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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS GURUS DOS INTERESSES PESSOAIS

 

Teremos ajuda nas nossas necessidades se falarmos a quem as possa ajudar a eliminar, transmitindo-lhes com exatidão, quais as vantagens deles, nesse ato, já que a perseguição do interesse pessoal é a grande motivação para que tenham lugar eventuais ajudas, e apenas terão lugar essas ajudas, desde que guiadas pela maximização do interesse pessoal e não pela solidariedade, pela humanidade, pela generosidade, pela justiça, pela humanidade.

 

Mas as moscas, esta espécie de moscas infetadas que habitam o termo da história, minam ininterruptamente e de há muito, o último jardim cujos moinhos e canaviais contribuíam à distribuição das aguas de beber, e, por ali a origem fenoménica do Conhecimento enraizava-se na sua historial origem, uma origem, diria, anterior ao Pensamento ligada aos seres do porvir e do antevir que comungavam uma pululante vida, sem entropia, nem termo, nem destino inquieto, nem nirvana: apenas e bastante multiplicação de valores, de enigmas, de questionares que afinal poderiam conciliar o homem nas somas que abusam, e vão ao limite das possibilidades, e tal era sempre a nossa opção sem cansaço.

 

E os coletes amarelos e roxos e pretos e brancos, cor da súmula das cores, não surgem, parece-nos, como flores da ideia de Deus cujas emoções desamparadas no mundo os fazem acolher nos braços, essa emoção, e por ela lutarem. Diria sim, que também os coletes dos muros todos do mundo, parecem apenas ter como função equiparar preços de escravatura imperecíveis nas balanças dos gurus dos interesses pessoais, que vão admitindo existir, e bem sabem ser esse caminho da luta forte e vencedora pela eternização deste novo estar visível de há muito.

 

Mas os coletes também são sons primordiais de uma razão, de um lancinante grito que cresce apalpável na dor e na esperança.

 

Afinal estamos lançados num mundo no qual quanto mais nos debatemos mais nos enredamos na teia preparada a nos tolher; e a grande aranha ali nos deixa, ela, intocável, transparente mesmo, qual predador perfeito que apaga o caminho sem qualquer rastro.

 

E nós? Ficamos a esperar por paradoxo?

 

A economia do equilíbrio que tanto desejávamos casada com a filosofia moral se, incorreta, face ao princípio do seu comportamento por interesse pessoal, é causadora da deficiência consumada e sem retorno do pobre cada vez mais minguar e do rico medrar nicho a nicho numa existência facilitada.

 

Que eu saiba os sonhos também se aproveitam dos materiais de cada dia vivido, então pergunto: onde e como enfrento o pouco ou o nada desses dias que coincidem com os fins dos tempos? E como as sobremaneira arrogantes, ditatoriais, populistas, ignaras, são representantes do mando no mundo, mesmo que bastardas da condição humana?

 

Cada vez mais os viventes de superior razão e exemplar sentido são tratados, quanto muito, como silhuetas, e mesmo que tenham forma e dor de homens, a grande Coisa Absurda despe-os até que o senso se esvaia.

 

Depois, depois quando não se saiba já que ideia têm os outros de nós, que ideia poderíamos ter dos deuses e eles de nós, querem-nos fazer crer que é tempo de subir às arvores que existam, e, por lá deixarmo-nos cair bem fundo nos mediterrâneos do mundo, e tudo sem vergonha assumindo a irredenção da culpa.

 

Doravante as guerras e as torturas serão arbitradas entre medo e esperança devidamente codificados, sendo que poucos foram os que até aqui questionaram sequer se alguma vez tinham questionado.

 

A consciência faz-se densa e incendeia-se e descreve um círculo sobre um céu desbotado. Receia-se que ela, abutre, vagueie com algo ligado à morte ou aguarde em desmaio, um estado de rascunho perpétuo, por muito que queira acreditar nas realidades com unidade e sentido que lhe salvarão o coração de tão potentes e famintas aves negras.

*

Agora deixem-me, vou sozinha. Um qualquer inseto espera-me. Ou tenho-te a ti, no colo, na amizade dos meus joelhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

John Ruskin - Arte, Trabalho e Sociedade. (Parte 2)

 

'...go forth again to gaze upon the old cathedral front, where you have smiled so often at the fantastic ignorance of the old sculptors: examine once more those ugly goblins and formless monsters and stern statues, anatomiless and rigid; but do not mock at them, for they are signs of the life and liberty of every workman who struck the stone; a freedom of thought, and rank in scale of being, such as no laws, no charters, no charities can secure; but which it must be the first aim of all Europe at this day to regain for her children.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

John Ruskin acreditava que a catedral gótica era a representação mais completa da sociedade medieval. 

 

Para Ruskin, a arte deveria ser uma apreensão visual do universo criador. O artista era por isso, uma revelação, uma demonstração da infinita criação divina. A arquitetura tem a capacidade de revelar o espírito, a moral e tudo o que precisamos de saber sobre uma determinada sociedade.

 

A sociedade da idade média é uma sociedade cristã e o gótico é uma forma impregnadamente cristã.

 

'It is not enough that it has the Form, if it have not also the power and life. It is not enough that it has the Power, if it have not the form.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

A arquitetura gótica era muito admirada, por Ruskin, pela sua imperfeição, mistura e impureza expressiva. Aí, o trabalho manual do indivíduo estava completamente comprometido e envolvido somente com o material.

 

Para Ruskin, os elementos característicos que mais admirava  no gótico eram: a rudeza e a incorrecção; o amor pela alteração; o amor pela natureza; a imaginação confusa; a severidade e a obstinação; o excesso e a redudância; a mistura das partes e a união do todo.

 

Ora, Ruskin acreditava que o gótico era um indício da autonomia da expressão individual - mas lembrava sempre que nada era feito para satisfazer um prazer puramente pessoal, porque todos os indivíduos contríbuiam à sua maneira para uma expressividade e uma intenção muito maior, despoletado pelo amor a Deus. 

 

Na arquitetura gótica não existia um desejo de controlo, não existia  a imposição de uma ordem. O gótico era uma tentativa de trabalhar com a irregularidade e a com as capacidades especifícas de cada indivíduo e por isso com as formas mais naturais. E para Ruskin, toda a sociedade que substitui as formas naturais pelas formas áridas e  excessivamente regulares é uma sociedade que precisa de reforma. Na opinião de Ruskin, a sociedade do gótico, ao ter sérios propósitos espirituais, ansiava ser verdadeiramente ligada à natureza. 

 

A superioridade de uma civilização não pode estar relacionada com um ideal de beleza mas sim deve sobretudo transparecer o profundo espírito individual e livre que está por detrás de cada criação, por mais insignificante que seja. O artista/artesão mais verdadeiro não é uma máquina que repete com precisão os seus gestos. A sociedade mais próspera é aquela que aceita as imperfeições e as irregularidades de todos os indivíduos, sem excepção. E por isso Ruskin, pensava que a arquitetura gótica transparecia sempre o prazer de fazer, de executar e de projetar - reflectia constantemente o valor especifíco de cada espírito.

 

'You must either make a tool of the creature, or a man of him. You cannot make both. Men were not intended to work with the accuracy of tools, to be precise and perfect in all their actions. (...) If you will make a man of the working creature, you cannot make a tool. Let him but begin to imagine, to think, to try to do anything worth doing; and the engine-turned precision is lost at once.', John Ruskin In 'The Nature of Gothic'

 

Ana Ruepp

DIREITOS E DEVERES HUMANOS

 

   1. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948, em Paris: “A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objectivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito por esses direitos e liberdades, e, pela adopção de medidas progressivas de carácter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efectiva.” Nos artigos 1 e 2, lê-se: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos” e podem invocar os direitos e liberdades desta Declaração, “sem distinção alguma de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião politica ou outra, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou qualquer outra situação.” Numa vinheta de 1998, no jornal EL PAÍS, referindo-se ao preâmbulo, aparece o próprio Deus a exclamar: “Que preâmbulo! Não tinha lido nada de tão bom desde o Sermão da Montanha”.

   

   2. Lembrando os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos, retomo uma síntese de outra Declaração, infelizmente menos conhecida e invocada: a célebre Declaração Universal dos Deveres Humanos, de que há tradução em português. Para superar a crise e para que a esperança não seja mera ilusão, wishfull thinking, precisamos todos de ser fiéis às nossas responsabilidades e cumprir os nossos deveres.

 

   Já na discussão do Parlamento revolucionário de Paris sobre os direitos humanos, em 1789, se tinha visto que "direitos e deveres têm de estar vinculados", pois "a tendência para fixar-se nos direitos e esquecer os deveres" tem "consequências devastadoras".

 

   Foi assim que, em 1997 e após debates durante dez anos, o Interaction Council (Conselho Interacção) de antigos chefes de Estado e de Governo, como Maria de Lourdes Pintasilgo, V. Giscard d'Estaing, Kenneth Kaunda, Felipe González, Mikhail Gorbachev, Shimon Peres, fundado em 1983 pelo primeiro-ministro japonês Takeo Fukuda, sob a presidência do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, propôs a Declaração Universal dos Deveres Humanos. Na sua redacção, teve lugar destacado o famoso teólogo Hans Küng.

 

   O Preâmbulo sublinha que: o reconhecimento da dignidade e dos direitos iguais e inalienáveis de todos implica obrigações e deveres; a insistência exclusiva nos direitos pode acarretar conflitos, divisões e litígios intermináveis, e o desrespeito pelos deveres humanos pode levar à ilegalidade e ao caos; os problemas globais exigem soluções globais, que só podem ser alcançadas mediante ideias, valores e normas respeitados por todas as culturas e sociedades; todos têm o dever de promover uma ordem social melhor, tanto no seu país como globalmente, mas este objectivo não pode ser alcançado apenas com leis, prescrições e convenções. Nestes termos, a Assembleia Geral proclama esta Declaração, a que está subjacente "a plena aceitação da dignidade de todas as pessoas, a sua liberdade e igualdade inalienáveis, e a solidariedade de todos", seguindo-se os seus 19 artigos, de que se apresenta uma síntese.

 

   2.1. Princípios fundamentais para a humanidade. Cada um, cada uma e todos têm o dever de tratar todas as pessoas de modo humano, lutar pela dignidade e auto-estima de todos os outros, promover o bem e evitar o mal em todas as ocasiões, assumir os deveres para com cada um, cada uma e todos, para com as famílias e comunidades, raças, nações e religiões, num espírito de solidariedade: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

 

   2.2. Não violência e respeito pela vida. Todos têm o dever de respeitar a vida. Todo o cidadão e toda a autoridade pública têm o dever de agir de forma pacífica e não violenta. Todas as pessoas têm o dever de proteger o ar, a água e o solo da terra para bem dos habitantes actuais e das gerações futuras.

 

   2.3. Justiça e solidariedade. Todos têm o dever de comportar-se com integridade, honestidade e equidade. Dispondo dos meios necessários, todos têm o dever de fazer esforços sérios para vencer a pobreza, a subnutrição, a ignorância e a desigualdade, e prestar apoio aos necessitados, aos desfavorecidos, aos deficientes e às vítimas de discriminação. Todos os bens e riquezas devem ser usados de modo responsável, de acordo com a justiça e para o progresso da raça humana.

 

 2.4. Verdade e tolerância. Todos têm o dever de falar e agir com verdade. Os códigos profissionais e outros códigos de ética devem reflectir a prioridade de padrões gerais como a verdade e a justiça. A liberdade dos media acarreta o dever especial de uma informação precisa e verdadeira. Os representantes das religiões têm o dever especial de evitar manifestações de preconceito e actos de discriminação contra as pessoas de outras crenças.

 

   2.5. Respeito mútuo e companheirismo. Todos os homens e todas mulheres têm o dever de demonstrar respeito uns para com os outros e compreensão no seu relacionamento. Em todas as suas variedades culturais e religiosas, o casamento requer amor, lealdade e perdão e deve procurar garantir segurança e apoio mútuo. O planeamento familiar é um dever de todos os casais. O relacionamento entre os pais e os filhos deve reflectir o amor mútuo, o respeito, a consideração e o cuidado.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 8 DEZ 2018

MORTE E VIDA SEVERINA

 

TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO

Especial. 11 de dezembro de 2018.

 

Este fim de semana fui dar ar à pluma, que o mesmo é dizer fui com o meu MGA (temendo que o Brexit o inutilize) dar um passeio pelas estradas da Arrábida até ao Conventinho. Publico a fotografia do meu automóvel, para vos causar uma pontinha de inveja. O motor está fantástico, apesar de ser de 1955. E o verde está reluzente porque o protejo o mais que posso. Passei naturalmente pelo Portinho, onde parei junto do lugar onde conheci Sebastião da Gama e onde aprendi de cor muitos dos seus versos em honra da nossa Serra Mãe. Não choveu e pude gozar o ar fresco da manhã de sábado. Preocupei-me ao ver as imagens de Paris. Mas continuo angustiado com o que se passa no reino de Sua Majestade Sereníssima. Não faço prognósticos. Quem poderá fazê-los? O meu amigo Graham, com quem troco mensagens, também não arrisca. Acha que neste momento todos os cenários são possíveis e maus… Ele acha que a Senhora May está a ser colocada num beco sem saída. Continua a sofrer amargamente o erro monumental de Cameron… É um mal dos tempos que correm: confundir os interesses de curto prazo com a perspetiva de longo prazo. O “Prospect Magazine” publica no último número uma sondagem significativa. Cada vez mais ingleses acham que o resultado do referendo foi negativo. E mesmo aqueles que achavam que a aliança anglo-americana arranjaria as coisas, acham que o protecionismo do Senhor Trump estragou tudo… Nesta segunda semana do Advento reli ontem João Cabral e a sua “Morte e Vida Severina”. Severino debate-se com o desespero e descrê de tudo. Mas vem uma réstia de luz e de esperança – é uma vida nova que nasce. Não resisto a citar a parte final do poema, também do ano de 1955 (pura coincidência!). Lembro-me bem de quando li pela primeira vez esta obra-prima da língua portuguesa. Foi o meu saudoso amigo Padre Alberto Simões Neto que mo indicou – e um dia lemo-lo mesmo em conjunto, maravilhados com as palavras, com a estória e com a luminosidade… Severino perguntava se valia a pena a vida. Pois eu digo-vos que faz-nos bem depois do ar fresco da serra voltar a este rincão… Que o mesmo é dizer à vida que vale mesmo a pena…

 

«— De sua formosura
(fala do bebé que nasceu)
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infeciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

 

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE
QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR
PARTE DE NADA

 

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 


 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 10 a 16 de dezembro de 2018

 

Os 130 anos de Os Maias merecem ser lembrados. A exposição que a Fundação Gulbenkian organiza, com o inestimável apoio da Fundação Eça de Queiroz, pretende centrar-se na importância de um livro referencial e na promoção de uma reflexão, que leve à leitura da obra, que permita um conhecimento da mesma e que promova ainda o gosto de ler, um melhor domínio da língua e o contacto com a literatura e a História viva.

 

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REFERÊNCIA BEM PRESENTE
Não se trata de um exercício retrospetivo ou passadista, mas da consideração de uma preocupação bem presente, orientada para os cidadãos de hoje. E se há bem pouco tempo se discutiu se essa obra deveria estar no elenco dos programas escolares, o certo é que o bom senso prevaleceu, com a preocupação com os hábitos de leitura e o culto das humanidades, que não podem desaparecer da ordem do dia. A iniciativa nasceu de uma conversa despretensiosa com o meu amigo Afonso Eça de Queiroz Cabral. Havia que pôr momentaneamente Tormes, Santa Cruz do Douro, em Lisboa, para que esse roteiro extraordinário pudesse tornar-se mais conhecido – e para que a ideia dos percursos literários e das viagens com livros pudesse enraizar-se nos nossos hábitos culturais. No Ano Europeu do Património Cultural, nada melhor do que lembrar um romance como este, que constitui uma verdadeira panóplia sobre quem fomos e sobre o que não devemos esquecer criticamente sobre as nossas qualidades e defeitos, virtudes e limitações. Aí estão muitos ingredientes que nos conduzem à ideia complexa de património cultural, nas suas diversas aceções. O longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou à obra permite que haja um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender o património material e imaterial, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…

 

TUDO O QUE TENHO NO SACO
Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, de Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance – “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesse era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio é triste de desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.

 

UM ROMANCE FIEL AO AMBIENTE VIVIDO
Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo caráter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, os Gouvarinhos, Cohen, Dâmaso, Alencar, Palma Cavalão… A diversidade esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante. E a imitação é a marca. Agora, podemos contar com a presença de peças originais que vieram especialmente de Tormes, onde costumam estar expostas (como a secretária do escritor e a célebre cabaia) e que, por certo, se tornarão motivo para que o roteiro queirosiano se torne mais conhecido. É de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 
 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sobre essa agitação francesa dos coletes amarelos, li uma entrevista estimulante de reflexões sobre movimentos sociais, dada por Christophe Gilluy, geógrafo, autor de um livro com certa fama popular (La France périphérique - Comment on a sacrifié les classes populaires, Champs, Flammarion, 2015) ao semanário La Vie, de 22 deste novembro. A lembrança de outros títulos do mesmo autor diz-nos bem o campo sobre que se vem debruçando: Fractures françaises (2013), Le Crépuscule de la France d´en haut (2016) ou ainda, já em setembro deste ano, No Society, uma análise que se estende às periferias norte americanas e britânicas e nos vai falando do apagamento das classes médias no Ocidente. E dos seus ressentimentos, como dos seus "cantos do cisne". Visita movimentos populistas (bonnets rouges, gilets jaunes e Le Pen, em França), o epifenómeno Trump, o confuso Brexit, e encontra-lhes um denominador comum: É a antiga classe média maioritária, correspondendo por via de consequência a uma geografia, a uma relegação para a periferia. E, hoje, toda a contestação, o famoso «voto populista», em França e alhures na Europa, provém dos territórios economicamente menos dinâmicos. Na ocorrência, das categorias populares - operários, empregados, independentes, etc. - , que já não se sentem integrados económica, política e culturalmente. Ao contrário do que dantes sucedia com a classe média. É consequência da recomposição económica dos territórios e, portanto, da metropolização e do modelo económico mundializado.

 

   Noutro passo da entrevista, Guilluy explica esse processo: Dantes, o facto de pertencer à classe média implicava a ideia de ascensão social para o próprio e seus filhos. Hoje, as lógicas económicas e imobiliárias fazem com que essas categorias sociais já não possam morar onde são criados empregos. O que nos conduz aos trabalhos do economista Thomas Piketty sobre a desigualdade no cerne do modelo económico hodierno. A isso chamo o grande choque cultural no Ocidente. Pela primeira vez na História, as categorias populares já não vivem onde se cria emprego.

 

   Repara, Princesa de mim, em que estas afirmações não são especulativas, nem sequer hipotéticas, mas resultam de trabalho no terreno geográfico e da observação sociológica das populações que o habitam. Tal realismo no estudo do que eu seria tentado a chamar sufocos sociais devia alertar-nos, quer para a gravidade crescente das situações criadas, quer para a necessidade de uma achega autenticamente democrática à edificação de sociedades político-económicas mais justas, mais equitativas, integradoras de todos em cidadanias portadoras de valores humanistas. O que mundialmente se vai apelidando de fenómeno populista é, na realidade, o quase desespero de povos órfãos, e o recurso emotivo a salvadores imaginários, onde se disfarçam os oportunistas prenunciadores do advento de ditaduras ou de catástrofes, mais provável sendo que tragam ambas. Aliás, mesmo antes desses aproveitadores, a indignação popular pode ser, e é, explorada por gente sem rumo e sem tino, grupúsculos de mentecaptos da raiva ou da embriaguez do protesto. Infelizmente, na voragem da atual "informação social" - mediática ou em rede - surgem sobretudo as imagens mais chocantes (as cenas de violência e vandalismo, o teatro "político"), para satisfazer o apetite delirante das turbas por "fitas" coloridas e barulhentas e "dramas sanguinários", em prejuízo da necessária, essa sim, observação e análise das ocorrências, com a consequente localização das suas motivações próximas e causas remotas. Basta pararmos um pouco e cuidarmos no que nos dizem estudiosos como Guilluy, para nos apercebermos de que os problemas que se têm agudizado são muito mais graves e complexos do que as suas manifestações. Não só resultam de processos iniciados há décadas e desenrolados por tempo suficientemente longo para já não termos bem presentes algumas das suas circunstâncias e condicionantes, como nem sempre será fácil, ou cómodo, precisar quem foram os seus agentes principais, e muito menos identificá-los...

 

   [Permite-me ainda, Princesa de mim, este curto parêntese que, todavia, reputo importante para uma reflexão mais longa acerca das circunstâncias e consequências dos movimentos de massas solicitados e motivados sobretudo através de redes sociais, isto é, sem notoriedade dos seus promotores, mas certamente reunindo descontentamentos, ressentimentos e reivindicações comuns a muita gente. Imaginemos, por exemplo, que a subida das taxas de certos impostos não visa apenas nem prioritariamente o aumento de receitas fiscais (apesar do equilíbrio ou superavit orçamental estar nas ordens dos dias), mas procura atingir objetivos de outra ordem: redução do consumo de combustíveis como combate à poluição, ou do de sal ou açúcar por razões sanitárias, etc. A dificuldade de assim se justificarem essas medidas de política encontra-se, não só na falta de informação adequada, como sobretudo na cultura popular que, ao longo de décadas, foi sendo educada no sentido de uma sociedade de consumo e na perspetiva de que o crescimento económico iria abundantemente servir-lhe os produtos desejados e os meios de os adquirir. E talvez mais ainda no sentimento generalizado de que há classes ou categorias sociais privilegiadas, que escapam ou estão isentas dos custos e das consequências penalizadoras das medidas ditas reformadoras, como se fossem irresponsabilizáveis.] 

 

   O geógrafo que te tenho referido, Princesa de mim, cita aquele dito de Emmanuel Macron aos microfones da TF1, no dia 15 deste novembro: Não consegui reconciliar o povo francês com os seus dirigentes. E aproveita tal dica para acrescentar: Como explico no meu último livro [No Society], pela primeira vez temos um mundo de cima (d´en haut) - ou todas as categorias [classes] superiores - de costas voltadas para o conjunto das categorias [classes] populares, antigamente classes médias. E temos um mundo de baixo (d´en bas) que já não ouve o mundo de cima, seja este o político, o mediático ou o cultural. A isso chamo «o movimento real da sociedade». E tal «movimento real» dá poder de influência às classes populares. Os populistas bem o perceberam, já que se apoiam nessa força. Os dirigentes políticos franceses devem ligar-se, eles também, a esse movimento. Há um enorme problema de oferta política. Mas creio que o mundo político acabará por se adaptar, porque vivemos em democracia...

 

   Estou mais tentado a dizer «Deus o ouça!», do que a subscrever esta última afirmação de Christophe Guilluy. Não tanto por desacordo, visto tratar-se de uma hipótese. Mas, quiçá, porque o meu pensarsentir antes deambula por outras questões, mais atinentes à cultura popular e à que rege grande parte dos comportamentos e ações dos agentes do poder, seja ele político ou mediático. E, sendo cidadão português, também entendo que deverei abordar tais questões na perspetiva da incidência que têm na vida lusitana. Embora depare, à partida, com uma desvantagem minha: como não sou geógrafo nem sociólogo, não fiz, eu próprio, qualquer trabalho de campo nesta área; e tampouco disponho de dados ou estudos analíticos que sustenham a exposição dos meus pontos de vista. Assim, a seu tempo direi como pensossinto alguns aspetos da nossa realidade nacional que, dia a dia, vou empiricamente observando -  e na qual vou vivendo sem razão maior de queixa, ainda que com muitos motivos de resmunguice e alguns de escândalo. Aliás, em cartas anteriores, Princesa de mim, já te fui deixando algumas (in)confidências...

 

   Por agora, só para nos estimular uma reflexão mais global sobre o estado atual das "coisas", entrego-te umas referências interessantes:

 

   1. Kate Raworth, investigadora nas universidades de Oxford e Cambridge, publicou um "Sunday Times Best Seller", recentemente traduzido para outras línguas, entre as quais a portuguesa, intitulado Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist. Aconselho-te a edição inglesa, não só por ser a original, mas por custar o terço do que pagarias por uma tradução. A confessa intenção da autora é levar-nos a entender que vivemos uma época formidável para desaprendermos e reaprendermos as bases da economia. Fala-nos do abismo que separa as preocupações da teoria económica convencional das crises cada vez mais graves do mundo real, tais como a desigualdade planetária e as mudanças climáticas...   ... A humanidade está confrontada com enormes desafios, e é em grande parte graças às omissões e às metáforas erradas duma reflexão económica ultrapassada que aí chegámos. Mas para aqueles que estão prontos a rebelar-se, a olhar em volta, a contestar e a repensar, a época é entusiasmante. «É preciso que os estudantes aprendam a desembaraçar-se das ideias desmodadas e saibam quando e como substituí-las... como aprender, desaprender e reaprender», escrevia o futurólogo Alvin Toffler. Nada de mais verdadeiro para aqueles que procuram o conhecimento económico. Sabes bem, Princesa de mim, tal como muitos amigos meus, como eu incessantemente batia na mesma tecla, quando discutíamos a vinda da Troika e o problema das dívidas ditas soberanas... E não nos esqueçamos de que crises e sufocos nacionais que se distribuem pelo planeta já não nos são questões alheias: basta olharmos para as torrentes de massas migratórias, como também, ainda que diferentes, para as movimentações terroristas. Desde vitimizações sentidas, por discriminação económica ou jurídica, a ressentimentos, históricos ou atuais, por exploração colonialista ou opressão étnica, "religiosa" ou cultural, sem esquecer a força tentacular de agentes económicos e financeiros, são múltiplas as razões das ameaças que hoje perturbam as nossas classes médias em vias de extinção, cuja força política vai diminuindo na medida do enfraquecimento democrático das nossas sociedades. E é tão forte o sentimento de injustiça dessas populações, que se vão progressivamente agarrando, não ao regime político que já não as serve, mas à "Autoridade" que ponha tudo na ordem desejada.

 

   2. Por outro lado, economistas (e não só) vão-se dando conta de que a expansão económica já não reduz as desigualdades, mas aumenta o aquecimento global, e assim surge, uma vez mais, o debate acerca do pós-crescimento. Eis porque, no seu suplemento Économie & Entreprise, o jornal Le Monde iniciou, a 30 deste novembro, um dossiê sobre o tema Crescimento contra Decrescimento, cujo primeiro artigo se intitula O Crescimento, uma Velha Lua para esquecer? Ainda hoje guardo, na minha biblioteca, um exemplar, em francês, do relatório Meadows para o Clube de Roma, apelando à moderação do crescimento económico e intitulado Les Limites de la Croissance (1972), trabalho sobre o qual fiz algumas palestras em cursos organizados pelo IAG (Institut d´Administration et Gestion) da Université Catholique de Louvain. A questão de fundo era a de saber se e como seria possível compatibilizar um infinito crescimento económico com os limitados recursos naturais disponíveis neste mundo... O artigo de Le Monde, assinado por Frédéric Cazenave e Marie Charrel, faz o comentário seguinte, que, quase meio século depois, com simpatia me divertiu: Aqueles que se mostram sensíveis a essas ideias, agruparam-se, nos anos 2000, sob a bandeira «decrescimento», assente numa crítica da sociedade de consumo e do liberalismo. Formam hoje uma corrente atravessada por várias escolas teóricas e umas capelas, nem sempre fáceis de circunscrever. Na Europa, nos Estados Unidos, uma ladainha de coletivos cogita igualmente sobre o assunto. «O decrescimento é um conceito guarda-chuva, simultaneamente político, económico e social, e agrupa várias ideias mais ou menos ridículas», explica Giorgos Kallis, economista especializado em ecologia na Universidade Autónoma de Barcelona. Mas, afinal, desde adeptos do "crescimento verde" e do "desenvolvimento sustentável" aos que insistem no malthusianismo, todos parecem concordar num ponto, que o artigo aponta: a crítica do produto interior bruto (PIB), que hoje está no cerne das nossas políticas públicas, como critério primeiro do desenvolvimento económico e social.

 

   É verdade que no pós-guerra, e até aos anos 1980, o crescimento económico se traduzia mecanicamente por um aumento do bem estar, tanto nos países industrializados como nos emergentes. «Mas, desde então, essa relação já não é evidente», sublinha Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável na universidade britânica de Surrey. Primeiro, porque a atividade industrial gera uma poluição que degrada cada vez mais a qualidade de vida. Além disso, uma parte do crescimento é doravante arrastada pelas despesas ligadas aos problemas gerados pelo desregulamento climático - secas, inundações, subida das águas... Finalmente, os frutos desse crescimento são cada vez menos bem repartidos entre as classes sociais. «O crescimento, não só deteriora as condições de vida na terra, mas já não permite reduzir as desigualdades e favorecer o bem estar», resume Dominique Bourg, filósofo na Universidade de Lausanne

 

   3. O já famoso sociólogo alemão Michael Hartmann publica este ano mais um livro sobre "os desconectados", as elites desligadas das gentes: Die Abgehobenen: Wie die Eliten die Demokratie gefährden (Campus, 2018). Aí vou buscar mais umas achas para a nossa reflexão de hoje: As elites na Alemanha, mas também noutros países, já não sabem o que possa ser a vida da maioria da população: muitos dos seus membros vivem em bairros homogéneos. Têm um quotidiano diferente, outros lazeres, outras oportunidades. E, referindo-se a Joe Kaeser, o PDG da Siemens, cujo salário horário atinge os 3 mil e 500 euros, e que aconselhou os pobres a comprarem ações para se enriquecerem, comenta: É evidente que Kaeser nem consegue imaginar a existência de pessoas que nem sequer têm dinheiro suficiente para poder poupar pelo menos um bocadinho... Por muito bem intencionado que seja, e desejoso de proceder a reformas da sociedade francesa, Macron não consegue escapar à acusação generalizada de que está com os ricos -  e não ao lado dos pobres. Porque, mais alto do que qualquer apelo ao diálogo e à busca de soluções acordadas no presente e projetadas para o futuro, soa o grito de raiva pelo engano sofrido de classes sociais que - no cotejo com os privilegiados, hoje inevitável - se sentem abandonadas pelo poder político que julgavam potencialmente mais atuante em democracia. Donde também este mal estar que, nos dias que correm, connosco habita os nossos Estados de Direito pouco democrático...

 

   Verifico que, em Portugal, quiçá pela sua tradição estatal e centralista, as manifestações reivindicativas de direitos sociais surgem sobretudo de corporações sectoriais ou profissionais vinculadas ao serviço público ou ao aparelho do Estado: transportes públicos, professores e auxiliares, médicos e enfermeiros, bombeiros e forças de segurança,magistrados... Todos sectores de atividade que, deste ou daquele modo, com mais ou menos força, sempre podem afetar interesses vitais ou fatores essenciais ao bom funcionamento do corpo social. É assim aparente mais uma discriminação, entre cidadãos melhor ou pior protegidos, sobretudo num país onde o recurso ao Estado-Solução é sempre insinuante...

 

   Para terminar esta carta, aproveito a ideia de já não ser evidente que o crescimento económico seja, só por si, fator de desenvolvimento social e político (conceito, aliás, bem subjacente ao sonho do fim da História, de Francis Fukuyama) para referir a resposta de Carlos Gaspar, em entrevista ao jornal Público, a uma pergunta sobre se, no Ocidente, se acreditava em que a abertura económica seria acompanhada de uma abertura política na China: Existia essa ilusão. Os liberais norte-americanos defenderam, com o seu otimismo histórico e incorrigível, que a abertura económica e a ascensão de uma classe média, urbana, com dezenas de milhares de estudantes nas universidades, levariam naturalmente a que, a partir de um certo nível de desenvolvimento económico e social, as classes urbanas iriam querer instalar um Estado de direito e um regime de democracia pluralista. Não tinham razão.

 

   Falar-te-ei do Portugal-China em carta futura. Retomando temas que já tinha abordado em cartas mais antigas. Sobre o conceito de Tianxiá e as tempestades e/ou bonanças que poderão, ou não, surpreender-nos.   

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

NOVA REFERÊNCIA AO TEATRO DO PALÁCIO DA BREJOEIRA

 

Há cerca de um ano e meio, referimos aqui o chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira de Monção, sala que, na altura dissemos, valorizou o imponente Palácio. Um livro muito recente, da autoria de Ernesto Português, intitulado precisamente “Palácio da Brejoeira. Dois Séculos de História” (ed. Palácio da Brejoeira 2018) descreve o Teatro e esclarece aspetos diversos da sua construção e estrutura atual.

 

Desde logo na designação da sala, referida como Teatro Apolo, e também, na autoria do projeto arquitetónico, que, diz-nos agora o livro citado, “é de Marques da Silva e não de Ventura Terra” como habitualmente se referia.

 

Mais acrescenta Ernesto Português que as obras se instalação do Teatro se iniciaram em 1912 e a inauguração ocorre em 30 de abril de 1913 “para assinalar as Bodas de Prata do casal Fonseca Araújo”, à data proprietário do Palácio.

 

E assinala-se que o Palácio foi por eles recuperado segundo projeto dos arquitetos Ventura Terra e Marques da Silva, o qual, como já se disse, instalou a sala do Teatro. E é de referir que entre as obras projetadas e desenhadas por Marques da Silva destaca-se, nesta área, o Teatro de São João e a Casa de Serralves, isto para evocar apenas projetos e edifícios de teatro e de atividades de cultura.

 

A esse respeito, citamos José Augusto França, que nos deixou uma descrição detalhada do Palácio da Brejoeira, com referência expressa ao “pequeno e elegante teatro” (in “A Arte em Portugal no Século XIX” Vol. I Livraria Bertrand Ed., pág. 183).

 

E sobre esse “pequeno e elegante teatro”, seja permitido retomar a descrição que dele fizemos no texto aqui publicado há cerca de ano e meio.

 

 Aí se disse que o Teatrinho, com cerca de 50 lugares em suave declive, além de mostrar os interesses culturais dos proprietários, revela uma harmonia e uma ambiência que se concilia com a funcionalidade do palco, não obstante as reduzidas dimensões da sala. Singulariza-se e singulariza da melhor maneira o Palácio em que está integrado...

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

21. “LIVRES E IGUAIS”

 

No antigo convento de agostinianos, fundado em 1633, velho casarão conventual adaptado ao Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, já extinto, e esperando melhores dias, foi inaugurada, a 7 de setembro de 2018, a exposição “Livres e Iguais”, organizada pela Secretaria-Geral do Ministério da Justiça, no âmbito das comemorações do 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e dos 40 anos da adesão de Portugal à Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH).   

 

Num espaço limitado e simples, sóbrio em custos e meios, claro na mensagem e fim, ocupando o antigo átrio do Tribunal da Boa Hora, expõe-se o acervo composto por painéis explicativos e declarativos de normas e princípios consagrados na DUDH e CEDH, por entre trabalhos de vários fotógrafos portugueses, documentos e obras alusivos ao tema dos Direitos Humanos, adesão de Portugal ao Conselho da Europa e à ratificação da CEDH.

 

São enfatizados o direito à igualdade (art.º 1.º da DUDH), à não discriminação (art.º 2.º), à vida (art.º 3.º), à proibição da escravatura (art.º 4.º), proibição da tortura (art.º 5.º), ao reconhecimento da personalidade jurídica (art.º 6.º), proibição da detenção e exílio arbitrários (art.º 9.º), proibição da retroatividade da lei penal (art.º 11.º), igualdade no casamento e sua dissolução (art.º 16.º), liberdade de consciência e religião (art.º 18.º), liberdade de expressão (art.º 19.º), direito a condições de trabalho justas (art.º 23.º), ao repouso e lazer (art.º 24.º), das mães e crianças a proteção especiais (art.º 25.º), à educação (art.º 26.º) e de participar na vida cultural (art.º 27.º).

 

Das obras expostas, destaco pela atualidade, “Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, Jurisprudência Selecionada”, da Procuradoria-Geral da República, editada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, a que acresce, surpreendentemente, numa atitude não usual, uma plêiade de livros de aquisição gratuita sobre a temática dos direitos humanos patrocinados, na sua maioria, pelas Nações Unidas.

 

Instrutivos e às dezenas, por entre compilações de instrumentos internacionais, sobressaem Não Às Crianças Soldados! (da coligação para pôr fim à utilização das crianças soldados), instituições nacionais para a promoção e proteção dos direitos humanos, procedimentos e queixas, direitos das crianças, detenção arbitrária, direitos das minorias, discriminação contra as mulheres, formas contemporâneas de escravatura, o direito a uma habitação condigna, os direitos dos trabalhadores migrantes, o comité contra a tortura, dos direitos económicos, sociais e culturais, racismo, discriminação, xenofobia e intolerância conexa, carta internacional dos direitos humanos, regras internacionais de direitos humanos para aplicação da lei, inclusive para  agentes policiais.                 

 

Sem esquecer que em 10.12.1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) aprovou e proclamou DUDH, positivando-a através de normas também consagradas e especificadas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, merecendo ainda referência a CEDH e o Tribunal Penal Internacional.

 

Tidos como universais (de todo o ser humano), pessoais (intransmissíveis), permanentes (só pela morte se extinguem), indisponíveis (inalienáveis), iguais (nenhum se sobrepõe aos demais), interdependentes (o gozo de um afeta os restantes), imprescritíveis, intemporais e imutáveis, têm a dignidade da pessoa humana como núcleo central inviolável, antepondo-se e impondo-se a qualquer poder. 

 

Transcreve a exposição, e bem, a Resolução n.º 32/130, de 16.12.1977, da AGNU, segundo a qual “todos os direitos humanos e liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes. A realização plena dos direitos civis e políticos sem gozo dos direitos económicos, sociais e culturais é impossível”.

 

O que    poderia possibilitar a abordagem dos direitos humanos de primeira e segunda geração, de abstenção e realização estadual (já não falando nos de terceira e quarta geração), sem prejuízo da ambivalência direitos/deveres, embora se compreenda a necessidade de estabelecer prioridades, gerindo recursos limitados, em conjugação com a comemoração em causa e o grande público como destinatário, por maioria de razão neste tempo que vivemos, em que não devem primar pela ausência iniciativas desta natureza.         

 

A visitar, todos os dias úteis, das 10 às 17 horas, até finais de janeiro de 2019.

 

04.12.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: UM REINO MARAVILHOSO

 

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”
– João Cabral de Melo Neto, trecho de “Morte e Vida Severina”.

 

E relíamos “Morte e Vida Severina” na Igreja de Santa Isabel em evoluído diálogo com o nosso catequista e a orientadora da Profissão de Fé. Era um tempo em vários atos de verdadeira higiene ou conselho ao pensar possível na nossa idade, porque mais doce era aquele compreender em nós, orgulhosos de espreitarmos mundos de onde pouco ou nada escutáramos, cegos que eramos às mondas e às foices, e ao negro pardo ou hulha, ou ao carcereiro branco e o significado das vidas cangas em todos.

 

Um dia, saberão, diziam-nos

 

Morre-se um pouco ao ler, nasce-se um pouco ao entender

 

E olhávamos uns para os outros numa mímica de pergunta conformada pelo orgulho de estarmos a falar de quem sabia o que eram reinos maravilhosos, refreados, às vezes, pelos poderes que não conhecíamos bem ainda, mas que os não queriam por perto. Estranho! Atraente.

 

E lá me tocou a vez e disse o melhor que podia e alto: 

 

«De João Cabral de Melo Neto»

 

- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas, 
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

 

E a orientadora virou-se para mim e perguntou

 

De que achas que falaste?

 

Instaurou-se um silêncio que escutava entre a minha incredulidade pela pergunta e o meu medo de não ter entendido nada

 

Entreolhei todos os meus colegas em busca da ajuda que não veio. E lá me fiz à resposta:

 

Acho que é como em casa. Uns dias só podemos estar com os amigos um bocadinho e um dia os pais não nos proíbem de casar e lá vamos nós meninas, de vez, fazer uma outra vida e sem eles proibirem nada, e a gente até pode nem querer bem aquilo, a não ser o vestido branco e as flores.

 

Olha, olha, disse o Luís, não é nada disso. João Cabral de Melo Neto é um poeta muito famoso e muito bom, ele até analisa o mundo e diz-nos o quanto uns têm tudo e outros são pobres e ninguém se importa, e faz poemas especiais sobre a sede.

 

Muito bem, Luís. Muito bem acrescentou o catequista!

 

Hoje leio neste livro de João Cabral de Melo Neto com chancela da Global Editora, São Paulo 2010 e com seleção de poesia de Antonio Carlos Secchin, inúmeros poemas deste poeta, que, continua exemplar às letras do mundo de hoje, exemplar à conduta literária de vigilância e eu nele segura também como quem descobriu o guiar-se pela contenção e, ao menos, uma parte, através da dicção do mar.

 

Eis um exemplo de tudo do seu reino maravilhoso

 

Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

John Ruskin - Arte, Trabalho e Sociedade. (Parte 1)

 

'But now having no true business, we pour our whole-masculine energy into the false business of money-making; and having no true emotion, we must have false emotions dressed up for us to play with, not innocently, as children with dolls, but guiltly and darkly.', John Ruskin

 

Ao experienciar constantemente beleza no mundo, somos ensinados a ver a vida na sua mais pura verdade.

 

O pensamento de John Ruskin (1819-1900) transporta a ideia de que a arte não tem qualquer relação com o intelecto ou com o conhecimento. Apresenta sim uma incessante busca pelo sagrado e pela verdade das coisas que demonstram a simultaneidade de Deus e da Natureza. Ruskin acreditava que a educação do gosto poderia influenciar a formação de um carácter. Debatia-se a favor do constante encantamento e glorificação pelo mundo. 

 

Ruskin acreditava no uso da técnica pura, sem artifícios nem seduções, quase como uma prática religiosa, que implicava o retorno a uma condição social e a um ofício humilde e cuidadoso, que poderia trazer o contentamento puro. O artista já não é apenas um visionário isolado do mundo, mas um homem em polémica com a sociedade. O artista gostaria agora de afirmar a solidariedade como sendo o empenho primordial de todos os povos e todos os seres humanos. Cada linha, cada risco desenhado por este novo artista, se verdadeira, deverá ser intensa, inteira e decisiva, contendo todas as intenções possíveis. Ruskin reconhecia o trabalho automático da máquina como sendo o possível libertador do trabalho repetitivo e monótono. 

 

'Fine Art is that in which the hand, the head, and the heart of man go together.', J. Ruskin

 

Ruskin protestava contra a busca exclusiva do lucro na era da Revolução Industrial, contra a exploração do homem pelo homem, assumindo assim uma postura política claramente socialista. Para Ruskin, uma sociedade baseada no tratamento desigual e indiferente em relação às pessoas e ao meio ambiente é alheia à beleza.

 

'When men are rightly occupied, their amusement grows out of their work, as the colour-petals out of a fruitful flower - when they are faithfully helpful and compassionate, all their emotions become steady, deep, perpetual and vivifying to the soul as the natural pulse to the body.', J. Ruskin

 

Ana Ruepp