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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

de 27 de Setembro a 3 de Outubro de 2010

Eduardo Lourenço escreveu «A Morte de Colombo – Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito» (Gradiva, 2005) a pensar das comemorações de 1992 relativas à chegada dos europeus à América, no entanto este conjunto de ensaios funciona hoje com maior pertinência do que há vinte anos, porque questiona o Ocidente como mito, num momento em que os Estados Unidos e a Europa estão confrontados com a necessidade de encontrar respostas diferentes perante a emergência de novas potências, dotadas de novas características e de preocupações antes não suspeitadas. A recente crise económica e financeira obrigou já o Ocidente a repensar-se, diante da impossibilidade de tornar a ilusão realidade. Os dois lados do Atlântico deixaram de poder pensar-se em termos de aliança e de confronto tradicionais. A ordem saída da Segunda Grande Guerra acabou. Resta-nos repensar o mito…

POLARIDADES DIFUSAS
No tempo em que as polaridades difusas, que caracterizam o mundo contemporâneo, põem em causa o eixo Europa – América, como decisivo para a evolução das próximas décadas, deparamo-nos com a afirmação das potências emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China – e com muitas dúvidas sobre o futuro dos Estados islâmicos e os riscos do “choque de civilizações”. Sem cair na tentação de olhar o “nosso caso”, é bom que olhemos a evolução futura a partir de Portugal, na nossa qualidade de varanda da Europa, na acepção da metáfora pessoana. Eduardo Lourenço (EL) pensou bem este tema, por antecipação, nas comemorações da chegada de Colombo à América e intitulou uma notável série de ensaios sobre as novas relações com o Novo Mundo usando a fórmula da morte de Colombo, como símbolo europeu sob os efeitos da usura do tempo. «A Morte de Colombo» merece ser relido nesta década, uma vez que a reflexão que contém ultrapassa em muito o diferendo conjuntural sobre as comemorações. Vem à baila Oswald Spengler e o «Declínio do Ocidente» (1918-1923) sob os efeitos devastadores da Primeira Guerra, quando tudo estava apenas interrompido, à espera do desfecho e da tragédia final. Muita água passou sob as pontes da História, mas o tema não deve ficar no esquecimento. É certo que é difícil aceitar as ideias de Spengler. Falava sob a óptica organicista e reportava-se (a partir de uma análise de oito culturas – babilónica, egípcia, chinesa, indiana, maia-azteca, clássica greco-romana, arábica e ocidental euro-americana) a lentas evoluções das fases apolíneas para os momentos fausticos. O Ocidente conheceria, assim, um longo crepúsculo, caracterizado ou por um inexorável fim ou por um dourado e dramático declínio. Gibbon, no século XVIII, usou o mesmo método para analisar a decadência do império romano, mas a distância e a consolidação dos acontecimentos talvez tenham corrigido as fragilidades metodológicas usadas pelo estudioso. O século XX trouxe a barbárie, e se num primeiro momento a profecia parecia realizar-se rapidamente em vez do longo crepúsculo preconizado, a verdade é que o “milagre” do fim da Guerra (1945) pareceu apontar para um novo recomeço, em que os EUA se tornariam o epicentro do Ocidente, seguindo a herança imperial romana.

EUROPA FORA DA EUROPA
A América começou por se construir como Europa («Europa fora da Europa»), mesmo adquirindo um difuso complexo de superioridade nos Estados Unidos, por contraponto a um sentimento emancipador nas Américas Central e do Sul. Em 1992, o que apareceu foi a rejeição da Europa como «mãe ou madrasta do Novo Mundo», em nome da resistência ancestral do Eldorado colonizado e corrompido. E, para Eduardo Lourenço, trata-se de uma «história de pais e filhos que se não reconhecem ou se disputam um tesouro comum – e antes de mais o da sua própria imagem – viveu, e ainda não deixou de viver, embora há menos tempo, a história real e literária de dois Ocidentes – o Descobridor, ou que assim se cria – e o do Novo Mundo descoberto, prometido num dos seus ramos ao Império do Mundo. Ou à sua ficção». No entanto, mais importante do que Colombo e 1492, que foram (apesar de tudo) circunstanciais, trata-se de uma nova gramática das civilizações, em que o planeta se torna resultado de várias influências e do apagamento dos impérios tradicionais. Afinal, as comemorações de 92 anteciparam o que se tornou moeda corrente: às potências tradicionais, ou à sombra delas, contrapõe-se hoje o surgimento de novas realidades e de novos poderes, com características diversificadas, que vão do populismo étnico até à reemergência confessional, quando não teocrática.

TENSÕES CIVILIZACIONAIS
A crise do Médio Oriente, as tensões civilizacionais, a consciência de que a Europa e a América não poderão, só por si, ditar as regras para o equilíbrio do mundo, a compreensão de que podemos estar a reviver um “Apocalipse Alegre” (H. Broch) ou um “laboratório do fim do mundo” (K.Kraus) – tudo isso nos obriga a pensar a cultura como criação e como hierarquia de valores. Para EL, o «filhos de Colombo» parecem precisar dessa morte para poderem «crer que o Paraíso é mesmo nessa América onde (Colombo) aportou para fugir do Velho Mundo». É um sistema de mitos que se transforma, e a ideia de Ocidente sofre abalo. «É na realidade que o mito se alimenta, é no mito que a realidade se torna significante. Isto é sabido, está emblematicamente nos Lusíadas, mas mais instrutiva é a metamorfose a que o tempo submete os mitos quando a realidade que os exigir deixa o seu lugar à nostalgia dela. Foi e é o nosso caso». O mundo de polaridades difusas obrigar a atender às diferenças e à incerteza. Por isso, longe de se pensar que deixou de haver espaço para o Ocidente, o que importa é compreender que o proteccionismo e a tentação das respostas fragmentárias e isoladas constituem erros irreparáveis. O mundo deixou de poder ser centrado no Ocidente, e a resposta à decadência está na compreensão das fragilidades e das ameaças. Não acabou Roma «corroída do interior pela incapacidade de harmonizar as diversas forças do seu Império e de resistir às pressões que os chamados ‘bárbaros’ exerciam ao longo das fronteiras que se confundiam com as do mundo politicamente organizado»?

DE LAS CASAS A VIEIRA
Pensando em Colombo e na colonização europeia, só o tempo tornou evidente que a Europa não iria «prolongar-se no mundo que acabava de ser descoberto, mas transfigurar-se e, de certo modo, negar-se». Eis o paradoxo que o tempo revelou. Afinal, era necessário voltar atrás para que fosse recuperada a legitimidade no tocante ao conceito não realizado de dignidade universal das pessoas. O exemplo do colonizador tirou-lhe autoridade moral e se pensamos na invocação da «paz perpétua» de Kant ou do humanismo de Las Casas e de António Vieira, temos de perceber as contradições e os seus efeitos. As explicações providencialistas e o primado das explicações redutoras não ajudam. Herculano e Antero apelaram à vontade. Leia-se EL sobre o Quinto Império: «Ligar o Quinto Império de Vieira a outros sonhos messiânicos ou utópicos, de que a cultura do Ocidente está cheia, não esclarece grande coisa. Ele é, sobretudo, o devaneio imperial português no momento exacto em que Portugal escapa do seu cativeiro da Babilónia, e em que o imperialismo bem vivo da nova Europa não católica se expande pelo mundo». E se se fala em devaneio é para fazer perceber que se trata de ligar o místico e o político, a profecia e a decisão. Vieira deseja um «suplemento de alma», um sentido de acção, que se demarque dos «fumos da Índia» do século anterior. É o império da língua e do espírito que propõe. E «ele oferece-nos a essência de uma palavra que só se pode apoderar do sentido da realidade através do espelho de Deus. Como sua sombra». 

Guilherme d'Oliveira Martins