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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 25 a 31 de maio de 2020

 

“A Torre da Barbela” (1964) de Ruben A. (Livros do Brasil, 2020) é uma obra-prima de imaginação, de mestria romanesca e de excelente domínio da língua.

 

 

 

UM NOVO SISTEMA SENTIMENTAL
“Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra”. Ruben A., cujos cem anos do nascimento agora celebramos, teve a extraordinária lucidez de escrever as suas extraordinárias memórias no momento que permitiu que usufruíssemos delas como um dos melhores exemplos da nossa literatura memorialística. O Mundo à Minha Procura (1964-68) é uma obra extraordinária, na qual encontramos uma grande personagem, multifacetada, complexa, em que o fino humor se liga ao retrato fiel do tempo, de uma geração e de uma cultura, vistas por alguém que tinha a atenção desperta para o mundo e era conhecedor como poucos, desde as raízes à atualidade, da Arte de ser português. E não esqueço, graças à amizade antiga e sólida do Nicolau, seu filho, os momentos que tenho passado no convívio da memória fascinante de Ruben. Não se entende, por exemplo, a nossa cultura sem a leitura da Barbela. E o certo é que esses momentos não têm sido apenas os da leitura e releitura de uma obra fantástica, mas também os de visita aos lugares marcados pelo percurso de vida de alguém que muito bem conhecia Portugal – desde Entre Douro e Minho, do Porto, do Campo Alegre, até ao Alentejo, passando em Lisboa pela Praça do Príncipe Real, onde veio ao mundo, e pelo Monte Olivete… As excursões e passeios mirabolantes com programas surrealistas foram marca sua… Os percursos de Orlando Ribeiro e Torga apaixonavam-no. No entanto, estes tempos, estranhos de confinamento, adiaram (apenas adiaram) o encontro que tínhamos marcado para a Fundação Gulbenkian, com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cuidadosamente preparado com Miguel Tamen e António Feijó e pelo Nicolau, naturalmente. Não poderemos, contudo, deixar de fazer dessa celebração a justa invocação de quem tanto merece que tertuliemos longamente sobre um espírito tão versátil e rico, cujas pistas que nos deixou têm de ser seguidas e aprofundadas.

 

DO CONVÍVIO À EXTROVERSÃO
“Era um homem que se ocultava no convívio e na extroversão” – disse António Quadros, quando falou dele depois da morte inesperada e absurda. “Tinha uma imparável fúria criadora. Não sabia estar parado… quase existia heteronimicamente, como o Pessoa. Havia o Ruben historiador, escrevendo livros sérios, … Havia o Ruben public-relations, literato da Embaixada do Brasil… Havia o Ruben-minhoto, apaixonado por Carreço, Afife e pela Ribeira Lima. Havia o Ruben-colecionador de cacos-velhos e frequentador de Antiquários. Havia o Ruben surrealista e louco, escrevendo livros como as Páginas”. Era isso e muito mais…E Alexandre O’Neill disse, melhor que alguém: “Ao coro de rãs, respondeu Ruben A., com algumas arreliantes dissonâncias, enfim, com o que nele era vivo pressentimento de que uma obra se faz a contrapeso do gosto mediano…” De facto, muitos não compreenderão o que escreve e o sentido da procura. Em Inglaterra no King’s College, Charles Boxer elogia-o pelas capacidades pedagógicas, pelo trabalho realizado e por ser “a vida e a alma do Departamento”. Ruben demonstra conhecimento e entusiasmo, ao falar de Fernão Lopes, de D. Pedro V, da Geração de Setenta e de Fernando Pessoa ou ao encenar o Mar de Miguel Torga. Mas, na escrita, procura novos caminhos, seguindo os passos de Garrett, que nas “Viagens” escreveu como falava, dando à língua o tom vivo do que realmente se comunica. Não lhe interessava copiar “coisas arcaicas do passado numa língua que já ninguém fala”… Mas há quem não entenda, a começar pelo próprio Salazar, que considera intoleráveis as liberdades de Páginas II (1950)O triste episódio é bem conhecido e nada abona para quem o suscitou. João Gaspar Simões ou António Quadros, ao contrário, entenderam bem que era Ruben que estava na razão…

 

LIVRO INSUPERÁVEL
O romancista continua a seguir a via original de uma criatividade inconformista. Sobre Caranguejo (1954) dirá Eduardo Lourenço: “não foi nada senão bicho insólito, entrando às arrecuas e aos pinos na policiada praia lusitana que o reenviou de novo para o mar resplandecente de onde tivera a insolência de querer sair para contemplar o Sol e as estrelas”. E Maria Lúcia Lepecki não tinha dúvidas em considerar o romance como o maior… A Torre da Barbela (1964) é, no entanto, insuperável na obra do autor. E se ele amou tanto Portugal, a verdade é que, por isso mesmo, não deixou de fazer a severa crítica das limitações, invejas, mediocridades, provincianismos, como forma de as podermos superar. Jacinto do Prado Coelho fala de uma “cura de inverosimilhança”, de um retrato do aforro às tradições, da ronceirice, da tacanhez e de ridículas prosápias… E Liberto Cruz tem razão quando alerta para não se confundir o significado com o significante: o leitor “precisa sobretudo de deter-se na seriedade deste romance, atentar na ironia que o envolve, no humor que o reveste, no tom doloroso de dezenas de páginas, na amargura de tantos episódios que provocam gargalhadas salutares, na frescura sadia, na alegria de viver, que exala a cada momento” (Ruben A. – Uma Biografia, Estampa, 2012). Como salientou António Tabucchi é essencial reconhecer a vertente picaresca na cultura portuguesa, além do lírico e do trágico… Bocage, Beckford, Afonso Henriques e D. João V pontuam um enredo pleno de estranhas personagens que são muito mais do que figurantes à volta dos amores entre o Cavaleiro e Madeleine. Só, porém, alguém profundamente conhecedor de Portugal poderia escrever um romance assim, onde os anacronismos são tratados com o cuidado de darem o tom onírico, numa fusão entre tradição e modernidade, num caleidoscópio sempre variado, como assinalou José Blanc de Portugal. E é o homem crente da modernidade, que se apaixona desde cedo pela figura de D. Pedro V. Não, não é o romântico que Ruben Andresen Leitão descobre nas suas deambulações históricas, logo no final de 40. “É este Rei o primeiro homem moderno no nosso País; é ele que nos seus escritos proclama insistentemente o que a geração de 70 vai tentar realizar. É, se me perdoam a expressão, o primeiro grito histórico no século XIX, depois daqueles anos desmantelados de liberalismo duvidoso. A História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura conceção de atuação vivida” (D. Pedro V – Um Homem e um Rei, 1950). É significativa a epígrafe que Ruben tira do pensamento do malogrado rei: “Escrevemos para um povo dormente a quem convém despertar; para cegos (dos da pior espécie que são os que não querem ver) a quem cumpre restituir a luz; para obstinados cuja relutância devemos vencer”… Eis o programa de vida, em que o escritor sempre acreditou. Mas Ruben A. era uma personagem. Eduardo Lourenço contou que, na véspera de defender a tese em Coimbra, convidou-o a ir ao Astória, onde o encontrou “fazendo a sua toilette como Luís XVI” – deixando a ideia de uma espécie de encarnação de Fradique Mendes. “Foi divertidíssimo. Não sei se se inventará uma personagem de romance tão singular como foi Ruben A.”… E Sophia escreveu: “Carta a Ruben A. / Que tenhas morrido é ainda notícia / Desencontrada e longínqua e não a entendo bem / Quando – pela última vez – bateste à porta de casa e te sentaste à mesa / Trazias contigo como sempre alvoroço e início / Tudo se passou em planos e projetos / E ninguém poderia pensar em despedida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

EM REBUSCA DO JAPÃO II

 

  Retomo - tal como prometera em carta à Princesa de mim - o fio da meada que nos tem levado a percorrer caminhos e atalhos da cultura japonesa, ou daquilo que, tantas vezes (!), nos possa parecer, e talvez seja, reflexo simétrico do nosso próprio pensarsentir, será também sempre um adquirido. Posto que, na verdade, há momentos da vida em que nos surpreendemos estranhos, "bárbaros" à míngua de outras aprendizagens...

 

   Volto ao esclarecedor texto de Mutsuo Takahashi, isto é, ao iniciar de uma análise da estética e da poética do haiku, neologismo inventado, em finais do século XIX, por Masaoka Shiki (1867-1902), esse poeta que, entre muitos outros, nos deixou estes versos tão primaveris:

  

          ergue-se no ar uma cotovia
          respiro a bruma
          caminho sobre nuvens

 

   Traduzo agora este terceto, só para nos chamar a atenção para que qualquer surto poético não tem de (nem que) ser explicado. Basta respirá-lo, sobretudo quando, como na poesia japonesa, tal respiração nos traz, pelo toque fugidio da evanescência, a contemplação da permanência essencial das coisas. Aliás, para além de qualquer forma métrica, sintática ou rítmica, ou de rimas e sonoridades, a poesia vive sempre nas formas idiomáticas em que foi composta - e que são muito dificilmente traduzíveis - nas quais, afinal, iremos procurar encontrar o tal "não sei o quê e quase nada" que a torna universalmente nossa íntima. Aliviando esta conversa, pergunto como se pode traduzir, do português para japonês (por exemplo), esta quadra de Luís Vaz de Camões, enviada a D. António, senhor de Cascais, que tendo-lhe prometido seis galinhas recheadas, por uma copla que lhe fizera, lhe mandou por princípio da paga meia galinha recheada:

  

          Cinco galinhas e meia
          deve o senhor de Cascais;
          e a meia vinha cheia
          de apetite pera as mais.

 

   Pormenorizadamente explicadinha, talvez a quadra ache graça em ouvidos estrangeiros, e até poderá acordar algum sabor a pilhéria... Mas faltar-lhe-á a espontaneidade do riso, a surpresa imediata de um entendimento espontâneo. No tocante a literatura japonesa, creio que será talvez maior a distância para chegarmos ao seu alcance, não só pela nossa própria estranheza à cultura que a informa, como por ser bem real - e pude pessoalmente verificá-lo em inúmeros encontros e reuniões - que a comunicação entre japoneses acontece, como dizem os antropólogos, em alto contexto.

 

   Kotaro Takamura (1883-1956), escultor e poeta surgido no tempo e ação de aproximação da cultura japonesa à ocidental, familiarizado com a obra de Rodin, Cézanne, Verlaine e Baudelaire, que divulgou e traduziu no Japão, é o autor de um poema em verso livre, intitulado Ore no Shi, cuja versão francesa (Mes Vers)  por Jeanne Sigée (Anthologie de poésie japonaise contemporaine. Paris, Gallimard, 1986) aqui verto para português. Fala melhor do que eu:

 

          Os meus versos não procedem da poesia ocidental
          Dois círculos se traçam mutuamente uma tangente mas
          No termo não se sobrepõem idealmente.
         Sendo eu apaixonado pelo mundo poético ocidental contudo
         Os meus versos próprios não podem negar que assentam noutras fundações.
         O céu de Atenas, a subterrânea nascente do cristianismo
         Geraram língua e pensamento da poesia ocidental.
         Tal mundo entrou-me no íntimo infinitamente belo infinitamente forte contudo
         Essa fisiologia de trigo de manteiga e de entrecosto
         Mantém à distância as necessidades do meu japonês.
         Os meus versos emergem das minhas vísceras, das minhas entranhas.
         Nascido no fim do Extremo Oriente, com arroz criado
         Com a minha alma alimentada de fermento de saké, de soja, de carne de peixe
         Com reminiscências do antigo Gândara todavia pregadas ao corpo
         A minha alma que se alumia mais da cultura amarela do imenso continente
         Que se purifica mergulhada na corrente sussurrante dos clássicos japoneses
         Ei-la repentinamente embasbacada pela energia atómica.
         Os meus versos não têm mais recurso para além do meu corpo,
         O meu próprio corpo é, sem dúvida, o de um escultor do Extremo Oriente.
         A meu ver, embora o universo tenha os anais das estruturas
         São os versos que lhes recitam o contraponto.
         A poesia ocidental é uma vizinha muito querida contudo
         Cumpre-se numa órbita diferente.

 

   Quanto mais me familiarizo com tanta poesia vinda de mundos, línguas e culturas distintas das minhas, tanto melhor entendo como nem tudo se desvenda, ou sequer abre, por conceitos: a proximidade, como, por maioria de razão, o aconchego, vai-se alcançando por escuta presente, silenciosa e humilde. Talvez por isso, quem traduz poderá sempre encontrar novas expressões da descoberta de um encontro, quiçá porque, como árvore, em si também vai crescendo a emoção qualquer que o feriu primeiro. A poesia comove-nos, move-nos com ela.

 

   Procurando outra imagem, vislumbro a minha mão em busca de outra, até que com suas costas se aflorem, como dois círculos se traçam mutuamente uma tangente, na bela expressão de Kotaro Takamura.

  

Camilo Martins de Oliveira

TEATROS E CINEMAS NOS 50 ANOS DA MORTE DE CASSIANO BRANCO

 

Assinalamos hoje o cinquentenário da morte do arquiteto Cassiano Branco (1897-1970) no que concerne a sua criatividade técnica e artística respeitante a salas de espetáculo.

 Há cerca de 5 anos, tivemos aliás ensejo de referir aqui o então chamado Cine-Teatro Império, projetado por Cassiano com intervenções arquitetónicas de Frederico George e Raul Chorão Ramalho, inaugurado em 1952 com o filme de René Clair intitulado “La Beauté du Diable”.

E assinalámos na altura a atuação do também então chamado Teatro Moderno de Lisboa, iniciativa de Carmen Dolores, Rogério Paulo, Armando Cortez e Fernando Gusmão, o qual, entre 1961 e 1965, muito contribuiu para uma modernização cultural do espetáculo e da cultura inerente.

 Aí se destacou aliás a estreia da peça “O Render dos Heróis” de José Cardoso Pires, depois retirada de cena pela censura. Trata-se da evocação histórica da chamada Maria da Fonte realçando os aspetos e compromissos de movimento popular, que neste aspeto histórico assume a veracidade.

E é oportuno então realçar que as indicações e notas de cena conciliam-se com a interpretação histórico-ideológica, mas ao mesmo tempo não afetam de modo alguma a expressão teatral. Cardoso pires tinha efetivamente uma significativa vocação dramática/dramatúrgica, isto é, de técnica de cena e de espetáculo.

E vale a pena então reproduzir o que aqui escrevemos há cinco anos a propósito deste espetáculo.

Pois efetivamente a peça «representa a revolta popular da Maria da Fonte, destacando-se a recriação épica da força do povo no movimento político e a adequação de psicologias e condutas independentemente das motivações. (cfr. “Teatro em Portugal” 2012). Levá-la à cena constitui um dos “verdadeiros atos de resistência” à censura, como diz Luís Francisco Rebello... (in “Breve História do Teatro Português”, 2000; cfr. também Maria Regina Rodrigues “A Situação do Teatro Português na Década de 1960”; Tito Lívio e Carmen Dolores “Teatro Moderno de Lisboa”, 2009.

E assim é!

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

52. A EUROPA QUE QUIS SER EUROPA E NÃO FOI

 

Houve sempre tentativas de unidade europeia que se frustraram.   
Unidade que foi simbolizada pela República Cristiana, e falhou. 
Pelo império de Carlos Magno, fragmentando-se com a sua morte.  
Carlos V também quis ser Europa, e não foi.
Napoleão ambicionou ser Europa, e não foi.
Hitler desejou ser Europa, e não foi.   
Para além do falhanço de uma tentativa saxónica de poderio continental, que levou à guerra dos 100 anos, do expansionismo germânico, com Frederico da Prússia, do império Austro-Húngaro, de Bismark e Guilherme II, invasões da França e da Rússia, de vindas de eslavos para o ocidente. 
Todos falharam, ao pretenderem conquistar ou exercer hegemonia sobre os demais.
Contra tudo, vingou o princípio das nacionalidades, face ao qual os países não mudam os seus objetivos permanentes, nem o seu contexto físico ou configuração geográfica. Há, no presente, uma tentativa de unidade: a União Europeia. 
Num mundo cada vez menos eurocêntrico, num ocidente em crise e numa Europa em declínio.  
Em que há uma crise de liderança europeia.
Com os líderes europeus olhando em demasia para o seu umbigo. 
Em que a França conta na Europa, cada vez menos, como uma média potência imperial.
A Alemanha por ter relações relevantes com os países do leste europeu. 
A Inglaterra por ser ponto de referência dos Estados Unidos da América. 
Em que Portugal deve ter uma visão europeísta e atlantista.
Estará a UE à altura dos desígnios dos seus pais fundadores? 
Estará a UE disponível a superar os seus egoísmos económicos e financeiros, perante a pandemia vigente, criando um mecanismo solidário de entreajuda? 
Até agora, perante a realidade do coronavírus (da COVID 19), são mais as promessas que os resultados.   
Cada país, no essencial, age por si, por sua conta e risco.
Se tomarmos como referência as tentativas históricas frustradas da Europa que quis ser Europa e nunca o foi, nada haverá de novo na UE.
Se tivermos como orientação as clivagens permanentes quando há crise, agudizadas pela gravidade global do atual contexto, haverá algo de novo a esperar?   
Será o salve-se quem puder, cada um por si, o melhor que puder?
Uma solução excecional para uma situação excecional? 
Oxalá!? Esperamos que sim!? 
O amanhã di-lo-á.  

 

22.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

LUIS CERNUDA (I)

Queria fazer poemas que não gerassem linguagem mas que a suprimissem.

 

Quando do meu ângulo abro as portas de um livro e dentro dele passo a viver com um anseio sem nome, aguardo anos que ele me escute e compreenda, e encontre eu a razão que por fim me dirá se nele terei vivido quanto.

 

Depois, o que importa, é que claramente o recordo e a ele recorro, e, então, é como a casa sempre que me dá a mão.

 

 

Assim e por dívida inexcedível a José Bento poeta e tradutor maior, eis esta Antologia Poética de Luis Cernuda, para quem, a poesia foi a única realidade que, como poucos no seu tempo alcançou. Assim se pode ler no prólogo, igualmente escrito pelo tradutor desta livro em edição bilingue, oportuna chancela da Cotovia.

Um ponto de partida para a compreensão da obra de Cernuda era o desejo da proximidade da por si chamada poesia pura.

Desde logo a Mozart as palavras cenurdianas surgiram como gente, sangue e meta: 

A sua música dava forma ao mundo, dava ordem, justiça, nobreza e formusura. Escreveu.

 

Luis Cernuda habitante do mundo mítico da Andaluzia nasceu em Sevilha em 1902. Incorpora-se na famosa Geração de 27, que constituiu um específico período, durante o qual as artes eram tratadas num profundo estilo vanguardista, e deste ciclo veio a ser um dos poetas mais significativos.

 

No seu exílio de Espanha e de muitos caminhos de uma infância profundamente solitária e difícil, conheceu a Inglaterra e os E.U.A. onde foi professor na Universidade de Mount Holyok, tendo vindo a falecer no México em 1963.

 

Muito influenciado por Gustavo Adolfo Bécquer e Pedro Salinas, Baudelaire, Rimbaud, Hölderlin, Mallarmé, Gide, Garcilaso, entre muitos outros, Cernuda, no seu livro, “Ocnos”, produziu dos mais admiráveis poemas em prosa.

 

Um mundo diferente também o despertou quando em 1925, terminado o seu curso de Direito, e vendo-se sem trabalho para viver, o cinema e o jazz entusiasmam-no, enquanto trabalhava nalguns suplementos de revistas, numa profunda antipatia pelo conformismo.

 

A obra de Luis Ceruda, entendo-a como uma razão, à qual sou, e serei a visitante que por ela caminha, a visitante que leva vida na ambição de se aproximar da insubornável busca de Luis Ceruda de uma linguagem que não existe, quer para tratar afetos que não podem ou não sabem ser ditos e que por assim ser - esta e outras realidades - a própria linguagem artística é ultrapassada pelo seu interior metalinguístico.

 

Hay poetas que deslumbran y poetas que alumbran. Li.

 

Para nós a força de acender está com Ceruda: um dos mais solitários escritores espanhóis que incessantemente transportou dentro de si uma multidão que, enfim, o tornou alma tão triste, tão água, fogo, terra, ar, e beijo, aquele mesmo que unge lutador e moribundo, o despido e o comprometido.

 

Na afirmação da sua verdade, o mesmo pensamento que produziu os mais arrebatadores poemas de amor -

 

 “Libertad no conozco sino la libertad de estar preso en alguien
cuyo nombre no puedo oír sin escalofrío”

 

- produziu também os mais desamparados.

 

“Morir parece fácil,
La vida es lo difícil:
Ya no sé sino usarla
En ti, con este inútil
Trabajo de quererte

que tú no necesitas”

 

Ou ainda o tão eloquentemente objetivado poema “País” traduzido por José Bento:

 

Somos uma sociedade atrasada
que somente se põe em dia nos
símbolos externos. 

 

E palpo respeitar a senha dos livros de Luis Ceruda, que numa trajetória de vida nada superficial, reconheceu que nem sempre soube ou sequer pôde criar a distância entre o poeta criador e o homem que sofre.

Destino?, ou a mais alta verdade?

De novo, apenas me aproximo.

E ávida volto ao poeta que afirma entender melhor os homens que na lenda estão mortos -

(…) quem vai do manancial latente

Ao rio que sem alento desagua.

- qual desencanto, ou antecipação da desolação das quimeras, seu último livro de poemas.

                                                         

Teresa Bracinha Vieira

JOÃO PAULO II: NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

1. Celebra-se a 18 de Maio, o centenário do nascimento de Karol Wojtyla, que havia de ser Papa, com o nome de João Paulo II.

 

Fica aí um breve apontamento sobre essa figura marcante do século XX. Não é, de facto, possível escrever a história do século XX ignorando João Paulo II, que não foi apenas uma figura marcante, mas determinante, do século passado. Apresento alguns acontecimentos, um pouco à maneira de flashes, referentes concretamente ao seu pontificado, um dos mais longos da História: mais de 26 anos, de 18 de Outubro de 1978 a 2 de Abril de 2005.

 

João Paulo II foi um dos líderes mais influentes do seu tempo. Era um homem de convicções, corajoso, profundamente crente no Evangelho e no Deus de Jesus. Foi com ele e as suas viagens por mais de cem países que a Igreja católica tomou real consciência de ser uma Igreja mundial. Foi decisivo para o fim do comunismo no seu país natal, a Polónia, e para a queda do Muro de Berlim. Afirmou e reafirmou os Direitos Humanos. Escreveu notáveis encíclicas sobre ética social e concretamente sobre os direitos dos trabalhadores (Laborem exercens e Centesimus annus) e, se não me engano, foi o primeiro Papa a utilizar a palavra ecologia em todo o seu significado de defesa do meio ambiente. Perdoou àquele que o quis assassinar e visitou-o na cadeia. Reuniu em Assis os representantes das religiões mundiais para a oração, criando o que ficou conhecido como “o espírito de Assis”, no sentido da compreensão entre as várias religiões a favor da paz. Fez o possível para evitar a invasão do Iraque, um erro histórico brutal cujos efeitos ainda hoje o mundo está a pagar. Foi um lutador incansável pelo que considerava a sua missão: precisamente a defesa da paz, que o levou a viajar pelo mundo todo como seu mensageiro. Era humilde: ele que chegara a Papa, jovem e atleta, não teve vergonha em envelhecer sem ocultar ao mundo a sua decadência física.

 

Foi um dos homens mais populares do seu tempo. O mundo agradeceu-lhe, despedindo-se dele com milhões de pessoas no funeral, que teve também o maior número de representações diplomáticas de sempre. E o povo gritou que queria vê-lo rapidamente canonizado: “Santo subito!”

 

2. Mas João Paulo II era um homem do seu tempo e tem de ser situado nesse tempo e no seu contexto histórico. Ele vinha do Leste, com uma Igreja perseguida, e ele próprio tinha uma certa visão da Igreja, mais hierárquico-autoritária do que propriamente participativa, sinodal, em comunhão. E vivia-se então na Igreja uma forte tensão entre os chamados progressistas e os conservadores, dentro da necessidade de um novo rumo para uma Igreja conciliar, em ligação com o espírito do Concílio Vaticano II.

 

Neste contexto, viveu grandes contradições. Por exemplo, pediu perdão pelas culpas da Igreja ao longo da História ao mesmo tempo que continuou a condenar um grande número de teólogos (mais de 100). Defendeu os Direitos Humanos para o mundo ao mesmo tempo que reprimiu quem dissentia das suas concepções doutrinais, teológicas ou relacionadas com a organização da Igreja. Pôs travão a horizontes abertos pelo Concílio Vaticano II e concretizou esse propósito com a nomeação de bispos da sua linha conservadora no mundo inteiro. Limitou o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs. Opôs-se tenazmente a uma reflexão sobre a obrigatoriedade da lei do celibato para os padres. Recusou terminantemente debater de modo sério o lugar da mulher na Igreja, pretendendo inclusivamente invocar a infalibilidade, para pôr termo definitivo ao debate teológico sobre a possibilidade da ordenação de mulheres.

 

Sobretudo, João Paulo II deixou uma herança dramática por causa do modo como terá lidado com os abusos de menores por parte do clero e com a figura perversa do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. Neste sentido se pronunciou também, numa entrevista recente ao “Der Sonntag”, o actual cardeal de Viena, Christoph Schönborn, para quem João Paulo II é certamente “um dos grandes Papas”, mas “ficou arrasado com o tema dos abusos, foi uma das suas debilidades... Esperávamos que João Paulo II encontrasse uma palavra de consolação e compaixão para os afectados, para os que tinham sofrido... Essa palavra não veio”, concretamente na sua viagem à Áustria em 1998. Do ponto de vista teológico e pastoral, Karl Rahner, um dos teólogos do Concílio Vaticano II e talvez o maior teólogo católico do século XX, morreu com a tristeza do que antevia como a caminhada da Igreja para um “inverno”.

 

3. Permita-se-me uma nota pessoal. Uma vez, foi-me dada a possibilidade de encontrar pessoalmente o Papa João Paulo II nos seus aposentos privados, no Vaticano. Era a primeira vez que estava com um Papa. Apertei-lhe respeitosamente a mão e disse no meu mais íntimo: “É apenas um homem”.

 

João Paulo II era apenas um homem. Com imensa grandeza, mas com grandes debilidades também. O que é facto é que o sucessor, que tinha sido no seu pontificado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI, encontrou a Igreja numa situação tal que não teve forças para continuar à sua frente e tomou aquele gesto histórico de resignar. Foi então que foi eleito o Papa Francisco, uma bênção para a Igreja e para o mundo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 MAI 2020

DAR A VOLTA POR CIMA

glauber rocha e jorge amado.jpg

 

Vi “António das Mortes” no cinema Flamingo, no Lobito. A autoria é do sincrético Glauber Rocha, tão matador de cangaceiros que fez um filme para matar Corisco, outro para matar Coirana. Mal sabia, nesse ano de independência, quem era o brasileiro que filmava sangue como só Godard filmou sangue e que encostava cada cena a canções que, ali onde elas cantavam, qualquer um chorava.

“António das Mortes”, também chamado “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, tinha muitas canções. Uma, “Dar a Volta Por Cima”, é inesquecível. Se algum dia tiver de ajudar alguém que precise de ajuda mas não queira que lhe dêem a mão, estenda-lhe essa canção. Parece críptico: mas basta ouvir os versos falando de um homem de moral que morde a poeira do chão e percebe-se logo.

António é jagunço, assassino: a soldo de coronéis para matar cangaceiros descomandados. O Brasil do passado, talvez, e Deus queira que não, o Brasil do futuro. Como o jagunço, também o cangaceiro pode ser um criminoso a mando. Só que, quando deixa de servir um senhor, o cangaceiro continua criminoso e converte-se num telúrico espírito livre. O cangaceiro brota do seco Nordeste como o mais obstinado dos arbustos. O crime dele agarra-se ao sertão, à crespa paisagem. A sede dele sabe onde encontrar a sobrante, rara, gota de água. O cangaceiro é gémeo de uma Natureza miserável e inóspita. Comungam a escassez, o desapossamento.

Uma sebenta capa cinzenta a cobrir-lhe o corpo vasto, espingarda assassina colada à mão, António, que em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” já matara Corisco, herdeiro de Lampião o príncipe dos cangaceiros, volta agora e volta para matar Coirana, o último rebelde. Porque lhe pagam. É um jagunço: serve os que têm, matando os que nada têm. É esse o maniqueísmo antropofágico do filme de Glauber. Como num western cruel de Peckinpah. Com mais música, uma música inocente e impiedosa, camiliana. De cordel.

Quando a voz do sambista, que dava pelo estranho nome de Noite Ilustrada, canta “dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava”, vemos António na sua estrada de Damasco, no meio de camiões de luz, a sofrer a conversão e a mudar de campo. Os negócios de política passam a ser com os outros, os dele só com Deus, o Deus místico dos que nada têm. 

Na única, brevíssima conversa que tive com Glauber devia ter-lhe perguntado porque é que a lágrima que no cinema do Lobito juro ter visto António chorar, nunca mais a encontrei ao rever o filme. Glauber ligara do hospital para a Cinemateca, a dias de morrer tão jovem. Atendi-o por acidente e ouvi-lhe mais a nítida respiração arfante do que a longínqua voz. Não o podia cansar.

Ainda hoje procuro a lágrima que António das Mortes chorou só para mim num cinema de Angola. Uma lágrima de dois lados. De um lado penitência, do outro, esperança.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de maio de 2020

“Monsignor Quixote” (1982) de Graham Greene (tradução portuguesa, Europa-América, 1984) é o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar. Trata-se de um diálogo vivo e divertido sobre temas muito sérios e complexos que um grande romancista trata de um modo inteligente e atual.


UMA RECRIAÇÃO PARA OS DIAS DE HOJE
Estamos perante uma recriação, nos dias de hoje, da obra de Cervantes, que é uma chamada à atualidade, como a do século dezassete, de uma crítica jocosa e séria à sociedade e ao confronto eterno entre valores e realidades. «E tudo se passou assim. O Padre Quixote tinha encomendado o seu almoço solitário à governanta e pôs-se ao caminho para ir buscar vinho a uma cooperativa local, a oito quilómetros de El Toboso, na estrada de Valência. Era um dia de calor imóvel, no qual o ar trepidava sobre os campos secos. Com o seu Seat 500, comprado barato havia oito anos, sem ar condicionado, o Padre cismava com tristeza sobre o momento em que iria ter de mudar de carro. O homem vive sete vezes mais do que um cão: com tais contas, o automóvel não tinha entrado ainda na idade madura, mas o Padre tinha reparado que os seus paroquianos consideravam já o seu Seat quase senil. E chamavam-lhe a atenção: ‘Nunca fiando, Abade Quixote!’ e só ele podia responder: ‘Percorremos maus dias, e eu peço ao Senhor que esta viatura me possa sobreviver’. Com tantas orações sem serem ouvidas, alimentava uma certa esperança de que este pedido pudesse funcionar como um pedacito de cera na ‘Orelha Eterna’»… O Seat era a sua Rocinante, e havia uma espécie de afeto que Quixote alimentava no seu íntimo. E indo nestes pensamentos não reparou logo num Mercedes parado na estrada. Mas, olhando bem, deu nota de que se tratava de alguém que tinha cabeção, era um clérigo, e mais do que isso tinha vestes de um Monsenhor… Naturalmente, indagou o que era. Tratava-se de um Bispo, vindo de Roma, com uma pronúncia inconfundível, que se identificou como de Motopo, um título in partibus infidelium. O contacto foi fácil e a hospitalidade extraordinária, com vinho, queijo, carne e a boa cozinha de Teresa, a governanta do Padre Quixote. O encontro foi, assim, de grande simpatia e de tal modo a ajuda foi benfazeja, ainda que bem simples, graças a um jerrican para repor o nível de combustível, que o Bispo romano partiu satisfeito para Madrid, o seu destino. E aqui nasceu o motivo romanesco. Para grande surpresa do Bispo da diocese, o Padre recebeu do Vaticano a nomeação para Monsenhor, em reconhecimento das qualidades reveladas, mas, ao contrário do que seria esperável, o bispo considerou incómoda a distinção para quem era um modesto pároco de aldeia, a que o prelado não reconhecia especiais qualidades, pelo que se tornou incómoda a sua presença na paróquia, o que levou Quixote a aproveitar o ensejo para viajar com seu amigo Sancho, um comunista, que inesperadamente perdera as eleições para Alcalde de El Toboso. Neste ponto, com as devidas distâncias, tudo se assemelha ao encontro de D. Camilo e Peppone de Giovanni Guareschi.

 

VIAGEM PARA ENTENDER A ESPANHA
Nessa viagem de encontros inesperados e de desencontros, o que se debate é a Espanha marcada pela Guerra Civil e pelo franquismo, que espreita ainda onde menos se espera. E o Padre Quixote, ao que parece, descendente do herói mítico de Cervantes, compreende em sentido crítico a fé e a razão, não como ilusão, mas como uma exigência de compreensão. O materialismo de Sancho choca com o espírito de Quixote, mas na realização da justiça há a preocupação do Padre se pôr na pele do Alcalde, para surpresa deste, mostrando que não há dogmatismo que possa vencer o amor e o cuidado com os outros. Por isso, Quixote afirma que “o raciocínio lógico leva-nos tantas vezes a situações absurdas”… Há que ponderar os dilemas que nos são colocados pela coexistência de valores que não podem sobrepor-se ao primado das pessoas concretas, de carne e osso. Em determinado momento, Sancho insinua que a fé e a ilusão se tocam. Mas Monsenhor Quixote não deixa passar em claro esse ponto: “Pensa que o meu Deus não é senão uma ilusão, como os moinhos de vento. Mas Ele existe, sou eu que o digo. Não me limito acreditar. Posso tocá-lO”. A polémica, porém, não é apenas com Sancho, que se demarca da solução eurocomunista e de Santiago Carrillo, preferindo Álvaro Cunhal, há também um sério confronto entre o novo Monsenhor e o seu Bispo, quando este põe dúvidas sobre a liberdade e as suas virtudes por esta ser perigosa, o que leva Quixote a responder: «Foi Ele (Jesus Cristo) quem nos deu a liberdade, não foi? Por isso mesmo O crucificaram».

 

UMA ÚLTIMA AVENTURA
No final do romance, Graham Greene revisita o célebre episódio de Cervantes com Dulcineia e transpõe-no para uma cena em que um grupo de fanáticos profana a imagem da Virgem Maria cobrindo-a de dinheiro, o que obriga Monsenhor Quixote a intervir, a ser atacado e a sair severamente molestado, além de ver destruído o seu querido automóvel. Acolhe-se com o seu amigo no Mosteiro trapense onde, fraco e doente, é acometido de um delírio sonâmbulo, levantando-se de noite para ir até à Igreja onde celebra uma antiga missa tridentina, imaginando que tem nas suas mãos o pão e o vinho eucarísticos, que administra num derradeiro gesto em comunhão ao antigo Alcalde, caindo depois morto nos seus braços… O romancista escreveu “Monsenhor Quixote” depois de uma viagem de reconhecimento em vésperas da chegada da Espanha às Comunidades Europeias, que fez como seu amigo Padre Leopoldo Durán. O diálogo entre Quixote e Sancho significa a compreensão de um encontro necessário entre as duas Espanhas, e Greene não esconde a sua admiração por míticos como S. João da Cruz e uma especial identificação com Miguel de Unamuno, e o seu “Sentimento Trágico da Vida”. Humor e tragédia são encontrados neste percurso em que D. Quixote é relido à luz dos nossos dias. Como Leopoldo Durán testemunha, Greene era de uma disciplina notável – lia sete a dez narrativas num mês e diariamente escrevia a partir das 8 horas pelo menos trezentas palavras. E não foi só uma viagem, mas 15 verões passados na Península. Durán pagava a gasolina, algumas refeições e as pernoitas em conventos e mosteiros e Greene assegurava os jantares e os hotéis. Interessava ao romancista ver como ficava a Espanha depois do fim do franquismo. Logo em julho de 1976 visita Salamanca, Galiza e a costa cantábrica até San Sebastian, Burgos e Segóvia… No ano seguinte parte de Salamanca, Ávila e Leão e segue até Portugal, com paragens no Porto, Lisboa e Sintra… E depois retorna a Madrid, onde no Prado se torna um admirador devoto de Goya. E depois visitou sistematicamente La Mancha, depois do circuito amplo Andaluzia, Levante, Catalunha e Pirenéus… Eis como Monsenhor Quixote deve ser lido como uma reflexão e um balanço de um escritor do seu tempo. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em texto breve e claro, Claude Lévi-Strauss fala de algo que disse no Japão e a que chama apprivoiser l'étrangeté, encabeçando a sua reflexão por uma citação de Platão: Porque o mais contrário é o maior amigo do que lhe é mais contrário... Poderia também ter citado alguém mais seu coevo, como o jornalista correspondente de guerra Robert Guillain, que teve esta afirmação famosa: Le Japon est le pays où le contraire est vrai...

 

   E, referindo-se à descoberta da cultura japonesa pelo Ocidente, logo aponta o jesuíta português Luís Froes como pioneiro, no século XVI, desse exercício de comparação simétrica de pessoas, usos e costumes que, em meados do século XIX, levou o mesmo Ocidente a ganhar o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão  lhe propunha. Esta frase, aliás, resume o teor do prefácio que o célebre antropólogo francês (nascido em 1908, em Bruxelas) escreveu para a edição francesa de Européens et Japonais. Traité sur les contradictions et différences de moeurs, que, em português, foi escrito pelo padre Luís Froes em 1585 e, apesar de praticamente ignorado na sua pátria, e sua própria língua, foi, muito mais tarde, traduzido e publicado em França pela Chandeigne (1998 e 2005).

 

   Noutro texto seu, e noutra charla nipónica, Lévi-Strauss fala de Sengai (1750-1837), calígrafo, pintor e poeta, monge zen que costumava ir beber à fonte dos haikai de mestre Basho. O trecho que seguidamente para ti traduzo vale bem a leitura que fizeres, pelo muito que nos desvenda da íntima relação - para não dizer natureza comum  -  da poesia, caligrafia e pintura japonesas. Escuta bem:

 

   A arte de Sengai, reconhecia André  Malraux, deixa perplexo o espectador ocidental: «Nenhuma outra arte extremo-oriental, prosseguia ele, está tão longe da nossa, nem de nós.»

 

   Cada vez que se nos revela o sentido das legendas inscritas por Sengai à margem das suas pinturas, compreendemos um pouco melhor as razões de tal mal entendido. Pois que, pelo seu significado e o seu grafismo, as palavras têm tanta importância quanto o assunto, já que desses curtos textos, muitas vezes em forma de poemas, com as suas citações implícitas e as suas alusões maliciosas, os seus subentendidos, apenas obtemos das obras uma perceção mutilada.

 

   Mas, em certo sentido, isso é válido para toda a pintura extremo-oriental, indissociável da caligrafia, e não tão somente porque esta tem sempre cabimento naquela. Cada coisa representada - árvore, rochedo, curso de água, casa, senda, monte   -  para além da sua aparência sensível, recebe um significado filosófico de como o pintor a representa e situa num conjunto organizado.

 

   Mesmo se nos ativermos apenas à caligrafia, é claro que, apesar de todos os esforços dos tradutores, o essencial da poesia dos haikai - tais como os de Basho, de quem Sengai se sentia próximo, fica fora do nosso alcance. Tanto quanto o sentido literal, único acessível, contam a escolha de um caracter em vez de qualquer outro, o estilo da escrita (os manuais enumeram pelo menos cinco) e a disposição do texto sobre a folha...

 

   Já noutras cartas para ti, ou ainda em textos vários que escrevi sobre as minhas descobertas e insistentes interrogações acerca da cultura japonesa, abordei temas relacionados com a tradução literária ou as imitações e tentativas de adoção de géneros e modos literários próprios de outras culturas e línguas. Tais aventuras são sempre empresas de risco e incógnitos sucessos à partida. Exigem aos seus fautores, antes de mais, um refletido esforço de escuta e humildade, Com o tempo todo que lhe for necessário. E, depois, a serenidade de uma partilha, só pelo gosto dela. 

 

   O poeta, nosso contemporâneo, Mutsuo Takahashi editou em 2003 uma curiosa antologia de haiku - que, aliás, considera a chave poética do Japão - cuja maior qualidade, a meu ver, reside, precisamente, na achega a uma poética e estética, que nos proporciona, não só através das suas magníficas traduções para inglês, como pelas fotografias que a ilustram, e através das quais Hakudo Inue tenta desvendar-nos alguma visão mais intimista dos poemas japoneses. Essa também é facilitada pelo facto da edição ser bilingue (japonês-inglês), nesta publicação da P-I-E Books (Tokyo, 2003). O prefácio escrito pelo antologista e tradutor é, além disso, breve, conciso e claro, muito informativo e esclarecedor. Vem, a talho da fouce desta carta, traduzir-te eu os seguintes trechos desse texto de apresentação:

 

   ...O haiku de cinco-sete-cinco sílabas, todavia, nem sempre foi uma forma independente. Começou enquanto primeiro verso, chamado hokku, de uma espécie de poesia engrenada, chamada renga e haikai no renga (ou renga em estilo popular).  [Abro aqui um parêntese, Princesa, para te dizer que ouso pensar no "hokku" nipónico como equivalente ao nosso mote em desafios poéticos]. Tais poemas engrenados eram colaborativamente escritos por vários poetas que lhes iam alternativamente adicionando versos de sete-sete ou cinco-sete-cinco sílabas. Há pouco mais de cem anos, Shiki [Masaoka Shiki, 1867-1902, poeta, inventor do neologismo "haiku"] , decidiu separar o hokku do renga e do haikai  no renga, assim nascendo então o haiku.

 

   Havia uma conexão entre o hokku e os versos seguintesque começava com o segundo verso (wakiku ou "verso de suporte"). Apesar disso, o hokku permanecia semiautónomo. Aquilo a que hoje chamamos haiku, de Basho ou de Buson, são os seus semiautónomos hokku, vistos como poemas independentes.

 

   [Permite-me aqui, Princesa de mim, abrir mais um parêntese, chamando a atenção para a pertinência desta observação, já que tem sido generalizada a ideia de que haiku (para o qual, aliás, se inventou o plural, inexistente em japonês, de "haikus") é uma forma poética, ou género literário independente desde a sua origem. E é bem notória a tendência de se identificar tal mal entendido com, por exemplo, a obra escrita de Munefusa Matsuo (mais conhecido por Basho), esquecendo que dois terços da mesma está em prosa, sendo os versos destacados comentários, quiçá mais intimistas, ao próprio relato dos textos prosaicos. Aliás, tal facto nada tem de novo: já em literatura japonesa muito antiga  -  e no próprio Conto de Genji - o recurso a interlúdios poéticos é patente, retratando bem a unidade japonesa e budista das artes da escrita, da caligrafia e da ilustração plástica. Talvez, mesmo mais do que qualquer outra em todo o mundo e história, a literatura japonesa seja integral e profundamente emocional, registo possível do pensarsentir do ser humano. Quiçá por motivos próximos dos que levam a língua japonesa a tanto se alimentar de onomatopeias. Ocorre-me, neste preciso instante da escrita desta carta, voltar a citar-te um passo do Zen and Japanese Culture do professor Daisetz Suzuki (Princeton University Press, 1970), a que já muitas vezes me referi em escritos vários: Está certo dizer-se que a mente oriental é intuitiva, enquanto a mente ocidental é lógica e discursiva. Uma mente intuitiva tem certamente as suas fraquezas, mas o seu ponto forte surge quando trata de coisas mais fundamentais na vida, isto é, coisas relativas à religião, à arte, à metafísica. E foi o Zen que especialmente estabeleceu esse facto: o satori. A ideia de que a verdade última da vida e das coisas deve geralmente ser intuitiva e não conceptualmente apanhada, e de que tal apreensão intuitiva é o fundamento, não só da filosofia, mas de todas as outras atividades culturais - eis aquilo com que a forma Zen do budismo mais contribuiu para a cultura do apreço artístico entre o povo japonês.]

 

   Retomarei o fio desta meada em carta próxima, ou talvez aproveite a oportunidade para iniciar já com a presente uma nova série de escritos meus sobre o Japão, à qual, depois de Fomos em Busca do Japão e de Um Itinerário de Muitos Olhares, talvez ponha o título de Em Rebusca do Japão. Até lá. Mas, a fechar a presente, deixa-me traduzir-te as primeiras linhas de um "Diário de Viagem" de Matsuo Basho, intitulado Nozarashi kiko, e que é o primeiro apresentado, já em 1988, por René Sieffert na sua versão francesa Bashô - Journaux de voyage, publicada pelas Publications Orientalistes de France. A minha versão portuguesa foi feita directamente da francesa de Sieffert, com recurso esporádico e "tant bien que mal" ao texto original japonês, e o apoio do meu querido Dicionário Universal Japonês-Português do nosso jesuíta e contemporâneo padre Jaime Cepeda Coelho, velho e querido amigo. O pequeno trecho que se segue, a meu ver, diz muito sobre o espírito, a obra e o universo do grande Basho:

 

   Partindo para uma viagem de mil léguas, sem me embaraçar com provisões para o caminho, «sob a lua da terceira vigília entrei no inquestionável», poderia dizer esse Ancião: ao seu cajado me apoiei, na era Jokyo, no ano do Primogénito da Árvore e do Rato [1684], pela oitava lua do outono, quando deixei o meu casebre desconjunto, ao pé do rio, e um vento frio soprava.

 

          Embranqueçam os meus ossos
          penetra-me o vento o corpo
          até ao coração

 

          Passados dez outonos
          o nome de pátria designa
          Edo doravante

 

   No dia em que atravessei as barreiras, caía chuva e os montes todos desapareciam por entre as nuvens.

 

          Nevoeiro e bruma
          dissimulam o Fuji
          encanto deste dia

 

      Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

"HÁ POEMAS..."

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Há poemas que saíram discretamente em revistas com pequenas tiragens e hoje fazem parte do património de um povo ou mesmo da humanidade. O Centro Nacional de Cultura não é uma organização de massas, mas com uma longevidade impressionante tem marcado, pelas intervenções directas e pelas pontes que promove, a vida portuguesa de forma cirurgicamente interventiva, assinalando acontecimentos, abrindo horizontes, promovendo reflexões, interpelando com notável equilíbrio e espírito de diálogo, congregando muitos dos espíritos mais lúcidos e das figuras mais marcantes da nossa... cultura.

Seja-me permitida uma nota pessoal que recorda um dos vectores chave do CNC (e haveria que acrescentar as viagens ao estrangeiro com a portugalidade como pano de fundo). Sem prejuízo de um longo acompanhamento, incluindo a revista "Raiz e Utopia", e de uma ou ou outra colaboração, o nosso (casal, Teresa Curvelo e eu) período áureo de vivência relacionada com o Centro Nacional de Cultura coincidiu com a Direcção de Helena Vaz da Silva e teve a sua expressão maior nalguns passeios / roteiros no País, inesquecíveis.

O passeio garrettiano no Tejo com Joel Serrão. A visita à Assembleia da República. A Estação Elevatória dos Barbadinhos com Fernando Castelo Branco, Jorge Graça e José Manuel Fernandes e o Aqueduto das Águas Livres, em que felizmente não nos cruzámos com Diogo Alves. A visita ao Palácio de Belém com José António Saraiva durante a presidência de Ramalho Eanes (ele e a Mulher impecáveis anfitriões), na altura em que se aproximavam as eleições em que estaria em jogo a sua reeleição, num ambiente já algo tenso embora ainda longe da tragédia de Camarate. Que sei eu!

Mas a escolher um roteiro, talvez a fantástica visita a Alcobaça, dos telhados ao jantar na fabulosa cozinha, com Rui Rasquilho. Memorável! 

 

João P. Boléo