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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TINTIN

 

Camilo,

 

Sempre acontece querer dizer mais de uns textos seus do que de outros, não por faltar qualidade a algum deles, mas, porque saltam palavras mais diretas aos olhos de cada um que as lê e todos somos diferentes no que o olhar, nos olhos, segura.

 

Quando vendi o submarino e o foguetão de Tintin, ambos adquiridos em Paris num antiquário, senti que podia ir neles escondida para poder chorar e rezar quando quisessem fazer mal ao Tintin, ou, se ele se visse aflito na decisão dos seus percursos, pudesse estar eu sempre próxima e atenta e sofresse com ele as loucuras, e mais, pudessem as minhas lágrimas salvá-lo e por elas rezando ao mistério, rezando às perplexidades que buscava nos cantinhos dos quadrados da banda desenhada. O meu pai atualizava a minha coleção de banda desenhada, constantemente, e, recordando-lhe eu sempre essa necessidade sem cerimónia. Colocava ele quase em segredo em cima da cómoda do meu quarto os novos cadernos de Tintin, a fim de me espantar de encantamento quando eu desse conta de que as histórias afinal eram libertação.

 

Quando vendi - promessa cumprida a quem vendi - os objetos que faziam capa das revistas de Tintin, logo pensei que nesse dia tinha crescido muito ainda que não entendesse para que lado.

 

Hoje ao ler o que o Camilo citou

 

Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo (confissão de Alberto Caeiro)  

 

julgo ter entendido o silêncio que muito me fez crescer, mas agora de um outro jeito. Julgo tê-lo entendido como uma possibilidade rara de ser fundamento da própria transgressão: uma seiva. Sim, uma seiva que nos é divulgada existir, mas muito por dentro, muito por comunhão.

 

O António Alçada não era tão tranquilo quanto parecia – assim o compreendi também, e o seu filho Luís, confidenciou-me um dia, ser igualmente essa a sua opinião - e por isso no seu livro de homenagem, e ao contrário de todos os que nele participaram, depois de umas palavras minhas, citei um poema de revolta do seu poeta O’Neill ou não tivesse sido esse poema o que ele escolhera depois de, alternadamente, lermos um ao outro uma das aventuras de Tintin, enquanto a minha mãe nos olhava através de seus contagiantes olhos verdes, e, nos referia, de outro modo, a nossa, a de todos, coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

E enfim, o despojamento de que me falava o Alçada, sobretudo nos largos meses antes de partir, tinha muito de religioso, muito de clarividência, muito do conteúdo do destino que, em paz, cada um devia tentar aceder sobretudo pelo silêncio.

 

Deste modo Camilo lhe agradeço o texto que enviou, círculo de luz, aparência e essência, e que todos os dias e noites de claro, saibamos olhar o mundo também pela memória.

 

Sua Amiga Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Carlos Botelho e as pinturas de Nova Iorque.

 

Felizmente pode subir-se quando se quiser ao miradouro do Rockefeller Center ou ao 102º andar do Empire State Building e mirar, de alturas vertiginosas, a poderosa cidade; de dia, quando ela é um mar de rochas cinzento-azuladas, exótica incomparável, fria e bela, onde dificilmente se imaginam corações humanos a bater, mas onde batem milhões deles; e de noite, quando estremece e nela se vislumbra um mar de futilidade, sonho infantil de toda a gente, que nos subjuga e encanta.’, Ilse Losa, ‘Ida e Volta à Procura de Babbitt’

 

As pinturas que Carlos Botelho fez após regressar de Nova Iorque, em 1939, são a afirmação plena de um meio eficaz, narrativo e gráfico para referir-se ao mundo urbano à sua volta (muitas foram feitas de memória utilizando os desenhos feitos no local). A pintura de Nova Iorque, de Botelho é espessa, densa, abragente e particular. 

 

Botelho consegue revelar uma Nova Iorque ‘banhada de sol, outras vezes envolvida em nevoeiro e, depois, cintilante, colorida, fantástica’ (I. Losa). 

 

Botelho talvez deseje alegorizar uma América desmedida e de contrastes. 

 

Os arranha-céus transformam-se em objetos, em corpos que expulsam fumo. O tamanho colossal de alguns edificios perde o seu poder esmagador nas telas pequenas - as dimensões, as proporções, a plasticidade nas pinturas demonstram sempre uma facilidade gráfica, uma sintetização dos motivos, uma planificação das volumetrias, um entendimento intuitivo. 

 

Há anúncios luminosos que rompem a continuidade visual, os cartazes mostram mensagens, sobrepõem-se alçados, sucedem-se aberturas, articulam-se dimensões e volumetrias e escadas. Botelho pratica aqui todo o arsenal de recursos formais com um inigualável domínio do espaço de uma urbanidade em conflito - surgem sinagogas, catedrais, lavandarias abandonadas, ruas residenciais, equipamentos industriais, os subúrbios, atividades portuárias. 

 

O pintor encontra em Nova Iorque novas cores para a sua narrativa: o vermelho-tijolo e os rosas pálidos dos objetos construídos, os verdes atmosféricos carregados de fumo e de ruído, os azuis desbotados dos céus longínquos.

 

A uniformidade moderna da arquitetura estimula o gosto de Botelho pelo geometrizante e pelo abstrato que funde os edifícios numa mancha unitária de ocres, rosas e azuis. 

 

Os carros que cruzam a cidade, as pessoas que passam (com um guarda-chuva aberto ou a passear um cão) evidenciam um gosto pela banda desenhada.

 

As pinturas de Nova Iorque situam-se na vanguarda de tudo o que então se fazia em Portugal. Dá-se a entender o dinamismo e a diversidade das soluções espaciais urbanas que mudam de dia e de noite, nas frentes e nas traseiras.

 

Pela primeira vez desde que cheguei à América estou instalada num hotel e logo num da 7a avenida, no centro de Manhattan. Logicamente devia gozar umas vistas magníficas sobre a cidade, daquele género das que vêm descritas em mil e um livros e artigos. Era assim que eu julgava acontecer. Mas não aconteceu. Não pude permitir-me um quarto com janela rasgada nem virado para a rua. Tive de contentar-me com este com janelinha insignificante, que dá para um pátio das traseiras, sujo, mal cheiroso, triste.’, Ilse Losa, ‘Ida e Volta à Procura de Babbitt’.

 

Ana Ruepp

 

A IGREJA E O SEXO

 

Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.

 

O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).

 

Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.

 

No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!

 

De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”

 

Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.

 

E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.

 

“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.

 

Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.

 

Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”

 

Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 12 JAN 2019

AO CORRER DA PENA

 

Uma carta para Garcia

 

Chegou-nos às mãos um exemplar de “Uma carta para Garcia” de Elbert Hubbard, editado em 1924 pela Seara Nova, onde é explicada a expressão muito usada em Portugal “Levar uma carta a Garcia”.

 

A Seara Nova ao editar este pequeno trabalho tenta divulgar a lição de energia, amor dedicado ao trabalho, estímulo pelo bem comum em prol da concretização de um resultado benéfico, sem levantar dificuldades.

 

O autor desta obra, filósofo e escritor dos Estados Unidos da América (EUA), diz-nos que demorou uma simples hora a escrevê-la, em 22 de fevereiro de 1899, data coincidente com o aniversário natalício de George Washington, depois de um dia de trabalho em que ele se tinha esforçado por induzir uns camponeses a vencerem o seu estado comatoso e a serem eficazmente ativos e empreendedores.

 

Quando estalou a guerra entre a Espanha e os EUA em 1898, tornava-se urgente e necessária a maior rapidez em contactar com o chefe dos revoltosos cubanos, o General Garcia, que estava nas montanhas agrestes de Cuba não se sabendo, todavia, o lugar exato em que o mesmo se encontrava. O então presidente dos EUA tinha de assegurar a cooperação daquele General com a maior brevidade. Alguém lembrou o presidente que existia um homem de nome Rowan que talvez pudesse encontrar Garcia pelo que foi mandado chamar e deram-lhe uma carta para entregar a Garcia. Rowan guardou a carta e quatro dias depois desembarcou de um pequeno barco na linha costeira de Cuba entrando pelo mato agreste. Três semanas depois saiu do lado oposto da ilha, depois de ter atravessado a pé um largo campo inóspito, não sem que tivesse entregue a carta a Garcia.

 

Hubbard decidiu relatar e publicar o atrás referido após uma discussão com o seu filho Alberto em que este considerou que Rowan foi o principal herói da guerra de Cuba pois terá ido, só, e cumprido a missão que lhe incumbiram: ”Levar uma carta para Garcia”. O autor verificou que seu filho tinha razão; um herói é sempre um homem que faz o seu trabalho completo, sem hesitações ou dúvidas.

 

O artigo foi publicado sem nome, devido à necessidade de ser publicado na revista Felisteu de março de 1899. Esta saiu e logo chegaram inúmeros pedidos de mais exemplares. Quando perguntada a causa de tantos pedidos disseram somente: “foi o artigo que se refere a Garcia”.

 

Verificou-se um êxito inédito deste número da revista e o artigo acabou por ser divulgado sob forma de folheto por todo o país, reimpresso em mais de duzentas revistas e jornais e traduzido em várias línguas.

 

O príncipe russo Iliakoff, diretor dos “Caminhos de Ferro Russos”, encontrava-se, nessa época, nos Estados Unidos da América, viu o folheto e interessou-se muitíssimo levando-o para o distribuir naquela empresa. O folheto surgiu então na Rússia, Alemanha, França, Espanha, Indostão e China e, durante a guerra entre a Rússia e o Japão (1904-1905), foi entregue a todos os soldados russos um exemplar de “uma carta para Garcia”. Os japoneses tiveram conhecimento do folheto através dos militares que foram feitos seus prisioneiros e assim o folheto foi traduzido e entregue um exemplar aos funcionários, civis e militares, do governo japonês.

 

Quando o presidente Mac Kinley deu a carta a Rowan este não perguntou nem quem era nem onde ele se encontrava, tomou a ordem como uma missão a cumprir.

 

Podemos dizer que Rowan é o modelo de homem que para qualquer um devia servir como exemplo quando tem uma tarefa a desempenhar e que em vez de um lamento, quê ou porquê, concentra as suas enegias para fazer o que deve, tal como: “Levar uma carta a Garcia”.

 

Carlos Rosa

 

A VIDA DOS LIVROS

De 14 a 20 de janeiro de 2019.

 

 

«Correspondência 1949-1978 – Jorge de Sena – Eugénio de Andrade», com organização de Mécia de Sena e Apresentação de Isabel de Sena (Guerra e Paz, 2016) reúne um rico manancial de elementos epistolares extremamente esclarecedores sobre as duas personagens fundamentais da cultura portuguesa do final do século XX. No ano do centenário de Jorge de Sena e num momento em que a criação poética de Eugénio de Andrade merece ser visitada e refletida, trata-se de uma obra necessária.

 

 

COMPREENDER O MUNDO
Ouvimos Eugénio de Andrade (1923-2005) no poema de “O Sal da Língua” e compreendemos a força da sua sensibilidade: «No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos /cantar com a chuva. /A criança voltou. Corre no vento». Estreando-se em 1939 com o livro “Narciso”, ainda sob o seu verdadeiro nome, José Fontinhas, o poeta vai-se tornando conhecido, designadamente quando em 1942 dá à estampa a obra “Adolescente” Entretanto, é incentivado por António Botto, com quem entra em contacto, e que reconhece a qualidade indiscutível do novel poeta. Mas é com a publicação de “As Mãos e os Frutos” que há o reconhecimento público, através da receção favorável da melhor crítica, representada por Jorge de Sena e Vitorino Nemésio. E José Saramago resume com felicidade o carácter lírico dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que o poeta e os seus leitores chegam através de uma depuração contínua.

 

UMA OBRA FECUNDA
Nascido no Fundão, reside em Lisboa desde os 10 anos de idade e daqui vai para Coimbra com vinte anos (onde encontra Miguel Torga e Eduardo Lourenço) e depois para o Porto (em 1950), onde trabalhará durante quarenta anos – e publica com regularidade: “Os Amantes sem dinheiro” (1950); “As Palavras interditas” (1951); “Ostinato rigore” (1964); “Véspera da água” (1973); “Escrita da terra e outros epitáfios” (1974); “Limiar dos pássaros” (1976); “Memória doutro rio” (1978); “Matéria Solar” (1980); “Rente ao Dizer” (1992); “Ofício de Paciência” (1994); “O Sal da Língua” (1995); “Os Lugares do Lume” (1998) ou “Os Sulcos da Sede” (em 2003 Prémio de Poesia do Pen Clube). São exemplos de uma maturidade que foi sendo adquirida no permanente exercício da escrita poética, como se do produto de uma oficina de artesão se tratasse… Na prosa, publica: “Os Afluentes do Silêncio” (1968); “Rosto precário” (1979) ou “À sombra da memória” (1993), além de obras infantis como “A história da Égua Branca” (1977) e “Aquela Nuvem e as Outras” (1986). Traduziu Federico Garcia Lorca, António Bueno Vallejo, René Char ou Jorge Luís Borges… Em 2001, ser-lhe–ia atribuído o Prémio Camões. Estamos diante de uma obra segura e consistente, que se afirma como maior na poesia portuguesa do século XX. Acaba ainda de sair, com organização de António Oliveira, a “Correspondência de Eugénio de Andrade a Dario Gonçalves”, onde sentimos a força da amizade. E vem à memória Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant ». E Eugénio fala dos Amigos com especial deleite: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». E se falamos do célebre autor dos “Ensaios”, chegamos ao seu dileto amigo La Boétie, que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável de Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!” Como diz o organizador desta correspondência diversa e múltipla: «a partir de 1986, Dario Gonçalves foi, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos versos de Eugénio de Andrade. Passou a ser uma espécie de afinador de palavras e uma grande fonte de inspiração (para não dizer musa inspiradora). A dedicação do poeta para com o seu amigo é de tal forma sincera e pura que ele escreve o seguinte no bilhete datado de 9 de janeiro de 1991: “Eu bem faço o possível para dar algum sentido aos seus dias, mas em vão”».

 

SENTIMENTOS E SENSAÇÕES
Mas leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Riba-Tua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade que lhe permitem uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto. V. tem tanta coisa ainda para fazer – as suas fotografias são cada vez mais bonitas, cada vez se parecem mais com um poema, eu quero que V. viva muitos anos”… Há, assim, um forte sentido do quotidiano. E é o uso magistral da palavra que faz irradiar a luz da lírica. “Poesia do ser e do amor, entre a carne e o espírito, lá onde as almas não existam para torturar-se e os corpos não saibam o que seja traírem-se” – é como Jorge de Sena identifica o que encontra na obra de Eugénio de Andrade. E em carta de junho de 1949 (leia-se a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”, publicada pela Guerra e Paz, 2016) Sena é muito claro a propósito de “As Mãos e os Frutos”: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). O gosto de um equilibrado acabamento formal, sem uma falsa beleza retórica à Torga, na linha de cuja poesia originariamente V. se insere; a simplicidade, que não é banalidade; um discreto pudor, capaz de, com vigor, escrever ‘to a green god’; e o profundo lirismo…(…) Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. É difícil dizer melhor. O tempo confirmou e afinou essas qualidades, e a coerência, relativamente à relação entre a poesia e a compreensão humana.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 
 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de, no princípio dos anos 70, ir muito a Paris, às vezes com o João Cravinho, para reuniões na OCDE. [Ambos trabalhávamos então com o Secretário de Estado da Indústria (SEI), Rogério Martins: o João, muito mais qualificado, era o diretor geral do GEBEI - Gabinete de Estudos Básicos de Economia Industrial; eu era jovem assessor do SEI para as relações internacionais, e delegado ao Comité de Indústria da OCDE].  Costumávamos ficar num pequeno hotel da rue du Bois de Boulogne, à avenue Foch, donde, a pé, partíamos todas as manhãs, em passeio higiénico, para os nossos trabalhos no Château de la Muette. No regresso, ao fim do dia, acontecia-nos, quando mais cansados e com menos tempo, jantar algures nos Champs Élysées e ir comprar uns jornais ou revistas, nalguma drugstore. Por mim, juntava-lhes quase sempre uma banda desenhada, para surpresa do João Cravinho, que não entendia como é que eu podia gostar "daquilo". A verdade é que, desde os meus cinco anos, toda a vida me deliciei com histórias aos quadradinhos, e hoje ainda releio com confessado gosto muitas delas. Esta noite ainda, quase em 2019, calhou-me uma curiosa aventura do Tintin, em dois volumes: Les Sept Boules de Cristal e Le Temple du Soleil. Digo curiosa, porque, para além de temas comuns a muita literatura - como a ilusão e a magia, o secretismo, a descoberta e a maldição - o fio condutor desta história, a sua intriga fulcral, me parece ser a loucura. É ela o castigo que o espírito inca reserva para os cientistas aventureiros que ousem violar os seus mistérios, é dela que eles serão finalmente libertados, depois de Tintin ordenar ao sol em eclipse que reapareça - para assim obter, além do fim da maldição dos sábios hospitalizados, a própria libertação, e a dos seus inseparáveis amigos, em troco da promessa de manter secretos os segredos dos incas clandestinos, escondidos nas altitudes da sua milenar terra natal, em ruínas conservadas do seu perdido império. Mais: é a loucura, sobretudo ela, que espreita toda a gente, desde logo, nas páginas iniciais, a dos pacíficos burgueses que, no compartimento de comboio em que Tintin lê o jornal, espreitam os títulos das notícias de maldições, e logo se assustam muito, receosos do contágio da loucura de sonhos aventureiros... 

 

   Nota bem, Princesa de mim, que, de certo modo, é com audácia -- à qual, como à clarividência, tantas vezes chamamos louca - que Tintin vence a loucura. Esta surge manifestada por histerismos doentios, pelo medo, ou qualquer terror inspirado por fantasmas íntimos que as vítimas sofrem mas não conseguem expulsar. Como se, confusa, a consciência a si mesma se perseguisse... Ou um sonho tenebroso nos habitasse como se fosse real. Tintin também é perseguido: está a dormir no seu quarto, na enorme moradia do professor Bergamotte, onde se conserva a múmia de Rascar Capac, quando esta fantasmática figura lhe entra pela janela aberta e lança ao chão, quebrando-a, uma bola de cristal contendo gás de loucura. Assustado, o nosso herói salta da cama e verifica que, afinal, o vento e a chuva de uma borrasca é que lhe haviam aberto a janela, e quebrando-lhe os vidros. Tudo o mais não passara de sonho. Reparei numa jarra azul com flores, posta numa mesa de canto, junto à janela. Com a violência da rajada que a abriu, esta tombou aquela sobre a tal mesa, e caíram as flores. O pormenor da jarra vê-se claramente em três dos quadradinhos em que surge Rascar Capac. Tombada, surge noutros três, em que o fantasma está ausente e Tintin, bem acordado, regressa à realidade. Ocorreu-me a semelhança entre essa jarra e suas flores e o quadro de Van Gogh, Fleurs dans un Vase Bleu... Evocação da loucura, de uma intoxicação? Apenas pensossinto que, mesmo inconscientemente, Georges Rémy evoca ali, sob a aparência de coloridas flores, a perturbação que o pintor holandês também experimentou. A angústia é ali insídia interior, talvez a nossa consciência imperfeita em atroz desespero por não se nos encontrar nas explicações do universo e da vida. Histórias, novelas, desenhos e filmes de terror são exorcismos dessa coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

   Só saímos dessa perplexidade respirando fundo, contando até dez, somando dois mais dois, e indo chamar pessoas e coisas pelos nomes que sabemos. Ou, mesmo antes, tocando fisicamente em algo à mão. Ser e sentir-se animal é melhor antídoto da angústia do que qualquer metafísica. Come chocolates, pequena..." aconselharia o Álvaro de Campos. Ou, melhor ainda, outro dos heterónimos do Fernando Pessoa (qualquer deles um exorcista das suas angústias), sabiamente:

 

Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Esta confissão de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, é uma profissão de fé quando o mesmo assim fala: Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou...

 

   Alternamente formuladas - outra vez pelo engenheiro Álvaro de Campos, agora no seu Lisbon Revisited (1926) - as mesmas sugestões vão-se deixando tentar pela metafísica literária:

 

   Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
   Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
   Para que chames desconhecido a qualquer cousa em especial?

 

   Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
   Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
   Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
   Dispersa-te, sistema físico-químico
   De células noturnamente conscientes
   Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
   Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
   Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
   Pela névoa atómica das cousas,
   Pelas paredes turbilhonantes
   Do vácuo dominante do mundo...

 

   A religião não é mezinha nem cura para a angústia. Não a tentes para o efeito, Princesa de mim. A própria experiência religiosa, mesmo mística, pode sofrer angústia. A presença sentida de Deus não o torna visível nem palpável, já são Paulo ensinava aos hebreus que a fé é a substância das coisas por vir. Todos os dias chamamos: Vinde Senhor Jesus! Como já o salmista interpelava "de profundis da sua angústia" o Senhor que não via.

 

   Ao que outros percebem como inexistência de Deus - por falta de prova experimental ou científica -, e, outros ainda, como simples ausência, chamam os crentes o silêncio de Deus. Destes, há os que reclamam sinais - dos tais que Jesus repetia terem sido já dados - talvez esquecidos da lição a São Tomé: acreditas porque viste; bem aventurados os que creem sem ter visto. Em religião, a resposta ao silêncio de Deus é o nosso silêncio que escuta. A experiência mística não é uma prece.  É uma comunhão. Esta pressupõe disponibilidade e despojamento, cujo exercício é ascese espiritual, a qual não se funde com quaisquer regras mecânicas ou rituais de calculada ou previsível eficácia, ou seja, não é um tratamento. Antes e só uma predisposição à escuta do silêncio que fala. Será difícil, em tempos de pressas e correrias, de fabricação constante de palavras e discursos, explicações e receitas, e, porque pensa que tudo se faz, considera que a escuta do silêncio é uma atitude passiva. Mas, de outro modo, poderemos entendê-la como essa talvez esperança que suspende o final da Ode Mortal de Álvaro de Campos:

 

   E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
   E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
   E será o Inesperado que eu esperava -
   O Desconhecido que eu conheci sempre -
   O único que eu sempre conheci...

 

   Afinal, pela sua imperfeição, talvez a condição humana seja heroica. E talvez por ser louca e longa a silenciosa espera, na escuridão da noite vá nascendo o dia. Para que possamos dizer, como Ungaretti: M´illumino d´immenso... Poema brevíssimo, intitulado Mattina (Manhã na versão portuguesa de Orlando de Carvalho - Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 1971 - que reza assim: Deslumbro-me / de imenso). Na minha tradução, opto por Alumio-me de imenso: não só, nem tanto, pela maior proximidade ao original italiano, mas por me parecer que, antes do deslumbramento (talvez mais sensorial e subjetivo) a iluminação vem de além, é o dom da luz, é a clarividência, a lucidez. Deslumbro-me depois de ter sido aceso como o Buda ou Paul Claudel em Notre Dame de Paris, ou claramente derrubado - porque perseguia ou desafiava - como São Paulo a caminho de Damasco. Sobre tão imensa luz que me alumia te escrevi, em 18 de maio de 2014, uma carta que o blogue do CNC publicou naquela data... Relia-a hoje.

 

Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DE ESPAÇOS TEATRAIS NA ILHA DA MADEIRA

 

Faz-se hoje referência à tradição de edifícios vocacionados para a atividade cultural na Madeira. E desde já é de assinalar que para lá da indiscutível beleza natural e urbana, o meio em que se inscreve, independentemente da valorização socioeconómica respetiva e como tal também indiscutível, pode não parecer propriamente dominado pelas atividades e tradições do espetáculo teatral...

 

Mas muito embora: existe na Madeira uma tradição cultural de teatros e edifícios de espetáculo, que vem do século XVIII. Assim, a chamada Comédia Velha data de 1780 e sobreviveu até 1829. O Teatro Grande foi edificado junto ao Palácio de São Lourenço em 1776 e demolido em 1833. E seguiram-se numerosas salas de espetáculo: o Teatro do Bom Gosto, assim mesmo, o Teatro Thalia, ou o Teatro Baltazar Dias que, na sucessão de mudanças políticas, se chamou Teatro D. Maria Pia, inaugurado em 1888 e sucessivamente denominado Theatro Funchalense e Teatro Manuel de Arriaga, até à homenagem ao grande poeta madeirense Baltazar Dias.

 

No inicio do século passado, este Teatro (então) D. Maria Pia marcava já pela qualidade da sala e pela dimensão, com frisas, duas ordens de camarotes, plateia e geral, pela beleza arquitetónica exterior e interior: mas marcou também por ser, pelo menos deste o início do século XX, propriedade da Câmara Municipal do Funchal, o que na época não era muito habitual!...

 

Mas na Madeira os teatros não se concentram apenas no Funchal, longe disso.

 

Assim registe-se que existe na Calheta como que uma tradição de centros culturais que têm motivado e justificado sucessivas reestruturações de edifícios. Vejamos um caso mais recente.

 

Desde logo, remontando a 2004/5, assinala-se a articulação da antiga Casa das Mudas, assim mesmo denominada, com um chamado Centro das Artes.

 

Efetivamente, tal como tivemos ensejo de referir em estudo efetuado no âmbito do Centro Nacional de Cultura,  o Centro Cívico do Estreito da Calheta  foi inaugurado naquele ano e corresponde a reformulação da antiga Casa das Mudas, segundo projeto de Carlos Baptista, Freddy Ferreira César, Rodrigo Cascais e Alexandre Sousa.

 

O edifício denominado Centro das Artes-Casa das Mudas, projeto do arquiteto Paulo David, que citamos ao referir que o projeto como que simula “um grande conjunto de peças esculpidas através também da utilização de basalto”.

 

E salientamos no nosso livro a aproximação à paisagem, num conjunto, precisamente, que se integra no paisagismo vertiginoso da montanha a pique sobre o mar.  (in “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed. Mediatexto e CNC pág, 101).

 

DUARTE IVO CRUZ

NOS NOVENTA ANOS DE TINTIN, CRÓNICA DE KLOW

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CADA ROCA COM SEU FUSO…
Episódio especial, 11 de janeiro de 2019

 

«Na sequência de “Tu Cá Tu Lá Com o Património”, iniciámos uma nova série para 2019, da autoria do nosso amigo Agostinho de Morais.

São crónicas amenas deste “gentleman farmer”, afilhado de Frei Agostinho da Cruz, de idade incerta, mas com uns bons anos de vida e de experiência. É um jardineiro nas horas vagas, cuida do seu MGA com mil cuidados e vive obcecado com o Brexit, com pavor que as peças para o seu vetusto automóvel se tornem incomportáveis de preço. É um anglófilo inveterado, cônsul honorário da Sildávia, detetive nas horas vagas, colecionador de borboletas exóticas, especialista em autores como Chesterton e Evelyn Waugh, e de Histórias aos Quadradinhos, pratica xadrez e bridge, e cultiva a teoria dos jogos. Em tempos escreveu três complexos opúsculos com misteriosos títulos “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga” , “História da Sildávia até à Atualidade” e “ As Misteriosas descobertas do Father Brown”… São páginas de puro humor, história e matemática. É um conhecedor de temas históricos e linguísticos, e lê textos antigos em sânscrito, grego e latim. Quanto ao mais, é o que resultar das suas crónicas, a não perder!».

 

 

 

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

 

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou turcos e adotou o nome Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, algo como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo paríodo de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de Tintin… Oliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica e vicissitudes diversas….»

 

Agostinho de Morais

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XLII - EXPRESSIONISMO

 

Movimento artístico alemão dramático e trágico, de grande densidade psicológica e reflexiva, cujos artistas supervalorizavam o eu e a necessidade de exprimir as suas ansiedades e conflitos pessoais, alguns com preocupações de denúncia social, havendo neles uma angústia de viver, ao invés da alegria de viver do fauvismo, apesar das suas semelhanças com o fauvismo francês.

 

Reagiu contra o naturalismo e o impressionismo, tendo como antecessores Cézanne, Gauguin, Jugendstil, Van Gogh, Hodler e Munch, recorrendo a cores fortes para a captação angustiante e dramática e a explicitação dos sentimentos e das vivências psíquicas, recebendo várias influências, à semelhança do fauvismo, entre elas a valorização do indivíduo, a atenção a civilizações primitivas e exóticas (Gauguin), as cores intensas e deformação da natureza (Van Gogh), a alucinação das figuras (Munch), a crítica à sociedade burguesa (Nietzsche).

 

A imagem é simplificada, deformada, brutalizada remetendo, por um lado, para modelos arcaicos, primitivos ou infantis, de pendor regressivo e, em contrapartida, tratando temas relacionados com a época de então, denunciando a civilização moderna e usando os instrumentos da crise contra a própria sociedade, produzindo-se uma contradição entre a forma e o conteúdo expresso.

 

Não foi um movimento unitário, tendo como representantes principais das várias manifestações expressionistas, Die Brucke (A Ponte), Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul) e Der Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade).  

 

Die Brucke (A Ponte) foi criado em 1905 por Heckel, Schmidt-Rottluff e Kirhner, ao qual se juntaram Emil Nolde, Max Pechstein e Otto Muller. 

 

Concebem a arte como uma conceção do mundo e não como uma mera exigência estética, manifestam-se contra a sociedade urbana, denunciam com angústia a crueldade e a corrupção, sacrificam a beleza pelas suas ideias, sentimentos e paixões sobre temas da vida quotidiana, em que as cores e formas usadas arbitrariamente nas suas telas  pretendem provocar no observador um sentimento de assombro, medo ou rejeição, como em Mulher ao Espelho, Cinco Mulheres na Rua e Rua com Mulher de Vermelho.

 

O português Cristiano Cruz foi expressionista com grande influência de Kirchner.

 

Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul), nasce em Munique, em 1909, sendo herdeiro do simbolismo, misticismo russo e do expressionismo do Die Brucke, tendo como figura fundamental Kandinsky, além de Franz Marc, Kubin e Munster. 

 

É um expressionismo que não tem o sentido dramático e trágico do primeiro grupo (Die Brucke), que procura uma dimensão espiritual, não necessariamente metafísica, a par da emotividade e contacto com a natureza, onde impera uma expressividade emotiva e espiritual, dando um valor emotivo, por vezes irracional, à cor, sem perder a harmonia cromática. Exemplificam-no O Sonho (1912), de Marc, com cores usadas de modo arbitrário nas figuras e paisagem, sobressaindo os cavalos azuis, transmitindo uma sensação de calma, recolhimento e serenidade. Outro exemplo: Com o Arco Negro (1912), de Kandinsky.   

 

Der Neue Salichkeit (Nova Objetividade, regressa à pintura figurativa, sendo desapiedada e dura, após a experiência da guerra, retratando a miséria humana e a morte em contraste com a riqueza e ostentação das elites e do poder, tendo como representantes Max Beckmann, Otto Dix e George Grosz. Veja-se Cenas da Rua Kurfurstendam (1915), de Grosz.   

 

Além da pintura, o expressionismo estendeu-se ao ensaio, ao drama, à música e à literatura em geral.

 

A sua angústia de viver, caraterizada pelo absurdo, ceticismo, desespero, pessimismo, crueldade, ansiedade e sentimentos de horror, repulsa, rutura e sofrimento, evasão da opressão, luta contra a desumanização, crítica da sociedade burguesa e troça do que é belo, fez surgir, pelo seu caráter multifacetado e variedade de géneros que desenvolveu, nomes marcantes no mundo literário, como Kafka, Brecht, Camus (O Estrangeiro),  entre outros.

 

08.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Bossa Nova: milagre de amor que escorreu dos meus olhos quando

 

em 1970, entrei no Canecão - sala de espetáculos situada no Botafogo, Rio de Janeiro – e Vinicius de Moraes, Tom Jobim, a cantora Miúcha e o violinista Toquinho, deram-nos a ouvir uma joia da música brasileira ao vivo, qual joia mais tarde também brilhando em Buenos Aires com Maria Creuza na boate La Fusa.

 

De repente, senti que acabara de sair do avião, e à minha volta um calor de abraço único que nunca sentira em local algum e me penetrava à medida que a cidade maravilhosa se expunha, jubilosa, forçando o meu sonho a interpretá-la, real. O mar, uma alegoria ingénua e mulheres-deusas disto e daquilo, e tontas e seminuas, ao longo do calçadão de Copacabana, moviam as ancas quais jangadas convidativas ao nosso ouvido. E eis Ipanema que surge num repente, virando-me eu ainda no carro com o Pão de Açúcar num tudo em mim, uma floresta da Tijuca muito donzela e sem que eu a tudo pudesse dar o que já era, apenas suspirar deslumbrada por aquela chispa da areia doirada, sempre a bordo do meu olhar, tão frágil até onde ele foi, tão desembarque, tão terra nova.

 

Depois, morria a tarde numa divina fragância, momento por momento, em Búzios, e nós nos preparávamos para a ida ao Canecão naquela noite.

 

O meu desejo crescia e espalhava-se à minha volta como uma aia, no trautear das letras das canções da Bossa Nova que conhecia e que escutaria, lacaia da sua chama em mim e ao vivo. E a Aninha prendia os meus longuíssimos cabelos numa flor e cantava-me

 

tem de ser…Amor?...- chama, e, depois, fumaça:

 

O fumo vem, a chama passa…

 

E respondi orgulhosa: sim, conheço Manuel Bandeira, nessas tuas palavras. E conheço o que ele publicou no livro Libertinagem em 1930. Por causa de saber a leitura desse livro, eu digo-te Aninha: um dia fui-me embora para Pasárgada pois lá era amiga de um rei e escolhi um homem e a cama onde com ele me deitei. E, como era cheia de graça e bendita entre as jovens mulheres, Santa Clara me clareou a partir de uma única vez, e sem medo e sem saudade o deixei: foi quando certa rua começou algures, veio dar ao meu coração e comecei a roubar-me. É assim que sei! Um dia explico-te, melhor, se for capaz.

 

Esperavas que te dissesse isto? Não te impressiones, nada sei da Bossa Nova, sei que a amo e olha, vê este papel escrito por Vinicius, não digas ao pai que eu o tenho, guardo-o neste amarrotamento debaixo do meu travesseiro.

 

Bossa nova – para citar esse grande new yorker que foi o poeta Jayme Ovalle –, é mais a namorada que abre a luz do quarto para dizer que está, mas não vem, 

 

Bossa nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um recado que uma mensagem. 

 

Bossa nova é mais uma moça triste atravessando a Broadway 

 

Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema que a agitação comercial de Copacabana. 

 

Bossa nova é a nova inteligência, o novo ritmo, a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasilovens a seus pais e mestres: uma estrutura simples de sons super-requintados de palavras em que ninguém acreditava mais, a dizerem

 

que o amor dói mas existe;

 

que é melhor crer do que ser cético;

 

que por pior que sejam as noites, há sempre uma madrugada depois delas e que a esperança é um bem gratuito: há apenas que não se acovardar para poder merecê-lo."

 

Julgo que ele disse isto numa entrevista que deu enquanto tomava banho na sua banheira, onde gostava de estar no banho e onde, julgo, morreu. Assim se dizia na Capela do Rato lá em Lisboa.

 

Aninha, vamos ouvi-lo ao vivo daqui a pouco e saber também de

 

Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Elis, Toquinho, Carlos Lyra, Edu Lobo, Caetano e tantos que cantam Bossa

 

Vá ajuda-me canta comigo, tu és de cá:

 

Tristeza não tem fim, felicidade sim

 

E já no carro, ambas perguntávamos constantemente ao motorista quanto tempo faltava para chegarmos ao Canecão

 

e ao passar em Ipanema

 

olha que coisa mais  linda mais linda mais cheia de graça é ela que passa

(…) Ah porque estou tão sozinho

Ah porque tudo é tão triste,

Ah a beleza que existe 

A beleza que não é só minha

….que também passa sozinha

Ah se ela soubesse que quando ela passa

(…) o mundo fica mais lindo por causa do amor

 

E a outra e a outra canção

 

Um velho calção de banho

Um mar que não tem tamanho

Um fim de tarde em Itapuã

Falar de amor em Itapuã

 

Mais ou menos assim, não é? E atrasadas entrámos no Canecão. Fui caminhando em transe até à mesa dos nossos amigos. O meu padrinho Alçada estava lá, não recordo se com Jorge Amado pois estive em casa do Jorge com o Alçada algumas vezes, mas desta anterior, não me lembro se ele estava ou não, eu só queria multiplicar-me para parecer mais um animal livre vestido de neblina já que começara a chorar por ver tão soberbos poetas tão perto e os meus olhos sem glórias escutavam e julgavam compreender Vinicius e a Bossa Nova e os ritmos dissolutos e os sonetos da despedida e todas as meninas afogadas no transito da vida que só as levava às margens.

 

Há a sensação angustiante de uma mulher dentro de um homem

 

Porque hoje é sábado!

 

Deus meu! Eu ouvi ele dizer esta canção falada! Porque hoje é sábado! E…

 

E por toda a minha vida eu vou te amar

A cada despedida eu vou te amar

 

E quem assim cantou casou e se divorciou 7 ou 8 vezes?

 

Caetano Veloso e Edu Lobo, estou a confundir? Mozart ainda não entendo. E o Jazz? E?

 

E eu que andava perdido ao encontrar você eu entendi ???

 

E a Tonga da Mironga do Kabuletê? Lembras-te? E lamento no Morro?

 

Ouvi dizer que no Rio de Janeiro, o termo Bossa Nova passou a ser utilizado para nomear o talento especial de uma pessoa a fazer algo. Neste sentido surge no samba “Coisas Nossas”, de Noel Rosa, que diz “O samba, a prontidão e outras bossas/ São nossas coisas, são coisas nossas”. Mais ou menos assim nos disse um amigo do Alçada.

 

Ai meu brasil brasileiro três vezes voltaste à flor e bem sei que te afogarás não sejam as redes por ti do meu amor. Escrevi isto num papel, dobrei e dei ao António Alçada. Levantei-me da mesa com a Aninha. Despedimo-nos de todos. Deitámos um olhar largo como se nos desse este olhar a certeza absoluta do que ali se passara.

 

Quando voltávamos para búzios, a noite parecia um corpo em cruz no meio de uns braços fortes que o lavavam no mar. Estávamos num silêncio imensamente eu e a Ana, duas inocências acesas. Por mim sentia que não tinha vivido um sonho, sim, uma existência: na carne, na fadiga, no pudor, na casa das ideias, no trópico encantado, afinal, tivera a visita das belas feras do Pantanal e não tivera medo, antes queria brincar, brincar muitíssimo, sentir a Natureza desacordada ou não te amasse tanto.

 

SARAVÁ! 

Teresa Bracinha Vieira