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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Cornelius Castoriadis: que laço tem esse mundo do consumo contínuo?

 

 

Quando li A Ascensão Da Insignificância de Castoriadis compreendi melhor o quanto estar liberto da tirania de ser o próprio é admitir a manta de retalhos do individuo de todos os dias.

 

De origem grega e para sempre citado no conteúdo da defesa do conceito de autonomia política, Castoriadis, economista e filósofo deixa clara a sua marca de pensador na filosofia do sec. XX.

 

A capacidade de um indivíduo racional de tomar as suas decisões respondendo por elas, ou a qualidade de um território de “estabelecer” com liberdade as suas próprias leis, a autonomia local no respeito pelos interesses das populações, um princípio de subsidiariedade como herdeiro legítimo de uma autonomia em maturidade, são significações que muitas respostas fornecem a quem se questiona sobre o mundo do casino e das aparências.

 

Contudo, pouco alinhada que sou na crença de quem se questiona, ou A Democracia Como Processo e Como Regime não fosse peça de leitura, tenho para mim que o conformismo é domínio de resultado.

 

Recorda Castoriadis

 

quando era criança, festejavam-se os aniversários oferecendo prendas, e cada amigo acorria trazendo a sua prenda para a criança festejada. Hoje isso tornou-se inconcebível. A criança que festeja o seu aniversário  - quer dizer, os seus pais – dará também uma prenda ainda que de menor importância a sua irmã, irmão ou amigo mais intimo, porque é intolerável que as outras crianças possam aceitar a fantástica frustração que consiste em só receber prendas no dia do seu aniversário.

 

De facto, na minha opinião, o que daqui advém é um novo estatuto que é atribuído à prenda e ao prazer de a realçar, colocando a criança a aceitar ser afogada numa imensidão de prendas e através delas, sem entender a insignificância das mesmas, abandoná-las para ver televisão.

 

Assim se esconde a morte, os lutos, as nevroses, tudo substituído pela distracção oca de um olhar que vê televisão e não interpreta nunca sentires, antes transforma a múltiplos quadrados  os egoísmos que passam a ser o núcleo das identidades dos dias de hoje.

 

A morte é o culto dos antepassados quanto muito, mas nunca vista sequer pela luz da Odisseia pois que livros são significações incapazes de penetrar nas ascensões da insignificância destas vidas cuja eventual ética não possui nunca uma efectividade social e a filosofia cria-se a bel-prazer.

 

Assim a insignificância ocupou espaço numa ascensão arquitectural desprovida da arte do viver, e julgam-se estas gentes ao direito de queixar-se de qualquer pagode tailandês bem mais concreto do que as suas sensibilidades.

 

A história tornou-se, na melhor das hipóteses, uma paisagem turística a visitar num chuvoso fim-de-semana e ainda assim, seco de perguntas, mas chorudo para a justificação das queixas inúmeras que as insignificâncias só sabem garantir ter como títulos.

 

Enfim vive-se na corrida de tudo o que não possui o mínimo sentido. Zapping televisivo, supermercados, supostas artes, visitas familiares, tudo num cesto de créditos.

 

Que força se poderá opor a este bazar informe de sentimentos?

 

Que força, sem recurso à relação com a tradição revalidará a ideia de responsabilidade?

 

Ser mais isto do que aquilo na prisão da sociedade que se escolheu aderir, não faz crer que haja qualquer interesse sequer pelos pressupostos antropológicos da política.

 

Ser futuro é ser projecto alcançado. É ser essência a propósito dos dias. É conspiração universal contra a mentira. É sobretudo o acontecimento fundador.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Julho 2013

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