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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

GUALDINO GOMES E O CHIADO…

 

O Chiado está cheio de histórias. José-Augusto França diz que a capital de Portugal é Lisboa e a capital de Lisboa é o Chiado, e tem razão! Hoje recordamos alguns episódios passados com Gualdino Gomes. Começamos pelo relato por Luís de Oliveira Guimarães… «Uma tarde Gualdino Gomes (1857-1948) entrou na Brasileira e pediu ao criado – o venerável João – chá e bolos. João não tardou com o lanche. – Os bolos estão frescos? – quis saber Gualdino. – Se são frescos! Vieram agora mesmo da pastelaria… Gualdino, encaixando o monóculo: - Isso não prova nada. Também eu vim agora mesmo de casa – e já tenho 78 anos…». Gualdino era um conhecido jornalista, crítico de teatro, a quem Fialho de Almeida, de «Os Gatos», acusava de não ter obra… O certo, porém, é que Gualdino foi durante muitos anos testemunha da boémia e da atividade teatral lisboeta e sobretudo elo entre a gloriosa geração de 1870 e os começos do século XX… Gostava de dizer: «Sou um leitor, não sou um escritor». Fizera a banca de jornalista no «Repórter» ao lado de Oliveira Martins, D. João da Câmara e Teixeira-Gomes… Sobre «A Brasileira», dizia Raul Brandão: «A um canto, de gabinardo e barba branca, Gualdino prepara a última piada»…

 

Noutra ocasião, numa sessão de estreia de peça bastante publicitada, que tinha lugar no Teatro Ginásio, Gualdino Gomes estava pronto para comentar o espetáculo em cujo elenco havia figuras de proa do meio artístico... Tudo começou e desenvolveu-se, a preceito como mandam as regras – no entanto depressa se percebeu que aquele não era dia de sucesso. A peça era vulgar, os atores não estavam em forma, o ensaio deixava muito a desejar, as fragilidades eram tais que a voz do ponto era demasiado audível e as deixas estavam mal combinadas. Um desastre. Gualdino preparou um estratagema para se libertar daquele suplício – e, meu dito meu feito, a certa altura, havia uma tempestade em cena, que amainava para alegria do crítico... E então o escriba, levantou-se de modo ostensivo e disse, alto e bom som: - «Vou-me andando, deixa-me aproveitar esta abertinha...»

 

Mais uma. O Fialho de Almeida tinha uma espécie de amor-ódio por ele e estava sempre a meter-se com ele, por não ter obra e por desperdiçar o seu talento em linguados de jornal… - Oh! Gualdino estou a ver os nossos netos a lerem as tuas obras completas… O Gualdino, calado, ouvia, ouvia, e ia enchendo o saco. A certa altura, não se continha e rebentava. E lembrava-se de que o Fialho casara tarde e rico no Alentejo e gozava as delícias da fortuna da mulher. – Oh Fialho, diz-me aí as horas no relógio de ouro do teu sogro…

 

Outra vez, foi na estreia do «Tamar» de Alfredo Cortez, no Teatro Nacional, que se passava numa praia, com o cenário do mar ao fundo. Iam chegando os pescadores, com a mão na testa, em forma de pala, e passavam da direita para a esquerda no palco, olhando o horizonte, numa estranha marcação. Passou o primeiro, passou o segundo e, quando passou o terceiro, o Gualdino levanta-se e diz: - Ele há qualquer coisa e é ali para o Intendente… Vou lá ver…

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

De 16 a 22 de setembro de 2019

 

“Brincar diante de Deus, Arte e Liturgia” é um encontro inesperado de Maria Helena Vieira da Silva, Henri Matisse e Lourdes Castro na Fundação Árpad Szenes – Vieira da Silva.

 

SÍMBOLOS, ELEMENTOS, REFERÊNCIAS
Apresentam-se nesta exposição obras de Matisse de 1949 a 1951, que correspondem ao desenho dos paramentos para a Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Vence. Os símbolos, os elementos, as referências são-nos mostrados através uma imaginosa técnica do recorte e por um jogo de cores que corresponde aos tempos litúrgicos e ao calendário de celebrações. Os contributos de Maria Helena Vieira da Silva referem-se aos estudos para os belos vitrais da Igreja de Santiago de Reims (1966), bem como aos painéis para a sacristia da capela da Embaixada de França no Palácio de Santos, em Lisboa (1981) e à série “Luta com um Anjo” (1992), onde é evidente o fecundo diálogo entre talento e espiritualidade. E Maria Helena explica-o: “Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas fugazes iluminações e então sinto por momentos uma confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a mística explica tudo. Então é preciso dizer que não sou suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a morte me dará a explicação que não consigo encontrar”. Lourdes Castro corresponde ao convite que lhe foi feito para a Capela Árvore da Vida do Seminário Conciliar de Braga, desenhando quatro paramentos, em elementos naturais, algodão, linho, seda e lã, ligados às quatro estações do ano, com belos peitorais ornamentados com lâminas de ágata em cores diferentes conforme os diversos momentos litúrgicos… A mostra significa um encontro inesperadamente fecundo – e a sua referência neste texto tem a ver com Lourdes Castro, que representa um elo que articula de um modo muito intenso as obras apresentadas – que, valendo por si, ganham um sentido especial neste diálogo. E a ideia de “brincar diante de Deus” tem a ver com a essência da palavra brincar, de origem latina, do verbo “vincire”, que significa seduzir, encantar, donde provem “vinculum”, que significa ligação, e também está na origem da palavra “brinco”, símbolo de fecho e de sedução. Brincar é sinônimo de divertir-se e este divertimento liga-se à essência da cultura e da arte, e à busca da alegria genuína do “riso de Deus”. Romano Guardini afirma, por isso, que «viver liturgicamente, é (...) tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e “fazer-se criança”». Afinal, «não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia».

 

UM AGREGADO DE MIL COISAS…
E a “Luta com um Anjo” de Maria Helena Vieira da Silva permite recordar o “Anjo de Berlim” de Lourdes Castro, que se encontra na Capela do Rato, em Lisboa, graças à iniciativa de José Tolentino Mendonça. Tudo nasceu num Natal de neve em Berlim e numa ideia partilhada com Manuel Zimbro – sobre a qual escreveu Almeida Faria. O anjo foi colocado numa janela e foi iluminado. E tornou-se uma sombra viva em diálogo com as outras luzes da cidade. Em entrevista recente, Lourdes Castro disse: “Pergunto sempre: ‘O que somos nós senão um agregado de mil coisas?’ Não há ‘eu’, somos tudo à la fois. Às vezes pergunto: ‘Mas foste tu que escolheste o sítio para nascer? Foste tu que escolheste o pai e a mãe?’ Não, a gente tem o pai e a mãe que tem. Nasci aqui, mas não fui eu que escolhi nascer aqui. Nasci. O que somos senão um agregadozinho no meio disto tudo? Somos tudo e somos nada. E isso é fundamental para a gente não estar agarrada a nada. As pessoas pensam que são qualquer coisa. Mas depois vão para a escola e aprendem. E depois há um tio e uma tia, há a paisagem que também entra em nós. E o que vai entrando também é conforme o que já temos dentro. É assim que a gente se vai formando. E somos isto que está aqui, mas não somos nada de especial. Somos um agregado de causas e efeitos. Vamo-nos construindo” (Expresso, 31.8.2019). A cultura, a arte, a vida são, com efeito, sempre construções. E ao ler esta passagem, lembrei-me, naturalmente de José Escada (que se encontrou com Lourdes Castro no projeto “KWY” e que foi partilhando essa ideia). Segundo José-Augusto França, Escada “escrevia o desenho” e tinha uma especial maturidade entre os seus colegas do grupo parisiense (René Bertholo, Christo, João Vieira, Costa Pinheiro, Jan Voss, Gonçalo Duarte), uma “delicada solução de uma pintura pessoal numa espécie de ‘simulação caligráfica’”. E quanto às composições feitas de pequenos elementos, disse um dia «ter-se inspirado no último verso de um soneto de Camilo Pessanha “conchinhas, pedrinhas, bocadinhos de osso”». Depois, voltou ao figurativo – paisagens, cabrinhas, cães. Os seus amigos reconheceram uma espécie de regresso à descoberta da contemplação. E assim, depois de uma certa turbulência, transmite-nos serenidade e paz… E António Alçada Baptista escreveu: «Não sei se, na minha geração, alguém sofreu com tanta violência o embate entre a lucidez e a clarividência perante o grande projeto que foi prometido ao homem e a mediocridade dos pesos interiores intransponíveis e mais dos bloqueios das circunstâncias que eles semearam à nossa própria volta»… Se associo Lourdes Castro e José Escada (que, no início, fizeram juntos uma exposição no Centro Nacional de Cultura) é porque, nas suas diferenças fundamentais, há pontos de encontro, não só pessoais, mas de espírito e de procura da transcendência da arte. 

 

GRANDE HERBÁRIO DE SOMBRAS
A paisagem natural da Madeira, que rodeou Lourdes Castro sempre, é uma paixão que a acompanha. Veja-se a série “O grande herbário de sombras” (1972) e percebemos que há uma permanente procura das formas essenciais e da projeção da natureza e das pessoas na memória perene. É fantástico percorrer as obras que estão na Fundação Gulbenkian e tudo o que tem exposto. Agora mesmo, o último número da “Colóquio Letras” apresenta-nos belos desenhos de Lourdes Castro. Não se trata de referências estáticas, há sempre a ideia fascinante de um teatro de sombras – e, assim, regressamos à essência da palavra brincar, como sinónimo de criação. Serão sempre sombras à volta de um centro. Ao plexiglas recortado, sucederam as sombras bordadas em lençóis – na extrema leveza das sombras que se fixam, mas que estão sempre a mudar. O grande herbário nasceu de um desconsolo grande perante a mostra no Louvre do herbário de Rousseau. E lembrando-se da vitalidade natural da Madeira começou a fazer um herbário digno desse nome – mangueiras, bananeiras, cana-de-açúcar, magnólias…E vêm à baila os lemas de vida de Lourdes Castro: “Grava para sempre a alegria na fachada de tua casa” (“Cloue à jamais la joie au front de ta demeure”, como encontrou em Paris na rue des Saints-Pères). E há tempos em que se torna necessário dizer: “Caminha como o teu coração te leva”… E assim se pode entender como “A arte e a casa e o jardim e mais isto e mais aquilo, é tudo respirar. É respirar à sua maneira. Não é o caminho, porque isso depois, o caminho… Como é que a gente respira?”  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

Camilo _ Princesa.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   O último capítulo, o XXVIII, do Pilote de Guerre não tem mais de duas páginas, em que Saint-Exupéry exprime o seu próprio  cansaço e o dos seus poucos camaradas da esquadrilha de reconhecimento aéreo G2/33, num estilo quase telegráfico, como qualquer fatalidade. Estamos em 1940, a França foi derrotada pelo III Reich. Mas o grupo, na véspera da retirada, mantém-se unido e, sem ter dormido durante três noites seguidas, vê cada um recolher a sua lassidão ao rendido cansaço dos outros :

   Não diremos nada. Asseguraremos a mudança. Só o Lacordaire esperará pela alba para descolar, a fim de cumprir a sua missão. E, caso sobreviva, regressará directamente à nova base.

   Tampouco amanhã diremos algo. Amanhã, para as testemunhas, seremos uns vencidos. E os vencidos devem calar-se. Como as sementes.

   Como as sementes! Haverá maneira mais bonita, mais cristã, de ressuscitar da derrota? A comunhão humana no silêncio de qualquer perda faz com que esta deixe de ser desamparo e solidão, para se tornar solidariedade e esperança !

   O mistério da morte, no cristianismo, leva-nos ao paroxismo do paradoxo humano, do que "está aí" (ou p´raí) e aspira a Ser. E a sua contemplação ensina-nos a via do silêncio, esse calar, cá bem no fundo de nós, o labor restaurador da semente que apodrece para nascer de novo, como o Reino dos Céus.

 

   Oleg Voskoboynikov, medievalista russo formado na Universidade de Lomonossov, onde é professor de paleografia latina, foi também discípulo de Jacques Le Goff e é autor, entre outros livros e inúmeros artigos científicos, do notável Pour les Siècles de Siècles  -  La Civilisation Chrétienne de l´Occident Medieval, obra que a Vendémiaire (Paris) publicou em 2017. Gosto muito, Princesa de mim, de, às vezes, me deixar envolver pela atmosfera espiritual duma Idade Média, europeia e latina, que, neste caso, é percorrida do início do século IV ao início do XIV, do imperador Constantino ao Dante Alighieri. E é aqui apresentada, essa Alta Idade Média, pela ilustração de que, na verdade, longe de ser repúdio ou destruição da cultura clássica, não só greco-romana, como síria e copta, antes foi cadinho da sua assimilação pelo cristianismo. A semente de vida que acima refiro evocou-me, enquanto te escrevia, aquela expressão cristã que fala da humanidade de Deus em Jesus Cristo, que se humilhou até à morte, e morte na cruz  -  a qual, mais ainda do que suplício, é infâmia. Mas da morte infamante, ignominiosa, ficou, para nós também, então vindouros, a imagem daquele crucificado que, em miríades de representações advenientes, se tornou sinal de vitória :  hoc signum vincit. A suprema humilhação surge-nos assim como humildade ressuscitada, isto é, feita nova, força e sustento de vida sobre a morte.

   A dado passo deparo com um trecho da carta XXX de São Paulino de Nola (edição de G. de Hartel, Viena, F. Tempsky, 1894) que o professor Voskoboynikov apresenta assim : A autoridade moral e cultural de Paulino, construtor de igrejas, poeta, escritor, pregador, ultrapassava em muito a sua diocese italiana. É sintomático que ele abdique do direito de aparecer no espaço litúrgico, que os bispos partilhavam com os imperadores. [Estamos ainda em meados do século IV, no início do império romano cristão...] Não se trata de falsa modéstia, mas de uma nova concepção da dignidade humana : ele sabe que foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas também se recorda de que, na vida real, «tantum in imagine ambulat homo, tantum frustra turbatur». Eis citado um versículo do salmo 39, que traduzirei assim : «Quanto mais um homem se passear em retrato, tanto mais se alienará em vão». 
   Quando, numa cristandade então já liberta de perseguições e livre de se exprimir, os fiéis entre si debatiam a razão, o alcance e configuração, e o próprio culto das imagens religiosas, tal questão punha-se também para o retrato-exemplo dos pastores eleitos pelas suas igrejas ou comunidades ; erguiam-se vozes, não tanto contra a aproximação do divino pela representação memorizável, como pela reserva, ou prudência, relativamente aos riscos de alienação que o imaginário necessariamente implica. Preocupação que, hoje, tem a maior actualidade e nós, espantados, esquecemos. A tal ponto que nem nos apercebemos de que vamos deslizando do que já alguém chamara "civilização da imagem" para uma circunstância de carrossel caleidoscópico próxima da barbárie. Diariamente sobre nós chovem imagens e coscuvilhices que, em vez de nos ajudarem a reflectir sobre a realidade do nosso mundo e da nossa vida, nos atiram para um baile de máscaras ilusórias e alienadoras... E até talvez possamos dizer que, se a iconoclastia foi, muitas vezes, uma fobia idolátrica (mais do que receio pelo divino), a "imagofilia" hodierna, em seu omnipresente exagero, é sinal certo de propensão a nova idolatria...

   Volto então ao "nosso" S. Paulino de Nola, nobre romano nascido em Bordéus, que chegou a ser cônsul e prefeito de Roma, se converteu ao cristianismo com sua mulher, após o que distribuíram os seus bens pelos mais necessitados e se ocuparam do próximo, desse tal que adquirira, em cada pessoa, o rosto de Cristo Jesus.  Foi Paulino eleito bispo de Nola, em Itália. Conta-nos o livro do professor russo : Cerca do ano 400, um autêntico Romano e bispo culto, Sulpício Severo, pediu ao seu amigo Paulino, bispo de Nola, na Campânia, ele também Romano autêntico e futuro santo, que lhe enviasse para a Gália, o seu retrato. Queria pô-lo, a título de amizade e de respeito pelas suas virtudes, ao lado de uma imagem de São Martinho, no novo baptistério de Primiliacum (provavelmente a Primilhac de hoje). Comovido, Paulino respondeu-lhe assim:

   Suplico-te, por tudo o que de melhor há na nossa amizade, porque havemos de pedir provas da nossa amizade em formas vãs? De mim, de que homem queres tu a imagem? Celeste ou terrestre? Sei que queres essa imagem real, em ti amada pelo Rei Celeste. Não deves precisar de outra imagem nossa, além dessa pela qual foste tu mesmo criado.  ... Mas eu sou pobre e fraco, humilhado pela minha imagem rude e terrestre, pelos meus sentimentos carnais e as minhas obras na Terra. Pareço-me mais com o primeiro Adão do que com o segundo. Como posso então ter a ousadia de me fazer pintar, esmagando a meus pés a imagem celeste com os meus delitos terrestres? Terei sempre vergonha : fazer-me representar tal qual é vergonhoso, fazer-me representar tal como na realidade não sou é uma insolência.

   Concordemos ou não com elas, reconheçamos que se diziam lindamente, em latim, e há quase dois mil anos atrás, coisas que, hoje ainda, nos podem ajudar a pensarsentir-nos mais e melhor do que todas essas celebrantes imagens da vaidade nossa contemporânea...

   Ao escrever-te isto, Princesa de mim, revejo  -  para meu equilíbrio interior, pois é neste hoje que vivo agora  -  tantas imagens de seres humanos que vamos ignorando, abandonando, matando, e ainda assim nos fazem esse nosso imerecido dom de si próprios, que é, afinal, esse, também nosso, rosto de dor. A presente imagem da humanidade que padece e sofre vem lembrar-nos de que precisamos dum silêncio que seja semente. Comovido, sinto a presença misteriosa do meu irmão Gaëtan, que, em tantos muitos retratos que desenhou, sempre se concentrou numa qualquer, mas mais uma, interpelação da condição humana.

 

                      Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

NOVA EVOCAÇÃO DO CINE-TEATRO DO FUNDÃO

 

Já aqui foi feita referência ao Cine-Teatro Gardunha do Fundão, salientando a tradição histórico-urbana das salas de espetáculo da cidade e da zona geográfico-urbana em que se inscreve.

 

Importa efetivamente enfatizar, a nível de todo o país e a nível histórico, esses movimentos de descentralização que se foram implantando num sentido obviamente convergente de desenvolvimento descentralizado de cultura e de espetáculo, com toda a vastíssima abrangência que envolve.

 

E é relevante referir esse movimento, no que diz respeito a instituições e edificações ligadas ao espetáculo, na transição da relevância teatral para a relevância cinematográfica, sinais generalizados e incontestáveis no seu significado histórico-urbano e cultural.

 

Ora, como já temos referido, é também de realçar o desempenho da Câmara Municipal na reconversão desta infraestrutura e atividade cultural. Independentemente do desempenho, o que aqui agora referimos é pois essa infraestrutura, que ao longo de décadas pelo menos se tem mantido como tal, independentemente das alterações urbano-arquitetónicas envolvidas, e que oportunamente têm sido aqui evocadas.

 

Isto sem embargo de referir também a dissidência epocal que neste domínio, repita-se, da atividade e da infraestrutura, sempre acaba por ocorrer.

 

No caso agora evocado, há que recordar que em meados da década de 60 foi demolida no Fundão uma bela sala oitocentista, na época integrada no então designado Casino Fundanense.

 

Restaram imagens e descrições de uma pequena sala à italiana, como aliás era quase norma na época (e de certo modo ainda hoje…) a certa altura devidamente restaurada, com camarotes, e pinturas no teto: terá sido reaberta cerca de 1915 mas sofreu sucessivas intervenções e adaptações, até que a Câmara lá instalou o Museu Arqueológico.

 

Entretanto, em 1958 é inaugurada uma sala de espetáculos, precisamente o Cine-Teatro Gardunha. E já tivemos ensejo de referir que à época este edifício foi devidamente saudado, pela tecnologia de construção em betão pré-esforçado, com revestimento em cantaria de granito da região, o que confere no ponto de vista arquitetónico uma especificidade de certo modo também regional.

 

Mas o mais relevante seria o torreão, ao qual se tinha acesso através de escadaria implantada no foyer. A sala tinha condições para funcionar como teatro e como cinema, com uma lotação de cerca de 750 lugares. E como tal se manteve em atividade, com óbvio destaque para os espetáculos cinematográficos.

 

E a partir de certa altura, só esses lá eram apresentados, o que terá mais a ver com as condições de produção e atividade cultural da época, do que propriamente com a exploração da sala e do público: assim era e de certo modo assim ainda é em todo o país…

 

Encerrou atividade nos anos 90 do século passado. E no entanto, importa destacar a singularidade do edifício, dominado pela torre.

 

Na época a Câmara Municipal definiu o processo de reabilitação do edifício preenchendo assim uma lacuna a nível de infraestruturas do Concelho no que respeita a equipamentos de espetáculo. E nessa componente técnico-artística participou José Manuel Castanheira como arquiteto responsável pelas áreas de recuperação e espaço de espetáculo.

 

Já tivemos então ensejo de referir este exemplo da chamada geração dos cineteatros. Além de constituírem em si mesmo equipamento arquitetónico e urbano que merece ser preservado, representam importante expressão cultural na globalidade da conceção, construção, urbanização e exploração.

 

DUARTE IVO CRUZ     

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

33. VIAJAR EM CASA

 

Há quem esteja sempre a partir por mais viajado que seja.   

E há as viagens que se suscitam na nossa imaginação quando ficamos em casa.

Há também a antecipação mental da viagem quando imaginamos coisas que propiciam a experiência que pretendemos realizar. 

E há os objetos portadores de histórias e memórias de viagens realizadas que conservamos em casa, que não se esgotam na sua funcionalidade ou utilidade. 

No lar podemos estar rodeados de toda a panóplia de haveres que potenciam e asseguram a antecipação e a recordação da viagem.

Antecipando a viagem com guias, impressos, livros, desenhos, gravuras, pinturas, postais ilustrados, fotografias, vídeos e filmagens de museus, monumentos, hotéis, praias, pesquisas via internet dos itinerários.

Ou evocando a viagem partilhando-a e recordando-a com lembranças da Europa, África, Américas, Ásia e Oceânia. 

Há a realidade factual e virtual das viagens. 

E as viagens que se suscitam na imaginação, em sonhos, tão gratificantes, quanto fantásticas, exóticas e sublimes.

Viajando em casa podemos partilhar e imaginar fotos ou filmes de coisas ou eventos belos e sublimes, mesmo que horrendos, como a erupção de vulcões ou tempestades no mar. 

Não existe um sentido comum apreensível de viagem para todos.

Há quem por mais viajante que seja está sempre descontente e pronto a partir.

Há quem ache que a imaginação pode suprir virtualmente a vulgar realidade dos factos, viajando em casa.         

 

13.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ANA CRISTINA LEONARDO: O CENTRO DO MUNDO

 

No centro do mundo há muito para contar e tanto que os veteranos deste livro de Ana Cristina Leonardo podem ser crianças, gentes de meias idades que crescem ou envelhecem que é outro jeito de desaguar, tementes ao rei por bondades, banditismos ou assassinatos, russos que por apátridas se fazem passar por alemães e sempre na procura de um agasalho quente, de uma mulher adúltera que sobrevive porque tem os abraços de cela que a selam, sempre de confissões sustidas, ou o mar não as pudesse abafar de vez, se as ouvisse, apenas porque nelas procura as coisas proibidas que só a morte revelará, e tanto é tanto.

 

E tem a palavra Olhão. «Logar de Olham.» Lugar desconfiado das governanças, às quais se obedece apenas em mar alto, disciplinadamente como o beijo que não tem qualquer ruído e que de tão iletrado, beijo, beijo não é. É sim, beijo de salmoura, diz-se então que em mil setecentos e troca os números e os pares dos sapatos que um dia um versejador denunciado perdeu, dentro de todas as caixas que lhe fariam bem à reserva monetária do engenho contrabandista, tinham um sapato só – julgo que o esquerdo - e como não tivessem qualquer utilidade, estes sapatos sem par, os restantes foram logo apanhados com o sapato do pé direito, em falta, nas restantes caixas de sapatos, que, no leilão arrematado ao fisco deu a quem rema nas artes de versejar a razão para expulsar os de Napoleão, e, era levar depressa a boa nova ao rei de Portugal e dos Algarves e dizer-lhe que assim também se uniam as terras da esquerda e da direita, e que talvez por essa razão ser sabida da Europa, ela ainda assentava na paz precária do Tratado de Versalhes.

 

E quem está a tentar fugir deste “Centro do Mundo”, nele deixando infantarias americanas nas torres de vigia, são sempre os sobreviventes, aqueles que rezam o terço das balas para que os disparos se nunca façam a seu favor. E dias e noites hão-se passar em número escasso e logo os gritos se tornarão gemidos. Assim, sem muito mais, encontrei neste livro editado pela QUETZAL* vários pontos exactos e definidos, em que as nesgas dos céus azuis não têm tempo para visões de misericórdia. Afinal o que levamos connosco é todo o cais e o próprio mar dentro dele; é tudo Alhambra e os lenços de cores mágicas ali tão perto; é ainda uma Polónia ocupada e as automutilações sob negros panos arados, à roda de uma Mesquita de Jeddah e um médico argonautra:

 

- Quem quiser escutar mentiras, alinhe-se.

Alguém disse:

- Vamos pois, que se um homem deixa de se poder divertir é hora de dar corda aos sapatos, e respeitando a Lei Seca, pelo menos eu, não amo a minha Rosa.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

  • Ave trepadora da América Central, que morre quando privada de liberdade.
  • Por decisão da Autora, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990

 

 

 

SOBRE A CAMPANHA ELEITORAL

 

1. É evidente que estou contente com o crescimento económico, com as notas positivas das agências de rating, com a diminuição do desemprego... Significa esse meu contentamento que participo da aparente euforia nacional sobre a situação do país? Não, infelizmente, não. E vou tentar explicar.

 

Com a dívida pública que temos, com o endividamento privado para o consumo, dentro do fascínio causado pela percepção de que a situação económico-financeira está como nunca, com a recessão que se anuncia para a economia mundial (a Alemanha estagna, estão aí a “guerra” comercial entre os Estados Unidos e a China, o Brexit, a instabilidade na Itália...), e dado que vivemos internamente mais de uma situação conjuntural favorável do que de investimentos sólidos para um desenvolvimento estrutural sustentável, receio que o país venha a confrontar-se com percalços inesperados.

 

Tenho a sensação de que a aparente euforia tenha na sua fonte um manto de mentira e ilusão que se foi abatendo sobre o país. Porventura acabou a austeridade? Veja-se o preço dos combustíveis, a carga de impostos e taxas e mais taxas, não sem sublinhar os impostos indirectos, que são os mais injustos porque cegos. E as famosas cativações? A saúde está bem? Quem é que o pode dizer e garantir com verdade? A educação está bem? Sinceramente, com louváveis excepções até de excelência, não creio: falo com professores, autênticos e dedicados profissionais, e dizem-me que não; pessoalmente, temo que, com alguns novos métodos já superados noutros países, o permanente experimentalismo e o imenso facilitismo reinante, entre outras coisas, estejamos a contribuir para o apagamento do  pensamento crítico e o que o escritor Pérez-Reverte denunciou recentemente: “nunca o ser humano foi tão estúpido como agora”; em relação aos professores, veja-se a instabilidade em que vivem: há antigos alunos meus da Faculdade que andam há anos de escola em escola, percorrendo o país de norte a sul, dificilmente podendo constituir família ou ter filhos, e  instala-se a desmotivação; no ensino superior, reconheço manchas de excelência também, mas não sei se está, no seu todo, a contribuir para que o nível de conhecimento real e crítico se mantenha, e é necessário apoiar harmonicamente tanto as ciências ditas exactas e as tecnologias como as ciências humanas, pois, sem ética e humanismo, para onde pode levar-nos o progresso tecnológico? E ainda: em vez de se acabar com as propinas para todos, atribua-se bolsas aos mais frágeis economicamente, mas capazes.

 

Ainda neste domínio da educação, seja-me permitido um reparo a um recente despacho ministerial. Conheço casos dramáticos de transexuais que passaram e passam por imenso sofrimento. Por isso, é preciso, na educação, preparar para o respeito de todos. No entanto, por causa da orientação sexual, não se pode cair na desorientação de todos. Com o bom senso dos professores, o conselho de médicos e atendendo aos direitos dos pais no que à educação dos filhos se refere, as escolas são capazes de encontrar soluções adequadas para casos concretos,  sem a necessidade de despachos eivados de ideologia que só podem levar à confusão universal. Quem está interessado nessas e outras confusões?  

 

2. Está aí a campanha para novas eleições. Impõe-se que os Partidos sejam claros em pontos essenciais nos programas e nos debates. Por exemplo:

 

2.1. Recentemente, a anterior procuradora-geral da República afirmou que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio. Joana Marques Vidal lamentou concretamente: “Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” Muita gente tem denunciado esta situação como um cancro. Pergunta-se: que compromisso assumem os Partidos neste domínio gravíssimo?

 

2.2. Contra o contexto do manto de mentira que desceu sobre o país, os Partidos devem assumir claramente as promessas que fazem, com datas claras de cumprimento e com que verbas. Tudo claro. Deixem-se, por favor, de arruadas e argumentem com números, pois, se lhes explicarem, os portugueses perceberão e poderão assumir escolhas racionais. Não se pode é continuar com promessas e mais promessas, algumas repetidas ao longo de anos e nunca cumpridas. Por exemplo, o que se vai fazer pela ferrovia — meu Deus, como foi possível chegar à presente situação? Por favor, não façam promessas que sabem que não vão cumprir, porque não podem. Vão fazer o quê pelo interior? Os que falam disso sabem o que é o interior?

 

2.3. Ponto decisivo: esclareçam o que pretendem fazer em relação à justiça, não só em relação à justiça social — há muita miséria ainda no país, nada de ilusões —, mas à justiça-poder judicial, órgão de soberania, independente. A justiça continua lenta e, por isso, pouco eficaz, e, se se ler e ouvir a opinião pública: que foi atingida pelo véu de alguma desconfiança. Lembro o Presidente da República referindo-se, no passado 10 de Junho, às “falências na justiça”: Portugal não pode “minimizar cansaço, corrupções, falências na justiça.”

 

2.4. Neste contexto, a Banca. Uma catástrofe! Há anos que o Estado, isto é, os contribuintes, andam a pagar, a tapar buracos com milhares de milhões de euros, e não há consequências para as más administrações e os desvios?... Neste país, é necessário repor setenta cêntimos ao fisco — e eu acho bem —, mas desaparecem milhares de milhões de euros, e não acontece nada? E os responsáveis maiores chamados a juízo... tornaram-se entretanto amnésicos?! Os Partidos devem dizer o que se propõem fazer para acabar com esta falta de vergonha.

 

2.5. O que vão fazer para que haja transparência na política e com os políticos? Sinceramente, atendendo às suas responsabilidades, penso que os políticos são mal pagos e até pergunto: será essa uma das razões por que para as tarefas políticas a maior parte das vezes não vão os melhores e estamos cheios de incompetentes? Mas, por outro lado, verifico que imensa gente se bate por, como diz o povo, “ir para lá” — para onde? Para o poder. Há muita sedução pelo poder, pois ele é “o maior afrodisíaco” (Henry Kissinger dixit). Mas também deve haver muitos privilégios que moram para essas bandas. Que haja, portanto, transparência. É preciso acabar com o exemplo inacreditável de deputados que faltam descaradamente às sessões do Parlamento. E donde vêm tantas regalias e privilégios auto-concedidos? Já não há vergonha em Portugal? Leio que subvenções vitalícias para políticos custam milhões de euros (mais de seis milhões este ano), que extras quase duplicam o salário dos deputados (milhões só para cobrir as viagens para casa ou em trabalho político no seu círculo), para não falar no caso dos deputados insulares... E a maior parte dos deputados não morrerão de cansaço, a trabalhar no e para o Parlamento, como Macário Correia denunciou numa entrevista recente: “Metade dos deputados no Parlamento não fazem nada de concreto ou sequer útil, anda lá só a ocupar o tempo.” E ficam sempre aberturas para contactos presentes e sobretudo futuros, numa ligação in-transparente de política e negócios...

 

Aí está a razão por que já falei aqui uma vez de uma proposta, embora sabendo que é irrealizável: que os votos em branco formassem o “partido da cadeira vazia” no Parlamento. Sinceramente, não acredito que, tirando dignas e honrosas excepções, a maior parte dos candidatos andem por aí, na campanha, lutando por todos os meios para serem eleitos, porque querem realmente servir o bem comum. Lamentável, pois considero a política uma das actividades humanas mais nobres e, do ponto de vista cristão, uma das formas mais altas de amor, de amor social.

 

2.6. A actual Presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, entre muitos outros cargos políticos, foi também Ministra da Família. Há muito que admiro que na Alemanha haja um Ministério da Família. Dado o tsunami demográfico de Portugal, quero que os Partidos digam claramente o que se propõem fazer a favor da natalidade e da família.

 

2.7. Na campanha, os Partidos são obrigados a dizer claramente aos cidadãos quais são as suas posições sobre a eutanásia (e digam-no sem eufemismos, porque “morte medicamente assistida” todos querem, eu incluído), sobre se pensam em legalizar drogas com fins recreativos, se têm em mente alargar os prazos para o aborto legal, e qual é a sua posição sobre a gravidez de substituição (vulgarmente conhecida como “barrigas de aluguer”); a propósito: porque quiseram os deputados enfrentar o Tribunal Constitucional na recente lei, face à qual ao Presidente da República não restava outra alternativa que não fosse a fiscalização preventiva desse Tribunal? Não venham, por favor, mais tarde, já no Parlamento, com surpresas quanto a estas questões. Seria inqualificável em matérias tão delicadas.

 

2.8. Também estudei filosofia política e, portanto, tenho obrigação de saber que a política não é uma ciência exacta (se o fosse, entregava-se a simples tecnocratas), é uma ciência prática, dificílima, talvez sobretudo uma arte, a arte do possível, com muito de lúdico, de espectáculo, no bom sentido, que tem de jogar com interesses muitas vezes contraditórios, com a complexidade do humano e as suas paixões e, hoje, na complexidade de um mundo globalizado e cada vez mais interdependente, o que faz com que, também no quadro da democracia com prazos curtos de governação, a política fique atenazada: é necessário decidir rapidamente e para um tempo curto o que pode ter consequências dramáticas no tempo longo... Também por isso é essencial a racionalidade política em ordem ao bem comum, bem para lá dos interesses próprios e partidários. E a competência. Aqui, é necessário pensar sempre mais longe e determinar um consenso mínimo nacional, com duração suficiente para a sua avaliação, sobre a educação, a justiça, a saúde, a segurança social. Numa hierarquia de valores, que anda muitas vezes, desgraçadamente, transtornada. Para evitar o sobressalto permanente. E com que geoestratégia?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 SET 2019

A VINGANÇA DE MARILYN

 

É mentira! E se me voltarem a perguntar, voltarei a dizer que é mentira. Marilyn, em The Misfits, não interpretou personagem nenhuma. Vingando-se de Arthur Miller, o marido com que estava a romper o seu terceiro casamento, foi só ela mesma, ela, a própria, ao longo desse filme maldito de tantas maldições e de que falo por ter quase a minha idade.

 

O genérico final do filme desmente-me: está lá escrito que a personagem dela se chama Roslyn Taber. Começamos por vê-la a tentar memorizar as falas que vai dizer ao juiz para se divorciar e não demoramos muito a saber que foi stripper, perdendo no bar duma cidade perdida o que os homens supõem que as mulheres perdem por eles ganharem, quando ganham, alguma coisa. Que se lixe o genérico, não há personagem nenhuma: The Misfits, como qualquer filme, mente com os dentes todos, e se os filmes têm dentes!

 

The Misfits é um filme de John Huston. Quem o escreveu – porque embora nestes tempos tão visuais custe reconhecê-lo, os filmes são escritos – foi Arthur Miller. Escritor, dramaturgo, se algum dia no século 30 alguém se lembrar dele há-de ser, se ainda houver raiva masculina, por ter sido marido de Marilyn. A mesma raiva que, agora, me faz ser injusto.

 

Miller era dono de uma mente literária e convencera-se que Marilyn nunca tivera um papel à sua medida. Via, como todos os literatos, mal cinema. Bem lhe podiam mostrar o Gentlemen Prefer Blondes, de Hawks, ou o Seven Year Itch, de Billy Wilder, que ele sempre os veria sem os ver.

 

O que ele via era a Marilyn que tinha à frente dos olhos. Via o ciclone emocional do casamento deles. Via, de Marilyn, a insatisfação voluptuosa, redonda e carnal, tão infantil às vezes, via a invulgar dualidade cartesiana que era a alma e o corpo dessa mulher.

 

Era isso que via, e foi o que Miller escreveu. Quando leu o script, Marilyn não gostou do espelho. Se calhar, adivinho eu, já se tinha visto assim e já se tinha visto melhor. E vingou-se.

 

A conselho de Truman Capote, Marilyn fora aluna de Constance Collier, actriz britânica e shakespeareana, e aprendeu com ela que não tinha teatro dentro de si. Katharine Hepburn, Bette Davis, até mesmo Lauren Bacall, tinham teatro, colocação, dicção. Ela não. O que tinha, e a professora Collier lhe mostrou, era fragilidade, a súbita luminosidade de um raio de sol, a beleza subtil de uma labareda no meio da noite. Coisas que não enchem um palco, mas fazem a felicidade da câmara de cinema. Como em The Misfits.  Filmada por Huston com um soft focus que a faz irreal, Marilyn paira no ar como pólen e a voz com que diz as falas é de uma ingenuidade de jardim-escola.

 

Passara tudo por Marilyn: abusos, violência, droga, humilhação. Mas nesse filme, em frente à câmara, Marilyn era só a imagem da inocência depois do pecado, a virgindade que, afinal, nunca se perde. E deixem-me dizer-vos: santo Deus, o que a inocência e a virgindade podem ser tristes.

 

Manuel S. Fonseca
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de setembro de 2019

 

Acaba de ser publicado “Antero, Portugal como Tragédia”, volume VII das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2019) com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins. Trata-se de uma obra fundamental, na qual é o grande ensaísta que se apresenta na lógica sequência do grande Mestre que foi Antero de Quental.

 


GRANDE INTÉRPRETE DE PORTUGAL
Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. Para o ensaísta, Antero de Quental é a maior referência intelectual portuguesa e o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. E assim Antero marcou o começo da nossa modernidade, sendo o seu verdadeiro fundador. As Conferências Democráticas, as Causas da Decadência, mas também o pensamento filosófico são marcos decisivos que se projetam na modernização e na abertura da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa. Mas Eduardo Lourenço chama-nos a atenção para que não devemos esquecer quantos ainda se opõem a Antero e ao que ele continua a significar: “a visão unanimista da Geração de Setenta que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos e antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que com matéria viva o atravessaram”. E pode dizer-se que este alerta é válido para Antero e para Eduardo Lourenço, uma vez que uma leitura atenta do ensaísmo do autor de “O Labirinto da Saudade” está muito longe de simplificações, quiçá providencialistas, que quer Antero quer Lourenço sempre recusaram. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética.

 

A PROCURA DAS RAÍZES
É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo. No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.

 

O QUE TÍNHAMOS A PROVAR, PROVÁMOS
Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. Premonitoriamente, em nome da geração nova foi Antero de Quental quem definiu o programa positivo, que nunca poderá ser confundido com qualquer lógica de “vencidismo”. Se dúvidas houvesse, aqui está o corolário lógico da análise das causas da decadência. Só o sentido crítico permitirá retomar um caminho positivo de transformação e de progresso. Para muitos, depois da dureza do discurso, fica a surpresa pela determinação conclusiva. E pode dizer-se que o ensaísmo de Eduardo Lourenço assenta nesta extraordinária visão – que mais atrás se encontra em Garrett e Herculano e que se traduz na vivência dos fatores democráticos na formação de Portugal que o melhor ensaísmo do século XX desenvolveu. É a fidelidade de Antero à memória, é a compreensão da força das raízes, é a exigência da radicalidade crítica da modernidade que aqui se sente: «Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espetáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía (…) ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização. Chamou-se a isto o Cristianismo. Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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     Minha Princesa de mim:

 

   Para começar esta em consonância com coisas que, em carta anterior te disse, Princesa, traduzo-te um trecho, quiçá algo longo, do capítulo XXVII do Pilote de Guerre do nosso já amigo Antoine de Saint-Exupéry. Mas creio também que nos ajudará a perceber porque é que alguns sages dizem que o cristianismo não é um humanismo... Sabes? Penso que é, talvez transcendental, pela pessoa de Cristo com duas naturezas, a divina e a humana. Afinal, conceitos e palavras valem sobretudo pelo sentido que lhes atribuímos... Sabemos bem que o cristianismo não é panteísta, nem os santos que inspiram devoções e cultos cristãos são deuses ; nem sequer budas. Mas não negaremos que o Novo Testamento está cheio de referências à humanidade nova, chamada à união com Deus pelo sacrifício e ressurreição de Jesus Cristo, o Novo Adão, de cujo corpo todos somos membros. Posso até dizer que o cristianismo é um humanismo resgatado e preparado para um mundo novo. E, no final de contas, é certamente a religião que professa a humanidade de Deus. A tal ponto, que até nos leva a perceber que já no Antigo Testamento o Deus Único do povo judeu vai surgindo no quotidiano dos homens.

   Os trechos que abaixo traduzo são todos respigados do penúltimo capítulo do Pilote de Guerre, o XXVIII. No seu conjunto, constituem, mais do que o cerne da meditação proposta pelo autor do livro, quiçá uma summa do pensarsentir de Antoine de Saint-Exupéry :

   Estraguei tudo. Delapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de homem (humano).

   Para salvar esse culto de um príncipe contemplado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações que esse culto fundava, a minha civilização tinha, todavia, gasto uma energia e um génio consideráveis. Todos os esforços do «humanismo» se consagraram a esse objectivo. O humanismo escolheu para sua exclusiva missão iluminar e perpetuar a primazia do homem sobre o indivíduo. O humanismo apregoou o homem.

   Mas quando se trata de falar sobre o homem, torna-se incómoda a linguagem. Diferencia-se o homem dos homens. Não se diz nada de essencial sobre a catedral, se se falar só das pedras. E nada de essencial se diz do homem, se se procurar defini-lo por qualidades de homem. Assim sendo, o humanismo laborou em direcção a uma barreira. Procurou encontrar a noção de homem por uma argumentação lógica e moral, e a transportá-lo assim para as consciências.

   Não há explicação verbal capaz de substituir a contemplação. A unidade do ser não é transportável pelas palavras. Se quisesse ensinar a homens, cuja civilização o ignorasse, o amor de uma pátria ou de uma terra própria, não disporia de qualquer argumento para os comover. O que compõe uma terra nossa são campos, pastagens, e gado. Cada um, e todos juntos, têm por função enriquecer. E todavia, na terra nossa, algo escapa à análise dos materiais, já que há proprietários que, por amor à sua terra, se arruinariam para salvá-la. É pois pelo contrário esse «algo» que enobrece com particular qualidade os materiais. Estes tornam-se gado de uma terra, prados de uma terra, campos de uma terra...

   Assim também nos tornamos no homem de uma pátria, dum ofício, duma civilização, de uma religião. Mas antes de nos reclamarmos de tais seres, convém fundá-los em nós. Pois que linguagem alguma transportará o sentimento da pátria até onde ele não estiver. Só por actos fundaremos em nós o ser que reclamamos. Um ser não pertence ao império da linguagem, mas ao dos actos. O nosso humanismo menosprezou os actos. Falhou em sua tentativa.

 

   [Apenas este parêntese, Princesa de mim, para te lembrar ditos antigos, máximas e propósitos de vida, que ouvíamos na infância, tais como : Res non verba. Ou, já jovens crescidos, aqueles rasgos de divertidas observações queirosianas, em que, por exemplo, se comparavam profissões de fé patrioteiras a declarações de amor declamadas "a uma espanhola barata".]

  

   Eis que o acto essencial recebe aqui um nome : é o sacrifício.

   Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um acto. É um dom de si mesmo ao ser que se pretende reclamar. Só compreenderá o que é uma terra sua aquele que lhe tiver sacrificado uma parte de si, tiver lutado para a salvar, e esforçado por torna-la mais bela. Então lhe virá o amor da sua terra. A nossa terra não é uma soma de interesses, e será errado pensá-lo. É a soma dos dons.

   Enquanto a minha civilização se apoiou em Deus, conseguiu salvar essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do homem (humano). O humanismo menosprezou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o homem (humano) por palavras e não por actos.

 

   Estas palavras foram sendo escritas pelo capitão piloto aviador Antoine de Saint-Exupéry, no activo, nos primeiros anos da segunda grande guerra. Reflectem actos efectivos, e sobre eles pensamsentem. O seu avião foi finamente abatido sobre o mar, em missão de reconhecimento, já próximo do fim da guerra. E desapareceu. Mas recordo-o sempre, ao ler este passo da 1ª Carta de São João : «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte." Na verdade, é do ensinamento, não só de São João, mas da própria essência do cristianismo : já que nenhum de nós viu Deus, não poderemos então dizer que amamos a Deus, que ninguém vê (ou o Homem, conceito abstracto), se não amarmos os indivíduos que são nossos irmãos.

   Aliás, vou confidenciar-te, Princesa de mim, uma experiência íntima que tenho vindo a viver, ao longo do ano que passa. Parece-me que o amor fraterno é como que um adiantamento do nosso encontro final com Deus. Neste sentido, é um verdadeiro acto de fé, pois é substância das coisas que esperamos. Venho perdendo, como sabes, a companhia física de muitos amigos, cujos corpos são cremados ou enterrados. Acabo, agora mesmo, enquanto te escrevo, de saber que morreu o meu querido amigo João Maria Torre do Valle, exímio guitarrista, que tantas vezes, e em tantas partes do mundo, com sua guitarra portuguesa e a companhia da viola de fado do Fernando Alvim, me acompanhou quando eu cantava. Também falávamos muito, desde os tempos da Faculdade de Direito de Lisboa, de outros temas, e esses diálogos ainda não morreram. Acontece-me agarrar no telefone para falar ao Gaëtan, meu irmão de sangue, morto há quase dois meses, ou ao João de Deus ou ao Nuno Lorena.. e a muitos outros que a morte nos tirou da vista  -  alguns há quinze anos, como o António Luciano Sousa Franco, ou mais ou menos, como o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, o Rogério Martins ou o Vítor Wengorovius. Todavia diferentes entre si, a cada um deles e muitos outros, e outras, me ligaram laços de profunda amizade, dessa tal que a liberdade e o gosto do diálogo edificam dentro de nós e em nós permanece para sempre. Ainda há dias, quando deveria fazer anos a Maria Benedita, falei com o Gonçalo, viúvo e triste, mas sustentado por essa presença invisível do amor, que é muito mais do que memória. E também ele me confidenciou que nunca apagava das suas listas os números de telefone dos amigos por agora longe do alcance das nossas redes de comunicação...

   Todos individualmente reconhecidos e amados. Todos vivos na nossa humanidade comum, a tal que mora no coração de Deus.

                                      Camilo Maria

  

 Camilo Martins de Oliveira