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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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2ª Crónica da Viagem ao Brasil (06/09/12)

 
Rua da Quitanda, Casa do Muxarabié, o comércio crepita nas margens do Jequitinhonha na cidade de Diamantina, com intensidade: panos, bugigangas, tapetes de Arraiolos, livros e botecos – mas a cidade dir-se-ia que é o século XVII plantado no nosso século XXI. O Muxarabié é o balcão em treliça de influência moura, que esconde a biblioteca do Dr. António Torres, cuja bengala se tornou celebre na prosa de Vitorino Nemésio ao relatar Etas suas andanças. Aqui não havia ordens relig...
 
iosas, apenas as irmandades e no calcorrear dos lagedos das ruas seguimos o itinerário canónico: Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a matriz evocativa de Santo António com dois preciosos altares da antiga Igreja em talha dourada – Nossa Senhora à direita e Santo António do lado do Evangelho, a Igreja de São Francisco de Assis, em frente de onde está a estátua do herói da cidade, o Presidente aqui nascido Juscelino Kubitchek, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a mais antiga da cidade (com a presença dos santos António de Cartagerona, Benedito, Efigénia e Alesbão. Ao almoço, no restaurante Apocalipse, no largo do mercado, continuamos servidos principescamente com a divinal cozinha mineira e as sobremesas que são verdadeiramente o Menino Jesus em metáfora doce. A cidade poderia estar no Minho ou nas Beiras. Passamos pela casa de Xica da Silva por quem se enamorou o contratador João Fernandes, casa com eira e beirado à antiga portuguesa. Mais adiante, a morada do Inconfidente Pe. Rolim, desta terra que foi São Francisco de Tijuco e hoje alberga o chamado museu do Diamante. Deambulámos pelos altos e baixos da cidade, tomámos contacto com o barroco e o rococó dentro do recato próprio de uma cidade excêntrica que conseguiu manter a descoberta de diamantes escondida durante mais de duas décadas e terminamos a jornada na casa do Presidente Juscelino, criador genial de Brasília, e no Passadiço da Glória, verdadeiro ex-libris da cidade, a lembrar o tempo em que o velho orfanato era incomodado pelo barulho suspeito do bataclã. À noite tivemos Seresta, que é a nossa serenata, com uma ternura muito especial, e ecos ora do fado, ora das mornas cabo-verdianas.

E pela manhã muito cedo, às seis horas, à hora prima de tempos imemoriais, voltámos à estrada em direcção a Inhotim, passando à ilharga de Belo Horizonte. E que é esse parque imenso de futuro, iniciativa de Bernardo Paz? Um encontro único da arte de hoje, da botânica e do meio ambiente, da cidadania e da inclusão, do desenvolvimento sustentável e da educação. Janett Cardiff joga com o som, Adriana Varejão com os azulejos, os corpos com Edgar de Sousa e os espaços com Cildo Meireles… Inhotim é a certeza de que é o futuro o que o passado anima.

Ivan Turguéniev, também conhecido como o inventor do termo nihilista

 

 

Turguéniev autor de “Pais e Filhos” considerado uma das obras-primas da ficção russa do séc. XIX e a que a Relógio d’Água deu chancela, foi escrito entre 1860 e 1862, exactamente quando, na Rússia, o czar decretava o fim da servidão.

 

Curiosamente no romance “Pais e Filhos” recusa-se tanto o conservadorismo das gerações mais velhas, como o radicalismo da juventude e Turgéniev chamou o protagonista do livro de "nihilista", cunhando assim o termo.

 

De registar que Ivan fora vítima de uma mãe desmesuradamente despótica, reflectindo-se ao longo da sua obra esta tremenda realidade, e conhece o grande amor da sua vida em Pauline Viardot , uma cantora de ópera espanhola, casada, e com quem viria a relacionar-se profundamente na cumplicidade do marido da solista. Mencione-se que nasce uma filha de Ivan e Pauline e, segundo amigos comuns, a servidão de Ivan ao sentimento sentido por ambos marca-lhe os dias até à sua morte em França em 1883.

 

Contudo, o facto de ter cursado Filosofia deixa-lhe a inquietude no dizer, nomeadamente e incessantemente, o quanto a arte de um povo é a sua alma viva (…) e esta quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade (…) justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, sobrevive à existência física do corpo e do povo.

 

Refere-se que no seu romance "Fumaça" (1867) encontramos o desabafo de um homem cansado e descontente. Contudo, através da Arbor Litterae que é uma chancela de Estrofes & Versos, em 2010, chego à leitura do livro de Turguiéniev “ Diário de um homem supérfluo”.

 

Supérfluo (…) excelente esta palavra que encontrei. Quanto mais profundamente me esmiuço a mim próprio (…) mais me convenço da rigorosa verdade desta expressão. Um homem supranumerário – e é tudo.

 

Pareceu-me um alerta vivíssimo a todos os que a vida trata como hóspedes não esperados nem convidados: a todos os que sentem constantemente os seus lugares já ocupados por erro na procura do lugar onde deviam.

 

Recorde-se que o termo nihilista chega aos nossos dias com o significado de ausência de sentido, finalidade ou resposta em áreas muito diversas. Ainda assim, cai o pano, exactamente quando a vida se retira da luta, e se aniquila o próprio nihilista, justificando-se que assim deixa esta realidade, ela própria, de ser supérflua.

 

Dizia Ivan que a sua mãe era mulher oprimida sob o fardo das qualidades, atormentando toda a gente com a sua virtude, e afinal, esta grande causa da azáfama deste escritor consigo mesmo, também nos atinge, e sempre, pela sua obra generosa de grande pensador, sobretudo quando nos julgamos conhecer.

 


Teresa Vieira

PS - Creio desta feita ter chegado mais perto acerca do que me entusiasmou na leitura de Ivan Turguéniev.