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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS TEATROS NA VIDA E OBRA DE TOMÁS DE MELLO BREYNER

 

Referimos hoje um livro muito recente que cita e descreve, na perspetiva histórica e biográfica, numerosos teatros da transição dos séculos XIX/XX. “Thomaz de Mello Breyner” se intitula o livro, da autoria de Margarida de Magalhães Ramalho, e o subtítulo sintetiza o muito vasto âmbito do estudo: “Relatos de uma época do Final da Monarquia ao Estado Novo”, num total de 688 páginas (ed. IV).

 

E efetivamente, a partir da biografia de Mello Breyner, deparamos com uma vasta e excelente análise histórica e cultural que também abrange a dramaturgia e o espetáculo teatral deste vasto e complexo (é o menos que se pode dizer!...) período da história e da cultura portuguesa, no que teve de bom, de menos bom e de mau.

 

Sem obviamente se entrar aqui nos aspetos histórico-políticos desta biografia, importa salientar a vasta evocação da vida cultural e teatral da época, com referências aos numerosos teatros e espetáculos que marcaram a cultura e, com os limites bem conhecidos, a sociedade portuguesa. E nesse aspeto, no que toca ao teatro e aos teatros, o livro contém e desenvolve uma vasta e muito qualificada informação, tanto de teatros-salas em si, como, em tantos e tantos casos, dos elencos e repertórios, e isto tanto em Lisboa como no resto do país – sendo certo que a concentração da vida teatral era ainda bem mais acentuada do que hoje!

 

E nesse aspeto, vale a pena referir as principais salas de espetáculo evocadas no livro: desde logo os Teatros de São Carlos e de D. Maria II, mas também o São Luís com as sucessivas designações que ao longo do período foram-lhe atribuídas: Teatro Dona Amélia, Teatro República. E também o Coliseu, o Teatro do Príncipe Real, o Teatro da Trindade, o Politeama, o Teatro do Ginásio, o Tivoli, o Teatro da Assembleia...

 

Os mais citados são o Teatro de São Carlos e o Teatro de D. Maria II. E é de ressaltar que a amizade de Thomaz de Mello Breyner com Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro vinha de muitos anos. Em 1921 Mello Breyner recebe-os na sua casa da Granja: “chegaram aqui para almoçar e cá ficaram hospedados o ator Robles Monteiro e sua mulher Amélia Rey Colaço (filha do pianista e meu amigo Alexandre Rey Colaço). À noite representaram no teatro da Assembleia a comédia Sonho de uma Noite de Verão”.

 

Diz-nos Margarida de Magalhães Ramalho, Mello Breyner não assistiu ao espetáculo. Mas cita-o: “estou triste.  Nada sei do que vai pela política do país e ainda menos pelo estrangeiro. Nem sequer leio os jornais. Só me interessam livros que tratam de ciência ou então do que se passou há muitos anos, mesmo há muitos”. (pág. 402). 

 

Voltaremos então a este livro.

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

18. A ARTE É DA HUMANIDADE

 

Se uma obra de arte vale por si e é um fim em si mesmo.
Se vale pela sua autenticidade, intemporalidade, originalidade e universalidade.
Se vale pela sua meritocracia e valor intrínseco.
Partilhando critérios de cultura pura, ausentes de consentimento e validação externa, em prejuízo de critérios de cultura para, funcionalizados por motivos partidários, políticos ou ideológicos.
Quer copiando ou imitando a vida, ultrapassando-a ou transcendendo-a.
Então a arte não é do centro, da direita ou da esquerda.
Não é, nem pode ser, propriedade da direita, da esquerda ou do centro.
Não é politicamente apropriável.
Não é um exclusivo de alguém.   
Nem monopólio de ninguém. 
É da humanidade.
Propriedade e património perene da humanidade. 
De toda a humanidade.     
Na unidade através da diversidade. 
Em que o acesso à sua fruição cultural e espiritual é um bem de todos.

 

13.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da sua rotina

 

A tentativa de ocultação do vazio e da própria morte cria um espaço de sombra no qual desejar é ser incapaz de desejo.

 

Li hoje o texto que escreveu para o DN e transcrito para o nosso blogue, de Anselmo Borges e desde já muito agradeço a Sua reflexão.

 

Curiosamente vou levando até um deserto uma especial estrela que me fala da morte desde há muito, e, que aos poucos, pela literatura e pela vida, me conduz ao discorrer sobre a razão do fundo turvo, puro ponto de negatividade, no qual, nos dias de hoje, o medo foge do medo, abraça a ignorância e uma hipotética arte de argumentação a respeito é equivalente a zero.

 

E não é de bom-tom como se afirma no texto que referi, falar da morte e do seu tabu, quando na nossa sociedade nada se sabe como se trata, o como se morre, e o tabu da morte impõe-se, já que esta também só bate à porta dos outros. Afinal o mundo que vale a pena é o do capital circulante dividido outrora por um tratado que demarcou os limites de um universo com desprezo pelos seres, separando-os, confiscando-os e desamando-se uns aos outros para que depois de torturados, após as confissões, possam perder o valor e serem eliminados. Aqui a morte?

 

Não! Aqui o seu rival.

 

Tudo se precipita como numa mise-en-âbime e surge uma parcela que simula o Todo quando a morte é um mistério, por óbvio, desconhecida dos vivos, e a fraude do desprezo por ela, inibe as condições da ideia como na caverna platónica. E lá vou com a minha especial estrela ao tal deserto no qual ainda me resta a pulsação do meu sentir pela dor dos outros que até hoje nenhuma des-razão venceu.

 

Contudo, aqui e além e muitas vezes sou espectadora dorida do irreversível e do insuperável quando a morte me alerta que me não sei despegar da minha consciência, e num cenário tão extremo volto a olhar para o tempo por viver e nele

 

«Um anão ressuscitado não é menos espantoso que um gigante, e assemelha-se mais a um gigante ressuscitado do que se lhe assemelha um gigante morto.»

                          Malraux

Enfim a morte de que falamos converge para uma disciplina de engenharia genética ou robótica para que lhe seja conferida a tarefa uniformizadora mais definitiva e assim a insensibilidade dos sentires realiza completamente o titanismo. E sim, a morte faz a triagem entre o que vale ou não a pena: a energia da minha estrela já mo fez saber.

«Para onde quer que nos voltemos, o nosso espírito não encontra senão o vazio, quando o espaço está repleto.»

                          Artaud

O abismo seduz quem se aproxima de uma partida definitiva que ainda pode ser impedida, e, se o faz, ou, se o consegue será sempre pelo poder da mercadoria ávida de enfrentar e derrubar a teia imensa do entendimento do amor pelos homens entre si; e, cada vez mais este abismo forma um novelo cego que aperta esfolando a fundo os braços da minha estrela: aquela, única, com a qual vou ao deserto desafiar a decifração da morte, e ela surpreende, se supera e exímia de tanta inocência me recorda

«(…) Na paz, os filhos enterram os pais; na guerra, os pais enterram os filhos.»

         Heródoto

         (fala Crespo)

E no confronto com a morte quando ela não é tabu, bem creio que se insinua um saber de liberdade no instante trágico e efémero dos homens, de saborearem o amor vivido sem o amparo da eternidade.

 

Afinal todos somos sem sandálias.

 

Todos somos a nossa impossibilidade ainda que viver na vulgaridade é banalizar-se como utensílio da rotina, esta é minha convicção.

 

Acresce que bem creio na clara impiedade de um mausoléu que tanto ajuda a petrificar uma vida quando qualquer coisa de dramático no peito aconteceu.

 

«Tu que no fundo dos tempos,

No Nada de uma noite,

na Não-noite, revi,

tu(…)»

       

Paul Celan

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Breve introdução acerca de William Morris.

 

'Both shores had a line of very pretty houses, low and not large, standing back a little way from the river; they were mostly built of red brick and roofed with tiles, and looked, above all, comfortable, and as if they were, so to say, alive and sympathetic with the life of the dwellers in them. There was a continuous garden in front of them, going down to the water's edge, in which the flowers were now blooming luxuriantly, and sending delicious waves of summer scent over the eddying stream. Behind the houses, I could see great trees rising, mostly planes, and looking down the water there where the reaches towards Putney almost as if they were a lake with a forest shore, so thick were the big trees...', William Morris, News from Nowhere

 

William Morris (1834-1896) desde cedo acreditou na arte como um ofício que dá sentido à vida. A arte não é uma habilidade superior nem inatingível.

 

O ideal é criar uma forma total de arte, profunda em ideias e emoções, derivada diretamente da natureza.

 

A degradação do homem e da sua vida, por causa da existência da máquina, vinda com a Revolução Industrial, sem dúvida despoletou as ideias artesanais de Morris. Ao dedicar-se ao projeto da Red House (1859), com Philip Webb, Morris estabeleceu a sua principal preocupação - a integridade estrutural ou a arquitetura total (sem dúvida influência muito importante para alguns arquitetos de final do séc. XIX, como Adolf Loos e Henry Van de Velde). O projeto da Red House traz a forte necessidade em se ser autêntico, modesto e artesanal - no modo de integrar as construções à terra, ao lugar e no emprego adequado dos materiais.

 

William Morris acreditava que para se ser humano deveria encontrar-se um verdadeiro gosto por aquilo que se faz - e encontrar contentamento no trabalho moroso, manual, minúsculo e ínfimo. Só assim será possível abandonar a produção em série e em massa. Morris estava convencido de que a perceção do capitalismo industrial separa o ser humano das suas verdadeiras aspirações, e desvia os nossos desejos para necessidades vazias e falsas. Só ao esculpir-se o gosto do público mais vasto, se deixará de consumir em demasia. 

 

Por isso William Morris, após ter terminado o projeto da Red House, organizou uma associação/oficina de artistas pré-rafaelitas, que incluia Philip Webb, Dante Gabriel Rossetti, Edward Burne-Jones e Ford Madox Brown, que projetaria e executaria peças de mobiliário, papel de parede, murais, vitrais, bordados, trabalhos em metal e em madeira. O objetivo era criar, sob encomenda, uma obra de arte total de qualidade onde se  valorizava então o trabalho demorado do artesão e onde se eliminava toda e qualquer hierarquia entre as artes. 

 

William Morris dedicava-se igualmente à literatura - na década de 1870 estudou a Islândia medieval, talvez porque esse parecia ser o lugar pelo qual ansiava e que contrastava com a realidade industrial do séc. XIX.

 

Em 1875, a oficina de Morris ficou sob seu controlo exclusivo. Morris aumentou então o número de especialidades executadas por ele próprio - além de desenhar e produzir toda uma gama de papéis de parede e cortinados também executava trabalhos de tinturaria e de tecelagem de tapetes. 

 

É muito importante referir que William Morris lutava por causas políticas e ideais socialistas. Escreveu sempre ensaios sobre temas ligados ao socialismo, à cultura e à sociedade.

 

Em 1890 publica 'News from Nowhere', onde expõe em forma de romance uma visão utópica de Londres, onde a distinção entre a cidade e campo desapareceriam. A cidade densa e compacta deixara de existir como entidade física - o Estado e o parlamento tinham desaparecido; todas as realizações de engenharia grandiosas haviam sido desmanteladas; o vento e a água eram as únicas fontes de força; as hidrovias e as estradas eram os únicos meios de transporte; o dinheiro, o crime, o castigo e a prisão deixariam de fazer sentido. A ordem social dependia apenas da livre associação de grupos familiares e o trabalho, que era livre, baseava-se na oficina associada, em que a educação era também livre. Morris ansiava por uma humanidade que viveria em presença de uma constante revelação da Verdade e dos segredos do universo, através da criação. Pois a arte consegue a ligação entre a vida e a forma, entre o essencial e o universal, entre o tempo e o espaço, entre o artificial e o natural, entre o detalhe e o todo.

 

'The spirit of the new days... was to be delight in the life of the world; intense and overweening love of the very skin and surface of the earth on which man dwells...', William Morris, 'News from Nowhere'

 

Ana Ruepp

COM O CADÁVER DA ESPERANÇA ÀS COSTAS

 

Ainda sobre os dias 1 e 2 de Novembro:

Dois dias para a morte e o sentido

 

Por mais arrogante que se seja e se padeça do complexo da omnipotência, ninguém, a não ser que pense suicidar-se antes, pode dizer: Até amanhã, se eu quiser. Dada a constituição corpórea do ser humano e a sua consciência antecipadora, toda a pessoa adulta e consciente, que reflecte, sabe, embora com um saber paradoxal, pois ninguém se pode conceber a si mesmo morto, que é mortal e que a morte é o limite inultrapassável. Ninguém rouba a morte a ninguém, cada um morrerá na sua vez. E as sabedorias ancestrais e as religiões e as filosofias lembraram sempre a cada um: “lembra-te de que és mortal”; aos generais romanos vitoriosos, na corrida para a celebração do triunfo, havia um escravo que lhes ia sussurrando ao ouvido o dito, em latim: “memento mori” (lembra-te de que és mortal); “sic transit gloria mundi” (assim passa a glória mundana): lembrava ao papa na sua coroação o mestre de cerimónias enquanto queimava uma mecha de estopa; os gregos definiam os humanos frente aos deuses, imortais, como “os mortais”.

 

A consciência da morte caracteriza o ser humano e, confrontando-o com a ameaça do nada — aquele “nunca-mais-para-sempre” neste mundo, escreveu Vladimir Jankélévitch —, revela-o a si mesmo na sua fundura ético-metafísica.  Aí, sabe que é um eu, único, enfrentando perguntas de abismo sem fundo, inevitáveis: O que sou e quem sou? O que quero e devo fazer?

 

Na consciência antecipadora da morte, cada um é dado a si mesmo como totalidade, ainda que incompleta, pois ninguém sabe o que é morrer nem o que quer dizer exactamente estar morto. De qualquer modo, nessa antecipação, a pergunta decisiva é: Qual o sentido da vida, da existência, da História, de tudo? Vamos realizando sentidos, mas, perante a morte, impõe-se a pergunta essencial, final: Qual o sentido de todos os sentidos, o Sentido último? Para quê? Porque, se tudo se afunda na morte: bem, mal, dignidade, indignidade, justiça, injustiça..., então tudo é equivalente, vale tudo o mesmo e foi tudo para nada.

 

 Mas é tão natural o homem saber da sua morte como esperar para lá dela. A pessoa é constitutivamente esperante, assim: por mais que concretize e realize da sua esperança, ela nunca está plena e adequadamente concretizada nem realizada, pois há sempre um abismo entre o desejado e o alcançado, e, por isso, sempre um mais além, de tal modo que  nenhum homem, nenhuma mulher morre satisfeito, satisfeita (de satis-factus, satis-facta: feito, feita suficientemente). Todos morrem em aberto, o que leva à conclusão de que a realização plena só pode vir de Outro, de Deus; só a religião pode garantir a esperança total. Assim, a própria Escola de Frankfurt vivia atenazada. Por exemplo, Max Horkheimer, um dos seus fundadores, por um lado,  não acreditava, mas, por outro, ansiava pelo totalmente Outro: “Sem Deus, é inútil pretender salvar um sentido incondicional. (...) A morte de Deus é também a morte da verdade eterna”. “O anelo pelo totalmente Outro é um anelo que une os homens, de tal modo que os factos atrozes, as injustiças da história passada não sejam o destino último, definitivo, das vítimas”. Por isso, pensava que a moral assenta em última instância na teologia, significando teologia “a consciência de que este mundo é um fenómeno, que não é a verdade absoluta, que não é a ultimidade. Teologia é – exprimo-me conscientemente com grande cautela – a esperança de que a injustiça que atravessa o mundo não seja a ultimidade, que não tenha a última palavra (...) expressão de um anelo de que o verdugo não triunfe sobre a vítima inocente”. Theodor Adorno, outro fundador, escreveu que “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência; a sua meta seria a ideia de uma constituição do mundo na qual não só ficasse erradicado o sofrimento existente, mas também revogado o irrevogavelmente passado”. Também Jürgen Habermas se refere a toda esta problemática, concretamente a das vítimas inocentes e da dívida da História para com elas, trazendo à colação este texto de J. Glebe-Möller: “Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos que reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos a nós também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama-a Deus”.

 

Claro que ninguém se pode gloriar, diz I. Kant, de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura: se alguém o souber, escreveu, “esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele”. Mas é razoável acreditar em Deus e esperar para lá da morte. Na sua obra Was ich glaube (O Que Eu Creio), resultado de uma série de lições, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga, a cada uma das quais  assistiram mil pessoas, pergunta, com razão, o célebre teólogo Hans Küng: ”O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!”

 

A curto, a médio, a longo prazo todos iremos estando mortos. A nossa vida e a realidade do mundo estão em processo e a História lê-se do fim para o princípio. Só no fim se poderá saber, mas, sem Deus, nunca poderíamos sequer saber quem somos nem o que pretendia a realidade e a História, porque não estaríamos lá e tudo teria sido para nada.  Lá, no final, só há, portanto, uma alternativa.

 

Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L’homme nu: “Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada.”

 

A Bíblia, no seu último livro, Apocalipse, que quer  dizer revelação, conclui assim: “Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.”

 

É preciso relembrar esta alternativa final, concretamente neste tempo de inesperança em que, ao contrário de todas as aparências de euforia, se avança, citando um poeta galego, “com o cadáver da esperança às costas”.

 

Aqui chegados, alguém poderá objectar que a esperança no Além é alienante, porque retira força ao compromisso com a luta por um mundo mais humano no aquém. Mas, se se pensar mais fundo, é o contrário. A inesperança está a infectar a vida, porque se ama pouco. O amor autêntico quer eternidade e é o combate comprometido com um mundo mais justo, mais humano e mais feliz que reforça a esperança no Além. Como disse Immanuel  Kant de forma lapidar: “A praxis tem de ser tal que se não possa pensar que não existe um Além”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 3 NOV 2018

AO CORRER DA PENA

 

Um Ponto de Vista da Esperança

 

Sob o ponto de vista gnoseológico a Esperança apresenta-se como um estado emocional, que deseja e antecede um objeto. Que objeto? Constituído? Concreto? Real? Espiritual? A Esperança é no nosso entender, um percurso constituinte que caminha unido intrinsecamente ao Homem.

 

É tanto maior, quanto o Homem se encontra em momento de forte carência, debilitado física ou emocionalmente. Parece ser concorde a opinião de que se torna imprescindível à vida, é o catalisador da própria vida. No seu percurso pode na realidade ser um objeto físico, -um automóvel, o desejo de mudar de residência, uma viagem, necessidade de uma intervenção cirúrgica urgente, pode ser um desejo espiritual profundo, até o silêncio….Todavia no seu percurso, mais ou menos intenso, a Esperança ainda não transporta realidades mas antes espectativas futuras, realizáveis ou não mas sempre no ethos do próprio Homem.

 

O Papa emérito Bento XVI alta referência teológica, quão filosófica, na sua Encíclica Spe Salvi, referindo-se à Esperança, de forma preclara diz: Quem tem esperança, vive diversamente; foi- lhe dada uma vida nova. (2007),5.

 

Mas, a aplicação da esperança sempre relativamente ao futuro, também de outro modo não pode ser, dá ao ser Homem um futuro muito económico, porque se apresenta como facilmente renovável, substituível tornando como consequência uma vida tormentosa para este que nunca se verá totalmente satisfeito tornando a esperança contrária ao bom, e ao bem, principalmente quando o Homem se alimenta de desejos irrealistas. Mas não tenhamos receio de afirmar que esta faz avançar a economia dos estados, sem ela tudo estagnaria, entraríamos numa ataraxia perigosa, por doentia, estaríamos a adotar uma postura niilista.

 

Vejamos o que sobre esta matéria escreveu Zygmunt Bauman:”(todos os bens de consumo, incluindo os descritos como duráveis, são intercambiáveis dispensáveis; na cultura consumista-inspirada pelo consumo, e, por um curto período, alivia a dor alivia um sofrimento talvez grave; mas também pode ser uma armadilha, ao mesmo tempo que torna os eus clientes satisfeitos, “propensos a armadilhas”) a esperança é e podemos afirmar sem receio que é uma virtude! Virtude, quer seja realizável ou não, ela tem uma substância própria, uma identidade, é um corpus pleno de virtualidades que resta ao ser homem saber com o seu consciente, utilizá-la de forma inteligente de forma ética e moralmente.

 

“Sofro logo compro”: quanto mais isolado ou frustrado, mais o indivíduo tende a procurar felicidade imediata na compra.”Sucedâneo da verdadeira vida, o consumo apenas exerce a sua influência na medida em que tem a capacidade de confundir ou adormecer, de funcionar como um paliativo dos desejos frustrados do homem moderno” A.C. Grayling;  O significado das coisas. (A aplicação da Filosofia à vida) Gradiva, 2002.

 

“É o que a observação nos mostra todos os dias: compramos mais quando nos sentimos carentes; a ida às compras permite-nos preencher um vazio, reduz o mal-estar que nos persegue.”

 

<Por meio da esperança e através da Fé temos como a Graça em que nos mantemos e nos gloriamos, em que nos mantemos na própria esperança de Deus> (Romanos 5, 3-4).

 

O Homem tenta na crise da Esperança criar uma antropologia sem Deus e sem Jesus. Assim o Homem tenta ser ele mesmo o centro de toda a realidade criando, ilusoriamente, o lugar do filho do Homem. Com isto o Homem abandona o seu semelhante sem rodeios e preocupações algumas.

 

Ele bem se preocupa em estar aberto a grandes espaços de novidade e grandeza mas infringe a sua conduta ética, viola as tréguas em conflitos armados não se deixando mostrar indiferente aos conflitos da guerra e simultaneamente fazendo atos próximos da corrupção.

 

A cultura europeia parece querer com isto “uma apostasia silenciosa que vive como se Deus estivesse ausente do mundo” (João Paulo II, Eclesia in Europa, n.º 9).

 

É sempre oportuno ter presente que um momento ofensivo pode renegar a Esperança e lucidez mais o seu sentido interno. O Homem tem de ter a coragem de olhar o mal de frente e profundamente recusando os lugares comuns formando homens vigilantes.

 

A Força e a Esperança solicitam ao Ser Humano para que olhe para a Vida mas com humildade. A esperança cristã tem a sua origem na história do próprio Homem. A nossa memória abre-nos à Esperança e para o Homem comum quanto mais o Homem sofre mais se abre à procura da própria Esperança. É um abrir que vai mais além, guardando o passado no coração e com isto deixa de ser um idealismo para ser uma continuação já iniciada na infância para que comece a sentir aquilo que parece ser uma palavra de mais com as outras.

 

Ter Esperança ou ser Esperança é já de si um princípio ontológico em que o próprio Homem absorve a Esperança mais intimamente. Diz-se que “enquanto há vida há esperança”, atrevemo-nos a dizer que “enquanto há Esperança há Vida”!

 

Carlos Rosa

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de novembro de 2018.

 

Os seis ensaios que constituem a obra «As Artes do Sentido» de George Steiner (Relógio d’Água, 2017) põem-nos perante o tema do confronto e da ligação ente Humanidades e as Ciências, o que constitui questão crucial quando se fala da noção ampla de património cultural que comemoramos este ano de 2018.

 

 

MAIS DO QUE UM ACERVO DO PASSADO
O Ano Europeu do Património Cultural não celebra apenas um acervo europeu, uma identidade europeia ou um passado exclusivo. Falar de Património Cultural é falar de uma noção comum, universal, capaz de unir a humanidade e de criar condições para uma verdadeira cultura de paz, que a UNESCO tem proclamado. Estamos no centro do culto saudável das Humanidades. Este Ano Europeu situa-se na linha do que defende a Convenção de Faro, sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005). Não se está a tratar de uma identidade europeia, fechada sobre si mesma, sucedâneo de identidades nacionais. O undamental é a referência ao Património Cultural, como realidade dinâmica e humanista. Recorde-se o que diz a Convenção de Faro: «O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo» (artigo 2º, alínea a). E não esquecemos entre os objetivos deste instrumento do Conselho da Europa: “a preservação do património cultural e a sua utilização sustentável”, tendo por objetivo “o desenvolvimento humano e a qualidade de vida” (artigo 1º, alínea c), bem como a adoção das “medidas necessárias à aplicação do disposto na presente Convenção, no que se refere ao papel do património cultural na edificação de uma sociedade pacífica e democrática, bem como no processo de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural” (alínea d). É a prioridade à Cultura que está em causa, compreendendo-se esta ligada à Educação e à Ciência. Falamos do mundo da vida, das raízes, das aspirações, das atitudes e dos valores – do que recebemos e do que legamos. Eis por que razão quando Palmira foi destruída parcialmente na guerra da Síria, quando o diretor do centro arqueológico foi assassinado, ou quando qualquer parcela da humanidade e da sua cultura são atingidos é do património cultural no seu todo que está em causa. Não são os produtos do passado que devem ser repetidos – importa, sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro. E não esquecemos a lição de John Dewey quando falava da educação e da escola como realidades que pressupunham um “processo vivo”, um enriquecimento permanente pela experiência, uma sociedade aberta à inovação e à diversidade, uma democracia cooperativa. Neste sentido o cuidado do património cultural tem de ter um lugar especial na educação e na escola, na informação e na troca de saberes.

 

IDENTIDADE E PATRIMÓNIO
Longe da tentação de ver o património cultural como uma marca exclusiva ou própria de uma comunidade só, temos de estar conscientes de que as identidades e o património cultural só se enriquecem abrindo-se à diferença e à alteridade. Só assim poderemos enriquecer o que é próprio, dando-lhe dimensão humanista e universalista, em lugar da tentação uniformizadora e indiferente ou de simplificações folclóricas e de uma cultura de bricabraque. Nesse sentido, neste Ano Europeu, propus logo de início, e foi aceite, o reconhecimento da necessidade de dar às escolas, às comunidades educativas e às famílias um papel especial – de modo a lançar sementes para o futuro e como exigência de não deixar o património cultural ao abandono, compreendendo-se simultaneamente que um monumento e uma tradição que estão próximos, têm de fazer lembrar as referências culturais e patrimoniais que estão mais distantes. Por isso, os concursos que lançámos nas escolas tiveram sempre presente a escolha de um elemento próximo e de um outro exemplo europeu – de modo a entender que há uma dimensão de abertura à diversidade que não pode estar ausente, e que torna mais valiosa e aberta a nossa identidade, como fator de troca, de respeito e de enriquecimento mútuo. O património cultural tem múltiplas componentes: monumentos, museus, edifícios históricos, arquivos, referências artísticas e arqueológicas – o património material -, tradições, costumes, línguas e dialetos, romanceiros, artesanato, música e danças, relações interculturais – o património imaterial -, mas ainda o património natural, o meio ambiente, as paisagens, o património digital, e a criação contemporânea… esta enumeração abre inúmeras pistas que nos obrigam a uma especial atenção relativamente à criatividade humana.

 

ENTENDER A COMPLEXIDADE
Como tem ensinado Edgar Morin, importa compreender que a complexidade tem de ser entendida como chave do saber. Impõe-se que a informação de que dispomos se transforme em conhecimento e que o conhecimento se torne sabedoria. E que é a evolução das sociedades humanas senão uma sucessão de metamorfoses como as ciências naturais nos ensinam? Não é possível entender a importância das Humanidades sem ligar as culturas literária e científica, as artes e a matemática (como no-lo ensinou Almada Negreiros) – Sophia de Mello Breyner alertou-nos, deste modo, para que ler uma pauta de música ou distinguir um alexandrino ou uma redondilha obrigava a cuidar da numeracia. E se nos preocupamos com a relação com a natureza, temos de considerar a Ecologia, os recursos naturais em risco, as emissões poluidoras, o aquecimento global, do mesmo modo que os códigos genéticos, a ética suscitada pelo progresso científico e tecnológico como exigentes desafios para a Humanidade. E, se se fala da 4ª revolução industrial, temos de lembrar não apenas a microinformática ou as tecnologias de informação, mas também as novas fontes de energia e os progressos no domínio da saúde, como a imunologia e a evolução celular… O património cultural envolve, assim, um mundo fascinante, mas incerto e complexo. A cultura não é um luxo nem uma realidade supérflua, não é o último capítulo de um programa político, nem a cereja no cimo de um bolo – é uma prioridade absoluta e um tema transversal, que envolve a aprendizagem como fator decisivo do desenvolvimento humano, que reclama o espírito científico. A razão e os sentimentos estão intimamente associados, como nos ensina António Damásio, numa tradição antiga que encontramos desde os pré-socráticos até Montaigne ou Leibniz e à modernidade. A arte e a ciência reclamam o espírito criador e a necessidade de compreender como são incindíveis a continuidade e a inovação. A crise financeira que ainda sofremos desvalorizou a capacidade criadora e limitou-se à ilusão das economias de casino. A valorização do património cultural abre veredas atentas á dignidade humana. É a democracia que está em causa. Precisamos de instituições mediadoras nas quais os cidadãos estejam e se sintam representados, e em que participem. O património cultural liga-nos às gerações que nos antecederam e tornam-nos responsáveis pelo valor que formos capazes de criar, melhorando o que legarmos a quem nos vai suceder…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

JÁ CEM ANOS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Especial. 11 de novembro de 2018

 

A imagem do vagão no Bosque de Compiègne em que o Marechal Foch encara o General alemão Maxime Weygand, representante alemão, fica na retina. A memória dos povos é curta, mas faz-se de grandes acontecimentos e de grandes tragédias. A primeira guerra mundial, que terminou com a assinatura do armistício, há exatamente cem anos, foi um desses acontecimentos marcantes, ainda que a esperança que então existiu depressa se tenha desvanecido pelo graves erros cometidos na Conferência de Versalhes, de que resultou a humilhação dos vencidos, em especial do Império Alemão, com as consequências conhecidas. Vinte anos depois a guerra regressaria mais mortífera que nunca. Os vinte milhões de mortos registados entre 1914 e 1918 não serviram de lição. Até 1945 tivemos, na continuação, uma tremenda Guerra dos Trinta Anos. E a segunda guerra registaria mais de sessenta milhões de mortos. A História da Europa e do mundo contemporânea foi marcada por esses acontecimentos, que agora se recordam. Porém, não basta a invocação formal. A União Europeia vive momentos de perplexidade e incerteza. Quando o Presidente Macron e a Senhora May aparecem a homenagear os soldados mortos há a estranha sensação de estarmos num filme de ficção, com o Brexit em fundo a marcar uma fragmentação perigosa. Depois, há outros elementos perturbadores. O Presidente Trump é a instabilidade em pessoa, a Itália demonstra uma evidente falta de coesão, a Hungria e a Polónia agem como crianças irrequietas numa loja de porcelanas, A Rússia convence-se mal de que não é mais do que uma potência regional, capaz de perturbar o cenário mundial, mas pouco mais… A China está num compasso de espera, ciente de que se tem de preparar para uma influência global. Os fatores somam-se terrivelmente. E a Senhora Merkel? Dir-se-ia que a Europa precisa mais do que nunca da ligação efetiva entre o Eixo Franco-Alemão e a Entente Cordiale! O Reino Unido é indispensável à Europa. E se é preciso fazer um acordo para o Brexit criem-se condições para que a defesa e a segurança sejam garantidos e que o tema das fronteiras não semeie um conflito imprevisível. Nesta celebração do Armistício de 1918 lembremo-nos de tudo isto. Não basta celebrar. É preciso tirar lições!

 

As papoilas de papel ou os pequenos capacetes militares da minha infância estão bem presentes para a minha geração. Mas a memória esvai-se e o horizonte do desastre pode reaparecer… Leia-se o poema do médico canadiano que tornou a papoila símbolo da memória da guerra. John Mc Crae (1872-1918) escreveu que as papoilas cresciam nos campos da Flandres entre as cruzes dos mortos:

 

In Flanders' fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place: and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders' fields.

Take up our quarrel with the foe;
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high,
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow  
In Flanders' Fields.

 

Agostinho de Morais

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Prosseguindo na mesma linha de pensamento, ou de encadeamento de interrogações - mas noutro registo - falo-te nesta carta de uma resenha que Éric Zemmour, intelectual tenor da direita francesa, faz, em Le Figaro de 4/10/2018, ao livro de Régis Debray, figura da esquerda universal, intitulado L'Angle Mort (Éditions du Cerf, Paris, 2018). Este opúsculo, aliás, mais não é do que a reprodução de uma conferência do autor, proferida, a convite de Élie Barnavi, ex-embaixador de Israel em França, como lição inaugural do último encontro dos Rendez-vous du Bastogne War Museum, cujo tema foi, em março deste ano de 2018: Le Terrorisme: sommes nous en guerre? Traduzo alguns trechos do artigo do Zemmour:

 

   Há duas maneiras de ler a última obra de Régis Debray: ficarmos pelo que ele escreve, ou compreendermos - e adivinharmos - o que ele diz por meias palavras. Também há dois livros nesse texto: uma penetrante análise da confrontação entre djihadistas e as nossas sociedades ocidentais, através da relação - antagónica - de cada lado com a morte; e uma reflexão sobre a capacidade duma civilização - a nossa - sobreviver quando já não acredita numa vida depois da morte.

 

   Zemmour observa atentamente essa distinção diamantina, cortante, que Debray firmemente traça assim: onde nós vemos vazio, eles vêem plenitude...   ... desde que rompemos com a origem, apenas poderíamos perder o fim...   ... para que haja um paraíso prometido, é preciso que haja um paraíso perdido. Sou, como sabes, leitor fiel de Régis Debray, já várias vezes de falei do seu Dieu, un itinéraire - de que há tradução portuguesa (Deus, um itinerário, Ambar, Porto, 2002) - e lembrei que o filósofo francês faz, entre outras, a distinção entre religiões com clero e sem clero, com o propósito de demarcar as que, pela autoridade da interpretação eclesial de textos sagrados, asseguram, como a Igreja Católica, uma unidade de doutrina, em oposição às que deitam fogo à pradaria, como movimentos do fundamentalismo islâmico ou, já nos séculos XVI/XVII, do sectarismo de confissões protestantes. Sendo eu - tal como tu e tanta gente sabe - anticlerical (isto é: contra o clericalismo como regime de poder de classe) sou insuspeito quando afirmo que não pode haver serviço de igreja sem clero, o que não significa que este, como classe, tenha qualquer poder exclusivo discricionário e pouco atento à vida eclesial. Pois antes deve ser parte da organização do ministério necessário à comunidade dos crentes. Também aprecio um retrato de Debray por Zemmour: Debray é um progressista contrariado, tal como há canhotos contrariados. Ele acreditou nos amanhãs que cantam, nesses 1789 e 1917, todas essas novas alvoradas da humanidade que nos prometiam futuros radiosos, todas essas versões laicizadas do messianismo judeo-cristão. A experiência e a História sempre o desembriagaram um pouco. Mas prefiro, até por essa experiência, que iniciada na sua juventude, foi refletidamente evoluindo, a sincera descoberta ou novidades de Régis Debray: Progressismo, cientismo, socialismo. A perda do Deus futuro fez do futuro o nosso Deus...   ... Quem poderá ainda duvidar de que a pós-modernidade será cada vez mais arcaizante? Arcaico não é o que está caduco, é o enterrado que remonta à superfície em caso de crise geral, visto que o mais resistente, num indivíduo como numa coletividade, é o que nele é mais antigo.

 

   Eis palavras luminosas na busca de um sentido para a vida humana, seja no oriente ou no ocidente, no tempo circular ou no tempo escatológico. Não nos falam de uma relíquia, algo que resta ou sobrou, mas de algo vivo, alma que, no fim do percurso, se reconhece no princípio de tudo.

 

   E vamos vendo, cada vez mais, em comunidades e escolas do Islão, um número crescente de crentes que buscam na leitura dos seus textos fundamentais a visão do Deus Vivo dos vivos, já não o castigador deus dos mortos, mas o Misericordioso. Infelizmente, a nossa generalizada ocidental cultura ainda largamente reserva, no seu seio, desconfianças agrestes e fobias de outras culturas e expressões religiosas, o que muito dificulta o exercício da saída para o encontro e o diálogo, este nunca sendo possível sem um esforço de escuta atenta dos outros para se iniciar o cultivo cooperante dos campos do entendimento e da paz. Bíblia hebraica, Novo Testamento cristão, Alcorão - todos esses livros e coletâneas têm várias leituras possíveis. Se assim não fosse, talvez não tivesse havido tanta guerra religiosa, menos ainda tantos cismas que ainda hoje dividem cada confissão em diferentes igrejas, sinagogas, madraças, seitas e escolas... Parece-me, e tanto o tenho dito, que não há cultura da paz possível sem essa entreajuda cooperativa, não só das religiões, como de todos os seres humanos de boa vontade, no sentido apocalíptico da descoberta da dignidade e da misericórdia de todos e cada um, e a todos comum, em cada uma das diferentes expressões de que se reveste. Mais vale apoiarmo-nos na busca da paz do Deus misericordioso de tantos muçulmanos, do que fechar-lhes a porta do diálogo, só pelo receio ou o ódio que nos suscita o fanatismo religioso de muitos outros. Sem saída e caminho não há encontro possível.

 

   Para já, o fanatismo suicidário, por exemplo, dos que se fazem explodir para atentar contra outros, apesar da repugnante desumanidade que também é sua, pode também levar-nos a outra interrogação. Esta, igualmente assustadora, por nos confrontar com o nosso comodismo materialista - e, consequentemente, com a fraqueza relativa da nossa civilização num hipotético cenário de choque, à Samuel Huntington - deixo-ta aqui, para nossa reflexão, nas palavras de Régis Debray:

 

   Abismo negro e escancarado, o terrorismo de invocação divina merece, nos nossos países, para além de uma resposta musculada e sem hesitações, ser cada vez melhor localizado e perseguido. Mas que tal nos não faça fugir de um leal regresso sobre nós mesmos. O ato frequentemente suicidário do terrorista força-nos a pensar no que já não queremos, e até, com a ajuda da habituação, naquilo em que já não podemos pensar: o lugar da morte na nossa vida. Ou, mais precisamente, no facto de que ela já não tem esse lugar. Nunca nos saberemos explicar com esses "loucos de Deus", sem nos explicarmos com a nossa própria situação, nós que, como parece, nos tornámos sages ao ponto de já não acreditarmos em qualquer vida futura.

 

   Façamos o esforço de não confundir a árvore com a floresta e, sobretudo, de vermos primeiro as traves que nos tapam os olhos...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

DESCENTRALIZAÇÃO E MODERNIZAÇÃO: O AUDITÓRIO MUNICIPAL DE TAROUCA

 

Tivemos já ensejo de referir a relevância histórica, urbana e arquitetónica do Teatro Viriato de Viseu, cuja origem data de 1883, o que atesta uma politica de descentralização cultural, mas que não evitou, note-se bem, o encerramento e desativação durante décadas do edifício, até ter sido recuperado e devidamente restaurado e reinaugurado pela Câmara Municipal cerca de um século decorrido.

 

E também referimos o Teatro Ribeiro Conceição de Lamego: mas trata-se, como aqui se recorda, de uma situação muito diversa da que hoje nos ocupa, pois a fachada data de 1727 e foi construída para albergar o Hospital da Misericórdia. Em 1897 o interior é destruído por um incêndio, e a fachada mantem-se em  ruinas até que se iniciam obras em 1924 para instalação de um cineteatro, inaugurado 5 anos depois.

 

Nada que tenha a ver com o que hoje nos ocupa, tirando a proximidade geocultural...

 

Com efeito, na mesma zona e contrariando assim ainda mais a tendência centralizadora da infraestrutura teatral, descrevemos agora o chamado Auditório Municipal Adácio Pestana de Tarouca. E desde já se salientam dois aspetos: por um lado, a evocação de um nome referencial da arte contemporânea de espetáculo; e por outro lado, a própria renovação e modernização urbana e arquitetónica inerente a um centro cultural.

 

Trata-se efetivamente de um edifício relevante na sua estrutura devidamente programada para a abrangência de público, com lotação de cerca de 200 lugares. Mas mais relevante ainda será a iniciativa e vocação municipal, exemplo assinalável pela arquitetura austera dominada pelo auditório.

 

E relevante será principalmente, a evocação da obra e da memória de Adácio Pestana (1925 - 2004), que tivemos o gosto de conhecer, ambos professores do Conservatório Nacional - Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, função que Adácio exerceu com grande qualidade até à sua morte. A Escola funcionou de facto durante muitos anos junto do Conservatório Nacional, e Adácio integrava o corpo docente.

 

Não é este, bem sabemos, caso isolado de consagração de uma individualidade contemporânea na designação de um teatro. Mas aqui, destaca-se a própria abrangência e consagração de uma personalidade cuja memória dessa forma ainda mais se conserva.

 

DUARTE IVO CRUZ