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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, ESCRITORA E DRAMATURGA (II)

 

No artigo anterior, referimos o Colóquio sobre Sophia, entretanto realizado numa iniciativa conjunta da Fundação Calouste Gulbenkian, onde teve lugar, e do Centro Nacional de Cultura. Trata-se então do II Colóquio Internacional sobre Sophia: e houve ensejo de retomar a referência não só à escritora em si, como a textos apresentados e debatidos no Colóquio anterior que teve lugar tal como este na Gulbenkian.

 

Em ambos os Colóquios, ouviram-se intervenções de Guilherme d’Oliveira Martins como Presidente das duas entidades (FCG e CNC) e de Maria Andresen Sousa Tavares, bem como de dezenas de oradores, e isto para além dos intervenientes nos debates que se seguiam às intervenções.

 

Referimos então agora especificamente este II Colóquio Internacional.

 

 As intervenções e os debates, num total de mais de 30 temas, constituíram no seu conjunto uma notabilíssima abordagem da figura e obra de Sophia, mas mais do que isso: propuseram e permitiram uma visão amplamente analisada e debatida de aspetos variados da obra em si, da identidade e personalidade, e na literatura e cultura portuguesa e universal: e com destaque específico para referências a países e/ou culturas como a Grécia, a Espanha, a Inglaterra, a Dinamarca ou o Brasil. E isto, envolvendo também intervenções de entidades e individualidades ligadas a esses países mas também aos EUA, Itália, Alemanha, França.

 

Cita-se a propósito o início do Prólogo da peça “O Colar”:

 

“Esta História aconteceu/Num país chamado Itália/Na cidade de Veneza/Que é sobre água construída/E noite e dia se mira/Sobre a água refletida.//Suas ruas são canais/Onde sempre gondoleiros/Vão guiando barcas negras/Em Veneza tudo é belo/Tudo brilha e cintila”...   

 

Essa internacionalização do temário documenta de forma eloquente a própria internacionalização da arte e da literatura criada por Sophia. Aliás, é de assinalar que em 2003 Sophia foi agraciada com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, o que documenta e reforça o prestígio internacional.  E isso significa, note-se bem, a profundidade dos valores de cultura inerentes e bem presentes na sua vida e obra.

 

Num artigo publicado no último número do Jornal de Letras (8 a 21 de maio de 2019) Guilherme d’Oliveira Martins procede a uma análise vasta e detalhada da vida e obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. Aí se informa acerca de um conjunto de iniciativas que, ao longo do ano, se irão realizar, em Portugal, Itália, Brasil e Macau.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

29. A “VERDADE HISTÓRICA”

 

Há verdades que não vale a pena contradizer.
Por exemplo, o 25 de abril de 1974 ocorreu nesse dia e ano. 
Afirmar ser mentira, é desnecessário e redundante.
Todavia, não temos uma verdade sobre o que foi o 25 de abril de 1974. 
Há várias interpretações: uma revolução, um golpe de estado e político, um golpe de estado militar e político, uma revolta militar, um movimento militar e popular pacífico. 
Não há uma verdade absoluta. 
Não há uma verdade com letra grande. 
Se uma revolução é ganha os ganhadores são heróis. 
Se a revolução se perde os perdedores são terroristas. 
Quando se ganha deixa-se de ser mau ou terrorista para se ser bom ou herói.
Os ganhadores, conquistadores e vencedores são os bons, os heróis, o poder. 
Os perdedores, conquistados e vencidos são os maus, os fracos, os dominados. 
Os vencidos são os maus que ainda não venceram.
São os maus que ainda não ganharam.
A História é uma construção, uma narrativa, há sempre nela uma interpretação subjetiva, embora a se deva interpretar o mais objetivamente possível.

 

21.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICA DA CULTURA

(…) naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte.

 

 

 

Bruno, meu amigo, minha tão jovem vaidade;

 

Só posso responder à tua carta dizendo-te que naquela casa, tanto quanto me recordo, houve sempre neve. Neve, lá mesmo dentro da casa. Diria que em certos dias havia neve dentro do próprio forno de lenha. Fora arrendada essa casa aos caseiros da quinta da tua avó. Recordas-te? Caía nela em charcos, a água das chuvas, a neve, em despedaçados e pesados flocos, fustigava-a com a ajuda do vento e tudo tão suportado pela casa estoica e pelos seus habitantes. Tenho a certeza de que era assim para que eles pudessem ser seres do mundo. Agora tenho outra certeza: mesmo no verão, no tempo dos milhos, o tempo, caía pelo buraco do teto da cozinha de chão de terra e, feito neblina, a qualquer hora, furava todas as velhas rachas da casa e expandia-se no ar, fazendo-nos sentir necessidade de algum agasalho. A casa era uma casa de aldeia, rural, marcada pelas pedras cinzentas e pelos sequeiros de pedra cinzentos e pela eira de pedra cinzenta. A casa era o bater do coração do ti Aires que a achava um mistério fundo, ou não guardasse ela, gentes e bichos, num orgulho de casa conforme a todas as necessidades, assim ele a descrevia. Confirmo-te que a tia São fazia o tal arroz de feijão no tacho, assente na grelha dos três pés, e, não havia melhor cheiro no mundo do que aquele que vivia no fumegar deste tacho ou na abertura da tampa do forno de lenha, onde, assada estava a galinha e cozido o pão, ambos a espreitar-nos como um vestido aberto às cerejas. E nós, Bruno, nós lá íamos perguntando à Ti São, qual a razão do repasto e por entre as perguntas, as lágrimas que ela limpava dizendo sempre:

 

Maldita constipação! E fazia por tossir.

 

A ti São dava-nos sempre suspiros que fazia com as claras dos ovos que sobejavam dos almoços com os amigos do marido, vizinhos de ambos, e em cuja mesa – que era a própria arca salgadeira das carnes do porco - ela se não sentava nunca, apenas de pé e de prato de alumínio na mão só o arroz de feijão provava. Ainda assim, para nós, abria o forno, metia a pá e lá vinham eles, os suspiros direitinhos provocar o nosso olhar.

 

Vá levai alguns, dizia-nos num sorriso de ternura.

 

Nós lá íamos para casa felizes com aquelas guloseimas únicas. No outro dia, ou melhor, em mais outro dia, seguia a ti São às 5h da manhã para o campo, de onde só regressava de novo por volta da meia hora, como quem diz, a um outro meio-dia e meia. Regressava para pôr no lume a sopa a fazer. Esta sopa levava couves e um pouco de gordura da barriga do porco e comiam-na com broa saída das mãos da Ti São. A nós ela deitava os olhos e dizia-nos:

 

Vá ide almoçar, isto não é para os meninos.

 

E tu reparavas que eles nunca falavam um com o outro durante o almoço, ou, falava o ti Aires por gestos secos, conhecidos da ti São depois de 50 anos de matrimónio. Talvez por isso havia sempre neve na casa. Talvez por isso o fulgor do mundo entrara há 50 anos, quando o tempo das promessas lhes obedecia, e, depois, rapidamente as fartas hortas foram ficando nuas, o quarto do casal com lençóis mais gelados, os porcos a engordarem sempre o mesmo e os secos polvos do Natal cada vez mais tesos e magros.

 

E o ti Aires lá seguia para a empa de pés nus e gretados enfiados nas botas velhas, e, a ti São de joelhos, lavava a roupa no riacho partindo previamente com as mãos o gelo da superfície da água; depois lavava a roupa, esfregava-a na pedra como se não tivesse chagas nas mãos. Num sol qualquer corava a roupa exposta no chão; puxava os bois à fonte, enchia os colchões de capas de milho, deitava semente ao lavrado e vinha para casa dar comida às galinhas e aos coelhos e com a tal constipação que a fazia chorar, cortava um pouco da barriga do porco que cozera na sopa do almoço, e acompanhava-a com batatas cozidas, evitando que fossem solteiras de acompanhamento. Para nós, lá vinha mais um suspiro.

 

Tudo em silêncio, ou quase.

 

E tens razão Bruno, nunca compreendemos porque chegada a quase noite, o ti Aires lhe batia, e lhe batia até com cordas. Depois bebia, dizendo que era para esquecer ou aquecer e deitava-se.

 

Nós e os suspiros de que falas. Nós que tanto gostávamos de passar o dia a brincar à volta daquela casa, e a dizer adeus à ti São, nós, olhávamos para os suspiros e esmigalhávamo-los nas mãos a cada chibatada do ti Aires na Ti São, e o que caia das nossa mãos era neve. Naquela casa houve sempre neve, houve sempre muito frio.

 

E a cebola no tacho também fazia chorar a ti São: e nós miúdos confundidos.

 

Bruno há sempre um envolvimento na reflexão a respeito de tudo e com a nossa atual idade tem de haver decantação. Alguns acontecimentos que referiste poderiam parecer-nos, nos dias de hoje, insignificantes, e, afinal surgem com um significado que no momento não pensámos ter sido tão violento por muito que esmigalhássemos os suspiros nas mãos. Vivemos naquela casa episódios lúdicos e presenciámos forças ensombradas, forças daquelas que impressionavam os olhos a chorar de tão brutas serem. Digo-te: é bom que te não queiras perdido daquele tempo. É bom que queiras que o criador tenha que optar.

 

É bom que saibas que tanto quanto me recordo, e tu te aproximas, naquela casa houve sempre neve a agudizar o frio: verão ou inverno os seres eram recrutados ao horizonte. E enfim, a indiferença, essa, em que os faziam jogar a própria vida…era, é…

 

Saudades te envio

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

"MOTU PROPRIO" ANTI-ABUSOS

 

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação “abusos sexuais, de poder e de consciência”. Também diz, com razão, que a base é o “clericalismo”, julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

 

 Felizmente, há hoje um alerta da opinião pública e, por isso, Francisco, em vez de condenar ou atribuir outras intenções aos meios de comunicação social, agradece, pois foi o meio para que também a Igreja acordasse do seu sono sacrílego.

 

E, aí, Francisco tomou uma iniciativa inédita e histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado. Foi uma Cimeira com 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, alguns peritos e leigos.

 

O Papa queria, em primeiro lugar, que se tomasse consciência da situação e do sofrimento incomensurável causado, que fica para a vida. E que se tomasse medidas concretas, de tal modo que se pudesse constatar um antes e um depois desta Cimeira verdadeiramente global e representativa da Igreja universal e nos seus vários níveis. Os três dias estiveram sob o lema tríplice: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. O Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero”.

 

2. Para implantar essa “tolerância zero” e pôr fim a esta catástrofe na Igreja, foi publicado, no passado dia 9 de Maio, o Motu Proprio (Decreto de iniciativa papal), que entra em vigor no dia 1 de Junho. Nesta Carta Apostólica, com o título “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo), o Papa Francisco decreta medidas concretas contra a pedofilia na Igreja.

 

Estas normas contra os abusadores e os encobridores impõem-se, porque, escreve Francisco, “o delito de abuso sexual ofende Nosso Senhor, causa danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e prejudica a comunidade dos fiéis.”

 

Os clérigos e religiosos ficam obrigados (não se trata de mera obrigação moral, mas legal) a denunciar os abusos aos superiores, bem como a informá-los sobre as omissões e encobrimentos na sua gestão. Todas as Dioceses do mundo têm a obrigação de criar no prazo de um ano um ou mais sistemas estáveis e de fácil acesso ao público, para que, com facilidade, todos possam apresentar informações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos e o seu encobrimento. O documento ratifica a obrigação de colaborar com a justiça civil dos países. Aliás, “estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada lugar por leis do Estado, em particular as relativas a eventuais obrigações de informar as autoridades civis competentes”. Para lá do assédio e da violência contra menores (menos de 18 anos) e adultos vulneráveis, o texto inclui a violência sexual e o assédio que provêm do abuso de autoridade, bem como a posse de pornografia infantil e qualquer caso de violência contra as religiosas por parte de clérigos e ainda os casos de assédio a seminaristas ou noviços maiores de idade. Impõe a protecção dos denunciantes e das vítimas: quem denuncia abusos não pode ser objecto de represálias ou discriminação por ter informado; as vítimas e suas famílias serão tratadas com dignidade e respeito e devem receber a devida e adequada assistência espiritual, médica e psicológica; é preciso atender também ao problema das vítimas que no passado foram reduzidas ao silêncio. Estas normas aplicam-se à Igreja universal. Solicita-se vivamente a colaboração dos leigos, que podem ter capacidades e competências que os clérigos não dominam. Evidentemente, reafirma-se o princípio da presunção de inocência da pessoa acusada e o segredo da confissão deve manter-se como inviolável. Como escreve o Papa, “para que estes casos, em todas as suas formas, nunca mais aconteçam, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por acções concretas que envolvam todos os membros da Igreja.”

 

3. Na apresentação do documento esteve também Charles Scicluna, Arcebispo de Malta e Secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, considerado o homem forte do Papa na temática anti-abusos. São suas estas declarações na altura: “Ninguém com responsabilidade na Igreja está acima da lei. Agora temos uma lei universal que determina as etapas fundamentais para a investigação de um membro eclesiástico, Bispo ou Superior Maior, religioso ou religiosa. Acabou a imunidade.”

 

Já depois da publicação do Motu Proprio, rebentou na Polónia mais um escândalo: um documentário sobre abusos sexuais do clero polaco, com o título “Não digas a ninguém”, abalou a sociedade. A película sobre casos de menores abusados sexualmente por religiosos católicos provocou uma onda de reacções na Polónia, com mais de três milhões de visitas na internet nas primeiras horas que se seguiram à sua publicação. Entre as vítimas está também o testemunho de um homem que foi abusado aos 12 anos pelo sacerdote que foi confessor do ex-presidente polaco e líder histórico do Solidariedade, Lech Walesa.

 

Estou convicto de que agora se está no caminho certo para acabar com esta chaga terrível na Igreja. Espera-se que, limpa, a Igreja possa ficar mais livre para dar o seu contributo imprescindível no sentido de ajudar a limpar da mesma chaga tantas outras instituições, com a instituição familiar à cabeça, que no mundo infernalizam a vida de inocentes.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 19 MAI 2019

JEANNE MOREAU

 

Falta à Europa um imaginário europeu. Mas o imaginário europeu, no século do cinema, foi sobretudo um vulcão sem actividade. Por vezes, uma erupção. Marlene Dietrich quando foi anjo azul. Brigitte Bardot quando Vadim, que talvez fosse Deus, a criou. As italianas. A Anna Magnani de Rossellini e Roma, Cidade Aberta; Silvana Mangano, que o meu sogro ia ver ao cinema de bairro; a Loren e a Cardinale, que gostaríamos de ter visto onde mais ninguém nos visse.

 

Jeanne Moreau podia, mais do que a maioria das actrizes, ter inaugurado um imaginário de modernidade. Um imaginário ao mesmo tempo transgressor e lírico. Um imaginário amoroso sem servos ou servas, sem senhores ou senhoras. Um imaginário de tensões e contradições, que tanto afirma o corpo como o espírito. Num só filme mítico, "Jules et Jim", com uma personagem que nem entra no título, Jeanne Moreau deu-nos tudo isso como mais nenhuma mulher ou homem o terá conseguido no cinema europeu. Na boca, no olhar, nos gestos dela irrompe uma forma de amar europeia. Que o cinema que veio depois, quelle domage, não conseguiu continuar. Deixem-me lembrar esse filme, essa lição de educação sentimental a que Jeanne Moreau deu corpo. Não encontro melhor forma de a homenagear.

 

Ménage à trois
A mulher americana começara a tomar a pílula havia quatro anos, faltavam outros quatro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as calças a arder. Em 1964, Truffaut filmava “Jules e Jim”, história de um ménage à trois, gentil e pudico como todos os ménages à trois.

 

Em 1964, herdeiro mal lavado dos beatnicks Ginsberg e Kerouac, o movimento hippie começava a sua peregrinação pelos torcidos trilhos do amor livre, cultivando abundantes formas de promiscuidade física, sexual e intelectual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita contracultura. Mas o filme de Truffaut, como o próprio Truffaut, está nos antípodas dessa vaga de sexualidade exsudante, se me autorizam o transpirado qualificativo.

 

Truffaut gostava muito de um autor velhinho, Henri-Pierre Roché, que escrevera, aos 64 anos, os seus primeiros livros de sucesso. Um deles foi “Jules e Jim”. Trabalharam juntos na adaptação, mas aconteceu a Henri-Pierre o que acontece a todos os velhinhos: morreu. E Truffaut levou o romance para o que era a sua forma subtil de ver o mundo: estetização, elipse, refinadas sugestões, uma lírica educação sentimental.

 

Dois amigos, um francês e um alemão, ambos de fina cultura literária, livres de preconceitos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arreigados e firmes, partilham, na Belle Époque, o amor da Catherine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulheres são mais bonitas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em “Jules e Jim”, nunca houve mulher com gestos tão graciosos e suspensos. Por causa dela pensamos que devia ser normal haver apenas ménages à trois e, entre cigarros e cognacs, passarem dois homens muitas noites a discutir a mulher que partilham, descobrindo que cada um ama uma diferente parte dela.

 

Era o que faríamos se fôssemos franceses e amigos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defendeu o que chamou “poligamia experimental”. Estou a exagerar: talvez só a tenha praticado. Passava as amadas ao seu melhor amigo e sustentou, ao mesmo tempo, quatro lares.

 

A tudo isso alude “Jules e Jim”. Mas, ou Truffaut não fosse Truffaut, nunca o sublinha. Terá Truffaut sido infiel ao velhinho autor que em vida amara?

 

Turbilhão de vida
“Jules et Jim” é o filme em que François Truffaut se deu ao único verdadeiro luxo que a vida de um homem pode ter, o de ser, ao mesmo tempo, fiel e infiel. A quem? Não interessa? Interessa, sim. Já lá vamos.

 

No filme, inspirado, já disse, no livro autobiográfico de Henri-Pierre Roché, uma mulher ama em simultâneo dois homens, com o sossegado e emotivo consentimento dos três. Mas em “Jules et Jim”, os dois homens, um alemão e outro francês, são só silhuetas do turbilhão que foram em vida.

 

Jim é Henri-Pierre, o escritor, amigo da vanguarda parisiense, que convenceu Gertrud Stein a comprar as primeiras telas de Picasso. Inventou, se quiserem, o cubismo, metendo dólares nas bocas dos artistas, para lhes dar músculo ao braço que pinta. Foi o primeiro francês a ler “A Interpretação dos Sonhos” de Freud e escreveu-lhe até, a contar um sonho em que a própria mãe o violava.

 

Fora Franz Hessel, o Jules do filme, a revelar Freud a Jim. Era amigo de Walter Benjamin, com quem traduziu Proust para o alemão. Apaixonado pelos franceses, traduziu também Baudelaire e Stendhal. A estes Jules e Jim reais unia-os tanto a amorosa partilha de uma assembleia de mulheres, como a exaltada vivência da literatura e das artes. Não era lá serem cultos, era viverem aquilo: os livros, as telas, os espectáculos iam directos à veia. A actual ideia de uma cultura desvirilizada, paga por secretarias de Estado, ser-lhes-ia abominável. Neles, a cultura tinha de ser uma forma de tesão.

 

“Jules et Jim” não será completamente fiel a estes magníficos carroceiros das artes. Por ser de Truffaut, só é fiel a uma mulher. Jeanne Moreau, ou melhor, a boca, olhos, rosto, voz e cabelos gamam o filme e tomam conta dos nossos olhos.

 

Truffaut soube por carta que, ao filmar assim Jeanne Moreau, fora afinal fidelíssimo. A carta assinava-a uma desconhecida Helen Hessel, cujos 75 anos eram o que restava da mulher real amada pelos já falecidos Jules e Jim. Helen correra a ver o filme e, na sala escuríssima, vira “ressuscitar o que tinha vivido cegamente”. Perguntou a Truffaut: “Que afinidade o iluminou ao ponto de revelar o essencial das nossas reacções íntimas?” Há perguntas que valem mil elogios. E, hoje mais do que nunca, é da mais inteira justiça dizer que vem de Jeanne Moreau essa luminosa afinidade.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de maio de 2019

 

 

«Thomaz de Mello Breyner – Relatos de uma Época, do final da Monarquia ao Estado Novo» de Margarida de Magalhães Ramalho (Imprensa Nacional, 2018) é uma biografia elaborada com grande rigor cronológico e histórico, que permite compreender não só a vida do biografado e mas também a sua época.

 

 

UMA BIOGRAFIA EXEMPLAR
A obra que agora nos chega só foi possível porque o biografado teve o cuidado de registar em cadernos e em agendas aquilo a que foi assistindo, bem como as pessoas com que se cruzava e se relacionava. Os primeiros cadernos respeitam ao período de 1880 a 1895, desde a frequência académica aos passeios, passando pelo namoro com Sophia Burnay, pela morte do pai ou pelo casamento do Príncipe Real. Teria sido o seu amigo conde de Sabugosa, um dos Vencidos da Vida, que o incentivou à prática memorialista – e quando este morreu (em 1924) teria feito uma promessa a si mesmo de que publicaria as suas “Memórias”, deixando o primeiro volume pronto (1930) e um segundo praticamente terminado. Infelizmente, porém, não chegaria a cumprir o seu desiderato, para além da infância e juventude, deixando, contudo materiais que foram preciosos para a elaboração desta obra. E quem aqui encontramos? Para Reinaldo dos Santos, “um príncipe do espírito” e para José Tomás Sousa Martins, insigne mestre de Medicina, “o melhor dos rapazes. Possui a nobre faculdade de admirar sinceramente (…) no sentir tem a mais absoluta indiferença pelo pedantismo triunfante, a mais rija indignação só lhe vem diante do egoísmo burguês”. Os onze capítulos do livro acompanham a personagem. Nascido em 2 de setembro de 1866, Thomaz de Mello Breyner vai acompanhar a transição do século e dos regimes. Os primeiros capítulos são mais curtos, mas com o andamento do tempo a informação coligida foi aumentando. Filho do comandante do regimento de Caçadores 5, então aquartelado no Castelo de S. Jorge, aí nasce, num lugar privilegiado. E dirá que foi um “menino estragado”, pelos mimos que recebeu de seus pais – aproveitando bem a possibilidade de ver tudo o que se passava à sua volta… Apenas com quatro anos, testemunha as movimentações da Saldanhada (1870) e a partir dos seis anos, sendo seu pai ajudante de campo do rei D. Luís. Passa a ser convidado para as festas dos príncipes, nas quais sofre troças e dissabores por ser uma criança apenas remediada de uma família sem meios de fortuna. Tem, no entanto, o apoio da rainha D. Maria Pia, que lhe permite superar situações difíceis. Os acontecimentos e as vicissitudes são múltiplos, mas o certo é que esse contacto revelar-se-á muito importante na formação do futuro médico, que inicialmente pretendeu seguir a carreira na Marinha… Conhece Herculano e Bulhão Pato e sabe tirar lições de um tempo que está longe das facilidades, mas que lhe dá um riquíssimo convívio humano… Conhece escritores, artistas, publicistas – até Ramalho e Eça. Começando com dificuldades no aproveitamento escolar, consegue superá-las com sucesso. Deixando o desígnio da carreira militar, aponta para a Medicina, dando-nos conta pormenorizada dos sucessos e infortúnios, merecendo especial referência a relação académica com os Professores José Tomás Sousa Martins e Miguel Bombarda. E lembro na memória familiar a boa lembrança que meu bisavô tinha do Conde Mafra. Meu bisavô era professor da Escola Médica e vizinho em S. João dos Bem-casados de Mello Breyner – admirando o jovem clínico.

 

NA CIDADE DE PARIS E NÃO SÓ…
Partindo para Paris, para aprofundar os estudos da Medicina, afirma: “Tenho visto com satisfação que a Escola de Lisboa não é nada tão má e que os portugueses aqui podem fazer boa figura, quer pela fala, quer pelos conhecimentos que têm, de resto não admira porque os nossos programas são os mesmos e os livros também, o meio é que é mais acanhado”. O ambiente de Paris é cheio de surpresas, desde a tentativa de uns quantos penduras à espera que Thomaz lhes emprestasse dinheiro até a uma chamada para acorrer a um ataque histérico de uma senhora em casa de um conde russo… Apesar de tudo, com alívio, Thomaz regressa a Lisboa, é nomeado Médico da Real Câmara e prepara cuidadosamente o casamento com Sophia Burnay, filha do célebre banqueiro. Passo a passo, encontramos o período difícil em que a monarquia constitucional está profundamente fragilizada, e em que o rei D. Carlos se deixa envolver nos erros dos partidos dinásticos, divididos entre a pura intriga (“discussões e bulhas dos monárquicos”) e a incapacidade de mobilizar o país. A humilhação do Mapa-Cor-de-Rosa deixou marcas profundas, o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, quaisquer que fossem as suas razões torna-se um sinal de desalento nacional. Este é, contudo, um tempo de muito trabalho profissional para Thomaz de Mello Breyner, aliando a consulta médica, a prevenção, a preocupação com as injustiças sociais, bem patentes na vida das meretrizes e no alargamento das doenças venéreas. As relações entre os Reis tornam-se cada vez mais distantes e inconciliáveis. E o médico descobre, com preocupação, sinais perigosos de doença em D. Carlos, um nível de diabetes elevadíssimo não augura nada de bom… O monarca vai trata-se nas Termas de Pedras Salgadas, e há um movimento regional que parece de grande apoio popular o Rei… T. Mello Breyner confessará que se deixou enganar por essa onda, que não podia iludir o facto de Lisboa ser cada vez mais republicana.

 

CONTINUAM AS DIFICULDADES…
“Continuam as trapalhadas políticas. Não sei como isto vai acabar. Em geral, sou otimista, mas desta vez vejo tudo um bocado negro”. Estava-se em finais de 1907. O conde de Mafra apoia a política de João Franco, mas verifica que tudo se encaminha para um beco sem saída para o Rei e para o regime. Um colaborador no hospital diz-lhe, na véspera do Regicídio de fevereiro de 1908, “que uma grande desgraça se prepara”. E o terrível dia chega em que o Rei e o Príncipe herdeiro são mortos. Eduardo VII exclama: “A revolução triunfou, não é verdade?”. E Raul Brandão diz que quem passaria a governar seria “sua majestade o medo”… Mello Breyner não se conforma, acusa os cúmplices palacianos e conclui destroçado: “Dorme em paz doce príncipe ao lado de teu querido pai que te amava tanto e que tu adoravas. Mais doloroso seria para ti veres-te obrigado por uma política idiota a pisar constantemente a memória de teu santo pai. Dorme em paz querido anjo”. Sente-se no memorialista uma grande amargura e descrença absoluta na solução política encontrada depois do Regicídio. Em 20 de abril encontra António José de Almeida no comboio de Coimbra que se desfaz em argumentos contra o envolvimento republicano na morte do Rei, mas o Conde de Mafra não acredita.... Os pormenores da vida quotidiana somam-se à intensa atividade profissional, a I República, depois de implantada, é vista com desconfiança, a vida familiar conhece amenidades e sobressaltos, alegrias e desgostos… O inesperado contacto com os modernistas, como Almada Negreiros, dá um tom de futuro. E numa passagem muito breve, lemos: a minha neta Xixa ficou «distinta no seu exame elementar. Aquela pequena é extraordinária. Quando há dias estive no Porto vi-a decorar um soneto de Antero de Quental depois de o ouvir apenas 3 vezes. Que encanto de pequena»… E de quem nos fala? De Sophia de Mello Breyner Andresen, a mais célebre das suas netas…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - X

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    Minha Princesa de mim:

 

  Quando passo dias de aturo de nevralgias, mialgias e outras algias roedoras, acontece-me pensar como nem a lenta duração do tempo nos ajuda sequer a adivinhar o que virá aí. Em situações de incómodo ou aflição, a ânsia de um alívio é sempre mais autoritária do que a imaginação de qualquer outro porvir. E, entretanto, será também mais paliativa a evocação ou recordação de recuperações e confortos passados, ainda que assim se possa confundir a força expressiva do desejo com a imaginação que nos constrói um pretérito cujo regresso desejamos precisamente porque o revestimos de curativas bondades. Aliás, quase nos sói dizer "já passei por pior e aqui estou, e bem melhor do que dantes!", ou, ainda, "estou como novo, é sempre assim!".  As fezadas talvez não sejam ingénuas, mas tão somente inocentes. Certo é que lá vamos vivendo e desaborrecendo o nosso anjo de serviço que, lá em cima, vai sorrindo por achar graça a resmungões resignados... Muito embora, e todavia, nova resmunguice nos vá minando ao pensarsentir que muita gente à nossa volta é mal agradecida, pois nem se dá conta de como vamos, briosos, calando ou, mais eufemísticos, mascarando tantas e tão justas queixas...

 

  Imagina tu agora, Princesa de mim, como se sentirá qualquer de nós se, em vez de se ver ao espelho de si ou de olhar para o retrovisor, abrir a vista para o que tem à sua frente, o imediato tangível, o nevoeiro próximo, o além desconhecido. Desde logo nos desconcentramos de nós próprios e vamos perdendo peso, não será tão depressa que nos afundaremos. E, logo também, o tangível se torna palavra e acto ao nosso alcance, sobretudo consciência e caminho de relação com coisas e gente que dão vida ao mundo, a este mundo a que pertencemos e a cuja obra somos chamados. A seguir, perscrutamos a neblina próxima, que vai recuando como se a intensidade concentrada do nosso olhar a empurrasse para libertação da nossa descoberta. E quando finalmente chegamos ao início do invisível, paramos para o contemplar, livres do peso de nós, feitos só interrogação. Muitas vezes pensossinto, Princesa de mim, que então se consciencializa a quintessência desta condição humana: quando já não é uma voz a perguntar-me Quo vadis?, mas o íntimo de mim que me questiona: Quo vado?

 

  Chova ou faça sol, sofra eu ou regozije-me, nada disso tem sentido em si. Ainda que pareça teimosia, só esse convívio anímico com tal interrogação me traz sentido à vida: para onde vou? Como se eu fosse fora de mim e no caminho da vida me encontrasse.

 

      Camilo Maria   

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, ESCRITORA E DRAMATURGA (I)

 

 

Celebra-se este ano o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), já devidamente assinalado e objeto de intervenções diversas, designadamente no Colóquio da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurado em 16 de maio por Guilherme d’Oliveira Martins, ao qual faremos referência.

 

Justifica-se pois esta sucessão de textos que, ao longo do ano, nos propomos efetuar sobre Sophia, tendo em vista a relevância da escritora em si mesma, inclusivé como dramaturga, mas ainda a sua intervenção cultural e cívica, num conjunto de ações e de criações ligadas também ao teatro e designadamente ao Centro Nacional de Cultura.

 

Daí que se dê o óbvio destaque aos aspetos criacionais da sua personalidade e criatividade, numa abrangência que largamente justifica ou mesmo se impõe nesta série de artigos, mesmo que se liguem mais ao autor-dramaturgo do que aos espaços em que a sua obra se concretizou ou, o caso concreto, certamente ainda mais se concretizará.

 

E nesse aspeto, que desta vez se liga ainda mais à literatura do que à arquitetura e ao espaço teatral, importa desde já referir as peças de Sophia. Citamos designadamente “O Bojador”, “O Colar”, “O Azeiteiro”, “Filho de Alma e Sangue”, “Não Chores Minha Filha”.

 

Para além destes títulos, referem-se textos e intervenções criativas e/ou críticas, num conjunto geral de ligações ao teatro e aos Teatros, que muito marcou a vida e obra de Sophia.

 

E há mais intervenções ligadas ao teatro. Citamos designadamente a recriação poética da “Medeia” de Eurípedes. É de assinalar aliás que essa tradução/adaptação não surge isolada no conjunto da sua obra, trata-se aqui não tanto de uma “tradução” mas sobretudo de uma recriação que se inscreve no conjunto de obras desta autora tão singular e tão coerente na vastidão, qualidade e heterogeneidade de vida e obra.

 

E mais: ao longo do mês, assinala-se a adaptação do conto de Sophia intitulado “A Menina do Mar” devidamente dramatizado e transformado em espetáculo no Teatro LU.CA – Teatro Luís de Camões, em Lisboa.

 

Ora bem: já várias vezes referimos aqui este Teatro, que oportunamente valorizou e valoriza uma tradição de salas de espetáculo e muito adequadamente se ajusta à celebração do centenário de Sophia de Mello Breyner Andersen.

 

E veremos outros aspetos da vida e obra de Sophia.

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

28. FALAR COM RODEIOS

 

Os menores tornaram-se crianças e jovens.   
Os ladrões, gatunos ou larápios passaram a amigos do alheio.   
Os pretos tornaram-se negros, pessoas de cor e africanos.   
Os velhos passaram a idosos, anciãos, terceira idade, seniores e senadores.
Interditos e inabilitados são agora beneficiários ou acompanhados.
O seu interrogatório (estigmatizante?) passou a audição.
O tutor é acompanhante.   
O marido passou a esposo, cônjuge e parceiro.
A mulher passou a esposa, cônjuge e parceira.     
As hospedeiras são assistentes de bordo.   
Os cegos passaram a invisuais. 
Carecas a calvos. 
Os gordos a obesos.   
Carecas, cegos, desdentados, surdos e mudos a portadores de deficiência.         
O chumbo passou a reprovação, eliminação, exclusão, não admissão e retenção.
A aprovação a admissão, aceitação, integração e inclusão.
O patrão tornou-se chefe e empregador. 
O trabalhador passou de subordinado a colaborador.     
Os despedidos passaram a dispensados, colaboradores dispensados ou cessantes.
Professor passou a docente.   
Aluno a estudante e discente.
Destruir a descartar.   
Casas de pasto a restaurantes.   
Retrete a casa de banho e sanitários. 
O sexo passou a género.
Prostitutas, prostitutos, gigolos, poliamores a trabalhadores de sexo. 
Falamos com rodeios. 
Com perífrases.   
Queremos ser perifrásticos.
Com expressões não frontais, por vezes barrocas, elitistas e tribais. 
Pretendendo ser neutras, inócuas, inofensivas, civilizadas e tolerantes.
E politicamente corretas.   
Querendo marcar a diferença entre a barbárie e a civilização?   
Como sinal da nossa tolerância para com o Outro? 
Ou pelo medo de usar palavras que se convencionou serem minimais e estigmatizantes?  

 

 

14.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

MACHADO DE ASSIS

 

O AUTOR COMPLETO DOS LIMITES SEM LIMITE!

O SEU LIVRO “A CASA VELHA” OU A HIPOCRISIA DAS CLASSES BURGUESAS

 

Ao reler Casa Velha de Machado de Assis, livro publicado em 1944, depois da sua morte, encontro ainda mais clara a similitude de significado entre um drama de família e a realidade política/histórica que se vive em sociedade no cerco e pelas limitações desta. Surgem-nos os acontecimentos políticos drapeados pelo pensar das gentes que os reflectem, e se deitarmos mão ao pressentir neste livro de um esboço de Dom Casmurro, entãotodas as entrelinhas são questões políticas de relevo, disfarçadas de histórias românticas, mesclando-se ambas em confidências acutilantes de verdade.

 

Neste livro, a narrativa é feita por um padre que por razões de fazer pesquisa na biblioteca de uma casa muito antiga e fidalga, nela encontra dados inerentes ao imperador Pedro II, bem como a seus altos membros de governo, cuja vida privada, mesquinha e devassa, permite a Machado de Assis a crítica aguda aos costumes sociais, aos seus jogos de interesse, religiosos ou não, a feiras de vaidades descritas numa fusão de interpretações, pertença única de Machado de Assis em palavras plenas de verdadeira essência anímica. E neste conto uma narrativa também de amor.

 

Diz-se que surge neste livro a descrição da primeira relação entre irmãos que se apaixonam desconhecendo os seus laços de sangue, temática posteriormente muito utilizada na literatura.

 

Lalau, moça de olhos largos de pureza-criança, amava como se o amor fosse a puberdade do espírito mas, assumindo-se como mulher neste sentimento, sendo que fingia acreditar que a leitura de Deus, por ser a mais velha, seria a melhor, num tempo em que para ela, tudo nunca era a aproximação sequer de quase tudo.

 

As travessuras da bela Lalau eram tão desafiantes que era sua a vontade de ver um desastre por dentro a fim de conhecer bem essa realidade, não podendo descortinar o malabarismo que lhe era feito pela sociedade, para que um qualquer fardado lhe parecesse rei. Ainda assim o rasgo pueril de achar prazer em qualquer coisa fazia-a dizer ao padre que se ele não pudesse conversar com ela, lhe agradecia se a deixasse ficar ali, a olhar para as paredes da biblioteca onde este fazia a pesquisa de dados históricos e políticos, pois ela também estava bem daquele modo: as paredes sempre lhe tinham contado muitas coisas.

 

E estas confissões de Lalau fizeram o padre descobrir-se a si mesmo de um outro modo, sobretudo quando foi o ciúme do amor de Lalau por Félix que o esclareceu de um acontecer que por Deus!, enquanto homem nunca poderia ter sido realidade diferente da que o levou ao respeito divino.

 

Haveria sim que assumir o compromisso da consciência antiga de sentir Lalau como mais do que uma criatura, ela era a sociedade humana se por aquele abismo que lhe preparavam, a sua decisão fosse a de arriscar sem mais. Havia que o evitar. A imperatriz da Casa Velha, D. Antónia gostaria de ter sido imperatriz nalgum ponto mínimo da terra que fosse, e ainda que tivesse oferecido educação a Lalau, não queria, nem sequer permitia que o padre reverendíssimo questionasse as suas decisões em relação ao futuro da moça. As ideias certas da casa velha eram as de que por ali ninguém vivia no mundo da lua e todos se haveriam de fazer às proximidades régias nem que não fossem dignas sequer de teimarias.

 

No dia em que Lalau falou pelo silêncio depois de lhe ter sido desmentido o laço de sangue a Félix, a vida humana foi para ela capital mendiga de tudo.

 

A verdade? Que verdade? Ex-ministros, criadas, escravos, os egoísmos de letrados, a claridade de que uma anedota era sempre algo político, os coronéis e a vida derramada que abrangia todos os recantos para os controlar e justificar poder de mando, mesmo quando quem baralhava as cartas, pudesse ser também uma casa velha, seca, nos rituais das novenas diárias, dentro da qual, a capela deitava missa cantada ou rezada, consoante as visitas da casa fidalga. Seria a missa mais solene, seguramente, desde que o governo mandasse fuzilar todos os legais que se achassem. E o fuzilamento poderia ser o de um amor entre seres que, supostamente, o não poderiam sentir. Só há que inventar. Só há que confundir! E o poder abre caminho sem esforço.

 

Um dia, depois de passadas as grandes tormentas, vi de relance Lalau, diz o padre narrador que os olhos de Lalau eram uma edição do vento que não vai às bibliotecas: era uma edição à qual se fechou a janela. E o que venceu não foi o amor, mas o valor pessoal.

 

Na Casa Velha multiplicaram-se as visitas e no limar das arestas, abriam-se mais entradas, totalmente discriminatórias, e cada qual sabia por onde entrar e sair. As soluções acomodatícias ligadas às emergências dos interesses e dos valores das actividades comerciais e financeiras e seus agentes estavam no auge. Além das entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho avesso que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos. D. Antónia não tinha de o percorrer, nem de se encher de pó para chegar à reza. O seu local era uma reserva vitalícia junto ao altar com bênção mais forte do padre pois que a distancia dela, contava em atribuições.

 

O Cônego, homem por natureza, tinha o seu álibi, em nome de Deus e o seu meio para ser.

 

Afinal as poucas coisas que não eram velhas na Casa, além de Lalau, eram os livros de Voltaire e Rousseau e deles uma busca de independência num mundo que deixava pouca margem para isso. Enfim, a viagem dos comboios é muito diferente da que fazem os rios.

 

Um século antes de Casa Velha, foi dito que o homem nasce livre, mas encontra-se sempre aprisionado.

 

Teresa Bracinha Vieira