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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TRÊS SONETOS DE PETRARCA.

 

Minha Princesa de mim:

 

Cá estou no meu antro, neste gabinete cheio de livros e de outras memórias. E de música, dessa que vou ouvindo e, repentinamente, ponho a tocar de novo, para escutar. E dessoutra ainda, que dança na minha cabeça e são palavras que se achegam e afastam e se reunem e fazem roda e vão girando... Cheguei bem, ontem pela noite, mas cedinho ainda. Acordei com a madrugada e deixei-me rezar e pensar. Assim fiquei até há pouco, sinto entrar-me pelas janelas a clareza tímida do dia que principia. Fez-me bem o nosso tempo ontem partilhado. Senti então, profundamente, a perceção de uma evidência: tenho aprendido a viver com um certo sofrimento, na medida em que me vou abrindo ao teu, procurando compreendê-lo. Isto é: ao sentir a minha dor, é na tua que penso. Talvez não me alivie, mas transforma-me o sofrimento... Na grande saudade de ti, sempre me sopra Camões: "Transforma-se o amador na cousa amada... / ... Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar?" E por via do "L´amante nel´amato si transforma"...  chego a Petrarca: "Benedetto sia´l giorno,e l´mese,et l´anno / Et la stagione,e ´l tempo,et l´ora,e´l punto, / E´l bel paese,e´loco ov´io fui giunto / Da due begli occhi che legato m´ànno; / Et benedetto il primo dolce affano...". Bendito seja o dia, o mês e o ano, / a estação e o tempo, a hora e o momento, / e o lindo país onde fui atento / por dois tão lindos olhos feito insano; / E bendito primor, doce tormento / que senti quando ao Amor fui unido / e o arco e as setas por que fui ferido / no coração,em chaga e sofrimento. / Benditas as vozes muitas que,vejo,/ chamando por minha dona espalhei / e os suspiros, lágrimas, e o desejo; / Benditas sejam as cartas mandadas / em que, com a fama, o meu pensar lhe dei,/ pois com ela só foram partilhadas». Assim, ao sol nascente, me fazes traduzir Petrarca. Mais um soneto: "Pace non trovo, et non ò da far guerra..." Não tenho paz, nem sei fazer guerra; / e temo e espero; e ardo e logo gelo; / e vôo pelo céu e jazo em terra; / nada agarro,mas todo o mundo anelo. / Quem me prende não abre nem encerra, / nem me chama seu,nem desfaz o nó; / não me mata Amor,nem me descerra; / e não me quer vivo, nem morto e só. / Vejo sem olhos e sem língua grito; / e quero perecer e peço ajuda; / ódio p´ra mim, p´ra ela amor bendito. / Alimenta-me a dor,chorando, rio; / para mim,morte ou vida,nada muda: / por vós, Senhora, fiando me desfio»... Tomo algumas liberdades na tradução, esperando que a misericórdia incline Francesco Petrarca a não pedir a Dante Alighieri que me inclua no Inferno... E, antes que o sol suba e tudo inunde de luz, atrevo-me a mais uma incursão: "Cantai, or piango, et non men di dolcezza / Del pianger prendo che del canto presi...". «Cantei, ora choro, igual doçura /  me dá tanto chorar como cantar: / não é efeito, é causa o que procura / o meu sentido lá no alto a vaguear. / Assim, a mansidão como a dureza, / e os atos feros, humildes, corteses, / por igual suporto, e com leveza, / nem os desdéns me ferem por soezes. / Virem-se contra mim, de modo vil, / o Amor, Senhora, o mundo e a fortuna; / continuarei simplesmente feliz. / Viva eu, morra ou definhe, mais gentil / sina do que a minha não há nem uma: / do meu amargor, doce é a raiz». De origem florentina, Petrarca viveu alguns anos na corte pontifícia de Avignon, cidade onde conheceu a sua musa : Laura de Noves ou, simplesmente, "l´aura", a aura do poeta. É ela a inspiradora de muitos dos seus sonetos, reunidos nas duas partes das "Rerum vulgarium fragmenta" ( "Fragmentos de coisas vulgares", ou em língua vulgar, por oposição ao latim, erudito) que a tradição posteriormente consagrou sob o titulo de "Canzoniere: "In vita di Madonna Laura" e "In morte di Madonna Laura". Elucidativo. (Ocorre-me o primeiro verso de outro soneto: «Sento l´aura mia anticha,e i dolci colli..."). Em Avignon se familiarizou com os Colonna, grande família romana, de que muitos membros acompanharam o papa francês Clemente V, cansado dos distúrbios e insegurança de Roma, por obra de guelfos e gibelinos. Petrarca dedicou muitos daqueles sonetos ao patriarca Stefano Colonna e acompanhou, ao seu serviço, o Cardeal Giovanni Colonna, de quem se afastaria mais tarde, por simpatizar com a revolução romana de Cola di Rienzo, que derrotou a grande família junto à porta de San Lorenzo, em 1347. No ano seguinte, o Cardeal Giovanni morria, e o seu amigo Francesco Petrarca escrevia, em jeito de epitáfio, o soneto "Rotta è l´alta Colonna" (quebrou-se a alta Coluna). Muitos monumentos da Cidade Eterna se ligam a essa família que, hoje ainda, ali ocupa o seu estupendo palácio e semanalmente o abre para visita pública à sua inestimável colecção de arte. Ponho-me agora à escuta, numa gravação da Bayerische Staatsoper, dirigida pelo Wolfgang Sawallisch, da ópera "Rienzi",do Wagner. Traz ao meu convívio Colonnas e Orsinis, neste sábado já tão cheio de sol e tão longe do drama que termina com a lapidação de Rienzi (Cola di Rienzo) e a sua consumação pelas chamas que destroem o Capitólio, onde ficou na companhia de sua irmã Irene e de Adriano Colonna, que em segredo a ama e é filho do vencedor Stefano Colonna.” E com esta carta de Camilo Maria, começo este fim de semana com um belo passeio.

  
Camilo Martins de Oliveira

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