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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TENHO RECEBIDO CARTAS, TELEFONEMAS; MENSAGENS.

 

Tenho recebido  -  com frequência bem maior do que a minha capacidade de resposta  -  cartas, telefonemas, mensagens, em simpatia ou empatia com o desenrolar da relação entre o Marquês de Sarolea e a sua Princesa... Algumas até me lembram o Conan Doyle, que tantas recebeu a pedir-lhe que ressuscitasse o Sherlock. Mas, na verdade, eu nada posso fazer para dar outro rumo a duas vidas que encontraram, que se aconteceram  -  uma à outra, em vicissitudes várias  -  e já estão do outro lado: Camilo Maria morreu em 1979, a Princesa dele em 1994. Eu cá estou, depositário de uma correspondência vasta e por muitos anos secreta, de fotografias e outras recordações deixadas ao meu arbítrio, para publicação (ou não). Para além de poder ordená-las por qualquer critério, mesmo sem respeitar a cronologia, ou amputá-las sem lhes retirar o sentido,  não tenho sobre elas qualquer direito. Contrariamente ao que pensam alguns leitores  -  que se acham mais perspicazes  -  nas traduções seletivas que vou fazendo, não posso mudar destinos nem transpor fronteiras de discrição. Ocorre-me, pelo atalho destas observações, uma carta de Camilo Maria à sua inesquecível Princesa: "Assisti hoje, aqui na UNESCO, a uma conferência do Emmanuel Mounier, intitulada "Pour un temps d´Apocalipse". A certo passo, disse: "Se o homem foi feito para se tornar num deus, natural ou sobrenaturalmente, não se pode aceitar que a sageza seja para ele uma conformidade prudente e monótona a uma natureza definida de uma vez para sempre... O homem assim posto no seu lugar é essencialmente "artifex", criador de formas, feitor de artifício... Os cavaleiros andantes da natureza têm razão ao lembrar que a condição humana não se estica em todas as direções, e que é necessário tempo para que a humanidade se assimile as suas próprias deformações. Mas o descrédito sistemático que lançam sobre o artificial parte de uma visão radicalmente falseada do que é mesmo próprio do homem. Podemos dizer, sem forçar muito as palavras, que a natureza do homem é o artifício". Este conceito de que "la nature de l´homme c´est l´artifice" insere-se na procura de um humanismo cristão que dê sentido à "civilização do trabalho". Pode perspectivar-se pela filosofia da natureza e a antropologia de Aristóteles que, por via de Averroes, entrou no pensamento da cristandade com S.Tomás de Aquino. Ou, ainda, pela história que vai revelando o homem na natureza e na sociedade. Na natureza, da qual se vai escapando sem nunca lhe fugir; na sociedade, na qual se vai refugiando, porque nela, primeiro, com ela se defende da natureza e vai,depois, procurando a harmonia possível. O "homo artifex" é,afinal,a síntese do "homo faber" com o "homo sapiens". Ou seja: é a expressão natural da criatura que em si reúne corpo e espírito,evolução e consciência dela. Mas o homem é, ontologicamente, um ser em relação: com a natureza e com a transcendência, mesmo quando esta surge indefinida; com os outros homens, como é sempre evidente. O "homo oeconomicus" tece-se nessa rede complexa de relações sociais, que historicamente vão evoluindo. A afirmação de Karl Marx, retomada no prefácio a "Das Kapital", de que "o desenvolvimento da formação económica da sociedade é assimilável à marcha da natureza e da sua história" é verificável. E, como observará o Padre Chenu, é na tragédia contemporânea do homem escravo do seu trabalho que Marx teve a revelação do "homo oeconomicus" ...  homem que se aliena no seu trabalho. Todavia, o trabalho, ainda que sendo natureza sua, não é a essência do homem, pelo que, contrariamente à profecia de Marx, não será a sua apropriação pelo proletariado a pôr um ponto final na história. Como diz Pio XII: "Acima da distinção entre patrões e empregados, que, cada vez mais, ameaça tornar-se numa separação inexorável, está o trabalho, ele mesmo, capaz, em virtude da sua própria natureza, de verdadeira e intimamente unir os homens..." É necessário valorizar o trabalho, porque valoriza as pessoas. Pelo trabalho transforma o homem a natureza e, nesta, o natural do homem é ser artífice. Na sua etimologia latina encontramos um substantivo (feminino!) : "ars, artis" que tando significa arte como ofício, indústria, artifício, expediente, obra, produto, talento... Transformação, afinal, não será? Relembrando São Máximo: "O homem é uma oficina viva, em permanente continuidade de acção em todos os seres". União substancial de corpo e alma, o ser humano, para os cristãos, funciona na natureza como a roda da dialéctica desta com a graça de Deus que a criou e transforma até à plenitude dos tempos. Por isso, no dever e na práctica e no fruto do trabalho, a todos deve ser reconhecida a mesma dignidade. Releio o que acima escrevi e percebo que, por vezes, as visitas que te faço – mesmo as epistolares – possam ser pesadotas e parecer pretensiosas. Antes serão parte de mim. Se eu fosse o inspetor Maigret  -  e casado contigo, não com Madame Maigret  -  chegaria a casa, calçaria as pantufas e, servindo-me de um "apéro", acenderia o cachimbo... Ficaria a ruminar os meus enigmas, ali, na casa de jantar... Falar-te-ia de quê? Não consigo sequer imaginar, estarias atarefada na cozinha, se te ocorresse uma lembrança, um recado, virias, pé ante pé, cúmplice e mansa, pousar silenciosamente um papel rabiscado no tampo da mesa. Apesar de tudo, mesmo quando me tratas de "convencido", sempre sou mais comunicativo. E nunca escondo a misteriosa ternura em que te abrigo... Mas, muito embora procure para ti o modo e as palavras que te digam esta ternura toda com que me enches a alma, é sem artifício algum que te amo muito e tanto, tanto, te quero bem. Mais, bem mais, do que sou capaz. Muitas vezes se me afigurou fácil a solução de me afastar de ti, pelo que de mim não queres. Não posso, não consigo, é mais natural em mim este encanto amoroso, que me faz sofrer, do que o artifício da fuga que talvez me libertasse. Penso que me mantém mentalmente saudável este jeito que tenho de lidar com o paradoxo: aceitar-te, aceitar-me, e à nossa circunstância... Ofereceu-me o Alberto um livro de poesia em português: "Desaparecido" de Carlos Queirós. No "Apelo à Poesia" ele diz algo que eu te diria, a ti, quando interrompes uma das tuas ausências ou silêncios e sabes que vens ao meu coração entrar pela porta aberta da ternura: "É verdade que vens, como se fosses / uma parte de mim que vive longe, / presa ao meu coração / por um elo invisível; / mas não regresses mais sem que eu te chame, / - não sejas como a saudade!". Quase, quase, vinte anos depois, Sarolea escrevia, de Milão, em Julho, à sua impossível Princesa: "Estive esta noite no Teatro alla Scala. Pasmando para um "Rigoletto", dirigido pelo Kubelik, cantado,"ladies first", pela Renata Scotto e a Fiorenza Cossotto, e admiravelmente pelo Fischer-Dieskau e o Carlo Bergonzi. Verdi é "vero Verdi", ópera é obra! Não me larga o ouvido aquele dueto do Rigoletto com a Gilda: " Ah! solo per me l´infamia a te chiedeva, o Dio... Pudesse ela subir tanto quanto eu caí!... Piangi, fanciulla piangi, chora menina, chora, deixa o teu pranto escorrer pelo meu coração!.. " Mas essa carta...deixo-a para outro dia!

     
Camilo Martins de Oliveira

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