Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de maio a 2 de junho de 2024


Ao terminar em 23 de maio a celebração do centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, a Gradiva acaba de publicar “Eduardo Antes de Ser Lourenço – Textos de Juventude” coordenado por Luciana Leiderfarb, um conjunto dos primeiros textos do ensaísta.

 


Falaremos oportunamente da obra, assim como da nova edição de “Do Colonialismo como nosso Impensado” – com organização de apresentação de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Hoje publicamos parte de um ensaio sobre a relação do ensaísta com Antero de Quental no período de Vila do Conde vivido pelo poeta.


«Aqui as praias são amplas e belas e por elas passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz». É Antero que o confessa a João de Deus, em 13 de janeiro de 1882. Desde os finais do ano anterior mudara-se ao encontro de paz, sossego e da proximidade dos seus amigos mais próximos. «Fixei atualmente a minha residência em Vila do Conde, terrinha antiga, plácida e campestre, muito ao sabor dos meus humores de solitário» - diz a João Machado de Faria e Maia. «Vivo aqui como um verdadeiro ermita» (2 de janeiro). Sentia-se bem e confessara a Jaime Batalha Reis, nos últimos dias de outubro de 81: “Eu aqui consigo uma coisa rara, prodigiosa: dormir. Faço-o como se fosse a coisa mais natural deste mundo! Veja se não hei de considerar esta terra, além de maravilhosa, salvadora».


De facto, na vida de Antero, há um tempo e um “espírito de Vila do Conde”, que merece atenção especial. E se a relação de Eduardo Lourenço com a memória de Fernando Pessoa é especialmente relevante, a ponto de podermos dizer que é a descoberta do mistério fundamental dos heterónimos um dos maiores contributos do ensaísta para o conhecimento do modernismo português no seu conjunto, o certo é que há com Antero de Quental um elo incindível que ilumina todo o fascínio que a obra do autor de Psicanálise Mítica do Destino Português nos reserva. É, realmente, o poeta de Odes Modernas que constitui referência fundamental para o entendimento da raiz de Heterodoxia, o que leva entender-se justamente que Eduardo Lourenço é um herdeiro legítimo da Geração de 70.  Como, aliás, está afirmado e reafirmado, há uma presença indelével do tema matricial das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, nas duas visões complementares que o ensaísta considera, a da segunda Conferência do Casino de Antero e a da releitura de Oliveira Martins na História da Civilização Ibérica. Com efeito, podemos dizer que a marca desses dois textos está claramente presente quando Eduardo Lourenço se demarca de uma interpretação tradicional da cultura portuguesa, marcada a um tempo pelos ecos das glórias antigas e pelo peso do decaimento moderno. No fundo, reinterpretando Antero e Oliveira Martins, Eduardo chega a um enigma subjacente à Mensagem segundo o qual o destino português está marcado pela revelação crítica dos mitos, marcados pelos dois textos. Se o Fernando Pessoa não esconde a importância que reconhece à herança poética de Antero, deixa na penumbra a influência de Oliveira Martins na interpretação deste relativamente ao auge da afirmação histórica da dinastia de Avis e de Os Filhos de D. João I. E Eduardo Lourenço não tem dúvidas de que na Mensagem, a matriz fundamental utilizada por Fernando Pessoa corresponde à leitura que fez do autor da História da Civilização Ibérica. Como diz Eduardo Lourenço: “Em sentido próprio só com Oliveira Martins e a partir de Oliveira Martins, Portugal é história e tem a sua História. À perceção do destino português como ‘epopeia’ (transcendente ou positiva), Oliveira Martins opôs a ideia do nosso destino como ‘drama’ permanente e ambíguo. A integração do ‘mito’ no discurso histórico separa o grande Herculano, homem ainda do século XVIII, de Oliveira Martins, o autêntico romântico. Paradoxalmente, contudo, o discurso histórico do autor de Portugal e o Socialismo se tem o mérito de integrar a sombra no processo épico da visão tradicional, confere-lhe, por outro lado, um perfil fantasmagórico ao separar na escrita dele o plano vital e psicológico do plano material que condiciona o permanente balancear entre euforia e tragédia característico, segundo a sua visão, da nossa peripécia nacional” (Prefácio a Oliveira Martins, Uma Biografia, INCM, 1986, pp 16-17).


Sabemos a importância do período de Vila do Conde e não será demasiado audacioso dizer que, não por acaso, esse momento marcou especialmente a relação entre Eduardo Lourenço e o poeta de Sonetos. Sem sombra de saudosismo, o ensaísta encarou o tempo de Vila do Conde de Antero como uma oportunidade serena, de modo a pensar o inconformismo como atitude necessária, ditada pela tensão entre transcendência e imanência. Por isso, o ensaísta lembra que há entre Antero e Pessoa uma diferença intransponível, entre os sonhos sonhados e as frustrações que os acompanham. “Foi na vida mesma – na sua e na da sociedade que o cercava – que Antero quis realmente encarnar os seus sonhos, não seus apenas, mas os de uma longa utopia humana, sonho de igualdade, de justiça, de fraternidade, todos muito século XIX, que nunca foram – se não ironicamente os de Pessoa. Os sonhos de Pessoa foram, desde a origem assumida e provocatoriamente sonhos, de negação ou viagem numa outra realidade, que aquela que assim chamamos, loucura calma ou arrebatamento proposto como a sabedoria suprema. Como se tivesse nascido, e de facto teve consciência disso, sobre as ruínas do sonho anteriano que mesmo utopia de vida era já a consumação de um desastre (A Noite Intacta, pp. 140-141).


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RUI LAGE 

  


Auto da horta destruída


Que triste, país, é a moral
da fábula campestre
que longos séculos nos deste
a ler – flautas e penhas,
rios e fragas, acaso
aproveitaste, pastor? Acaso,
velho, te acharás menino
a caminho da horta depois
de abertas as comportas?
Quem te virá demandar
cheiros para a panela?
Ficas viúvo, país, e até que falem
de novo os animais, o teu luto
dá pelo nome de turismo rural.
Fábulas contadas, sobra
a metade mais salgada
e pífia de Portugal:
a banhos vai, com espuma
e crescidas onda pela cinta avança
mas perde o pé, e às arrecuas
se firma no cómico areal,
veleiro roto, crustáceo,
heróico baixio, obesa
prancha ocidental.


in Corvo, 2008


Tale of the ruined vegetable patch


How sad, o country, is the morality
of that rural fable
you gave us to read throughout
the centuries – flutes and rocks,
ravines and rivers, did you, by any chance, shepherd,
reap any benefit? Will you, old man,
find, youthful, your way
to the vegetable garden
after the lifting of the sluice gates?
Who will come in search of
aromatic herbs for the pot?
You’ll be widowed, o country, and till
animals speak again, your mourning
is at eco-tourism’s beck and call.
All said and told, what is left
is the most salty and sorry half
of Portugal:
it heads for the seaside
and braves the waves
but, powerless to beat the current,
beats back to the sands in comical haste –
bottom-holed hulk, crustacean,
heroically sandbanked, bloated
Western surfing board.


© Translated by Ana Hudson, 2011
in Poems from the Portuguese 

 

ANTOLOGIA

  
O Gebo e a Sombra - espetáculo de Antuérpia 


ATORES, ENCENADORES (IX)

EVOCAÇÃO DE GINO SAVIOTTI NOS 70 ANOS DO CÍRCULO DE CULTURA TEATRAL E DO TEATRO ESTÚDIO DO SALITRE
por Duarte Ivo Cruz


Fazemos hoje uma evocação de Gino Saviotti e das grandes iniciativas de cultura e de espetáculo teatral com que este italiano, fixado em Lisboa a partir dos anos 40, marcou, e de que maneira, a cultura e a atividade profissional do teatro português. Digo desde já que participei nos cursos livres de Filosofia do Teatro que em 1958 e anos seguintes Saviotti ministrava no então Conservatório Nacional. E quando, anos depois, assumi no Conservatório e depois na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa a cadeira de História da Literatura Dramática e do Espetáculo Teatral, muito recordei e evoquei os ensinamentos de Saviotti…


O Círculo de Cultura Teatral foi criado em 1945, a partir de um grupo notável de escritores e intelectuais portugueses. Os objetivos eram basicamente “desenvolver o gosto pelo teatro como intervenção literária e espetacular, a cultura intelectual, o sentido artístico e as faculdades criadoras pela poesia e o pensamento dramáticos”, segundo o manifesto de criação assinado por individualidades tais como Alves Redol, Arquimedes da Silva Santos, Jorge de Faria ou Vasco Mendonça Alves e Luis Francisco Rebello que aqui citamos.


No mesmo ano, Saviotti publicou um texto programático intitulado “Premissas para a Constituição em Lisboa de um Estúdio Teatral”. E efetivamente, em 1946, arranca no Instituto Italiano de Cultura, onde Saviotti era professor, um chamado 1º Espetáculo de Teatro Essencial que marcaria o início do Teatro Estúdio do Salitre, importante movimento de renovação teatral.


Mas passados menos de 10 anos, encontramos Saviotti a dirigir uma Nova Companhia do Teatro de Sempre-NCTS, que por direito próprio se inscreve num movimento de renovação de repertórios e de espetáculos.  Era no Teatro Avenida, e reunia um rupo de então jovens atores, com destaque para Rogério Paulo e Carmen Dolores, designadamente: havemos de falar nas carreiras respetivas.


Mas neste texto, importa sublinhar sobretudo a renovação de repertório que esta NCTS trouxe ao meio teatral à cultura teatral portuguesa. Destaco em particular dois espetáculos.


Desde logo, em 1958, “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão, peça quase desconhecida na época não obstante uma brevíssima produção (apenas quatro espetáculos!) em 1927 e um espetáculo universitário em 1945. Rogério Paulo interpretou e protagonista e encenou em 1961 uma versão no Nederlamd Kamernoteel de Antuérpia.


A encenação de Gino Saviotti no Avenida teve assim foros de revelação. Como o teve também o texto de Brandão, na decadência resignada o pobre Gebo, para quem “a felicidade na vida é não acontecer nada, “pois (ele) não pode se senão isto”. Para proteger o filho assume um roubo que não cometeu. Mas volta da prisão completamente pervertido: e a última fala da peça é sintomaticamente – “tudo foi inútil”.


Ora, tal como escreveu Urbano Tavares Rodrigues, “todas as personagens ou quase todas, através dos 4 atos da peça, se interrogam a si próprias, mas do que se dirigem aos outros” (“Noites de Teatro” II – 1961). E João Pedro de Andrade: “Trata-se de uma tragédia do tempo presente, em que a fatalidade é gerada pelas modernas potências que tomam o lugar dos deuses na tragédia antiga” (in Dicionário do Teatro Português pág.348). 


Tudo isto constituiu revelação para o público de 1958. E também teve foros de revelação, na mesma companhia, a estreia, a seguir, de “Seis Personagens à Procura de Autor” de Pirandello, interpretado por Carmen Dolores e encenado por Gino Saviotti.  


São espetáculos que, decorrido mais de meio século, não esquecem!

  
Raul Brandão da autoria de Tagarro 


Duarte Ivo Cruz


Obs: Reposição de texto publicado em 04.02.15 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


176. É MAIS DIGERÍVEL CONVERTER O MAL HUMANO NUM MAL NATURAL? 2


1. Ao tratarem, por exemplo, os seus bombardeamentos e dos aliados como choques de placas tectónicas e tempestades, as bombas ou mísseis como raios, relâmpagos, trovões, chuva, inundações ou tremores de terra, os alemães despiram a guerra de qualquer peso moral, evitando a reflexão, o arrependimento, o luto, um ato de contrição e de redenção sobre o seu passado agressor e sofredor, com reflexos no presente. 


Sebald, entre outros, desaprovou esta metamorfose da memória alemã impeditiva da compreensão do passado e comprometedora do futuro, mais grave que uma amnésia, tendo como condenável que a civilização humana nada possa fazer de melhor se a natureza nos confrontar com o seu mal natural, em detrimento do bem humano que pode haver, e é desejável, em nós.           


Adverso dessa visão amoral e naturalista, censurou o esquecimento da maioria dos alemães, dos negacionistas, dos que mentiram e foram incapazes de escrever o horror entre agressores e vítimas, incluindo quem criou o “mito do bom alemão”, sem alternativa e deixar que, paciente e sofridamente, tudo passasse. 


Elogia sobreviventes do Holocausto, como Jean Améry, que cumpriu o dever moral de escritor, ao escrever sobre o mal indizível, que não superou, no seu confronto permanente com essa perversidade, acabando por se suicidar.   


O que nos questiona de novo: será que com a indiferença ou a metamorfose da memória alemã, é exequível viver uma vida com alegria e superadora de ressentimentos? Se os japoneses não quisessem refletir sobre Hiroxima e Nagasáqui, não seriam convertidos em algo semelhante a um terramoto ou tsunami?   


Após escolher a via arqueológica do passado em busca do mal humano, W. G. Sebald não se ausenta, vence a inércia, enfrenta a dor e o mal do passado, faz o luto, procura a transcendência e a redenção, a catarse e o recomeço. Feito o ato de contrição, os alemães sobreviventes à destruição e à derrota da Alemanha nazi, estão marcados pelo pecado, sendo perdoados, o que é reforçado por referências bíblicas. 


Diz-se que há impulsos e instintos que não controlamos conscientemente, a que estamos ligados se quisermos ascender, que não podemos erguer-nos sem ter os pés no lodo. Em paralelo com a árvore que tem as raízes na terra e as folhas no céu. Só assim seremos transcendentes, incorporando tudo o que somos compreendendo-o. Ao encontro da reflexão de Sebald.   


2.
Depois do crime e castigo, da amnésia para amenizar o trauma, das tentativas de superação, da purificação, expiação e perdão há um reinício, uma ressurreição, uma nova Alemanha.   


Uma nova Alemanha aberta à universalidade, cosmopolita, emancipada, melhorada, que tenta diluir a sua culpa sendo invisível e não fazendo perguntas, passando cheques, não reclamando e pedindo licença por tudo e coisa nenhuma, em que a salvação é para todos e não apenas para um povo escolhido ou superior.   


Segundo uns, esta nova Alemanha, pós-Sebald, teve na ex-chanceler alemã um dos seus maiores expoentes, dando como exemplo maior a sua reação à crise dos refugiados, abrindo portas ao humanismo e à universalidade, contrariando o exclusivismo da cultura alemã do passado. 


Segundo outros, há ingratidão e falta de memória, pois apesar do pior país devedor do século XX, várias vezes em bancarrota e ter sido resgatado, foi implacável, por antinomia, na crise das dívidas soberanas. Nem é tido como humanismo, segundo os mesmos, a causa para a entrada massiva de refugiados, mas sim o défice demográfico, falta de mão de obra e o envelhecimento populacional. Rege-se, à semelhança dos Estados, por meros interesses próprios (até agora maioritariamente económicos) e geoestratégicos que uma futura presença no Conselho de Segurança da ONU e um potencial nuclear reforçarão. E há a fuga da razão e a luta do poder pelo poder, que é mais importante que a retórica declarativa da dignidade humana. Há quem pergunte: por que não foi criado Israel à custa de território da Alemanha, penalizando-a e purificando-a, por causa do Holocausto?   


Sebald, e bem, deu o seu contributo, deixou o seu testemunho de que, graças à força das ideias, se pode criar uma sociedade melhor, fazendo a sua libertação através da escrita, para quem o quiser compreender e enquanto houver gente para o ler.   


E se o mundo é um caos, injusto ou escapa à nossa total compreensão, temos de reconhecer as nossas limitações, embora lutando sempre para que as sociedades sobrevivam moral e eticamente, dignificando a pessoa humana, não convertendo o mal humano num mal natural, mesmo quando os vícios da humanidade são alavancados e ampliados pela técnica e o desastre se tenda a agravar. Se desistirmos, o mal será maior.


24.05.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

CONDIÇÃO 

  


A perda da liberdade tinha um sentido muito grave lá na aldeia: era algo que desonrava um homem para sempre. Era algo mais grave do que o crime que condenava à prisão.

O Manuel Pataca fora desprezado até pelo pai desde que fora preso.

Não fora o crime de matar alguém que despedaçara a vida do Pataca e manchara o bom nome da aldeia, fora sim a prisão, enjoo de vida a cozer os dias de um homem, um a um.

Sem forças, Pataca confessara, não fizera a coisa bem feita, e ainda endoudara a mãe e a noiva e manchara a mácula da terra. E assim se falava.

A mãe e a mulher com quem se ia casar, usavam contra elas a tirania da prisão do Pataca e achavam-se culpadas da culpa dele, e com o dever de sofrer no muito trabalho, para algum dinheiro comprar uns cigarritos que levavam religiosamente à prisão todos os meses.

E todos os meses o Pataca olhava para a mãe e para a noiva que lhe estendiam os cigarritos e irritado atirava-lhes um cuspo na direção delas antes de chupar o cigarro. Uma mortalha envolvia-lhe fundo o olhar de desprezo envolto no orgulho do poder de as aprisionar naquele penar.

Ambas andavam de luto ao domingo aquando da missa. O desgaste do desgosto tinha de ser também muito visível.

Tudo aquilo que acontecera com o Manuel Pataca, era pobreza de compreensão por parte de todos, e só elas entendiam a razão absoluta do crime praticado, que nenhum mal fizera às gentes, e ao próprio falecido até lhe dera calma definitiva, pois que só era um provocador dos maus instintos, um demónio, era o que era.

Na taberna, com ou sem vinho no sangue, repetia-se a história do detento e esta nunca se sepultava.

Arranchado, Pataca já não se esforçava por nada. A mãe e a noiva, também elas arranchadas na mais iniludível das manifestações do cumprir um luto vivo como o de todas as virgens de coração, arrastavam-se remendadas como podiam.

Quando Pataca apareceu morto, cada uma, ao seu modo, libertou-se.

E pronto! a Quina casara-se com um outro homem da aldeia, e já o quinto filho lhe rompera as entranhas, pois a boa parideira conhece a função e o quanto a prole é forma de rendimento e verdadeiro pecúlio a realizar, custasse o que custasse. De resto, o marido, tinha um poder acrescido ao de outros homens, o poder de lhe recordar de quem fora noiva.

À mãe do falecido, curvada pela idade e pela falta de consolo de Deus, acudia-lhe olhar para as facas, armas brancas que a seduziam com sinceridade e que eram para ela uma indicação de futuro ao outro lado para onde partiria desta vida.

Mas houve um verão em que a aletria, súbito, se lhe talhou, e com ela ainda a ferver atirou-a à própria cara.

De imediato ofereceu-se à prisão. Fizera mal à mãe de Pataca.

Retomava com denodo uma culpa imensa antes que uma outra realidade a pudesse absolver da consciência do papel que lhe coubera em vida.


Teresa Bracinha Vieira

AS DUAS POLÍTICAS NACIONAIS

  


António Sérgio incluiu no segundo volume dos Ensaios (1929) a conferência proferida em 1925 em Lisboa com o título desta crónica e que tem constituído tema para muitos debates e reflexões no último século. Afinal, tratava-se de discutir as razões do nosso atraso. É um tema recorrente, que não pode, porém, ser alvo de simplificações. As nossas dificuldades ancestrais não podem resumir-se a uma causa, a um tempo ou a alguns protagonistas. Portugal sempre foi uma sociedade complexa e por isso coexistiram ao longo dos tempos razões várias, positivas e negativas, a determinar a nossa evolução. Na célebre conferência referida apontava-se a contraposição tornada célebre entre Fixação e Transporte, obrigando a uma leitura atenta capaz de associar uma cópia de razões que se completam e que até, por vezes se contradizem. Nas duas escolas encontramos “a política da Produção e a Política da Circulação; a política da Agricultura e a política do Comércio; a política nuclear e a política periférica; a política de D. Pedro e a política de D. Henrique; a política da boa capa e a política do mau capelo”. Contudo, o ensaísta não se ateve a ideias exclusivistas, porque a faina da periferia, “a corrente vital do exterior para o interior, ou centrípeta”, seria mórbida e extenuante se não fosse “forte e regular a vitalidade do seu núcleo, e saudável a corrente que vai de dentro para o exterior, ou centrífuga, na lida económica de Portugal”. No fundo, dizia Sérgio, “se não descobrisse o Oriente, falharia a nação o seu papel”. Mas cumpre reconhecer que realizámos obra muitas vezes em condições depauperantes – e assim se compreende a voz crítica de Camões, “com o maior prestígio nas falas do Velho do Restelo – timbre da honra, do saber, da experiência, da autoridade”. E quando lemos os economistas do séc. XVII como Luís Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Duarte Ribeiro de Macedo compreendemos a importância da proteção e do fomento da riqueza nacional na agricultura e na indústria e num plano de hidráulica… Uma base europeia sólida defendida pelo Príncipe Perfeito, na linha de seu avô materno, o Infante D. Pedro, merecia a melhor atenção, para que o Transporte não destruísse a Fixação. A leitura de textos antigos obriga, porém, a muito cuidado para evitar as análises apressadas assentes nas referências impressionistas desta ou daquela medida nos últimos séculos.

Eis porque as explicações sobre o atraso português exigem séria ponderação.     

A complexidade tem sempre de ser considerada (com atenção especial à educação e ao conhecimento), como tem ensinado Jaime Reis. “O atraso económico, a falta de desenvolvimento social, o baixo nível de urbanização, mesmo a formação religiosa dominante poderão eventualmente constituir razões para a lenta alfabetização de todo o conjunto de países do Sul da Europa. Não servem contudo, como elementos diferenciadores do caso português relativamente aos demais membros deste conjunto, demasiado parecidos com Portugal nestes aspetos para se encontrar neles uma interpretação convincente para o nosso comportamento diverso em termos educacionais” (O Atraso Económico Português 1850-1930, INCM). De facto, a complexidade leva-nos a ter de compreender que qualquer decisão de política pública, em especial com relevo para a educação, a cultura ou a ciência, que tudo condicionam, tem sempre um cariz fortemente económico, sendo consensual e durável. É preciso assim mobilizar os meios humanos e materiais adequados. A consideração das políticas nacionais exige, portanto, a compreensão de que o atraso não pode ser uma fatalidade, e de que são indispensáveis a concertação, o planeamento, a accountability e a rigorosa avaliação de resultados (com critérios comummente aceites). Nos diversos campos referidos estão as razões do atraso, mas também a indicação do começo dos remédios para delas nos libertarmos.    


GOM

O DIABO E O PENTECOSTES

  


Volto ao tema, porque permanentemente a questão está aí nos meios de comunicação social e há quem me telefona a perguntar o que é que eu penso. Um dos casos mais recentes tem a ver com um homem que envenenou os pais (felizmente sobreviveram) a mando de uma bruxa que lhe disse que eles tinham o diabo no corpo e era preciso matá-lo. Claro, o homem sofre de problemas psiquiátricos…  E lá vêm os rituais satânicos... Depois, perante a tragédia do nosso mundo hoje, com horrores sem conta e à beira do abismo, ouvimos: “Isto é o diabo, um inferno...”.


O Papa Francisco refere-se-lhe com frequência, para que as pessoas estejam atentas e evitem o que é obra do Maligno: o mal, o ódio, a guerra, as intrigas… O padre G. Amorth, falecido em 2016, exorcista na Diocese de Roma e fundador da Associação Internacional de Exorcistas, que fez milhares de exorcismos, chegou a dizer que ele andava à solta no Vaticano e denunciou seitas satânicas instaladas na Cúria e servidas por membros da Igreja, incluindo “monsenhores e até cardeais”. Ele lá saberia do que estava a falar!...


O Diabo é uma personagem com muitos nomes. Para lá de Diabo, também se chama Satã, Demónio, Satanás, Belzebu, Lúcifer, Mafarrico, Maligno... Ele enriqueceu enormemente a pintura e a escultura. Lembro-me particularmente de dois: um a defecar lá do alto, na Catedral de Friburgo (Alemanha), o outro, na Catedral de Basileia, a seduzir uma mulher, que sorri no enlevo da tentação… E há quem pretenda até tê-lo visto… Uma vez, uma senhora insistiu tanto que ele lhe aparecia, metendo-lhe medo, que o último conselho que me restou foi dizer-lhe: “Atire-lhe com o terço aos chifres!” Assim fez. E o terço? Caiu ao chão!


Mas desçamos ao núcleo do problema. Aquilo que o ser humano nunca entenderá é a massa incrível do sofrimento e da maldade no mundo. Quando olhamos para a História, com todo o seu cortejo de horrores, de crimes, de infidelidades, de crueldade, de suor, de lágrimas, de sangue, de desprezo, de traições, de desespero, de indiferença, de violências, de fome, de guerras, de massacres, de genocídios, de aviltamento, de torturas..., perguntamos como é que tudo isso foi e é possível. Como é que é possível e donde é que vem tanto mal?


Uma vez que o mal não pode ter origem em Deus, que é infinitamente bom, supõe-se então que o Diabo poderia muito bem ser uma explicação... Ele tentou e tenta o ser humano..., o Homem caiu e cai na tentação e provoca o mal do mundo. Mas já Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Porque é que Deus não acabou com o Diabo, e, sobretudo, quem é que tentou os anjos, que, de bons, se transformaram em demónios, pois Deus não os tinha criado?


Para explicar o mal, contrapor o Diabo a Deus, como se o Diabo fosse uma espécie de anti-Deus, só aparentemente é uma explicação. De facto, a afirmação de Deus e do Diabo, no quadro de um dualismo maniqueu, é uma contradição. O Diabo não explica nada. O mal está aí, porque vivemos num mundo finito, e Deus criou o Homem livre, mas a liberdade é condicionada, finita, e peca.  De qualquer modo, em vez do Diabo, que nada explica, é melhor reconhecer que não temos explicação cabal para a existência de tanto horror no mundo.


Já em 1969, talvez o maior exegeta do século XX, Herbert Haag, que tive o privilégio de ter como amigo, escreveu uma obra célebre Abschied vom Teufel (Adeus ao Diabo), mostrando que não há nenhum fundamento para a crença no Diabo, impondo-se acabar com os exorcismos.


É certo que, nos Evangelhos, Jesus aparece por vezes curando certas enfermidades no contexto da crença do seu tempo de que o Diabo era a sua causa. É-nos inclusivamente oferecida a imagem de Jesus expulsando os demónios. Hoje sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou pura e simplesmente de pessoas com ataques epiléticos ou sofrendo de histeria.


De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não Satanás, e felizmente o Diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do Homem. Neste sentido, o Diabo pode aparecer como um símbolo personificado de todo o mal que aflige o ser humano, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O Diabo surge para dar expressão ao que não é o Reino de Deus, o contrário do Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus: o futuro do seu Reino.


O Diabo não pode de modo nenhum ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens, que devem ser ajudados. Assim, como escreveu o filósofo Manuel Fraijó, "deveriam cessar as delirantes cerimónias de exorcismos". Por outro lado, se Jesus não pregou Satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao Diabo, o que exige na prática “exorcizar”, expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é  demoníaco, diabólico: o orgulho, a vaidade, a ganância, a corrupção, o ódio, o racismo, a misoginia, tudo o que se opõe à dignidade humana… E acolher os dons do Espírito Santo — amanhã é dia de Pentecostes: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus — este, no sentido de o amor a Deus incluir o receio de O ofender no próximo.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 18 de maio de 2024

A VIDA DOS LIVROS

  
De 20 a 26 de maio de 2024


A décima quarta edição de “Bibliotecando em Tomar” constituiu mais uma vez uma excelente oportunidade para um debate sobre ideias bem como sobre livros e leitura no tema “Hospitalidade e Hostilidade”.


Maio traz-nos “Bibliotecando em Tomar”. É sempre uma emoção regressarmos às ideias que os livros nos trazem. Este ano ocorreu a décima quarta edição do certame e sentimos intensamente a força da língua portuguesa como expressão viva da comunicação entre culturas que partilham um mesmo idioma. A escritora homenageada este ano foi Ana Paula Tavares e sentimos o calor da sua palavra e do seu afeto, lendo e relendo os seus textos, desde a poesia de Ritos de Passagem até às crónicas amargas e doces de O Sangue da Buganvília, onde sentimos que “somos cada vez mais como as buganvílias a florir em sangue no meio da tempestade”. O tema escolhido para esta edição não poderia ser mais apropriado: “Da hostilidade à hospitalidade – Um Caminho de Paz”. A proposta definida há um ano e anunciada por Agripina Carriço Vieira revelou-se de uma atualidade perturbante. As incertezas, os medos, a violência e o ressentimento assaltam o mundo a cada passo, com uma intensidade inequívoca. O étimo comum das duas palavras, de origem indo-europeia, serviu de mote a uma reflexão séria que obriga a pensarmo-nos como seres humanos com sentimentos contraditórios na relação com os outros. O hóspede e o hospedeiro (host) encontram-se a natural tensão entre quem é recebido e quem recebe, num contexto de surpresa e perplexidade. Com afirma a escritora angolana: “A guerra, o abandono e a fome são o pano de fundo de seres que a terra mãe nem sempre adotou como devia. (…) O rosto mais visível da devastação e da guerra tem olhos de criança, tão grandes e espantados como os símbolos solares das pinturas rupestres mais antigas”. E a presença de Ana Paula Tavares permitiu demonstrar a importância do humanismo no diálogo entre culturas diferentes que se confrontam e completam. 


Carmen Tindó Secco e Tania Macedo trouxeram-nos, nesta perspetiva, uma leitura da obra de Ana Paula Tavares assente no apelo permanente a uma fecunda e complexa diversidade, incompatível com qualquer simplificação, desde a arqueologia da vida e da palavra até a um rico universalismo angolanamente sentido. E, na roda do oleiro, a argila amassada simboliza o húmus donde deriva a humanidade. Assim, a reflexão filosófica de José Gil colocou-nos perante o que Derrida considera ser a tensão permanente entre a hospitalidade incondicional e a hospitalidade absoluta, quando entra no nosso desejo o desejo do outro ou quando convertemos o desejo da morte (e da destruição) em desejo de convívio. De facto, a relação entre o hóspede e o hospedeiro é sempre ambígua – porque o estrangeiro é recebido como hóspede ou como inimigo, mercê da desconfiança perante a chegada do outro. E o certo é que a paz perpétua de Kant torna-se irrealizável, abrindo caminho à necessidade de repensar o sistema de relações entre pessoas e culturas, no que podemos designar como reforma profunda da democracia, que permita respeitar as diferenças. Afinal, o outro ao chegar a um novo lugar muda o seu desejo. O hóspede (guest) é refém de quem o convida, tornando-se convidador do convidador, ou seja, o hóspede (host) torna-se o hospedeiro do hospedeiro. E o estrangeiro cristaliza a simbolização o outro. Afinal, todos os homens e mulheres tornam-se estrangeiros, e somos levados a agir perante os outros segundo essa consideração hipotética. Ser amável para com o estrangeiro será assim ser amável para com qualquer pessoa com a qual podemos encontrar-nos. E a hospitalidade revela-se vital como remédio eficaz contra a hostilidade. Estaremos sempre em dívida para com o outro quando o encontramos e a hospitalidade comum jamais é suficiente, tendo de ser analisada na perspetiva da hospitalidade absoluta e da hospitalidade incondicional. E José Gil põe-nos perante o dilema permanente entre os dois termos da situação. Eis como uma aparente contradição assume a naturalidade da imperfeição humana, num contexto de imanência que obriga a cuidar da vontade e da determinação na recusa da indiferença e no compromisso sempre incompleto entre seres humanos livres e iguais em dignidade e direitos.


E ao longo das reflexões que nos foram oferecidas em Tomar em dias de intensa reflexão foi possível afirmar o que José Carlos Seabra Pereira, neste ano de Camões, generosamente, voltou a considerar sobre A Cultura como Enigma, colocando os livros e as bibliotecas na encruzilhada entre as diferentes gerações da humanidade, numa comunicação mágica entre nós e os autores que lemos e ouvimos, que se projeta para além da passagem momentânea do tempo. E poderíamos ouvir, de novo, Ana Paula Tavares a dizer “Não posso escorregar na emoção fácil que a saudade e a distância criam”. De facto, o grande enigma desse grande caleidoscópio que é a cultura e a arte exprime-o Dante no termo da jornada paradisíaca: “ânsias e vontades era a movê-las, já como roda por igual movida, / o amor que move o sol e as mais estrelas”… E celebrar Camões significa compreender a nossa cultura antiga, cujas raízes nos conduzem à atualização permanente e a uma noção de património vivo. E nada melhor do que o prolífero autor de uma lírica inesgotável e atualíssima, duma dramaturgia bem presente e de uma épica que nos faz reviver uma aventura coletiva que ombreia com Homero e Virgílio, com Ulisses e Eneias, para podermos entender o cerne desse enigma inconfessável da cultura. Centrado no triângulo essencial Educação, Ciência, Cultura, “Bibliotecando” pôde ouvir ainda em diálogo vivo os testemunhos de Eduardo Barroso, Pedro Simas e Sandra Barão Nobre pondo a tónica na experiência inesperada de uma humanidade que se confrontou num tempo relativamente curto com uma crise financeira, a ilusão de uma riqueza aparente, e uma inesperada pandemia, com um confinamento longo e angustiante e o surgimento de vacinas eficazes, tudo isso seguido da ocorrência de uma guerra que parece multiplicar-se e da emergência de um populismo que ameaça a racionalidade, a ponderação e a reflexão. Todavia, se a paz perpétua de Kant parece distante – o diálogo entre as culturas revela-se urgente, como bem deixaram evidente, num rico encontro sobre o primado da humanidade, Ana Paula Tavares, João de Melo e Alice Neto de Sousa. E correndo as palavras como as cerejas Ricardo Cruz, Álvaro Laborinho Lúcio, Alexandre Castro Caldas interrogaram-se oportunamente sobre a Inteligência Artificial e o progresso científico. Graça Capinha e Joaquim Arena falaram sobre a Língua como espaço necessário de encontro da Humanidade; além da participação de Marco Daniel Duarte, Rita Gaspar Vieira, Afonso Seixas-Nunes, Isabel Baltazar e Vasco Becker-Weinberg numa convergência da sensibilidade, da arte e da espiritualidade, na vivência da ideia que a Biblioteca mais intensamente nos traz – a conexão entre criatividade e a capacidade de compreender.     


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE RUI COSTA  

  


Os turistas


Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.


in Mike Tyson para Principiantes, 2012


The tourists


These are the tourists and they come from Greece
to look at me.
They don’t know I’ve been extinct
for a million years
and that I’ve set off on the point
of a star lost into the future
and twinkling in our own image.
See the tourists, with their wheels on fire,
how boldly they land
and halt in the face of the stones
of this city rotting by the river
ignorant of another way to love.
The tourists,
they clean the seagulls’ toenails
and eat tuna paste
while they buckle their sandals
and look at me,
they stand up with their shoulder bags and
hold harpoons
and ask me if I’m Herod and I
say I’m not,
I’m not Plato either,
nor his accidental neighbour who
conquered Lydia,
nor the horse that decided to die to
hide the Master’s flight towards some seaside
towns that should not be underrated,
but that yes, I can press
their camera button,
and I take the necessary steps and
before the centuries the universe
doesn’t contemplate
I cut off their heads – and return
to myself
while they start to brush
the seagulls’ hair
and walking into a tube built
by Caesar they blindly walk
far and away
from the city that rots by the river.


© Translated by Ana Hudson, 2012
in Poems from the Portuguese 

ANTOLOGIA

  


MEMENTO QUIA PULVIS EST…
por Camilo Martins de Oliveira 


Meu Caro Manuel:


Passei, há quase um ano, uma semana amiga em casa do teu irmão Alberto, na raia de Lisboa, onde tantas outras vezes gozámos o sossego de conversas várias sobre o mundo. Sossego, digo, porque sempre nos entendemos e desentendemos bem: ele, sempre alerta e inesperado; tu sempre resmungão e talvez realista; eu sempre curioso e estrangeiro. Todos três sempre de acordo em que era preciso enxotar as senhoras da conversa... Dessa vez, na tua ausência, falámos do Inferno e de mafarricos, de malefícios à distância, de castigos vários... Tudo começou por um postal que o Alberto comprara no Louvre e usava como marcador de livros. Reproduz a frente de um retábulo pintado, em meados do século XIV, por um membro da família Memmi, aliás conhecido por Mestre dos Anjos Rebeldes. Cristo Pancrator preside à precipitação, por anjos legionários comandados pelo Arcanjo S. Miguel, dos anjos rebeldes, os de Satanás, no abismo. Estes são todos negros e horrendos, a sua queda desenha-se sobre fundo de ouro, mas... mas parece que vão cair num planeta! Como se fossem atirados à terra, para viverem no pecado e na maldição dos homens... O Alberto fora marcando com esta estampa a sua leitura, em francês, dos "Serões na granja nos arredores de Dikanka" de Nicolai Gogol. "Sempre me perguntei - disse-me - se o Diabo existiria como força ativa, autorizada por Deus para tentar e poder desviar os homens (e sobretudo as mulheres - e ria-se muito - como vítimas e agentes cooperadores...), ou se seria uma invenção nossa, para bode expiatório, donde os cornos dos mafarricos e outros desgraçados... Esta pintura de um Memmi leva-me a questionar esse "adquirido" e a pensar que, quiçá, os demónios todos, afinal, foram precipitados para a terra dos homens no preciso instante em que Yahvé enxotou Adão e Eva do paraíso, por terem preferido a desordem à obediência, o castigo de ser livre à beatitude de ser programado... Assim, todos eles, os demónios e os filhos de Eva (como diriam as feministas) se copularam para povoar de discórdia e guerra este vale de lágrimas. Até que Deus se achou longínquo e violento e, talvez arrependido de ter precipitado tantas criaturas para o esgoto de um planeta cheio de água, decidiu atirar cá para baixo o seu Filho Único, que por isso era Cristo, antes de se chamar Jesus. Mandou Deus que lhe dessem o nome de meu irmão: Manuel, Deus connosco. E, por esse gesto, tão dolorosamente simples, tão alegremente generoso, desafiou e chamou a si o mal que tinha expulso, porque os corações que se purificam vão convertendo o mundo. Não por práticas canónicas, nem rezas repetidas, nem incensos queimados às imagens em que pretendemos domesticar a maravilhosa liberdade do divino. Mas pela transformação silenciosa do nosso olhar no querer bem.... Nestes contos do Gogol, há um que me mete medo, pois tem a ver com o nosso terror inato à maldição que persegue gerações. Que culpa tem Catarina - e o filhito que seu marido Danilo lhe deu - da maldição que, por Deus, Ivan lançara sobre Petrof, o antepassado deles que traíra indignamente seu irmão? Deveremos nós ser todos filhos do castigo de Caim? Mas, olha, Camilo Maria, ri-me, como quem se desforra, com a história, tão divertida, da noite de natal do ferreiro Vakula que, após peripécias apimentadas e várias, apanha o estupor do Diabo num saco de carvão. Agarrando-o pelo rabo, vai-o apertando e, ameaçando-o com o sinal da cruz, obriga-o a levá-lo até Petersburgo, à Czarina Catarina da Rússia, a quem implorará a oferta dos seus melhores sapatos de cerimónia... Catarina é generosa. E Vakula, voando pelos céus da Rússia, velozmente levado pelo Diabo que meteu no bolso, bem agarrado pela cauda maléfica e aterrorizado pela ameaça do sinal da cruz, chegará à sua terra, com as arras que prometera a Oksana, sua amada. Casam no dia de Natal. Já só pela coragem dele, a menina lhe dera o sim". O riso dos olhos do teu irmão, ao contar-me esta história, conhece-lo tu melhor do que eu. Disse-me, tantas vezes, com aquela graça de quem talvez veja Deus no dia a dia: "O Senhor Celeste também é mafarrico: prega-me partidas todos os dias!" As insónias infligiam-lhe leituras várias, para lhe desviar também o pensamento daquelas aflições que o assaltavam. Mas, ao deitar-se, tinha sempre à beira da cama uns álbuns do Tintin, que o divertiam e lhe davam umas frases para dizer no dia seguinte. Se chovesse, por exemplo, lembrava Milou, o cão, a exclamar "Il fait un temps d’homme!". Além de Hergé, a leitura da noite era Eça de Queiroz: "O Mandarim", "A Relíquia", "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras". Penso que tudo isso tinha a ver com ele: Em "O Mandarim", o desprezo pelo oportunismo e o horror à ganância, sem escapar à ironia: "Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio: pertencem-lhe; ele que os reclame e os reparta. E a vós, homens, lego-vos estas palavras: Só sabe bem o pão que, dia a dia, ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim! - E todavia, ao expirar, consola-me, prodigiosamente, esta ideia: ...nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, O pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, criatura feita por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!". Da "Ilustre Casa", até pelo arranque para África: "A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança tão terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até àquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora àquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? - Quem? - Portugal". De "A Cidade e as Serras", o Alberto gostava de referir o passo em que, depois de jantar em Tormes, Jacinto e Zé Fernandes voltam "para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão"... Não sabem nomear as estrelas: ... "E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?  -  Não sei. Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber, assim acumulado, forma um monte, que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos obras da mesma Vontade". A "A Relíquia", Alberto ia buscar a memória de outra noite estrelada, quando Teodorico se despede da sua Mary luveira: "Por sobre os terraços adormecidos da muçulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos  -  suspirei o fado mais sentido de saudade portuguesa: «Co’a minha alma aqui te ficas, / Eu parto só com os meus ais, / E tudo me diz, Maricas, / Que não te verei nunca mais». Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quis saber se estes doces versos eram de Luís de Camões. Eu, choramingando, disse-lhe que estes - ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas. Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidraça: e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da Cruz, vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada". Era assim, maroto e terno, aflito de angústias mas cheio da alegria inicial da vida, o teu irmão. Deus o guarde em paz".


Esta carta do Marquês de Sarolea nunca seguiu, encontrei-a no seu espólio. Foi escrita, de Bruxelas, pouco depois da morte de meu Pai, a que assisti. Nas semanas derradeiras, Alberto Martins de Oliveira conversava longamente com o cónego Sarmento, jurista de formação, vocação tardia, camarada de Coimbra. Na extrema-unção, ambos rezaram em latim.


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 17.09.13 neste blogue.