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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

 

(III) SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

 

Na cristandade talvez não haja outro santo mais popular. Se é preciso encontrar algo perdido temos um responso, se queremos uma boa noiva recorremos à sua misericórdia. E o nosso Padre Vieira perguntou um dia que se deveria fazer à terra que não se deixa salgar. E falou da galharda e gloriosa decisão que nenhum outro santo tomaria de falar aos peixes para que os homens avessos se deixassem convencer. Fernando Martins, também conhecido como Fernando de Bulhões, nasceu em Lisboa, onde iniciou a sua formação com os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Convento de S. Vicente de Fora, partindo depois para Santa Cruz de Coimbra. Fazia-se sentir a decisiva influência do primeiro Prior, S. Teotónio, braço direito do nosso conhecido primeiro rei. O prestígio académico de Coimbra precedeu, assim, o Estudo Geral, podendo dizer-se que a sabedoria reconhecida ao futuro santo português demonstra a grande qualidade do ensino ministrado. Está bem presente a Regra de Santo Agostinho e os seus princípios: obediência, humildade e caridade. E Fernando aproxima-se da força inovadora das novas ordens mendicantes, através de uma mística centrada na pobreza, o que o levará de Santa Cruz até ao eremitério dos Olivais, ainda em Coimbra, sob a influência do «Poverello» e da memória dos mártires de Marrocos, adotando o nome de Santo Antão. E assim encontramos a vasta cultura agostiniana transmutada no ideal franciscano, o que leva frei António até Itália. Quando S. Francisco de Assis conhece o português apercebe-se do seu carisma e da solidez dos seus conhecimentos e incumbe-o do ensino da Teologia aos frades menores. Daí os textos impregnados de citações bíblicas e de um conhecimento exaustivo das Escrituras mercê de uma memória prodigiosa e invulgar. E a lista de autores confirma a solidez da fundamentação: Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Hugo, Ricardo de S. Vítor, além de Orígenes e Gregório de Nissa. É a edificação das Almas que está em causa, destacam-se o sentido da humildade, a discrição, a sublevação e a alienação, bem como o tema do voo da alma, a transmutação dos sentidos espirituais, o significado do «oculus cordis» (o olhar do coração), e sobretudo a articulação mística da nuvem, da treva e da noite, num sentido que aproxima Santo António da mística peninsular de Santa Teresa de Jesus e de S. João da Cruz. Diz-nos: «o ferreiro, assim chamado por fazer ferro, é o pregador da Santa Igreja, que fabrica armas espirituais. Tem de sentar-se junto da bigorna, que é o estudo e o exercício da Sagrada Escritura, a fim de se exercitar naquilo que prega… Também os pregadores devem primeiro exercitar-se no ar da contemplação com o desejo da felicidade celeste, para depois mais avidamente serem capazes de alimentar-se a si e aos outros com o pão da palavra de Deus». O método de Frei António surge definido: «Que alegria maior pode existir no espírito do homem do que estar diante d’Ele, pelo qual e no qual tudo o que existe verdadeiramente existe, sem o qual tudo o que parece existir nada é, e tudo o que abunda é pobreza?». Aqui encontramos a chave da originalidade franciscana – a procura da dignidade pessoal, no sentido da fraternidade, da troca de dons, da vivência espiritual da pobreza, na compreensão do outro, na procura de tudo o que a irmã Natureza tem para nos dar… Mas os Sermões de Santo António, longe da abstração, contêm um voz severa e crítica contra os falsos profetas, os hipócritas, os padres avarentos, os prepotentes, os ladrões, os luxuriosos, os bispos indignos, os monges que fazem do deserto um palácio, do claustro um castelo, da solidão uma corte real – e ainda os leigos presos de todos os vícios… Sem eufemismos, Frei António põe cada um perante as suas responsabilidades, exigindo aos cristãos que saibam dar o exemplo… 

 

GOM


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A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de agosto de 2020

Em “Manuel Amado – Pintura sem Álibi” (Fundação Arpad Szènes – Vieira da Silva, 2020) encontramos um artista que nos interroga sobre a essência da Arte na relação essencial com o espaço.

 

UMA ORIENTAÇÃO INCONFUNDÍVEL
A exposição “Manuel Amado – Pintura sem Álibi” na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva integra obras da coleção Millenium – BCP e algumas de particulares, permitindo uma visão compreensiva sobre o essencial da linha criativa do artista, que há pouco nos deixou. E pode dizer-se que a independência criativa de Manuel Amado permite-nos, a um tempo, encontrar uma orientação inconfundível, mas igualmente um retrato do tempo atual, de uma sociedade fantasmática, onde a ausência de presença humana, nos remete para o essencial das formas e dos espaços. Daí o carácter paradoxal do espírito criador, que propositadamente vai ao essencial do mundo, cabendo ao pintor a capacidade de se fazer entender e de colocar na obra que apresenta ou na relação com a natureza o modo de fazer viver a arte. A Manuel Amado interessava sobretudo o espaço. Como disse em entrevista a Marta Ferreira dos Reis no Público: “Se puser uma pessoa, até pode estar sentada a ler muito quietinha, mas está parada, porque tem de estar parada na pintura. Metendo uma personagem, aquela imagem que a gente vê tem um tempo reduzido. Se não está lá ninguém, aquela imagem pode durar meia hora, uma ou duas horas, que não faz diferença nenhuma. A personagem introduziria o fator tempo, que é uma coisa que não me interessa” (2007). Ao contrário do caso de Edward Hopper, o fator tempo é expurgado nas evidências de Amado. Sentem-se influências de Chirico e Matisse, mas também uma certa demarcação de Magritte e Morandi. E segundo Mariana Pinto dos Santos, curadora da exposição, o artista “Opta pela clausura dos espaços para o exercício de outra ideia de liberdade, uma que passa pela encenação necessária da rememoração dos lugares dos afetos, aos quais não se pode regressar”. A pintura pára o tempo. E é aqui que o paradoxo se manifesta claramente. É certo que o pintor confessa a Maria João Seixas que a sua “é uma pintura sem literatura por trás. São imagens feitas de encontros e recordações, que se calhar evocam aos que olham para as minhas telas outros tantos encontros e recordações. Não há qualquer outra carga para além das coisas representadas” (Pública, 2007). Aqui está porventura um curioso engano, de que o teatro está cheio, ditado pela tensão entre a imagem e a memória. Será talvez verdade que se trata de uma pintura sem literatura por trás, contudo porque está impregnada de literatura na sua expressão mais pura e genuína. A literatura está, pois, presente essencialmente e não fora. Manuel Amado, filho de um grande homem de teatro, para quem a literatura seria sempre representação. Nesse ponto a expressão artística, qualquer que seja, confunde-se com a narrativa e com a vivência da  memória. Que é o teatro senão a literatura viva, e não algo que dissimula a narrativa? E o pintor, fascinado pela representação e pela expressão cénica, põe a narrativa não numa paráfrase mas na apresentação do próprio espaço. Não por acaso, Almada Negreiros, grande amigo de Fernando Amado, o pai, tem no teatro a melhor expressão do seu génio literário. Deste modo, a lição do diálogo presenciado pelo jovem Manuel Amado entre seu pai e Almada, em especial no Centro Nacional de Cultura e na Casa da Comédia, permite-nos entender o paradoxo que assume e a marca original da obra do artista plástico.

 

UM PACIENTE ARTESANATO
De facto, Vítor Silva Tavares tem razão ao afirmar, claramente: “Não sobeja parte de casa para confidências ou leituras paralelas: exata, nítida, esta pintura manifesta-se ao olhar em seu paciente artesanato. É o que é – o real na pintura ou a pintura sem álibi” (1984). É uma pintura sem pretextos, sem justificações. Mariana Pinto dos Santos escolheu, por isso, muito bem este título para a exposição, pondo a tónica na realidade, reconhecendo a etimologia da palavra quase policial alius ibi, outro lugar. A pintura de Manuel Amado não tem, porém, outro lugar, ela própria corresponde, em si mesma, ao que pretende representar. E o teatro está bem presente, no espaço, no cenário, no acolhimento de quem vai dialogar como se fosse na vida real, ou como é, de facto, na vida real. Se falei de paradoxo, devo ainda referir ambiguidade. Arte, teatro e vida, misturam-se. E “Manuel Amado lamentou profundamente que o pai, morto em 1967, não tivesse visto a sua pintura a não ser numa fase muito inicial, tão pouco Almada Negreiros, que elegeu o teatro e as personagens da Commedia dell’Arte como arquétipos da sua arte. E que ambos não tivessem chegado a notar a dívida que a sua arte teria ao teatro”. E não podemos esquecer, na peça de Almada Antes de Começar, Lourdes de Castro (figura histórica do Centro Nacional de Cultura) a contracenar, numa reposição, com o próprio Manuel Amado no ACARTE na Fundação Calouste Gulbenkian em 1984. E quando Amado fez a série O espetáculo vai começar, Lourdes Castro escreveu talvez uma das melhores sínteses que podemos encontrar sobre a obra do pintor, muito para além da série em causa: “Aplausos, aplausos. O Manuel voltou ao teatro. Ao mundo do teatro. Ao teatro vazio”. E o certo é que esse vazio corresponde, na expressão de Emily Dickinson, a uma “força que renova o mundo”. Eduardo Prado Coelho tinha razão ao falar de uma pintura “que ensina a repousar de todas as mensagens” e Eduardo Lourenço ao referir uma pintura sem “deus dentro”. Sempre o culto do paradoxo. As evidências revelam vitalidade e movimento. Além das invocações da Estrada da Comenda, como metáfora do caminho e da renovação, encontramos na exposição das Amoreiras exemplos da série Comboios, Estações e Apeadeiros (1986), de A Casa sobre o Mar (1992), de A Grande Cheia (1996), ou de O espetáculo vai começar (2004-2007)… A cada passo, encontramos o exercício do puro prazer da procura dos espaços. Mas, não há artista sem enigma e não há mostra sem mistério, daí a importância de uma obra que, parecendo contrariar o conjunto, não faz mais do que confirmá-lo plenamente. Falo de Homem sentado de costas (ou O meu pai sentado de costas), de 1967. Não é uma exceção, mas uma confirmação premonitória. “Metendo uma personagem, aquela imagem que a gente vê tem um tempo reduzido” – dirá o pintor. Mas neste caso, propositadamente tem todo o tempo do mundo, acaba de partir e é, por isso, a eternidade que aqui se encontra representada, numa memória jamais esquecida. Que é o teatro senão a capacidade de ir ao encontro da representação da vida tal qual é, e neste caso sem a ilusão de se confundir com outro lugar?…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


(II) AFONSO HENRIQUES

 

Depois de vistas as origens míticas de Portugal, descritas tardiamente no século XV, cinco anos depois da conquista de Ceuta e, mais tarde, durante a dinastia filipina, importa centrarmo-nos na personalidade do artífice da independência pátria. Lendo a biografia de José Mattoso de D. Afonso Henriques (c. 1110-1185), percebemos a força da sua liderança estratégica construindo o poder condal à imagem e semelhança de um verdadeiro reino. Há três datas significativas que correspondem a esse caminho: 24 de junho de 1128, a batalha de S. Mamede (a primeira tarde portuguesa); 25 de julho de 1139, a batalha de Ourique; e 5 de outubro de 1143, o Tratado de Zamora. Centrado na reconquista a Sul da Galiza, sem entrar nos conflitos de poder do Reino de Leão e das ambições teocráticas do Arcebispo Diego Gelmires de Santiago de Compostela, Afonso Henriques articula a posição dos barões portucalenses com a lógica moçárabe do condado de Coimbra e com a aliança aos municípios meridionais. Enquanto D. Teresa alimenta o sonho da influência em Leão, com a aristocracia galega, concorrendo com D. Urraca e a posição de Afonso Raimundes (futuro Afonso VII) – Afonso de Portugal, como seu pai, o Conde D. Henrique, privilegia a aposta estratégica que se revelará de sucesso: mais do que o domínio militar importaria dar estabilidade à população moçárabe em termos sociais e económicos, com os privilégios foraleiros, o que realmente aconteceu. Daí o avanço significativo para Sul e a afirmação inequívoca do poder real, em aliança com os municípios, em contraponto ao alto clero e à alta nobreza. É assim importante a afirmação cultural dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, os crúzios de Coimbra, cabendo um papel preponderante a S. Teotónio, mas também dos beneditinos, designadamente em Alcobaça, numa ação decisiva de povoamento. O caso português pode ser referenciado como pioneiro numa longa e fecunda gestação — a emancipação de D. Afonso Henriques, a fronteira de D. Dinis, a adoção do romance galaico‑português como língua oficial, a revolução de 1383-85, a afirmação do Estado moderno com D. João II, o império universal português, a decadência e a Restauração, a Regeneração liberal, o Republicanismo, a democracia… De facto, este pioneirismo fez-se a partir de um Estado que precedeu a Nação (como afirmou Herculano) — realizando-se a construção da identidade a partir do século XII, pela convergência entre a Reconquista e a decadência e fragmentação dos reinos taifas, mediada pela influência moçárabe e pela persistente ânsia de autonomia e de regeneração. A verdade, porém, é que com o andar do tempo houve interações simbólicas e materiais entre a comunidade e o Estado. Como ter afirmado Manuel Villaverde Cabral, o caso português ilustra a ideia de “meio – caminho” entre as conceções instrumental e primordial da identidade nacional. Em lugar do primado ontológico da Nação, tivemos uma interação entre o Estado e a Nação, na qual o primeiro teve um papel orientador insubstituível. José Mattoso defendeu, por isso, uma ideia que se demarca do essencialismo identitário — apesar de se interrogar sobre se não seriam já portugueses os habitantes do futuro Portugal. Sem haver uma etnia, mas sim várias (ou apenas duas), a verdade é que a identidade foi sendo moldada pelo Estado e por uma vontade — a partir de um melting-pot, do diálogo e da tensão, soberbamente abordadas por Orlando Ribeiro entre o Atlântico e o Mediterrâneo ou entre o Litoral Norte, o Interior Norte e o Sul. Em suma, Afonso Henriques não foi, contudo, apenas um chefe militar, foi um administrador, um político e um condutor de homens experimentado, que merece ser conhecido à luz da História… Só um grande medievalista, como José Mattoso, com provas dadas, poderia demonstrar, como fez, tanta segurança no uso das fontes e dos elementos relevantes disponíveis. E assim podemos contar com a superação das referências puramente míticas ou imaginárias, para passar a dispor de dados que permitem entender melhor a época em que a independência portuguesa se concretizou.

 

GOM


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EM REBUSCA DO JAPÃO VIII

  

   O japonês tem três palavras para dizer família: ie, kazoku e setai, todas elas exprimindo a ideia de corporação familiar que laços de sangue ou de adoção reúnem à volta de um património. Mas apenas ie significa sozinha a ideia de casa e de continuidade, já que, sendo a designação mais antiga de família, só por si diz casa, e esta é tradicionalmente concebida como, diríamos nós, o solar, isto é, a habitação residencial e radical da família e, em princípio, apenas através desta transmissível.

 

   Hoje em dia, a maioria das famílias japonesas (e não só) já não são como eram, muito menos como se constituíam e perpetuavam, mas a casa onde se mora continua a dizer-se ie, e a memória como culto dos antepassados vai-se mantendo com o obon, essa pausa para regresso à terra dos "maiores" e para muitas celebrações. Wenceslau de Moraes, nos anos 20 do século passado, conta no seu Relance da Alma Japonesa (Sociedade Editora Portugal-Brasil, Lisboa, 1926):

 

   No fim do estio, é a festa dos mortos, particularmente notável em Tokushima [na ilha de Shikoku, onde passou os últimos anos da sua vida], pelas danças especialíssimas que se exibem, ao terminar da festa; então, segundo a doce crendice popular, os espíritos dos mortos descem à terra, em visita ao lar familiar, onde se demoram durante um dia e uma noite; e está-se imaginando com que alvoroço respeitoso e banquetes rituais a família recebe tão distintos visitantes. No fim do outono, ao secar das folhas, jardins, parques, campos e colinas revestem-se de colorações maravilhosas, merecendo especial atenção as árvores momiji [os nossos bordos, da família das acetáceas, érables em francês, maple em inglês, cuja folha surge na bandeira do Canadá, e donde se extrai um xarope muito popular em dejejuns norte-americanos], cuja rama se ruboriza e atinge ardências fantasmagóricas, de aspetos inenarráveis... [De tal espetáculo natural tivemos memorável visão, em Kyoto, do alto do Kyomizudera, em 2010, quando com o CNC Fomos em Busca do Japão].

 

   Armando Martins Janeira (o embaixador Armando Martins) confessou por escrito que considerava Relance da Alma Japonesa o livro menos bom de Wenceslau de Moraes. Com a devida vénia, discordo do nosso embaixador que, aliás, ainda conheci em vida, e com quem longamente conversei. E discordo, explicando-me por palavras retiradas ao seu próprio Wenceslau de Moraes, obra publicada em 1971 na coleção Antologias Universais editora Portugália:

 

   Aos românticos portugueses do começo deste século e também aos de hoje, Wenceslau de Moraes traz os enlevos do exotismo, da cor oriental, do pitoresco por que tem sido exclusivamente apreciado. Porém, o verdadeiro valor de Wenceslau de Moraes não está no seu romantismo exótico, mas no seu realismo baseado sobre a observação minuciosa ao longo de muitos anos, sobre o seu profundo conhecimento do Japão e até sobre o seu populismo. Em todos esses aspetos ele é vivamente moderno e atual - entre todos os escritores que até hoje escreveram sobre o povo japonês não há nenhum que se lhe possa equiparar. Conheço excelentes livros, admiráveis monografias sobre a arte, o teatro, a economia japonesa - assuntos estes em que Wenceslau foi frequentemente bisonho e banal. Não conheço, porem, um só livro sobre o homem japonês, sobre a vida japonesa que os faça viver com tanta compreensão e vivacidade como vivem nos livros de Moraes.

 

   Este, em meu entendimento, olhou para a gente nipónica, seus costumes, suas vidas, suas crenças, sem partidarismos nem preconceitos, mas tão simplesmente com o olhar do coração, o tal que cria beleza e amor precisamente ali onde os vai buscar. Fossem quais fossem as suas limitações culturais ou intelectuais, Moraes viveu no Japão sempre em busca do Japão. Perfeitamente consciente de não ser nipónico, no Império do Sol Nascente quis habitar, quiçá movido pela intuição poética de que transforma-se o amador na coisa amada... E, em sua simplicidade, bem consciente de não ser, ele próprio, um "intelectual".

 

   As citações seguintes são dois trechos do Relance da Alma japonesa, tratando ainda do tema família, que mostram bem a candura inteligente de Wenceslau. O primeiro refere o conceito de impersonalidade no pensamento de Moraes sobre o homem japonês, que analisaremos noutro texto nosso.

 

   O indivíduo é nada, a família é tudo. A família é e foi sempre a unidade de referência, não o indivíduo. Nos velhos tempos. era sobre a família que pesavam todas as responsabilidades, não sobre um dos seus membros. Assim, se um indivíduo cometia um crime, toda a família, solidária perante as justiças do país, era punida. O trabalho manual, exigido pelo Estado e para o Estado, avaliava-se a tantas pessoas por família, cabendo a esta a missão da escolha e mais processos. O mesmo para o serviço de guerra. Umas tantas famílias formavam um grupo perante a justiça; havia um chefe para cada grupo, obrigado a comunicar aos seus superiores na administração pública todas as eventualidades, todas as alterações ocorridas no seu grupo. Os tempos vão modificando os costumes; mas ainda hoje a família tem importância decisiva em muitos casos graves...

 

   ... Vão correndo os anos, vão morrendo os velhos, vão crescendo os filhos. Os rapazes, as raparigas, frequentaram escolas, por certo. Os rapazes, aos vinte e um anos de idade, assentaram praça no exército ou na armada, serviram a pátria, recolheram depois ao lar. Empregaram-se, ganham a vida por qualquer modo. Os rapazes casam muito novos, por costume do país; o filho primogénito, futuro herdeiro, perante a família, de honras e deveres, traz a esposa para casa; os outros vão para fora, criando núcleos de famílias distintas. As raparigas também casam cedo; vão para fora, para as casas dos maridos, transitando de família para família e de deveres familiares para deveres familiares. Se porém acontece não haver filhos varões, nem próprios nem adquiridos por adoção, a filha primogénita traz o marido para casa, adotado como filho da casa e herdeiro do nome da família e dos deveres que a herança lhe atribui.

 

   A instituição da ie foi consagrada na lei japonesa, tendo aliás sido, durante a reforma jurídica trazida pela restauração Meiji, uma das causas do longo atraso na transposição do direito napoleónico para o corpo jurídico nipónico, como já expliquei em texto publicado na passada década. Para seu melhor entendimento, haverá que refletir no princípio japonês da impersonalidade, que tanto interessou Moraes, e cujo respeito paira ainda sobre as vidas, a ética e a literatura nipónicas, como a seu tempo explanarei. Mas as circunstâncias históricas, demográficas, económicas e sociais têm naturalmente evoluído e trazido novos fatores à sua prática consuetudinária e interpretação moral.

 

   Quanto à figura da família e sua instituição, por exemplo, recordo como a crescente presença das mulheres no mercado do trabalho e a divulgação de novos métodos contracetivos lhes trouxeram outra independência. Lembro-me de que, na década de 1990, assisti a muitos omiai ou reuniões (em regra em almoços ou jantares) de arranjo de casamentos, em que já não eram os patriarcas ou paterfamilias a acordar e negociar um matrimónio, mas sim familiares, patrões ou superiores hierárquicos a juntar os potenciais nubentes para que se conhecessem e fizessem a sua escolha. Era engraçado vê-los num restaurante, em muita cerimónia, acontecendo que, após a refeição e conversas introdutórias, os candidatos poderiam retirar-se para um passeio a sós, ao fim do qual comunicariam o seu propósito de continuar, ou não, aquele "negócio".

 

   Casos havia em que, para se livrarem da pressão a que eram submetidos, os "noivos" acediam a contrair matrimónio, mas entre si concordavam no o consumir ou mesmo viverem separadamente logo depois... Mesmo na província, as jovens - sobretudo as que tinham ganho a possibilidade de prosseguir estudos ou outros empregos na cidade - se recusavam a casar, pelo que as famílias chamavam raparigas de outras nações (filipinas, coreanas, tailandesas) para contrair matrimónio com os seus filhos e produzir a indispensável descendência, além do necessário trabalho doméstico...

 

   Nos tempos hodiernos, o saldo fisiológico do Japão é negativo, continuando a reduzir-se e envelhecer a população do Império do Sol Nascente.

  

Camilo Martins de Oliveira

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL


(I) HERÓIS DO MAR, QUINAS, CASTELOS…

 

Começo, lembrando o que Garrett diz quase no início das suas “Viagens na Minha Terra”, partindo numa viagem até Santarém, ao encontro do seu amigo Passos Manuel. Emblematicamente a invocação lembra que essa Viagem constitui um belo exemplo para explicar Portugal… «Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica».

 

Nas boas razões para Portugal, falemos de símbolos pátrios: “Heróis do Mar, Nobre Povo, Nação valente, Imortal”, do hino de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, escrito em 1890, nos ecos do Ultimato inglês, e o escudo português, constituído por quinas e castelos, com raiz nos nossos primeiros reis. Pode afirmar-se que a referência ao Mar é essencial. Como disse “A Menina do Mar”, a nossa terra é o mar. Se bem virmos, a razão da independência e a naturalidade dela devem-se à costa marítima – bela, agreste, difícil, mas desafiadora. E quando os pescadores, as viúvas e os órfãos da Póvoa pediam um abrigo, defendiam o seu ganha-pão, mas também a riqueza unificadora do Mar. A vontade e o mar explicam a perenidade da nossa pátria antiga. E os heróis são os que desafiam a incerteza e cultivam a aventura. O astrolábio e a vela triangular das caravelas permitiram o domínio do Atlântico. E o Infante D. Henrique foi até ao Algarve para encontrar um melhor e mais seguro ponto de partida para o Mar Oceano. Quantas vezes se pergunta: porque nasceu Portugal? Porque persiste? Porque se projeta globalmente em vontade, em língua e como nação valente?  A resposta está no carácter marítimo em complemento da continentalidade hispânica…

 

É na “Crónica de Portugal” de 1419, presumivelmente de Fernão Lopes, que surge narrado pela primeira vez o milagre fundador do aparecimento de Cristo em Ourique. Referindo uma batalha que terá tido lugar no dia de S. Tiago (25 julho) de 1139 contra vários reis "mouros", o texto dá particular atenção às vésperas do combate. É nessa altura que surge um ermitão face ao futuro rei Afonso Henriques, dizendo: "Ele manda por mim dizer que quando ouvires tanger esta campainha que em esta ermida está que tu saias fora e Ele te aparecerá no Céu...!". Depois regista-se o milagre, como o do Imperador Constantino na Batalha de Ponte Mílvia em 312: “e ele saiu-se fora da sua tenda, e, assi como ele disse e deu testemunho em sua história, viu Nosso Senhor Jesus Cristo em a Cruz pela guisa que o ermitão lhe dissera e adorou-O com grande prazer e lágrimas...". E o milagre é transposto no próprio símbolo da bandeira do futuro reino, "...por se lembrar da mercê que Deus naquele dia fizera, pôs sobre as armas brancas que ele trazia uma cruz toda azul, e pelos cinco reis que lhe Deus fizera vencer departiu a cruz em cinco escudos...”. Esta referência simbólica vai tornar-se forte no período da monarquia dual do período filipino, entre os textos de Duarte Nunes do Leão e a “Monarquia Lusitana”, matriz de um novo mito nacional. Leia-se a história alcobacense da Monarquia Lusitana, da autoria de Frei António Brandão. Este texto inicia-se com a descrição de D. Afonso Henriques, quase místico, lendo a Bíblia, nela encontrando sinais de vitória na batalha que se aproxima. Segue-se um sonho, no qual o futuro rei vê "um velho venerável", bem como a anunciada aparição do "Salvador do mundo". Acordará, depois, e, entre a realidade e o sonho, depara com o velho que lhe prenuncia o milagre. São as quinas referências desta invocação do primeiro rei em Ourique e os castelos em fundo púrpura as armas de D. Afonso III, o Bolonhês…

 

GOM

 

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UM LIVRO RECENTE COM REFERÊNCIAS TEATRAIS


Seja permitida uma nota pessoal: muito recentemente, recebemos um livro de António Braz Teixeira, intitulado “A Vida Imaginada – Textos sobre Teatro e Literatura” que, tal como o título indica, contém e desenvolve numerosas referências e citações, estudos e análises, a dramaturgos, espetáculos e edifícios que, no seu conjunto, marcam a evolução global do espetáculo no que envolve a sua própria complexidade: textos, intérpretes, espaços  e edifícios próprios ou adaptados, e público a assistir...

 

Na verdade, o teatro é espetáculo a partir de texto. E nesse aspeto, o livro de António Braz Teixeira é perfeitamente concreto, na medida em que cruza os textos com a potencialidade dos espetáculos. E transcende mesmo que episodicamente a expressão teatral propriamente dita, integrando-a no universo global da cultura.

 

E isto, numa perspetiva que dá óbvia prioridade ao teatro de autores portugueses, mas sem descurar tanto a referência a outras origens, como sobretudo a convergência cultural e histórica inerente. E isto, numa perspetiva que em si mesma transcende a cultura teatral propriamente dita, mas vai buscar a raízes histórico-culturais as fundamentações dessas convergências.

 

Sendo certo, entretanto, que a fundamentação histórica em si mesma pode justificar certas convergências. Desde logo, designadamente mas não só, no que respeita a autores de raiz histórico-cultural convergente.

 

E aí, destaca-se obviamente o teatro brasileiro e o teatro das ex-colónias africanas. Mas há que referir também estudos sobre dramaturgos e peças de origem espanhola e francesa. E não só: os exemplos vindos de outras culturas também sobressaem. E amplamente se justificam na globalização da cultura teatral.

 

Basta ver desde logo os exemplos que surgem no texto inicial, denominado “Breve Reflexão sobre a Tragédia”. Independentemente da apreciação propriamente dita, as referências abarcam Eugene O’Neill, Arthur Miller, Tennessee Williams, Edward Albee... o que não significa, note-se bem, que estas e outras tantas alusões impliquem qualquer divergência ao temário global da obra em si. E nesse aspeto, o livro é simultaneamente abrangente e coerente.

 

E no que respeita ao teatro português? Aí, a análise impõe-se como dominante, desde logo a partir de um texto iniciático, de abordagem teórica que desenvolve amplamente o historial de Gil Vicente a José Cardoso Pires, e cobrindo os grandes nomes da nossa dramaturgia.

 

Envolve ainda estudos sucessivos sobre a Renascença Portuguesa antecipando-a pelo neo-romantismo, o realismo e o simbolismo. E aí, o destaque vai para D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Manuel Laranjeira, Júlio Dantas, Teixeira Gomes e Henrique Lopes de Mendonça.

 

E segue-se, no mesmo capítulo, mais umas dezenas de dramaturgos, na perspetiva do simbolismo, do saudosismo e de outras estéticas, até à contemporaneidade.

 

Com destaque para António Patrício, Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Correia de Oliveira e Raul Brandão, entre outros mais, como José Régio, Miguel Torga, Luis Francisco Rebello, Agustina Bessa-Luís, Jaime Salazar Sampaio, Norberto Ávila...

 

E aqui e agora, só citamos os dramaturgos portugueses. Porque, insista-se, o livro abrange todo um conjunto de referências e análises a autores, obras, estilos e épocas.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LIX - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (I)

 

D. Dinis, em plena Idade Média, ao mandar plantar o pinhal de Leiria, queria matéria prima para uma marinha forte e eficaz, nomeando almirante mor do reino o genovês Manuel Pessanha, ato tido pelos historiadores como um dos seus feitos fundamentais, daí saindo madeira para as futuras viagens marítimas. Fernando Pessoa chamou-lhe “plantador de naus”. Um estratega, que para além da fundação da universidade portuguesa, decretou o uso do português nos documentos públicos, mandando traduzir obras valiosas do hebraico, árabe e outros idiomas. Nas viagens por mar não iam só os seus protagonistas, viajando consigo outros viageiros que os ultrapassavam em longevidade, como a língua, a cultura e a religião, sendo dos três o mais relevante a língua, na sua qualidade de companheira e intérprete constante dos outros dois.

 

A língua “era a companheira do Império”, na opinião de António de Nebrija, atribuindo tal função ao castelhano, ao publicar, em 1492, a sua “Grammatica Castellana”, o que pode ser extensivo à língua que os navegadores portugueses transportavam, neste caso a portuguesa.

 

No mesmo sentido se pronunciou o primeiro gramático português Fernão de Oliveira, na sua “Gramática da Linguagem Portuguesa”, em 1536, mantendo-se seguidor da linha imperialista de Nebrija, ao defender que os portugueses deviam atuar como os gregos e os romanos, que tinham assegurado a coesão do Império devido à difusão obrigatória das suas línguas. Duarte Nunes de Leão, na obra “Ortografia e Origem da Língua Portuguesa” (1576), na última quarta parte do século XVI, associando às navegações, descobrimentos e conquistas dos portugueses a difusão e utilização língua portuguesa, escrevia que ela “tão puramente se fala em muitas cidades de África que ao nosso jugo estão sujeitas, como no mesmo Portugal, e em muitas províncias da Etiópia, da Pérsia e da Índia, onde temos cidades e colónias, nos Sionitas, nos Malaios, nos Maluqueses, Léqueos, e nos Brasis, e nas muitas e grandes ilhas do Mar Oceano e tantas outras partes”. Também as gramáticas de Pero de Magalhães Gândavo (1574), Amaro Roboredo (1619) e de P. Bento Pereira (1666), desempenharam um papel crucial na fixação do nosso idioma.

 

Com a língua chegou às antigas colónias portuguesas da América, África e Ásia, toda uma matriz de cultura lusa, que iria, ao longo dos séculos, em contacto e mistura com o elemento local, criar culturas variadas e individualizadas, sem prejuízo dos seus traços de origem, que se desdobrariam posteriormente em afetos, afinidades, cooperação, permutas e conflitos.

 

Para além do poderio militar e naval dos portugueses na era de quinhentos, conhecedores, inclusive, de armas de fogo, inicialmente desconhecidas para os povos que inicialmente descobriram, colonizaram e dominaram, também o português contribuiu decisivamente como língua de conhecimento, comunicação, afirmação e unidade desses mesmos povos, com especial incidência em África e na América.

 

Numa análise dos elementos substantivos da cultura africana e indígena do Brasil, conclui-se, desde logo, serem compostas por elementos folclóricos (danças, canções e os trajes de cada região), em conjugação com uma visão peculiar do homem e da natureza, em que o plano do humano e do natural se articulam numa harmonia animista de índole ecológica.

 

Atento a natureza oral de tais culturas, pode-se dizer que o seu ponto fraco e perigo de não resistência residia predominantemente nessa mesma oralidade, operando as línguas pela palavra falada, instantânea e momentaneamente dita, ao invés da que era falada e escrita, fixa em livros, que influencia quem a fala e lê, com natural tendência para ser imitada e divulgada como uma linguagem organizada.

 

31.07.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Quem testemunhara as primícias da doença?

 

Só se sabia que alguém ao aproximar-se sentira a iminência do vigor da morte.

 

Sabe-se também que uniu as letras e dali fugiu, então, a correr, num passo aflitivo sem ideia de o parar.

 

Ante o que vira, estranhava agora, o fato de estar vivo, e ainda que de rosto no chão, a desfalecer, sabia que não tinha sido infetado, assim lhe diziam as seguras palavras antigas do conhecimento: era imune.

 

Os novos vírus enfurecidos abraçavam primeiro as cidades, antes de correrem aldeias e mundo em abraços de nó cego.

 

A área da epidemiologia esclareceu, que eles, os novos vírus, não se deixavam aprisionar e que as criaturas, nunca se moveriam mais rápidas do que eles, ou, elas mesmas, não fossem as portadoras-ninho, onde eles, de vontade, se aninhavam.

 

Intrigante achado este, o de saber que as criaturas eram em si os vírus, apesar de amáveis e muitas vezes afáveis até em extremos.

 

Deste modo, todos eram testemunhas em causa própria das primícias da doença. Todos temiam o inevitável contato consigo mesmos.

 

Machos ou fêmeas, afinal malditos cães e cadelas, uivavam, quem afinal cuidará de mim? Escravos, eunucos, quem cumprirá as nossas ordens? E assim bradavam contra vivos e mortos que se negavam a servi-los, enquanto, nos vírus deles próprios, um furor letal.

 

Às vezes, soube-se, as criaturas paravam e olhavam-se, de olhos revirados, soltos, sem noção verdadeira da extensão da catástrofe, e iniciavam uma marcha em todas as direções, ignorantes de que tinham a doença no abraço de si, e, que deles próprios, não saberiam o como do início de uma debandada.

 

Amontoavam-se os cadáveres insepultos. O pânico impunha as condições. O caos era senhor.

 

Algumas criaturas voaram nos seus próprios aviões numa fuga que incandescia de imediato e desaparecia sugada pelos buracos negros, enquanto outros ponderavam rezar, fazer quarentenas, peregrinar, e a coberto do caos, negociar a vida.

 

Esta era a doença na sua primeira erupção.

 

Foi quando se começaram a declarar casos isolados de criaturas de grau de infecciosidade mais baixo, que, enfim, se descobriu o imune, de rosto no chão, quase arrebatado de entre os mortos, e era o tal que unira as letras.

 

Inexplicável facto, este, de entre todos, imune. De entre todos, a esperança. E nunca a sua responsabilidade fora maior: assim pensou, ainda de rastos a ler no chão.

 

Mas qual o matiz da diferença? Qual o motor que nele não ignorou o dever de resistência e de interpretação? Seria esta uma desigualdade natural? Sem pertencer a grupo, e era imune?

 

E fora, afinal, o estado de conhecimento que o fizera unir as letras em completude.

 

Esta a chave do inexplicável primordial: a vacina nas cores de Sandro Botticelli, testemunhas, e afinal primícia do grande segredo que pode jorrar da humanidade. 

 

Teresa Bracinha Vieira

PAZ ENTRE AS RELIGIÕES, PAZ ENTRE AS NAÇÕES


1. A Basílica de Santa Sofia, em Constantinopla/Istambul, inaugurada pelo imperador Justiniano no século VI e dedicada a Cristo, Sabedoria de Deus, foi durante quase mil anos o maior templo cristão, impondo-se pela sua beleza e majestade. Muitos que lá entraram e contemplaram a cúpula, com 55 metros de altura e 30 de diâmetro, e o Cristo Pantocrator a olhar do alto disseram ter feito uma experiência do Céu.

A sua história tem sido atribulada. Foi realmente durante quase um milénio (537-1453) o santuário mais significativo da cristandade; a seguir ao Grande Cisma (1054), tornou-se a igreja mais importante dos cristãos ortodoxos, que os católicos, no tempo das cruzadas, conquistaram e dominaram (1204-1261); depois, durante quase 500 anos (1453-1931), tornou-se, com a conquista de Constantinopla, a mesquita “imperial” mais importante do islão, tendo Constantinopla passado a chamar-se Istambul, pois era tal o esplendor e a força de Constantinopla que não se dizia “ir a Constantinopla” mas “ir à cidade” (em grego: eis tên polín). Em 1931, depois da dissolução do império otomano,  Mustafá Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna, como sinal da laicidade do Estado, dessacralizou-a e transformou-a num “museu oferecido à Humanidade”, aberto ao público em 1935 já com os vitrais e os ícones cristãos, que tinham sido cobertos com gesso, porque o islão proíbe as imagens, e, em 1985, declarado património mundial da Humanidade pela Unesco. O actual presidente da Turquia, Recep Erdogan, decretou, no passado dia 10, que voltasse a mesquita, recomeçando a ser lugar de oração a partir de ontem, dia 24. Entretanto, o Governo turco assegurou que terá os mosaicos com imagens cristãs tapados durante as orações e que continuará aberta ao turismo, nacional e estrangeiro, com entrada gratuita (até agora, as visitas rendiam 50 milhões de euros anuais).

 

2. As reacções à reconversão em mesquita por Erdogan choveram de todo o lado. A Grécia, a Unesco, a Rússia, os Estados Unidos manifestaram inquietação. O governo grego foi dos primeiros a reagir, qualificando a decisão de “provocação ao mundo civilizado”. O Papa Francisco, logo no dia 12, na oração do Angelus, disse: “O meu pensamento vai para Istambul, penso em Santa Sofia e sinto muita dor”. É natural que os cristãos ortodoxos se exprimam de modo mais contundente, pois Santa Sofia é simbolicamente para a Igreja ortodoxa o que São Pedro é para os católicos. Assim, a Igreja da Grécia, antes ainda da reconversão, lembrou que Santa Sofia é uma “obra-prima, mundialmente reconhecida como um dos monumentos eminentes da civilização cristã. Toda a mudança provocará um vivo protesto e a frustração entre os cristãos de todo o mundo, e prejudicará a própria Turquia.” Sua Beatitude Jerónimo II, arcebispo de Atenas, qualificou a decisão de “insulto à ortodoxia, ao cristianismo em geral e a toda a pessoa sensata”, instrumentalizando a religião para conveniências partidárias, geopolíticas e geoestratégicas. A Igreja ortodoxa russa antevê que possa ter “graves consequências para toda a civilização humana”. O patriarca Cirilo de Moscovo declarou que “uma ameaça a Santa Sofia é uma ameaça ao conjunto da civilização cristã.” O Conselho Ecuménico das Igrejas, que reúne 350 Igrejas cristãs no mundo, exprimiu o seu “pesar e consternação”; para o seu secretário-geral, I. Sauca, Santa Sofia era uma bela prova da “ligação da Turquia à laicidade”. A França “deplorou” a mudança, enquanto a Unesco poderá rever o seu estatuto, considerando “lamentável” a decisão tomada “sem diálogo nem notificação prévia”.

3. Sempre que se fala em religião/religiões vem inevitavelmente à mente a declaração célebre do teólogo Hans Küng: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, sem um ethos mundial.”

Condição essencial para a paz entre as religiões e  para que haja liberdade religiosa é a laicidade do Estado, a não confundir evidentemente com laicismo. O Estado não pode ser confessional, não pode ter nenhuma religião, precisamente para garantir a liberdade religiosa de todos. Erdogan, porque está a perder poder, quer apoiar-se nos sectores mais islamistas e ultranacionalistas. De facto, como disse o turco Ohran Pamuk, Nobel da Literatura, “esta reconversão é dizer ao resto do mundo que, infelizmente, não somos um Estado laico”. Deste modo, acabou por dar um duro golpe no diálogo inter-religioso, que tem a sua prova de verdade no combate comum pela paz, pela justiça, por aquele ethos que Hans Küng refere e que está presente no documento histórico, a que aqui me referi amplamente, “A Fraternidade Humana”, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã da Universidade Al-Azhar, no Cairo. Não há dúvida de que, transformando Santa Sofia em mesquita e aliando religião e nacionalismo, Erdogan “pode criar um terreno fértil para a intolerância religiosa e a violência”, alertou a Conferência de Igrejas Europeias.

Erdogan foi perigosamente muito longe, ao celebrar, no discurso oficial em árabe —a referência não é mencionada nem na versão em turco nem em inglês —, esta reconversão como um primeiro passo de um “renascimento” islâmico, que deve ir de Bucara, no Uzbequistão, a Al Andalus, Espanha: ele “é o símbolo do regresso do sol nascente da nossa civilização islâmica”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 JUL 2020

O CHINÊS SOLITÁRIO

 

Donde saiu o chinês? Filas deles balançam carris e constroem as grandes linhas férreas que hão-de ligar Leste e Oeste. O chinês é uma multidão no cinema americano, longa fila apeada que antecede o primeiro comboio.

 

E não é! O chinês no cinema foi o “homem amarelo” de Griffith. David Wark Griffith, pai fundador do cinema, inventou o chinês no cinema, como já tinha inventado o homem negro, que pintou vicioso e insurgente em “The Birth of a Nation”.

 

Em 1919, no lírico “Broken Blossoms” que em português foi um “Lírio Quebrado”, o chinês era a corola opiácea a fechar os braços para proteger de abusos vitorianos a menina branca. A menina era Lilian Gish e Griffith desenhou-a a traços pré-rafaelitas.

 

É numa China a sépia que começa “Broken Blossoms”, uma China idílica, de chás e fumos, China contemplativa e mística. Desse fundo ronronante sai o yellow man que se arroga a missão de levar a mensagem de bondade budista aos bárbaros anglo-saxónicos.

 

Anos mais tarde, ainda não vimos Lilian Gish, reencontramo-lo num bairro sórdido de Londres, encolhido de frio à porta da sua encantada loja dos trezentos. A nuvem de ópio que o cerca ajudará, mas a verdade é que conserva a mesma gentileza nirvânica nesse rosto que Griffith pintou mais amarelo por ser o de Richard Barthelmess, actor branco que era tudo menos chinês.

 

Passaram 18 minutos de filme e da névoa azulada do rio surge Gish. O cinema mudo também tinha paciência de chinês e hão-de passar outros 18 até vermos que o homem amarelo viu Lilian Gish, a menina que não é capaz de sorrir. Ela tem uma boca de pena, uns olhos de medo. Sorri como quem chora e tem razão para isso: o pai é pugilista, bêbedo, mulherengo, e faz dela o saco de socos das suas frustrações.

 

Um dia, quase morta de pancada, foge. O corpo cansado leva-a para a loja do chinês. Nesse primeiro verdadeiro encontro deles há um bailado de olhares que se querem e se recusam. Mil preconceitos na loja dos trezentos.

 

O chinês cobre-a de sedas azuis e amarelas, lírios para os cabelos tristes de Gish. E a mão dela, sozinha, mais tolerante do que a sua tão bela cabeça de teias vitorianas, acaricia a face do homem amarelo. “What makes you so good to me, Chinky?” é o que bem vemos Gish dizer ao seu salvador. E vemos os olhos de Barthelmess, actor branco, a semicerrarem-se para serem mais chineses e gozarem a glória de estar o Oriente a abrir, em Gish, uma pequenina porta de Ocidente.

 

Mas nas ruas dessa deprimida Londres há punhos de rancor e vingança prontos a esmurrar qualquer pretensão de final feliz. “Broken Blossoms”, filme da entrada do Oriente pelas portas do Ocidente, termina em fúria e fria morte: um chinês solitário atravessa o nevoeiro ocidental com um inútil cadáver ao colo. Talvez Griffith fosse um profeta.

 

Manuel S. Fonseca