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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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5ª Crónica da Viagem ao Brasil (09/09/12)


 

 

Deixámo-los na nossa última crónica no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas. Estamos numa zona que cresceu com a grande quantidade de ouro descoberta ao longo do rio Maranhão. O Santuário foi iniciativa de Feliciano Mendes, um português abastado que fez uma promessa de cura. Livre da doença em 1757 começou a erguer a basílica. Temos o adro, os passos da Paixão e a igreja. Os passos da Paixão são sete cenas, em seis capelas, com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo genial Aleijadinho e seus ajudantes. O adro tem as figuras de 12 profetas esculpidos em pedra sabão por António Francisco Lisboa – Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre as escadas, Baruc e Ezequiel e na amurada após as escadas: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. “Estamos, diz Vitorino Nemésio, em presença de uma autêntica escultura sinfónica gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela concepção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que dos bucres de cabelo aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamares da indumentária, assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca”. Fomos para Tiradentes, cidade que nasceu em 1702, a partir do arraial da Ponta do Morro, que passou em 1718 a chamar-se Vila de São José d’el Rey em homenagem ao príncipe D. José, adquirindo a actual designação depois do fim do império e da proclamação da republica. Hoje é uma atracção turística por ter o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que, depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá poucas surpresas: puro engano! Não nos surpreende o chafariz de São José de Botas, até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750 e uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um equilíbrio e uma teatralidade barroca que nos prende e atrai: colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. É talvez a mais requintada das igrejas do barroco de Minas Gerais. O entalhador João Ferreira de Sampaio manifesta aqui o seu enorme talento, percebendo-se que tem conhecimentos ou contactos com a arte italiana e notando-se nitidamente as repercussões de Bernini. O altar-mor domina nitidamente. A imagem de Nossa Senhora da Conceição do lado do Evangelho é de uma beleza superior. Há ainda duas representações em pintura, uma clássica da última ceia e outra muito original das bodas de Caná como se fora um banquete do século XVIII. A igreja da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tem um altar-mor interessante de talha dourada com retábulos laterais dedicados a São Benedito e Santo António de Cartagerona e obriga a uma vigorosa atenção. Depois de um almoço de cozinha mineira que nos encheu as almas, visitámos o excelente Museu da Liturgia, inaugurado neste ano de 2012 e que deixou muito boa impressão. O fim-de-semana alargado do feriado da Independência trouxe a Tiradentes muitos turistas. O movimento na cidade é muito intenso e, ao contrário do que nos aconteceu até agora na maior parte dos casos em que visitámos praticamente sós os monumentos (à excepção de Ouro Preto), a concorrência é muito significativa o que não impede que gozemos intensamente a beleza das obras de Arte.