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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Arquitetura. Forma do mundo e forma criada.

 

‘Uso o termo arquitetura num sentido positivo e pragmático, como uma criação inseparável da vida civilizada e da sociedade em que se manifesta.’, Aldo Rossi, L’architettura della cittá, 1966

 

Existe uma relação intrínseca entre as formas do mundo e as formas criadas. As formas que moldam a arquitetura contêm assim vida. 

 

As formas do mundo (matéria, que é vida já em sim) provocam no homem a acção de criar novas formas.

 

As formas são ativadas/criadas através de mecanismos intuitivos e têm a capacidade de ativar outros mecanismos ao serem assimiladas. 

 

A forma criada resulta de omissões ou acrescentos. Apresenta limites e indeterminações. É durante o processo de criação que o homem vai tendo uma imagem cada vez mais clara do que está em formação. A matéria é transformada por um processo físico, por ações e não por meras sensações.

 

As ideias advêm das formas da materialidade do mundo. A intuição é uma receção/perceção consciente e instantânea de um sinal/forma que imediatamente o homem transcreve e transmite na medida das suas capacidades. A perceção consciente resulta do poder de escolha do homem, e reflete as coisas do mundo, tal como um espelho. 

 

Pablo Palazuelo nos 'Cuadernos Guadalimar' (1978) escreve que o homem criador é um instrumento que aumenta a duração ou a intensidade do mundo, é um eco, um reflexo e uma repercussão. Uma forma nova procede de uma já existente e assim sucessivamente.

 

'La materia llamada orgánica o viviente, tiene su razón de ser em el ejercício de una constelación de funciones que son imprescindibles, para que ese cuerpo pueda continuar viviendo, desarrollándose y transformándose. Todas las vidas se transforman de unad en otras perpetuamente, 'como pasando', como en un fluir por siempre en busca de la forma otra, de la forma siempre nueva... la vida y sus formas no tiene fin.', Palazuelo

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

The Royal Baby, The Global Family and, Her Maj’s choice, 2018

 

A thankful, grateful and, extraordinary St George’s Day. Wonderful news: A new Prince is born. Às 11:01 no dia do venerável patrono de England e data do nascimento de William Shakespeare nasce o terceiro filho dos Dukes of Cambridge, William e Kate. É o sexto neto de HM Elizabeth II e o quinto Windsor em linha para o trono britânico. — Chérie! Le bonheur de I'enfant est celui de la rose, qui fait ses perles d'un peu d'eau! Já o Home Office tenta reganhar as rédeas burocráticas no Windrush Generation Scandal.

RH Amber Rudd apresenta desculpas aos cidadãos erradamente visados com deportação e promete ressarcimento, mas o voto étnico parece perdido para os Tories nas eleições locais de 4 May. — Well. In great misfortunes 'tis that valour is shown. Fora de portas, tudo anda também muito animado. O French President Emmanuel Macron está de visita oficial a Washington DC, após uma prévia paragem em… Berlin. O comércio transatlântico e questões multilaterais como o acordo nuclear com o Iran estarão em foco também no encontro seguinte da White House, entre a Bundeskanzlerin Angela Merkel e o US President Donald J Trump. Por cá, o Commonwealth Heads of Government Meeting consagra o Prince Charles of Wales como sucessor de Her Majesty no leme da Global Family.

 

Beautiful, long and exciting days at Central London, with a royal arrival. A atmosfera festiva em torno de St James afigura-se até ininterrupta e em contraste com a neblina política em Whitehall. Se, ao som da “Carmina Burana,” a colorida e sempre populosa London Marathon domina um Sunday ainda fruído pelos nativos com banhos de sol no verde em volta, o clima de celebração popular abre cedo no Saturday, entre bandas e fanfarra militar, com a 21 gun-salute na Tower Bridge e em Hyde Park a saúdar o 92.º aniversário de Her Majesty The Queen. Nascida a 21 April 1926, uma radiante Elizabeth II encerra as comemorações com um televisionado concerto em Royal Albert Hall, onde, surpresa das surpresas, emerge político ukelele. A par das vozes de Sting e Kylie Minogue, vídeo e audio do longo reinado polvilhados com alguns dos seus trechos favoritos de "My Fair Lady" e a incontornável melodia palaceana que é "Wonderful World," canta um ex Labour Shadow Chancellor of the Exchequer. Soa “When I’m Cleaning Windows,” uma outra canção da Royal playlist. Junto com Harry Hill e Frank Skinner, acompanhados pelos espantosos banjos da George Formby Society, o inesperado trio de RH Ed Balls cativa a audiência em escala para uníssono "Happy Birthday" e entusiásticos “three cheers” ― em palco solicitados por HRH Prince Charles Philip Arthur George of Wales após uma ora clássica e bem humorada introdução a "Your Majesty, Mummy." Dois dias depois, em solar St George & Shakespeare day, Elizabeth of Windsor é ofertada pelos céus com mais um neto.

 

Um pequenote em xaile branco, o fato de linho azul do Prince William e o vestido vermelho da Duchess Kate of Cambridge marcam a apresentação do Royal Baby-Boy, com rasgados sorrisos, saudações e agradecimentos a escoltar as cores da Union Jack nas portadas do St Mary’s Hospital. A simplicidade e descontração dos duques revela cuidado no detalhe simbólico e eleva o entusisasmo da multidão que acorre a Paddington para saudar o novíssimo princípe, cujo nome só amanhã será revelado a sequiosos meios de comunicação de todo o mundo que ali espelham interesse pela nascença do Windsor ‒ aliás, em trilho de eventos que nos conduzirá ao casamento do Prince Harry e Meghan Markle a 19th May 2018. A cegonha voa célere. Pouco antes das 06:00, a Duchess é conduzida pelo marido à Lindo Wing em London. Às 08:24, o Kensington Palace confirma a entrada nos trabalhos do parto. Logo sob os holofotes do circo mediático, com a usual imagem do polícia acidental à entrada da maternidade nos écrans grandes e pequenos dos ilhéus, eis a boa nova. HRH Kate Middleton dá à luz a baby son às 11:01. É a primeira explosão popular; outras se sucedem ao longo das horas. Para a história do Prince's birthday fica ulterior revelação de o bébé pesar 8lb 7oz, uns bem nutridos 3.8kg. Já às 13:18 é a vez do Town Crier anunciar em pregão local que A Prince is born. O champagne e os cheers brotam abundantes nas redondezas. Sete horas depois do nascimento, entrecortada a royal play com a visita ao irmão dos adoráveis Prince George e Princess Charlotte, os duques regressam a casa. ― So: Congratulations to the baby boy and the happy parents. Let’us celebrate the day. And, God Save The Queen.

 

Westminster vive também dias excitantes. Com o Labour Party ainda às voltas com os problemas de antissemitismo nas suas fileiras e os Conservatives em modo de controlo de danos na gestão administrativa das velhas ondas emigratórias da Commonwealth, eis que a House of Lords cumpre com expetável travão na Brexit. Num senado onde pontua a elite eurófila do reino, a câmara alta inflige a primeira derrota parlamentar ao Government de RH Theresa May no processo de retirada do United Kingdom da European Union. Pela mão de Lord Patten of Barnes, nenhum outro senão o último governador de Hong-Kong e atual Chancellor da University of Oxford, ex comissário europeu e antigo ministro dos Thatcher e Major Cabinets, os pares aprovam uma emenda à European Union (Withdrawal) Bill com expressiva maioria interpartidária. A proposta legislativa regressa agora à House of Commons com pesada mensagem: repensem tudo, a fim de o reino permanecer na Customs Union. Face a isto e a eventual impulso rebelde para os Remainers de todos os quadrantes, Westminster está em chamas – entretanto gasolinadas com mais um exercício de Brussels para manipular a Irish border. Entre rumoração de plots e afins, em vésperas de ida a votos nas municipalidades do reino, Downing Street persiste que “Brexit means Brexit” e insiste que a decisão de sair da união aduaneira “will be no reverse.” Obviamente que a homeopática saga brexiteira segue dentro de momentos…

 

Neste big, big day, fecho com uma nota bibliográfica e a aposta de o nome do Windsor Baby integrar a tripla Arthur James + Antonio.

Na sequência da sua eleição como próximo líder da Coomonwealth, cargo para o qual é expressamente designado por "Your Majesty, Mummy," bom amigo revela-me a existência de discreta coletânea editada por His Royal Highness Charles of Wales: The prince's choice. A personal selection from Shakespeare, publicada em 1995 pela casa londrina Hodder & Stoughton. A silhueta do bardo ilumina a parada. Ainda em Paddington soa frase epigramática do Prince William aos media que acompanham o nascimento real: "Thrice the worry now!" Ao ouvi-lo, questiono-me por que não um atlante Antonio na House of Windsor… — Good, good. Remember those magic calculus that ours Master Wil makes in The Merchant of Venice by the voice of the Christian trader when speaking with gentle friend about a risky contract: [Bassanio] You shall not seal to such a bond for me! / I’ll rather dwell in my necessity. | [Antonio] Why, fear not, man. I will not forfeit it. Within these two months—that’s a month before / This bond expires—I do expect return / Of thrice three times the value of this bond.”

 

St James, 23th April 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de abril de 2018.

 

«En Lutte contre les Dictatures – Le Congrès pour la Liberté de la Culture – 1950-1978» de Roselyne Chenu, com prefácio de Alfred Grosser (Félin, 2018) acaba de ser publicado, dando conta da importância das ações no âmbito da defesa das liberdades e da democracia, como projetos de cultura.

 

MOMENTO INESQUECÍVEL
A fotografia que ilustra o presente texto é memorável. João Bénard da Costa em junho de 2005 condecora Roselyne Chenu, em nome do então Presidente da República Jorge Sampaio, com a Ordem da Liberdade, em agradecimento pelo contributo desta extraordinária mulher, que foi braço direito de Pierre Emmanuel no Congresso para a Liberdade da Cultura, na defesa dos valores da democracia em Portugal, nos tempos difíceis da ditadura. A sessão em que esse ato teve lugar foi organizada pelo Centro Nacional de Cultura e deu lugar a uma obra que se encontra publicada sobre a intervenção em Portugal do referido Congresso. Falo de «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril» (Gradiva, 2015) – livro que reúne não apenas o repositório dos passos fundamentais desse projeto, com tão importantes repercussões entre nós, mas também depoimentos de personalidades, a maioria das quais já nos deixou, que em discurso direto nos dizem como participaram e das consequências sentidas do que foi feito nesse tempo. Pode dizer-se, aliás, que o livro acabado de publicar por Roselyne Chenu obriga, para o caso português, à leitura circunstanciada da obra portuguesa. Com efeito, as idiossincrasias portuguesas permitem valorizar o papel desempenhado entre nós pelo Congresso – que foi na transição para os anos setenta a grande seiva do Centro Nacional de Cultura. E ainda hoje temos o testemunho vivo dos jovens intelectuais que então despontaram e são unânimes em dar enorme importância a essa iniciativa, essencial no lançamento de um ambiente cultural aberto, plural e criativo. Cito João Bénard da Costa: «em 1960, após dez anos em que o Congresso para a Liberdade da Cultura se irradiou, sobretudo nos países chamados socialistas, Pierre Emmanuel pensou na Península Ibérica e nos países que, nela, não gemiam sob o comunismo, mas atabafavam com o franquismo e com o salazarismo. Primeiro criou um comité espanhol, depois, quando conheceu o António Alçada, pensou num comité português.

Em dezembro de 1965, na presença de Roselyne Chenu, assistente de Pierre Emmanuel e particularmente encarregada dos povos ibéricos, teve lugar a primeira reunião do Comité Português, que adaptou o púdico nome de Comissão para as Relações Culturais Europeias. Dez membros: Adérito Sedas Nunes, António Alçada Baptista, João Pedro Miller Guerra, João Salgueiro, Joel Serrão, José-Augusto França, José Cardoso Pires, José Ribeiro dos Santos, Luís Filipe Lindley Cintra e Mário Murteira. Estava representado quase todo o espectro político e quase todas as áreas do saber, com um leve favoritismo para as ditas ciências humanas (sociologia, economia, história), o que à época dava seriedade. Tudo acabou (em Dezembro de 1965) com um festivo jantar em casa da Zezinha e do António, onde conheci melhor Roselyne Chenu. Ela tinha 33 anos ("l"âge du Christ") olhos muito azuis e cabelo louro cortado à Jean Seberg. É a imagem que ainda tenho diante dos olhos». Aos nomes referidos do Comité Português acrescente-se que, ao longo do tempo outros elementos foram integrados na Comissão de Relações Culturais Europeias: o Padre Manuel Antunes, Nuno Bragança, João de Freitas Branco, Maria de Lourdes Belchior, José Palla e Carmo, Rui Grácio e Nuno Teotónio Pereira – além do próprio João Bénard da Costa, naturalmente.

 

UM EPISÓDIO SIGNIFICATIVO
Há dias, a 17 de abril, em Paris, na Delegação da Fundação Gulbenkian, teve lugar com assinalável concorrência e participação, a invocação das relações entre Emmanuel Mounier (1905-1950), a revista “Esprit” e Portugal. “Autour d’Emmanuel Mounier et Portugal” teve a presença de João Fatela, Jacques Le Goff, Yves Roullière e Jean Louis Schlegel – que recordaram, a propósito da publicação da obra “Entretiens” de Mounier, as relações com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, mas também com Nuno Bragança e Pedro Tamen, nos anos sessenta, no tempo da direção da revista “Esprit” por Jean-Marie Domenach. Presente na sessão, Roselyne Chenu recordou Pierre Emmanuel e José Bergamin, lembrando o episódio ocorrido em 1969 da vinda a Portugal de Domenach, a convite do Congresso. Apesar da luz verde de princípio do governo de Marcelo Caetano e da intervenção de José Guilherme de Melo e Castro (amigo de António Alçada) – a polícia política impediu que o diretor da revista “Esprit” pudesse fazer as conferências combinadas, com o argumento de que assinara textos críticos da política colonial. Ao chegar ao Aeroporto da Portela foi levado para o Hotel Mundial e repatriado no dia seguinte sem que pudesse falar com quem quer que fosse. Domenach diria depois, que estava longe de supor que no final dos anos setenta ainda pudesse encontrar os métodos da Gestapo. O escritor católico pôde então compreender a importância do apoio às iniciativas que preparavam a democracia. Recorde-se que o secretário-geral da Comité Português do Congresso era João Bénard da Costa, que funcionava no Centro Nacional de Cultura, onde também estava então o Comité de Apoio aos Presos Políticos, na clandestinidade, presidido por Sophia de Mello Breyner. Roselyne Chenu e João Fatela contaram o episódio – e a primeira juntou o pormenor delicioso do pedido da companhia aérea para que fosse pago o suplemento por ter sido usado um voo e um lugar não programados. Naturalmente, Pierre Emmanuel devolveu placidamente a conta, dizendo que a mudança se devia exclusivamente à polícia política portuguesa, pelo que o Ministério do Interior deveria responder por esse encargo adicional. Olivier Mongin recordou o papel fundamental dos intelectuais portugueses da revista “O Tempo e o Modo” e da Livraria Moraes – e referiu como a revista “Esprit” foi decisiva na criação de uma encruzilhada democrática, indispensável para a abertura democrática da Europa. Neste ponto, é de salientar ainda o facto de muitos dos assinantes de “O Tempo e o Modo” e de leitores das edições da Moraes serem militares portugueses mobilizados em África, entre os quais Ernesto Melo Antunes, que viria a ter papel decisivo no Movimento das Forças Armadas (MFA), com uma singular coerência democrática, não podendo ser esquecida a influência de uma obra crucial de Emmanuel Mounier, significativamente intitulada como “L’Éveil de l’Afrique Noire”. Tratou-se de um momento rico e emotivo em que foi realçada a influência de Mounier e a coragem de António Alçada Baptista e de João Bénard da Costa bem como a importância da cooperação entre católicos e não católicos na construção das bases da democracia.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Entendeste bem o significado das minhas duas últimas cartas sobre imperadores e providencialismos. Não busco ninguém em particular, apenas evoco exemplos de como as chamadas figuras importantes, sobretudo as que consideramos históricas, têm sempre duas existências: a real, aquela que foi ou ainda é facto, e a mitológica, essa que se fabricou, fabrica, e finalmente perdura no imaginário das pessoas. [Nota que isso pode acontecer com gente medíocre, como muitos que povoam a via láctea do empíreo político português]. A primeira é bastante desconhecida, ignota, secreta ou, melhor ainda, como diz o povo, só Deus a conhece. Nós, o vulgo, procuramos descobri-la pela recolha de informação ou por investigação histórica, mas dificilmente lá chegamos, ainda que possamos progredir numa compreensão mais objetiva e honesta de personagens e acontecimentos. Já a segunda, quando não é construção nossa, nem faz parte do nosso património cultural valorativo, pode ser livremente interpretada e (des)valorizada, mas não a controlamos: será mais um dado de facto, um fator condicionante dos eventos sociais que tentamos perspetivar e analisar. E, neste caso, a pessoa mitológica é realmente persona, isto é, muito mais ficção ou ator do que ser humano em carne e osso. Eis como a vida política é tão encenada.

 

   E, em política, constrói-se assim uma personagem muito complexa na sua aparente simplicidade de líder. No subconsciente dos grupos sociais obram desilusões e ressentimentos, nostalgias e recordações de perdas, que se tornarão em reclamações e desejos de desforra, em aspirações a grandezas imaginadas e reformas genéticas de passados por completar, se puderem incarnar-se na persona providencial e daí apelarem a todos os corações. Tal "ungido" de muitos procurará então valer-se das legitimidades necessárias à sua afirmação e ao seu percurso. Sobretudo à dos valores históricos e constitutivos de uma nação, incluindo a fidelidade religiosa. Casos claríssimos são o de Putin com a Igreja Ortodoxa Russa, o de Modi com uma versão hindu extrema e exclusiva do hinduísmo, ou de Erdogan, disfarçado de Ataturk (mas ao contrário), e outros vários líderes islâmicos, e o dos governantes ditos populistas em países europeus, incluindo os membros da UE situados no Leste europeu que constituem o grupo de Visegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), apelando ao nacionalismo eurocético, às suas tradições étnicas e religiosas. É claro que o atual jogo russo não os deixa indiferentes, mas pensossinto, Princesa de mim, que se sentem um pouco órfãos: ali mesmo onde passava geograficamente a Cortina de Ferro, avolumam-se hoje promessas por cumprir, a par de sonhos de identidade a recuperar. [Talvez por isso o papa Francisco - que tão energicamente tem reclamado o acolhimento de migrantes pela Europa - tem sido bastante discreto a questionar estes países...]

 

   Mas, além dos exemplos apontados e alguns mais, não esqueçamos, Princesa, outros "populismos" por aí disseminados que, pouco indigitados, têm todavia o que se lhes diga em matéria eleitoralista e suas consequências, mesmo na política internacional. Curiosa ilustração é o movimento sionista ou messiânico cristão, nos EUA, do qual aliás te falei numa das minhas cartas sobre Jerusalém, quando referia um discurso do vice-presidente Pence. Já então deixei claro que tais cristãos milenaristas partilham, com os sionistas judeus, a crença de que, no fim dos tempos, a Terra Santa ficará totalmente na posse do Povo de Israel, pois que lhe está prometida na Bíblia, e então virá o Messias. Na cena final, as duas fés divergem quanto à questão de o Messias regressar ou vir finalmente pela primeira vez e, sobretudo, quanto a quem sofrerá a conversão final: se todos os judeus ao cristianismo, ou se os cristãos ao judaísmo. O certo é que os sionistas cristãos apoiam e financiam a ocupação da Palestina pelo estado de Israel, e exercem pressão influente sobre o presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como sua capital. Imagina, Princesa de mim, que até aludem à oxigenada poupa trumpista como evocação da cabeleira do rei David, descrita na Bíblia. Tudo isto nos faria rir imenso se, com John Bolton a Conselheiro da Segurança Nacional, depois do ex-CIA Mike Pompeo a Secretary of State, os EUA não estivessem tentados a ir para a guerra ao lado de Israel, até porque cada um dos grupos milenaristas acredita que será inevitável a destruição bélica do terceiro lugar mais sagrado do Islão, hoje sito onde, no longínquo outrora, estivera localizado o Templo de David e Salomão. 81% desses cristãos sionistas votaram em Donald Trump nas presidenciais americanas e são-lhe, no conjunto do Bible Belt, um trunfo eleitoral indispensável. 

 

   Já os valores que o atual presidente americano invoca para granjear apoios são populistas, populares com pouca transcendência, pretendendo sobretudo entusiasmar um sonho americano de superioridade mundial e nacionalista (America First), tudo ou muito projetado ao jeito de um empresário obcecado pelo regresso da sua empresa a indiscutível nº1 do mercado, e utilizando métodos semelhantes (vg. os sucessivos despedimentos e substituições de pessoal, sem outra razão que a do quero, posso e mando; ou, ainda, a chantagem negocial). Os seus apoios não são, por isso, institucionais nem históricos (até procura desdizer, maldizer ou destruir outras políticas nacionais recentes). São apostas oportunistas, tal como o trumpista fazer e desfazer de propostas internacionais. Donde os meios de comunicação on line que privilegia.

 

   No seu notável China - a New History (Harvard University Press, 1992), John King Fairbank tem um capítulo sobre o que chama Imperial Confucianism, sucintamente definido como uma amálgama de legalismo e confucianismo: O recurso à violência pelo governante permaneceu sua prerrogativa relativamente ao seu povo como aos seus funcionários. Mas não podia governar apenas pela força e precisava portanto da ajuda Confucionista para mostrar o seu constante propósito moral de benevolência e conduta apropriada. Sob orientação Confucionista, o imperador cada dia cumpria rituais e cerimónias que eram a sua específica função de Filho do Céu. (Today`s White House foto-ops and sound-bites would have seemed quite natural to him.) A ironia da frase final, que deixei propositadamente em inglês, sugere e disfarça uma semelhança e um abismo. Paradoxal simultaneidade, uma tendo a ver com os métodos de publicitação de atos políticos, o outro separando a durabilidade de tradições, ancoradas no subconsciente coletivo, da leviandade do mero "marketing" político. Reparaste já, Princesa de mim, nos grupos que rodeiam Trump, na Casa Branca, para as fotografias de promulgação de um decreto? No anúncio de medidas protecionistas, até estavam figurantes operários de várias etnias, incluindo hispânicos de tez e feições claramente meso americanas... A primeira grande diferença entre a RPC e os EUA, hoje em dia, é que a primeira tem consciência das opções de política interna necessárias e possíveis ao crescimento económico e ao desenvolvimento humano e social da China, e dispõe do poder político suficiente para as pôr em marcha. A segunda é que a própria noção dessa vantagem, enquanto ordenada pelo poder político, está inculturada no seu povo e é por essa mesma cultura popular disciplinada, sendo o "show off", o "marketing" político mais arte para o exterior, exposição de fachada. Mas com clara perceção do mundo hodierno, onde terão de investir, ser investidos, comprar e vender, pois há muito já entenderam que o declínio da potência chinesa começou quando a dinastia Ming desistiu da expansão... Esta atitude é mais uma vantagem competitiva sobre a trumpista política supremo-isolacionista. A China dos nossos dias sente-se preparada e pronta para entrar na globalização, muito à sua maneira, é certo, mas também com a força necessária para participar no concerto das nações. E um concerto, como bem sabes, Princesa, é um conjunto de instrumentos vários e frases musicais que se afrontam e desafiam, tendo por fim a harmonia. Em carta futura te falarei dum conceito chinês milenário, que dá pelo nome de tianxia, uma visão do mundo como um todo, onde se apaga o sentimento de estrangeiro ou de inimigo. Conceito hoje retomado pelo filósofo Zhao Tingyang, quiçá em vias de aproveitamento pelo poder político chinês, para afirmação universal do seu nacionalismo.

 

   A grande vantagem da China hodierna, pois, é a sua cultura milenária dispor um povo à obediência e dispensar excessos de "marketing" político para uso interno. E, curiosamente, esse profundo sentimento de identidade parece estar a dar-se muito bem com as perspetivas duma entrada mais descontraída nas cenas que estão em palco no mundo... Da música clássica ao futebol e à "loja do chinês", do turismo à filosofia. E mesmo, até, às relações com o Vaticano, que talvez redefinam uma nova forma de cristianismo parcialmente cesarista, a juntar, historicamente, à moda romana antiga, ou à bizantina, ou à ortodoxa russa... E, no caso específico da guerra comercial que os EUA iniciaram, a China aguentar-se-á bem melhor a prazo.

 

   Este último cesarismo ou tzarismo é o que Vladimir Putin, com alguma habilidade, e bastante violência ao jeito soviético, mas também com raízes na antiga autocracia imperial, procura ressuscitar numa Federação Russa economicamente esgotada e militarmente ultrapassada. Aliás, com recurso a métodos de fácil paralelismo com os trumpistas. Por exemplo - conta-nos o jornalista russo independente Mikhail Zygar (num livro publicado em francês pela Cherche Midi, intitulado Les Hommes du Kremlin) - que o homólogo de John Bolton é hoje um ex-chefe do FSB (ex-KGB), Nikolaï Patruchev, o novo Secretário Geral do Conselho Russo de Segurança, o principal falcão da Rússia, assim como ponta de lança do anti ocidentalismo e do anti americanismo no seio do poder russo. Curiosamente, Hélène Carrère d´Encausse, a franco-russa (georgiana como Estaline), que foi politicamente próxima de Jacques Chirac, deputada pelo RPR ao Parlamento Europeu, e é hoje Secretária Perpétua da Academia Francesa, autora de um livro que li há décadas e me abriu um olhar novo sobre a URSS (L’Empire Éclaté,  Flammarion, Paris,1978), pediu recentemente (3ª feira, 3 de Abril, na Salle Gaveau, em Paris) que se matizassem um pouco os juízos sobre Vladimir Putin, lembrando que, até 2004, ele fora homem de mão estendida ao Ocidente (cf. Le Figaro de 5/4/2018)...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

Um estudo sobre o Coliseu do Porto nos 75 anos de atividade

 

Assinala-se a publicação de um conjunto de volumes evocativos da fundação do Coliseu do Porto, precisamente intitulado “O Coliseu e a Cidade: 75 Anos de História” (2018).

 

Trata-se efetivamente de uma evocação histórica em si mesma do edifício mas mais do que isso: o conjunto de publicações, editadas pelo próprio Coliseu, envolvem um vasto referencial de documentação de uma das mais relevantes casas de espetáculo da cidade, na perspetiva abrangente de arquitetura, urbanismo, atividade cultural e também de valores adjacentes no âmbito, insiste-se, da cultura e do espetáculo em si.

 

Porque  de tudo isso historia  e documenta o conjunto das publicações, a saber, um volume de introdução com 7 textos da autoria de  Rui Moreira  na qualidade de Presidente da CMP, e de Eduardo Paz Barroso na qualidade de Presidente do Coliseu do Porto, de Henrique Cayate-Designer, Luis Cabral- Bibliotecário, Miguel Guedes - Músico, Álvaro Costa – Comunicador e Bernardo Pinto de Almeida – Poeta e Ensaísta: as designações são do próprio livro, mas servem aqui para documentar com toda a justiça a amplidão do conjunto dos estudos.

 

Mas mais do que isso: independentemente da larga qualidade e abrangência dos aspetos analisados, há que valorizar a documentação gráfica e fotográfica, passe a redundância que aqui é propositada, em dezenas de fotografias devidamente legendadas e documentadas, e que, no conjunto, constituem uma vasta referência do edifício e da sua atividade cultural ao longo destas dezenas de anos.

 

E curiosamente, o livro de imagens abre com uma reprodução fotográfica do requerimento, em papel selado como então se impunha, redigido numa linguagem que em tudo documenta o ambiente político, administrativo e cultural da época:

 

“Exma. Câmara Municipal do Porto:

A Empresa Artística S.A.R.L. com sede na rua de Passos Manoel, Jardim Passos Manoel, desejando reconstruir no seu terreno, uma nova casa de espetáculos, conforme o projeto junto, de forma a que esta seja inaugurada oficialmente durante as Festas do Duplo Centenário , contribuindo assim na medida do que lhe é possível, para o brilho e esplendor das mesmas nesta Cidade, aguarda que a Ex.ma Câmara do Porto, animada do mesmo desejo, faça a sua aprovação o mais rapidamente possível e autorize o inicio das obras imediatamente. Assim, contribuiremos todos para o prestígio do Estado Novo e mostrar-nos-emos atentos ao apelo de Sua Exa o Sr. Presidente o Conselho”.

 

O requerimento é datado de 1 de março de 1939. A linguagem e o ambiente político mostram-no bem!... E ainda mais, se tivermos presente que a ideia de contruir um edifício destinado a espetáculos vinha já de 1937 e passou por vários projetos e arquitetos. Acaba por prevalecer um projeto de Cassiano Branco.

 

E depois de variadíssimos episódios, será inaugurado em 19 de dezembro de 1941 com um concerto da Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco tendo como solistas a pianista Helena Moreira de Sá e Costa e a cantora Maria Amélia Duarte de Almeida.

 

O Coliseu do Porto sofreu alterações e esteve a certa altura para ser encerrado e demolido, Mas reabriu em Novembro de 1998 com uma récita da “Carmen” de Bizet. E até hoje se impõe numa heterogeneidade da espetáculos, como o livro acima citado amplamente descreve.

 

E em boa hora conserva a estrutura e ambiência do edifício e da grande sala principal.

 

DUARTE IVO CRUZ 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

7. “MORRER CATÓLICO, APESAR DE NÃO PODER VIVER COMO TAL”

OSCAR WILDE

 

“Eu acredito em tudo desde que seja incrível. É por isso que pretendo morrer católico, apesar de não poder viver como tal. O catolicismo é uma religião tão romântica. Tem santos e pecadores. A igreja anglicana só tem pessoas respeitáveis, que acreditam na respeitabilidade”.

 

É uma afirmação de Oscar Wilde, reproduzida e interpretada pelo ator Stephen Fry, no filme “Wilde”, de Brian Gilbert, numa adaptação biográfica e cinematográfica da vida do escritor irlandês. 

 

Nascido e criado numa família protestante, converteu-se ao catolicismo, em fim de vida, recebendo o batismo e a extrema unção.

 

Foi censurado por amigos e inimigos, desde logo por anglicanos, que viram nessa conversão um aproveitamento da “bondade” ou “hipocrisia” católica. Podemos pecar e mentir, mas se nos arrependermos e confessarmos, somos salvos, estamos absolvidos e vamos para o céu, o paraíso celeste. Quem pecou, mentiu, e se mostrou arrependido, confessando-se, tem o mesmo prémio de quem não pecou, nem mentiu, o que é inaceitável para a respeitabilidade purista. Esta cultura (também papista, em linguagem anglicana), é tida como influenciadora da nossa lei penal e processual penal, a nível do arguido, que tem o direito de mentir (e ao silêncio) em tribunal, exceto quanto à sua identidade e antecedentes criminais, ao invés das testemunhas.

 

Oscar Wilde era um esteta, um dândi, dandinando roupas excêntricas, coloridas, axadrezadas ou listadas, de tecidos raros, casacos de tweed, gravatas vistosas, chapéus chamativos. Vestia com elegância e requinte. Com uma preocupação permanente com a aparência pessoal. Via o pedantismo como sofisticação. A falta de respeitabilidade como inveja e desdém dos pouco talentosos. Estudava e pensava a beleza artística, investigando-a na sua função cognitiva particular, cuja perfeição consistia na captação da beleza e das formas artísticas, levando à conclusão que determinado objeto natural ou artístico desperta, intrínseca e universalmente, um sentimento de beleza e de sublimidade. Elogiava a nudez pública dos jogos olímpicos da antiga Grécia.

 

Esta permanente procura de novas emoções, excitações e sensações, conduziu-o a apetites incontroláveis, a uma vida dupla, que não escondia, casando e tendo filhos, e não ocultando a sua homossexualidade no decurso do seu casamento, acabando por ser preso e condenado a trabalhos forçados por dois anos.

 

Aos olhos da igreja católica era um pecador, numa amálgama de escândalos, costumes e práticas tidas como chocantes e impuras, dívidas vergonhosas, apetites hedonistas, insaciáveis, gostos luxuosos, entre cigarreiras gravadas doadas a rapazes jovens.

 

Esta busca incessante, também o aproximou da sensualidade litúrgica católica, sacra e solene, considerando o amor um sacramento que devia ser tomado de joelhos. Esta analogia exaltante, tida como incrível, a que acresce tudo o que viu e sentiu na sua viagem a Itália, incluindo Roma, sede do catolicismo, em termos de sensualidade  (tantas vezes sexualizada), na sublime beleza das esculturas e representação dos corpos, em louvação humana e a Deus, num misto de santidade e pecado, por oposição à respeitabilidade fria e seca da igreja anglicana, levaram-no, no fim da vida, a converter-se ao catolicismo, morrendo católico, apesar de não poder ter vivido como tal, como ele próprio reconheceu.

 

Que melhor exemplo de arrependimento e conversão interior, diremos nós, que o de Maria Madalena glorificada nas artes, desde a escultura à pintura, como a bela pecadora, tão atraente no pecado como na conversão?

 

“É a única religião em que os céticos estão no altar e em que São Tomé, o Duvidoso, é o príncipe dos apóstolos. Não, não poderia morrer como anglicano”, diria ainda.

 

Apesar de aceitar e defender “o amor que não ousa pronunciar o seu nome” e o amor “que enche o coração do rapaz e da rapariga com uma chama mútua”, de igual modo pensava que mesmo os pecadores têm salvação, mesmo que não tenham vivido segundo as regras da igreja, uma vez que todos, sem exceção, pecamos, mérito que reconhecia ao catolicismo, perdoando e salvando, mesmo que no leito da morte, não por aproveitamento por quem está fraco, inconsciente e moribundo, mas por piedade, humanidade e misericórdia. 

 

Errou quem pensou, à época, que o apelido Wilde seria abominado nos próximos milhares de anos, que qualquer pessoa que tivesse algo a ver com ele não voltaria a ser admitido na sociedade, o que foi recusado pela mulher Constance, enquanto viva, e pelas gerações futuras, sendo tido, até hoje, como um dos génios da literatura mundial, autor de obras como A Importância de ser Earnest, O Retrato de Dorian Gray e De Profundis.

 

Para quem gostava de ser famoso e dizia, com humor e ironia, perto do fim: “Como o querido São Francisco de Assis, estou casado com a pobreza, mas no meu caso o casamento não é um sucesso”, a fama perdura, como grande esteta e não só, por certo uma superestrela estética e mediática se vivesse no nosso tempo.

17.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

UMBERTO ECO

 

“Riflessioni sul dolore” (edizioni ASMEPA- 2016)

 

A dor é normalmente identificada como um sofrimento físico quando, na verdade, o seu significado deve ser alargado pois envolve o sofrimento das emoções, o sofrimento espiritual e afetivo e social. A dor é expressão de uma falta global de cura, e cada vez mais se necessita de uma medicina que envolva a pessoa na doença para entender ambas, e não tenha como objetivo único a doença.

 

A relação da dor com a doença e com a pessoa, permite a análise num contexto filosófico, semiológico, histórico, contextualizando a discussão e análise em diversas situações para que se saiba, em qual, a palavra dor, se liberta mais do vínculo estereotipado e de derivação apenas clínica.

 

A dor física e a dor da alma, a dor percebida e a dor provocada, o sofrimento como redenção não dizível de uma profunda perturbação, como é o caso da dor do amor perdido, do sentir que a regeneração da energia não é possível; a dor como estrada para o conhecimento, como meio de captar uma cultura e controlar os seus sintomas quando ela nos invade sem licença; a dor enamorada de esquecer-se por tão física, por tão espiritual, quantas vezes agravada pelo medo do que encobre a dor que se tem, será sempre uma angústia, e, também, um perigo cativo se a medicina não nos der a mão segura, a mão não enferma de uma solução global de soldado.

 

Múltiplos aspetos e significados da dor e do sofrimento, se entendidos amplamente, dão-nos a receita adequada a um solido tratamento, a uma reflexão, não de cuidado paliativo generalizado, mas do entendimento de uma medicina que cura pelo saber e pelo afeto e pela interpretação das emoções que dialogam com uma milenária dor universal, cuja presença no mundo, bem se sabe que fomenta a fadiga, a discórdia, o odio, o desamparo, o choro e a inelutável natureza da esperança, algo animal, que se enrodilha apertada no centro da dor.

 

A consciência da dor e do sofrimento como realidades universais também minadas pelo stresse, tornam, quantas vezes, insuportável a dor física e espiritual da doença que se expõe em corpo marcado pelas contracturas que nos abandonam a nós mesmos e só a nós.

 

Assim também se interpreta que a dor amorosa è un pensiero assíduo podendo mesmo tornar-se obsessivo já que a memória pode não se afastar do objeto amado e modifica-o mesmo para que se pareça mais com a dor que quer expor, afastando-se da verdade, mas caminhando para aquela que melhor justifique a interpretação que permite que o mundo faça, a essa realidade, mesmo inverdade mas tal como deseja que seja e não como foi.

 

Quantas vezes só a medicina poderá ser capaz de apanhar o pulso de um enfermo, alterar-lhe o ritmo, prescrever-lhe o remédio vital e torna-lo um distinto e vulgar caminhante da vida, mesmo quando nessa vida a dor e a cura se mostram apáticas ao esforço, àquele que já só atribui pequeninas doses de tranquilidade.

 

P.S. “Riflessioni sul dolore”: trata se de uma excelente publicação organizada pela Academia da Ciência da Medicina Paliativa num contexto ético e social. Umberto Eco destacado membro da Academia da Ciência de Bolonha propõe-nos também a clarividência da função biológica no acerto com várias mortes que enfrentamos através das violentas doenças da vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Arquitetura, forma e expressão. (parte I)

 

'Todas as formas geométricas a las que me refiero son portadoras de dinamismos o energias con poder de expansión, yo diria con poder de generación de outras formas infinitas, y por ello las llamo fértiles.', Pablo Palazuelo, 'Cuadernos Guadalimar', 1978

 

Embora a arquitetura seja um objeto que contem vida é também e deve ser, por excelência, um meio de expressão com conteúdos e significados. 

 

Qualquer matéria pensada e manipulada pelo homem contém intenções, procede de um mais além, é por isso subjetiva.

 

A conceção do homem que atua sobre a matéria é simultaneamente idealista e realista. A perceção que o homem tem da matéria não é objetiva porque transporta memórias e ideais. Porém é um corpo real que atua sobre uma matéria concreta - 'El cuerpo es un abismo, pero todo lo demás es tambiém abismo y por ello pienso que el cuerpo no es un extraño allí donde todo es extraño. Pienso al decir esto en la frase que citas de Rimbaud "Je est un autre", y para mí ese outro es algo hacia lo cual debemos dirigirnos.', Palazuelo

 

A forma produzida pelo homem tem sempre estas dualidades: 

 

Finita e infinita: A forma é sempre limitada pelo espaço, lugar ou estrutura em que se insere. E a forma além de ser expressão do seu criador, é inumeramente interpretável e é capaz de gerar infinitas outras formas.

 

Consciente e inconsciente: na produção de qualquer obra há sempre que cumprir tarefas sistemáticas, justificáveis, úteis e determinadas. Mas existe também uma sucessão de momentos instantâneos, incompreensíveis, intuitivos, incertos e incompletos.

 

Inércia e energia: embora a forma, em si, não tenha capacidade para agir, inclui em si a energia do homem, da natureza e da vida. Essa energia expande-se no tempo e no espaço - estende-se pela história da humanidade (por isso é tão importante o conhecimento das formas do passado e do presente todas contribuem para a produção de novas formas e todas contribuem para a extensão dessa vitalidade que está presente em todas elas).

 

O pintor Pablo Palazuelo (1916-2007) afirma que o rigor e essa dificuldade da transformação da matéria em forma de expressão, ativa a imaginação e a memória (que é distinta do pensamento puramente racional) e é através da sua influência que se chega à experiência do inconsciente que manipula e cria a forma como sendo algo único e irrepetível. Trata-se, portanto de ir ao encontro da vida, de a fazer percetível aos outros e de tentar ir ao encontro das grandes questões que a assombram.

 

A arquitetura (ou qualquer outra forma de expressão) é e deve ser por isso, uma materialidade mais distante por comparação à materialidade que o homem acredita apreender e compreender.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

The Humanitarian R2P, Higher Loyalties and The CHOGM, 2018

 

Agir ou ignorar? As nações nos dois lados do Channel reinventam-se na globalizada guerra síria ao decidirem por cirúrgica intervenção bélica ao lado dos USA, fundamentada no humanitarismo da responsability to protect. A Prime Minister Theresa May invoca também o “national interest” ao explicitar as razões da participação militar em debate na House of Commons.

Chérie! À bon entendeur, salut! O UK envolve quatro RAF Tornados no raide contra o arsenal químico do President al-Assad na sequência do assalto a Douma, O reino está agora em estado de alerta face a esperada ofensiva cibernética contra infraestruturas críticas por retaliação do aliado russo, — Umm. The return to the old cat and mouse game. Já Berlin ameaça o Kremlin, com a Bundeskanzlerin Angela Merkel a avisar que o Nord Stream 2 Pipeline através do Baltic Sea só avança com reconhecimento de Ukraine como “a transit country for gas to Europe.” Washington e Moscow dispersam as atenções. Na promoção de livro incendiário, o ex diretor do FBI James Comey afirma que o President  Donald J Trump é “morally unfit” para exercer o cargo. O visado em A Higher Loyalty riposta que o G-man por si exonerado é a “slimeball.” Escrita fatalmente incómoda pertence a Mr Maxim Borodin, porém, o mais recente jornalista russo a morrer em estranhas circunstâncias após relato sobre os mercenários do Wagner Group. London acolhe o Commonwealth Heads of Government Meeting e o Prince Harry of Wales é feito Commonwealth Youth Ambassador.


Os dilemmas do allowing & doing The War regressam ao debate público.

 

Fine climate at Central London, with birds, blooms and a beautifull sunshine. As gentes denotam o not worrying too much about the uncertainties of the British weather quando o Mall se preenche com as 53 bandeiras do Commonwealth Summit para a reunião intergovernamental de uma royal republic of 2,4 billions citizens around the globe por cá conhecida como The 2018 CHOGM. Também as House of Parliament retomam os trabalhos, com uma first full session até altas horas da noite a que não falta sequer colorida demo na novamente movimentada Westminster Square. Aliás, vem do exterior o mais persuasivo dos argumentos para assistir à acesa querela havida nos Commons sobre a operação síria da tríade ocidental. ― "For goodness’ sake, he is A DOCTOR!" O «bom doutor» a que a ativista se refere é Mr Bashar al-Assad, em episódio de protesto digno dos Monty Python e que evidencia a cândida incredulidade pacifista do grupo Stop the War face à alegada responsabilidade do regime de Damascus no ataque com gás a Douma. Já na câmara soa o aço na esgrima entre apoiantes e críticos do lançamento dos mísseis nas margens do Jordan River. A Prime Minister presta contas durante mais de três horas e responde robustamente a questões colocadas por 140 MPs. A Loyal Opposition acaba a ganhar novo emergency debate para amanhã, sob proposta de um War Powers Act apresentado por RH Jeremy Corbyn com exigência de consulta e voto parlamentar prévios a qualquer ação militar. Algo que, na prática, aspira revogar a presente e executiva Royal War Prerogative e que o Tory MP Andrew Bridgen logo reintitula como “No War Powers Bill.”

 

Se as condições do recurso à força são abertamente questionadas, nos fundamentos e na finalidade, já o Her Majesty’s Government invoca o interesse nacional e a importância de se punirem quantos violem a proibição mundial das armas químicas ― seja nas ruas de Salisbury ou nas de Douma. No longo debate ecoam as tensões entre a Russia e The West a par dos riscos de escalada militar entre as potências regionais do Levante. Downing Street hasteia o estandarte humanitário e a responsabilidade de proteger os sírios numa guerra civil que entra no oitavo ano com um passivo de aproximadamente meio milhão de mortos, 14 documentados ataques químicos e 11 vetos russos no UN Security Council a bloquearem the diplomatic road. Mrs May enuncia a base legal da aliança UK-France-US contra o regime de Damascus: "It required three conditions to be met. First, there must be convincing evidence, generally accepted by the international community as a whole, of extreme humanitarian distress on a large scale, requiring immediate and urgent relief. Secondly, it must be objectively clear that there is no practicable alternative to the use of force if lives are to be saved. Thirdly, the proposed use of force must be necessary and proportionate to the aim of relief of humanitarian suffering, and must be strictly limited in time and in scope to this aim.” Reagindo ao ruidoso criticismo das oposições, em particular à declaração de RH Red Jezza de esta ser “an action legally questionable,” a senhora insiste uma vez e outra que “we have done this because it was the legally and morally right thing to do."

 

A Prime Minister ventila princípios da guerra justa, a jus bello que por cá recorrentemente choca com clássico ‘flower power’ da Urnicopia que hoje milita no topo do Labour Party e no caso árabe se cruza com uma audível propaganda machine. Ora, 25 anos depois do fim oficial da Cold War, aquém das desventuras arenosas na Irak War mas a par da interposição bem sucedida no Kosovo, a atual polarização política contém ainda cicatrizes de um passado recente que cabe recordar para perceber o risco que o May Government corre no debate parlamentar de amanhã caso ali seja censurado por via de adversarial voto pacifista ou oportunista. O intervencionismo militar de caráter humanitário sofreu um sério revés na House of Commons, em 2013, às mãos do anterior líder trabalhista. Mr Ed Miliband logra então impedir, because of the opposition in the legislature, que o UK participe em similar ação do Cameron Tory Govt ao lado dos US, assim desmobilizando também o President Barack Obama na sua “red line on Syrian chemical use.” O rasto dos efeitos está à vista, em renovadas disputas nas esferas de influência, globais e regionais, num país de altas montanhas e vastos desertos, na borda do Mediterranean Sea, cujas fronteiras tocam Turkey, Israel, Irak, Lebanon e Jordan. Por perto estão, geograficamente claro, a Saudi Arabia e o Iran.

 

Desconhecendo-se quais os objetivos estratégicos da intervenção ocidental no vespeiro jihadista que é o Middle East e não vislumbrando por lá líder decente que caiba publicamente apoiar, ainda assim exigindo-se a quem pode que proteja os martirizados inocentes pelos quais o Pope Francis apela à consciência universal, última nota para históricos desastres que marcam os dias abrilinos, A 15 April 1912 afunda-se o Royal Mail Ship Titanic. O unsinkable transatlântico da White Star fazia a sua maiden voyage entre Southampton to New York, com pelo menos 2,224 passageiros e tripulantes a bordo. Cerca de 1,500 pessoas morrem no cognominado “The Millionaire’s Special,” após o maior navio da era edwardiana colidir com um icebergue. A 16 April 2018 naufraga o Home Office. Apura-se que o departamento governamental do 2 Marsham Street tem exigido a British citizens há décadas chegados de barco das várias paragens tropicais da Commonwealth, por cá trabalhando, criando família e educando filhos e netos, que provem “the right to live here” sob pena de deportação. O ministério ontem liderado por RH Theresa May e hoje por RH Amber Rudd choca nos emigration checks com elementar senso e a Windrush Generation do post-1945. Vêm aí, a galope, as eleições locais. — Bah. Precise portraits in King Lear makes Master Will of Edgar and Edmond after the discovery of their different status as sons of the Earl of Gloucester: — “This is the excellent foppery of the World that when we are sick in fortune – often the surfeit of our own behaviour – we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars, as if we were villains by necessity, fools by heavenly compulsion, knaves, thieves, and treachers by spherical predominance..."

 

St James, 16th April 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de abril de 2018.

 

António Tabucchi descobriu Portugal, um dia na Gare de Lyon, em Paris, através de uma tradução de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, por Pierre Hourcade.

 

UM ENCONTRO INESPERADO

António vinha para Itália e esse encontro marcou a sua vida. Depois, tudo o aproximou de Portugal: a literatura, a família, as cidades, as letras e as artes. A sua aldeia lisboeta foi a Rua do Monte Olivete, num lugar de tantas recordações literárias – Ruben A., Alexandre O’Neill… E a sua obra é um acervo fantástico de um europeu autêntico, cosmopolita, sedento de encontros e diálogos. Quando lemos em Sonhos de Sonhos (1982) o que dedica a Fernando Pessoa, poeta e fingidor, podemos perceber um pouco o significado de uma empatia. “Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor, sonhou que acordava. Tomou café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero…”. Depois, chegou à estação do Rossio e partiu para Santarém. No comboio encontrou a mãe que não era a mãe e depressa se viu chegado ao destino esperado e numa tipoia em direção à casa de Alberto Caeiro. O cocheiro sabia bem onde era esse lugar e conhecia o senhor Caeiro. Mas, num ápice, já estavam na África do Sul. Ao chegar à casa, descobriu inesperadamente que Caeiro era o Headmaster Nicholas, o seu professor da High School. E a misteriosa personagem apressou-se a revelar que era a parte mais profunda de si, a sua parte obscura – “por isso sou seu mestre”. E a orientação era clara: “terá de escutar-me, deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta”… No princípio do encontro Fernando era apenas um rapazinho com calças à marinheiro. Agora já regressara à condição de adulto. O essencial estava definido. E apenas pediu ao cocheiro que o levasse ao fim do sonho. Era o dia triunfal da sua vida… Pode discutir-se se, afinal, foi num dia apenas que tudo aconteceu, a partir do “Guardador de Rebanhos”, isso é tema de especialistas, o certo é que esse foi o ápice crucial – e sem ele não podemos compreender a força da criação.

 

PEREIRA COMO METÁFORA FORTE
Ao lermos Afirma Pereira (1994) e A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro (1997) compreendemos que o escritor é vigorosa e humanamente crítico. Em Afirma Pereira há uma metáfora forte, em que o ano de 1938 não é um tempo confinado ao passado, mas uma realidade atual de alertas e preocupações. Monteiro Rossi, a namorada e o Dr. Cardoso, invocando a “confederação de almas”, mas sobretudo Pereira são exemplos de que o conformismo e a indiferença têm limites. Bernanos mudou ao tomar contacto com a barbárie em Espanha. Pereira vai mudando. Tabucchi afirma-se, para além de rótulos, apenas democrata. Como disse a Maria João Seixas (Público, 3.4.2000): “aquele sistema que os senhores de Atenas inventaram de se pôr uma cruzinha num caco de uma bilha, para depois se juntarem todos os pedacinhos e serem contados, esse sistema a que chamaram democracia é o melhor que até agora se inventou”. As utopias respeitava-as, desde Tommaso Campanella a Thomas More até aos escravos brasileiros que fugiram para a Amazónia – mas com cautela, já que fazem parte dos nossos desejos e sonhos. O homem tem de sonhar, sobretudo de olhos abertos. O sonho é motor da história, porque somos seres desejantes – o que lembra Spinoza sobre a necessidade de se fortalecer a alma coletiva. Por isso a luta do povo de Timor Leste foi exemplar, porque permitiu à democracia vencer, apesar de tudo… Nesta perspetiva, centrada na liberdade igual e na igualdade livre (que Norberto Bobbio sempre defendeu), era um defensor das minorias: “a nossa civilização, esta, a nossa, ocidental, não seria o que é, sem as várias minorias que a atravessam e compõem”… Por isso, via com preocupação as tendências populistas, na medida em que caiam na tentação de uniformizar tudo e de fazer da vontade geral um modo a subalternizar os poderes e contrapoderes, o pluralismo e a diversidade, que são a seiva fecunda da democracia. É importante a governabilidade se não esquecer a legitimidade do exercício, ou seja, o permanente respeito pela justiça.

 

RECORDAR “O PRANTO DE MARIA PARDA”
E sobre Portugal? Tabucchi foi um analista arguto da nossa cultura, pondo-nos de sobreaviso relativamente às simplificações e caricaturas. Voltamos à entrevista de Maria João Seixas, que lhe perguntava se seremos essencialmente líricos? Não só, disse, mas também bucólicos, não podemos esquecer a “comoção da alma lusitana” – ou seja, a “saudade”, mas o ensaísta não torna a saudade um estereótipo, seguindo o alerta de Antero de Quental. A lírica, o bucolismo e a dimensão épica têm de ser consideradas no seu conjunto. Contudo, para si a definição da “alma portuguesa” não pode esquecer o lado picaresco. Leia-se a linha que nos leva de Gil Vicente ou de Fernão Mendes Pinto até Dinis Machado de O que diz Molero. Aí está o português trocista, cultor do trocadilho e da anedota. Para escândalo de alguns, citou no “Die Zeit”, em 1997, o Pranto de Maria Parda, de Mestre Gil, onde ela diz “cada traque que eu dou é um suspiro de saudade”. De facto, como ensinou Jorge de Sena, há também uma anti-saudade que faz parte de nós portugueses, “desde as cantigas de escárnio e maldizer, consideradas, intelectual e institucionalmente, como um parente pobre das cantigas de amigo”. José Cardoso Pires concordou plenamente com esse entendimento. “Há nos portugueses um veio pícaro, um escárnio sempre presente, uma maldadezinha, um tom mais baixo, rabelaisiano”. Em Gil Vicente, “o que se escolhe habitualmente são os Autos, os do ‘sublime’. E foge-se das comédias e das farsas, onde há personagens que cheiram mal, andam rotas, sem eira nem beira, como Maria Parda”. Falando do “sublime”, dizia que apenas o tomava homeopaticamente, “porque se pode ter, com muita facilidade, uma indigestão e ficar enjoado do ‘sublime’” – e referia os poetas místicos como detentores da “chave misteriosa” que dá acesso “desenjoado e desenjoativo” aos banquetes do ‘sublime’… O analista da nossa cultura pôde assim compreender a complexidade de um cadinho cultural muito rico e pleno de vias de conceitos impossíveis de conter em meia dúzia de ideias redutoras… Não nos esqueçamos ainda dos alertas que fez relativamente à noção de lusofonia. Escreveu no “Le Monde” um texto emblemático, que intitulou de “Suspeita Lusofonia” (18.3.2000), onde dizia que Portugal, tendo perdido o seu império e as suas colónias, pode encontrar nessa ideia um terreno fértil para “uma invenção metahistórica” que funciona no imaginário coletivo como um sucedâneo do passado. Há, por isso, que contruir uma nova relação de igualdade e de intercâmbio, capaz de considerar o diálogo intercultural como multipolar, heterogéneo e complementar – sem paternalismos nem dependências. Pode pois dizer-se que a atitude de Tabucchi constitui um modo maduro e consistente para afirmar o mundo diverso da língua portuguesa, como um caleidoscópio composto por várias culturas e por uma extraordinária capacidade de recriação e de enriquecimento mútuo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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