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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EÇA DE QUEIROZ EM HAVANA

 

Há meia dúzia de anos, num final de Abril como este, participei numa visita cultural a Havana, organizada pela então embaixatriz e conselheira cultural da embaixada de Cuba em Lisboa. Quando fomos tomar uma bebida no café La Columnata Egipciana, na calle Mercaderes, em pleno centro histórico da cidade, café onde Eça costumava abancar  e que é ali recordado com um grande retrato seu em uma das paredes do estabelecimento, li aos meus companheiros de viagem o texto seguinte:

José Maria d’Eça de Queiroz foi nomeado cônsul de lª classe de Portugal nas Antilhas Espanholas em 16 de Março de 1872. Parte de Lisboa no dia 9 de Novembro e, chegado a Havana, aqui toma posse do seu cargo no dia 20 de Dezembro. Tinha então 27 anos. Quinze meses depois, em 20 de Março de 1874, é transferido para o consulado em Newcastle, na Inglaterra. No meio do exercício das suas funções em Havana, em 1873, pediu licença para se ausentar, tendo passado cerca de cinco meses e meio nos Estados Unidos e no Canadá. Porquê?

Homem do norte de Portugal, pouco habituado ao calor, desde jovem com uma saúde débil, que manteve até à sua morte com 55 anos, o clima local não lhe era propício. Já em 1869, ao regressar a Portugal de uma viagem de dois meses pelo Egipto e pela Palestina, voltara com a saúde muito abalada. Alguns dos melhores gastroenterologistas portugueses do nosso tempo, baseados nas referências escritas de Eça, além de familiares e amigos, admitem que o seu mal crónica fosse uma amebíase, então uma enfermidade endémica no Egipto, na Palestina e também em Cuba.

Tal como aconteceria em Inglaterra (Newcastle e depois Bristol) e em França (Paris, onde faleceu em 1900), também em Cuba Eça de Queiroz pouco ou nada se integrou na sociedade local. Era pessoa muito reservada e, então ainda solteiro, vivia num hotel e as suas conversas limitavam-se aos hóspedes, em geral americanos, que por lá apareciam. De resto, as suas ocupações profissionais pouca folga lhe davam. Talvez por isso, no seu período cubano, além de algumas, poucas, cartas a amigos, limitou-se a escrever o conto “Singularidades de uma rapariga loira”, oferecido como brinde aos assinantes do Diário de Notícias, de Lisboa.

Porquê uma actividade consular tão intensa em Havana? Porque então chegavam a Cuba, em sucessivos desembarques, milhares de chineses, recrutados por engajadores e embarcados em Macau, território administrado por Portugal, paras trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar, numa situação muito próxima da escravatura  e em condições infra-humanas. Vinham por contratos de oito anos mas, uma vez estes terminados, não tinham condições para regressar à China. Era, além de escravatura, uma escravatura sem fim à vista.

Através de relatórios enviados a Lisboa, Eça ia dando conta desta situação e das diligências que praticava junto das autoridades coloniais espanholas no sentido de aliviar as péssimas condições de vida impostas aos “coolies”. Algo terá conseguido porque, mais tarde, os chineses deram-lhe de presente uma bengala com castão de oiro porque, como ele próprio escreveu, lhes pôde garantir por algum tempo “mais pão e menos chicote”.

 

Certamente reflexo dos seus relatórios para Lisboa, as autoridades portuguesas viriam a, justamente quando Eça deixava Cuba, decretar a proibição de Macau ser o ponto de partida dos emigrantes chineses para as Antilhas, situação que tivera início em 1851 após a abolição da escravatura em 1845 e que era devida à falta de braços na então colónia espanhola.

Eça de Queiroz foi também testemunha da guerra de independência das Antilhas contra o domínio espanhol que decorreu entre 1868 e 1878, germe do que viria a ser mais tarde o conflito armado entre os Estados Unidos e Espanha, que levou à independência das Antilhas em 1898. Nas suas observações, porventura superficiais, Eça considerava que aquela insurreição não tinha  em Cuba importância local, respaldo popular, nem força bastante; não obstante, julgava tratar-se de um movimento imparável, porque a sua força estava em Madrid, nos cubanos lá residentes e nos abolicionistas espanhóis; estava em Nova Iorque, na emigração cubana; estava na opinião pública dos Estados Unidos e estava na influência de certos jornais norte-americanos que iam propalando a ideia de uma intervenção do seu país. Mas, curiosamente, observava Eça, estava também nos cubanos ricos que, embora aparentemente dedicados a  Espanha, apoiavam secretamente os revoltosos.

Apesar da sua curta permanência em Havana, a influência de Eça de Queiroz nos escritores cubanos do início do século XX foi grande. Ángel Lázaro, na revista Carteles, de Havana, escreveu que “Eça de Queiroz foi um escritor que influiu muito beneficamente na literatura e no jornalismo cubanos da nossa época”. Ídolo da geração que em 1917 e 1918 trabalhava na revista Cuba Contemporánea, Eça era muito lido em Cuba, a tal ponto que nenhum prosador  estrangeiro tenha sido tão admirado e seguido pelos seus homens de letras, fascinados pela sua ironia e pala sua arte de escrever. Enfim, Eça era aqui, em Cuba, tão familiar que a numerosa colónia galega de Havana lhe chamava “o nosso Eça”. E, nos dias de hoje, para os cubanos cultos, Eça de Queiroz continua a ser uma referência e um exemplo como grande mestre do realismo que foi.

 

Mário Quartin Graça 

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