Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

  


«Nous ne pouvons plus rien aimer, rien estimer, qui ait la marque de la soumission», afirmou Bataille!

E Sophia:

«Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias»

E Vaclav Havel:

«A verdade e o amor devem prevalecer sobre as mentiras e o ódio». Esta a sua máxima e sempre um coração acompanhava a sua assinatura»

E sempre se perguntou:

E se os teus dedos tocarem o que os teus olhos não viram? Como interpretas?

E se alcançares o grande heroísmo que na guerra nunca atingirias? Como interpretas?

E se a faúlha nunca te abandonar e fores capaz de percorrer a geografia e a antropologia dos povos e o teu pretexto tiver vida própria, por muito condenado que esteja à clandestinidade?

Continua uma batalha em curso pela alma do mundo, e se nela há esperança, é porque há força criativa e revolta contra a ofensa à dignidade do ser humano na defesa da própria ideia de verdade enquanto significado da primazia dos factos.

Como é possível que quem acumula qualquer modo de poder desprezando os direitos humanos, se afirma falar em nome das massas? Os gabinetes dos donos do mundo estão apartados das necessidades das pessoas comuns, é sabido, e ainda deles se reclama a chamada “única palavra”?

Quem não prestou atenção a tudo isto? 

E o que se sabe das fantasias compensadas pela ignorância, quando um génio da sorte libertado por uma garrafa, por uma cautela, pela negociação de promessas, nos concede desejos instantâneos, tudo capturando no seu interior?

Quem não acordou para a realidade de sermos uma só espécie inconclusa?

Enfim, cabe-nos, no que dizemos e como agimos, galvanizar o alerta ao fanatismo, à intimidação, ao ódio, aos monstros, a fim de que nos ofereçamos a nos interpor às forças desencadeadas contra nós, e que o deixemos claro: por escrito, por leitura, por posto de trabalho, por família, por amor, por vida!

We shall not be moved

 

Teresa Bracinha Vieira

ANTÓNIO DE SOUSA FRANCO

  


Na cerimónia que teve lugar no dia 5 na Torre do Tombo, assinalando os 635 anos da Casa dos Contos, instituição antepassada do Tribunal de Contas, sem interrupções, procedeu-se à assinatura do acordo de depósito do riquíssimo acervo documental de prestação de contas para o Arquivo Nacional. Trata-se de uma decisão que permite a salvaguarda de um património histórico e cultural de valor incalculável que constitui a memória viva do Estado e da Administração Pública. A publicação do volume intitulado “As Histórias que as Contas nos Contam” permite tomar contacto com diversos episódios da longa existência das instituições que culminaram no Tribunal de Contas. A obra é dedicada à memória de António Luciano de Sousa Franco, Presidente da Instituição de 1986 a 1995, o que permitiu uma sentida homenagem a quem prestou um serviço público de valor extraordinário nas diversas atividades que desenvolveu. De facto, tendo sido o fundador e o grande mestre na Universidade de Lisboa e na Universidade Católica da Escola de Finanças Públicas, com raízes profundamente ancoradas na vida científica e académica, foi o grande artífice da institucionalização do Tribunal de Contas como verdadeiro tribunal supremo de natureza jurisdicional, dando expressão viva à sua concretização constitucional em Portugal, com consequências no direito comparado, como salientou o Ministro Bruno Dantas, Presidente da Organização Mundial dos Tribunais de Contas (INTOSAI) e do Tribunal de Contas da União no Brasil. Foi Sousa Franco quem contribuiu decisivamente para afirmar, para o Tribunal português, o carácter inequívoco da natureza de tribunal judicial supremo e de câmara de auditoria, enquanto exemplo internacional, como reconheceria Philippe Séguin, quando presidente do Tribunal de Contas francês.


Num tempo em que o Estado de Direito é decisivo para a afirmação da democracia, para a credibilidade das instituições e para o bom uso dos dinheiros públicos, esta recordação deve servir de exemplo. A responsabilidade financeira, o efeito dissuasor das sanções pessoais, em resultado de pagamentos indevidos (reposições e multas), a certificação de contas, o caso julgado, a autonomização da responsabilidade financeira – tudo isso constitui razão de ser do prestígio alcançado pelo Tribunal de Contas numa ação persistente e discreta, mas firme e determinada, recusando a impunidade, deixando os atos da Administração Pública de ter carácter meramente formal e passando a ter valor próprio substancial no plano financeiro público, em ligação com a separação e interdependência de poderes, e com o consentimento dos cidadãos representados no Parlamento. Pode assim dizer-se, como salientou o Presidente da República, que uma verdadeira jurisprudência das contas públicas é uma marca positiva da democracia, que tem de continuar a ser reforçada. A Casa dos Contos do reinado de D. João I, vinda do tempo de D. Dinis, o Regimento dos Vedores da Fazenda de 1516, o Erário Régio de Pombal, o Tribunal do Tesouro Público de Mouzinho da Silveira até ao Tribunal de Contas de 1849 e à reforma de Sousa Franco são marcos positivos (que os temos) de que nos devemos honrar e que constituem exemplos a seguir.   


GOM

O MISTÉRIO DOS TALENTOS

  


A parábola dos talentos (Mateus 25, 14-30) é hoje, a meu ver, perigosa: perigosa porque muitas vezes a ouvi comentar de uma maneira que, em vez de impelir os cristãos à conversão, parece confirmá-los no seu atual comportamento entre os outros homens e mulheres, no mundo e na Igreja. Por isso talvez fosse melhor não ler este texto, em vez de o ler mal…


Na verdade esta parábola não é uma exaltação, um aplauso à eficiência, não é uma apologia de quem sabe ganhar lucros, não é um hino à meritocracia, mas é uma verdadeira e autêntica contestação em relação ao cristão que muitas vezes é morno, sem iniciativa, satisfeito por aquilo que faz, receoso operante a mudança exigida pelos novos desafios ou pelas alteradas condições culturais da sociedade.


A parábola não confirma nem o “ativismo pastoral” em que caem muitas comunidades cristãs, muitos “agentes pastorais” que não sabem ler a esterilidade de todo o seu esforço, mas pede à comunidade cristã consciência, responsabilidade, laboriosidade, audácia e sobretudo criatividade. Não é a quantidade do fazer, das obras, nem o ganhar prosélitos que tornam cristã uma comunidade, mas a sua obediência à Palavra do Senhor que a impulsiona para novas fronteiras, para novas praias, estradas não percorridas, ao longo das quais a bússola que orienta o caminho é apenas o Evangelho, unido ao grito dos homens e das mulheres de hoje quando balbuciam: «Queremos ver Jesus!» (João 12, 21).


Leiamos então com inteligência esta parábola, cuja perspetiva, repito-o, não é económica nem financeira; não é um convite ao ativismo, mas à vigilância que permanece na expetativa, não satisfeita com o presente, mas totalmente direcionada para a vinda do Senhor. Ele já não está entre nós, na Terra, é como se tivesse partido em viagem e confiou aos seus servos, aos seus discípulos, uma tarefa: multiplicar os dons por Ele dados a cada um.


Na parábola, a dois servos o Senhor deixou muito, uma quantia substancial – cinco lingotes de prata a um, dois a outro –, para que a façam frutificar; a um terceiro servo deixou um só lingote, que ainda assim não é pouco. Em todos eles depositou a sua confiança sem limites, confiando-lhes os seus bens. Cabe por isso aos servos não trair a grande confiança do proprietário e realizar uma sábia gestão dos bens, que não são seus, mas do dono, que, ao regressar, lhes dará a recompensa. A cada um o proprietário dá em função da sua capacidade, e o seu dom é também uma tarefa: cuidar e fazer frutificar.


Para além da imagem dos talentos, o que é este dom, em definitivo? Segundo Ireneu de Lyon é a vida concedida por Deus a cada pessoa. A vida é um dom que não deve absolutamente ser desperdiçado, ignorado ou dissipado. Infelizmente, temos de o constatar, para alguns a vida não tem valor algum: não a vivem, antes desperdiçam-na e estragam-na ao ponto de fazer dela um estranho enjoo (cf. Konstantinos Kavafis), e assim se deixam viver.


Porém só se vive uma vez, e fazê-lo com consciência e responsabilidade é decisivo para salvar uma vida ou perdê-la. De acordo com outros padres orientais, os talentos são as palavras do Senhor confiadas aos discípulos para que as guardem, decerto, mas sobretudo para que as tornem frutuosas na sua vida, as ponham em prática até as semear copiosamente na terra que é o mundo. De novo é questão de vida, de «escolher a vida» (cf. Deuteronómio 30, 19).


«Após muito tempo» - alusão à demora da parusia, da vinda gloriosa do Senhor (cf. Mateus 24, 48; 25, 5) – «o proprietário regressa e pede contas da confiança por ele colocada nos seus servos, os quais devem mostrara a sua capacidade de ser responsáveis, isto é, capazes de responder à confiança recebida. Eis, portanto, que todos se apresentam diante dele.


Aquele que tinha recebido cinco talentos mostrou-se trabalhador, empreendedor, capaz de arriscar, empenhou-se a fim de que os dons recebidos não fossem diminuídos, desperdiçados ou inutilizados; por isso, quando entrega ao proprietário dez talentos, recebe dele o elogio: «Bem, servo bom e fiel (…) entra na alegria do teu Senhor». Acontece o mesmo para o segundo servo, também ele capaz de duplicar os talentos recebidos. Para estes dois servos a recompensa é proporcionalmente igual, ainda que as somas confiadas tenham sido diferentes, porque ambos agiram segundo as suas capacidades.


Vem por fim aquele que tinha recebido um só talento, e ao estender as mãos manifesta o pensamento que o paralisou: «Desde quando me deste o talento, eu sabia que és um homem duro, exigente, que faz aquilo que quer, e recolhes também onde não semeias». Com estas palavras («pelas tuas palavras te julgo», lê-se no texto paralelo de Lucas 19, 22), o servo confessa que fabricou uma imagem distorcida do senhor, uma imagem plasmada pelo seu medo e pela sua incapacidade de ter confiança no outro: ele considera o proprietário como alguém que lhe mete medo, que pede uma escrupulosa observância daquilo que ordena, que age de maneira arbitrária. Tendo esta imagem em si, optou por não correr riscos: colocou em segurança, debaixo da terra, o dinheiro recebido, e agora restitui-o tal e qual. Assim devolve ao dono aquilo que é seu e não rouba, não peca…


Mas eis que o senhor se encoleriza e lhe responde: “És um servo malvado e preguiçoso. Malvado porque obedeceste à imagem perversa que fizeste do senhor, e assim viveste uma relação de amor servil, de amor ‘restringido’. Por causa disso foste preguiçoso, não foste de confiança, não tiveste nem o coração nem a capacidade de trabalhar segundo a confiança que te concedi. Nem sequer fizeste o esforço de meter o talento no banco, onde teria dado fruto, dando-me juros. Não cuidaste do meu bem a ti confiado”.


Sim, sabemo-lo: é mais fácil enterrar os dons que Deus nos deu, em vez de os partilhar; é mais fácil conservar as posições, os tesouros do passado, do que ir descobrir novos; é mais fácil desconfiar do outro que nos fez o bem em vez de responder conscientemente, na liberdade e por amor. Eis assim o louvor por quem arrisca e a culpabilidade de quem se contenta com aquilo que tem, enclausurando-se no seu “eu mínimo”. Este servo não fez o mal; ainda pior, não fez nada!


Por isso, diante de Deus, no dia do juízo, comparecerão dois géneros de pessoa: quem recebeu e fez frutificar o dom; quem o recebeu e não fez nada. Os servos fiéis entrarão na alegria do Senhor; quem, pelo contrário, foi “bom por nada” será espoliado inclusive dos méritos de que pensava poder orgulhar-se.


Quanto a mim, gostaria que a parábola se concluísse de outra forma: assim seria mais claro o coração do proprietário, enquanto o coração do discípulo seria aquilo que o proprietário deseja. Ouso por isso propor esta conclusão “apócrifa”:


Vem o terceiro servo, a quem o proprietário tinha confiado um só talento, e diz-lhe: “Senhor, eu ganhei um só talento, duplicando o que me deste, mas durante a viagem perdi todo o dinheiro. Sei, todavia, que tu és bom e compreendes a minha desgraça. Não te trago nada, mas sei que és misericordioso”. E o proprietário, para quem mais do que o dinheiro importava que aquele servo tivesse uma imagem verdadeira de si, disse-lhe: “Bem, servo bom e fiel, ainda que nada tenhas, entra também na alegria do teu senhor, porque confiaste em mim”.


Mesmo desta maneira, a parábola seria boa notícia!


Enzo Bianchi In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins

A VIDA DOS LIVROS

  
De 15 a 21 de julho de 2024


Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado da vida do maior poeta da língua portuguesa.


EXCECIONAL FORMAÇÃO
António José Saraiva teve razão ao afirmar que a grande prova da excecional formação de Camões em Coimbra se encontra na sua obra, que ostenta notáveis extensão, profundidade e solidez de conhecimentos. Os primeiros biógrafos e comentadores foram unânimes em reconhecê-lo e quase quinhentos anos de exegeses sobre a obra camoniana permitem que lhes demos razão. De facto, Luís de Camões conhecia bem os textos bíblicos do mesmo modo que os autores latinos e gregos – Virgílio, Horácio, Cícero, Plínio, o Antigo, ou Ovídio. E aí encontrou o paradigma do poeta desterrado, que ilustraria o seu percurso biográfico, marcado por partidas, viagens e ausências. Por exemplo, em Os Lusíadas, o poeta serve-se, com segurança, de todos os epítetos atribuídos à deusa Vénus e, querendo comparar os portugueses modernos aos heróis da Antiguidade, encontra termos clássicos que demonstram a superioridade dos seus conterrâneos. Por cada varão português encontra um semelhante clássico, colhido entre os heróis gregos, romanos e de outros povos celebrados pelos historiadores antigos. De facto, Camões possuía um saber erudito, que abarcava vários domínios do conhecimento, da geografia à botânica, da cosmologia à astronomia, adquirido através não só de leituras diretas de clássicos, mas também das vulgatas disponíveis. A qualidade do seu estilo e o domínio rigoroso da sintaxe, o emprego adequado do vocabulário, decorrem de longas e profícuas leituras, e da convivência desde tenra idade com o latim, que era suposto ser usado no diálogo dentro das portas da escola. Camões conhecia ainda as crónicas históricas portuguesas, sendo amigo do grande cronista Diogo do Couto, tendo ainda o conhecimento de escritores modernos, italianos, castelhanos e portugueses, como Dante e Petrarca, Pietro Bembo, Garcilaso de la Vega, Ariosto, Tasso, André de Resende e Bernardim Ribeiro. Eis por que razão a discussão sobre se Camões fez ou não estudos superiores se torna irrelevante para a fruição da sua obra.


HONESTO ESTUDO COM EXPERIÊNCIA MISTURADO
Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado do maior poeta da língua portuguesa. E o certo é que, apesar da voracidade com que procurava aceder aos livros, a principal biblioteca do épico deverá ter sido a sua memória extraordinária, assente em aturadas leituras – que o levará a dizer “Nem me falta na vida honesto estudo, / Com longa experiência misturado, / Nem engenho que aqui vereis presente…” (Os Lusíadas, Canto X, 154). E como a autora refere, mercê de um trabalho sério e exaustivo, além da quantidade impressionante de referências eruditas e da extraordinária memória, Camões também guardava lendas populares, provérbios, adágios e rifões. E assim vemo-lo influenciado pela tradição lírica galaico-portuguesa e pela poesia provençal, que deixaram marcas em muitas composições escritas na medida velha, isto é, em versos de cinco e sete sílabas, quer nas cantigas de amigo, em que fala a dona, quer nas cantigas de amor em que o poeta toma a palavra em nome do amor cortês. No conhecido vilancete, a partir do mote, “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura”, encontramos as pastorelas medievais, que ficcionam o diálogo entre o cavaleiro e a camponesa, junto de uma fonte, ainda que nas redondilhas camonianas a rapariga “formosa e não segura” se limite a ser contemplada… No vilancete “Deus te salve, Vasco amigo”, Camões combina a feição bucólica da poesia rural com a retórica petrarquista, substância da medida nova, apresentando o pastor que se sentia fora de si, porque tinha na amada “a alma e a vida”. Contudo Camões surge-nos como um homem da sua época, que pensava e vivia com os valores e preconceitos dos seus contemporâneos, na ciência e nas limitações.


Da criteriosa investigação de Isabel Rio Novo, encontramos detalhes que nos apresentam a personagem com toda a sua riqueza, literato e destemido, reflexivo e aventuroso. Atente-se ao livro de matrículas da Casa da Índia, se bem que o biógrafo Manuel Correia julgue que o poeta teria nascido em 1517, Faria e Sousa descobre o registo de 1550 relativo a uma viagem que não chegou a realizar-se em que se apresenta Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa na Mouraria, escudeiro de 25 anos, barbirruivo, que trazia por fiador seu pai, devendo partir na nave de S. Pedro dos Burgaleses. Ora, se em 1550 Camões tinha 25 anos só poderia ter nascido em 1524 ou 1525, como hoje se julga… Embarcaria, noutra ocasião, para o Oriente como homem de armas, precisando de combater, pois só assim receberia o soldo, podendo acumular certidões de serviço com que poderia, mais tarde, requerer um provimento. Por isso, apesar de o poeta não apresentar provas de mais expedições militares após a guerra ao rei da Pimenta e o embarque na armada do Norte, o certo é que deverá ter participado em várias expedições militares, como pressupõem os biógrafos seiscentistas, que o colocam “servindo a pátria, no verão, com as armas em o mar; no inverno, com a pena em terra”. Para Manuel Correia, Camões foi muito tempo soldado na Índia, dizendo as pessoas de crédito que o conheceram que foi homem de espírito e que em todas as ocasiões de guerra em que se achou deu boa conta de si.


ERROS MEUS, MÁ FORTUNA
Quando fala de “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, a verdade é que todos esses fatores se conjugaram para o perder. Os erros e a má fortuna sobejaram, mas o amor fora o suficiente. Os exemplos das heroínas abundam, mas escondidas, porventura para proteger as identidades verdadeiras, nos anagramas Aónia para Joana; Belisa ou Sibela para Isabel; Natércia para Catarina; Nise para Inês. Porém, os vários nomes femininos que se encontram na lírica, além das encomendas, muitos são convencionais, tirados da Bíblia, dos autores clássicos ou dos cancioneiros: Dinamene, Elisa, Amarílis, Silvana, Sílvia… E encontramos uma procura rigorosa, em lugar da tradição mítica ou de fantasiosa integração de lacunas. Reúne-se, assim, um conjunto de elementos dos melhores analistas, procurando Isabel Rio Novo encontrar não respostas definitivas e fechadas, mas hipóteses de trabalho sérias, coerentes e verosímeis. Não se trata, pois, de dispor de um Camões completo e perfeito, mas de reunir informações que permitem, em busca da verdade, irmo-nos aproximando da vera efígie, na certeza de que nunca a atingiremos plenamente, por incapacidade nossa e falta de evidências suficientes. Contudo, devemos a Camões “o justo peso das sílabas, o justo espaço do silêncio, a articulação justa”, na expressão de Sophia de Mello Breyner ou “o canto de fúlgida beleza formal, rítmica e melódica, e de espantosa densidade semântica em que se exprime, como nunca na poesia portuguesa, e só voltaria a acontecer algumas vezes na poesia do século XX, a grandeza e a miséria da condição humana”, como disse Vítor Aguiar e Silva. E a 5 de fevereiro de 1585, um alvará concederia à mãe do poeta (Ana de Sá e Macedo) quinze mil réis anuais de tença, havendo respeito aos serviços do pai Simão Vaz e aos de seu filho Luís de Camões, cavaleiro da casa de Filipe I, ficando a dúvida sobre se o poeta, mais tendo vivido, poderia ter evitado a angústia dos últimos dias…     


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE TIAGO PATRÍCIO 

  


conhecemos alguém


que nos dirigiu a palavra de outra mesa
e nos estendeu a mão
depois de enrolar o cabelo
preso acima da nuca

nos breves segundos a que temos direito
fazemos um esforço por nos
reconhecermos num livro comum
ou na marca de uma cerveja

pode ser também nalguma citação
ou nome de cidade onde estivemos para ir

trocamos os números de telefone
e outros endereços com o nosso nome
e combinamos escrever em tempo útil

meio ano depois recebemos uma carta
a pedir um poema nosso para ser publicado
numa revista estrangeira

enviamos um poema à confiança
que será encaminhado para uma tradutora oficial
e voltamos a encontrar-nos no lançamento dessa revista
para nunca mais discutirmos poesia ao vivo

da próxima vez serei eu a saldar a dívida
e a fazer o convite para uma colectânea
posso até participar na tradução
para tornar o poema aceitável na antologia
mas numa próxima oportunidade
irei repetir a encomenda

é preciso ganhar créditos
no mercado dos favores literários
por isso coloco sempre uma citação
e uma dedicatória em cada poema
duas cunhas valem sempre mais
do que um pseudónimo certificado


Inédito


you come across someone


who addressed you from another table
and shook your hand
after having tied up her hair
above the neck

in the brief moments we could manage
we make an effort to acquaint
ourselves in a shared book
or in the brand of a beer

or perhaps some quote
or the name of a city we nearly went to

we exchange phone numbers
and other named means of contact
and agree to write in due course

half a year later you get a letter
requesting a poem to be published
in a foreign magazine

you send a poem in good faith
which is to be directed to an official translator
and once more we meet at that magazine’s launch
never to discuss poetry in person again

I pay my debt and in turn
invite her to take part in an anthology
I can even play a part in the translation
but in a future opportunity
I’ll commission her again

it’s necessary to gain credits
in the market of literary favours
and so I write a quote
and a dedication in each poem
pulling two strings is always worth more
than a certified pseudonym


© Translated by Ana Hudson, 2012 Unpublished
in Poems from the Portuguese 

 

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
SARABAND


1. Apetecia-me começar este texto sobre o último filme de Bergman comentando uma frase de Liv Ullmann que li algures: "Filmes e pessoas não envelhecem da mesma maneira." É tão certo. Mas, como os críticos portugueses acentuam, quase invariavelmente, o retorno do mesmo Bergman como um regresso da casa dos mortos (alguém que já tinha uma lápide em cima e vibrante elogio fúnebre e que, de repente, reapareceu algo obscenamente, quebrando a lousa por sua própria mão), reprimo o apetecimento. Se há coisa que me apetece ainda menos é entrar em polémicas, ao falar de um dos filmes mais desmedidamente belos alguma fez feitos. O filme mais intenso, o filme mais suave, dessa intensidade e dessa suavidade a que Julia Dufvenius (uma das muitas imensas surpresas de "Saraband") se refere, quando, no princípio do seu primeiro diálogo (ou monólogo) com Liv Ullmann, lhe fala do que o pai lhe exige para interpretar a sonata op. 25 de Hindemith (Cena 2). Deixo, pois, essa conversa de tempos e de velhos, para apenas reter dela o que na cena 9 Liv Ullmann diz a Erland Josephson, quando o compara a um personagem de um filme antigo. Erland Josephson reage à notícia da tentativa de suicídio do filho (Börje Ahlstedt, que em tempos foi o tio Carl de "Fanny e Alexandre") com comentários de uma maldade desmedida. Desse filho que agoniza no hospital, após tomar todos os comprimidos que tinha e não tinha (onde é que eu já ouvi isto?), cortar os pulsos e a garganta, não crê na morte. "Quem falhou tudo na vida, até no suicídio vai certamente falhar." Ela não o reconhece em tamanha crueldade. E usa então a comparação citada. Em que filme estaria ela a pensar? É bem possível que num filme de Bergman, onde o Deus Aranha teceu fios equivalentemente perversos. Mas se tudo neste filme de Bergman reenvia a outros filmes de Bergman (quase se poderia citar a filmografia completa), nenhum filme me pareceu menos um filme antigo, e obviamente não estou a pensar no digital HD que não menosprezo mas também não sobrevalorizo. Há muitos anos que não via um filme tão novo, um desses filmes que parece reinventar tudo e onde tudo parece acontecer pela primeira vez. Deixem-me apenas que vos diga que não percebo que se fale de um silêncio quebrado, 21 anos depois da estreia de "Fanny e Alexandre". É verdade que Bergman disse, à época (1982), que não voltaria a filmar. Já o tinha dito antes, muitas vezes, e quebrou a promessa. Como a quebrou, em 1983, com "Depois do Ensaio" e com "O Rosto de Karin"; em 1986, com "Os Dois Bem-Aventurados", e com o documentário sobre "Fanny e Alexandre"; em 1997, com "Na Presença de um Palhaço"; em 2000, com "Os Construtores de Imagens". Foram filmes para a televisão e não para o cinema? Mas não foi esse também o caso de quase todas as suas obras desde "Lágrimas e Suspiros", em 1972? Não foi esse o caso, nomeadamente, de "Cenas da Vida Conjugal", de que alegadamente "Saraband" seria a continuação? Bergman que o disse também o desdisse e não bastam nomes idênticos para idênticos atores (Liv Ullmann/Marianne, Erland Josephson/Johan) para concluir por essa solução (as filhas de então não se chamavam Sara e Martha, como agora se chamam). Essa questão é irrelevante, como é irrelevante o tempo do pousio, se acaso o foi. Prefiro passar à nova música.


2. É verdade que nem sequer o é. O lugar central ocupado pelo quarto andamento da quinta "Suite para Violoncelo Solo", de Bach, já existira em "Lágrimas e Suspiros", para não falar da omnipresença da segunda suite na chamada "trilogia de Deus". Mas, desta vez, em que Bach não está sozinho e traz consigo Bruckner e Brahms, Alban Berg e Hindemith, "Saraband" é título e título de uma obra a que Bergman chamou "um concerto grosso para quatro instrumentos". Sarabanda - Concerto grosso. Andamos pelo barroco, quando a dança perdeu as conotações lascivas que levaram à sua proibição na Espanha do século XVI, para se tornar uma vagarosa e solene dança processional. No filme, conserva-se a lascívia (discretíssima, mas perturbantíssima, na relação incestuosa entre Börje Ahlstedt - Henrik, o filho de Erland Josephson - e Julia Dufvenius - Karin, a filha dele - com quem o pai partilha a cama e a quem beija sofregamente na boca. E sem querer insistir (até porque Bergman só é elíptico quando quer), para mim um exemplo fulgurante de imagem lasciva é aquele plano sublime (só possível graças à imagem digital) em que, no fim da Cena 6, Karin se vê sozinha no ecrã todo branco, com o violoncelo entre as pernas, ponto luminoso perdido na distância, parecendo surgida de um filme de Michael Powell.
Sexta cena. Sex. Posso bem estar a delirar, mas essa cena batizada "A Proposta", passada entre um avô de 86 anos (a propósito, Erland Josephson tinha 80 à data da rodagem, 86 era a idade de Bergman) e uma neta de 19, é, sem dúvida, a mais erótica do filme. Toda vestida de encarnado (da única vez que se veste assim, roubando a cor a Liv Ullmann) cercada pelos sons altíssimos da 9ª de Bruckner, Karin, antes de entrar no escritório do avô, controla cuidadosamente a aparência e vestes, e avança depois, sem que ele a ouça, até o despertar com um beijo e uma vénia. O avô lê-lhe então a carta da proposta (o convite do maestro russo para uma carreira de solista) e oferece-se para lhe pagar os estudos e o violoncelo digno de um Guarnerius. Como sempre, é mais um monólogo do que um diálogo e pouco ou nada Karin responde à tentação altíssima. O avô despede-a, após a conversa sobre Freud e os cigarros, a pretexto de muito cansaço e é então que Karin tem essa autovisão, essa espécie de dissonância na composição da sequência, de que outros exemplos sumamente heterodoxos abundam durante o filme. Mas não me consigo despedir desta música sem citar outra dessas dissonâncias, a mais brutal porque é a primeira. É a meio da Cena 2, entre Liv Ullmann e Julia Dufvenius, quando esta conta àquela a sua violenta cena com o pai. Subitamente, saímos do quadro e vemos (no que não é um "flash-back") a dita cena intensamente física. Depois, a rapariga foge de casa, em camisa de noite, percorrendo a floresta como a virgem da fonte, até entrar na água escura de um pântano e desaparecer da imagem, sem que a câmara se mexa. Ouvimo-la, então, em "off", num uivo desmedido, até reaparecer no plano. Jean Michel Frodon, comentando essa cena, fala de morte e ressurreição. E diz: "Nunca, talvez, se tenha mostrado esse duplo acontecimento extremo - morte e ressurreição - de maneira tão poderosa. Nem no cinema, nem no teatro, nem na pintura." Tem razão.


3. "Concerto grosso para quatro instrumentos". Atores há cinco, mas quatro preenchem quase todo o filme. Um prólogo, em epílogo e dez cenas. Mas nas cenas nunca estão mais do que duas personagens, exceto nas dissonâncias aludidas. Mas há muitas outras personagens ausentes. E uma há que, retomando uma designação antiga, eu poderia dizer, sem dizer nada que não tenha sido já dito e redito, que é a "protagonista ausente" desta obra. Falo de Anna, a mãe de Karin, a mulher de Henrik, que morreu de cancro dois anos antes de o filme começar. Dela, temos recorrentemente, em casa do marido, em casa do sogro, o retrato a preto e branco. Amou-a o marido, amou-a a filha, amou-a o sogro e não parece que nenhum deles tenha amado alguma vez mais alguém. Foi o "anjo" naquele "ninho de víboras"? Tudo e todos parecem dizer que sim, única presença de amor feita, única presença feita para o amor. Ela só parece ter estado de lado daquela origem que Erland Josephson misteriosamente nomeia, quando comenta, na Cena I, a beleza da paisagem que o rodeia: "O mundo é pleno de belezas. Como deve ser bela a origem delas!" Ela só parece assemelhar-se ao São João que repousa no colo de Cristo, na ceia medieval da igreja da cena V e que Liv Ullmann vem ver de perto, no fim dela, única cena de onde o grande plano esteve ausente. Mas será verdade? Quando Henrik termina o seu longo monólogo na cama com a filha (cena 3) vemos-lhe o retrato em grande plano. E há um breve efeito (outra vez o vídeo), em que os olhos do retrato parecem disparar uma luz luciferina (um encarnado tão rápido, mas não mo tirem) sobre a filha e o marido no leito conjugal. Muito depois (cena 7), vem a leitura da carta que Anna deixou ao marido, sobre a relação dele com a filha. Essa carta é carta salvadora ou carta de perdição? Pelo menos, a partir dela tudo se consome. Karin, que resistira à proposta do avô, não resiste ao convite de Abbado, a sarabanda da Suite não chega a ser tocada, e Henrik suicida-se sem que a filha o saiba. E é depois (cena IX) que surge a sequência genial da hora do lobo, em que Erland Josephson, numa "diarreia de angústia", irrompe pelo quarto de Liv Ullmann, para, nu, se deitar junto ao corpo também nu da ex-mulher de 63 anos (a propósito, a idade real de Liv Ullmann à data da rodagem). Parecia que o filme não podia crescer mais? Mas há ainda o epílogo. Como no prólogo, Liv Ullmann dirige-se à câmara (dirige-se a nós) e, numa última dissonância, assistimos ao seu encontro com a filha catatónica, que, por breves momentos, abre os olhos como que respondendo ao afago da mãe. "E, pela primeira vez, nas nossas duas vidas, percebi, senti, que tinha tocado na minha filha. Na minha criança."
O ecrã fundo em negro. O filme acabou.


4. Eu não consigo acabar sem vos fazer uma pergunta. Alguma vez pensaram que o grande plano é a única figura da gramática do cinema que só no cinema existe e que não é concebível em qualquer outra arte? Pintores pintaram grandes planos, mas o quadro impede-nos de os ver como tal, a não ser que encostemos a cara à tela, em movimento nosso e não da pintura. Não é maneira de a ver, não é movimento suposto ao espectador.
Mas a câmara pode o que o nosso olhar não pode. E a câmara de Bergman pode mais que qualquer outra câmara, mesmo a de Griffith. Neste filme, vai ainda mais longe. Ao acercar-se mais e mais dos quatro rostos e das quatro vozes, para além dos corpos, dá-nos a ver almas. Impossível? Não para esse génio de todos os possíveis, chamado Ingmar Bergman.

 

por João Bénard da Costa
21 de janeiro 2005 in Público

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


183. CAMINHAR


Há mais de dois mil anos, havia uns estudantes de filosofia, da escola aristotélica, que se chamavam peripatéticos. Receberam este nome porque filosofavam enquanto caminhavam, dado Aristóteles ensinar ao ar livre, enquanto lia e dava lições. Caminhavam, deambulavam, passeavam, refletiam e meditavam no exterior, lá fora. Andavam e pensavam com tempo, paciência e lentidão. Sem preocupações desportivas. Nem pensando sentados em bibliotecas. 


Caminhar, na sua essência, é mais um exercício espiritual, um ato ecológico em que aprendemos a respirar o corpo e a paisagem, a ser parte integrante da natureza, e não uma corrida, o acelerar e o andar muito, muito depressa, por uma classificação ou pontuação.     


É uma satisfação física, frugal, espiritual e tranquila, que nos permite obter os contentamentos mais profundos com poucos meios.     


Ao caminhar trabalhamos e pensamos com a mente, sentimos e vivemos o corpo, humanizamos a vida interagindo com a paisagem, dialogamos com o espaço e o tempo, sem demora, pois o mal da pressa apressa tudo.     


Há filósofos, escritores e caminhantes que têm o caminhar como a origem e a raiz do seu pensamento.     


Para Nietzsche, caminhar ao ar livre era condição do seu raciocínio filosófico, um elemento da sua obra e o acompanhamento da sua escrita.


Rousseau fazia caminhadas no campo, tendo-o como o seu gabinete, vindo-lhe as ideias no decurso de longos passeios.   


Kierkegaard sentia a necessidade de caminhar para pensar, compor e dissertar, e também andava, pensava e escrevia em cada recanto da sua casa, à noite, em Copenhaga, onde havia uma escrivaninha, papel e tinta. 


Wordsworth, poeta romântico inglês, é tido como o inventor da caminhada como ato poético, um poeta-caminhante. Nas suas caminhadas descobriu a inspiração de muitos poemas, ajudando a sua poesia em verso e a escansão, atraindo turistas e viajantes aos lugares que o haviam inspirado. 


Kant caminhava para escapar ao pensamento. Fazia-o todos os dias, em Konigsberg, na Prússia, onde habitava, de modo monótono, regular e inevitável, como uma obrigação higiénica, sempre à mesma hora, de tal feição que, consta, os vizinhos acertavam o relógio pelos horários rígidos das suas andanças a pé. “Passeio do filósofo”, eis o nome que foi dado, após a sua morte, ao caminho onde caminhava diariamente. 


Caminhar, para Rimbaud, era uma fuga. Caminhou toda a vida, em busca do transcendente e de um contacto puro com os grandes elementos da natureza: o sol, as estrelas, o vento, a chuva, o deserto, as montanhas.   


E se para Nerval caminhar transmite melancolia, uma melancolia ativa numa errância melancólica, para Thoreau é a energia do corpo em movimento, em que a última força de energia são as paisagens, que apoiam e questionam o caminhante.


Sem esquecer os líderes políticos e morais, como Gandhi e Luther King, que fizeram do caminhar, em marcha, do seu misticismo e desobediência pacífica, uma maneira de viver e de mudar o mundo. 


Há quem defenda que as caminhadas a pé devem ser feitas sem companhia, porque a liberdade é essencial, caminhando ao nosso ritmo e velocidade, embora seja impossível estarmos sós, tantas as coisas disponíveis à nossa contemplação.   


E há o diálogo entre o material e o imaterial, apropriando-nos da paisagem, fazendo dela parte da nossa existência, num caminhar ecológico de presença, serenidade e calma, esquecendo-nos dos pormenores técnicos mundanos.


É um caminhar, um meditar, uma fuga idílica aos problemas diários, associado ao silêncio, uma oração silenciosa numa peregrinação como peregrino. Preferível de manhã, bem cedo, em dias solares, vendo o sol nascer, em hora não abrasiva e sem sofrimento na caminhada.       


A solidão (ou o silêncio?), a sentir-se, é cada vez mais quebrada pela companhia crescente de animais de estimação, em percursos adequados, numa simbiose entre o humano, os animais e a natureza. 


Esta filosofia e arte, está distanciada das caminhadas modernas que não dispensam roupa, calçado e acessórios especializados, incluindo câmaras telefónicas e o sempre presente telemóvel para acelerar, pontuar e aconselhar, numa busca permanente de uma melhor performance, onde a técnica se alia à rapidez e à competição, ao desporto, alterando o sentido mais genuíno e autêntico de caminhar.


Na opinião de Fréderic Gross: “Para avançar lentamente, não se encontrou nada melhor que a caminhada. Para caminhar, há que ter duas pernas saudáveis. O resto é inútil. Quer ir mais depressa? Então, não caminhe, faça outra coisa: vá de carro, patine, voe. Não caminhe. Além disso, ao caminhar, um só desempenho conta: a intensidade do céu, a magnificências das paisagens. Caminhar não é um desporto” (em Caminhar uma filosofia).   


Finaliza: “A magia da caminhada consiste em descobrir, na repetição improdutiva dos passos, a razão sem razão para continuar (…) Quando estiver esfalfado, saciado de sol e de vento, pararei. Entretanto não penso, limito-me a caminhar, e a vida avança” (idem). 


Seja qual for a opção - caminhar para pensar ou não pensar, contemplar e meditar em silêncio, acompanhado ou fazendo jus aos padrões da modernidade - bom caminhar e boas caminhadas!    


12.07.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

  


A grande caça ao homem existe ou não existissem espécies de vida sem convicção.

Vidas, quantas vezes, já não a tempo, ou no desamparo do quase não a tempo.

Os incautos homens mirrados que vivem dentro dos próprios sarcófagos, diga-se, foram atraídos para eles pelos cantos das sereias que lhes prometeram e prometem o ouro dos tolos.

Há que desvendar os mistérios dos objetivos desta caça, para que se entenda a motivação, o interesse inicial que se concentra no que torce e distorce até que as realidades sejam apercebidas pela forma que se impõem como verdade.

Há que registar que se enviam para muitos campos de batalha os espíritos criativos - considerados como os mais problemáticos - a fim de que sejam decapitados nas ditas guerras justas.

Parece que se desconhece a ideia da liberdade, essa mesma que envolve a do seu pressuposto, e consequentemente aquela que tem a capacidade de rejeitar a ideia recebida: a que insiste sempre em marchar fora do ritmo.

Todos contribuímos para deixar este mundo intolerante e mesmo retrógrado a que se chegou, mas este mundo ainda tem uma beleza e uma potencialidade espantosa.

Que as novas gerações resistam a não respeitar o que não merece respeito, há que ser cético em relação ao que nos pretendem fazer engolir; há que pensar na proposta de John Lennon «E se não houver céu».

Sonhem!

Creiam que a ideia não morre!

Que à ideia, a felicidade não é suficiente: antes, a sua procura é a que também recebe as visitas do mundo na sua estranheza.

E vós – e ainda nós - a partir daí.


Teresa Bracinha Vieira

O ENTUSIASMO DE ADÉLIA PRADO

  


Acaba de ser atribuído o Prémio Camões, neste ano emblemático de 2024, a Adélia Prado, poeta brasileira, natural de Minas Gerais, como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, formada em filosofia, professora, mãe de família, como uma obra notável.  E, com inteira justiça, Adélia também receberá por estes dias o Prémio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Na Antologia Tudo o que existe louvará, prefaciada por José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos (Assírio e Alvim, 2016), diz-se, sintomaticamente: «O religioso sem corpo é triste, incompreensível e anímico, porque é com o corpo que se ama a Deus. O corpo é que nos abre, como janela, para a transcendência: Deus só é experimentável a partir do corpo e na relação com o corpo». Ouvimo-la, com entusiasmo: «Tudo o que existe louvará. /Quem tocar vai louvar, /quem cantar vai louvar, /o que pegar a ponta de sua saia /e fizer uma pirueta, vai louvar. /Os meninos, os cachorros, / os gatos desesquivados, / os ressuscitados, /o que sob o céu mover e andar». Aqui se demonstra plenamente o que um dia disse a nossa Leonor Xavier: “Em verso e prosa, Adélia descobriu a mistura entre as pequenas tarefas de casa, as pessoas que a rodeiam, as coisas e os bichos, o sentir e o pensar, o silêncio da dúvida, a presença de Deus imediata e consciente, na inteireza da sua história de mulher”. Para Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Quem a conhece considera-a desconcertante, plena de ironia, ousada, iconoclasta, seríssima no entendimento das coisas essenciais. Nela o comum e o banal encontram-se, a cada passo, com o transcendente. Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». 


Esta atitude aberta e generosa permite-me lembrar que nestes últimos dias celebrámos em Lisboa o 12º “Disquiet” com escritores e intelectuais norte-americanos, promovido pela editora independente Dzanc Books e o Centro Nacional de Cultura, em memória do poeta Alberto Lacerda. Disquiet, evoca o “Desassossego” de Bernardo Soares / Fernando Pessoa. Se associo o novo Prémio Camões a este encontro é porque a abertura de espírito de Adélia Prado tem tudo a ver com esta iniciativa. Jeff Parker e Scott Laughlin, com Teresa Tamen, são a alma do projeto e fazem do diálogo entre literaturas uma festa do espírito. E este ano Katherine Vaz, habitual presença no certame, lançou o romance Linha do Sal, passado na Madeira na década de 1840, sobre a separação e o encontro de duas famílias imigrantes nos Estados Unidos, entre atribulações religiosas, mas em que se sente a “alegre melancolia que é a fonte de calor da alma portuguesa”. 


GOM

O QUE É O HOMEM?

  


Pela primeira vez na História a humanidade é hoje compelida a sair da lógica da guerra e do depauperamento incondicionado do ambiente. Parece que pode começar uma inversão da tendência com a assunção da consciência de que desta maneira não se pode seguir por diante, sob pena de destruir a humanidade a provocar a desolação do planeta.


Se nas últimas décadas constatámos de uma forma crescente que se estão a dar grandes passos rumo à barbárie, parece emergir agora uma reação que ainda não é a «insurreição das consciências» invocada por Pierre Rabhi, mas é a reiteração, de novo, da necessidade urgente de humanização.


São significativos, a propósito, os títulos de alguns ensaios filosóficos e sociológicos que apelam à humanização da modernidade, da política, da sociedade…. Perante as crises globais que se abateram sobre nós, como a pandemia, as crises económicas, as guerras nas fronteiras da Europa e do Mediterrâneo (portanto junto á nossa casa e, na realidade, guerras que também nós estamos a combater ao fornecer armas aos beligerantes), como afirmar um humanismo que seja um objetivo almejado com convicção pelas várias humanidades que fazem parte de um tecido da vida, da comunidade global?


É por isso que a pergunta séria e urgente que devemos colocar-nos não é sobre Deus mas sobre o mundo humano: «O que é o humano?». Pergunta na verdade antiga, que significativamente reencontramos no início e no fim do Saltério hebraico: «O que é o Homem?».


Devemos refazer-nos estas perguntas sobretudo hoje, porque o humano está esmagado entre o inumano e o pós-humano.


Conhecemos bem o inumano como possibilidade de depredação e negação do próprio humano: quando o ser humano é reduzido a “res”, coisa, quanto é humilhado e reduzido ao nada, distorcido pelo ódio e pela violência dos massacres e dos genocídios, desconhecido nos migrantes que apenas invocam compaixão, o inumano reina e nega o rosto à pessoa, nega a sua vida.


E é sempre permanente a necessidade de discernir o desumano também na nossa vida quotidiana, nas relações pessoais entre familiares e conviventes, nas situações onde falta a palavra apropriada, o respeito que sabe reconhecer o outro, a mansidão que pode assegurar a paciência recíproca. Bernanos escrevia: «A barbárie aninha-se nas fronteiras das nações como nas casas mais humildes».


E todavia hoje o humano está também desconfiado do pós-humano, ou seja, esse novo estádio evolutivo da humanidade no qual o cruzamento entre biologia e tecnologia está cada mais omnipresente. Deveremos alimentar muita inquietação perante estas novas oportunidades que poderão chegar a negar o corpo para o substituir com estruturas artificiais munidas de elementos de inteligência humana. Ao “homo sapiens” sucederá a “macchina sapiens”? E não será este talvez um delírio de omnipotência que deseja ser capaz de transumanismo até chegar a negar a mortalidade?


Pessoalmente nutro uma tal confiança na humanidade que não acredito que seja possível essa deriva e continuo convicto de que mais uma vez o “homo sapiens” saberá responder de maneira vital à pergunta que só ele sabe colocar-se: o que é o Homem? Porque há na humanidade um selo que pode ser pisado e negado, mas que é indestrutível e jaz como indestrutível na sua profundidade: a fraternidade. Ela tem a força de emergir assim como a terra, depois da água, do fogo, do vento, deixa despontar a erva e retomar a vida.


Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins