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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


238. DO SUBLIME


Associa-se o sublime, em geral, ao excelso, grandioso, soberbo, esplêndido, digno de admiração, de uma beleza celestial, radiosa e magnífica, despertando pensamentos e sentimentos nobres de respeito.   

Mas há que não confundir a noção do belo e do sublime, dado este também representar um desafio à nossa vontade, sendo mais forte que nós, uma força maior que a dos humanos e que, na sua grandiosidade, esmagamento ou ousadia, nos pode provocar fúria ou arrebatamento. 

Daí que, elevando-se acima do humano e convidando-nos a aceitar as nossas limitações, ao desafiar a nossa vontade pode não provocar apenas um julgamento de admiração e respeito, mas também ira e ressentimento, fazendo sentir-nos humilhados pelo que é poderoso e insolente e maravilhados pelo que é poderoso e nobre, podendo chegar à adoração e veneração.     

Se o sublime nos faz sentir pequenos, porque diminui a nossa dimensão, apoucamento que, só por si, pode ser desagradável, também pode ser satisfatório, na medida em que, por exemplo, há quem viaje para atravessar e observar paisagens a fim de vivenciar emoções espiritualmente avassaladoras e gratificantes, viajando pelos espaços infinitos ou esmagadores dos vastos desertos, cadeias de montanhas, glaciares, icebergues, céus, oceanos  e outros lugares procurados intencionalmente para que, quem os procura, se sinta pequeno. E podemos não ter palavras para exprimirmos o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que observamos.

O sublime excita, supera-nos e se mais forte não o devemos ter como necessariamente odioso, dado que nos interpela e transcende, ensinando-nos que o universo é mais poderoso que nós, o que está tradicionalmente associado ao nome de Deus e das divindades.   

Há quem o tenha como a nossa maior paixão e a nossa suprema experiência emocional, que está para além da alegria ou do contentamento e do acalmar no belo, mesmo quando baseado no perigo, no temor ou pânico. 

 Elevar o espírito do sublime pode traduzir-se em soltar exclamações diante do ilimitado e do infinito, ter medo, admiração e respeito por tudo aquilo que desafia a nossa vontade e a transcende.   

Por meio da sua força e grandeza, ajuda-nos a aceitar, sem azedume nem jeremiadas, os impedimentos que somos incapazes de superar e as ocorrências insondáveis que desassossegam as nossas vidas e a que não somos capazes de dar sentido, recordando-nos a nossa efemeridade e vulnerabilidade, contrariando a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”


12.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

NÚCLEO 

  
    James Turrell


Como noites, as noites voltavam a arrefecer.

Nas noites de lua cheia, viajávamos sempre juntos, viajávamos tanto que perdíamos o medo do fim, de qualquer fim.

Não conseguíamos esforçar-nos mais por uma coisa viva como aquela que vivíamos.

E sobrevivíamos sempre porque nos salvávamos de modo diferente, ou não nos tivéssemos amado tal como um homem e uma mulher de folhas.

Um jardim.

Árvore aberta numa cama de flores de braços e mãos

e entrávamos na eternidade.

Foi tudo tanto que um dia te senti um caos que não sabia passar sem mim, que era um caos só teu, mas com razão de dois, e significava que a fresta se dividia de com tanta força nos unir.

Mas tudo fragmentos da parte e não do todo.

Foram imensas emoções. Tudo nos entrou pela janela aberta, por aquela por onde aparece o núcleo, aquele único mundo que nos diz que os humanos devem aprender a amar-se, mesmo quando não responder possa querer dizer muitas coisas,

e a ternura, a ternura

uma réplica de um romance russo.

Realidade.

Realidades que têm o desaforo do amor e o acesso cor de carmim às glórias, e nós por lá também.

As macieiras carregadas, pacientes, reconquistam-nos em tudo,

e tanto é o que não nos pertence como aquilo em que nos temos

e é por isso que escrevo


Teresa Bracinha Vieira

A POLÍTICA DA LÍNGUA

  


A melhor política da língua e a única decente é: nenhuma. Deviam assim desaparecer todas as cátedras portuguesas pagas pelo governo português em universidades estrangeiras; todos os professores de português pagos pelo governo português, fora de Portugal; todas as regras sobre ortografia, e todas as tentativas grotescas de sugerir que por escreverem da mesma maneira as pessoas vão falar da mesma maneira; e de insinuar que quem fala da mesma maneira não pode deixar de estar de acordo; em suma, devia desaparecer toda a política externa baseada em afinidades linguísticas; e extinto o Instituto chamado maliciosamente Camões. Para o necessário bastam os hábitos existentes e as liberdades fundamentais: de expressão, de comércio, e de circulação.

Quando se fala de políticas fala-se de meios e de modos de encorajar certos comportamentos. No caso da língua portuguesa os comportamentos não são claros: será o falar português? O impressionar pessoas que não falam português? Fazer versos? As complicações aumentam porque a chamada política da língua tem uma dimensão internacional. Ao desejo de encorajar comportamentos linguísticos fora do país, mesmo que não se saiba quais, corresponde a fórmula opaca ‘a defesa da língua.’ A expressão intima campanhas militares, e inimigos numerosos; mas também não é claro quem possam ser.

Vistas as dificuldades logísticas, a defesa da língua consiste essencialmente em aulas profilácticas de português coloquial, literatura em tradução, e visitas a feiras e congressos; estes processos não requerem discernimento especial; visam cativar estrangeiros por atacado. Há o risco porém de, no seu cativeiro, os estrangeiros poderem aprender a conjugar o infinitivo pessoal. A habilidade torna-os capazes de exercer medicina, abrir floristas, ou comprar transportadoras aéreas de modo idiomático; e tais eventualidades correspondem aos piores pesadelos dos defensores da língua.

Uma língua estrangeira é uma coisa que dá trabalho a aprender. É como tocar violino, engolir fogo ou resolver equações diferenciais. É por isso preciso uma boa razão para o fazer. É natural que haja pessoas com boas razões para aprender português. Nunca todavia serão muitas, e as suas razões serão sempre muito circunstanciais. Razões circunstanciais não requerem políticas. São sempre particulares, e na maior parte dos casos desinteressantes.

Quando se torna em objecto de política, a língua transforma-se em religião; os barulhos portugueses mais primitivos passam a ser vistos como manifestação oracular de deuses. Um poeta brasileiro chamou-lhes por isso a última flor do Fábio. Em Portugal a língua é um objecto de culto no altar onde se adoram mais restos das religiões da Lusitânia: a luz de Lisboa, a ética republicana e a porca de Murça. Não pode nem deve naturalmente proibir-se ninguém de acreditar nessas coisas; mas não se deve legislar sobre elas, exactamente como não se deve legislar sobre religiões. Uma consequência de se aceitar que o estado não deve legislar sobre religião é aceitar-se que não deve legislar sobre a língua.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Paul Ricoeur © EPA/Juerg Mueller/Lusa


O pecado original. Com uma excepção?


Aconteceu-me, há muitos, muitos anos — era ainda jovem —, que, no final de uma conferência, no período das perguntas, uma senhora me atirou: “Sempre é verdade o que dizem: o senhor nega dogmas da Igreja!” Pedi-lhe para dar exemplos. Ela: que tinha negado o dogma do pecado original.

Aí, perguntei-lhe se tinha filhos. E ela: “sim, tenho duas filhas”. Dei-lhe parabéns sinceros e desafiei-a a dizer-me se acreditava sinceramente que as duas filhas tinham sido geradas em pecado e que ela tinha andado nove meses de cada vez carregando com duas filhas em pecado dentro dela. Ela: “Eu?!  Nem pense nisso! É claro que não”.

Fiquei então, mais uma vez, a saber que, frequentemente, há na religião o que se chama dissonância cognitiva: afirma-se uma coisa, mas realmente não se acredita nela, porque se pensa outra coisa. Aquela senhora, confrontada com a questão, viu claramente que não podia acreditar que uma criaturinha inocente, concebida com amor, tivesse  sido gerada e tivesse nascido em pecado, um pecado de que não era autora nem culpada. Mas ao mesmo tempo acusava de heresia quem dissesse o contrário do que lhe ensinaram que devia dizer, sem pensar. Ora, a fé não pode entregar-se à cegueira, abandonando a razão.

O pecado original não se encontra na Bíblia. Segundo o exegeta Armindo Vaz, a “transgressão” mítica de Adão e Eva “não implica um juízo de ordem ética ou moral nem permite a sua interpretação como ‘pecado’, ‘falta’ ou desobediência moral”. Como foi possível essa interpretação moral, se, na lógica dos mitos de origem, a natureza humana ainda estava em processo de criação e as acções do casal primordial são precisamente para “complementar a criação da sua condição humana: ‘comer da árvore do conhecimento’ (aquisição do conhecimento), cobrir a nudez (aquisição da civilização), sentença divina, decreto de morte e  expulsão (aquisição da condição de sofredor, mortal e trabalhador)”?

Já o filósofo Hegel tinha interpretado a saída do “paraíso terreal” como a passagem da animalidade à humanidade. O pecado original foi elaborado essencialmente por Santo Agostinho, com a finalidade de evitar a atribuição do mal a Deus. Para ele, foi com o pecado de Adão e Eva que veio ao mundo todo o mal, incluindo a morte, e, com esse pecado, transmitido de geração em geração, a humanidade toda tornou-se “massa condenada” ao inferno, do qual só alguns são libertados pela graça imerecida de Deus.

Esta concepção agostiniana teve pesadíssimas consequências no Ocidente e no mundo. Escreveu o filósofo cristão Paul Ricoeur: “Nunca se dirá suficientemente o mal que fez à cristandade a interpretação literal, melhor, historicista, do mito adâmico, ao levá-lo à profissão de uma história absurda e às especulações pseudorracionais sobre a transmissão quase biológica de uma culpabilidade quase jurídica da falta cometida por outro homem, castigado na noite dos tempos, algures, numa fase da evolução entre o Pitecantropo e o homem de Neanderthal.”

Santo Agostinho não hesitou em deixar cair no inferno as crianças que morriam sem baptismo, entrando assim no Ocidente uma concepção bárbara de Deus. Como foi possível conceber um Deus que teria castigado a Humanidade inteira com o calvário todo da História e o inferno por causa de um único pecado de seres humanos ainda no dealbar da consciência? E como poderia aceitar-se a condenação eterna de crianças inocentes, a não ser que recebessem o baptismo?

O limbo apareceu na Idade Média para a atenuar esta crueldade. Assim, as crianças sem baptismo ficavam privadas da visão de Deus, mas não eram condenadas ao inferno. Erguia-se, porém, legítima, a pergunta: não se trataria ainda de um castigo?, e como poderia Deus, infinitamente poderoso e bom, estar dependente, em ordem à salvação, de uma concha de água?

Já em 1984, o teólogo Joseph Ratzinger afirmara que o limbo era uma mera hipótese teológica. Mais tarde, já Papa Bento XVI, aprovou um documento de 41 páginas, preparado pela Comissão Teológica Internacional, que acabava com o limbo e abre as portas da salvação às crianças que morrem sem serem baptizadas.

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer “notícia boa”, não pousava sobre nós.

O que infectava o cristianismo era precisamente a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau, que ainda tive o privilégio de conhecer pessoalmente: “Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos – problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação --,  se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos  aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado.”

No entanto, repito, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Sim, na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12. Mas ele, que não sabia grego, seguiu a tradução latina: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz: “porque” todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho, como já ficou dito, deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães dramaticamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo — eu ainda conheci algumas, que procurei vivamente consolar.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina  sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, “explicar” o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o ser humano frente ao animal é a liberdade. O ser humano já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único – a nudez metafísica – e que é mortal...

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e  são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa infinita contra Deus e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, sádico — em relação a esse Deus deve-se ser ateu —, que precisou da morte do Filho, inocente, para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo prazer do acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática, se não trágica: era preciso continuar a gerar filhos — no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação —, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela. Só houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original, excepção que dá lugar à festa da Imaculada Conceição, no dia 8 de Dezembro, com feriado nacional em Portugal. Esquece-se então que Nossa Senhora não é grande porque foi isenta do pecado original, que não há, é grande porque é a primeira cristã, aquela que acreditou no seu filho Jesus e no seu Evangelho, notícia boa e felicitante: Deus é bom, Pai-Mãe, que  só quer a alegria, a felicidade e a plena realização de todos os seus filhos e filhas, que devem viver segundo essa dignidade, na fraternidade, na liberdade e no amor..., Jesus, inocente, não se acobardou e foi condenado à morte, foi crucificado, para dar testemunho da Verdade e do Amor, mas Deus não o abandonou: está vivo na plenitude da Vida, a Vida eterna...

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado, pecado original? Hoje, com a evolução, a contradição torna-se ainda maior: quem foram os “primeiros  pais”, com tanta consciência, liberdade e poder de determinação da História? O único sentido do chamado pecado original só pode ser o de estar precavidos: todos são gerados e nascem sem pecado, mas num mundo e para um mundo onde já há pecado — pense-se nos horrores das guerras e da fome, na violência doméstica e nos abusos de toda a ordem, na estupidez, na imensa estupidez, na brutalidade da mentira e do ódio, num mundo que por vezes parece desmoronar-se... ­— e, por isso, precisamos de estar precavidos, pois podemos ser contaminados, como um não fumador que entra numa sala de fumadores tem de acautelar-se, já que pode ser contaminado pelo fumo...

De qualquer modo, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do ser humano é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 6 de Dezembro de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  
De 8 a 14 de dezembro de 2025


Depois da referência a Portugal Restaurado, analisamos hoje a literatura económica do século XVII português, que tem um papel pioneiro na análise das condições históricas que caracterizam o final do império marítimo do Oriente e suas consequências…


 D. Luís de Menezes, 3º Conde da Ericeira (1632-1690)


O pensamento económico português foi marcado ao longo dos séculos pelo estudo das condições que caracterizam a nossa situação quase paradoxal de um território europeu virado ao mar, mas com inequívocas carências, com exigentes solicitações globais em razão da presença dos portugueses no mundo. Tal é o pano de fundo dos movimentos que obrigaram sucessivas gerações a partir – ora para a Índia, ora, em ocasiões diferentes e com destinos diversos, para a emigração. Em 1415 vamos para Ceuta para superar a falta de trigo e de ouro – e para beneficiar do comércio do Mediterrâneo. Se a longa costa atlântica portuguesa permitiu contrariar a situação periférica, o certo é que houve sempre uma tensão entre a defesa de um melhor aproveitamento dos recursos próprios e a consideração das oportunidades dos movimentos de pessoas e mercadorias… São bem conhecidos os alertas de Infante D. Pedro das Sete Partidas na célebre Carta de Bruges (1426) ou as queixas de Francisco Sá de Miranda: “Não me temo de Castela, donde guerra inda não soa, / mas temo-me de Lisboa que ao cheiro desta canela o reino nos despovoa”. E não esquecemos, no século XVII, o 3º conde da Ericeira, D. Luís de Menezes (1632-1690), na defesa do espírito manufatureiro, a que a descoberta do ouro do Brasil não deu continuidade. Houve, assim, plena consciência de que era preciso fixar riquezas depois de partir em sua busca. Essa procura teria de ser compensada de alguma forma, para que a míngua de pessoas não impedisse a criação e consolidação de uma cabeça coerente e de uma orientação eficaz para o império. A doutrina refere-se, por isso, às duas políticas nacionais, popularizadas por António Sérgio. Falando de obras pioneiras portuguesas no tocante à economia, cabe referir, além de Ericeira, os fundamentais autores seiscentistas – Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Ribeiro de Macedo. Em 1608, Diálogos do Sítio de Lisboa de Luís Mendes de Vasconcelos (c. 1542-1623) é o primeiro exemplo de uma tomada de consciência sobre a importância da capacidade criadora da economia. O autor viveu na passagem do século XVI para o século XVII, foi Capitão das Armadas do Oriente e governador em Angola. Nesse livro – onde discutem um Filósofo, um Soldado e um Político – encontramos a exaltação das qualidades da cidade de Lisboa, sobretudo quando comparada com Madrid e, tratando-se do tempo de Filipe I, durante a monarquia dual, António Sérgio diz-nos que o autor procurava convencer o rei “a mudar de Madrid para Lisboa a capital do seu império”. Por outro lado, combate-se “o estonteamento da nossa política ultramarina, que consistiu em se perverter o objetivo comercial com as ideias de conquista”. Luís Mendes de Vasconcelos defende a criação e a fixação, não apenas no domínio teórico, mas com exemplos práticos do que hoje classificaríamos como ordenamento do território, em especial para o aproveitamento agrícola nas lezírias do Tejo e na região de Lisboa. Ainda para Sérgio, este reformismo assenta na “política fixadora, a da produção metropolitana, com base na estabilidade do comércio do ultramar, e da sua nacionalização”; bem como num conceito de glória e heroísmo –“a glória do político e do militar, o heroísmo do servidor da pátria está em concorrer para a prosperidade dela”…


Já o clérigo e teólogo, formado pela Universidade de Évora, Manuel Severim de Faria (1583-1654) subscreve, com preocupações semelhantes, Dos Remédios para Remédios para a falta de Gente (1655), onde critica a prioridade bélica em detrimento do comércio e da manufatura – somando-se esse mal á falta de investimento, aos defeitos do arranjo agrário, à concentração fundiária, ao absentismo e ao despovoamento... De mais a mais, o império do Índico apresentava-se frágil por falta de organização mercantil, e por defeitos no arranjo agrário. Daí se advogar a prioridade para o comércio, a indústria e as manufaturas, único modo de fixar recursos, devendo a preocupação de criar riqueza prevalecer sobre a conquista. Só favorecendo o governo do Reino a introdução de ofícios e técnicas modernas poderia o mesmo alcançar a independência económica da nação. O jurisconsulto e diplomata Duarte Ribeiro de Macedo (1618-1680) publicou o Discurso sobre a introdução das artes no Reino (1675). Em coerência com a sua correspondência com o Padre António Vieira e D. Francisco Manuel de Melo, o escritor considera ser fundamental a compreensão de que só haveria um meio para evitar a dependência do exterior pelas importações, e esse seria impedir que o dinheiro saísse do Reino através da criação de artes e manufaturas. A introdução de uma tal orientação evitaria o dano que fazem ao Reino o luxo e as modas; obstaria à ociosidade; tornaria o país povoado e abundante com gentes e frutos; aumentaria as rendas reais (“porque o peso que levam poucos, dividido por muitos, é mais fácil de levar e pode ser maior”); e atrairia ouro de Espanha, aproveitaria mais as colónias e daria ao porto de Lisboa, superior ao de Constantinopla, a primazia do comércio do mundo. Escrevendo na França de Colbert, Duarte Ribeiro de Macedo considerava que haveria que seguir os caminhos mercantilistas de França e Itália e que a Inglaterra começava a trilhar. Saliente-se ainda que, tal como o Padre António Vieira, o diplomata defendeu a necessidade de encontrar um entendimento com judeus e cristãos-novos de modo a angariar novos meios e capacidades. Dois outros diplomatas merecem referência pela valia dos seus escritos de orientação convergente com a de Duarte Ribeiro de Macedo – refiro-me a Alexandre de Gusmão (1658-1753) e D. Luís da Cunha (1662-1749). O primeiro, irmão de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, defendeu o combate à ociosidade, o aumento da agricultura, o aproveitamento das ribeiras para navegar e regar, o estabelecimento de fábricas, o progresso da indústria e o favorecimento do comércio dentro e fora do reino. O segundo insiste na necessidade de dar um uso positivo à propriedade agrícola e de favorecer o investimento nas artes. Tratava-se de colher nas experiências das nações civilizadas os melhores exemplos com resultados práticos. Quando o já citado António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924), lembrou que os três autores seiscentistas “iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Luís Mendes de Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim de Faria, pela agricultura e pelas indústrias; em Ribeiro de Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos três reformadores. Mas o seu espírito continua, ressalvadas as distâncias e qualquer anacronismo, vivo e pertinente, em nome de um reformismo que foi assumido por Herculano, pela geração de 1870, pela “Seara Nova” e pelo moderno pensamento democrático. Regressar aos clássicos é, no fundo, um privilégio, sobretudo quando podemos usufruir através da sua leitura de ensinamentos duradouros e perenes. Saído do período de sessenta anos em que viveu em Monarquia Dual com a Espanha, com a sua presença na Ásia enfraquecida, quer pelas conquistas dos holandeses, quer pelo desenvolvimento do mercado interasiático e a perda de Ormuz (1622) e de Malaca (1640) e expulsão do Japão (1637-41), em Portugal a procura da fixação fazia todo o sentido. A descoberta do ouro do Brasil interrompeu, porém, a concretização desse desígnio – o qual viria a ser concretizado algo fugazmente pela política de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal…


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
DE JOHN MOHUNE A JON WHITELEY
OU DE FRITZ LANG A AUGUSTE-DOMINIQUE INGRES


1. Julgo que é o título mais comprido desta série de crónicas, quer as das antigas e românticas sextas-feiras, quer as dos novos e frustres domingos onde ainda não conseguiram arranjar lugar para me sentar. Quando se escolhe um título longo, é, normalmente, para ser mais explicativo, como é o caso, por exemplo do Everything You always Wanted to Know About Sex, but Were Afraid to Ask. Não é o caso deste meu, de hoje. Dou um doce a quem, mesmo muito sabido, perceber que relação existe entre John Mohune e Ingres, ou mesmo entre o pintor e Fritz Lang. Essa relação construiu-se, para mim, nos últimos três anos e só há três dias se concretizou. Apetece-lhes ouvir a história? A mim, apetece-me contá-la.


2. John Mohune é o nome do jovem herói do romance de John Meade Falkner Moonfleet, publicado em 1898. Um desses romances de aventuras escritos para pré-adolescentes do sexo masculino, que descende de Stevenson ou, mais remotamente, de Dickens ou de Kipling, e que foi muito popular na Grã-Bretanha, dos alvores aos meados do século que passou. A ação situa-se no século XVIII. John Mohune é o filho de Olivia e a família é tão importante naquela parte da Escócia que o próprio nome da povoação que dá título ao romance provém dela. Moonfleet é contração de Mohune e Fleet. Não eram senhores muito amados os Mohune. John, órfão aos nove anos, é informado pouco depois (pouco depois da morte da mãe, que o pai é outra história) que o nome não é propriamente um nome benquisto na aldeia de contrabandistas e piratas onde se situa quase toda a ação.


A primeira vez que o vi foi no filme homónimo de Fritz Lang, estreado em 1955. Tinha os mesmos nove anos, era muito ruivo e de cabelo encaracolado, a cara cheia de sardas, olhos azuis determinados. Por uma noite sem lua, com um céu coberto de nuvens púrpuras ou amarelas, caminhou à procura de um homem que julga ser seu amigo. A certa altura pára, para tirar um seixo de um dos buracos das solas das botas. De repente, aparece-lhe - é o termo - um anjo enorme de olhar vazio e expressão inquietante. Será estátua? Será gente? Uma mão que se vê em cima de um muro parece apontar para a segunda hipótese. John Mohune tenta fugir, tropeça e desmaia. Quando acorda, está no fundo de um poço e é do fundo desse poço que nós, com ele, vemos em contra-plongée vertical uma série de caras patibulares. O miúdo caiu às mãos de 40 ladrões. Mas recupera depressa a coragem e insiste que o levem à presença de Jeremy Fox, para quem traz uma carta. Carta da mãe, que, ao morrer, o confiou aos cuidados desse homem. Quando lhe somos apresentados (a Jeremy Fox), o aspeto e as maneiras do personagem (o ator é Stewart Granger) não prometem nada de bom. Nem dele, nem dos companheiros dele (onde avulta, para mim, a voz incomparável de Joan Greenwood), nem da dançarina que dança para ele. Só muito pouco a pouco percebemos algumas coisas e nem todas são esclarecidas. Jeremy Fox tem as costas marcadas por dentes de cães que os Mohune lhe atiçaram. Plebeu, estava na companhia de senhora, senhora que só podia ser uma Mohune, para a família se enfurecer de tal modo. Se ela, ao morrer, confiou o filho ao homem que fora pasto da matilha, as probabilidades são muitas de John Mohune ser filho de Jeremy Fox, embora no filme nunca tal se diga e o miúdo nunca o suspeite. No livro? No livro nem sequer há nenhum Jeremy Fox, tal era, nesses bons tempos, a fidelidade dos estúdios aos textos originais. Mas se John Mohune nunca suspeita que Jeremy Fox é seu pai, também nunca duvida que ele seja o amigo que a mãe lhe disse que era. Contra todas as evidências, porque Jeremy Fox passa o filme a enxotá-lo. Mrs. Minton, uma das amantes dele, pergunta a Jeremy: "Que vais fazer dele? Corrompê-lo e destruí-lo, como fazes a toda a gente?" "Há um perigo bem maior", responde Jeremy, "é ser ele a destruir-me." No final do filme todos morrem, menos John Mohune, que tem finalmente toda a razão para dizer: "It’s good to have a friend".


Para interpretar John Mohune, a Metro-Goldwyn Mayer, em 1955, chamou Jon Whiteley, um miúdo escocês que se estreara nas telas aos 6 anos, em 1951, e aos oito ganhara um Óscar especial da Academia pela sua interpretação em The Kidnappers de Philip Leacock. Em 1956, aos 11 anos, desapareceu das telas. Os pais acharam que cinco anos de filmes e estúdios, entre Londres e a Califórnia, já chegavam. Mandaram-no estudar.


Mas quem ama Moonfleet como eu amo - e estou cada vez mais acompanhado - nunca mais conseguiu ver John Mohune sem ver Jon Whiteley seguindo com um cão o seu amigo e roubando para ele o tesouro do Barba Ruiva. Cinemascope, mar, o obsessivo decote de Joan Greenwood, a voz de Joan Greenwood. E, evidentemente, Jon Whiteley. Cemitérios, lousas quebradas, poentes castanhos, rochas escarpadas. A fotografia de Robert Planck e a música de Miklos Rozsa. E, evidentemente, Jon Whiteley.


3. Mas se era evidente, era tão evidente que nunca me lembrei de perguntar por ele. Nem eu, nem (aparentemente) mais ninguém. Todas as celebridades do filme disseram da sua graça, e a maior das vezes da sua desgraça. Fritz Lang só no fim da vida se reconciliou com um filme em que passou as passas do Algarve. John Houseman, o produtor (que não era nada imbecil), dizia que só os franceses é que achavam que o filme era uma obra-prima. Por "perversidade ou por lealdade para com Fritz Lang". Mas Jon Whiteley nunca foi tido nem achado, apesar de se dizer que Lang, "ditatorial e déspota", tratara com especial e teutónico sadismo o seu jovem intérprete.


Provavelmente, o assunto teria morrido por aí (e hoje não me estavam a ler), se, em finais de 2001, por ocasião de um seminário sobre cinema e pintura no Convento da Arrábida, Henri Zerner não me tivesse perguntado: "Você sabe que Jon Whiteley é meu colega e professor de História de Arte em Oxford?" Não fazia a mais pequena ideia. Mas como cinema, pintura, Moonfleet fazem trindade indissociável, pensei em convidá-lo quando saísse o livro em que esse seminário desembocou. Convidá-lo para vir a Lisboa e apresentar Moonfleet. Ao princípio correu mal: de Oxford disseram-me que o prof. Whiteley (hoje com 60 anos) estava em ano sabático algures nos Estados Unidos. Mas havia mails. Há sempre.


Já com poucas esperanças, mailei. E, na volta, tive a resposta mais simpática do mundo. Que adorava voltar a Portugal, que conhecia como turista e que adorava apresentar Moonfleet, que (e agora sublinho bem) nunca ninguém o tinha convidado a apresentar.


Em janeiro, Jon e Linda Whiteley desembarcaram em Lisboa e eu vi subitamente na minha frente, aos 60 anos, o miúdo de 9, de 1955. Mesmos cabelos ruivos, mesmos olhos azuis, mesmas sardas. E, na fantástica apresentação do filme, o mesmo medo e a mesma coragem para defender Fritz Lang, acabar com a lenda das malfeitorias e falar da conspiração de produtores e atores contra aquele velho barrigudo e monocular que ousara pular para cima de uma mesa e explicar à famosa bailarina Liliana Montevecchi como é que se devia dançar a dança que ele queria que ela dançasse para endoidar os homens e empalidecer as mulheres. Fritz Lang, o realizador que "composed scenes in the manner of a painter and treated actors like a puppet-master". "This perhaps annoyed his actors but it did not trouble me." Depois falou-me de Ingres, seu pintor favorito, e prometeu-me o livro que sobre ela tinha escrito e há muito se esgotou.


4. A fama dessa palestra de Lisboa chegou a várias partes. Este e aquele começaram-me a pedir o Whiteley de Lisboa. Até que, postos os feriados de junho e os dias de montanha russa entre Guimarães e Salamanca, Salamanca e Belmonte, recebi, com data de 8 de junho, uma carta dele e o livro sobre Ingres. Na carta dizia-me que "as a result of your invitation to Lisbon and the showing of Moonfleet" recebera um convite para comentar o filme num festival em Procida. Sabia que a cópia a ser projetada era a nossa (a melhor cópia de Moonfleet que por aí anda e não é para me gabar). "Any chance of seeing you? I hope so very much." Não, não vou rever em Procida o meu John Mohune feito Jon Whiteley, criatura de Lang e criatura de Ingres, igual aos 9 e aos 60 anos, na sua busca pela amizade e na certeza dela. Mas ganhei o livro azul, com o retrato da viscondessa de Haussonville que está na Frick Collection. E nele recordei que a duquesa de Guermantes, depois de o ter execrado como o pior dos académicos, descobriu, no fim da vida, que ele fora o genial precursor do Art Nouveau. "Como os arquitetos do barroco, Ingres ultrapassou o domínio da arte clássica para inventar uma linguagem expressiva de regras quebradas, através das quais deu forma exterior aos doces, nostálgicos, ambiciosos, sensuais e vingativos desejos que sempre possuíram a sua imaginação." Ingres, certamente. Mas também Fritz Lang. "A deeply sensuous nature." John Mohune começou na encruzilhada de Moonfleet. Mas lembrou-se que estavam por ali senhoras. Foi nos banhos turcos de Ingres.


por João Bénard da Costa
19 de junho 2005 PÚBLICO

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  
   © AP Photo/Emilio Morenatti


237. O TEMOR DA OPINIÃO PÚBLICA


As pessoas devem ser naturais e seguir os seus gostos e convicções na medida em que não sejam abertamente antissociais.   

Poucas são felizes se a sua vida, elaboração e idealização do mundo não forem sancionadas, no geral, por aqueles com quem se relacionam socialmente, em especial por aqueles com quem vivem.

A maioria, para se sentir bem e realizada, carece de um ambiente simpático, de adaptar-se aos costumes e credos usuais, aguardando o reconhecimento dentro da norma. 

Outros, em pequenas ou grandes minorias, fogem às convenções demasiado convencionais, formais e rígidas, submetendo-se o estritamente necessário a uma convivência de coexistência integrante e pacífica.   

É menos saudável uma sociedade onde a opinião pública se rege por convenções em que toda a gente procede do mesmo modo, dado ser mais interessante uma sociedade em que, em princípio, as pessoas não são réplicas da maioria ou de todas as outras.   

Por exemplo, todos os que têm algum mérito artístico ou intelectual se sentem mais facilmente “hostilizados” num meio ou sociedade em que o futebol é rei, porque fogem ao que é a regra. Do mesmo modo, ao escolher-se uma carreira ou profissão, mesmo que respeitável, mas não costumeira ou consagrada no meio, pode-se ser apelidado de cobiçoso ou desajustado.

Havendo timidez injustificada, pode ser mais tirânica a reação, por analogia com a velha máxima de que um cão ladra e morde com mais força quando a vítima se assusta do que quando manifesta indiferença.   

Porém, uma pessoa estimulada e inclinada a ter gostos e convicções diferentes da opinião geral, pode sentir-se “degredada” ou “exilada”, condenada a isolamento hostil e causa de sofrimento, o que não exclui que noutro grupo não possa ser tida como alguém totalmente normal.   

Se o receio dos vizinhos é agora menor do que antigamente, surgiu um novo medo, com o aparecimento da imprensa em papel e digitalizada, que é o pânico do que podem dizer os jornais, as revistas e as redes sociais, uma nova forma de perseguição social, em especial para quem se expõe publicamente, um temor opressivo que pode ser tão assustador como o da caça às bruxas em tempos idos. 

Se bem que seja compreensível, em regra, respeitar a opinião pública dentro do que é exigível a uma convivência consensual mínima em sociedade, tudo o que ultrapasse esses limites pode ser submissão ou infelicidade. 

Mas sabemos que sempre houve e há pessoas de uma vida interior tão poderosa que o seu isolamento, a sua solitude, a incompreensão e a hostilidade do grupo ou do meio não as subjugaram, dada a sua envergadura espiritual, como as irmãs Bronte (em especial Emily) a quem alguma simpatia só sorriu após a publicação dos seus livros. 


05.12.25
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

LEMBRO-ME 

  


Lembro-me tanto de quando a poesia me explodiu na adolescência.

Depois de rezar o terço com a senhora mais velha da casa, depois dela adormecer esquecida da telefonia ligada, às vezes, as cartas de Goeth:

uma a uma as palavras.

Lembro-me tanto o quanto as não entendia e o quanto me apaixonava logo ali, liberta.

Eu,

eu a criada ainda adolescente.

Eu, a que tinha medo das bruxas, dos males ligados ao sobrenatural, do diabo que instigava que todos na casa tivessem autoridade sobre mim, até os mais novos. Até o cão.

E lembro-me que no dia dos meus anos não era dia de nada. Ninguém legitimava que eu existia na forma de gente que fizesse anos.

O camião do lixo passava à mesma hora, e o barulho dos carros era quase igual ao das panelas enquanto as areava. Depois, faria as camas de lavado, encerava as áreas mais desgastadas do chão e logo com o brilho do lustro, as palavras de Goeth. Algumas, soltinhas, tomavam conta de mim.

Ao domingo havia missa, missa com véu preto quase a trocar de vida, mas podia ser domingo, mas se o marido da senhora estivesse zangado com Deus, não havia ida à missa para ninguém, e o ambiente era como pedra lá em casa e a minha folga era ter ido à missa que não fui.

Também me lembro que havia uma porta lá na casa que não se podia abrir nunca pois havia atras dela muitas verdades, e nenhumas ou todas com razão, não sei bem, e dizia a patroa que não me competia saber, havia apenas que manter a porta sempre fechada e não escutar radio à noite depois do terço rezado.

E lembro-me também de ler a carta que me escreveste e na qual dizias que até me conheceres, pensavas que inventavas os caminhos da tua vida, e depois aprendeste que eu era para ti tão importante que me poderias até deixar ouvir rádio, mas que eu não pensasse que te casarias comigo.

Lembro-me de te ter dito que ao amolador de facas contei um verso que tinha pensado e que ele naquele dia me disse que o verso amolava melhor do que ele aquilo que eu quisesse amolar.

Depois lembro-me de algumas das nossas primeiras vezes no carro do teu pai, e foi nesse carro que decidi que os meus versos futuros se chamariam rodas, e que precisava de ir às urgências de um hospital quando as dores de cabeça eram tão fortes que até torcia melhor os lençóis tirados da barrela.

E sim, ensinaste-me a escrever quase sem erros, e deste-me muitas uvas, e lembro-me de te perguntar se sabias quantos anos tinha a minha idade que era mais nova do que a tua.

E lembro-me que uma cigana, um dia, me leu a sina e me disse que eu seria trocada toda a vida por coisas, coisas desentendidas das coisas, e esta foi mesmo a primeira história de terror que ouvi, e que me fez apertar tanto a salsa entre os dedos que a senhora me perguntou se a tinha pisado, e disse-me que naquele mês me não pagaria porque até nem podia, mas que eu nem merecia o dinheiro.

E fui.

Lembro-me de prometer a mim mesma que não voltaria. Fugi.

Vários anos depois, esperei-te com uma carta de Goeth e um disco de vinil.

Parecia-me agora natural saber que só no meio era o enigma.

E hoje, publiquei-te numa tatuagem na minha perna direita, e lembro-me da última vez que disse «amo-te» a alguém que já não queria na minha vida, e invoquei o algoritmo,

como se ele, ignorante, 

conhecesse os instantes em que nada ainda é passado, em que tudo nasce, ou soubesse algum dia que o lúcido pecado é traçado por Deus quando na mão uma lanterna acesa,

Goeth.


Teresa Bracinha Vieira

PENSAR O FUTURO

  


Não se passa um mês sem que se verifique uma nova reunião de sábios dedicada a pensar o futuro. Esta sintaxe inusitada do verbo ‘pensar’ dá a entender que a actividade é diferente dos modos mais familiares de pensar em coisas, ou pelo menos dos modos normais de falar disso. Requererá em consequência gente especial. Trata-se na maior parte dos casos de pessoas que já fizeram na sua vida intelectual tudo o que podiam ter feito, que são reconhecidas justamente por aquilo que já não fazem, e de que muitas vezes não querem sequer ouvir falar. Estarão assim na posição perfeita para falar sobre aquilo de que ninguém, a começar por eles, pode ter qualquer ideia, e portanto para pensar o futuro.

Há uma certa sabedoria nos sábios; no que diz respeito ao futuro não se comprometerão com previsões concretas. Fazer previsões, ensinou-lhes a sua vida anterior, é sempre dificultado por acontecimentos supervenientes. Em vez de fazer previsões os sábios preferem declarar por atacado a gravidade de vários problemas graves: a fome, a desigualdade, a guerra e o clima; e também, mas em tom optimista, a possibilidade de várias soluções optimistas.

Como há várias soluções optimistas possíveis é requerido o contributo de sábios de muitas especialidades diferentes. Estão assim normalmente representadas nestas reuniões públicas, por ordem decrescente de dignidade, as neuro-coisas, as organizações internacionais, as ciências médicas, as religiões do mundo, a astrofísica e, em último lugar, o romance ou a economia. São todas especialidades muito técnicas, que requerem anos de preparação e trabalho; é assim praticamente impossível arranjar quem tenha uma ideia simultânea de todas; e só a quem não a tenha de nenhuma será possível ter de algumas. É pois precisa a cooperação do leitor médio, que, porque foi poupado a qualquer preparação, está habituado a admirar com equanimidade documentários sobre malformações genéticas, rituais religiosos, fotografias de corpos celestes, artigos sobre a desigualdade, e requisitórios contra a poluição dos riachos; e assim se explica que o tópico ‘pensar o futuro’ desperte tanto interesse no leitor médio.

A imagem de gente a pensar o futuro diante de plateias interessadas corresponde a uma tradição muito antiga: a das actividades verbais de um conjunto de pessoas que não tem nada de particular a dizer, realizadas diante de um conjunto de pessoas que nunca teriam qualquer possibilidade de perceber o que de particular alguém tivesse a dizer. A atracção das segundas pelas primeiras é tão irremediável como a atracção de espécies menores pelas nuvens de tinta emitidas por chocos em fuga. Explica ainda que o acordo quanto aos diagnósticos e aos remédios seja pronto e unânime; e que pensar o futuro seja uma tarefa relativamente fácil.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

Capela de Ronchamp de Le Corbusier © Luke Stearns
  Capela de Ronchamp de Le Corbusier © Luke Stearns

 

O Homem e o Tempo

 

Porque estamos no Advento, que deveria preparar para o Natal, fica aí uma breve reflexão sobre o ser humano e o tempo. De facto, seria tremendamente lamentável que este tempo se reduza a compras compulsivas numa sociedade de consumo materialista e, no limite, niilista e, tanto quanto se pode observar, por isso mesmo, profundamente infeliz e sem sentido.

Característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro.

Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido... Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o aqui e agora, o presente a que se segue outro presente. A salvação consiste no amor e fruição do presente... Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro...

Ora, pensando bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, nenhum ser humano pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando demos por nós, já lá estávamos, o que significa que vimos de um passado que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, nosso e dos outros, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.

Sim, é sempre no presente que vivemos, mas também não é possível a simples instalação no presente, pois só podemos viver no presente projectando-nos constantemente no futuro. Na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. O ser humano está estruturalmente voltado para o futuro, já que é constitutivamente um ser esperante.

Aqui, é necessário perguntar-se: não é a esperança filha da infelicidade e do temor? É célebre a afirmação de Espinosa: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança". O que é que isto quer dizer? Vivemos voltados para o futuro, pois somos projecto: agimos e somos, antecipando sempre. Sem esta antecipação, não poderíamos agir humanamente. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que realmente a esperança também significa que, se desejamos, é porque não temos, e isso implica que se não é feliz. E, depois, quando temos, há sempre o temor de perder o que temos, o que nos coloca em permanente inquietação...

Viver humanamente não pode, portanto, significar viver exclusivamente do futuro e para o futuro, pois viver unicamente da esperança é nunca viver, já que verdadeiramente só se vive no presente. Viver unicamente da esperança seria adiar constantemente a vida, no sentido do viver. Aliás, colocar permanentemente o presente ao serviço do futuro, vê-lo exclusivamente em função do futuro, é abrir as portas ao perigo da tirania: quantos homens e mulheres não foram de facto vítimas do sonho dos "amanhãs que cantam"?!...

É isso: querer viver exclusivamente do presente e para o presente não é humano, pois isso significaria viver na imediatidade animal, sem horizonte de futuro e transcendência. Mas, por outro lado, quem quisesse viver exclusivamente do futuro e para o futuro nunca poderia afastar a dúvida de estar apenas a lidar com as suas ilusões. Assim, a arte de viver humanamente consiste em, a partir do passado, viver com tal intensidade e dignidade o presente que se torna legítimo esperar a vida plena futura...

Nestes tempos de niilismo, com “sub-produção de transcendência”, como se queixava Ernst Bloch, o filósofo ateu-religioso da esperança, temos de voltar ao Advento a caminho do Natal.

Advento é uma palavra que vem do latim e quer dizer vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Herdeiros e sempre futurantes, face ao fim, só resta uma alternativa, que já aqui por vezes sublinhei.

Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu “L’homme nu”: "Ao Homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada."

A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra.” “E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém”. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: “Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado 29 de Novembro 2025