallasmaa 2012, 168)
Pallasmaa acredita que a verdadeira arquitetura (e também o verdadeiro cinema) está relacionada com a ativação de sentimentos humanos contraditórios e por vezes extremos como a melancolia e a alegria, o maravilhoso e a tristeza, a contemplação e a nostalgia. O espaço exterior flui e inunda todos os interstícios interiores de cada ser - o espaço não é móvel (mas é capaz de transportar), não é um objeto é antes uma condição de ser, um fragmento do mundo capaz de absorver e de refletir, de dar sentido, propósito e atenção e de levar a acreditar e a ver até aquilo que não é visível.
Sendo assim, o cinema e a arquitetura projetam espaços e possibilitam uma troca de sentimentos e significados entre o espaço construído de matéria e o espaço mental do sujeito. O ser humano ao experimentar um espaço entra em conversação e permite que o espaço se instale dentro de si e manifeste emoções e significados encobertos. O cinema e a arquitetura fazem com que o indivíduo pense, veja e experimente para além daquilo a que está exposto e possa, assim, criar outras imagens que despertem para a vida. O valor do cinema e da arquitectura está, deste modo, nas imagens e nas emoções evocadas em cada ser. O cinema e a arquitetura reforçam a experiência do eu colocado no contínuo do cosmos.
O ilustre teólogo José I. González Faus morreu vai fazer um ano no próximo dia 6 de Março. Era um bom amigo, e quero recordá-lo, voltando ao seu livro: Herejías del catolicismo actual, traduzido para português com o título As dez heresias do catolicismo actual.
Heresia vem do grego háiresis, com o significado de parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se absolutize de tal modo que já não deixa espaço para elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste sentido que ele, um dos teólogos mais sólidos e cristãos que conheci, escreveu este livro intenso, para desmontar as dez heresias que inconscientemente foram tomando conta da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será o nosso guia também nas duas próximas semanas.
1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"? O problema está em que já se tem uma ideia prévia de Deus e estas características parecem incompatíveis com a dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos dele, acabamos por impedir que Jesus revele efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a noção de dignidade divina deve ser concebida em consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo, lavando-vos os pés." Jesus, de condição divina, escreve São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu amor na autenticidade e fidelidade.
2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da eminente dignidade dos pobres na Igreja." De facto, a negação da verdadeira humanidade e humilhação do Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os pobres, os atribulados, famintos, refugiados ou presos, embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se identificou. O Papa Francisco tinha razão, voltando a uma Igreja pobre para os pobres.
O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela maneira como reagiram diante do Deus presente no necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem: "O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua relação com os seres humanos, a começar pelos mais desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a vida do homem." Também está na Primeira Carta de São João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar nele o amor de Deus."
3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos, não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não. Mais." A sua doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça divina, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não. Mais." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"
Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, monstruoso, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá (querido Paizinho) e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz transformou-se assim em factor de resignação, quando na realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado perante a injustiça estabelecida." A morte de Jesus é "uma consequência da sua vida e não uma exigência metafísica da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado, que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do mundo; morreu para dar testemunho da verdade e do amor, ser consequente com a sua mensagem, dando testemunho até à morte do Deus que é Amor.
(Continua.)
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 7 de Fevereiro de 2026
«Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas» de Helena Carvalhão Buescu (Tinta da China, 2026) é uma obra estimulante que nos coloca perante a personagem multifacetada de Camões, encarada como interveniente da sua obra maior, símbolo da Cultura da língua portuguesa.
Como epígrafe, a autora cita Eduardo Lourenço, quando este afirma: “Camões conferiu-nos, coletivamente, uma existência epopeica e desta insolação sublime nunca mais nos curámos”. Não é por acaso que somos o único povo do mundo que escolheu como símbolo da sua identidade um poeta. Encontramos noutros casos heróis, guerreiros, símbolos míticos, mas não poetas, pessoas de carne e osso, com as suas angústias e dúvidas, com o seu talento, a sua sensibilidade e a sua vida. Helena Buescu parte de uma consideração de Keats, que nos fala, a propósito de grandes referências literárias, como Shakespeare, da noção de negative capability. Essa capacidade negativa corresponde à descrição de um mundo contraditório, capaz de referir a realidade nas suas várias dimensões, envolvendo a um tempo, a glorificação e o desconcerto do mundo. Para considerar a diversidade de sentimentos e atitudes, torna-se necessário assumir por parte de um poeta ou artista protagonismo no acontecimento que descreve ou que testemunha, de modo a que essa contradição seja plenamente sentida, a partir da perspetiva do próprio autor.
Como Virgílio fizera, Camões proclama no poema que subscreve a importância da própria fama, cabendo-lhe não só enaltecer o acontecimento que glorifica, mas também considerar-se a si próprio como participante desse momento único. O mesmo se passou com Ovídio nas Metamorfoses, onde o poeta foi o verdadeiro protagonista da obra, assumindo assim a imortalidade do feito e do artista. Camões coloca-se, por isso, ao lado do próprio Gama na chegada à Índia, participando num momento pioneiro da história da humanidade. O poeta toma-se assim a voz, enquanto poeta e não apenas como narrador de feitos, cabendo-lhe a tarefa de partilhar com o próprio herói, bem como com outras personagens marcantes, como o velho do Restelo e o Adamastor, a missão de assumir a voz criativa do poema.
Jorge de Sena afirma, por isso, que Faria e Sousa considera que o poeta se transforma nas personagens “que introduz, falando conforme a qualidade de cada um e das matérias”. E Helder Macedo confessa que Os Lusíadas é talvez “o poema épico onde o discurso personalizado do autor mais vivamente se faz sentir”. E as próprias personagens “são usadas como emissoras ou sujeitos dos discursos poéticos” de Camões. Deste modo se ilustra a capacidade negativa de Keats: “a poesia épica (mas também lírica), para se afirmar enquanto tal, precisa de manifestar a sua capacidade de celebrar o canto e de criticar o mal e o desconcerto, em simultâneo”. O caso do velho do Restelo tem uma importância especial. Ele surge como uma espécie de alter ego do poeta, ou também do bom Sá de Miranda, devendo associar-se ainda Diogo do Couto, amigo especial do poeta. Há a coerência de relato, que culmina na exortação a D. Sebastião, onde se apresenta o alerta relativamente ao risco dos fumos da Índia e à opção pela administração do império do Oriente, baseada em mercadores e missionários. Oh glória de mandar, oh vã cobiça… A espada e a pena associam-se. E, profundo conhecedor na técnica clássica das suas obras inspiradoras, Camões torna-se participante ativo.
“A complexidade invulgar que Camões incute, assim, à sua epopeia, combinando glorificação e crítica ou desconcerto, entre narração de feitos e representação do canto na própria matéria cantada, entre maravilhamento, observação e realidade, entre inspiração religiosa e inspiração mitológica, é reconhecível, sem grande dificuldade, em muitos passos do poema, e é apontada por vários críticos, quando se dedicam a Camões”. De facto, a glória não se afirma sem o desconcerto, porque o “saber de experiências feito” leva a considerar a vida como uma convergência de luzes e sombras. A perenidade de Os Lusíadas decorre, por isso, da capacidade do seu autor, pôr-nos perante a realidade existente. Glória e desconcerto não são realidades contrapostas. E temos alguns faróis éticos, como os Doze de Inglaterra, Nuno Álvares, ou a resistência de Inês de Castro. Do mesmo modo, ora encontramos uma “poesia de dissídio” (Rita Marnoto), ora descobrimos uma ordem da desordem”. Do que se trata em Os Lusíadas é de uma interrogação sobre a nossa própria existência, num momento crucial da nossa realidade histórica. Por isso, “concentram dentro de si o fulcro em que a história de Portugal é incorporada, interrogada, e profeticamente concebida. Na verdade, o texto camoniano é um dos momentos mais altos (se não o mais alto) da nossa memória histórica e simbólica, moldada em termos literários. Neste sentido, não pode deixar de ocupar um lugar especial na história e na literatura portuguesas”.
E Camões não é apenas uma voz passiva, é alguém que acrescenta o seu juízo aos acontecimentos, representando as vozes relevantes de uma autoanálise ou introspeção necessária. Eduardo Lourenço dirá: “Nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar. Há outras nações na Europa, pequenas ou grandes, com um passado tão longo e tão ou mais ‘glorioso’ que o nosso (…) Mas nenhuma dessas nações ou antes, culturas-nações, convive com o passado como a nossa. Simbolicamente, nenhum povo vive no passado, em particular naquele a que nós devemos o nosso perfil singular – como Portugal…”. Premonitoriamente, o poeta Camões intui esta mesma consciência, ao recusar ver apenas o lado glorioso sem assumir plenamente o desconcerto. A cada passo essa ambivalência aqui se encontra, e continuamos perante a memória da Nau da Índia, numa viagem que revivemos, de maneira diferente, do que acontece com Gonçalo M. Tavares, já não para uma Índia verdadeira, mas para um mítico lugar de venda de ilusões… Eis por que razão Camões nos acompanha como poeta e como testemunha dos acontecimentos heróicos.
Desenvolvimentos recentes tornaram possível o acesso de largas quantidades de pessoas às suas próprias autobiografias. O género costumava ser reservado a conquistadores e santos, mas encontra-se hoje disponível a todos cujas vidas, exceptuado o desejo de publicar a sua autobiografia, foram plácidas; à vasta maioria daqueles em quem apenas eles próprios repararam.
Ao ler uma autobiografia moderna o que espanta mais é a firmeza com que o autor acredita que teve uma vida. ‘Confesso,’ declarou um desses autores, ‘que vivi.’ A confissão é porém desnecessária visto que viver não é uma ocasião rara; e era na maioria das vezes escusado que a confissão fosse feita por escrito. Tais confissões são não obstante muito frequentes; prodigalizam uma quantidade grande de pormenores que afligem e confundem os leitores; descrevem com minúcia invulgar o que se passava numa certa companhia de cimentos, num balneário, numa clínica, numa mente, ou numa estação de televisão; e logo após a primeira ocorrência os nomes de muita outra gente, e um sem-número de factos, são usados com uma intimidade desconcertante; tudo dá a ideia de um jogo jogado num planeta remoto, de que se presume erradamente que conhecemos as regras.
As autobiografias modernas são compradas com curiosidade, e quase sempre abandonadas com perplexidade. No momento da compra intimam revelações e progressos; o que lá se passa todavia é normalmente rarefeito e opaco. Há poucos casos de franqueza bruta ou refrescante: e muito poucos em que se diz alguma coisa. É certo que se promete a anunciação de segredos, e em pormenor; se induzem razões próprias e pensamentos; até, nalguns casos, complicações de amor. Mesmo os incidentes mais salazes porém, com tudo para agradar aos leitores, têm sempre nas autobiografias um aspecto algébrico que acaba por descoroçoar quem compra os livros. Bastam algumas páginas para qualquer leitor perceber que se pode esperar escassa iluminação daquilo que as pessoas têm a dizer sobre as suas próprias vidas.
As autobiografias modernas são assim abandonadas com a tristeza com que verificamos que nos enganámos de escova de dentes. Ao longe a vida alheia parecia igual à nossa, inteira e boa; mas depois de a ver mais de perto sabemos que já não serve. Ao nos ser gradualmente comunicado aquilo que o dono da autobiografia achou que lhe aconteceu torna-se manifesto que a vida que teve era exactamente igual àquela que nos queixamos de ninguém ter reparado que tivemos; mas com o defeito importante de não ser a nossa. A companhia de cimentos, a estação de televisão, o balneário, a clínica, a mente, eram um disfarce ou um acidente. A diferença principal entre nós e ele é apenas ter ele levado à prática a ideia moderna de que a sua vida dava um livro.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia
Foram vários anos de um convívio fecundo. No júri dos prémios literários Fernando Namora e Agustina Bessa Luís, Maria Alzira Seixo era uma presença fundamental. Muito beneficiei da sua amizade, das suas qualidades intelectuais, dos seus conhecimentos e capacidade de compreensão do mundo em misteriosa mudança. Era uma leitora insaciável, capaz de intuir em pequenos e subtis sinais o talento cultural e literário. Como comparatista ajudava-nos a olhar mais além. Houve assim um diálogo natural entre os diversos membros daquele grupo de exceção. Vasco Graça Moura pontuava ao pôr em prática um método que se revelaria muito profícuo, para, em aproximações sucessivas, se poder chegar a conclusões que se tornavam naturais na atribuição do reconhecimento às obras de autores consagrados e de revelação. José Manuel Mendes, Liberto Cruz, Maria Carlos Loureiro, Manuel Frias Martins, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, a que se juntariam João Lobo Antunes e José Carlos de Vasconcelos constituíram um cenáculo em que se falava de tudo, do mundo e das letras, com total abertura, no qual o trabalho se organizava de um modo muito agradável, graças a um convívio que nos beneficiou a todos. E não se esqueça a memória antiga da presença de Agustina Bessa Luís naquele areópago.
O respeito mútuo permitiu sempre que houvesse uma grande abertura na apresentação das posições individuais. E o certo é que foram variando os procedimentos, tendo em conta os anos de melhor colheita e os tempos menos exuberantes. Aconteceu um ano que a escolha do prémio foi muito fácil, ao fim de uma rodada de intervenções, mas noutros momentos houve necessidade de um debate mais aturado. Tal era a regra. Maria Alzira ora convergia com Vasco Graça Moura nos remoques ao Acordo Ortográfico, ora se demarcava de se falar de uma “short list”, em vez de se referir uma “lista pequena”, que em alguns anos foi adotada. Vinham à baila vários autores e experiências. Acompanhámos a intervenção e o estudo de Maria Alzira quanto à obra de José Saramago e na edição ne varietur de António Lobo Antunes. Eram relatos de verdadeiro entusiasmo e de profundo conhecimento. Recordávamos vários amigos, como Eduardo Prado Coelho e todos ganhávamos quando alguém tinha uma opinião diferente ou contra corrente.
Nunca havia decisões previsíveis, uma vez que as leituras das obras concorrentes eram sempre exaustivas e fundamentadas. E assim beneficiávamos da qualidade de todos. E o facto de apreciarmos obras contemporâneas, num momento especialmente rico da criatividade portuguesa, isso permitiu que os debates fossem sempre muito estimulantes em torno dos melhores autores. O nosso saudoso Liberto Cruz foi sempre essencial. Vasco Graça Moura evidenciava-se nos seus certeiros julgamentos premonitórios. E Maria Alzira Seixo demonstrou sempre que ao apreciar os autores e as obras de cada ano pôde descobrir que a literatura nunca é indiferente nem previsível – é a vida inesperada em toda a sua pujança e na sua fragilidade.
Lidar com a eterna língua de Camões, como sempre no-lo ensinaram Vasco e Maria Alzira significava, no fundo, podermos ser dignos de uma extraordinária vitalidade que nos aproximou de Virgílio ou de Ovídio, não por qualquer despropositado orgulho, mas em homenagem às virtudes da literatura, já que ficção e realidade sempre se enriquecem mutuamente.
viste que os dias não passavam disto, e viste bem. desse lado do céu, tens o melhor miradouro sobre a madrugada. se encontrares o pintainho que sepultámos, em segredo e lágrimas, no quintal das tias, pede-lhe o arco da sua asa nas noites de lua nova. remete-me, quando puderes, pacotes de chuva miúda, gosto de a ver decalcar a terra, fundir-se com as sementes de milho no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o telescópio, com as instruções que me deste. põe-te à vista e combinamos um gelado a meio caminho, à hora da infância.
in Avulsos por causa, 2010
letter to A.
you saw the days were little more than this, and you saw right. on that side of the sky, you have a better view on the dawn. if you ever find the little chick we buried in secret and tears, in auntie’s garden, ask for the bow of his wings on moonless nights. send me, when you can, packets of rain drizzle, I like seeing it paste the earth, dissolve with the corn seeds at the far end of achadinha.
meanwhile, i’ll carry on assembling the telescope, with the instructions you left me. you go where i can see you and we’ll arrange an ice cream halfway, in the hour of childhood.
O fim do trabalho foi profetizado como uma utopia moderna e futurista por filósofos, sociólogos e economistas. Keynes, aproximadamente há 100 anos, previu que um século depois o tempo ocupado pelo trabalho seria de 15 horas semanais, o que é contrariado pela realidade que vivemos.
A era da cibernética, da digitalização, da inteligência artificial e da robótica, com a sua automatização, veio reforçar a ideia do fim do trabalho e reavivar as utopias. O que coloca novos desafios, entre eles o de repensar a própria noção de trabalho.
Para o sociólogo francês Casilli, o trabalho é “digitalizado” ou “plataformizado”, como sucede ao fazermos reservas de avião, comboios e espetáculos, serem os clientes a substituir empregados nas caixas automáticas dos supermercados, bancos e um sem número crescente de tarefas. É o trabalho digital do dedo que clica ou carrega no botão, participando num sistema de produção escondido e gratuito, que sustenta a titânica economia digital.
E a celeridade e a rapidez velocista e transformadora da tecnologia acelerou a impessoalidade, substituindo a presença física, as conversas e os diálogos circunstanciais da mesma forma que se começaram a substituir empregados e trabalhadores presenciais e manuais, sendo evidentes os ganhos proporcionados e a proporcionar pelos recentes e futuros desenvolvimentos na inteligência artificial.
Se a tradição resiste e o novo ainda não se afirmou com clareza, tendo emergido um novo agente transformador que combina regras e algoritmos, permanecendo o futuro enigmático, entre a utopia e a distopia, a meio de um caminho de fusão entre o natural e o artificial, há que não estranhar a novidade.
Se a geração nova tem o papel messiânico de romper com o passado, transcender o presente, acelerar a evolução e criar o novo, não há que começar também a pensar em deixar de encarar como puramente hedonistas atividades e micro-tarefas vanguardistas e adotar, quanto a elas, uma visão “trabalhista”?
De todo o modo, em qualquer caso, é impossível que algo não mude seriamente em termos de trabalho, não se excluindo, em termos sociais, uma epidemia da solidão estimulada, sem contacto, promovida e desenvolvida pelas novas tecnologias, abolidoras ou não potenciadoras de relações interpessoais.
Indicia-se ainda que à medida que que se desenvolvem as tecnologias que prometiam diminuir o trabalho, o tempo livre não aumenta, rareando ou extinguindo-se, não poucas vezes.
E será que sem trabalho a vida humana não serve para nada e que o que Sísifo recebeu de Zeus não foi um castigo, mas sim um favor?