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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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7ª Crónica da Viagem ao Brasil (11/09/12)

 

Saímos de Minas Gerais pelo Caminho Novo da Estrada Real em direcção primeiro a Petrópolis e depois ao Rio de Janeiro. Deixámos para trás as grandes referências da zona mítica do ouro e dos diamantes, mas também como nos disse ontem Anna Maria Parsons uma região no coração do Brasil que se desenvolveu através de uma via própria e multifacetada em que a busca das preciosidades constituí apenas uma das mais importantes vias do que hoje designaríamos por desenvolvimento. O barroco mineiro é um estado de espírito também, a demonstrar que minas há muitas. As igrejas, os monumentos, as cidades, o urbanismo constituem uma ilustração muito especial já o dissemos da teatralidade, do movimento e do inteligente uso das curvas. É por isso pelo menos precipitado falar do barroco como um momento histórico parado no tempo. O barroco mineiro é uma síntese que se projecta no futuro e que chega à literatura e à música, como “ Arte total” que é. A decoração rococó completa o culto das curvas e tregiversações. Como podemos compreender Guimarães Rosa sem o entendimento do barroco como arte completa. Como podemos dar a devida importância heterodoxa como tem Carlos Drummond de Andrade? Como entender Cecília Meireles sem a percepção do intrincado diálogo entre o mundo de Gonzaga e Marília e a capacidade criativa do ser tão mineiro? Juscelino Kubitchek de Oliviera, na Pampulha onde Brasília foi buscar Óscar Niemeyer porque ele sabia estender, muito bem, nos dias de hoje, o movimento teatral do barroco, não como estilo situado, mas como atitude perante a natureza e a vida. Um longo caminho que nos trouxe de Tiradentes para Petrópolis faz-nos perceber a transição do Cerrado para a Mata Atlântica, mas também do Aleijadinho até Murilo Mendes, numa descida vertiginosa da montanha para os vales do rios com sol e calor. Ao chegarmos a Petrópolis deparamo-nos com a catedral neo-gótica de São Pedro de Alcântara (de 1884) com a sua torre imponente e a sinfonia dos vitrais – a almoçámos numa antiga residência da cidade imperial com os cómodos de outrora e o gosto de hoje. Chegados a Petrópolis sentimos a presença forte de uma personalidade atraente como a do Imperador D. Pedro II, um cientista desterrado na política. O palácio resulta dos recursos do próprio Imperador. Foi construído entre 1845 e 1862, com um projecto original Julius Koeler e depois modificado por Cristoforo Bernini – com um jardim frondoso em que se nota a arte Jean Baptiste Birot e os conhecimentos e a sensibilidade artística de D. Pedro de Alcântara. Proclamada a república (1889) o Palácio foi ocupado por duas escolas, até que, por iniciativa de Getútio Vargas o Museu Imperial foi criado e inaugurado em 1943. A visita ao Palácio com a generosa companhia do seu director Maurício Ferreira Júnior, foi fascinante pela descoberta da convergência entre o drama do Imperador (deixado pelo seu pai com a tenríssima idade de 5 anos com a tarefa solitária de garantir a continuidade da casa imperial e da governação do Brasil) e a sua capacidade de abertura e inteligência para manter a dificílima unidade do território. D. Pedro e D. Teresa Cristina afirmaram o seu prestígio pela crença na cidadania e na proximidade do povo.
Assim, de algum modo, prepararam a república de 1889 – merecendo destaque a assinatura pela princesa Isabel da Lei áurea, de 1888.

A VIDA DOS LIVROS


de 10 a 16 de setembro de 2012


Pode dizer-se quando lemos «Étrange Étranger – Une biographie de Fernando Pessoa» (1996) da autoria de Robert Bréchon que não estamos perante mais uma biografia do poeta de «Mensagem», mas diante de uma visão aberta e abrangente dada por quem aprendeu a amar a língua e a cultura portuguesas de fora, sabendo projetá-las na Europa e no mundo através da sua originalidade e não de supostas particularidades mais ou menos providencialistas que, para outros, muito pouco poderia significar.

 

 

AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA
Quando chegou a notícia da morte de Robert Bréchon (1920-2012) e as páginas dos jornais portugueses silenciaram o ocorrido, Eduardo Lourenço multiplicou-se em contactos e diligências. Seria ingratidão incomensurável não lembrar condignamente a memória de alguém que contribuiu decisivamente para suscitar além-fronteiras o interesse e a atenção pela cultura portuguesa moderna, tendo como centro de gravidade a personalidade complexa e atraente de Fernando Pessoa. «Sem estas mediações de qualidade» (insistia, justamente Eduardo), «a aura e a fortuna crítica de Pessoa não teriam conhecido a irradiação espetacular que foi a sua a partir dos anos 1950. Assim, nem chegou a passar pelo limbo. Quase ao mesmo tempo, a Espanha com Angel Crespo e a Itália com Luciana Stegagno Picchio alargaram o espaço pessoano, convertendo-o naquilo que fervorosamente, e talvez com pessoana ironia, o mesmo Bréchon chamaria a nossa «petite église universelle». Poética, entenda-se» (Público, 15.8.12). A notícia foi aparecendo, timidamente, a partir da empenhada equipa da Biblioteca Nacional de Portugal, apesar da desatenção geral ditada pelos primeiros dias de Agosto e de vilegiatura, na expressão antiga. Eduardo Lourenço continuava, porém, justamente inquieto, insistia nos apelos, uma vez que o desaparecimento inesperado de Bréchon não poderia passar despercebido – quanto mais não fosse por uma elementar cortesia perante o espírito de um dos maiores responsáveis pelo abrir de portas dos meios intelectuais franceses e europeus não apenas a esse estranho Pessoa, mas sobretudo à literatura portuguesa contemporânea.

 

ESTUDIOSO APAIXONADO
Poderia, porém, pensar-se que Bréchon teria sido apenas um divulgador apaixonado, atraído por uma cultura que foi aprendendo a conhecer numa magnífica imersão total. Não foi, contudo, assim, como se torna evidente ao lermos a sua obra, em análise fina, já que partindo da obra de Fernando Pessoa pôde compreender onde se situou ela, fazendo luz sobre a cultura portuguesa, multímoda e heterogénea, mas captada com intuição e ironia pelo «Guardador de Rebanhos». Bréchon conhecia muito bem o terreno que pisava e não se satisfazia com comentários superficiais e de agenda ou com apreciações epidérmicas. O ensaísta leu com atenção a obra pessoana, conhecendo bem os seus críticos e estudiosos e o contexto em que tudo se situava. Seguiu deste modo um caminho próprio, antecedido pelos passos de Pierre Hourcade (1908-1983), que conhecera pessoalmente o poeta da «Mensagem», e que foi o seu primeiro tradutor. E pôde dizer, como recordou Francisco Seixas da Costa, num dos seus imperdíveis comentários: «é através de Pessoa que Lisboa entra verdadeiramente na literatura universal, tornando-se uma cidade-símbolo como a Paris de Balzac ou de Baudelaire, a Praga de Kafka, a Alexandria de Cavafy, a Dublin de Joyce». E tudo começou no Brasil, quando Bréchon trabalhou pela educação e cultura francesas no país que apaixonara Georges Bernanos. Não vamos recordar os traços da sua biografia, que são conhecidos. A verdade é que no Outono de 1962 chegou a Lisboa, como diretor do Instituto Franco-Português e aqui permaneceu até 1968, inteligentemente atento a tudo, apesar das limitações políticas. É um período muito rico de conhecimentos e de contactos. Amigo de António Ramos Rosa (generoso talento) conhece por seu intermédio Sophia de Mello Breyner, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira e Ruy Cinatti. Com Jacinto do Prado Coelho e João Gaspar Simões (depois da iniciação com Armand Guibert) procede a uma análise aprofundada da complexa obra de Pessoa, na sua heterogeneidade, então numa fase decisiva de revelação através dos múltiplos inéditos provindos da mítica arca. É de 1968, na revista «Critique», o fundamental «Fernando Pessoa et ses Personnages», que suscita a maior curiosidade e o mais vivo interesse na intelectualidade europeia.

 

CONHECER FERNANDO PESSOA
Nos anos oitenta, graças à iniciativa de António Alçada Baptista (outro benemérito da nossa cultura que tem de ser mais lembrado), à altura Presidente do Instituto do Livro, o editor Christian Bourgois lança em Paris uma coleção fundamental dedicada a Fernando Pessoa. Bréchon é indicado por Alçada como um dos coordenadores da iniciativa, na qual será acompanhado pelo melhor colaborador em que poderia pensar-se, Eduardo Prado Coelho. A pedido do próprio Bourgois, Bréchon escreve «Étrange Étranger – Une biographie de Fernando Pessoa» (1996) e, anos mais tarde a editora Aden publicará «Le Voyageur Immobile», onde o ensaísta publicará, de forma mais breve, novo esquisso biográfico do poeta. Atento leitor e cultor da literatura portuguesa, completa, a pedido da Gallimard, «La Litterature Portugaise» de Georges Le Gentile. Mas não poderemos esquecer ainda o interesse pelas obras de José Régio, Vitorino Nemésio e Sophia, além do extraordinário diálogo com António Ramos Rosa, que levou à publicação de «Meditações Metapoéticas», um notabilíssimo encontro de sensibilidades.

 

INTELIGENTE INTERROGADOR DA IDENTIDADE
Além do mais, Robert Bréchon foi um inteligente interrogador da identidade portuguesa, vendo-a de fora e depurando-a de excessos e ilusões: «Visitar Lisboa na peugada de Pessoa não é seguir o empregado de uma agência de turismo, mesmo que este pretenda, como no livrinho inglês, ser o próprio poeta; é deixar-se guiar por ele, como Dante por Virgílio, numa exploração em que o sonho irá constantemente misturar-se com a realidade». E aí encontrar-se-á, em resquícios, «a nostalgia, a recordação triste e terna que a palavra (saudade) designa – e tinge-se de melancolia». Com argúcia, ao falar de «Mensagem», lembra (com fina argúcia) que Maria Aliete Galhoz foi quem definiu melhor o espírito com que o poeta escreveu o livro, através de um fragmento encontrado nos papéis pessoanos: «Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso; viver não é preciso. Quero para mim que o espírito (d)esta frase, transformada a forma para casar com o que sou: viver não é preciso, o que é necessário é criar. Não conto gozar com minha vida; nem eu gozá-la penso. Só quero torna-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha». Foi este sentido universalista que apaixonou Bréchon, para além de todas as circunstâncias. O ensaísta tornou-se assim um cuidadoso revelador de enigmas. E Eduardo Lourenço pôde concluir, em nome da justiça: «o seu savoir-faire podia ser partilhado com a já então imensa família pessoana. Mas a chama que o alimentou era o seu bem próprio. Poderá haver fervores pessoanos gémeos do seu, mas aquele que agora silenciado foi, companhia sua mais íntima de si do que ele mesmo, foi para a nossa cultura uma dádiva pura sem preço» (Ibidem).

 

Guilherme d'Oliveira Martins

6ª Crónica da Viagem ao Brasil (10/09/12)


Em São João d’el Rei, Domingo, na Igreja de São Francisco, a Irmandade da Ordem Terceira saúda especialmente a presença do Centro Nacional de Cultura com grande simpatia. A Profª Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro e faz questão de nos assinalar a grande qualidade do coro e orquestra que acompanham o ofício litúrgico. A cidade tem uma antiga tradição de mais de um século ligada à música clássica coral e sinfónica com um reportório de autores de Minas Gerais. Ao ouvirmos Hossana, Glória in excelsis Deo apercebemo-nos do grande esmero artístico e da excepcional qualidade das obras escolhidas e da sua execução. É um trabalho continuado que nos últimos anos foi reforçado pela formação e pela motivação de músicos de grande saber. São João d’el Rei também é referência fundamental na vida e obra do Aleijadinho, mas Anna Maria Parsons faz questão de nos mostrar duas imagens num dos altares laterais de São Francisco, representando São João Evangelista e São Gonçalo de Amarante. Aqui está António Francisco Lisboa em todo o seu esplendor – e ouvimos, com uma nitidez óbvia a demonstração de que o diminutivo do autor não pode ser pejorativo, é alguém que tem uma elevadíssima formação (estando longe de ser um curioso ou um ingénuo). Foi aluno na escola franciscana no hospício da Misericórdia – de Grego, Latim e História, estudioso da arte europeia do seu tempo, conhecedor da influência ou da inspiração de Bernini. Há no São João Evangelista algo que encontramos no profeta Daniel em Congonhas e de que já falámos. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de São João, recordamos a memória do malogrado presidente Tancredo Neves, descobrimos o templo mais antigo da cidade (1719) – da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, continuamos com Nossa Senhora do Pilar, a matriz, que não podemos visitar mas que é um exemplo rico de talhas douradas célebres. As referências continuam: Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Carmo, e aqui recordamos as gárgulas em forma de canhão que já vimos em Ouro Preto. No entanto, o que nos fica na memória é a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de São Francisco de Assis, com o projecto original de António Francisco Lisboa. Há sempre um debate sobre se teria sido mesmo o genial autor a dar o toque irrepetível na obra-prima, mas o certo é que se nota a marca indelével da sua oficina. A cidade pequena está cuidada e parece congelada no tempo, para gáudio laboratorial de quem procura a especificidade do barroco mineiro. Terminamos o dia em Tiradentes no Solar da Ponte. A recepção é cuidadosa e esmerada, com um chá das cinco horas dado como ditam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos como temos de recusar muitos equívocos sobre a ideia falsa de que entre 1730 e 1789 houve uma decadência inexorável de Minas Gerais, por não se estabelecerem novas explorações mineiras. De facto, o espaço já estava delimitado e desenvolvia-se a actividade agropecuária e a economia. Por fim, Suely Campos Franco diz-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas. Um forte intercâmbio cultural que merece ser mais estudado aprofundadamente.

5ª Crónica da Viagem ao Brasil (09/09/12)


 

 

Deixámo-los na nossa última crónica no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas. Estamos numa zona que cresceu com a grande quantidade de ouro descoberta ao longo do rio Maranhão. O Santuário foi iniciativa de Feliciano Mendes, um português abastado que fez uma promessa de cura. Livre da doença em 1757 começou a erguer a basílica. Temos o adro, os passos da Paixão e a igreja. Os passos da Paixão são sete cenas, em seis capelas, com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo genial Aleijadinho e seus ajudantes. O adro tem as figuras de 12 profetas esculpidos em pedra sabão por António Francisco Lisboa – Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre as escadas, Baruc e Ezequiel e na amurada após as escadas: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. “Estamos, diz Vitorino Nemésio, em presença de uma autêntica escultura sinfónica gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela concepção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que dos bucres de cabelo aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamares da indumentária, assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca”. Fomos para Tiradentes, cidade que nasceu em 1702, a partir do arraial da Ponta do Morro, que passou em 1718 a chamar-se Vila de São José d’el Rey em homenagem ao príncipe D. José, adquirindo a actual designação depois do fim do império e da proclamação da republica. Hoje é uma atracção turística por ter o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que, depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá poucas surpresas: puro engano! Não nos surpreende o chafariz de São José de Botas, até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750 e uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um equilíbrio e uma teatralidade barroca que nos prende e atrai: colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. É talvez a mais requintada das igrejas do barroco de Minas Gerais. O entalhador João Ferreira de Sampaio manifesta aqui o seu enorme talento, percebendo-se que tem conhecimentos ou contactos com a arte italiana e notando-se nitidamente as repercussões de Bernini. O altar-mor domina nitidamente. A imagem de Nossa Senhora da Conceição do lado do Evangelho é de uma beleza superior. Há ainda duas representações em pintura, uma clássica da última ceia e outra muito original das bodas de Caná como se fora um banquete do século XVIII. A igreja da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tem um altar-mor interessante de talha dourada com retábulos laterais dedicados a São Benedito e Santo António de Cartagerona e obriga a uma vigorosa atenção. Depois de um almoço de cozinha mineira que nos encheu as almas, visitámos o excelente Museu da Liturgia, inaugurado neste ano de 2012 e que deixou muito boa impressão. O fim-de-semana alargado do feriado da Independência trouxe a Tiradentes muitos turistas. O movimento na cidade é muito intenso e, ao contrário do que nos aconteceu até agora na maior parte dos casos em que visitámos praticamente sós os monumentos (à excepção de Ouro Preto), a concorrência é muito significativa o que não impede que gozemos intensamente a beleza das obras de Arte.

4ª Crónica da Viagem ao Brasil (08/09/12)


A névoa rodeava de manhã o Itacurumi, que no cimo da montanha simboliza o Ouro Preto e permitiu que os Bandeirantes encontrassem aquele local onde tinha sido descoberto o ouro paladiado, enegrecido pelo óxido de ferro. Essa neblina que se dissipou praticamente até ao momento em que deixámos Ouro Preto é uma das características da cidade, o que levou um dia Carlos Drummond de Andrade a parodiar o facto, quando no Hotel Toffolo não lhe deram a refeição, por não se ter inscrito como mandavam as regras. Disse então que ao menos se alimentaria de névoa matinal: “tudo se come, tudo se comunica, tudo no coração é Ceia”. A cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica fica-nos bem no coração. Lembramo-nos da tarde memorável: Nossa Senhora do Pilar de estilo joanino, a segunda igreja mais rica em talha dourada do Brasil depois de São Francisco de Salvador da Bahia; Nossa Senhora da Conceição com o projecto de Manuel Francisco Lisboa, com o Museu do Aleijadinho apoiado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, a fonte de Marília, além do Museu das Minas. E como esquecer o Museu do Oratório com os exemplos preciosos de oratórios de viagem, de esmola e de bala? Mas a peregrinação tem de prosseguir e dirigimo-nos nesta manhã do dia da Independência, 7 de Setembro (que há anos assinalámos nas margens do Ipiranga) para a cidade de Mariana, não sem que antes nos tenhamos detido na mina de Passagem que esteve em actividade de 1819 a 1985 e de onde foram retiradas 30 toneladas de ouro. Descemos no pequeno trem às galerias ainda visitáveis, percorrendo 350 metros para descer 150 de profundidade e falamos das condições a que eram submetidos os mineiros de outrora, com vida muito curta afectados pelas doenças profissionais originadas pelo pó de quartzo. Já chegados à cidade, na Sé de Mariana (a antiga Vila Real de Nossa Senhora do Carmo, baptizada em honra da mulher de D. João V) ouvimos Josinéia Godinho tocar magnificamente Cabanilles, Nebra, Pablo Bruna, Buxtehude, Georg Bohm e Albinoni no órgão único de Arp Schnitger instalado em 1753 na catedral. Tudo leva a crer que teria sido destinado primeiro a Mafra, mas o som germânico teria sido considerado menos adequado ao convento franciscano. Na praça de Minas Gerais deparamo-nos com as imponentes igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo em frente da Câmara Municipal e da cadeia, tendo no centro um pelourinho identificado pelas armas do império com esfera armilar, estrelas e cruz de Cristo. Mas o tempo urge pois temos de chegar rapidamente a Congonhas, para fazer a justíssima homenagem ao Aleijadinho que já nos deixara rendidos em Ouro Preto. Não fora a multidão agitada que invadia literalmente o santuário e teríamos gozado com maior intensidade esta explosão de genialidade, a que voltaremos.

3ª Crónica da Viagem ao Brasil (07/09/12)


Hoje, no velho Toffolo de Ouro Preto, Leonor Xavier com o Prefeito Ângelo Oswaldo inauguraram de facto o Ano Portugal no Brasil a falar de “Um rio que corre sem parar”. “Viajar pelo Brasil – diz Vitorino Nemésio – não é só conhecer a maior fundação de Portugal a distância e um país novo e imenso que originalmente se afirma sem renegar tais raízes: é criar uma nova perspectiva da pátria no regresso. A afinidade e o paralelo orientam-nos a visão transatlântica de uma realidade histórica solidária… Onde a terra e o clima resistiram à vontade uniformizadora do colono e onde o aborígene e o brasileiro histórico chegaram a formas de uma civilização espontânea e própria, as diferenças robusteceram a consciência do idêntico, e Portugal e Brasil gravitam na imaginação do reinol num milagroso equilíbrio de ajustes e contrastes”.
Ontem, a nossa entrada gloriosa em Vila Rica, Ouro Preto, fez-se numa antiga jardineira dos anos 30, com motor Mercedes Benz. Era o fim de tarde, já noite e a cidade estava cheia de movimento e entusiasmo. A Praça de Tiradentes, o antigo Palácio do Governador, a Câmara, o Museu da Inconfidência e o presépio vivo da cidade iluminada – com as suas 28 Igrejas de antiga capital: Nossa Senhora da Conceição, do Pilar, da Ordem Terceira do Carmo, do Rosário dos Pretos, Santa Efigénia, São Francisco de Paula, Mercês e Misericórdia, Mercês e Perdões, São Francisco de Assis… Como habitualmente, somos mimados com as melhores iguarias mineiras… E quando acordamos esta manhã bem cedo na Pousada do Mondego, temos a certeza de que somos saudados pela natureza e pela História. Lá está no alto da montanha o Itacorumi, ou Pedra de Criança, o símbolo de Outro Preto. O dia glorioso começa da Igreja de São Francisco de Assis, onde sentimos as influências de Manuel Francisco de Lisboa e do seu filho o genial Aleijadinho. Estamos perante o barroco mineiro no seu esplendor – o primado do movimento e da curva que tanto entusiasmará os modernos. Depois, visitamos a casa onde viveu o Ouvidor da comarca de Vila Rica, o árcade Tomaz António Gonzaga, o Dirceu de Marília, a jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Seguimos para a Praça do Tiradentes, visitamos a Igreja do Carmo, encontramos o azulejo como elemento decorativo fundamental e vamos ao Museu da Inconfidência. O dia intenso de subidas e descidas em ruas íngremes chega ao fim da tarde ao hotel Toffolo, onde falamos de Nemésio mas também de José Aparecido de Oliveira e da sua ideia fixa de lusofilia. Agostinho da Silva, Jaime Cortesão, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Morais ou Cecília Meireles, mas também António Alçada Baptista, Jorge de Sena, António Cândido, e Odylo Costa Filho. O Prefeito Ângelo Oswaldo e Leonor Xavier lembraram bem o tempo que se constrói como uma amizade de dois sentidos.

A EUROPA À LUZ DE UMA HISTÓRIA RICA

 

 

Já no sec. V a.C., Heródoto comentava acerca da Europa, heroína  mítica, nome de Oceânide ou Fenícia que Zeus, disfarçado de touro, raptara: "o mais curioso é que a Tiriana Europa era asiática de nascimento e nunca veio a esta terra a que os Gregos hoje chamam Europa". Geograficamente, aliás, a Europa é uma península da Ásia, um território multifacetado e caprichosamente desenhado, que se estende, a norte do Mediterrâneo, dos Urais ao Atlântico. Economicamente, albergou ou participou em várias economias-mundo, essas entidades a cavalo sobre diversos impérios, civilizações e culturas, mas consolidadas por uma auto-suficiência económica, que lhes é facultada pela hegemonia do comércio em que participam. O conceito surgiu com "La Méditerranée et le monde méditerranéen à l´époque de Phillipe II" de Fernand Braudel, em 1976. Quiçá já com vocação política, a noção de Europa aparece pela primeira vez num texto do monge britânico Bedo, o Venerável, por volta da vitória de Carlos Mardel sobre os sarracenos em Poitiers (em 732). E é essa travagem do avanço muçulmano que, na Europa Ocidental, confinando o Islão à Península Ibérica, dá um sentido político à Europa. Três décadas mais tarde, em 769, o espanhol Isidoro, o Jovem, narrando essa batalha, conta: "Saindo pela manhã de suas casas, os Europeus deparam com as tendas bem alinhadas dos Árabes". Será da consciência da cristandade europeia que nascerá uma Europa culturalmente identificável pelo seu enraizamento, apesar de todas as suas diversidades internas. Mas politicamente, desde o "Pai da Europa", Carlos Magno, e, da tentação unificadora dos sacro-impérios que se lhe sucederam, ou da do poder temporal do Papa até aos nossos dias, a união europeia tem-se ficado pela utopia, causando tantas vezes, infelizmente, conflitos e guerras. A consciência da cristandade europeia e do seu território desenha-se, a partir da queda do Império Romano do Ocidente, nos quatro séculos seguintes. Já Estrabão observara que os Romanos "detêm quase toda a Europa, menos a parte que se situa além do Ister (Danúbio) e as margens do Oceano entre o Reno e o Tanaís (Don)". De facto, quase desconheciam a Escandinávia e as planícies bálticas, nunca conquistaram a Germânia, e só com Trajano, no princípio do sec.II, ocuparão a Dácia (Roménia), além Danúbio. Com as invasões bábaras e a queda do Império do Ocidente, em 476, a cristandade vai acentuar a divisão entre oriental e ocidental, iniciada pela separação do Império Romano entre Bizâncio e Roma, em 395, até ao cisma de 1058. Mas, enquanto o Império e a cristandade orientais viriam a ser submetidos, com a tomada de Constantinopla em 1453 ao poder do Islão Otomano, ao cristianismo converter-se-ão os invasores e conquistadores do Império Romano do Ocidente, vindo assim a cristandade a ocupar, para além da que fora romana, a Europa toda, mais o norte de África. Este será islamizado, três séculos depois, pela expansão almóada e almorávida, que ocupará ainda a Península Ibérica, antes de ser definitivamente derrotada em 1452, em simultâneo com a queda de Constantinopla e o desaparecimento da entidade política da cristandade oriental. Pouco depois, a Reforma irá dividir a cristandade ocidental (excomunhão de Lutero e Dieta de Worms em 1521). Contudo, nem a fronteira religiosa -  que vem separar a Europa do Norte, protestante, da do Sul, católica - nem as guerras da religião - que também alimentaram os conflitos decorrentes da expansão de novas potências ultramarinas (Inglaterra e Holanda) por mares e terras que o Tratado de Tordesilhas partilhara entre os reinos católicos da Ibéria - foram suficientes para anular a consciência da Europa como cristandade. Como apontamento curioso, refiro que, ainda no sec. XVII, em regiões teutónicas, se encontravam clérigos que, ao serviço do povo cristão,celebravam missa para os católicos e o ofício luterano para os protestantes da sua área. Aliás, já travado o avanço otomano em Lepanto (1571), a Europa conhecerá a afirmação progressiva de nacionalidades e a constituição de estados nacionais que, com alianças várias apagando distinções religiosas, andarão em guerra uns contra os outros durante mais de quatro séculos. E também se lançará, com força, no prosseguimento da expansão ultramarina,em que as rivalidades europeias se traduzem na luta pelo domínio de rotas e centros comerciais,e do abastecimento em especiarias, matérias-primas, artefactos e metais preciosos, e mão de obra, que, mais tarde, levará à instalação de colónias e á formação de impérios coloniais. Durante séculos, os europeus viverão com guerras intestinas, mas a descoberta e o encontro com povos, civilizações e culturas diferentes despertarão uma consciência europeia como modo próprio de estar no mundo. E o esforço missionário levará a outras paragens valores cristãos que, mesmo aculturando-se, conservarão o seu cariz europeu ou "ocidental". Podemos dizer que a consciência de ser Europa se forma como a de ser cristandade, desde a comunhão na fé de bárbaros díspares e romanos à identidade definida pela oposição à ameaça islâmica, e até à perceção de si pela descoberta do denominador comum face às outras humanidades que a expansão ultramarina foi revelando.... Erasmo, padre católico e conselheiro de Carlos V para a aproximação entre católicos e protestantes, escrevia no seu "Querela Pacis": "A distância entre países separa os corpos, não as almas. Antigamente, o Reno separava os Franceses da Alemanha, mas o Reno não pode separar o cristão do cristão. Os Pirinéus formam fronteira entre Gauleses e Espanhóis, mas esses mesmos montes não podem dividir a comunidade cristã. O mar separa os Ingleses dos Franceses, mas não pode romper os laços da sociedade de Cristo... Cristo é o conciliador de todas as coisas..." E é interessante dar uma olhadela ao que se escreveu na " idade das luzes": para Voltaire: "A Europa é uma espécie de grande república partilhada por vários Estados, uns monárquicos, outros mistos, estes aristocráticos, aqueles populares, mas todos correspondendo uns com os outros,todos tendo um mesmo fundo de religião,ainda que divididos por várias seitas"... Diderot e d´Alembert (no artigo "Europa" da Enciclopédia): "Pouco importa que a Europa seja a mais pequena das quatro partes do mundo pela extensão do seu território, posto que é a mais considerável de todas pelo seu comércio,pela sua navegação,pela fertilidade,as luzes e a indústria dos seu povos, pelo conhecimento das artes, das ciências, dos ofícios, e por aquilo que é mais importante, pelo Cristianismo, cuja moral benfazeja conduz à felicidade da sociedade"... Rousseau: "Todas as potências da Europa formam um sistema que as une pela mesma religião. Não se pode negar que é fundamentalmente ao Cristianismo que a Europa deve o tipo de sociedade que se perpetuou entre os seus membros"... O Iluminismo vai, aliás, buscar à tradição cristã europeia os valores que racionalizará e universalizará. Os mesmos que a expansão europeia difundiu pelo mundo e hoja constituem o "corpus" ético e jurídico da sociedade internacional: a dignidade da pessoa humana, o valor universal do homem, filho de Deus, como medida de todas as coisas, a consciência individual, cuja liberdade apela à responsabilidade, a razão, da qual como diz S. Tomás de Aquino até a fé é serva, o trabalho como cooperação na criação do mundo, a distinção entre o religioso e o político (contrariamente às tradições judaica e islâmica), sem prejuízo do empenhamento cívico de cada um: dai a César o que é de César... Nem sempre a Igreja visível, "oficial", se conduziu de acordo com estes princípios. Mas eles permaneceram, apesar dos desvios e aberrações eclesiais ou clericais, como fundamentos da vocação divina e universal do Cristianismo e como estrela polar da consciência europeia.

Camilo Martins de Oliveira

2ª Crónica da Viagem ao Brasil (06/09/12)

 
Rua da Quitanda, Casa do Muxarabié, o comércio crepita nas margens do Jequitinhonha na cidade de Diamantina, com intensidade: panos, bugigangas, tapetes de Arraiolos, livros e botecos – mas a cidade dir-se-ia que é o século XVII plantado no nosso século XXI. O Muxarabié é o balcão em treliça de influência moura, que esconde a biblioteca do Dr. António Torres, cuja bengala se tornou celebre na prosa de Vitorino Nemésio ao relatar Etas suas andanças. Aqui não havia ordens relig...
 
iosas, apenas as irmandades e no calcorrear dos lagedos das ruas seguimos o itinerário canónico: Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a matriz evocativa de Santo António com dois preciosos altares da antiga Igreja em talha dourada – Nossa Senhora à direita e Santo António do lado do Evangelho, a Igreja de São Francisco de Assis, em frente de onde está a estátua do herói da cidade, o Presidente aqui nascido Juscelino Kubitchek, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a mais antiga da cidade (com a presença dos santos António de Cartagerona, Benedito, Efigénia e Alesbão. Ao almoço, no restaurante Apocalipse, no largo do mercado, continuamos servidos principescamente com a divinal cozinha mineira e as sobremesas que são verdadeiramente o Menino Jesus em metáfora doce. A cidade poderia estar no Minho ou nas Beiras. Passamos pela casa de Xica da Silva por quem se enamorou o contratador João Fernandes, casa com eira e beirado à antiga portuguesa. Mais adiante, a morada do Inconfidente Pe. Rolim, desta terra que foi São Francisco de Tijuco e hoje alberga o chamado museu do Diamante. Deambulámos pelos altos e baixos da cidade, tomámos contacto com o barroco e o rococó dentro do recato próprio de uma cidade excêntrica que conseguiu manter a descoberta de diamantes escondida durante mais de duas décadas e terminamos a jornada na casa do Presidente Juscelino, criador genial de Brasília, e no Passadiço da Glória, verdadeiro ex-libris da cidade, a lembrar o tempo em que o velho orfanato era incomodado pelo barulho suspeito do bataclã. À noite tivemos Seresta, que é a nossa serenata, com uma ternura muito especial, e ecos ora do fado, ora das mornas cabo-verdianas.

E pela manhã muito cedo, às seis horas, à hora prima de tempos imemoriais, voltámos à estrada em direcção a Inhotim, passando à ilharga de Belo Horizonte. E que é esse parque imenso de futuro, iniciativa de Bernardo Paz? Um encontro único da arte de hoje, da botânica e do meio ambiente, da cidadania e da inclusão, do desenvolvimento sustentável e da educação. Janett Cardiff joga com o som, Adriana Varejão com os azulejos, os corpos com Edgar de Sousa e os espaços com Cildo Meireles… Inhotim é a certeza de que é o futuro o que o passado anima.

Ivan Turguéniev, também conhecido como o inventor do termo nihilista

 

 

Turguéniev autor de “Pais e Filhos” considerado uma das obras-primas da ficção russa do séc. XIX e a que a Relógio d’Água deu chancela, foi escrito entre 1860 e 1862, exactamente quando, na Rússia, o czar decretava o fim da servidão.

 

Curiosamente no romance “Pais e Filhos” recusa-se tanto o conservadorismo das gerações mais velhas, como o radicalismo da juventude e Turgéniev chamou o protagonista do livro de "nihilista", cunhando assim o termo.

 

De registar que Ivan fora vítima de uma mãe desmesuradamente despótica, reflectindo-se ao longo da sua obra esta tremenda realidade, e conhece o grande amor da sua vida em Pauline Viardot , uma cantora de ópera espanhola, casada, e com quem viria a relacionar-se profundamente na cumplicidade do marido da solista. Mencione-se que nasce uma filha de Ivan e Pauline e, segundo amigos comuns, a servidão de Ivan ao sentimento sentido por ambos marca-lhe os dias até à sua morte em França em 1883.

 

Contudo, o facto de ter cursado Filosofia deixa-lhe a inquietude no dizer, nomeadamente e incessantemente, o quanto a arte de um povo é a sua alma viva (…) e esta quando atinge a sua expressão plena, torna-se património de toda a humanidade (…) justamente porque a arte é a alma falante e pensante do homem, e a alma não morre, sobrevive à existência física do corpo e do povo.

 

Refere-se que no seu romance "Fumaça" (1867) encontramos o desabafo de um homem cansado e descontente. Contudo, através da Arbor Litterae que é uma chancela de Estrofes & Versos, em 2010, chego à leitura do livro de Turguiéniev “ Diário de um homem supérfluo”.

 

Supérfluo (…) excelente esta palavra que encontrei. Quanto mais profundamente me esmiuço a mim próprio (…) mais me convenço da rigorosa verdade desta expressão. Um homem supranumerário – e é tudo.

 

Pareceu-me um alerta vivíssimo a todos os que a vida trata como hóspedes não esperados nem convidados: a todos os que sentem constantemente os seus lugares já ocupados por erro na procura do lugar onde deviam.

 

Recorde-se que o termo nihilista chega aos nossos dias com o significado de ausência de sentido, finalidade ou resposta em áreas muito diversas. Ainda assim, cai o pano, exactamente quando a vida se retira da luta, e se aniquila o próprio nihilista, justificando-se que assim deixa esta realidade, ela própria, de ser supérflua.

 

Dizia Ivan que a sua mãe era mulher oprimida sob o fardo das qualidades, atormentando toda a gente com a sua virtude, e afinal, esta grande causa da azáfama deste escritor consigo mesmo, também nos atinge, e sempre, pela sua obra generosa de grande pensador, sobretudo quando nos julgamos conhecer.

 


Teresa Vieira

PS - Creio desta feita ter chegado mais perto acerca do que me entusiasmou na leitura de Ivan Turguéniev.

Viagem do CNC ao Brasil 2012 - Crónica 1

 

 

Compreendemos ontem razoavelmente bem um pouco do que sofreram os bandeirantes que partiram em regra de São Paulo, dispostos a correr muitos riscos e a sofrer todas as agruras e contratempos em busca das riquezas de um território com preciosidades, desconhecido e com uma dimensão dificilmente concebível para europeus habituados aos limites do ocidente da Península Ibérica. O caminho de Belo Horizonte para Diamantina foi longo e muito atribulado. Estamos em Minas Gerais em busca da presença portuguesa, desde a descoberta das riquezas minerais até aos nossos dias. Chegámos no Sábado a Belo Horizonte e deparámo-nos com uma capital de Estado do fim do século XIX, organizada através de uma planta ortogonal, com artérias paralelas e perpendiculares sob o traço seguro de Aarão Reis, engenheiro paraense. A urbe substitui Ouro Preto como centro administrativo mineiro e cresceu muito mais do que previram os seus planeadores.

 

Nas margens do lago da Pampulha, ao pôr do sol, homenageámos Oscar Niemeyer e fizémo-lo na sua igrejinha de São Francisco de Assis – ideia de Jucelino Kubitchek de Oliveira. Os azulejos de Po rtinari e a simplicidade do arquitecto trazem-nos uma inesperada espiritualidade. E falámos do fascínio que esta obra causou em portugueses como Nuno Teotónio Pereira ou Ruben A.

 

Em Sabará, já na segunda-feira, onde nos últimos anos do sec XVII se descobriram das primeiras jazidas de ouro de aluvial, tivemos o deslumbramento do modelo das igrejas dos primeiros tempos dessa colonização sob a invocação de nossa senhora do ó. O altar-mor apresenta-se como modelo do barroco mineiro policromado, com motivos florais exuberantes e chinoiseries inesperadas. Em Itabira, com um dia glorioso e um almoço mineiro típico, de múltiplas iguarias, de comer e chorar por mais viemos prestar homenagem a Carlos Drummond de Andrade na sua casa da juventude. Poeta maior da língua portuguesa lembramo-nos: “por muito tempo achei que ausência é falta / e lastimava ignorante a falta / hoje não a lastimo. “

 

O caminho de Diamantina é muito longo e inóspito, já o disse, com estradas difíceis e paisagens que nos acompanham e fazem lembrar o sertão do Brasil do Séc. XVII.

 

Pomo-nos na pele dos bandeirantes e lembramos Fernão Dias Paes Leme e Borba Gato em busca do Ouro e das pedras preciosas. Os seus fantasmas assolaram os nossos espíritos na incerteza do caminho! Mas no fim a hospitalidade foi magnífica.

 

Guilherme d'Oliveira Martins