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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEATROS DE VENTURA TERRA NOS 100 ANOS DA SUA MORTE

 

Ocorre este ano o centenário da morte do arquiteto Ventura Terra (1866 – 1919). Já por diversas vezes aqui referimos o muito que se lhe deve na renovação da estrutura arquitetónica das salas de espetáculo a que esteve ligado, pela conceção original dos edifícios e também na renovação e atualização de outros teatros que histórica e cronologicamente o antecedem.

 

Designadamente, referimos, em artigos diversos, tanto o Teatro Politeama, como sabemos em plena atividade, ao qual voltaremos, e o Teatro Club de Esposende, este projetado em 1908 por Ventura Terra, inaugurado como teatro em 1911 e convertido em Museu Municipal em 1993, segundo projeto de adaptação do arquiteto Bernardo Ferrão.

 

 Trata-se de um edifício de notável qualidade, na fachada estreita em arco, dominada por varanda. Em boa hora a Câmara Municipal o conservou e reconverteu, mantendo a vocação cultural.

 

Ora, é de assinalar desde já que Ventura Terra transcende e aplica a sua criatividade em sucessivas criações arquitetónicas de espetáculo e de convívio público. O que incluiu especificamente a reestruturação do próprio Teatro de São Carlos, exemplo incomparável em Portugal da arquitetura das salas de espetáculo.

 

Deve-se efetivamente a Ventura Terra obras de modernização do edifício, com destaque para a primeira grande obra de restauro do setecentista Teatro de São Carlos, inaugurado em 13 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa:  traçou diversas alterações a este teatro, modelo das casas de espetáculo da época.

 

Designadamente, nas obras de restauro efetuadas em 1908, alterou o grande foyer de entrada do Teatro e as pinturas do teto, que se deviam a Cyrilo Volkmar Machado. Mas mais relevante até hoje é a restruturação do interior, e designadamente do chamado Salão Nobre, belíssima sala de produção musical e de convívio.

 

E é de assinalar que, nesta avaliação de projetos de salas de espetáculo, encontramos Ventura Terra nas comissões que avaliaram os projetos de restauro do Teatro São João do Porto e do Teatro- Circo de Braga. Já ambos aqui referimos.

 

Como aliás já referimos a notável recuperação do chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira de Monção, onde se concilia a sala de pequenas dimensões, cerca de 50 lugares, com a magnitude do Palácio, desta forma valorizado também na dimensão cultural do espetáculo.   

 

Voltaremos a evocar Ventura Terra, designadamente a propósito do Teatro Politeama: e esse, como bem sabemos, mantem-se em plena e pujante atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LII - NÃO AO COMPLEXO DE INFERIORIDADE LINGUÍSTICO (V)

 

Exemplos mais recentes podem exemplificar esta indiferença ou omissão linguística  que tantas vezes implementamos. 

 

Em agosto de 2013, na National Gallery de Dublin, Irlanda, tentaram disponibilizar-me um áudio-expositivo, em castelhano, dada a minha nacionalidade e a ausência em português, com a observação: “Sir, please, but we have spanish![1]. Optei pelo inglês, lamentei a omissão, expus as minhas razões, reclamei por escrito, com a anuência e colaboração duma interlocutora irlandesa.

 

No dia anterior, no início da visita à “Guiness Storehouse”, foi o “espanhol”, uma vez mais, o idioma aconselhado, num opcional roteiro em grupo, por falta de guias em português, o que educadamente (eu e família) recusámos, não deixando de argumentar que a omissão da nossa língua não é suprida pela sugerida, nem dela dependente ou seu dialeto, por muito respeito que nos mereça. Fizemos a visita com a vantagem de nos ter sido dado na bilheteira um mapa informativo do percurso em português. Versões em português existiam ainda na Catedral da Igreja de Cristo (Christ Church Cathedral) e de São Patrício (St Patrick`s Cathedral). 

 

Todavia, em Abril de 2014, em Copenhaga, Dinamarca, nos passeios turísticos de autocarro e barco, as informações eram em dinamarquês, inglês, alemão, castelhano, italiano, polaco, sueco, russo, japonês e chinês. Nunca em português. 

 

Observam-se progressos, como na gala da Fifa, em Zurique, Suiça, em Janeiro de 2014, onde Cristiano Ronaldo falou e agradeceu em português, ao ser tido como o melhor futebolista do mundo de 2013 recebendo, pela segunda vez, a Bola de Ouro (Pelé, ao receber a Bola de Ouro de Honra, pela sua carreira, falou inglês), ao invés de 2008, em Paris, onde se expressou em inglês, ao receber, pela primeira vez, o mesmo troféu. Acrescente-se a abertura em português de um sítio na net pela Fifa e o acesso à biblioteca digital mundial, em sete línguas (árabe, chinês, inglês, francês, castelhano, russo e português), usando o critério do número global de falantes à escala planetária.  Para quando esclarecimentos e legendas em português em CD e DVD de música clássica e ópera?   

 

Merece referência o testemunho de Carlos do Carmo quando recebeu um Grammy Latino de Carreira, em 19.11.2014, em Las Vegas, onde decidiu falar em português, após observar algo que era embaraçoso para ele: todos falavam em espanhol. E acrescenta: “Fiquei até dececionado com um artista que admiro muito, o Ney Matogrosso, que de repente pega num papel, começa a ler e… fala em espanhol. Porquê, se ele vem de um país onde 200 milhões de pessoas falam português? O português é uma das quatro ou cinco línguas mais faladas no mundo, porque é que vou estar aqui encolhido a falar uma língua que não é minha, mesmo que a consiga dominar?”.    

 

Progressos pontuais que não justificam o conformismo e indiferença de muitos portugueses e outros lusófonos, sejam emigrantes ou turistas, menos ainda quando no nosso próprio país.                 

   

16.07.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] “Senhor, por favor, mas temos em espanhol!”.

 

AS CARTAS E OS TEMPOS

 

Pedro L.,

 

Respondo-te, surpresa pelo teu contacto, como quem ante o teu rosto, regressasse da tua própria ausência. E sim, sabemos todos uns dos outros. Escrevemo-nos e vamos falando e quando possível estamos juntos. Nunca todos, a Leonor, o Miguel, nem sequer moram cá, contudo, quando falamos, a memória ajuda-nos a adquirir meios de conhecermos a razão de hoje sermos do modo que cada um é; de nos aceitarmos, ou não, dos outros nos quererem, ou não, com o que temos dentro. Falamos mais de vidas e ideias concretas e já não tanto de ângulos ideais, presença protetora ao desejo do acontecer do então. Como bem sabes, em seu tempo, quisemos crer que o mundo era aquele, aquele das transgressões e das batalhas decisivas onde tudo se passava nas estradas dos astros e das esferas por decifrar - a tua jovem mulher bem o intuiu, e, por ti, desconexa, adoeceu do teu viver.

 

Hoje, curiosamente, entre o nosso grupo, teve lugar uma religação, se assim lhe posso chamar, como se todos soubéssemos bem que desde a adolescência conjunta, o caminho de cada um se fez daquele modo que habitou todos, tecendo desgostos, alegrias, doenças, separações, mortes, profissões, verdades, furiosas mentiras, filhos a chegar e a partir, paixões, sensualidades, amores, e, afinal, a nossa pertença ainda é hoje nua à mercê do deslumbrar-se. Esta a tal religação ao passado que se despertou ao nosso peito de agora e que te queria referir. Enfim, tudo quanto me dizes Pedro L., não altera em nada o desejo de todos pela oficina secreta que consertasse os mistérios que se nos abrissem rotos de futuro; não altera em nada a força do teu encanto - só frágil de aparência - com que amavas a Leonor, não desconhecendo tu os teus sentires cheios de angústias, que, necessariamente, nela encontrariam tão inocente colo. Disse-me um dia a Leonor, que tinha sido preciso amar-te muito para entender que a tua fantástica modernidade estava refém de uma espécie de seita religiosa que vos levaria a nenhuma vida em vós poder perdurar, e mais, tudo terias feito para que a dor que lhe causaste expressasse bem a tua clara definitividade de a afastar.

 

Pedro L., bem sabes que do passado te falo pois me questionas como se acaso não me fosse claro que bem dominavas o esfriar e por essa razão vencerias sempre. Também hoje sei que a tua permanente depressão era tão forte quanto a tua sedução, ambas, juntas, fariam muito mal a quem acreditasse nos teus beijos. Na realidade, afastaste brutalmente a Leonor da tua vida, não vejo pois razão para ser eu a dar-te o seu contacto.

 

Queria ainda dizer-te que o Miguel nunca se considerou teu amigo. Achava-te demasiado polido na tua profissão para ser verdade a tua devoção a ela. Já o Nuno sempre gostou de ti, sempre te admirou, e tanto mas tanto que te seguiu as pisadas, na mesma universidade, dois anos mais tarde. Saberás porquê? Creio que sim. Ele diz que sim. A Beatriz adorava-te e ele copiando o teu estar haveria de a conquistar.

 

Pedro L., esta, uma carta de época, adequada à que me enviaste. De dizer-te ainda que de ti não tenho uma nova noção, sei apenas que no limiar estamos todos, e, ainda que perigosamente me deixe surpreender, aceito o café que me sugeres no nosso velho refúgio de Óbidos.

 

Abraço-te do meu avesso.

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

CONFISSÕES DO PAPA FRANCISCO. 3

 

Termino a longa e bela entrevista do Papa Francisco à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México.  Temas importantes de hoje: a reforma da Igreja, erros cometidos e a confissão, acusação de heresia, o diálogo com o islão, o desejo de ir à China, quanto tempo ainda de pontificado?

 

2.15. Francisco e a reforma da Igreja. A jornalista: “Qual é a coisa mais bonita que julga ter feito?” “O mais bonito para mim é, foi e é sempre estar com as pessoas, que queres que te diga? Eu renasço quando vou à praça (Praça de São Pedro), quando vou a uma paróquia. Às prisões..., estar com as pessoas. Sim, sou Papa, sou bispo, fui cardeal..., isto tudo pode cair, mas, por favor, não me tirem o ser padre, cura.”

 

Erros? “Erros há sempre. Confesso-me todos os 15 dias, o que significa que cometo erros.” A jornalista: “E são confissões longas ou curtas?”. Francisco: “A curiosidade feminina!, ‘the human touch’! “Como reagiu a essa de o acusarem de herege?” “Com sentido de humor, filha”. A jornalista: “Não lhe dá muita importância?” Resposta: “Não, não, rezo por eles porque estão equivocados, por vezes, pobre gente, alguns são manipulados. Vi quem eram os que assinavam... Não, a sério, sentido de humor e eu diria, ternura, ternura paternal. Quer dizer, isso não me fere minimamente. A mim o que me fere é a hipocrisia, a mentira.”

 

A jornalista: “E com a sua reforma tem a sensação de que estamos...” Resposta: “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram. Isto é assim, tal qual. As pessoas têm vontade de reformar. O esquema de corte tem de desaparecer. Foram os cardeais que o pediram. Bem, a maioria, graças a Deus.” A jornalista, referindo o caso de Maciel, fundador da Legião de Cristo, observou que o Papa João Paulo II tinha “obstaculizado essas reformas...”. Resposta: “Por vezes, enganaram João Paulo II.” No caso de Maciel e dos Legionários, “Bento XVI foi corajoso. E João Paulo II também. Quanto a João Paulo II, é preciso entender certas atitudes, porque vinha de um mundo fechado, a cortina de ferro, ainda estava vigente o comunismo lá... E havia uma mentalidade defensiva. Temos que compreender bem, ninguém pode duvidar da santidade desse homem e da sua boa vontade. Foi um grande.”

 

2.16. Geopolítica e islão. Pergunta a jornalista: “Qual é a sua estratégia face ao islão? Sente-o como uma prioridade neste momento?” Francisco: “Penso que sim. De facto, vou aos bairros em Roma, às paróquias e vêm, dizendo: ‘sou muçulmano’, ‘sou muçulmana’. Vêm saudar-me ou estão com o véu. Ou seja, o islão entrou na Europa outra vez, sejamos realistas, o islão é uma realidade que não podemos ignorar.” Também na África, há bispos que contam que há muçulmanos que vão rezar ao altar de Nossa Senhora. “Creio que somos irmãos, vimos todos de Abraão e nesse aspecto sigo as linhas do Concílio: estender as mãos aos judeus, aos islâmicos, estender as mãos o mais possível.”

 

Francisco reconhece a evidência de que “o islão está de modo muito forte ferido por grupos extremistas, por grupos intransigentes, fundamentalistas. Também nós, os cristãos, temos grupos fundamentalistas, pequenos grupos fundamentalistas, que obviamente não são guerrilheiros. Conclusão: é preciso ajudar os muçulmanos com a proximidade para que mostrem o melhor que têm, e esse melhor não é precisamente o terrorismo.” Está aí “o grande tema dos mártires cristãos...”, observa a jornalista. E Francisco: “Sim, e bastam pequenos grupos para causar desastres”.

 

Neste contexto da cristianofobia e da paz, chega a notícia do convite oficial para que o Papa visite o Iraque, o que poderá acontecer já em 2020: “Tenho a honra de convidar oficialmente Sua Santidade a visitar o Iraque, berço da civilização e lugar de nascimento de Abraão”, escreveu o presidente iraquiano, Barham Salih, numa missiva ao Papa. É sabido que aí, ao longo dos últimos anos, o número de cristãos passou de 1.5 milhões para uns 500 mil.

 

Ainda neste domínio, é necessário relembrar o que Francisco também tem sublinhado em ordem a este diálogo e à paz. Em primeiro lugar, também o islão tem de aprender o que custou à Igreja Católica, mas aprendeu: a leitura dos textos sagrados, no caso dos muçulmanos, do Alcorão, não pode ser literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, é essencial salvaguardar a laicidade do Estado, isto é, a separação da religião e da política; por outras palavras: o Estado deve ser laico, não pode ter uma religião oficial; o Estado tem de ser confessionalmente neutro, para garantir a liberdade de todos. Sem a laicidade, não se supera a chamada capitis diminutio, isto é, a diminuição de cidadania dos cidadãos que não seguem a religião oficial. Dois princípios fundamentais.

 

E, evidentemente, Ahmed al Taleb, o Grande Imã da Mesquita e Universidade Al Azhar, no Cairo, com quem o Papa Francisco assinou, em Abu Dhabi, a histórica Declaração “A Fraternidade Humana”, a que aqui fiz longa referência, não pode continuar a aprovar que se bata na mulher “sem lhe partir um osso”: “Não deve partir-lhe um osso nem provocar danos num órgão ou membro do seu corpo nem tocar-lhe com a mão na cara nem provocar-lhe feridas nem causar danos psicológicos.”

 

Ainda no quadro da geoestratégia, Francisco confessa que o seu sonho é a China: “o meu sonho é a China. Gosto muito dos chineses.” Apesar das críticas, já que a perseguição não acabou, saúda o acordo com a China, para superar a dualidade da Igreja unida a Roma e a patriótica. “Agora, os católicos fruem o estar juntos. Com toda a política exterior dos pequenos passos, alguns sentem-se fora, isso é verdade, mas é a minoria. De facto, celebraram a Páscoa todos juntos, todos juntos e em todas as igrejas, este ano não houve problemas.” “Leva-nos à China?”, perguntou a jornalista. “Ficaria encantado. Para si vai ser a viagem número...”.

 

2.17. Quanto mais tempo ainda como Papa? A jornalista: “Lembra-se de que há quatro anos me dizia: ‘é que eu tenho a sensação de que o meu pontificado vai ser breve, dois, três, quatro anos...’, e já estamos, felizmente, no sexto.” Francisco: “E eu tenho a mesma sensação.” A jornalista: “Já passaram seis anos, já não é tão curto.” Francisco: “Mas também não pensemos em 20.” A jornalista: “Bom, em 20 talvez não, porque tem 82. Mas nos 100 anos...”. Resposta: “Está bem.”

 

A jornalista: “Recordo que também me disse que o que mais estranhava era como Papa não poder sair às escondidas para comer uma pizza, lembra-se? Já conseguiu fazer isso?” Francisco: “Não. Em Roma do que mais tenho saudades é de sair para comer uma pizza... Não, não o fiz. É uma coisa a que tenho de renunciar. Porque em Buenos Aires ia. A mim a rua diz-me muito, aprendo muito na rua.”

 

3. E a gente fica com a sensação de que Francisco, no meio de todas as crises por que passam a Igreja e o nosso mundo, é uma bênção para a Igreja e para o mundo. E compreendemos também o diálogo, no seu breve encontro com o Padre Ángel, o profeta dos pobres, presidente da ONG “Mensageiros pela Paz”, no Panamá, aquando do encontro da juventude: “Como estás?”, perguntou-lhe o Papa. Resposta: “Vou bem, apesar dos problemas. E tu, Francisco?” E Francisco: “Sobre os meus problemas, nem te falo.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 JUL 2019

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

FOLHEANDO REVISTAS ANTIGAS DE QUADRADINHOS (IV)…
16 de julho de 2019

 

Falámos talvez pouco de Hergé (1907-1983). Ele é o herói. A revista que hoje vos trago é de 1966. O fenómeno de sucesso ocorre essencialmente depois dos anos quarenta e cinquenta, graças aos continuados do journal Tintin e à nova apresentação das aventuras do jovem repórter em álbuns muito cuidados quer no tocante à qualidade do argumento, das ilustrações e do colorido. Hergé teve a intuição e a sabedoria, o talento e a arte, de compreender que era necessário criar um estúdio profissional servido de uma equipa de elevadíssima qualidade. Já referimos o papel desempenhado por E. P. Jacobs e por Jacques Martin, entre outros, o que permite verificar não haver comparação entre as versões originais do “Petit Vingtième” e os álbuns coloridos, que irão conhecendo aperfeiçoamentos. Mas para que tudo isso fosse possível é preciso voltar a citar Raymond Leblanc (1915-2008), o editor de visão larga que acreditou em Hergé e construiu uma máquina de grande eficácia que lançou o herói da BD… A chegada à Lua de Tintin é reconhecida hoje como dos exercícios mais rigorosos de ficção científica, uma pérola de antecipação… De Gaulle afirmou que só tinha um concorrente internacional, que se chamava Tintin. A literatura francesa e mundial incorporam a figura de Tintin. François Mauriac lamentou, porém, os gostos da geração Tintin, mas enganou-se redondamente, uma vez que não só líamos Tintin, mas também nos preparávamos para ler Thérèse Desqueyroux… O tema da imagem entrava na ordem do dia – no cinema, na fotografia, na banda desenhada – e não largava a importância da narrativa… E Edgar Morin disse em 1958: “Tintin sauvegarde la liberté illimitée du rêve de l’enfance, mais en orientant vers les rêves déjà socialisés du cinéma d’aventure pour adolescents et adultes (…) dans les rapports imaginaires de Tintin, le petit super-boy est roi »…  Mas havia mais : Blake e Mortimer eram a melhor introdução aos melhores policiais. Alix Graccus na companhia do jovem egípcio Enak levava-nos para os clássicos da República Romana. Albert Weinberg (1922-2011) fazia-nos entrar no mundo da aviação de vanguarda com Dan Cooper, antecâmara da ficção científica, Jean Graton levava-nos para o automobilismo, e a lista é muito longa: Modeste e Pompon (Franquin), Oumpah-Pah (Uderzo e Goscinny), Corentin (Cuvelier), Bob e Bobette (Vandersteen), Chick Bill (Tibet), Pom e Teddy (Craenhals), Jari (R. Reding), Ric Hochet (Tibet e Duchâteau), Guy Lefranc (com a marca indelével de J. Martin), Le Chevalier Blanc (L. e F. Funcken), Spaghetti (Dino Attanasio), Clifton (Macherot), Taka Takata (Jo-el Azara), Bernard Prince (Hermann), Bruno Brazil W. Vance), Cubitus (Dupa), Olivier Rameau (Dany), Luc Orient (Eddy Paape)… Mas nesta imensa lista, não podemos esquecer Greg o argumentista inesgotável, a aparecer em toda a parte, com uma prodigiosa imaginação.

 

Eis o ponto onde ficamos. Mas não esquecemos os nossos grandes como Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910.1996), Vítor Péon (1923-1991), José Garcês (1928) ou José Ruy (1930)…, mas esses contos serão outros aos quais regressaremos…

 

Para terminar hoje, cito um belo poema do meu Amigo Ruy Belo – «Portugal Futuro»…

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de julho de 2019

 

“Terra de Ninguém 1981-1995” é o catálogo da Exposição individual realizada em 1996 na Fundação C. Gulbenkian, dedicada a Gaëtan, com textos de Jorge Molder e Manuel de Castro Caldas, além da biografia e de bibliografia – onde se reconhece a originalidade e a força da obra do autor que agora nos deixou. 

 

 

UM TEMPO QUE EVOLUI DEPRESSA
Quando traduziu “O Tempo Envelhece Depressa” de António Tabucchi, Gaëtan deixou a expressão exata de um percurso rico e multifacetado, no qual sempre foi um interrogador: o tempo dos acontecimentos que cada um vive ou está a viver confronta-se permanentemente com o tempo da memória ou da consciência. E, de algum modo, a atitude que o artista assume na sua criação pressupõe este confronto. Não se pense, pois, que a autorrepresentação repetida ao longo de uma obra muito rica significou uma preocupação consigo próprio. Não. A cada passo encontramos o seu rosto como espelho de outros rostos e modo de compreender plenamente que é na relação com os outros que se manifesta plenamente a dignidade humana. Há, pois, a presença do rosto como espelho das almas. Os outros são sempre o princípio e a continuação de nós mesmos, a outra metade… Como disse João Pinharanda: estamos perante “máscaras que Gaëtan coloca, não sobre o seu rosto, mas em frente do seu rosto? De qualquer maneira, são um Outro”. E quando lemos Emmanuel Lévinas sobre a importância do rosto, compreendemos melhor o significado da obra de Gaëtan. De facto, é a responsabilidade para com os outros, tão importante para o filósofo francês, que se manifesta. E a ligação entre o pensamento, a literatura e a representação gráfica e artística é decisiva para Gaëtan já que aí encontramos referências desde o Padre António Vieira até Truffaut ou Jacques Demy, nos vários domínios em que trabalhou, em especial o da edição, uma vez que trabalhou na extinta Ulisseia e assinara traduções de autores, além de Tabbuchi, como Marguerite Yourcenar, Italo Calvino ou Bruno Zevi. 

 

UM MARCO DECISIVO…
Não podemos, de facto, esquecer a exposição antológica "Terra de Ninguém", que a Fundação C. Gulbenkian dedicou a Gaëtan, em 1996, assim como o facto de ter incluído o seu trabalho, "inúmeras vezes", em mostras permanentes da coleção e em exposições coletivas, "tornando assídua a força inquieta da personalidade culta e delicada" do artista. Uma força que deve destacar-se na sua obra, mas também quando “dirigia um sorriso, uma observação, uma vontade genuína de empatia". Em 1981, Gaëtan centrou-se no desenho, que passou a tratar de modo continuado, aprofundando as variações sobre o mesmo tema, que era o seu rosto, como pretexto de trabalho. Olhando a obra multifacetada, refira-se que participou na XXI Bienal de Paris (1980), na mostra "Depois do Modernismo", na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa (1983), em "Tríptico", no Museum van het Hedendaagse Kunst, em Gent (1991), na Bélgica, em "Drawing Towards a Distant Shore: Selections from Portugal", no The Drawing Center, em Nova Iorque (1994). Expôs ainda no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, em Lisboa, em 2004, sendo reconhecido como “um dos artistas portugueses que mais recorreram ao desenho, praticando-o de forma quase exclusiva", lê-se na apresentação do Museu de Serralves. "Apostado em expulsar da sua prática quaisquer tiques de academismo, cedo decidiu que, sendo destro, passaria a desenhar apenas com a mão esquerda. "Esta recorrência ao seu rosto", como material de base, foi já descrita como "uma arte da fuga, composta de variações sobre o mesmo tema". "Os desenhos em que Gaëtan se retrata, e onde surgem pequenas mudanças mais ou menos percetíveis da sua face e do seu corpo (...) têm servido para eleger o tempo e a memória como os verdadeiros temas do seu trabalho". Daí a ligação com a reflexão de António Tabbuchi em “O Tempo Envelhece Depressa”. Saliente-se ainda que a Fundação Calouste Gulbenkian disponibiliza 'online' a reprodução de "Agnus Dei (olhos castanhos, camisa aberta)", uma das obras de Gaëtan, da sua coleção, assim como a série "Arte de Fuga”. Gaëtan está representado em coleções públicas e privadas, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Luso-Americana, Caixa Geral de Depósitos, do Ministério da Cultura, da Fundação Carmona e Costa, do Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, bem como no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto ou no Museu de Arte Contemporânea, no Funchal, entre outras instituições. Gaëtan estava a preparar uma exposição individual para a Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, que esperamos poder ver realizada.

 

UM CASO ESPECIAL
Ao lado de Helena Almeida e Jorge Molder, Gaëtan apresenta a especificidade da representação de si mesmo como interpretação do mundo e como projeção do mesmo. Segundo a socióloga Anabela da Conceição Pereira, em “O Rosto da Máscara” (2013): “A singularidade, como observado, pode ser autoral ou biográfica. Embora, a singularidade exceda a autoria em muitos aspetos, dificilmente, um autor pode ser separado da sua corporalidade/identidade. Não há, por exemplo, autor sem um corpo que lhe corresponda. Contudo este (autor) continua a ser apenas um dos papéis desempenhados pelo ator (artista), ou na formulação de Foucault (1971) uma das funções sujeito. E, o reconhecimento é ao mesmo tempo singular (casos típicos) e social/artístico ou simbólico (representativos). As duas dimensões requerem formas de exercer o poder, como a criatividade e de o manter (durabilidade) como a legitimação, que pode ser intrínseca (qualidade da obra, originalidade, agência) ou atribuída (redes de reconhecimento, mediadores, mercado, etc.)”. De facto, olhando as diferenças e as aproximações entre Helena Almeida, Jorge Molder e Gaëtan percebemos a importância da perspetiva assumida pelos artistas, na qual é o diálogo com o mundo e a vida que está em causa – percebendo-se que a tensão especial assumida por Gaëtan “contra mundum” constitui um modo próprio de afirmação da humanidade como ato de sobrevivência.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS – II

   

  Nicole Lemaître é professora de História Moderna na Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne e, ainda, docente no Institut Catholique de Paris. Como comentário e aditamento ao meu texto anterior - cujo título e tema este agora presente retoma - traduzo passos do que ela escreveu sobre o tema do Padre. Será longa a citação, mas os trechos seguintes certamente nos ajudarão a ter uma visão mais abrangente da temática e problemática do sacerdócio na Igreja:

 

  O padre torna-se celibatário e modelo de cristão a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanha periodicamente tal ser posto à parte, particularmente nos séculos XVI e XVII, quando a figura do padre se constrói por oposição aos pastores cismáticos e, posteriormente, entre 1800 e 1950, na peomoção eclesial duma sociedade perfeita. Mas no primeiro milénio as coisas não eram assim tão claras. Na origem, o enquadramento das comunidades era assegurado por ministros diversos, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos, exercia um verdadeiro apostolado, e em caso algum era um «separado». Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça. São eles que guardam cada igreja e têm por missão apascentar o rebanho de Deus. Passadas as primeiras gerações, uma hierarquia a três filas é instalada: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros que os diáconos assistem. Mas não é necessário passar por todas essas etapas - São Cipriano tornou-se bispo sem nunca ter sido padre nem diácono: na verdade, o ministério põe-nos a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, enquanto sucessores dos apóstolos, a todos qualifica para serem intendentes de Deus. Embora recebam a imposição das mãos, prosseguem todavia a sua vida normal, casam-se e exercem um ofício.

 

   Não é meu propósito comentar sequer aquela instituição de "separado" ou "posto à parte" que, por outras palavras, se pode dizer "sectário". Ou ainda, no seio da mesma sociedade, "pertencente a uma casta". Todos poderemos entender como, em sociedades maioritária ou crescentemente cristãs, que procuram reorganizar-se depois da queda do Império Romano, e no advento de um mundo de senhores feudais, se pretendesse assegurar a independência das comunidades e autoridades religiosas pela invocação de inspirações, princípios e normas que acentuassem o carácter eminentemente religioso e divino dos mandatos das autoridades eclesiásticas em circunstâncias fás ou nefas, como, em contextos bem diferentes, diria o Embaixador Franco Nogueira. Na preocupação com o reforço do poder espiritual ou eclesial face ao político, numa cristandade que evolui em tempos e modos novos, a maior legitimidade divina do primeiro é princípio que conveniente e evidentemente se impõe, até como justificação da sua independência própria. Assim, a afirmação de um estatuto sacerdotal distinto e marcado será fator de existência política. A par dos ritos de iniciação e ordenação, dos sinais sacramentais e paramentais desenvolvidos, a exigência do celibato (não simplesmente da castidade, que é coisa também própria das relações matrimoniais) torna-se constitutiva da pessoa e da classe sacerdotal.

 

   Paralelamente se irá desenvolvendo uma espiritualidade condizente, acentuadamente induzida pela ideia de vida consagrada ao serviço exclusivo das coisas de Deus. Tal sentido de serviço da caridade, incarnada em vidas como as do santo cura d’Ars - e tantas outras, ao longo de séculos e hoje ainda - ou em ficções tão profundamente inspiradas e tocantes, como Le Journal d´un Curé de Campagne, do Georges Bernanos, para falarmos só de casos de padres inseridos no drama das vidas quotidianas da gente comum (que todos nós somos), tal sentido do serviço evangélico e fraterno foi sendo a boia de salvação de uma Igreja que o clericalismo teimou entregar nas mãos da vaidade temporal e do autoritarismo soez. Recentemente, a canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, o arcebispo peregrino das serranias nortenhas e suas gentes perdidas num Portugal esquecido, aviva-nos a memória da consciência cristã.

 

   Mas todas essas espirituais exceções também nos convidam a repensar as regras de que se distinguiram. Fica para outra conversa.

 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DO TEATRO NA OBRA DE MANOEL DE OLIVEIRA

 

Em Serralves, foi recentemente inaugurada a Casa de Cinema Manoel de Oliveira. Merece referência esta sala de espetáculos, a partir da homenagem que a designação contem. Pela vida, excecionalmente longa, pela obra, excecionalmente qualificada e como tal reconhecida, e pela projeção internacional que com toda a justiça alcançou.


Evoca-se pois a obra e a atuação de Manoel de Oliveira na adaptação e realização cinematográfica de peças e demais expressões de teatro. E há que atender à cronologia, não só do realizador/encenador (absolutamente excecional: 1908-2015!...) como também do conjunto de peças que transpôs, seja permitida a expressão, para a potencialidade cénica e cinematográfica.


E isto porque em rigor, a dramaturgia filmada e adaptada por Manoel de Oliveira assenta numa capacidade de espetáculo que tanto se molda à cena como à projeção: sendo certo que Manoel de Oliveira é sobretudo um criador de cinema.


E se considerarmos a cronologia, não tanto dos filmes como das peças subjacentes, encontramos desde logo um texto clássico: o “Auto da Muito Dolorosa Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” da autoria do Padre Francisco Vaz.  Datado de 1559, portanto há exatos 460 anos, mas, ainda há relativamente pouco tempo representado em Trás-os-Montes, foi filmado por Manoel de Oliveira em 1963 no filme que denominou “Ato de Primavera”.


E é interessante constatar que a expressão dramática em si mesma é como que transposta para a expressão e criação cinematográfica, não obstante, note-se ainda por cima, a difícil dramaticidade deste longo texto.


Mas há mais textos de teatro adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira.


Desde logo, José Régio. “Benilde ou a Virgem Mãe”, peça datada de 1947, e “Mário Ou Eu Próprio – O Outro”, esta datada de 1957, foram ambas filmadas por Oliveira: e quando escrevemos “filmadas” temos bem presente a recriação cinematográfica, digamos assim. E não é fácil transpor para a estética e sobretudo para a técnica cinematográfica um texto criado e vocacionado para a expressão teatral...


O que mostra a globalidade do sentido estético de Manoel de Oliveira no que se refere a espetáculo: com o circunstancialismo de que no cinema, a estética envolve e exige a técnica respetiva!


A sua excecionalmente longa vida permitiu portanto uma excecionalmente longa atividade: e merece referência especial a sucessiva adaptação de obras ligadas à criação literária. Já citamos Régio, mas também Camilo Castelo Branco, Agustina Bessa Luís, António Patrício, e sobretudo, o próprio Manoel de Oliveira, que tantas vezes se assume como escritor, ao criar textos que filmou...


Saúda-se pois esta iniciativa que consagra, num edifício do Arquiteto Álvaro Siza, a obra ímpar de um cineasta português, internacionalmente reconhecido e consagrado.


E voltaremos ao assunto.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LI - NÃO AO COMPLEXO DE INFERIORIDADE LINGUÍSTICO (IV)


Além da desautorização a que é votado o português em várias organizações, congressos, fóruns, encontros, eventos artísticos e desportivos internacionais começando, muitas vezes, pela omissão dos próprios lusófonos nos seus países, citaremos mais exemplos da inferiorização, tendo como referência o nosso país e algumas viagens ao estrangeiro.   


Com alguma frequência nos deparamos com situações em que produtos importados, comercializados e distribuídos em Portugal são omissos quanto a instruções escritas em português, o que nunca deveria suceder, apesar do preâmbulo do Decreto-Lei n.º 238/86, de 19/08, reconhecer “(…)que o crescente alargamento do mercado nacional a produtos ou serviços de origem estrangeira, quando não acompanhado pelo uso da língua portuguesa, inviabiliza na prática o exercício do direito à informação”, o que não impede que as omissões continuem, incluindo novas tecnologias de ponta, sem que nada aconteça, que se saiba, dada a sua repetibilidade, embora puníveis por coima.


Não obstante a indiferença do cidadão comum, no geral, não denunciando nem reclamando, por maioria de razão se censura a omissão dos entes fiscalizadores, já que deveria ser um dado adquirido que, sendo nós portugueses e residindo em Portugal, o direito à informação no nosso idioma é um direito fundamental. Direito (à informação) que também não funciona quando, por tudo e por nada, se usam expressões ou termos anglófilos, por vezes em exclusivo, eventualmente tidos como mais abrangentes e civilizados, apesar do provincianismo.     


Se antigamente a regra era ter como melhor língua a do vendedor, por uma questão de prestígio, penso que atualmente não chega, pois apesar de dar prestígio, não dá negócio, havendo que inverter o padrão e defender que a melhor língua é a do comprador. 


É incompreensível, por outro lado, que pelo menos até 2006, o nosso idioma estivesse ausente no Estado do Vaticano (desconheço se ainda em 2019), o que testemunhei em visita familiar, em julho/agosto,  apesar de mais falado que o francês e alemão (aí presentes, a par do inglês e castelhano), tanto mais surpreendente quando o Brasil é o maior e mais populoso país católico. Em 3 de Agosto, em visita à igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, havia confessionários em italiano, espanhol, francês, inglês, alemão, polaco, checo, holandês, húngaro, latim, svensk (presumo que sueco), norsk (presumo que norueguês), slovensky (esloveno), ttiêng viêt (?), ttio (?)… Procurei o português e notei a ausência, confirmada por uma segunda procura. Sem duvidar que, por princípio, todas as línguas têm a mesma dignidade, porquê tal omissão, sendo os lusófonos em maior número e maioritariamente católicos, por confronto com os falantes da maioria das línguas aí representadas? Qual a influência e o protagonismo das instituições católicas, entes diplomáticos, governamentais, outras entidades e associações lusófonas, inclusive via CPLP, para alterar tais incongruências!?   


Dia 31 de Julho de 2006. Visita não programada a Nápoles e Pompeia. A guia, italiana, falava inglês, francês, castelhano, holandês e, ao que suponho, japonês, mas não português. Manifestei o meu desagrado. Já o tinha feito quando interpelado a ter de escolher entre o inglês e preferencialmente o “espanhol”, dada a parecença deste com o português, atento o argumento usado. Optei pelo inglês, sugerindo-se a mais-valia em falar português, mais falado que o francês, italiano e alemão, para além do holandês e japonês, enumerando-lhe os países falantes, o que disse saber, acabando, no final, por pronunciar bom dia e obrigado. Sugeriu-se, por escrito, para a necessidade crescente dos guias falarem o nosso idioma, o que foi subscrito por quatro portugueses. 


Em 21 de Agosto de 2006, numa breve estadia em Maiorca (Baleares), deixei uma reclamação/sugestão escrita no hotel, com o seguinte teor (em português): “Este hotel tem muitos portugueses. Mas esquece Portugal e a língua portuguesa. Fala-se italiano, francês, alemão, inglês, há livros em holandês, informações em polaco… Em português, há um canal de televisão. É pouco para um país vizinho de Espanha, a quem dá muitos turistas. Portugal não tem direito a uma bandeira na entrada do vosso hotel!... Incompreensível. Além disso, o português é mais falado que o francês, alemão, italiano, holandês e polaco. Espanha é mais bem tratada em Portugal. Pelo que vejo merece tratamento diferente. Não admira que muitas pessoas digam (e pensem) que Espanha tem uma mentalidade imperial e arrogante. Obrigado”.   


Entreguei-a ao diretor, a quem observei ser gratificante para nós, portugueses, ouvir pronunciar um mero bom dia, boas férias, obrigado, muito obrigado, ou expressões equivalentes, em espetáculos ou eventos sociais, à semelhança de agradecimentos e cumprimentos noutras línguas, mas em que está ausente o português, quando era significativa a presença de turistas lusos.   


Sensibilizei-o não fazer sentido tudo isto e a ausência da bandeira portuguesa, não só pela clientela lusa, mas também por sermos um país vizinho, sendo suficiente este último argumento por uma questão de boa vizinhança e proximidade. Ser uma mais-valia apostar no português, um idioma com futuro, havendo também que pensar no Brasil e demais países lusófonos.     


Deu-me razão, que ia colocar a questão superiormente, ficando a promessa que a nossa bandeira iria ter presença num dos mastros do hotel, que iriam ser impressos livros com informação em português, além de entender os qualificativos da mentalidade espanhola (castelhana), por ser catalão, pedindo-me desculpa. No Natal desse ano, recebi em Portugal um postal de boas festas, onde me era comunicado, após reincidentes desculpas, que a nossa bandeira flutuava à entrada do hotel, havendo folhetos e livros informativos em português na receção e áreas comuns do interior.


Em julho de 2005, de visita à Catedral de São Paulo, em Londres, reclamei oralmente para a omissão de prospetos gratuitos e informativos para os visitantes em português, não o tendo feito por escrito, dada a ausência de recetor, segundo informação obtida. 


Em agosto de 2010, na Turquia, num resort muito frequentado por portugueses, sugeri dever haver um canal de tv na nossa língua, algumas palavras em português em locais públicos de passagem comum e objetos de mesa, em paralelo com as de outros idiomas, o que ficou de ser estudado, dada a crescente procura de turistas nacionais.

 

09.07.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

JOÃO GILBERTO

 

A UNESCO considerou, que a morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural”


Não chega de saudade não! Não chegará nunca! João Gilberto e seu Violão ou o azul num frente a frente.


Vai minha tristeza

E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer


Chega de saudade

A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

(…)


“Chega de Saudade”, escrita por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi gravada por João Gilberto, em 1958.

O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado em miserabilidade e solidão no Rio de Janeiro. Assim li hoje.


E diz-se que os seus olhos nunca choraram pois apenas olhavam um para o outro.

Caetano afirmou sempre
que qualquer músico brasileiro pós-1959 (há quem chegue até nos Beatles) foi reinventado por João Gilberto. A sua experiência alterou de forma irreversível nosso DNA musical.


Creio João Gilberto, que viveste sempre por um projeto de primavera com as horas absolutamente soltas pelas notas que teus dedos imprimiram nas cordas do teu violão: esse que tão bem conhecia teu saber antigo de fogo duplo. E tu, tempo que nunca se deteve, imortalizaste em nós as canções que nos fotografaram o coração. Tu, testemunha da condição natural do poeta: consciência de que o rio vital era por ali.



Álbum completo 2019 - João Gilberto Melhores canções de todos os tempos.

 

Teresa Bracinha Vieira