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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALMADA PÕE “O PUBLICO EM CENA”

 

Trata-se aqui de uma das menos conhecidas e estudadas peças de Almada Negreiros, escrita em Madrid em 1931 e durante anos dada como perdida, exceto numa versão publicada na revista inglesa “Adam” numa inesperada tradução em inglês de Charles David Ley e ao que parece publicada por engano: o que se propunha era a publicação de uma peça do próprio Ley… 

 

Em qualquer caso, o que temos diante de nós é um curioso ato de certa ressonância pirandelliana, através dos diálogos da Mulher e de um grupo de Atores com o personagem Público. É uma cena de teatro no teatro: “Ao subir o pano, estão dispersos pelo palco vários homens e mulheres. Todos falam desordenadamente (e) os que repararam que o pano vai subir procuram os bastidores para fugirem da cena, ou vão para determinado local, como se lho tivessem previamente indicado. Uma mulher distingue-se de todos pela impetuosidade com que procura disfarçar aquela inesperada subida do pano”…, diz a nota de cena inicial.

 

E a peça inicia-se com um longo monólogo da Mulher, a qual explica ao Público que “não é novidade para ninguém que o teatro está em decadência. O Público abandona cada vez mais o teatro e prefere os outros espetáculos”.  Mas é interpelada pelo próprio Público que entra em cena e dialogo com a Mulher, com a Diretora, com os Atores e Atrizes, numa longa conversa de reciproca justificação, numa séria reflexão sobre o teatro, a sua essência e a sua crise.

 

É que “hoje o Público subirá aqui á cena e vós, senhores autores dramáticos, ocupareis aí os vários lugares do público”, pois o teatro é “a arte de pôr a todos em comunicação nos mesmos entendimentos”.

 

E mais; trata-se de uma curiosa definição da prioridade do texto, a partir do qual se desenvolverá o espetáculo. É o Público quem o diz: “Sem autores, não há arte. Com bons edifícios, boas companhias teatrais, mas sem autores não há Arte, só são possíveis exibições “. Mas atenção: o Público reconhece e afirma que está nas mãos dos autores,  (…)   eles é que sabem dizer o que eu quero”. 

 

E curiosamente o Público fala também das conotações financeiras da Arte em geral:  “o filão de oiro da Arte, da Arte que vale oiro, e que todo o iro do mundo não será bastante para a servir, está em cima da mesa de trabalho de cada autor” pois “ a imaginação dos autores é o único segredo do mundo que faz nascer , correr e sem perigo de secar a fonte de oiro!”

 

É pois uma curiosa reflexão acerca dos problemas do teatro e, mais do que isso, da arte em geral, na sua componente de relacionamento com o público.

 

DUARTE IVO CRUZ   

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