Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
“Fazer parte da classe certa, do grupo certo, da família certa, dos comensais certos, dos círculos certos, é muito mais do que uma mais-valia, é uma certeza de sucesso. A democratização da elite político-económica, que se esboçou desde o 25 de Abril, acabou. A elite encolheu para uma posição fetal, e está num período tão cheio de possibilidades, que sabe serem quase únicas, que não brinca em serviço” (José Pacheco Pereira).
Sem fazer generalizações excessivas e nem sempre justas, há que reconhecer tratar-se de uma observação transversal à esmagadora maioria dos países (senão mesmo a todos), com especial incidência nos mais pobres e subdesenvolvidos, incluindo territórios e povos que integram o chamado mundo desenvolvido, como Portugal.
Em qualquer caso, todos nós, portugueses, temos noção e a experiência de que é realista a análise, a começar por quem luta pelo acesso ao poder pelo poder, havendo sempre exceções, o que não é fácil num país onde perdura, mesmo em democracia, o ressurgimento de velhas forças e mentalidades como a cunha, o clientelismo, o compadrio, a partidocracia rotativista, o nepotismo, o tráfico de influências e a concussão. A que acresce, como crime e conduta mais grave, a corrupção. Mesmo sabendo que a cunha e o nepotismo não são ilegais, porque toleradas socialmente e tidas como normais, mesmo que antiéticas.
O filósofo Michael J. Sandel, defende que os bem-sucedidos devem questionar se o sucesso lhes deve ser inteiramente atribuído, ou de igual modo (ou mais) à família, ao grupo, à tribo, à comunidade, ao ensino, às circunstâncias da vida, ao país ou à sorte. E, por arrastamento e consoante o contexto, à cunha, aos conhecimentos, apelidos, ao nepotismo e outras práticas socialmente toleradas. E adianta que as elites, mesmo as meritocráticas, são altivas, arrogantes e pouco humildes, raramente se interrogando sobre os seus privilégios, havendo que desafiar essa naturalização tida como adquirida, abrindo espaço a pessoas de todas condições e furando a bolha em que vivem.
Infelizmente, após décadas de democracia, ainda há a ideia de que vivemos num sistema que obriga muitas pessoas a fazer o uso normal dos conhecimentos, da cunha, do nepotismo, do tráfico de influências e quejandos para sobreviverem, ou como um álibi para alcançarem certos fins, ouvindo-se dizer que numa sociedade onde as elites se apropriam do grosso dos recursos, não ensinar aos filhos a legitimidade de uma certa astúcia e vigarice seria privá-los de meios de subsistência.
Mas não generalizemos, também há gente que chegou, viu e venceu, subiu e prosperou com esforço e saber, sem ter nascido numa pretensa elite ou na alegada “família certa”. Ou que também tendo nela nascido, igualmente conseguiu e venceu.
A arte sensibiliza o interior de cada indivíduo, sincronizando-o com cada elemento do mundo.
“For beneath the tyranny and captivity of the mediocre culture of political dictatorships and their mechanical systems, and beneath our own commercial travellers' civilisation, there still flows the living river of human consciousness within which is concentrated in continuity the life of the kingdom of life, animals, plants, stars, the earth and the sea, the life of our ancestors, the flowing generation of men and women as they flower in their brief and often tragic beauty. And the artist is one of the vehicles of the continuity of that life; he is its guardian, and his instrument is the myth and the archetypal image, his language the symbol.” Cecil Collins (Collins 2002, 113)
O ser humano tem uma vida interior que vai para além da sua existência quotidiana, essa vida interior pode revelar-se através da prática e da experiência da criação, isto é, através da arte.
No texto ‘Art and Modern Man’, Cecil Collins revela que o ser humano tem uma existência exterior e uma existência interior, porém a existência interior para que exista, floresça e seja ativada tem de ter um espaço (um mundo e um ambiente próprio) para se desenvolver e expandir. E, de acordo, com Cecil Collins a arte é o único instrumento que pode ajudar a construir esse mundo e ser casa arquetípica - o centro de tudo aquilo que o ser humano procura. Assim, se os dois mundos (interior e exterior) viverem unidos e em comunhão dar-se-á em cada indivíduo um equilíbrio e um sentido definido e derradeiro.
A civilização atual, Collins explica, é organizada de acordo com a ordem da alta tecnologia e deixou de olhar para o mundo como se fosse um vasto poema escrito com forma e cor. Esse mundo, onde cada elemento e objeto real tinha um significado escondido, sagrado e essencial, cessou de existir no mundo de hoje. Era um mundo que quando entendido permitia fundir-se com o seu recetor por ressonância e mútua compreensão.
O domínio do conhecimento, focado simplesmente nos aspetos físicos, afasta e esvazia a vida interior do ser humano. Sendo assim, o ser humano é impedido de se aproximar e de criar uma resposta em comunhão com aquilo que o rodeia. E, por isso, vê-se obrigado a viver num estado de alienação, de esvaziamento e de escapismo constante, permitindo que cada indivíduo se transforme numa máquina sujeita a constantes pressões de eficiência e abandone o verdadeiro propósito da sua existência.
Cecil Collins acredita que os fatores e elementos mais significativos para a vida só poderão ser transmitidos e ensinados através da experiência humana e nunca através de máquinas. Numa cultura viva existe um equilíbrio entre a energia, a força, a experiência, a realidade, o sonho, a imaginação, a abstração e a sabedoria. É a comunhão e a unidade que existe entre o ser e o cosmos que traz vida e dá sentido à vida.
“Ours is the only civilization I know of in the whole history of man which has a purely exterior environment. In the metaphysical civilizations the environment was created entirely by artists so that the human spirit through the human hand was imprinted directly upon the material objects surrounding man.” Cecil Collins (Collins 2002, 107)
Collins escreve que, desde sempre, o artista é aquele que manifesta e que ativa a vida interior do ser humano. A concentração de todos os meios disponíveis num só aspeto determinado mundo pode contribuir para a sua destruição. Por isso, é preciso entender que existem diferentes níveis de conhecimento e de inteligência – cada indivíduo tem uma linguagem e uma expressão particular e irrepetível e é através de experiências diversas que se vai descobrindo e aperfeiçoando essa linguagem que revela e que pode ajudar a revelar. O artista está primeiramente interessado em criar significado através da revelação de identidade, de experiência, de lugar, de presença, isto é, através do entendimento do ser humano como um todo.
“And then secondly we understand, that the signature or form is no spirit, but the receptacle, container, or cabinet of the spirit, wherein it lies; for the signature stands in the essence, and is as a lute that liest still, and is indeed a dumb thing that is neither heard or understood; but if it be played upon, then its form is understood, in what form and tune it stands, and according to what note it is set.”, Jacob Boehme InThe Signature of all things
Collins afirma que o ser humano é um instrumento da consciência, que transporta em si o sentido da vida e que vai para além da superfície. A transformação e a revelação da consciência humana não pode ser analisada, pensada nem descrita. Pode só dar-se perante pequenas relações e sensibilidades que acontecem em resposta a vibrações que existem nas outras vidas, elementos e objetos que existem. A arte ou a capacidade de criar ajuda a sensibilizar o interior de cada indivíduo e da sua consciência, de modo a poder sincronizar-se com cada elemento (por mais insignificante que seja) do mundo e do cosmos. Para que o ser humano possa entender, estudar e conhecer um elemento do mundo, ele próprio tem de se transformar nesse elemento: “Never did eye see the sun unless it had first become sun like and never can the soul have vision of the first beauty unless itself be beautiful”, Plotinus (Collins 2002, 109)
Mas a arte (e tudo o que é criado pela mão humana) só possibilitará a comunhão, a visão e a semelhança com aquilo que existe, se for a realização da essência daquilo que existe. E será um instrumento da natureza interior do ser humano se permitir a manifestação, por meio da matéria, da sua essência e da essência do mundo - de modo que o cosmos possa estabelecer relações profundas, próximas e sincronizadas com a vida.
Por sua vez, o ser humano ao permitir que a sua consciência seja transformada e tocada através da arte, torna-se mais sensível a qualquer pormenor e vibração e assim haverá uma ligação mais profunda com cada elemento do mundo.
Collins escreve que o ser humano deve contactar com o seu centro pois assim entrará em comunhão com o centro do universo – e só assim deixará de ser prisioneiro de um mundo vazio e superficial. O centro do universo transporta o sentido da vida e a nostalgia do paraíso perdido (já mencionado entre as comunidades primitivas, cujo drama e energia flui no sentido de fazer parte do mundo arquetípico).
Ao artista cabe então refletir sobre aquilo que dá sentido à vida. A arte ajuda a reativar o verdadeiro eu eterno do ser humano. Arte, para Collins, é assim uma interpenetração de mundos, é um encontro entre o que se conhece e o desconhecido – o desconhecido refresca a vida humana, pois sem esta dimensão cada ser crescerá estéril e mortal.
Por isso, Collins fala da importância do artista em usar a linguagem dos símbolos, a linguagem das formas originais. Os símbolos existem não para responder a questões, nem resolver soluções. Os símbolos são vestígios, são formações e transformações dos diversos modos de ser. Um símbolo é um contentor, é uma imagem de contemplação e de participação. É um veículo e um meio. É uma imagem pronta a receber. Estados profundos do ser humano podem ser espelhados num símbolo: “In contemplation all these symbols have to be returned to our being and dipped into its profound depths and thus be reborn again.”, Cecil Collins (Collins 2002, 113)
Collins termina com a ideia de que a arte é a entrada para aquilo que mais importa – não só para o artista que cria e que aprende a ver mas também para aquele que perante a arte se transforma. A vida interior do ser humano deve manter-se viva e transmitida pois essa é a verdadeira fonte da vida e do propósito humano e a arte é o único veículo que pode salvar perante o abismo.
“The modern technological world has the real possibility of poisoning in us those inner instruments by which we contact the very source of life…”, Cecil Collins (Collins 2002, 114)
Aparentemente, não há nada para o homem que ele tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de optar entre a segurança — intelectual, espiritual, psicológica, social, económica, política, religiosa — e a liberdade, não se sabe quantos ficariam do lado desta e não daquela, do lado da liberdade e não da segurança.
Fiódor Dostoiévski disse-o de modo ácido e também sublime num texto em que também se critica com justiça a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no poema de Ivan com o nome "O Grande Inquisidor". A história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos terríveis da Inquisição, precisamente no dia a seguir a um "magnificente auto-de-fé" em que foram queimados de uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais e das damas mais encantadoras da corte e da numerosa população de Sevilha, quase uma centena de hereges. Cristo "apareceu, devagarinho, sem querer dar nas vistas e... coisa estranha, toda a gente O reconhece." Mas o cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas O prendam. E é num calabouço do Santo Ofício que lhe diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao pior dos hereges. E a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: "Quero tornar-vos livres?"
Cristo, afinal, não percebeu que "o homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade." "Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!", diz-lhe o inquisidor. "Esqueceste-Te de que a tranquilidade e até a morte são mais queridas para o homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada mais torturante." Assim, ao longo de quinze séculos, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora, todos sabem em que é que hão-de acreditar e o que é que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. "E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava."
Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho cardeal vai até à porta, abre-a e diz: "Vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"
O homem angustia-se com a liberdade. Porque ser livre quer dizer ser senhor de si e dos seus actos e ter de escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos outros. Ter de escolher é para o ser humano, que quer tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e um caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras possibilidades, sem poder ficar com tudo, na consciência disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um projecto e poder falhar e, num tempo irreversível, que inexoravelmente caminha para a morte, nunca mais ter tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa e um ser si mesmo outro: é tudo sempre pela primeira e última vez, sem ensaios...
A angústia da liberdade e da responsabilidade e a busca falaz da segurança explicam a facilidade da entrega a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de corpos e de almas, a vendedores de "verdades e certezas" tapadas e irracionais.
A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas até do ponto de vista das raízes etimológicas gregas — ethos com épsilon e ethos com eta, que significam, respectivamente, acção, costume, modo habitual de agir, e toca do animal, morada, casa — se diz que a questão ética é indissociável da pergunta pela nossa morada enquanto horizonte de sentido, pátria onde se quer habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente situação de hecatombe político-moral num mundo enlouquecido, para onde vamos sem uma conversão ética?
Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos, o homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto a possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até tem a capacidade de não escolher, mas quem tenta escolher não escolher também escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si mesmo acima dos apetites, do simplesmente agradável ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende os interesses particulares da natureza e enquanto ser racional dá a si mesmo de modo autónomo a lei moral universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes termos: "Age segundo uma máxima que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei universal de acção", ou então: "Trata a humanidade em ti e nos outros sempre como fim e nunca como simples meio." As coisas são meios e, por isso, têm um preço. O ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.
Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a condição de possibilidade da moralidade e, consequentemente, da responsabilidade (responder pelo que se faz ou não e como se faz) —, o homem não seria digno de louvor nem estaria sujeito à censura, e não haveria distinção entre o bem e o mal. Como escreveu o filósofo Luc Ferry, que foi Ministro da Educação da França, "um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a uma 'etologia', sem nunca falar de moral a não ser como uma ilusão mais ou menos necessária, fazendo parte do real mas, sem embargo, enganadora". Embora condicionado, só porque não é completamente subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano "pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)".
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 10 de Janeiro de 2026
“Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar” (ed. António Ramos, 1980) é ainda hoje um dos testemunhos mais importantes sobre a vida do grande pintor, no momento em que assinalamos o centenário do seu nascimento.
O diálogo entre as duas personalidades demonstra bem a importância que o artista desempenha na cultura portuguesa contemporânea. Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, demonstrando desde muito cedo um excecional talento. A sua primeira exposição individual foi no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar resultou em quatro meses de prisão, bem como a apreensão de um dos seus quadros pela polícia e a ocultação dos frescos, que havia realizado no Cinema Batalha, no Porto. Em 1963 instalou-se em Paris, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966. Nunca abandonou, porém, definitivamente Paris, mantendo uma relação de vida e de trabalho entre a capital francesa e Lisboa até ao fim da vida, em maio de 2018, na cidade portuguesa.
Com uma obra notável que se prolongou por oito décadas, destaca-se a sua participação na II Bienal de São Paulo (1953), e salientansdo-se as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965), e a participação numa mostra dedicada à pintura de Ingres, Le Bain Turc, no Museu do Louvre (1971), assim como as mostras «L’Espace d’Eros» (Galerie de la 2, Bruxelas, 1978), «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979), «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982), «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, instituição que, em 1978, promovera a sua primeira exposição retrospetiva). Na Estação do Alto dos Moinhos, Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros correspondem a uma homenagem sentida do pintor aos quatro maiores poetas da língua portuguesa, pondo em paralelo a criatividade do pintor e a originalidade da palavra poética. Por outro lado, temos ainda outras importantes mostras, como: «Pomar – Autobiografia» (Sintra Museu de Arte Moderna, 2003), «Júlio Pomar: Cadeia da Relação» (Museu de Serralves, 2008) ou «Júlio Pomar. Atirar a Albarda ao Ar» (Galeria 111 e Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, 2012).
Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas, assemblagens – inscrevendo na História da Arte obras tão importantes como O Almoço do Trolha (1946-50), Gadanheiro (1947), Varina Comendo Melancia (1949), Marcha (1946), Abriliberdade (1974), Navio Negreiro (2005-2012). A obra pública de Júlio Pomar inclui ainda os emblemáticos painéis cerâmicos da Avenida Infante Santo e do Campo Grande, a referida estação do metropolitano Alto dos Moinhos, em Lisboa, e outras intervenções artísticas realizadas em diversas cidades. Sente-se sempre, nos diferentes ciclos da sua obra, uma preocupação de se ligar à rua e aos cidadãos comuns, representando o pulsar concreto da vida humana.
Em 1990, o Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que passou a constituir uma referência na representação daquela grande referência do pensamento europeu.
No ano seguinte, Pomar pintou o retrato oficial do Presidente Mário Soares, que hoje se encontra no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém: obra emblemática, irreverente e incontornável pela forma como desconstruiu o protocolo das representações oficiais, ligando-se à orientação moderna e iconoclasta que encontramos nas representações feitas por Columbano Bordalo Pinheiro de Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes.
Com afirmou: “o esforço pode representar um prazer. A relação do dentro com o fora, o estar bem, o tirar prazer de, não é uma coisa que aconteça sozinha. É uma coisa que se procura e encontra, ou não. Esta é uma incomodidade de todos os dias, uma batalha”. Pode dizer-se que com esta afirmação, Pomar define-se. E nessa preocupação, o artista está de sobreaviso: “A realidade das pessoas é muitas vezes isso mesmo: determinarem-se a coisas para as quais não estão vocacionadas e que lhes liquida o gosto que podem ter em viver”. A atenção ao tempo e ao mundo exige, assim, a capacidade de resistência que permita entrar na batalha em plenitude. Por isso insistia ter feito durante a vida fundamentalmente o que lhe dava prazer.
Quando observamos o caminho seguido por Júlio Pomar ao longo da sua vida compreendemos, assim, uma recusa sistemática da facilidade. Desenhador exímio, talento de eleição, procurou sempre contrariar uma tendência natural, correndo o risco permanente de tentar a aventura das novas tendências, olhando com sentido crítico a realidade social e cultural que o cercava. Neste sentido, quando vemos “O Almoço do Trolha”, apercebemo-nos que há uma aguda compreensão das condições económicas e sociais e das injustiças. Tudo isso está implícito na obra e na sua mensagem. Há inconformismo, desassossego e consciência de que o artista não podia estar indiferente relativamente à ausência de liberdade. Nesse sentido, Pomar soube correr o risco de não se encerrar numa escola ou numa orientação. O neorrealismo e surrealismo encontravam-se, não como espaços dogmáticos, mas como apelos à inovação, às experiências libertadoras, ao poder ser iconoclasta. Nesse sentido, o pintor corre riscos, constrói e desconstrói, numa demanda persistente de uma linguagem própria e de um carácter marcante. “Varina Comendo Melancia” representa uma obra transição, com um misto de realidade e ironia, não menos crítico do que anteriormente, mas mais inesperado. Os autorretratos irónicos, o diálogo com a literatura, o retrato de Mário Soares – tudo isso representa a preocupação de recusa do esperável e a denúncia da acomodação ou da facilidade. Júlio Pomar pôde assim em toda a sua obra tornar-se ele-próprio, inserindo-se no seu tempo, com marca inconfundível.
Quem nunca hesitou na paragem do 28 e pensou: ali vai a metáfora da minha vida. E nem por pensá-lo escapou ao açude de mandar parar tanta gente só por si. Não é possível ser feliz com tanta correspondência e entre nós que vamos em itinerários românticos a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso para lavar a cabeça contra o pessimismo. Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo não te aflijas quando predizem a meteorologia uma estação no inferno será sempre o destino.
Who hasn’t ever hesitated at the 28 bus stop and thought: there goes my life’s metaphor? and not even for thinking this, do you manage to escape the weir that alone stops so many people. It’s not possible to be happy with so much correspondence and between ourselves who set off on romantic itineraries the cross over the tobacconist’s is but the notice to have your hair washed against pessimism. If the little fire of being alive doesn’t cosy you up don’t fret about the weather forecast a station in hell will always be your destiny.
Deve-se a Mia Couto a frase que encima esta crónica. Quando há a tentação de fazer das diferenças muros de separação, é tempo de ouvirmos a estória do “Embondeiro que sonhava pássaros”. Filipa Leal recordou-nos isto mesmo na sua maravilhosa “Pequena Biblioteca” na terça-feira da RTP-2. No limiar de um Novo Ano de 2026 é bom lembrarmos que “só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo”. Não que recusemos o mundo em si, mas para que não esqueçamos a sua imperfeição, e a necessidade de sermos melhores. E continuamos a ouvir o escritor moçambicano a confessar-nos que sabe como fala uma árvore, “parente da árvore, do bicho e do rio”. E nesta necessidade de ouvir está a força da personagem de Tiago, a “criança sonhadeira”, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. E essas fantasias não são uma fuga à vida, mas o entendimento de pessoas como nós e daquele homem que não tinha sequer um nome, mas a quem chamavam apenas “passarinheiro” e que vivia num tronco ressequido e sábio da árvore que representava o mundo da vida.
O narrador, ao ouvir e ao interpretar o que a natureza nos oferece, enquanto realidade inesgotável, ensina-nos, não na teoria, mas na prática, na experiência e no exemplo, apenas: “posso ser triste, mas não infeliz” ou “o pessimismo é algo que devemos combater”. No entanto, a cada passo assalta-nos o estranho medo do outro e há quem nos tente convencer de que o outro é um inimigo, e não a metade de nós mesmos, onde quer que ele se situe. E ouvimos o gesto agressivo: “quem autoriza aqueles pés descalços a sujarem o barco?”. No entanto, como poderemos cultivar a indiferença? E de novo Mia põe-nos alerta: “há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. Não vale a pena desenvolver muitas teorias. Um simples conto permite-nos explicar quase tudo. “Cada homem é uma raça”, diz-nos afinal que somos todos iguais e todos diferentes. A palavra raça outrora dominadora, torna-se símbolo irrepetível de singular autonomia e de encontro, não de encerramento. Em lugar da tentação dos grupos fechados e dos privilégios, importa considerar que todos e cada um dos seres humanos são a base do respeito mútuo e da justiça. Lendo Luandino Vieira, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, Mia Couto favorece a atenção e o cuidado para com todos, na legitimidade e na universalidade do ser humano. Unimo-nos na ficção à vida inesgotável e à liberdade que permite encontrar na realidade e no sonho a essência da humanidade. E o Papa Francisco no diálogo com Javier Cercas, lembra no livro do ano, O Louco de Deus no Fim do Mundo (Porto Editora, 2025), em que o escritor acompanhou o Sumo Pontífice até à longínqua Mongólia, que são bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus, pondo a tónica na misericórdia e na dignidade universal de todos os seres humanos, independentemente de escolhas ou de privilégios.
Artífice incansável de Terra Sonâmbula, Mia Couto acompanha-nos neste juízo do ano, e permite-nos compreender, como disse um dia, que a verdadeira arma de construção maciça de que que dispomos é o ofício de pensar, que nos permite ir além do queixandar e da incapacidade de responder a quem de nós precisa… E assim poderemos falar e ouvir, uns com os outros, entendendo-nos.
O espírito da democracia, a vida e a morte, assentam em dois princípios: de igualdade e de singularidade.
Somos todos iguais no que respeita à natureza e dignidade comum do ser humano, não havendo seres humanos diferentes em matéria de dignidade e de direitos e obrigação de deveres, mas somos todos diferentes nas nossas caraterísticas pessoais, na singularidade de cada um e na diferença irredutível com todos.
Contudo, porque há desigualdade factual ou de facto (física, económica, de género, geográfica, social, etc), importa que se estabeleçam ou restabeleçam as condições e oportunidades que possibilitem a todos usufruir dos mesmos direitos e cumprir os mesmos deveres.
Sem esquecer que deve haver tratamento igual de situações iguais e tratamento desigual de situações desiguais, bem como tratamento das situações não apenas como existem, mas também como devem existir, rumo a uma verdadeira igualdade através da lei.
Esta dualidade de princípios ganha força perante a efemeridade da vida, pela inevitabilidade da morte e a não infalibilidade da democracia.
Quando a morte é iminente e a democracia precária, porque mais intensas e imediatamente sentidas, cada singularidade de vida é mais única e impagável, ao contrário do sentimento comum “de que não morremos” ou de que a democracia não está ameaçada.
O sentimento de imortalidade quotidiana é inversamente proporcional ao envelhecimento pois, com ele, o valor da vida vai-se anulando gradualmente, dado que quando somos jovens persiste a ilusão de sermos “imortais”.
Perante a precariedade da vida e a certeza da morte, vem ao de cima o princípio da igualdade, segundo o qual todos morremos e temos um destino comum, ao mesmo tempo que se afirma a singularidade de quem morre e do ser vivo que foi antes, articulando-se ambos os princípios, neles se alicerçando a génese pluralista da democracia.
Apesar de o modo normal de execução na Roma Antiga ser o estrangulamento, da tradição penal da república romana recordamos em particular a Rocha Tarpeia. A Rocha ficava em Roma, não muito longe do Capitólio, e servia para que dela se pudessem fazer despenhar vários tipos de criminoso. Os historiadores informam-nos que tinha a altura de um prédio de sete andares.
Sendo nós de um modo geral contra a pena de morte, coisas das nossas vidas e o esforço de todos os dias ter de lidar com outras pessoas dão-nos motivos frequentes para considerar as vantagens de dotar as comarcas principais de uma rocha tarpeia. As circunstâncias orográficas portuguesas são no geral admiráveis, visto que as cidades mais antigas foram quase todas construídas em cumes; algumas têm mesmo penhas: as obras de adaptação tarpeia parecem nesses casos simples e mais conducentes a tarefas de despenhamento. Lisboa, a capital, está por natureza equipada para a instalação de sete rochas; serão talvez demais para as necessidades, mas o desafogo da escolha permitiria escolher com escrúpulo a que mais conviesse a cada caso.
Os espectáculos das execuções são bárbaros e detestáveis; não passaria pela cabeça de ninguém reinstituí-los. Um método moderno seria o Passeio, conhecido por processo peripatético. O Passeio tem três fases: na primeira, convida-se o executando para dar uma volta; na segunda, conduz-se o executando para a vizinhança da rocha tarpeia da respectiva comarca, tendo sempre o cuidado de chamar a sua atenção para outros aspectos da paisagem (o restaurante japonês, uma veiga, o edifício do tribunal de trabalho), não imediatamente relacionáveis com a penha; na terceira, empurra-se.
Resta naturalmente apurar quem seriam os executandos. Mesmo a um exame perfunctório não faltariam candidatos ao Passeio. Tal abundância poderia no entanto ter repercussões internacionais e criaria problemas logísticos. Entre as alternativas ao Passeio a menos má é o método conhecido por Passeio Mental. No Passeio Mental encaminha-se mentalmente os executandos para a proximidade de uma rocha tarpeia; e depois aplica-se os passos dois e três do processo peripatético, a saber, distracção verbal e empurrão vigoroso. Tem sobre o Passeio a vantagem de poder ser repetido frequentemente, e de se poder despenhar a mesma pessoa muitas vezes, e quase com a mesma alegria.
A proporcionalidade da retribuição, como lembra utilmente Dante, requer em certos casos um castigo constante. No entanto, justamente por razões logísticas, um castigo constante só pode ser aplicado de forma prática por meios mentais; supõe assim o convite aos executandos para um passeio mental, seguido do seu despenhamento reiterado. Pode pois continuar a deixar-se aos tribunais normais e às outras instituições de reinserção social o castigo dos criminosos correntes. Para os casos principais da vida, a que aborrece o cúmulo jurídico e que as considerações de ordem prática não afectam, a Rocha Tarpeia revelar-se-ia um instituto de grande utilidade; a sua reintrodução merece ser objecto de um debate sério.
Miguel Tamen Escreve de acordo com a antiga ortografia