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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS


de 10 a 16 de setembro de 2012


Pode dizer-se quando lemos «Étrange Étranger – Une biographie de Fernando Pessoa» (1996) da autoria de Robert Bréchon que não estamos perante mais uma biografia do poeta de «Mensagem», mas diante de uma visão aberta e abrangente dada por quem aprendeu a amar a língua e a cultura portuguesas de fora, sabendo projetá-las na Europa e no mundo através da sua originalidade e não de supostas particularidades mais ou menos providencialistas que, para outros, muito pouco poderia significar.

 

 

AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA
Quando chegou a notícia da morte de Robert Bréchon (1920-2012) e as páginas dos jornais portugueses silenciaram o ocorrido, Eduardo Lourenço multiplicou-se em contactos e diligências. Seria ingratidão incomensurável não lembrar condignamente a memória de alguém que contribuiu decisivamente para suscitar além-fronteiras o interesse e a atenção pela cultura portuguesa moderna, tendo como centro de gravidade a personalidade complexa e atraente de Fernando Pessoa. «Sem estas mediações de qualidade» (insistia, justamente Eduardo), «a aura e a fortuna crítica de Pessoa não teriam conhecido a irradiação espetacular que foi a sua a partir dos anos 1950. Assim, nem chegou a passar pelo limbo. Quase ao mesmo tempo, a Espanha com Angel Crespo e a Itália com Luciana Stegagno Picchio alargaram o espaço pessoano, convertendo-o naquilo que fervorosamente, e talvez com pessoana ironia, o mesmo Bréchon chamaria a nossa «petite église universelle». Poética, entenda-se» (Público, 15.8.12). A notícia foi aparecendo, timidamente, a partir da empenhada equipa da Biblioteca Nacional de Portugal, apesar da desatenção geral ditada pelos primeiros dias de Agosto e de vilegiatura, na expressão antiga. Eduardo Lourenço continuava, porém, justamente inquieto, insistia nos apelos, uma vez que o desaparecimento inesperado de Bréchon não poderia passar despercebido – quanto mais não fosse por uma elementar cortesia perante o espírito de um dos maiores responsáveis pelo abrir de portas dos meios intelectuais franceses e europeus não apenas a esse estranho Pessoa, mas sobretudo à literatura portuguesa contemporânea.

 

ESTUDIOSO APAIXONADO
Poderia, porém, pensar-se que Bréchon teria sido apenas um divulgador apaixonado, atraído por uma cultura que foi aprendendo a conhecer numa magnífica imersão total. Não foi, contudo, assim, como se torna evidente ao lermos a sua obra, em análise fina, já que partindo da obra de Fernando Pessoa pôde compreender onde se situou ela, fazendo luz sobre a cultura portuguesa, multímoda e heterogénea, mas captada com intuição e ironia pelo «Guardador de Rebanhos». Bréchon conhecia muito bem o terreno que pisava e não se satisfazia com comentários superficiais e de agenda ou com apreciações epidérmicas. O ensaísta leu com atenção a obra pessoana, conhecendo bem os seus críticos e estudiosos e o contexto em que tudo se situava. Seguiu deste modo um caminho próprio, antecedido pelos passos de Pierre Hourcade (1908-1983), que conhecera pessoalmente o poeta da «Mensagem», e que foi o seu primeiro tradutor. E pôde dizer, como recordou Francisco Seixas da Costa, num dos seus imperdíveis comentários: «é através de Pessoa que Lisboa entra verdadeiramente na literatura universal, tornando-se uma cidade-símbolo como a Paris de Balzac ou de Baudelaire, a Praga de Kafka, a Alexandria de Cavafy, a Dublin de Joyce». E tudo começou no Brasil, quando Bréchon trabalhou pela educação e cultura francesas no país que apaixonara Georges Bernanos. Não vamos recordar os traços da sua biografia, que são conhecidos. A verdade é que no Outono de 1962 chegou a Lisboa, como diretor do Instituto Franco-Português e aqui permaneceu até 1968, inteligentemente atento a tudo, apesar das limitações políticas. É um período muito rico de conhecimentos e de contactos. Amigo de António Ramos Rosa (generoso talento) conhece por seu intermédio Sophia de Mello Breyner, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira e Ruy Cinatti. Com Jacinto do Prado Coelho e João Gaspar Simões (depois da iniciação com Armand Guibert) procede a uma análise aprofundada da complexa obra de Pessoa, na sua heterogeneidade, então numa fase decisiva de revelação através dos múltiplos inéditos provindos da mítica arca. É de 1968, na revista «Critique», o fundamental «Fernando Pessoa et ses Personnages», que suscita a maior curiosidade e o mais vivo interesse na intelectualidade europeia.

 

CONHECER FERNANDO PESSOA
Nos anos oitenta, graças à iniciativa de António Alçada Baptista (outro benemérito da nossa cultura que tem de ser mais lembrado), à altura Presidente do Instituto do Livro, o editor Christian Bourgois lança em Paris uma coleção fundamental dedicada a Fernando Pessoa. Bréchon é indicado por Alçada como um dos coordenadores da iniciativa, na qual será acompanhado pelo melhor colaborador em que poderia pensar-se, Eduardo Prado Coelho. A pedido do próprio Bourgois, Bréchon escreve «Étrange Étranger – Une biographie de Fernando Pessoa» (1996) e, anos mais tarde a editora Aden publicará «Le Voyageur Immobile», onde o ensaísta publicará, de forma mais breve, novo esquisso biográfico do poeta. Atento leitor e cultor da literatura portuguesa, completa, a pedido da Gallimard, «La Litterature Portugaise» de Georges Le Gentile. Mas não poderemos esquecer ainda o interesse pelas obras de José Régio, Vitorino Nemésio e Sophia, além do extraordinário diálogo com António Ramos Rosa, que levou à publicação de «Meditações Metapoéticas», um notabilíssimo encontro de sensibilidades.

 

INTELIGENTE INTERROGADOR DA IDENTIDADE
Além do mais, Robert Bréchon foi um inteligente interrogador da identidade portuguesa, vendo-a de fora e depurando-a de excessos e ilusões: «Visitar Lisboa na peugada de Pessoa não é seguir o empregado de uma agência de turismo, mesmo que este pretenda, como no livrinho inglês, ser o próprio poeta; é deixar-se guiar por ele, como Dante por Virgílio, numa exploração em que o sonho irá constantemente misturar-se com a realidade». E aí encontrar-se-á, em resquícios, «a nostalgia, a recordação triste e terna que a palavra (saudade) designa – e tinge-se de melancolia». Com argúcia, ao falar de «Mensagem», lembra (com fina argúcia) que Maria Aliete Galhoz foi quem definiu melhor o espírito com que o poeta escreveu o livro, através de um fragmento encontrado nos papéis pessoanos: «Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso; viver não é preciso. Quero para mim que o espírito (d)esta frase, transformada a forma para casar com o que sou: viver não é preciso, o que é necessário é criar. Não conto gozar com minha vida; nem eu gozá-la penso. Só quero torna-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha». Foi este sentido universalista que apaixonou Bréchon, para além de todas as circunstâncias. O ensaísta tornou-se assim um cuidadoso revelador de enigmas. E Eduardo Lourenço pôde concluir, em nome da justiça: «o seu savoir-faire podia ser partilhado com a já então imensa família pessoana. Mas a chama que o alimentou era o seu bem próprio. Poderá haver fervores pessoanos gémeos do seu, mas aquele que agora silenciado foi, companhia sua mais íntima de si do que ele mesmo, foi para a nossa cultura uma dádiva pura sem preço» (Ibidem).

 

Guilherme d'Oliveira Martins

6ª Crónica da Viagem ao Brasil (10/09/12)


Em São João d’el Rei, Domingo, na Igreja de São Francisco, a Irmandade da Ordem Terceira saúda especialmente a presença do Centro Nacional de Cultura com grande simpatia. A Profª Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro e faz questão de nos assinalar a grande qualidade do coro e orquestra que acompanham o ofício litúrgico. A cidade tem uma antiga tradição de mais de um século ligada à música clássica coral e sinfónica com um reportório de autores de Minas Gerais. Ao ouvirmos Hossana, Glória in excelsis Deo apercebemo-nos do grande esmero artístico e da excepcional qualidade das obras escolhidas e da sua execução. É um trabalho continuado que nos últimos anos foi reforçado pela formação e pela motivação de músicos de grande saber. São João d’el Rei também é referência fundamental na vida e obra do Aleijadinho, mas Anna Maria Parsons faz questão de nos mostrar duas imagens num dos altares laterais de São Francisco, representando São João Evangelista e São Gonçalo de Amarante. Aqui está António Francisco Lisboa em todo o seu esplendor – e ouvimos, com uma nitidez óbvia a demonstração de que o diminutivo do autor não pode ser pejorativo, é alguém que tem uma elevadíssima formação (estando longe de ser um curioso ou um ingénuo). Foi aluno na escola franciscana no hospício da Misericórdia – de Grego, Latim e História, estudioso da arte europeia do seu tempo, conhecedor da influência ou da inspiração de Bernini. Há no São João Evangelista algo que encontramos no profeta Daniel em Congonhas e de que já falámos. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de São João, recordamos a memória do malogrado presidente Tancredo Neves, descobrimos o templo mais antigo da cidade (1719) – da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, continuamos com Nossa Senhora do Pilar, a matriz, que não podemos visitar mas que é um exemplo rico de talhas douradas célebres. As referências continuam: Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Carmo, e aqui recordamos as gárgulas em forma de canhão que já vimos em Ouro Preto. No entanto, o que nos fica na memória é a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de São Francisco de Assis, com o projecto original de António Francisco Lisboa. Há sempre um debate sobre se teria sido mesmo o genial autor a dar o toque irrepetível na obra-prima, mas o certo é que se nota a marca indelével da sua oficina. A cidade pequena está cuidada e parece congelada no tempo, para gáudio laboratorial de quem procura a especificidade do barroco mineiro. Terminamos o dia em Tiradentes no Solar da Ponte. A recepção é cuidadosa e esmerada, com um chá das cinco horas dado como ditam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos como temos de recusar muitos equívocos sobre a ideia falsa de que entre 1730 e 1789 houve uma decadência inexorável de Minas Gerais, por não se estabelecerem novas explorações mineiras. De facto, o espaço já estava delimitado e desenvolvia-se a actividade agropecuária e a economia. Por fim, Suely Campos Franco diz-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas. Um forte intercâmbio cultural que merece ser mais estudado aprofundadamente.