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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

Sir Thomas G and, the Penguin on the shelf

 

Será até conservadorismo, but, frankly, the Penguin! Um olhar to the friends on the shelf: sure. Uma ida to beloved bookshop: check. Troca de impressões com the precious librarian: In no doubt. Mas é assim, home-haus ponto §. Aprovaram a fusão da UK Pearson's Penguin com a Bertelsmann's Random House. – Oh, le mignon manchot! É daquelas resoluções que fazem todo um género e irrompem na época da queda da folha, cyclically, talvez acesas por backlighted fireworks à Guy Fawkes após delinear plano da pólvora nas Westminster cellars. – And what about the Old Guardian to go completely digital? São algo misteriosas, somehow inappropriate, somehow careless, e sempre com amplos efeitos na daily life. Em 1984, November 12 o Autumnal statement chega também sem exato porquê e para quê. O Chanceler of Exchequer do Thatcher Govt decreta: Pounds coin in; Quid notes out. Numa penada, a custo alto na cunhagem dos metais, the green English pound note is to disappear! Desde tal despacho de Mr Nigel Lawson, key-person da privatization policy nos 80s, que sondo onde andará o outoniço espírito de Sir Thomas G.

 

 

Será pois frenesi epocal. Os dias vão curtos no Indian Summer. O novel eixo London-Berlin assoma junto ao 2012 Armistice Day e ao global warming-vote de Mr Michael Bloomberg, precisely quando os norte-americanos elegem o inquilino de 1600 Pennsylvania Avenue com metade de Manhattan NY às escuras e no York Way estudam como parar as rotativas, quiçá salvar árvores, arbustos e herbáceas espécies afins ou até revolutionarily substituir o morning paper por pão e laranjas da China. Ora, sabendo dos géneros que o Old Manchester Politburo usa, o Mayor de London sopra já no apito. Escreve Mr Boris Johnson no Telegraph: “Save The Guardian from extinction!“ Sem mais.

 

 

Meanwhile, espelhando as peculiar weather conditions, o dueto Penguin+RandomHouse reconfigura a world’s book industry. Ver-se-á se e quanto a aliança continental no food for thought culturalmente pauperiza, ou não, as já economically stressed generations. Para já, a vote: que The Penguin Press seja very happy e produza muitos mais dos primorosos paperbacks que demudaram a Great Britain (e as redondezas) de um país de book-borrowers numa nação de book-buyers. Sir Allen Lane alegrar-se-á algures, a exemplo dos autores por si impressos em 1935: Agatha Christie, André Maurois e Ernest Hemingway, cada um então pioneiro do green for mistery, blue for biography e orange for fiction.

 


Ora, num marvellous Movember se sabe da golden decison de Sir Thomas G acerca do rumo a dar ao negócio familiar quando abandonasse esta vida.

 

 

The last will do melhor sucedido Royal Agent nos Low Countries é um documento notável a vários títulos; pelo valor, sim, mas também pela visão e legado do Gentleman Merchant que desde 1500s tem name, sign e coat of arms disseminados pelo financial district. “The wealthiest citizen of England” simplesmente retorna à comunidade, via Mercer’s Company e City of London, 2/3 da imensa fortuna em ouro e prata que acumulara no triângulo Antwerp-Madrid-London. Ao sagaz segundo filho e neto de Lord Mayors, casado com a tia Anne de Sir Francis Bacon, se devem a Royal London Exchange e o Gresham College das free public lectures (e a defunct club). Ele é o financial wizard que salva Edward VI, Mary e Elisabeth I da bankrupcy, sagrando em epístola para o Palace of Whitehall popularíssima lei económica: “Bad money drives out the good money.” Por onde passeará nos dias de unholly alliances o grasshopper da Lombard Street, inspirador quer do Walter Bagehot’ lender of last resort, quer dos Monty Python’ dully life? – Tell me if you see Sir Thomas Gresham, please.


St James, 6th November

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS


de 12 a 18 de Novembro de 2012

 

Ao lermos o livro de José Pedro Castanheira «Jorge Sampaio – Uma Biografia» (Porto Editora, Edições Nelson de Matos, 2012), cujo primeiro volume acaba de ser dado à estampa, estamos perante o exemplo de um bom e indispensável exercício de história política. Mais do que uma biografia tradicional, a obra contém, a partir da personalidade multifacetada de Jorge Sampaio, o retrato de um período fundamental da vida nacional, no qual o Centro Nacional de Cultura tem lugar destacado.

 


HISTÓRIA E LIBERDADE
A história política é uma disciplina fundamental que tem de regressar à ribalta, em nome da liberdade crítica e da cidadania. Sem a compreensão dos acontecimentos e das escolhas políticas, não poderemos entender a dimensão social e cultural do mundo. Como dissemos, mais do que uma biografia tradicional, a obra contém, a partir da personalidade multifacetada de Jorge Sampaio, o retrato de um período fundamental da vida nacional (a fase final da preparação da revolução democrática até ao início dos anos noventa). Como afirma Vasco Pulido Valente, no ano de 1962, momento crucial que a obra analisa, «o movimento associativo» (protagonizado por Sampaio) «foi o movimento mais poderoso contra o antigo regime, que tinha um público cativo, instalações com salas de reuniões (em que a polícia não podia intervir), automóveis, impressoras e dinheiro, o que nenhum partido político teve em Portugal». Aí esteve o detonador dos elementos históricos que suscitaram a aceleração dos acontecimentos – início das guerras coloniais, confronto entre correntes no seio do regime, abertura efetiva de fronteiras através da EFTA contra o protecionismo (desde 1959), seguindo-se os anos da transição, desde o fim do consulado de Salazar ao tempo de Marcelo Caetano. José Pedro Castanheira é um jornalista inteligente, criterioso nos pormenores e na recolha de provas, exaustivo no tratamento dos temas – e sobretudo rigoroso na concatenação dos eventos e das suas razões – inserindo-os na análise da sociedade portuguesa. Perceber-se-á, pois, por que razão falei de história política. De facto, estamos perante um livro de política que serve para demonstrar que a democracia precisa de valores, de ideias, de vontade, de ação e de determinação; e estamos também perante um livro de história porque é através dela que enquadramos e entendemos a política. Ao lado da entrevista biográfica de Mário Soares por Maria João Avillez, a obra de José Pedro Castanheira constituirá por certo um «vademecum» indispensável para a compreensão dos acontecimentos portugueses recentes. Nenhum estudioso da vida política nacional poderá, de futuro, deixar de ter em consideração o que está escrito e o que é revelado nestas duas obras, que revelam o pensamento e a ação de protagonistas (diferentes e complementares) privilegiados de um tempo muito importante de consolidação da democracia.

 

UM IMPRESSIVO RETRATO
Na verdade, dispomos do impressivo «retrato de uma geração que lutou contra a ditadura e ajudou a construir a democracia». E temos, neste volume biográfico de Jorge Sampaio, «o relato do último meio século da vida portuguesa». O arquivo consultado é muito rico, as pessoas entrevistadas constituem uma panóplia diversificada: de familiares, amigos, colegas de profissão, companheiros de lides políticas, mas igualmente críticos, opositores e adversários. A leitura é atraente, sentindo-se, a cada passo, que Jorge Sampaio se mistura com a multidão e ora vemos o jovem estudante originário de uma família com velhas raízes (o clan dos Bensaúdes), ora encontramos os amigos, os colegas e os Pais, o Dr. Arnaldo Sampaio, um especialista prestigiado no campo da saúde pública e a Mãe, uma educadora atenta e uma cidadã discretamente ativa. Os episódios sucedem-se, com pormenores pitorescos e deliciosos. Vários são os exemplos. Como não salientar a sã cumplicidade dos pais, que possibilitam, por exemplo, que Eurico Figueiredo fique dois meses escondido no sótão da casa de Campolide até à partida para o exílio de Genebra? E o episódio surpreendente, na estrada dos Cabos Ávila, com o pai a libertar o filho de uma multa do modo mais inesperado? E como não lembrar o encontro da oposição em Paris nos idos de 68, onde ressaltam as divergências sobre a primavera de Praga, mas também um certo fascínio sentido por Sampaio relativamente à personalidade de Álvaro Cunhal?

 

UM PERCURSO BIOGRÁFICO
O caminho do livro segue a infância entre Sintra, Campo de Ourique e Baltimore, continua no liceu Pedro Nunes, como o melhor aluno de inglês, chega à Faculdade de Direito de Lisboa, onde Sampaio se torna presidente da Associação Académica por um voto, sendo depois Secretário-Geral da RIA e líder da crise académica de 62. Não se compreende estes acontecimentos sem ler esta biografia e sem acompanhar a geração que rodeia Jorge Sampaio. Uma vez terminada a licenciatura, temos o casamento com Karin Dias (filha dos famosos antropólogos Margot e Jorge Dias), o envolvimento político no MAR (Movimento de Ação Revolucionária), com algum ceticismo, mas lealdade, o diálogo com católicos e comunistas, em especial nas revistas «Seara Nova» e «O Tempo e o Modo» (e no Centro Nacional de Cultura, com Joana Lopes e J.M. Galvão Teles). Mas há a profissão: segue a advocacia e especializa-se no tema da propriedade industrial, defende presos políticos nos tribunais plenários (comunistas, católicos, sindicalistas e poetas) e pretende fazer política de oposição de outra maneira, é o tempo em que é lançado no CNC o célebre ciclo com a intrigante pergunta «Lusitania, Quo Vadis?». E esta iniciativa será sobretudo importante pelo incómodo que causa ao regime e pela capacidade de mobiliza uma nova corrente de opinião. Como socialista independente, próximo das posições de Mendès-France e de Michel Rocard, procura um pensamento alternativo, rompendo com a oposição clássica, por descrença da acomodação do «reformismo». A tensão que sempre existe com a social-democracia de Mário Soares dará lugar a uma inteligente linha de convergência racional, apesar das diferenças. E chega o 25 de Abril, com o processo de gestação do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Vem a recusa do esquerdismo. Jorge Sampaio afasta-se do voluntarismo basista. Torna-se Secretário de Estado de Ernesto Melo Antunes durante quatro meses. Depois, nasce a Intervenção Socialista nas vésperas de 25 de novembro de 1975, envolvendo o grupo almoçante do Hotel Flórida, que saíra do MES, porque os seus membros não eram marxistas-leninistas, no sentido clássico do termo. Há o sonho impossível de uma frente de esquerda. E seguem-se as negociações com Mário Soares e a entrada em grupo no PS, «porque política a sério só nos grandes partidos». A vocação internacional de Sampaio é aproveitada no contencioso escaldante com Moçambique. Vêm o Secretariado do PS, cinco anos em Estrasburgo na Comissão Europeia dos Direitos do Homem em Estrasburgo, a participação na Frente Republicana e Socialista, na procura de alargamento do espaço do socialismo democrático à direita (ASDI) e à esquerda (UEDS), a campanha presidencial de Ramalho Eanes e depois as vicissitudes e a derrota do ex-secretariado no PS, com uma travessia do deserto, que culminará com a eleição presidencial de Mário Soares e com o virar de página no PS com o novo ciclo político da liderança de Vítor Constâncio, a crise do PRD, a maioria absoluta de Cavaco Silva, a demissão de Constâncio e a chegada de Sampaio à liderança do partido, depois da presidência do Grupo Parlamentar («No PS, tudo é possível!», dirá).

 

UM CAMINHO DE COERÊNCIA
Conheci melhor Jorge Sampaio nesse tempo, como aliás é referido pelo autor. Fomos “companheiros de carteira” na comissão política do MASP – e tivemos uma relação de convergência nos valores fundamentais. Com muitos amigos comuns, senti sempre em Jorge Sampaio uma profunda preocupação de coerência, de clareza e do que os ingleses designam por “fairness”… Ao lermos a primeira parte da biografia de Jorge Sampaio, notamos a cada passo a ligação entre a política e a cidadania. Se é certo que há por parte de Jorge Sampaio uma tendência muito próxima do PSU francês, que nasceu sobre os escombros da velha SFIO que fora arrastada pela queda da IV República, não é menos verdade que, depois do confronto protagonizado pelo ex-secretariado, e por força do compromisso que se tornou necessário nessa fase crítica, não podemos esquecer que a candidatura presidencial de Mário Soares em 1985-86 veio redesenhar o Partido Socialista, mercê de um compromisso que lhe permitiu sobreviver às vicissitudes sofridas por partidos congéneres do sul da Europa. O pragmatismo de Mário Soares e a renovação da sua família política permitiram a preservação de uma continuidade e de uma coerência assente na complexidade e nas diferenças. É, aliás, muito curiosa a premonição, em 1963, assumida por António Alçada Batista no primeiro número da Revista “O Tempo e o Modo”, onde lado a lado se encontram Mário Soares e Jorge Sampaio. Dir-se-ia que estamos perante a representação da democracia ansiada: baseada no pluralismo, numa forte ideia de compromisso constitucional, envolvendo o republicanismo socialista, o novo socialismo protagonizado pela geração do movimento associativo de 1962 (ciente da importância de uma abertura à esquerda) e a hipótese de uma direita moderada, democrática, próxima da democracia cristã italiana, mais ou menos socializante, representada pelo próprio Alçada Batista. Acontece, porém, que muitos dos católicos do grupo da revista assumiriam uma opção mais alinhada à esquerda (com evidentes influências da América Latina), muitos dos quais próximos de Jorge Sampaio na CDE (como João Bénard da Costa) e outros mais alinhados como Mário Soares, como aconteceria na CEUD… Tudo isto e muito mais está espelhado nesta obra que a competência de José Pedro Castanheira está a escrever e que muito ajudará a compreensão da história política portuguesa dos últimos cinquenta anos. Num tempo em que a crise parece querer afirmar que a técnica prevalece sobre a política, tornou-se indispensável compreender que, independentemente dos momentos históricos, só as escolhas políticas, o sentido crítico e a legitimidade cívica podem encontrar respostas duráveis e consistentes para as dificuldades. Olhe-se o tema europeu e a construção do ambicioso projeto da União Europeia: fácil é de compreender que não são opções puramente técnicas que estão em causa – as escolhas políticas são fundamentais, porque apenas elas podem traduzir-se em representação e participação dos cidadãos e em legitimidade democrática. O debate italiano sobre o Governo de Monti é ilustrativo relativamente a este complexo tema. Estamos perante uma opção que só terá condições de se consolidar se for apoiada pelo funcionamento normal das instituições – legitimidade parlamentar, separação de poderes, “checks and balances”, representação e participação da sociedade. Daí que os governos de iniciativa presidencial não constituam soluções duráveis ou aconselháveis – uma vez que põem em causa o normal funcionamento do jogo democrático e a lógica e a estabilidade. Há, no fundo, neste livro política, pensamento e debate. Numa palavra, a obra é, toda ela, um bom e saudável elogio da política.

Guilherme d'Oliveira Martins

AINDA MARTHA C. NUSSBAUM

 

Há boas convergências. Nas últimas semanas, Martha Craven Nussbaum (1947), professora de Direito e Ética na Universidade de Chicago, tem estado bem presente neste blogue, como é fácil de verificar pelo arquivo. Primeiro foi Camilo Martins de Oliveira a recordá-la, agora é Teresa Vieira. A filósofa acaba de receber o Prémio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais 2012. Para os nossos leitores, recordamos a obra «Crear Capacidades. Propuestas para el Desarollo Humano» (Paidós, 2012). Defensora do lugar da cultura e das humanidades na Educação moderna, Nussbaum considera que «os estudos humanísticos são fundamentais para a criação e consolidação de um saudável sistema democrático». O tema é atualíssimo, num momento como o atual. Com efeito, a filosofia tem a capacidade única para produzir uma vida examinada e refletida, como fonte de racionalidade e de troca de argumentos. É tempo de compreendermos a importância deste tema, num momento em que a crise económica se torna crise de valores éticos, de responsabilidade e de cultura.

EM TORNO DE UMA MEMÓRIA...

 

No seu autobiográfico "Joseph Anton  -  A Memoir", Salman Rushdie conta-nos que Anis, seu pai,era um "godless man", mas um homem sem deus que sabia e pensava muito àcerca de Deus ("a godless man who knew and thought a great deal about God"). E continua ( a tradução é minha): "O nascimento do Islão fascinava-o, porque era a única das grandes religiões do mundo a ter nascido no contexto da história registada, e cujo profeta não era uma lenda descrita e glorificada por ´evangelistas´ escrevendo cem anos ou mais depois da vida e morte do homem real, nem um prato recozinhado para fácil consumo global pelo brilhante prosélito São Paulo, mas antes um homem cuja vida estava largamente registada, cujas circunstâncias sociais e económicas eram bem conhecidas, um homem vivendo num tempo de profunda mudança social, um órfão que cresceu até se tornar num bem sucedido mercador com tendências místicas, e que viu um dia, no Monte Hira, próximo de Meca, o Arcanjo Gabriel levantado sobre o horizonte e enchendo o céu e instruindo-o paras que ´recitasse´ e assim, lentamente, criasse o livro conhecido como a Recitação: Al Corão". Não nos demoremos no simplismo (e quiçá algum azedume feito ironia) com que Rushdie contrapõe ao registo histórico de Maomé a recordação histórica de Jesus. Sobre o Jesus histórico tem-se falado e escrito muito (com seriedade de investigação e honestidade intelectual,ou sem uma nem outra). Do que conheço, posso recomendar, a quem tiver tempo e particular interesse na investigação histórica, os quatro volumes do "Jesus, A Marginal Jew  -  Rethinking the Historical Jesus", do Prof.John P. Meier, padre e universitário americano, e, ao comum da gente como eu, o "Jesus de Nazaré" do Papa Bento XVI (que tem o carisma de ser uma interrogação histórica e teológica da figura temporal e intemporal de Jesus Cristo, feita por um crente que é Papa) e o belíssimo "Jésus" do historiador francês (conhecido biógrafo de Luís XIII, Luís XIV e Luís XVI) Jean-Christian Petitfils. Esta última obra, trabalhada sobre um conhecimento muito actualizado das investigaões históricas e bíblicas (arqueológicas e exegéticas) "filma-nos" um Jesus que se move na cultura social,religiosa e política do seu tempo. E assim nos vai abrindo uma porta sobre o mistério da fé cristã. Voltando a Salmon Rushdie, lembramo-nos do tal Arcanjo Gabriel, encontrado já noutras paragens, muitos séculos antes do bom Maomé... O que nos ajuda a perceber melhor como Rushdie conclui ser "a estória do nascimento do Islão fascinante, por ser um evento dentro da história que, portanto, enquanto tal, fora obviamente influenciado pelos eventos e pressões e ideias do tempo da sua criação; e que historicizar a estória, tentar perceber como uma grande ideia fora formatada por essas forças, era a única achega possível ao assunto"... "A Revelação teve de ser assim entendida como um evento interior,subjectivo, não como realidade objectiva, e um texto revelado tinha de ser escrutinado como qualquer outro texto, utilizando-se todas as ferramentas da crítica literária,histórica, psicológica, linguística e sociológica". Em virtude desta convicção foi Salmon Rushdie anatemizado por uma "fatwa"... Entre cristãos, dentro e fora do "christian belt" também encontramos apego a leituras literais da Bíblia. Mesmo entre católicos se instala o receio de questionar, investigar, encontrar o desconhecido, o simplesmente novo. E todavia, a Igreja que, por tantos séculos manteve a Bíblia aberta apenas na sua versão latina da Vulgata, e se foi reservando a capacidade de propor à leitura dos fiéis diferentes trechos dela, conta hoje com um número elevado de escolas de arqueologia e exegese bíblica de alta qualidade científica, na esteira da École Biblique de Jérusalem que, guiados pelo Padre Lagrange, os domnicanos franceses fundaram, já no sec.XIX, na Cidade Santa. Do conhecimento crescente que assim vamos tendo da história e da sociedade do tempo de Jesus, por exemplo ,tal como do cotejo de textos em grego, hebraico e aramaico, de forma a datar mais precisamente os originais e a melhor entender o significado de palavras e expressões, resulta uma interpretação cientificamente mais fundamentada que obriga a um exercício teológico renovado, e novo também na sua atenção e resposta às preocupações e sinais dos tempos hodiernos. Para a Igreja Católica, a Revelação não se esgotou na Bíblia, antes é um processo objectivo pela acção do Espírito Santo que Jesus (o Emmanuel, a pessoa de Deus incarnado na história dos homens) deixou para que se prosseguísse a Redenção pela conversão até à visão final de Deus. Neste sentido, está sempre dentro e no coração da história, acompanha-a, não se repete como uma recitação, como na tradição islâmica preponderante. Por isso,em todos os planos da vida humana, na cultura, na economia, na sociedade, na política, o papel do cristão não é estático, como o de quem só assiste,observa e conserva. O Cristianismo não tem teocracia possível, nele, a presença do Deus transcendente no mundo e na  história faz-se pela conversão de cada um ao apelo da Revelação subjectiva, na comunhão da Igreja. Por isso, foi sempre importante que os seus pastores não caíssem na tentação de um autoritarismo tentacular e totalitário. A liberdade da reflexão teológica, num clima eclesial de promoção do diálogo, é essencial ao cumprimento do mandato vital da fé cristã.  Aqui fica o testemunho de um leigo.
   
Camilo Martins de Oliveira

Martha Nussbaum: a importância do saber pensar.

 

Quando me referi há umas semanas atras à importância de se conhecerem os romances gregos, à necessidade de se transmitir a força inigualável dos estudos clássicos que em Portugal deveriam renascer em pujança, como condição de sólido caminho de liberdade e modernidade, não pensei que estas referências estivessem tão actuais aos mais urgentes percursos intelectuais de Martha Nussbaum, claramente expressos aquando do seu Prémio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais 2012.

 

Tenho para mim que, ao leccionar na Universidade os livros do grande tratadista José Luis Aranguren, neles colho os profundos fundamentos ao ensino da ética e da politica, da importância urgentíssima da elaboração do raciocinio filosófico, do caminhar de mão dada com o antigo mundo grego e romano, mas nunca descuidando os livros de Martha Nussbaum indispensáveis a este todo que menciono, e à lucidez na aptidão para antever a interpretação e o lugar dos novos direitos, e de entre eles, o próprio interesse de Nussbaum face aos direitos dos animais.

 

Entendo que todos os alertas ao perigo de descuidar o ovo primeiro nunca são em excesso. Refiro-me a que, se não se aprende a pensar de forma rigorosa e analitica, a escravatura será a força que não recebe nunca a liberdade.

 

Escrevi e publiquei o que acima refiro em jornais, livros e artigos académicos, bem como nunca deixei de expressar esta ideia em congressos, conferências ou aulas, segura de que, no núcleo deste ovo, está o resumo da porta do mundo.

 

Desta filosofa norte americana recordo os seus livros A Fragilidade da Bondade, Escondendo da Humanidade: Nojo, vergonha e da Lei, e Not for Profit: Why Democracy Needs the Humanities, Princeton University Press, (2010) que a tantos debates me levou em aula com os meus alunos e ainda, Poetic Justice, nunca esquecido.

 

Publicada no ABC, aqui deixo parte da recente entrevista com Marta Nussbaum e com toda a minha gratidão pela referência e pela partilha de ideias conjuntas. Com sincero orgulho meu, ambas também entendemos que, dos mundos distantes, se faz o aqui e o agora, se nenhum Saber estiver cotado em bolsa de valores.

 

Eis:

Mujer de armas tomar culturales, pone cara de sorpresa (más bien de estupor) cuando escucha que en España el latín es una especie en vías de extinción, y que se pone marimorena con gestos de gran ironía cuando se refiere a Angela Merkel.

 

-¿Se imagina un mundo sin enseñanzas humanísticas ni clásicas?

 

-Sería una amenaza muy grande para la democracia. Si la gente no aprende a pensar de forma rigurosa y analítica, si no sabe construir argumentos filosoficos, serán como los esclavos de los tiempos de Sócrates. Son necesarias enseñanzas como los Diálogos de Platón, porque es necesaria la imaginación y la curiosidad para que las personas amplíen su mente y piensen en algo más que su familia y su círculo. Votarán sin la menor preparación, no entenderán a la gente de otras razas, religiones y clases sociales. Pero no hablo solo del latín, del griego, de la cultura clásica, es necesaria toda la literatura, el arte, la filosofía, la pintura.

 

«La crisis trae consigo una pérdida de la libertad»

 

-Una experta en Ética de la Economía cree que el Producto Interior Bruto es la manera más exacta de medir la riqueza de un país?

 

-No, no basta solo con eso. El progreso afecta a otras muchas cosas que debemos cotejar. Para empezar, hay que pensar en la facilidad que tengan las personas de poseer una capacidad para elegir una vida en condiciones. Tenemos que hablar de sensibilidad, de libertad, de las artes, de la cultura, de la familia. Y no podemos olvidar cuál es la relación de esa sociedad con otras especies, si vive en un medio ambiente sano y cuidado, si todas las personas participan del ocio y el tiempo libre, si las mujeres no están obligadas a trabajar en casa y también fuera… Para saber si una sociedad es rica y avanzada hay que fijarse en todo esto y que lo practique con éxito, y para todos, no solo para los poderosos.

 

-¿La crisis y la pobreza pueden llevarse por delante muchas de nuestras libertades?

-Sí, seguro, la crisis trae consigo una pérdida de la libertad, porque la gente que no tiene capacidad de poder educarse para saber elegir no es libre. No vale de nada hablar de libertad de expresión, de libertad de reunión, de libertad religiosa y de tantas otras cuando el sistema educativo se ve recortado y la gente tiene un acceso a la cultura que depende de su poder económico. La pobreza, los recortes, disminuyen el poder de decisión de las personas. Si el acceso a la cultura no es igual para todos, estamos perdiendo buena parte de nuestra libertad.

 

-Hay quien cree que la crisis es un nuevo totalitarismo como los del siglo XX, aunque en clave económica.

-La actual estuctura económica europea es una amenaza para la democracia. Angela Merkel no ha sido elegida por los electores griegos o españoles, pero la que tiene el poder de decisión es ella, y eso es peligroso. La unidad europea debería tener un componente político tan fuerte como lo es el económico que empieza ser demasiado fuerte.

 

 

 

Mencione-se ainda que esta pensadora se expressa também através de uma escrita escorreita, intuitiva e certeira. E, como se sabe, quando a palavra identifica a ideia, basta olhá-la.

 


Teresa Vieira

LONDON LETTERS

The Operation Musketeer Revise, 1956

 

 

O script da ‘Sinai Campaign’ quase faz concorrência desleal ao melhor de 007, personagem novelesco criado há 50 anos pelo irmão de Peter Fleming, a quem o Scotch Sean Connery deu voz e Daniel Craig empresta agora o estilo em película com première no Royal Albert Hall. – Adorable James Bond! Assim a trama: Conspiração – traição – gestão de crises; bombardeamento aéreo – desembarque – retirada das tropas. Estes são os trepidantes 3-steps das manobras política e militar da Suez Crisis, code-named Musketeer Revise, com Mr Anthony Eden transmutado como “a nervy Prime Minister,” o general Moshe Dayan incensado a herói das “Arab-Israeli wars” e o Presidente Gamal Abdel Nasser investido no papel de “a Egyptian Mussolini.” Só falta aqui um finale à medida do herói do MI5. – Humm, nothing to say. Na realidade, at the end of the day, o imbróglio no Middle East substitui o Empire’s great game pelo xadrez da Cold War. Isto é: determina o fim dos impérios europeus no resto do mundo, um a um, às mãos do condomínio USA-URSS.

 

O uso da força nas exotic lands tão ao gosto de Mrs Agatha Christie tem desfecho não feliz. Embora formally independente, o Egipto é domínio de Her Majesty desde a infraestrutura projetada em 1869 por M Ferdinand de Lesseps. Tudo muda desde então nas global trade routes. Cerca de 2/3 do fluxo petrolífero passa pelos míticos Gates of Gaza. Nos 1950s, todavia, sopra ali o decolonization wind que, pela mão de Lord Mountbatten, libertara a Índia de Jawarharlal Nehru. Pouco vale já o “percentages deal” acordado em 1944 por Sir Winston Churchill com Mr Franklin Roosevelt e Mr Joseph Stalin, nomeadamente face ao nuclear sabre de Washington ou Moscow. Mas contra o new state of affairs que ameaça a national solvency tocam os Tory drums.

 

 

Em 1956, November 5 forças anglo-francesas invadem o estratégico istmo entre o Mediterranean e o mar a que os Portugueses chamaram Roxo, após sigiloso conluio entre London, Paris e Telaviv para decapitar o emergente nacionalismo africano. O ‘Sévres Protocol’ coloca os USA in the dark e projeta finalmente as United Nations para a ribalta mundial. Há aqui sombras. O caso ainda hoje contém pontas soltas, com muita finance e intelligence (& lies) à mistura. Se os planos são secretos, como usam as chancelarias na “age of treachury”, mesmo transcorridos os legal 30-years para acesso público, decide Lady Thatcher que sejam “kept under lock and key,” apenas Mr Tony Blair abrindo em 2006 tais arquivos – aliás, incompletos.

 

Nestes dias da Royal British Legion’ poppy nas lapelas a aproximar dos custos das ações humanas, eis a turning point na balança de poderes que hoje está em mutação planetária sob novas bandeiras e velhíssimas manobras. O Suez constituiu-se um pesadelo. A intervenção militar divide a nação, augurando os Cambridge spies e o better red than dead. Países da Commonwealth distanciam-se. A Eisenhower Administration mobiliza até os mercados contra a sterling pound. Na leitura rosa temos a militar sucess e a political failure; na azul vê-se a militar failure e a political fiasco.

A proeza traga o “Churchill’s crown prince” nos Tories e em Westminster.” Eden cede o lugar a Mr Harold Macmillan um mês após a retirada militar. Pior, porém: A soberania britânica não é mais a mesma depois das areias egípcias e o mesmo para a Europa. A Suez Crisis explica sobre o West decline no mundo moderno. Algo que, desde Lord James Bryce, é a lesson for all in all times.

 

St James, 30th October

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

 


de 5 a 11 de Novembro de 2012

 

 

«O Concerto Interior – Evocações de um Poeta» (Assírio e Alvim, 2012) de António Osório é um conjunto de recordações de um grande poeta, que usa um registo duplo para partilhar connosco o seu enorme talento literário e a sua grande generosidade pessoal – registo poético e prosa serena e fecunda.


 


António Osório por Mário Botas


UM ENCONTRO COM A PLACIDEZ E A SABEDORIA
Leio «O Concerto Interior» e encontro a placidez da sabedoria. Rainer Maria Rilke começa por marcar este percurso. Do que se trata é de interrogar a tradição, na sua aceção mais pura, ou não fora o poeta um experiente homem de leis. E se o digo, é porque a «traditio» latina nada tem a ver com qualquer reminiscência retrospetiva do passado. Exige a compreensão fina da transmissão (como movimento incessante) como permanente renovação, baseada na comunicação e sobretudo na confiança. Em António Osório revive uma linhagem de poetas (nunca esqueceremos o que Ana de Castro Osório fez para o reconhecimento de Camilo Pessanha) e essa tradição é tão forte, que só a podemos entender como a busca de um rigor obstinado, que é uma das marcas da sua poesia. «Um pouco como dentro de nós corre sem parar o sangue dos nossos antepassados, que se cruza com o nosso para dar forma ao ser único e irrepetível que somos». É assim que Rilke define o que podemos designar como tradição que, longe de se basear na conservação, reclama a exigência de ligar exemplo, experiência, atenção e cuidado.

Estamos perante um livro de memória e de memórias, de gratidão e de bondade. Quem povoa esta obra são «pessoas, parentes, animais, bichos, árvores, trabalhadores rurais». São os pais, os parentes, os amigos, os tios António e Henrique, Maria Valupi, Cristovam Pavia, Sebastião da Gama, Mário Botas, Carlos Vittorio Cattaneo ainda Carlos Nejar, Eugénio Lisboa e Luís Amaro – as cidades, como seres vivos: Lisboa, Florença, Roma, Paris, Madrid, Barcelona, Londres, Rio de Janeiro e, naturalmente, Setúbal. E há sempre a presença adorável, muito serena e próxima, de Maria Emília, figura central deste «concerto interior». A tradição, voltamos a ela, é a da grande poesia. E assim esta bela autobiografia é feita de lembrança e poesia, que, a cada passo, lemos e recordamos. Não há um registo notarial. Longe disso. Há como que uma conversa com Dante, num passeio entre Florença e Setúbal, com iluminações e lembranças, ao de leve e profundamente. E sentimos a leitura doce e musical do italiano na palavra da mãe, Giuseppina, que começa por apresentar Geppetto, mas continua com Dante e Homero («A meu lado, doente, lias / a guerra de Troia. Heitor / amei depois de ser Aquiles. / Temendo o encontro de ambos / a guerra fazia dos dois lados»), enquanto a palavra do pai, Miguel, o procura aproximar da língua portuguesa e dos seus grandes – da «Cartilha Maternal» de João de Deus ao maravilhoso  Camões («Lia-me Camões meu Pai»), até Antero («meu grande Antero»), Cesário e Camilo Pessanha. Sente-se um não mais parar, em que a poesia se entrelaça nas duas línguas.

 

LEMBRANÇA DO CARDEAL PORTUGUÊS
Sou sempre suspeito a falar de António Osório, por vários motivos: antes de tudo, pela amizade que o conhecimento tem fortalecido; depois pelas raízes da Arrábida e de Setúbal, uma vez que também parte de minha família vem dessas mágicas paragens, desde pelo menos o século XVI, até à casa das «Senhoras Conselheiras», minhas tias. Foi lá que meu tio-bisavô aprendeu as primeiras letras, com um frade arrábido do Conventinho, da linhagem espiritual de Frei Agostinho da Cruz. Mas ainda há uma terceira razão para a suspeição – é o amor a Florença, cujas ruelas percorro sempre em busca de Dante e da sua Beatriz, culminando esse périplo fantástico em San Miniato al Monte, junto aos sepulcros de D. Jaime de Portugal e do avô materno do poeta. «O momento mais alto desta aproximação entre Lisboa e Florença encontra-se na figura do “Cardinale Portoghese” D. Jaime, filho do infante D. Pedro, neto de D. João I, cardeal e Arcebispo de Lisboa, falecido em Florença em 1459, com 25 anos, estando o seu túmulo numa capela em S. Miniato al Monte, com um claustro próprio, desde o início rodeado de laranjeiras, símbolo de portugalidade. O corpo repousa, com um rosto jovem e sereno, sobre os ombros de dois meninos (putti), e está defendido por quatro anjos que voam sobre ele e, no alto, pela Virgem e seu filho, uma maravilha que lhe abre a porta do céu». O local é privilegiado, a seus pés está o Arno e Florença em todo o seu esplendor – um lugar de peregrinação para celebrar a amizade e o talento, na procura incessante da poesia. E, neste momento, tão cheio de dúvidas, lembro a mensagem do dia da Poesia de 2010: «Montale deixou-nos uma palavra de esperança para a poesia “que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época”, “para essa poesia não há morte possível”».

 

MODO DE FAZER AS CONTAS
Que lemos, afinal, neste «Concerto interior»? O poeta confessa: «é uma forma de fazer contas comigo próprio. Ou seja, os sentimentos, as emoções, as vivências que eu não tinha posto em livros anteriores, designadamente num livro a que chamei «Vozes íntimas». E, mais adiante: «todos temos segredos e eu revelo alguns, importantes, que ajudam o leitor a perceber que aquele sujeito que lia o Dante ou o Camões era um indivíduo que podia morrer» (revista Ler, nº 117, Outubro de 2012). E este diálogo com os limites está na reflexão do autor de «A Ignorância da Morte» - «A vida é cristalina, a morte é repelente (diz na entrevista, ainda). Nunca percebi como no mistério da criação, pode existir a morte. Nisso sou do contra. E procuro o quê? Procuro exaltar tudo o que a vida tem de bom». Sente-se com nitidez isso mesmo ao longo destas belíssimas páginas – que não podem ser fielmente comentadas, pois ficaremos sempre aquém do que desejaríamos. É a vida que é exaltada nesta ligação extraordinária a um fio de Ariadne que nos conduz a quantos o desejaram (e ele desejou). «Avô João, de ti lembro que eras mago / e generoso com os grilos. / Um me deste, cativo, ao deitar. / Livre, no mesmo sítio (debaixo de um copo) / ficou uma moeda, minha. // Escrivão, contador de vidas e processos, / de mim criança me soube absolver». E a tia Dulce, Maria Valupi? Deixou-lhe a semente persistente da poesia e da arte. Sobre ela há confissões tocantes, que encerram beleza e dramas. E, não por acaso, trouxe o meu amigo António Osório ao Tribunal de Contas, para homenagear Miguel Ângelo Lupi, o notável pintor que lá começou por ser amanuense, tendo ganho uma bolsa por decisão pessoal de D. Pedro V («o primeiro homem moderno que houve em Portugal», na expressão justíssima de Ruben A. Leitão) que lhe permitiu a celebridade. E nesse dia pudemos lembrar a luminosidade da sua paleta e a memória dramática de Maria Valupi e de Teresa Júlia, o grande amor do pintor («Teresa Júlia a sua fortaleza de amar, / derradeiro modelo, ele com cabelos brancos, / ela dardejando a integração primaveril…»). Ainda há poucas semanas, na viagem literária do CNC a Minas Gerais, que continuarei a relatar, lembrei o poeta na peugada de Manuel Bandeira ao encontro da Aleijadinho, génio das Américas: «Os teus leões funerários quem acusam? / Fantasmas de rapina, estrangulantes? / Ou teu lugar aqui, na cinzenta laje, sob o altar da Senhora da Boa Morte?»  

 

Guilherme d’Oliveira Martins

FALAMOS MUITO...


Falamos muito, e tememo-lo, nós os ocidentais, esse epifenómeno que dá pelo nome de "fundamentalismo islâmico". Para uma cultura da permissividade como práctica de vida, é evidente que a cultura do culto da "lei" como norma de vida é incompreensível. Mais: é inaceitável. Isto é: em nome da liberdade de expressão e acção, lançamos um anátema sobre quem pensa que ela não é legítima ou, mais simplesmente, deve ser limitada. Até já se chamou, a este desentendimento, choque de civilizações... Mas também podemos evocar as cruzadas - com o que trouxeram de sofrimento imposto pelos cristãos do ocidente aos de Bizâncio -  ou as guerras de religiões cristãs na Europa da reforma, os ódios entre chiitas e sunitas muçulmanos, o holocausto nazi a par do estalinista, as rivalidades entre cristãos além-mar, como as que alimentaram martírios de católicos no Japão dos secs.XVI-XVII, ou o descalabro das missões jesuítas na América do Sul. Ou ainda as "bruxas de Salém", para não falar desse prenuncio de "técnicas científicas" nazis que foram as medições morfológicas de jesuítas e outros religiosos pela nossa 1ªRepública... E temos muito mais: Rwanda, Pol Pot no Cambodja, Sudão, Bósnia, eu sei lá! Somos,instintivamente, animais agressivos, quando tememos o outro. Ou quando o queremos comer. Quando nos fechamos no individualismo, de cada um ou do seu grupo, e esquecemos que a racionalidade que nos diferencia necessariamente nos obriga ao exercício crítico que S. Tomás de Aquino dizia ser "diferenciar (distinguir) para compreender." A diferença,ou a consciência dela, não é divisão (e muito menos guerra): é reconhecimento. Parafraseando Paul Claudel, para quem a "connaissance"  - o conhecimento -  é «nascer com»: o reconhecimento, neste sentido, é renascermos com os outros. Será a procura da harmonia, com a coragem que nos conduzirá ao encontro das raizes comuns a todos, que já o primeiro livro judeo-cristão assinalava dizendo que Deus nos criou, homem e mulher, à sua imagem e semelhança. A todos nós. A divisão, essa entre o bem e o mal, o belo e o feio, cada um de nós a traz em si, como o "visconde cortado ao meio" do Italo Calvino. "L´enfer c´est les autres" dizia Sartre. E assim existencialmente, demasiadas vezes, o entendemos. Mas o próprio sabia que o inferno está em nós e se propaga, como incêndio, na projecção da paixão de nós sobre os outros. "O pecado  - escreveu um dominicano francês, Jean Cardonnel -  é a paixão dos nossos limites". Os outros, os que não entendemos logo, são um apelo insistente a que sejamos mais firmes e fortes no que somos e mais abertos ao abraço dos outros,que é o que todos poderemos ser num mundo em globalização. Nesse mundo,que tão rapidamente nos cerca, só a fortaleza das nossas raizes nos ajudará a responder à nossa vocação do Outro. O diálogo só é possível com autenticidade. As rendições sempre começaram por traições.
 
Camilo Martins de Oliveira

Paul Auster: muito depois das horas,

 

 

Poeta e novelista norte-americano reside actualmente em N.Y. Traduziu literatura francesa, publicou poemas, ensaios, novelas e entre outros galardões recebe em 2006 o prémio Príncipe das Astúrias.

Edgar Allan Poe, Samuel Becket, Kafka, Proust, Hemingway, Dostoiévski entre outros, marcaram-no para sempre, tal como Stéphane Mallarmé que nestas páginas já referimos, Sartre ou André Breton.

Reli “A trilogia de Nova Iorque”, recordando-me do argumento do filme Smoke e da importante colaboração de Paul Auster com o realizador Wayne Wang. Tudo me pareceu um sinal de linha ao qual cada passo se aproximou da claridade.

Volto a concluir que Auster, muito depois das horas, permanece. E permanece com uma lealdade ao que procura e ao que interpreta viver, tocando o espaço invisível onde afinal as horas o atravessam quando já pouco ou afinal tudo resta.


Te respiro.
Te sosiego fuera de mí.
Te aturdo al alcance
de la luz fraternal.
Te bebo
hasta las heces del desastre.

 

El cielo me clava una estrella vagabunda

en el pecho. Veo el viento

como testigo, la noche imponente

que se entretuvo

en un dédalo de robles,

la distancia.

 

Te acoso

hasta el filo de la pesadumbre.

Te dreno.

Te desafío,

te consagro

a nada y

a nadie,

 

me vuelvo

tu sucesor ineludible,

tu heredero más feroz.

 

Assim um dos seus poemas me chegou em prolongamento doirado do poder de uma língua que o traduziu. Presságio.

O encontro com um bloco de notas de capa azul e de fabrico português estreita-nos numa reflexão sobre a natureza do tempo, no seu livro “Noite do Oráculo”, e confirma-o como um dos mais originais escritores da América dos dias de hoje.

Em Setembro deste ano não deixei de reter uma pequena parte da entrevista de Luciana Leiderfarb a Paul Auster e acolhida pela revista do Expresso.

E nele Paul, muito depois das horas

Estou literalmente no inverno da minha vida. Se dividirmos a vida em quatro estações (…) talvez seja o período mais interessante de todos (…) ainda não estive lá, apenas dei alguns passos. Fisicamente não vai ter graça nenhuma, mas mentalmente pode vir a ser uma grande aventura (…) estou cheio de ideias (…) até lá continuarei a caminhar.

Para mim é este o Paul que desde o início pressenti e que permanece muito depois das horas. Afinal como as flores ingovernáveis do meu jardim.

 


Teresa Vieira

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