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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FERNANDO AMADO: O COMBATE PELA JUSTIÇA

Fernando Amado utilizava uma expressão curiosa para as suas peças curtas, de mensagem bem clara: chamou-lhes debucho teatral. Trata-se com efeito de atos breves, concentrados numa mensagem muito clara de etnicidade ou de crítica social, dentro da linha coerente e corajosa que marcou toda a sua vida, obra e intervenção pública e privada.

 

Em 1961, dirigiu, no ambiente fabril da empresa de João Osório de Castro, com quem viria a trabalhar na Casa da Comédia, um debucho teatral bem significativo dessas preocupações e dessa linha de pensamento e intervenção - “Sua Excelência já não Atende Ninguém”, peça simples, curta, mas extremamente rica de conteúdo.

 

Um “casal de campónios”, Marta e Lucas, espera na antecâmara de “Sua Excelência” a hipótese remota de serem recebidos, a fim de solicitar a libertação do filho, preso e a aguardar julgamento por um crime que, dizem os pais desesperados, não praticou. A espera eterniza-se na “antecâmara de um edifício público” onde todos lhes passam á frente.

 

O diálogo é pungente: “Marta - É preciso chegar até onde os que governam. / Lucas - Nunca agente os dois havemos de lá chegar”… A linguagem traduz a ingenuidade. E de tal forma que as expressões dos outros intervenientes marcam a diferença.

 

A certa altura surge “Sua Excelência e “O Homem do Anel”, que acaba de ser recebido e se desfaz em agradecimentos equívocos. Dá uma gorjeta ao Contínuo e retira-se “após redobrada vénia “..

 

O Continuo não tem ilusões. “Não sabem que há gente miúda e gente graúda, os que mandam e os que obedecem? Nunca ouviram falar em conselhos de administração, em monopólios e em banqueiros? (…) Manda quem pode. Os rios correm para o mar. Contra a força não há resistência”…

 

O Continuo manda embora a Marta e o Lucas, porque “Sua Excelência já não atende ninguém”, dizendo para voltarem na semana seguinte… E precisamente, a fala final, com a crítica extremamente direta, é o Continuo quem a profere:

 

“O porteiro e o chofer aguardam instruções. O telefone não pia. Os corredores estão desertos. Reina ordem perfeita. Sua Excelência já não atende ninguém”.

 

Ora bem: como este debucho teatral é coerente com a vida, obra e pensamento de Fenando Amado!...

 


Duarte Ivo Cruz 

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