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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

The democratic stress, 2013

 

Downing Street está sob alta pressão. Nas eleições intercalares em Eastleigh, ganhas este fim-de-semana pelos Liberal Democrats de Mr Nick Clegg, o partido do Prime Minister caiu para a terceira posição nas escolhas eleitorais. ‒ Chérie, à bon rat bon chat. Mr David Cameron sofre uma desagradabilíssima derrota, a somar ao desapontamento face aos mercados no escrutínio económico. – Uh-hum, the cat gone, the mice dance! Ora, a exemplo da instabilidade eleitoral revelada em Itália, cujo centro político se afunda na bizarria, o voto expressa crescente rejeição ao business as usual da elite governante. Em causa estão, claro, as pesadas consequências das políticas de austeridade. Não funcionando até agora em termos macroeconómicos, certo é que agravam a vida das famílias e das empresas.

 

Os resultados eleitorais!? Sem os 20 lugares de Eastleigh, a maioria Tory nas eleições de 2015 está mais remota e Mr Cameron sente de novo o calor dos seus backbenchers em Westminster. Mas há pior: Os conservadores cedem terreno à direita para o eurocético UK Independence Party, mesmo após uma hardline message junto do eleitorado em torno da Europa, emigração e welfare. A equação complica-se, pois, para o PM: se mantém o centro, perde o partido; se vira à direita, perde o eleitorado. Já a vitória Lib-Dem prova a hábil demarcação de Mr Clegg dos duros cortes orçamentais. Ainda assim, descontada a débil aposta do Labour de Mr Ed Miliband, que sobe uns irónicos 0,2% na votação do Hampshire, o descontentamento num distrito tradicionalista confirma que a penosidade austeritária ameaça as fronteiras ideológicas e a erupção do UKIP pode ser algo não ocasional.

 

 

 

A paisagem eleitoral britânica é ainda tributária do quadro partidário que emerge após a World War I, com o advento dos votos operário e feminino. Os liberais são afastados da ribalta e o Labour Party ascende à proeminência a par dos conservadores. Das 25 eleições gerais realizadas desde 1918, os Tories vencem 15 e os trabalhistas ganham dez. Os Lib-Dem, herdeiros do old Liberal Party, regressam em 1974 e estão hoje no governo de coligação. Já os Lab participam em executivos minoritários saídos dos sufrágios de 1923 e 1929, mas só em 1945 obtêm uma maioria na House of Commons.

 

O domínio conservador quebra justamente com a derrota de Sir Winston Churchill nas urnas após o all-party government que vence a World War II, sob um programa eleitoral que apenas se diferencia do apresentado pelas hostes de Mr Clement Attlee na nacionalização da economia, mau-grado o persistente disparate de a fratura ocorrer na questão da segurança social. O voto Tory tem a hecatombe em torno do Welfare State, sim, mas não na 1945 General Election; ocorre em 1997 com Mr John Major. Na esteira do Thatcherism, o Labour obtém então 43,2% dos votos contra 30,7% dos Con e 16,8% dos Lib-Dem. Mr Tony Blair acaba aí com 18 anos de oposição e os conservatives descem pela primeira vez abaixo da sua linha histórica dos 35%.

 

As placas tectónicas de Westminster evidenciam séria instabilidade. O posicionamento do UKIP perturba os principais partidos quando o eleitor depõe a austeridade e a diluição ideológica soma na European question. Se a fragmentação surpreende o rígido sistema eleitoral, também Brussels não ajuda com o duelo fiscal consolidation versus fiscal stimulus e envia a London o hardliner Mr Olli Rehn para parafrasear Mr Milton Friedman em querela de 1965 e afirmar-se keynesiano. Antes dele notara Sir Churchill incontornável observação: "In war, you can only be killed once, but in politics, many times."

 

St James, 5th March

 

Very sincerely yours,

 

V.