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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EU SÓ PENSO NO SOL

 

Alberto Caeiro

 

Ontem o pregador de verdades dele

Falou outra vez comigo.

Falou do sofrimento das classes que trabalham

(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).

Falou da injustiça de uns terem dinheiro,

E de outros terem fome, que não sei se é fome de

     comer,

Ou se é fome da sobremesa alheia.

Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade

      dos outros!

Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros

      é deles.

E não se cura de fora,

Porque sofrer não é ter falta de tinta

Ou o caixote não ter aros de ferro!

 

Haver injustiça é como haver morte.

Eu nunca daria um passo para alterar

Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.

Mil passos que desse para isso

Eram só mil passos.

Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser

     redonda,

E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam

      ficar iguais.

Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?

 

Mais tarde

 

E me bate na cara e me ofusca, e eu só penso no sol.

 


Teresa Vieira

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