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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR


Place de l’Étoile


A curta-metragem Place d l’Étoile, de Eric Rohmer, feita para o filme Paris vu par… (1965) explora o espaço público como meio primordial da nova cidade planeada por Haussmann. Neste caso específico, Rohmer ao conhecer bem toda a área circundante à Place de l’Étoile e por ter trabalhado no topo dos Champs Élysées, queria mostrar o seu interesse por este espaço aberto e circular.


A Place de l’Étoile é o ponto de encontro de doze grandes avenidas cujo centro é definido pelo imponente Arco do Triunfo (1906-1936). No filme, Rohmer explica que a praça em si, supostamente assinalada como um lugar de prestígio, é uma espécie de terra de ninguém, pois é totalmente ignorada e subestimada por seus transeuntes ativos e apressados que conhecem e percorrem somente o seu perímetro. A cada 50m uma rua tem de ser atravessada. Os semáforos que regularizam o movimento dos carros nas ruas periféricas em nada facilitam a circulação dos peões - resultando assim num desconforto descontínuo somente superada pela idade ou pelo carácter de cada indivíduo. As obras, que desde 1964 constroíem na praça o metro regional, também contribuem para aumentar o problema da circulação automóvel e pedestre.


Ora Jean-Marc, o herói desta história, antigo corredor dos 400m, trabalha como vendedor numa loja de fatos para homem na Avenida Victor Hugo. Todas as manhãs, Jean-Marc apanha o metro para ir para o trabalho. A sua última paragem é L’Étoile. Um dia ao sair da estação de metro e aborrecido por uma mulher ter pisado o seu pé, choca sem querer com um senhor que passa na Place de l’Étoile. Uma desavença aí se inicia até que o senhor colapsa no chão e Jean-Marc com medo foge em corrida, pensado que o senhor está ferido ou até mesmo morto. Durante as semanas seguintes, Jean-Marc prudentemente evita a Place de l’Étoile. Cuidadosamente tenta contornar a praça utilizando as suas ruas periféricas, mas nem sempre é bem sucedido. Mas para seu grande alívio um dia vê o senhor no metro.


A história deste filme depende totalmente da estrutura geométrica da Place de l’Étoile. A sua configuração é capaz de determinar os encontros, o itinerário, os desvios, a corrida, as interrupções que descrevem a história de Jean-Marc.


Por isso Jean-Marc é a figura necessária para estabelecer a ligação entre o espaço físico e o espaço psicológico daquele lugar específico.


Rohmer, a propósito deste filme cita Guy Débord e a sua teoria da Dérive. Debord define a Dérive como o modo experimental que liga o comportamento humano às condições de uma determinada sociedade urbana. Rohmer escreve que todo o ser humano gosta de ter a possibilidade de se deslocar a um lugar através de duas ou mais maneiras diferentes, porque o seu devaneio será sempre capaz de o conduzir até lá. E aqui Rohmer crítica abertamente a vida urbana moderna que ao proibir a divagação, o desvio e o acaso contribui para a destruição de Paris. (Baecque e Herpe 2014, 181)


A cidade moderna de Haussmann trouxe a definitiva cisão entre o humano e a natureza - é o triunfo do artificial esplendoroso sobre o natural, o tecnológico funcionalista sobre o intuitivo, a ordem longa e larga sobre o imprevisível.

 

Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

De 24 a 30 de janeiro de 2022


Fernando de Albuquerque (1942-2022), cidadão e aristocrata, o Morgado de Mateus, foi exemplo de quem soube ligar em permanência a história longa à memória presente que sempre se vai reconstruindo.


NO SOLAR DE MATEUS…
Quando nos despedimos com o afeto de uma amizade de mais de quarenta anos em novembro passado por ocasião da entrega do Prémio Vasco Graça Moura da Cidadania Cultural a Emílio Rui Vilar não poderia suspeitar que seria a última vez que nos encontrávamos neste mundo. Registo, porém, o sorriso de sempre do Fernando – o mesmo desde que o conheci, graças a Francisco Sá Carneiro, num velho encontro, animado pela ideia de contruirmos uma democracia social e cultural, que pudesse pôr Portugal numa Europa moderna e num mundo global, no qual a língua portuguesa se afirmasse num projeto de paz e de desenvolvimento, com novas independências africanas, nova relação com o Brasil e uma complementaridade viva num mundo global. E o Solar de Mateus tornou-se um lugar de encontros e de afirmação de uma cultura plural, aberta, cosmopolita, criativa e exigente. A democracia tinha de cultivar a qualidade. Portugal deveria tornar-se um ponto de encontro do que melhor se fazia, deixando o velho estigma de velha ditadura, isolada e pobre. Quem visita a Casa de Mateus apercebe-se de que não há cultura sem vida, sem o fervilhar das ideias e das iniciativas, sem as personalidades que animam a história. Fernando de Albuquerque, cidadão e aristocrata, o Morgado de Mateus, foi o exemplo de quem sempre foi capaz de ligar em permanência a história longa à memória que sempre se vai reconstruindo. Conheci-o no momento em que a democracia se contruía, em 1974. Era a realização da liberdade que estava em causa e, conhecendo a antiga linhagem donde provinha, senti-lhe sempre uma grande coerência, menos preocupada com o passado e mais empenhada num futuro de modernidade e de mudança. Desde cedo, tive o gosto de percorrer os salões da velha casa, nunca como um museu, mas como um lugar onde encontrava amigos e pessoas interessantes, preocupados com o futuro do Portugal democrático na relação com a Europa e o mundo, fazendo da cultura um fecundo diálogo. Os seminários Repensar Portugal, no final dos anos setenta, foram essenciais para a abertura de novos horizontes, assim como os Encontros Internacionais de Música, a instituição do Prémio D. Diniz, os Seminários de Tradução de Poesia Viva, o Instituto Internacional Casa de Mateus, as Residência de Artistas, a atividade agrícola e turística, tudo constituiu um modo ativo de ligar memória e desenvolvimento, democracia e arte. E não esquecemos a atribuição do Prémio Morgado de Mateus, apenas destinado a figuras excecionais no domínio da cultura, a Miguel Torga e a Carlos Drummond de Andrade (1980) e a Vasco Graça Moura (2013). Todos foram verdadeiros símbolos daquela casa extraordinária. E invoco ainda a memória de um amigo comum, que também nos deixou – Vasco Graça Moura fazia parte da alma de Mateus. O seu talento e a sua cultura fizeram e fazem parte da história desta casa maravilhosa. Estou a ver, Fernando, no seu passo miudinho, cuidando para que tudo se passasse com simplicidade e inexcedível qualidade, para que nos sentíssemos bem a fruir o natural requinte e a permitir que a cultura fluísse, em diálogo genuíno e rico entre a tradição e o futuro. E foi com especial honra e gosto que condecorei na Casa de Mateus em nome do Estado português, em representação do Presidente Jorge Sampaio, Gustav Leonhardt numa justíssima homenagem à figura marcante do panorama musical mundial, demonstração de uma cultura sem fronteiras.


MONUMENTO EMBLEMÁTICO DO BARROCO
Numa viagem em Portugal, se há monumento emblemático do barroco nortenho é o Solar de Mateus, a que Fernando, na tradição de seus antepassados e especialmente de seu pai, instituidor da Fundação da Casa de Mateus, se entregou de alma e coração com entusiasmo e cuidadoso respeito pela essência do património cultural como realidade viva. O Palácio foi mandado contruir, na primeira metade do século XVIII, pelo terceiro Morgado de Mateus, D. António José Botelho Mourão, presumivelmente desenhado por Nicolau Nasoni, constituído pela imponente casa principal, uma capela, adega e maravilhosos jardins. A aplicação dos pináculos sobre os telhados e uma decoração elegante concede um carácter único ao monumento setecentista, cuja importância é enriquecida por uma biblioteca de 6000 volumes, no seio da qual se destaca a notável Edição Monumental de “Os Lusíadas” (1817), graças ao quinto Morgado de Mateus, D. José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, influente diplomata, designadamente no período napoleónico. A direção artística da obra esteve a cargo do pintor François Gerard, sendo as gravuras, estampadas por Durand, da autoria de Alexandre Desenne e de Alexandre Fragonard (filho do célebre Jean-Honoré). O Morgado conservou em seu poder as primeiras provas tipográficas e as estampas em cobre que se encontram na biblioteca da Casa. São dois autênticos monumentos nacionais, a casa e a obra de arte. Fernando de Albuquerque sempre o compreendeu, procurando afirmar essa responsabilidade como uma atenção especial à cultura enquanto sinal presente de vitalidade e de cidadania. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS À PRINCESA DE AGORA E SEMPRE


Minha Princesa de mim:


   Acordo cedo, muito cedo, no quarto grande e sem cortinas nas janelas que dão para um vale de campos livres e arborizados. Já clareia o ar lá fora, mas está ainda esconso e escuro o dia anunciado, deixo-me estar deitado, com a cabeça apoiada em almofadas altas, para contemplar melhor o desenrolar do novo dia. Virado a sul, vejo o horizonte incendiar-se pouco a pouco, pelo fogo do sol que se ergue a leste e vai acendendo o céu inteiro, para depois colorir a terra e iluminar, uma a uma, as coisas percetíveis. Pensossinto este primeiro momento dialético do dia que, ao unir-nos na sua luminosidade, marca-nos também na individualidade de cada existência: somos diferentes talvez por nos distinguirmos na comunhão do mesmo ser. E sei que lá longe, no outro lado da terra, nesse a que chamamos antípodas, este mesmo sol se apaga agora, e se desenrola sobre a mesma terra de lá o manto escuro da noite que, mais logo, chegará aqui. 


   Tais movimentos têm os seus tempos, mas são momentos contraditórios no espaço em que, simultaneamente, se verificam como o mesmo e o seu oposto: este sendo agora o que outro foi e voltará a ser. Quando me ocorre esta contemplação do mistério do ser que incessantemente se anula e regressa, no súbito silêncio do meu pensarsentir escuto o Bolero de Ravel, qual movimento perpétuo.


   Assim também, ao lento romper da bruma matinal pelo sol nascente, me acontece recair no torpor de um sono que termina, e me parece ouvir a noite moribunda a cantar-me, num sussurro de mãe que embala: dorme, meu menino, dorme bem. E caio, sem defesa, no turbilhão silencioso do movimento do mundo todo. 


   Não é fácil comungar o universo. Não sou, não somos, Deus. Mas é bom tentar. Como quando procuro falar contigo, e só o teu-nosso silêncio nos escuta e responde. Será que falaremos sempre? Como agora?


Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DE ESPAÇOS TEATRAIS NA ILHA DA MADEIRA


Faz-se hoje referência à tradição de edifícios vocacionados para a atividade cultural na Madeira. E desde já é de assinalar que para lá da indiscutível beleza natural e urbana, o meio em que se inscreve, independentemente da valorização socioeconómica respetiva e como tal também indiscutível, pode não parecer propriamente dominado pelas atividades e tradições do espetáculo teatral...


Mas muito embora: existe na Madeira uma tradição cultural de teatros e edifícios de espetáculo, que vem do século XVIII. Assim, a chamada Comédia Velha data de 1780 e sobreviveu até 1829. O Teatro Grande foi edificado junto ao Palácio de São Lourenço em 1776 e demolido em 1833. E seguiram-se numerosas salas de espetáculo: o Teatro do Bom Gosto, assim mesmo, o Teatro Thalia, ou o Teatro Baltazar Dias que, na sucessão de mudanças políticas, se chamou Teatro D. Maria Pia, inaugurado em 1888 e sucessivamente denominado Theatro Funchalense e Teatro Manuel de Arriaga, até à homenagem ao grande poeta madeirense Baltazar Dias.


No início do século passado, este Teatro (então) D. Maria Pia marcava já pela qualidade da sala e pela dimensão, com frisas, duas ordens de camarotes, plateia e geral, pela beleza arquitetónica exterior e interior: mas marcou também por ser, pelo menos deste o início do século XX, propriedade da Câmara Municipal do Funchal, o que na época não era muito habitual!...


Mas na Madeira os teatros não se concentram apenas no Funchal, longe disso.


Assim registe-se que existe na Calheta como que uma tradição de centros culturais que têm motivado e justificado sucessivas reestruturações de edifícios. Vejamos um caso mais recente.


Desde logo, remontando a 2004/5, assinala-se a articulação da antiga Casa das Mudas, assim mesmo denominada, com um chamado Centro das Artes.


Efetivamente, tal como tivemos ensejo de referir em estudo efetuado no âmbito do Centro Nacional de Cultura, o Centro Cívico do Estreito da Calheta foi inaugurado naquele ano e corresponde a reformulação da antiga Casa das Mudas, segundo projeto de Carlos Baptista, Freddy Ferreira César, Rodrigo Cascais e Alexandre Sousa.


O edifício denominado Centro das Artes-Casa das Mudas, projeto do arquiteto Paulo David, que citamos ao referir que o projeto como que simula “um grande conjunto de peças esculpidas através também da utilização de basalto”.


E salientamos no nosso livro a aproximação à paisagem, num conjunto, precisamente, que se integra no paisagismo vertiginoso da montanha a pique sobre o mar.  (in “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed. Mediatexto e CNC pág, 101).

DUARTE IVO CRUZ

Obs: Reposição de texto publicado em 12.01.19 neste blogue.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


94. O INSUCESSO DA UTOPIA EM ORWELL


Orwell era um intelectual que acreditava que o mundo podia ser modificado pela força do intelecto. 

Por maioria de razão enquanto jovem, na sua aurora de impulso juvenil e primaveril.  Acreditou fervorosamente no socialismo. 

Era um socialista idealista, em termos de conceitos e ideias.   

A maioria dos intelectuais colocava a teoria à frente da experiência.

Consta que Marx nunca se deslocou nem trabalhou em qualquer local de trabalho do operariado.

Orwell quis colocar a observação empírica e a experiência à frente da teoria. 

A sua experiência dizia-lhe que só através de um exame meticuloso poderíamos aceder à verdade. 

A sua natureza e instinto diziam-lhe que entre a ideologia e a sua execução, as coisas não eram aquilo que pareciam.

Sem subterfúgios, queria conhecer a verdade.

E saber se era exequível executar o ideal em que acreditava.  

Nada melhor que examinar de perto a vida da classe trabalhadora. 

Trabalhou e viveu entre os oprimidos, tentou compreendê-los e ser um deles.

Lutou na guerra civil de Espanha, ao lado dos republicanos, por confronto com o mero apoio moral da maioria dos intelectuais.  

Enquanto membro de uma melícia anarquista, acreditou que podia estar a viver o princípio do socialismo.

Mas a purga que o partido comunista, às ordens de Estaline, fez aos anarquistas, demonstrou-lhe que a esquerda, quando no poder, é capaz de uma crueldade e injustiça semelhante à dos nazis, validando todos os meios para atingir os seus fins, ao arrepio da teoria que proclamava.    

“Homenagem à Catalunha”, denunciando as atrocidades feitas pelos comunistas contra os anarquistas espanhóis, foi boicotada e silenciada, em termos de publicação, por quem o autor tinha tido, até então, por progressistas. 

Não abandonou a crença de que, por força das ideias, é possível uma sociedade melhor, mas concluiu que as pessoas são mais importantes que a mera ideologia. 

Colocou, em primeiro lugar, a experiência pessoal, o que observava no dia a dia, por oposição à abstração das ideias e a uma imaginação teórica e de retórica. 

Os seus ataques transferiram-se da quase unânime censura e desprezo pelo capitalismo vigente, para os fraudulentas utopias e amanhãs que cantam proclamados e propagandeados por Marx, Lenine, Estaline e seguidores.  

“O Triunfo dos Porcos” narra uma história de corrupção e traição, recorrendo a figuras de animais para retratar as fraquezas humanas e demolir o “paraíso comunista” proposto pela União Soviética, na época de Estaline. 

Sem esquecer o atualíssimo, distópico, futurista e totalitário “1984”.  

Estalinistas, comunistas e pretensas vanguardas progressistas não lhe perdoaram.

Proibições e boicotes da sua obra são testemunho. 

Idolatrado por uns, demonizado por outros, mas não indiferente a ninguém, deixou-nos uma obra cada vez mais presente, onde se reconhece que o comportamento político é grandemente irracional.  

Observação, experiência e contacto pessoal levaram-no a crer que a causa fundamental do insucesso da utopia é a irracionalidade do comportamento humano.  

Colocou sempre a observação e a experiência, mãe de todas as coisas, à frente da teoria.

 

21.01.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

VALE TUDO

 

Para os dias de hoje a dominação do individuo através da manipulação das suas necessidades, constitui o melhor modo de o integrar no sistema social, enquanto o seu mundo interior, a cada dia que passa, se verga ao entretenimento de outras vontades.

Sector estratégico nos planos político, económico e cultural é a comunicação que fatura dinheiro e gente para um universo do nada ou do poucochinho, e esta é a grande indústria imposta por uma minoria, única beneficiária das regras que impõe.

Em rigor, as formas veladas de pressão sobre a mente das gentes, através dos meios massivos de informação de bífida cultura, manipulam com violência ardilosa incertezas e medos e frustrações, na exata dose que levam o individuo a sentir-se permanentemente insatisfeito.

Deste modo, quanto mais dolorosamente o sujeito é confrontado com a negação do que julgava merecer e obter, quanto mais uma certa elite recear vir a perder as posições que eventualmente conquiste, sobretudo em momentos de crise ou mudança, maior é a necessidade desse mesmo sujeito ocultar a realidade, ignorar mesmo que a conhece.

O mais fácil então - e visto que a ciência não pode oferecer mais do que dúvidas- é que os indivíduos se submetam a uma panóplia de verdades absolutas, passando a vida a ser vivida numa sociedade cujas grandes energias residem na mentira.

Natural se tornou que vivam os videojogos que fazem furor se se basearem na combinação que atinge a agressividade, o culto pela indiferença, a sujidade de espírito, o desafeto, a força bruta do vale tudo.

 

Teresa Bracinha Vieira

E SE DEUS NÃO EXISTISSE?

 

Bertolt Brecht, o dramaturgo marxista ateu, para quem a Bíblia era livro fundamental de referência, deixou esta história: "Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. disse: Aconselho-te a reflectir sobre se o teu comportamento mudaria segundo o tipo de resposta à pergunta. Se não mudaria, podemos deixar cair a pergunta. Se mudaria, então posso pelo menos ajudar-te até ao ponto de dizer-te que já te decidiste: Precisas de um Deus."


O dramaturgo alemão viu claramente que a fé em Deus por interesse, de tal modo que se acreditaria para alcançar o Céu ou para evitar o inferno, está ferida de suspeita. Se Deus existisse como recompensa para que as pessoas façam o bem e sobretudo como travão para que deixem de fazer o mal, não estaríamos em presença de Deus, mas do Polícia do mundo. Esse Deus está ameaçado de não passar de projecção do desejo humano e do medo. Desse modo, Freud teria razão no seu ataque à religião, ao considerá-la uma ilusão infantil e infantilizante, que leva o crente simultaneamente ao aconchego e à blasfémia.


Ao crente é preciso perguntar: Se lhe fosse revelado que afinal Deus não existe?! Sentir-se-ia aliviado? Finalmente livre? O que é que mudaria na sua vida? Seria a derrocada moral? Ou pura e simplesmente não aceitaria essa 'revelação', porque, ao viver de certa maneira - na dignidade, na solidariedade, na fraternidade, na beleza, na interrogação radical e sem limites... -, já experienciou que a realidade e a sua própria existência devem ter um valor e Sentido últimos? Deus não é o garante da vida moral, mas pode ser experienciado enquanto co-implicado nas grandes experiências humanas, também na existência moral. A fé significa essencialmente uma determinada atitude face ao todo da realidade e da existência.


O que deve unir crentes e não crentes é a busca honesta e sincera da verdade e o combate generoso por uma Humanidade melhor, mais solidária e feliz. Nesta procura e nesta luta comuns, pode entreabrir-se a esperança fundada de um Sentido final para a realidade e para a existência. O ateísmo, se não for banal nem primitivo ou ridicularizante, mas inteligentemente desafiante, responsavelmente reflexivo, com dúvidas e um perguntar inexaurível, não é inimigo da fé que sabe que precisa de purificar-se sempre. Como a fé adulta constituirá permanentemente um desafio para o ateu que não se contenta com o dado, que quer ir até à ultimidade, que transcende para o Humanum na sua radicalidade. A fé enquanto abertura à Transcendência é sempre antídoto contra o narcisismo individual e colectivo.


Afinal, como escreveu Joseph Ratzinger, "o crente e o não crente, cada um à sua maneira, participam na dúvida e na fé... Nem um nem outro podem subtrair-se completamente à dúvida e à fé... Talvez precisamente a dúvida, que impede um e outro de se fecharem totalmente em si mesmos, pudesse tornar-se o lugar da comunicação. Ela evita que ambos girem exclusivamente à volta de si próprios; abre o crente ao que duvida e o que duvida ao que crê; para o primeiro, ela é a sua participação no destino do não crente, para o outro, a forma como a fé, apesar de tudo, permanece nele um desafio".


Isto significa que a fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo e morto, mas tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica. Esta abertura e este diálogo são tanto mais urgentes quanto os fundamentalismos, também os fundamentalismos religiosos, se tornam um desafio e perigo maiores.


A fé verdadeira não tem medo da razão autónoma, pois sabe que a razão, levada até aos limites das suas possibilidades, se acende na noite e também sabe que só o Homem livre pode dizer sim ao Mistério. Para tentar balbuciar este Mistério, é necessário entrar em diálogo com todas as ciências, com todas as filosofias, com todas as religiões.


Nestes tempos de penúria e de noite, como disseram o poeta F. Hölderlin e o filósofo M. Heidegger, nestes tempos de niilismo, é tarefa decisiva da Igreja não deixar obturar a interrogação originária que nos faz homens e mulheres livres. É necessário manter acesa a pergunta radical e inconstruível, que é o sinal de que o Homem transcende o dado e de que não pode ser encerrado num positivismo crasso e obtuso.


Afinal, onde está Deus?


Deus está, antes de mais, nesta própria pergunta. Enquanto houver homens, hão-de confrontar-se com os enigmas do tempo e do amor e da morte, com a pergunta pela origem e pelo Sentido último da realidade, e, consequentemente, com a questão de Deus. Suponhamos uma sociedade na qual não existisse sequer a palavra Deus. O que é que aconteceria, se a simples palavra "Deus" deixasse de existir? Respondeu o famoso teólogo Karl Rahner: "Então o Homem já não ficaria situado perante o todo da realidade enquanto tal, nem perante o todo uno da sua existência enquanto tal. Pois isto é o que faz a palavra “Deus” e só ela. Não notaria que já só pensa perguntas, mas não a pergunta pelo perguntar em geral. O Homem teria esquecido o todo e o seu fundamento e teria ao mesmo tempo - se é que assim se pode dizer - esquecido que esqueceu. Que seria então? Apenas podemos dizer: deixaria de ser Homem. Teria realizado uma evolução regressiva, para voltar a ser um animal hábil. O Homem só existe propriamente como Homem quando diz “Deus”, pelo menos como pergunta. A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu."

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 de janeiro de 2022

"CAVALEIRO ANDANTE"

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A minha geração teve uma relação especial com a revista “Cavaleiro Andante”, dirigida por Adolfo Simões Müller. Apesar da resistência que encontrávamos em alguns dos nossos professores de Português relativamente às histórias aos quadradinhos, hoje referidas como 9ª Arte ou Banda Desenhada, pudemos encontrar no “Cavaleiro Andante” e na sua escola um bom aliado na demonstração de que era possível ter qualidade no uso da língua e no incentivo à leitura.  A revista que recebíamos ao sábado, com prazer e alvoroço, permitia termos bons argumentos a favor da qualidade das narrativas ilustradas. Recordo os debates amenos, mas incisivos, no Liceu Pedro Nunes, com alguns professores resistentes e a evolução no sentido do reconhecimento de que esse era um importante contributo para a boa leitura. E assim fomos vendo passarem para o nosso campo os antigos críticos.   


Na Exposição sobre Hergé na Fundação Calouste Gulbenkian recordei esse tempo com António Cabral, o grande impulsionador da iniciativa. Hoje reconhece-se a qualidade excecional do autor belga e o papel fundamental que desempenhou no campo cultural. Do mesmo modo, o introdutor de Tintin em Portugal, Simões Müller, pôde contribuir decisivamente para incentivar o prazer da leitura, com exigência de qualidade. E quando alguns de nós passámos a assinar a revista “Tintin” belga foram as nossas professoras outrora críticas as primeiras a reconhecer os efeitos positivos da BD nos progressos no ensino das línguas, como modo de ligar o multilinguismo, o enriquecimento pedagógico e a abertura de horizontes de um humanismo universalista. António Mega Ferreira já recordou, mais de uma vez, como o Tintin foi um marco de liberdade para a nossa geração. E no caso de Adolfo Simões Müller podemos lembrar os testemunhos de Luísa Ducla Soares, a afirmar que o jornalista e escritor foi um herói da sua infância – “que através dos seus livros, que não esqueço, me iniciou na literatura”; ou de Alice Vieira, a dizer da alegria que era no dia em que chegava o “Cavaleiro Andante”. E David Mourão-Ferreira, recordando o Serviço das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, lembrava o papel desempenhado pelo diretor do “Cavaleiro Andante” “ao tornar acessíveis e aliciantes, a sucessivas gerações de jovens, algumas obras-primas da literatura universal e, particularmente, da literatura portuguesa”. E João Paulo Paiva Boléo refere Müller como “um dos monstros sagrados da direção de revistas juvenis e de banda desenhada, de que inicialmente nem gostava”.


Nas férias de verão, em casa de meus avós, no Algarve, como não tínhamos acesso ao “Cavaleiro Andante” ao sábado, recebíamos religiosamente, à segunda feira, pelo correio, enviado pelo nosso pai, um pequeno rolo, que era acolhido com entusiasmo. Os correios eram ciosos cumpridores dos prazos e a leitura da revista estava devidamente escalonada, para que, com os meus irmãos, pudéssemos usufruir daquele néctar escrito e ilustrado nas melhores condições. Era uma equipa heroica que cuidava com esmero da revista. Os nomes não podem ser esquecidos – Maria Amélia Bárcia, no secretariado da redação, e Fernando Bento, referência fundamental ao lado dos melhores europeus, na direção gráfica. Depois havia tudo o mais – e sobretudo a magia dos continuados e o “suspense” cuidadosamente cultivado de uma semana para outra. E assim tornámo-nos apaixonados da literatura, do cinema, das artes plásticas, da história e da ciência, acompanhando a mais bela das histórias de uma amizade em “Tintin no Tibete”, seguindo as pegadas no Yéti, o abominável homem das neves, como antes fôramos à lua ou partilháramos a luta pelos direitos humanos em “Coke en Stock”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de janeiro de 2022


João Paulo Cotrim, fundador da Bedeteca e editor da editora Abysmo, foi um promotor ativo da leitura e do amor dos livros. Aqui representado pelo humor de André Carrilho.

 


O AMOR DOS LIVROS
O amor aos livros é difícil de definir. Não basta gostar, mais do que isso, é preciso amar, sem rodeios. A companhia do livro é necessária, tem um calor especial, uma forma, uma cor, um cheiro, um toque e um chamamento. Um livro tem consigo a vida própria da leitura que nos proporciona, mas é ainda um encontro que integra e envolve a escrita e a mensagem do autor. E desse modo encontramos quem há muito deixou este mundo, mas continua bem vivo. João Paulo Cotrim amava os livros e cuidava especialmente da sua feitura e da sua apresentação. Com a “Abysmo” estávamos diante de um verdadeiro símbolo que invocava o falso arcaísmo de um moderníssimo ípsilon, que significava movimento, surpresa e desassossego. E lembrava Teixeira de Pascoaes: “Na palavra lagryma (…) a forma do y é lacrimal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituindo-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério… Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal”. Também Sophia escrevia dança com um s, como dansa, uma vez que só assim se entenderia o movimento como essência da arte. Um livro é um conjunto, em que tudo se complementa – a escrita, a apresentação, a ilustração, a mancha tipográfica, a capa, a consistência, a encadernação, a cosedura e o conteúdo mágico da escrita, que funciona como verdadeiro tesouro… Criador da Bedeteca tornou o que, com especial humor, designou por vezes como Quadricologia, um dos modos de fazer cultura e de amar os livros e a leitura. E a Banda Desenhada ou as Histórias aos Quadradinhos constituíam uma fonte inesgotável de imaginação. Não por acaso, em 2020, fundou, no auge do Covid-19, no âmbito da sua editora, “Torpor. Passos de voluptuosa dança na travagem brusca”, uma revista digital gratuita que procurava exprimir o efeito da pandemia e do confinamento “tanto nas artes como na vida”. Foi uma iniciativa não planeada que “resultou de sucessivos diletantes passeios pelas redes”, nas quais descobriu um mundo que manifestava a força da criação artística… Era o único modo de entender o estranho tempo que atravessávamos.


LIGAR A PALAVRA E A IMAGEM
Por outro lado, a Banda Desenhada constituía uma forma de ligar a palavra e a imagem, como um movimento continuado, pleno de intensidade, de diversidade e incerteza. Desde “Les Amours de monsieur Vieux Bois” de Rodolphe Töpffer (1827), de “Max und Moritz” de Wilhelm Busch (1865) ou do nosso Rafael Bordalo Pinheiro com “A Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa” (1870) podemos falar de uma 9ª Arte (a seguir à fotografia e antes dos jogos digitais), enquanto “arte sequencial” (Will Eisner) ou como “literatura desenhada” (Hugo Pratt). E a história moderna desta arte é inesgotável - “Yellow Kid” de Richard Felton Outcaut (1896), “Katzenjammer Kids” (“Os Sobrinhos do Capitão”) de Rudolph Dirks (1897), “Little Nemo in Slumberland” de Winsor McCay (1905), “Bécassine” de Rivière e Pinchon (1905), “Krazy Kat” de George Herriman (1913), e “Quim e Manecas” de Stuart Carvalhais (1915) são nomes e autores familiares, que representam o início da evolução de uma arte que ganhou foros de importância maior, deixando de ser marginal ou tolerada. A pouco e pouco, passámos a contar com uma nova expressão, que liga a narrativa e a ilustração, numa lógica de incessante movimento. Lembrando-nos do pioneirismo do americano “Yellow Kid”, deparamo-nos com o nosso Manecas de Stuart a sofrer nítida influência gráfica do pequeno herói de Richard Outcaut – até no pioneirismo do uso dos balões que apresentam as falas e os diálogos. Alain Saint-Ogan criaria em 1925 (quatro anos antes de Tintin) Zig e Puce, usando os balões como modo especial de comunicação, que se tornaria típico dos quadradinhos. E daqui seguimos até aos dias de hoje, à escola da linha clara, ao encontro com a arte pop e a tudo o mais. Afinal, as ideias da Bedeteca ou do Salão de Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada e a mostra Ilustração Portuguesa pressupunham a salvaguarda de um espírito sempre capaz de regressar à infância, não como nostalgia, mas como capacidade de nos mantermos despertos e curiosos relativamente a tudo o que nos cerca, contra a tentação da indiferença ou do ceticismo. E se havia esse espírito de permanência de uma jovem memória sempre renovada, também havia o lado cidadão da Quinzena Jean Moulin, a recordar a passagem pela capital do resistente francês, além da capacidade criadora do guionista de filmes de animação, de novelas gráficas, de ensaios, de poesia e de histórias para crianças.


MAIS DO QUE DOS 7 AOS 77…
Encontrei a última vez João Paulo Cotrim na Gulbenkian, na exposição de Hergé. Nada faria prever o trágico desenlace. Planeámos a sua participação no ciclo de debates que estava previsto e havia nele o genuíno entusiasmo de quem sabia que a adesão do público de todas as idades (mais do que dos 7 aos 77) correspondia, a um tempo, à demonstração das virtualidades da leitura, como procura e encontro, e da importância que as humanidades exigem ao diálogo entre os vários saberes e artes, entre conhecimento e compreensão. Mais do que entretenimento, tratava-se de ligar o prazer e a reflexão. E lembro o que João Paulo escreveu sobre o livro de António de Castro Caeiro “S. Paulo – Apocalipse e Conversão” (Aletheia): “Saulo, o estudioso sério, homem de leis e de minúcias, passou a ser o portador da palavra, de uma Palavra que não é a sua, de um projeto de loucura e escândalo, que desobedece às leis. Paulo é a crise, como nós hoje somos e doravante seremos a crise. Ou não vivêssemos o apocalipse, agora. Paulo interessa mais ainda por ser alguém que vive sob o signo do tormento. E pouco mais saberemos aqui de Paulo ou Saulo, do ponto de vista biográfico. O terreno que pisamos é o da palavra” (in “7 Margens”, 26.12.2021). Esse também era o terreno que João Paulo pisava, no sentido mais rico e plural da questão. O amor aos livros era o amor da palavra e do encontro entre as pessoas ou da procura da diferença e do Outro. Numa sociedade em que a imagem é cada vez mais importante, compreende-se que a narrativa e a representação se associem. Inconformismo e sentido crítico – eis o que a cultura suscita e exige. “Somos postos a ser pelo olhar do outro neste mundo” – eis o que encontrámos sempre nessa paixão pela literatura e pela imagem, pela criatividade e pela imaginação. “Curiosamente são as palavras o pano de fundo, o cenário maior desta busca de sentido, este trabalho de compreender não as palavras, que de um certo modo nos levariam ao lugar onde estão escondidos os seus múltiplos e prementes sentidos, o coração, mas porque elas próprias se revelam a superfície do mundo, como a pele é a superfície dos nossos corpos”.   


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS À PRINCESA DE AGORA E SEMPRE

 

  Princesa ainda de mim:


   Dia chuvoso, ventoso, cinzento e triste... Mas aproveitei umas horas poucas de sol radiante de luz e generoso de calor dado, para abrir a janela do meu gabinete e quedar-me na contemplação amorosa da "nossa" cerejeira do Japão. Caíram-lhe as últimas folhas do ano, mas não a ouvi queixar-se de frio nem de humidade, antes traduz em silêncio a espera paciente de um novo ciclo da vida, essa virtude ontológica e telúrica que é parte essencial da natureza em que habita.


   Como sabes, vai para vinte anos que a plantei e vi nascer em Portugal, quando a trouxemos do seu berço no sol nascente até esta terra onde o mesmo sol vai dormir no mar, neste mar a que sempre vamos referindo a saudade e o mistério de sermos.


   Esta cerejeira não dá frutos, apenas flores efémeras como rosas no regaço de Santa Isabel... E não procura o mar, antes se liga, humilde e forte, à terra mãe que a alimenta e prende. Em jeito de gratidão ao solo que fielmente a sustenta, e ao céu que lhe sacia a sede e lhe dá luz, faz por se substituir ao sol, na grisalha dos dias outonais, acendendo o fulgor das suas folhas de ouro e chama, para colorir a paisagem com promessas de vida futura e garantia de criador incêndio das almas.


   Assim, em simultânea e sucessiva naturalidade, se unem as forças e fraquezas, visíveis e invisíveis, de todos os elementos e do seu conjunto, com todas as suas contradições, em tempos próprios a cada qual, ainda que desfasados... Misteriosa procura de harmonias, secreto repúdio de agressivos conflitos! Pelo menos assim pensossinto, agora já cá fora, gozando o calor de um sol inesperado, sentado mesmo à beirinha da minha cerejeira. E ocorre-me um passo do Totalité et infini de Emmanuel Levinas:


   A face do ser que se mostra na guerra fixa-se no conceito de totalidade que domina a filosofia ocidental. Aí, os indivíduos reduzem-se a portadores de forças que à sua revelia os comandam. Os indivíduos vão buscar a essa totalidade o seu sentido (invisível fora dessa totalidade). A unicidade de cada presente sacrifica-se incessantemente a um porvir chamado a lhe revelar um sentido objetivo. Porque só o sentido último conta, só o último ato mudará os seres em si mesmos. Eles são aquilo que vierem a aparecer nas formas, já plásticas, da epopeia...


   Mas, antes, já Levinas explicava que, como a guerra moderna, qualquer guerra usa armas que se viram contra aqueles que as têm. Instaura assim uma ordem contra a qual ninguém pode ganhar distância. Portanto, doravante, nada será exterior. A guerra não manifesta nem a exterioridade, nem o outro enquanto outro: apenas destrói a identidade do Mesmo.


   
Não preciso de explicar seja a quem for - e muito menos a ti, Princesa que já vives fora de todas as guerras - esta parábola do eremita que vai aprendendo com a vida das árvores aquilo tudo que a morte das guerras nunca conseguiu ensinar-lhe. Cerro os olhos e recito mentalmente uns trechos do Cântico do Irmão Sol de São Francisco de Assis:


          Louvado sejas (Laudato si), meu Senhor, com tudo o que criaste,
          especialmente o senhor irmão Sol
          que dá o dia e por quem me alumias...


          [...] Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento
          e pelo Ar, e pelo cinzento...


          Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água...


          Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo...


          Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa mãe Terra,
          que nos sustenta e nos governa
          e nos dá diversos frutos com coloridas flores e erva...


          Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti...


          Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa morte corporal...


   
Estes são pedaços de versos em bom tempo traduzidos por Pedro Tamen, e recentemente republicados pela Paulinas, sob orientação de Maria Isabel Tamen. Bem hajam, sejam quais tiverem sido os seus caminhos!


   
Há coisas que nos ficam dos nossos verdes anos e nos enchem a alma, com música de Carlos Paredes. E pelo gosto dum reencontro com a mocidade que nos resta, e um velho Papa Francisco vai reacendendo. Como esta lembrança de ti, Princesa, num coro de esperança em que ainda escutamos a voz límpida do nosso frei Bento...

 

Camilo Maria               

Camilo Martins de Oliveira