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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MIGUEL TORGA: um tempo que não acaba.

 

 


Por Teresa Vieira

 

Um dia, há sempre um dia em que nos chega a hora de uma iluminação. Assim me chegou o conhecer Torga o grande Torga pelos seus poemas, pelo que eu por eles intuía e via e já sulcava.

Via as serras, os trabalhadores da empa, os ciclos da natureza, o quanto o amor se podia fazer por cachos de uvas. Aprendia. Aprendia que não estava só no socalco da minha activa espera.

Perguntava-me muito pelas transcendências e não sei se a interrogação, no fundo, não era apenas o adiar de uma certeza que eu tinha.

Encontrava na leitura de Torga um abrir de segredos intocáveis. O Miura condenado a divertir a multidão entregava o pescoço de toiro vencido ao alívio de um gume. Ou a Terra, única mãe de ventre quente, ao legítimo fruto que fazia sair dos seios feitos arvore.

Miguel Torga o poeta, o romancista, o ensaísta, enfim o escritor e o médico já dissera:

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que cavam no chão,

Actuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.

 

In Nihil Sibi

 

 

O humanismo sentido por Torga pela obra magnífica do homem, pelo trabalho humano exposto à miséria e à doença, à condição de não ser fácil ser virtuoso, nem criador de vida, e, ainda assim um humano constrói paisagem, molda o meio, semeia penedos face à morte e malgrado o limite do homem ser bicho, este homem tão limitado pelo limite, anseia a descoberta de caminhos para chegar às coisas belas e possíveis.

Assim o senti e ainda sinto Miguel Torga, nesta poderosa acepção do perceber.

Como dele disse Mourão Ferreira, Torga vivia na intimidade das forças elementares e para as celebrar aceitava a constante luta numa rebeldia ao que o queria asfixiar.

Fui a Coimbra e visitei-o. Não sei se visitei o seu monasticismo votado à autenticidade sublime da poesia ou de uma escrita, ou a sua fidelidade à medicina: ou se visitei a visita e tão só me era tanto.

Régio e a medicina? Nemésio? Perguntei.

«Teresa, eu barafusto muito com a medicina. De Régio a Nemésio é todo um dia. Tento entender-me.»

Nada acrescentei, mas recordei-me de uns poemas dele – sabia muitos de cor mas envergonhei-me de lho dizer naquela altura.

E ele já escrevera:

 

A começar por mim – meu principal motivo

De insatisfação (…)

Não me sei conformar.

E saio, antes de entrar.

 

E mais além, noutra página de um livro de Coimbra de 1956, continuou:

 

(…) casou-nos o mito

(…) tu com sementes nos pés

(…) sei que não és mentira nem és lenda

Perder-te nada é – perde-se tudo.

 

No comboio que me trouxe de volta a Lisboa justifiquei cada palavra das quase nenhumas que trocámos. Voltei a agradecer-lhe o ter podido conhecê-lo. Na minha mão o beijo que nela deixou. Então recarreguei a inocência daquela ida e recordei a joaninha que ambos olhámos, olhando-nos, e afinal foi o único momento em que lhe disse «não nos deu para coleccionarmos burros». E o Torga sorriu largamente com o perto e a distância de Piódão que então eu não conhecia. E desejou:

«Que alguém te ame muito é o que eu quero!»

 

 

Parei o carro há dois anos atrás, num miradouro no regresso de Piódão, e fui ler o que estava escrito numa pedra no alto da Serra do Açor onde faltava o ar por tão nítida a aldeia, e era isto:

 

Com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada, vim aqui despedir-me do Portugal primevo. Já o fiz das outras imagens da sua configuração adulta. Faltava-me esta do ovo embrionário.

                Miguel Torga

 

Na casa de uns anciãos de Piódão estive à conversa acerca das lides da lavra por comparação com as do solar da minha avó e veio a minha pergunta pelo Escritor.

«O senhor doutor escritor já cá não veio abaixo ver a gente. Ele gostava muito disto. Vá, era uma ideia, mas naquele dia já cá não veio comer com nós. Estava já doente e despediu-se lá de cima do miradouro. Parou ali e depois quase a correr foi embora.»

E achei que da tua mão entreaberta me deixaste aquelas casas de xisto que se apoiam umas nas outras e quando do escuro das ruas estreitas alguém diz:

«Lá veio a menina doutora que escreve, está acesa uma janela», afinal é também por ser muito por ali que eu vivo.

Assim hoje te peço coragem aos meus passos, meu poeta primeiro, minha iluminação solidária aos meus 16 anos!

E que das nossas impossibilidades se retorne à raiz que fala a favor da poeira da terra quando passa o vento em lufadas de força e movimento.

E quantas vezes, quantas vezes não dou comigo aproximando-me?

 

Abril-Domingo

Sec.XXI

A VIDA DOS LIVROS

de 16 a 22 de Abril de 2012

 

«Escritos Políticos» de Francisco Sousa Tavares (2 Volumes, Figueirinhas, 1996) e «40 Anos de Servidão» de Jorge de Sena (Moraes, 1982) são duas obras que merecem ser recordadas, trinta e oito anos depois de 25 de Abril de 1974, tão ligadas se encontram as duas figuras que tão intensamente lutaram pela implantação da liberdade e da democracia com grande coerência e determinação.

 


O POVO QUE NÃO ESQUECE

«Povo português, vivemos um momento histórico como talvez desde 1640 não se vive: é a libertação da pátria» - este foi o primeiro discurso de um civil no dia 25 de Abril de 1974, dito no Largo do Carmo, após os momentos dramáticos de incerteza aí vividos. Quem o proferiu foi Francisco Sousa Tavares, homem livre, apaixonado pelas causas justas, de quem Sophia de Mello Breyner Andresen disse: «Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. / Porque os outros são os túmulos caiados / Onde germina calada a podridão. / Porque os outros se calam mas tu não». Sophia e Francisco foram as grandes referências do Centro Nacional de Cultural, como lugar de liberdade, aberto às diferenças, insuscetíveis de ser fieis a outra causa que não a da procura da dignidade e da justiça. O seu exemplo tem de ser lembrado quando falamos da reconquista da liberdade. E não é por acaso que, se Francisco Sousa Tavares foi o primeiro civil a dirigir-se ao povo, numa revolução militar que devolveu as instituições aos cidadãos, Sophia proclamou «A Poesia está na rua!», com Maria Helena Vieira da Silva a corresponder com um magnífico cartaz, que ainda hoje é um dos símbolos desse momento fundador. E o certo é que Sophia será, para sempre, quem primeiro cantou o momento libertador, com a palavra certa, depois de, na circunstância oportuna, ter reclamado o «país liberto, a vida limpa e o tempo justo»: «Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial, inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo». Não é possível recordar a efeméride sem lembrar essas palavras, esses exemplos, essa afirmação da perenidade das grandes causas. E Sophia disse-o na Assembleia Constituinte, no Verão quente, por entre tantas paixões. Relendo essas suas palavras, percebemos que, mesmo na vertigem dos acontecimentos, é possível afirmar os valores permanentes – em caracteres indeléveis. Hoje, essa lembrança é fundamental, num tempo em que não podemos esquecer que a liberdade só se defende e se salvaguarda se a força da verdade e da justiça não for esquecida. A história de 1974 já foi bastamente contada, lembramos os seus protagonistas e a circunstância épica, no entanto é tempo de regressar à reflexão sobre a exigência de proteger os compromissos em torno da liberdade e do pluralismo. Agora, quando lemos os textos de Sousa Tavares de combate político ou na defesa de uma sociedade centrada na dignidade humana (demarcando-se das conceções transpersonalistas que levaram a Europa e o mundo para a tragédia do século XXI), percebemos que a liberdade de espírito e de opinião é fundamental. Não importa a pugna concreta, mas sim a salvaguarda das diferenças e do pluralismo, da liberdade e da responsabilidade. Essa foi a grande lição do advogado, do político, do jornalista, do polemista. Vêm à memória os acontecimentos de Lisboa em Dezembro de 1383 e em Dezembro de 1640, como bem foi recordado. E voltamos a ouvir Fernão Lopes: «as gentes (…) saíam à rua ver que cousa era; e começando de falar uns com os outros, alvoroçaram-se nas vontades e começavam de tomar armas cada um como melhor e mais asinha podia».

 

A POESIA DE JORGE DE SENA
O poeta de «Fidelidade» era amigo próximo de Sophia e de Francisco, antiga visita assídua da Travessa das Mónicas. Houve cumplicidades políticas e cívicas, como o Centro Nacional de Cultura e «O Tempo e o Modo» em fundo. Os seus poemas de 1974 são significativos. Aí vemos a esperança e o cuidado, o entusiasmo e a distância crítica. «Nunca pensei viver para ver isto: / a liberdade – (e as promessas de liberdade) / restauradas. Não, na verdade, eu não pensava / - no negro desespero sem a esperança viva - / que isto acontecesse realmente. Aconteceu. / E agora, meu general?». O poema é de 27 de Abril. O autor chegava aos dias ansiados, como dizia em «Poesia II»: «Não hei de morrer sem saber / qual a cor da liberdade». E segue em «Nunca Pensei Viver»: «E tu povo, em nome de quem sempre se falou / ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores / com que saúdas as promessas de liberdade / tomarás nas tuas mãos com serenidade e coragem / aquilo que, numa hora única, te prometem? / E agora, povo português?». E o fundo da democracia que Sena questiona, intuindo as dificuldades para além do imediato. E vem a pergunta sacramental: «Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha. / Saem tanques para a rua, / sai o povo logo atrás: / estala enfim altivas e nua, / com força que não recua, / a verdade mais veraz. / Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha». A data é igualmente dos últimos dias de Abril – enviada a Jacinto Baptista, no «Diário Popular», a 29 de Abril. Mas profeticamente Jorge de Sena consegue em poesia exprimir alegria e dúvida, ciente da longa espera e de tantas hesitações. «Com o país dividido quase meio século entre donos da verdade e do poder, / para um lado, o réprobos para o outro só porque não aceitavam que / não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão / silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque / há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política». O poeta sabia bem de que falava. Aqui política é usada no mais nobre do termo, com sabedoria e generosidade, com clareza e determinação. Havia adesivos e acomodados, e o mais importante era garantir que liberdade, verdade e justiça não fossem esquecidas. Sintomaticamente, o título desta reflexão é «Com que então libertos, hein?». Com ironia e agudeza crítica Sena deseja que a responsabilidade tome o lugar do acaso! E seria necessário «refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só da energia represa há tanto tempo».

 

LIBERDADE, LIBERDADE, TEM CUIDADO...
Falar hoje desse tempo e de Jorge de Sena, como de Sophia e Francisco Sousa Tavares, é invocar a democracia sempre incompleta, vulnerável, exigindo o nosso empenhamento e a nossa força: «Quem te amar, ó liberdade, / tem de amar com paciência. / Sonhou-se tanto contigo / se saber como saber-te / que é muito grande o perigo / de não ver o sonho antigo / nos braços em que há de ter-te». Não se julgue, porém, que esta paciência é confundível com indiferença. Não é, não pode ser. A «Cantiga de Maio» de Junho de 1974 diz tudo, e hoje é atual e premonitória: «Liberdade, liberdade, / tem cuidado que te matam. / Que muito povo se assuste, / julgando que és tu culpada, / eis o terrível embuste / por qualquer preço que custe / com que te armam a cilada. / Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam». A verdade é que por muito que o tempo vá passando e os ecos de júbilo se perpetuem, com descida de intensidade, o certo é que temos o dever de manter atenção a todas as fragilidades e incertezas que ameaçam a liberdade. Nunca há garantias de perpetuação das instituições democráticas sem uma vontade clara e a mobilização efetiva de todos.

Guilherme d’Oliveira Martins