Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Estudando no cavalete de leitura, 1877 Lord Frederick Leighton
Passando em revista a paisagem literária do último decénio, é notório o enormíssimo desnível entre quantidade e qualidade. Num tempo em que a interdependência entre cultura e mercado se faz sentir de uma forma cada vez menos ética, o grande volume de títulos publicados sem uma política editorial criteriosa não deixa de ser um sintoma de que a literatura, por assim dizer «séria», se tornou quase clandestina. Enquanto, no domínio da ficção, surgiram algumas obras de relevo que em si encerram um devir objecto estético e/ou intelectual, no campo da poesia, a chuva torrencial de edições trouxe, por um lado – com honrosas e, por vezes, repetitivas excepções –, a maior desatenção por parte dos editores à publicação de livros escritos por poetas seguramente reconhecidos, e, por outro, o surgimento de autores com a chancela de pequenas ou médias casas editoriais que lutam, não sem esforço, pela sobrevivência.
Grave é o perigo que correm os poetas, e muitos ficcionistas, a quem eu chamaria de sempre no campo da edição: são facilmente ignorados. Os jovens, esses, se têm um mínimo de qualidade, vão-se acolhendo nas pequenas editoras ou no mundo da internet, onde proliferam blogues e sites. Nunca foi simples começar, mas o que não se escreve não existe, tal como sublinha Yvette K. Centeno no seu último romance, Do Longe e do Perto – Quase-Diário, é, todavia, necessário que seja dado a ver. Não me parece admissível que autores de prestígio tenham dificuldade em publicar – ou que sejam obrigados a fazê-lo online –, por lhes fecharem portas atrás de portas, tantas vezes depois de terem visto guilhotinar os seus livros, enquanto desfilam nos corredores mediáticos poetas sem poesia dentro, ou poesia sem poetas dentro. Dir-se-ia lamentável que escritores menos celebrados sejam ignorados por viverem fora da cidade dos lobbies instalados e estabelecidos. Se há demarcação cada vez mais difícil de se fazer é a da qualidade, pois a dimensão da crítica literária – que quase não existe na imprensa diária e, por pouco, sobrevive na hebdomadária – perdeu, salvo em diminutos casos, por falta de qualidade e pela exiguidade do espaço que lhe é concedido, o papel que em tempos teve: o de dar a conhecer fundamentada e rigorosamente uma obra, comentando-a.
No atropelo do que se vai editando, sabemos que se tornou bem difícil encontrar numa estante a obra que o leitor pretende, já que as livrarias se tornaram em supermercados de aeroporto com pessoal de atendimento pouco especializado. A tríade edição/distribuição/mundo livreiro deixou de funcionar convenientemente e há livros que nem hipóteses têm de chegar aos consumidores a não ser via internet, o que é eficiente e veloz, mas, por vezes, tão abstruso como o papel sem lápis: o comprador não vê nem folheia o objecto que adquire. O ensaísmo e a literatura não-light assumem hoje, por outro lado, um lugar de invisibilidade, enquanto novos autores de qualidade são escondidos em espaços quase marginais. Vai sobrevivendo a cultura-espectáculo alimentada pela publicação excessiva na área do entretenimento que ultrapassa em muito o que se faz, em vários segmentos da edição, no resto da Europa em crise, mas nesse aspecto mais civilizada.
Registo, no entanto, o surgimento na década anterior de Obras Reunidas assinadas por poetas a quem a história da literatura muito deve como é o caso, entre outros, de Ana Luísa Amaral, António Osório, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Eugénio de Andrade, Fernando Echevarría, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Herberto Helder, Luís Miguel Nava, João Rui de Sousa, Mário Cesariny (os poemas maiores), Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen. Trata-se de matéria essencial para o leitor, mas também para o investigador e historiador da literatura. Destaque-se o esforço que se fez no campo do ensaio literário (nas suas extensões e ligações a outros ramos do saber), onde a língua portuguesa imaginativamente floresce. Assistiu-se, por outro lado, neste decénio, a uma certa recuperação da memorialística, mesmo no âmbito da ficção, da diarística e da crónica. As insufladas e excessivas edições na área da literatura para a infância e juventude – nem sempre de qualidade –, trouxeram poucos mas significativos escritores, bem como jovens ilustradores de traço original.
Tudo isto poderia constituir uma amálgama de lugares-comuns se não se fixassem alguns traços da paisagem literária portuguesa recente: é notório, a meu ver, que as «sereias» – entendidas estas enquanto força de ruptura no movimento da linguagem e do pensamento – estão a ser silenciadas pelo poder da tecnocracia, do mercantilismo, dos hipermercados do vazio. Não sei se Ulisses as terá vencido, mas digamos que o facilitismo de que se veste o comboio da cultura – suportado, de forma ética e humanamente reprovadora, pelos jornais – tem contribuído para o seu descrédito, o que não significa que se defenda uma imprensa elitista, mas mais abrangente e sobretudo exigente. O ecrã da história – como se lhe referiu Braudillard, move-se ao mesmo ritmo que os fenómenos naturais; a sua construção é irremediavelmente inseparável do saber que pode ser transmitido em todos os domínios de forma clara, democrática, mas não mediocrizante.
Digamos que a essência da Literatura, transformadora do tempo num espaço imaginário (o espaço das imagens), tem vindo a ser lentamente esvaziada de ideias; sem elas, que mundo estamos a construir? Perdeu-se o trilho do segredo aliado à paciência, ao rigor e à sedução do desconhecido, sendo notória, por outro lado, uma ténue tendência para a abordagem de temas em que a espiritualidade ganha um espaço interessante, por vezes de linhagem filosófica. Tornou-se, entretanto, evidente a descolagem da narrativa de temáticas identitariamente apegadas a Portugal enquanto a investigação histórica se foi alargando a um ritmo imprevisível; o movimento da escrita impregna-se hoje de marcas mais universais, ainda que estas surjam como cintilações solitárias ou vibrações.
A experiência de um tempo/espaço imaginários e de pensar o real passou, no entanto, de forma mais evidente, para o domínio da ensaística. Nesse campo, encontramos excelentes escritores, sabendo nós que os ficcionistas de ideias, os da sombra da passagem, da transfiguração metafórica, do símbolo e da alegoria, do sublime e do grotesco, do impulso que vai do figurativo ao abstracto, do movimento laborioso da palavra, vão emergindo cada vez menos, dando lugar ao bem-fazer das telenovelas pseudoliterárias.
Que podemos desejar para os próximos dez anos? Uma literatura não colada a uma multidão mimética que transporta os erros de uma política de educação que ainda não conseguiu – talvez por uma não aposta numa séria formação dos professores e pela manutenção de currículos absurdos – ensinar a ler. Surdos e cegos das essências, mesmo das mais simples, vamos criando monstros activos regidos pela padronização da cultura, pela sobrevalorização do lucro e pela ausência de valores. Seria bom se não fossemos nem centauros da ignorância nem cidadãos apáticos. Sons quase palavra ou linguagem quase-cifrão não geram pensamento nem criatividade, apenas subalternizam o mais nobre fundo do ser humano.
Ana Marques Gastão
Mesa-redonda «Balanço Literário da Década», CNC, 15-12-2011.
«História do Pensamento Filosófico Português», dirigida por Pedro Calafate (Caminho, 1999) é uma obra coletiva na qual os autores procedem em cinco volumes (dois dos quais desdobrados) à análise dos diferentes períodos e autores da Filosofia em Portugal. Hoje procederemos a uma apreciação sucinta do primeiro volume correspondente à Idade Média.
UMA ENCRUZILHADA DE DIFERENÇAS Falar da cultura portuguesa é cuidar de um campo de múltiplas influências, de uma encruzilhada de contributos diversos. Por exemplo, na Idade Média, se nos referirmos a dois dos autores mais influentes e de maior prestígio além-fronteiras, temos de salientar que Santo António de Lisboa e Pedro Hispano exerceram o seu magistério intelectual fora de Portugal, ainda que tenham aqui feito a sua formação, sempre assumindo uma especial ligação ao rincão ocidental peninsular. O primeiro foi discípulo dos cónegos regrantes de Santo Agostinho de Santa Cruz de Coimbra e o segundo da escola capitular de Lisboa. Estes são exemplos do caráter aberto da nossa cultura, desde as suas origens, e o período medieval é especialmente ilustrativo desse facto. Se é verdade que ambos se projetaram naturalmente com dimensão universal, o certo é que as suas origens não foram despiciendas na vida e na influência que tiveram. A história medieval anterior à nacionalidade começa, aliás, por revelar um ambiente bastante rico no pensamento filosófico e teológico, avultando as figuras de Potâmio de Lisboa, intervindo na controvérsia ariana, o bracarense Paulo Orósio, no pelagianismo, Prisciliano e, sobretudo S. Martinho de Dume, além da indispensável alusão às referências fundamentais no Gharb Al-Ândalus. Orósio teve um papel muito importante no seu tempo, ao elaborar, a pedido de Santo Agostinho, uma muito difundidas análise histórica na perspetiva cristã, na linha da «História contra os Pagãos», onde se rebatia a responsabilidade dos cristãos na queda de Roma. Sobre Prisciliano, há que lembrar que atribuía natureza divina à alma humana, defendia uma plena igualdade dos fiéis e ligava um certo panteísmo ao fatalismo astrológico, tendo uma grande difusão popular. S. Martinho de Dume, bispo de Braga, teve uma influência decisiva, sobretudo a partir do Concílio de Toledo III (589). Escreveu o «Livro das Quatro Virtudes (ou Fórmula da Vida Honesta)» de influência estoica, sobretudo de Séneca. A obra dedicada ao rei dos suevos faz parte da corrente «espelho dos príncipes», singularizando-se por se tratar de um influente livro de edificação para leigos, centrado na prudência, na magnanimidade, na temperança e na justiça. Refira-se ainda «Da Instrução dos Rústicos», obra também pedagógica para as populações rurais e de menor formação, com elevado interesse etnológico para Entre-Douro-e-Minho. Saliente-se que a riqueza da obra espiritual de S. Martinho é posta em relevo por destacados historiadores europeus. A compreensão das raízes portuguesas exige ainda a ponderação da influência da civilização islâmica, quer diretamente quer através de Moçárabes e Judeus. Como afirmou Jaime Cortesão, a vocação mercantil e marítima dos Árabes projetou-se nos caminhos que viriam a ser trilhados pelos nossos antepassados. Autores como Ibn Al-Sid, de Silves, onde se nota o diálogo entre o número e a poesia, Ibn Kasi, da mesma cidade, místico sufi, ou Ibn Mucama, de Alcabidexe, poeta da natureza, tiveram influência decisiva no panorama cultural peninsular.
O CICLO FRANCISCANO Foi rápida a expansão do franciscanismo em Portugal nos séculos XIII e XIV, sendo de destacar a figura de Santo António de Lisboa. Além de ser o autor carismático dos «Sermões», conjunto muito rico de reflexões teológicas, filosóficas e morais, o português projeta a sua sólida formação obtida em Coimbra num sentido do otimismo antropológico, da abertura ao outro, da pobreza e da crítica contundente ao mundanismo e à corrupção. S. Francisco de Assis compreendeu muito bem a importância do contributo de Frei António, uma vez que colmatava algumas fragilidades da nova Ordem no plano teológico. O exemplo é notável, uma vez que serve para demonstrar a riqueza do panorama português, graças ao rico diálogo intelectual mediterrânico. Fernando Martins, o futuro Santo António, era natural de Lisboa, começou por ser cónego regrante de Santo Agostinho, primeiro em S. Vicente de Fora e depois em Santa Cruz de Coimbra. Os crúzios vinham perdendo o prestígio que tinham tido, designadamente no tempo de S. Teotónio. Eram sólidos intelectualmente, mas não satisfaziam espiritualmente o jovem. Então conheceu os franciscanos do eremitério dos Olivais (Coimbra). O exemplo dos mártires de Marrocos levou Fernando a mudar de rumo e a trocar a veste branca pelo burel. Depressa o encontraremos no Capítulo de 1221 de Assis (ou das Esteiras) e depois como pregador e professor de Teologia. Os «Sermões» são, pode dizer-se, a «primeira teorização erudita e profundamente espiritualizada da vivência de S. Francisco de Assis». Como salienta Maria Cândida Pacheco: «Poderá (…) afirmar-se, em relação ao pensamento cosmológico antoniano, um sentido de naturalismo e de otimismo claro que afasta pessimismos platónicos e maniqueizantes. Afinal, todos os seres, na sua diversidade e na sua especificidade, têm o seu estatuto e o seu lugar próprios e constituem-se como «perfeições» na sua ordem, projetando, embora, uma hierarquia de complexificações». Presenciamos, assim, o anúncio de um tempo e de uma atitude novos que permitirão a abertura ao conhecimento de outros mundos e de outras realidades.
DE PEDRO HISPANO A D. DUARTE Segundo L.M. de Rijk, Pedro Hispano Portucalensis, Pedro Julião ou o Papa João XXI foram uma e a mesma pessoa, com uma obra vasta e notabilíssima. Há quem tenha dúvidas. No entanto, é verosímil esta ligação. De facto, este português que chegou fugazmente ao papado foi uma pessoa com qualidades excecionais, mesmo que não tenha escrito tudo o que se lhe atribui. Para João Ferreira: foi «provavelmente o primeiro Escolástico latino que (…) deu uma certa extensão e aplicação à doutrina das duas faces» (uma força interior de intencionalidade que impele a alma para além de si mesma, em ânsias de atingir o mundo exterior). Quanto à obra lógica de Pedro Hispano, analisada por José Francisco Meirinhos, a verdade é que a mesma «constituiu o mais importante manual de ensino da Lógica ao longo de mais de trezentos anos em toda a Europa». Não é, aliás, possível estudar os silogismos, sem lembrar o pensador. Não esqueçamos que Dante o imortalizou no segundo círculo do Paraíso: «e Pedro Hispano, o qual lá em baixo brilha nos seus doze libelos» (Comédia, III, XII, 134-135). Se Pedro Hispano é uma referência que transcende o caso português, já o rei D. Duarte representa o que José Gama considera ser a representação da «importância da sensibilidade das paixões e das virtudes», como «uma das notas originais da antropologia subjacente à sua reflexão crítica com dimensão filosófica». «O sentido do coração e a justa medida das coisas adquirem um relevo muito particular nesse quadro interpretativo do homem português ou do seu perfil idealizado pelo rei-filósofo». O «Leal Conselheiro» é, assim, uma obra que define, num registo ético-político, a um tempo, uma atitude diferente assente no sentido crítico e na auto-reflexão, mas também reclama o sangue novo de uma geração que deseja mobilizar a grei num sentido transformador. O infante D. Pedro, em «Virtuosa Benfeitoria» e na «Carta de Bruges», assume, por isso, plenamente o segundo dos termos, em nome da sociedade nova e do tempo diferente que se apresentava no horizonte. Importaria agir de acordo com as melhores experiências de fora. E a descrição tensa dos acontecimentos, na literatura viva de Fernão Lopes, torna-se representação de um impulso que pretende realizar em ato a justiça que apenas estava delineada em potência. A ética e a política encontram-se. São temas fortes, sobretudo compreensíveis numa sociedade que se reorganizava em termos integralmente novos.