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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PADRE LUÍS ARCHER, S.J. (1926-2011)

Por Guilherme d’Oliveira Martins

 

O diálogo entre a ciência e a fé é apaixonante. É verdade que muitas vezes se torna difícil e pleno de perplexidades, mas revela-se fecundo, sobretudo quando estamos perante espíritos livres e abertos, disponíveis para usar a razão como chave para aprofundar as descobertas do espírito. Lembramo-nos de Pascal, personalidade fascinante, para quem fé e ciência eram naturalmente complementares, salvaguardadas as diferenças de domínio de ação. E poderemos dar o exemplo de Leibniz, para quem a criação é sempre complexa, envolvendo Deus, a natureza e a humanidade. E hoje, quando o Padre Joaquim Carreira das Neves lê Stephen Hawking, fá-lo com rigor e serenidade, sem pôr em causa os conhecimentos do cientista e o seu caminho fundamental, mas interrogando os limites. Quando soube da notícia da morte do Padre Luís Archer estava a ler o último livro de José Tolentino Mendonça, e senti que havia algo nesse texto que tinha a ver com o que aprendi com o jesuíta, que conheci na direção da «Brotéria», e que é um exemplo de compreensão do mundo moderno – como o foi também o Padre João Resina Rodrigues que também há pouco nos deixou. Cito o que li, a dado passo, em «Pai Nosso que estais na Terra» (Paulinas, 2011): «O poeta Rainer Maria Rilke ajuda-nos na procura de um sentido. Diz ele: “As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”. A biografia da nossa oração tem um desenho assim. Mantém o seu quê de inexprimível. Mesmo se explicitada, continua um filamento secreto, uma história em aberto. Quem reza percebe melhor do que ninguém as dúvidas, as dificuldades, os hiatos que podem rodear o caminho da oração pois esta é uma aprendizagem nunca terminada» (pp. 19-20). Afinal, a ligação entre a ciência e a fé permite a procura do inexprimível e a nunca terminada aprendizagem. Foi assim a vida cheia de Luís Archer.

 

Nasceu no Porto em 1926, formou-se em Ciências Biológicas na Faculdade de Ciências da Universidade da sua cidade natal. Também sentiu uma vocação musical e estudou piano, tendo depois entrado na Companhia de Jesus, na qual foi ordenado presbítero na Alemanha, no final dos anos cinquenta. Sempre atento ao que o cercava, tornou-se um estudioso compulsivo, com um rara capacidade de compreensão dos limites dos diferentes saberes humanos: Bioquímica e Genética, nos Estados Unidos, em Georgetown, Genética Molecular, mas também Filosofia e Teologia. Lançou a investigação em Genética Molecular na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e dirigiu o Laboratório da sua especialidade no Instituto Gulbenkian de Ciência (1971-1989). São dele estas palavras: «Formei-me em Biologia e depois entrei para a Companhia de Jesus e fui ordenado padre. Em seguida fui trabalhar para o mundo da ciência, porque os jesuítas acharam que era importante ter gente nessa área. Mas não senti incompatibilidade entre os objetivos da ciência e da fé. Isso, não. A minha formação em Filosofia há muito que tinha destruído esses mitos; já tinha entendido que a Evolução foi o caminho que Deus seguiu para dar origem a este ser estranho que é o homem. O que não retira em nada o sagrado da vida» (entrevista a Isabel Stilwell, DN, Novembro de 2006). Julgo que aqui está dito o essencial. E todos nos lembramos dos ensinamentos de Teilhard de Chardin, que seguiu os caminhos da ciência, para fazer luz sobre o conhecimento e a compreensão de Deus, da natureza e da humanidade. E, num tempo em que a bioética assume uma importância indiscutível, exigindo um diálogo fecundo entre pessoas e saberes, o Padre Luís Archer foi uma voz respeitada pela comunidade científica, em especial quando presidiu ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1996-2001). Com ele o diálogo da ciência com a fé tornava-se natural e fácil… De facto, as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se pretende fazer crer…

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