Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Marguerite Yourcenar : a morte conduz a carruagem, mas a vida também.

 

Em 1980 Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras. Contudo, não vos venho falar das Mémoires d´Hadrien ou da L'Œuvre au Noir e o seu herói Zénon, Sous bénéfice d'inventaire ou sobre os seus poemas, ou mesmo sobre a excepção que constituía Marguerite quando, aos 8 anos de idade lia Jean Racine, e aos 12 anos já lhe ensinava, seu pai, a língua grega.

 

Trago aqui hoje Marguerite, mulher antiquíssima, e o seu conjunto de três novelas que compõem o livro Como A Agua Que Corre.

 

E nada mais existe senão a vida que passa por nós, nos transforma e nos esclarece, assim nestas palavras de Helena Vaz da Silva a este livro, neste dar conta da vida por dentro.

 

De facto, ao reler Como A Agua Que Corre pergunto-me, e levo-vos a pergunta: quantas vezes já chamámos o feiticeiro das descobertas que há nos nossos olhos e logo as lágrimas exorcizaram doenças de alma da ilha que todos somos? Natanael, o personagem de Um Homem Obscuro, uma das novelas deste livro, encontrava clareiras de esclarecimentos vitais espetadas em arame farpado, diria, e depois qual o preço da curiosidade que guarda os segredos da vida?, que guarda os filhos que partem quando lhes dá na real gana?

 

Anna Soror , personagem de uma das outras novelas do livro antevia e via a vida à luz de candeias, numa interpretação desencorajada, como se as intempéries fossem realidades cristalizadas e repetitivas, às quais não há que fazer face, antes poisar sempre os olhos fatigados no irmão amado, breve tempo e único amor que quebra grades.

 

Mais tarde a novela Uma Bela Manhã prossegue o percurso de Natanael que, de alma límpida, não vive apenas a sua vida, mas toda a vida, quer a da mortalha quando faz de toldo sob o sol, quer a de rei ou mendigo, de bobo do príncipe ou do As you Like it, e eis que Marguerite já só acresce, o quanto morte e vida conduzem a carruagem, e tanto é o bastante à essência do que nos esclarece.

 

Teresa Vieira