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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS


de 6 a 12 de maio de 2013

 

António Alves-Caetano escreveu «Os Socorros Pecuniários Britânicos destinados ao Exército Português (1809-1814) – Subsídios para a História da Guerra de Libertação Nacional» (ed. Autor, 2013), que a partir de agora passa a constituir, para a história económica, social e militar do século XIX, um elemento fundamental, para entender os efeitos da saída da Corte para o Brasil, a preservação da independência portuguesa, o enfraquecimento das possibilidades europeias de Napoleão, o equilíbrio das finanças públicas e o reforço efetivo das potencialidades de comércio com Império brasileiro.


Duke of Wellington. Sir Arthur Wellesley (1769-1852)


GUERRA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL 
Tenho encontrado em Inglaterra entusiastas e profundos conhecedores das guerras peninsulares em Portugal. Foi um momento especialmente importante da história europeia, uma vez que Napoleão Bonaparte começou a ver comprometidas as suas ambições europeias em Portugal, em virtude da aposta britânica em complementar a vitória marítima de Trafalgar com sucessos no ocidente peninsular, no continente, que o Estado-Maior de Sua Majestade aprendeu a conhecer, beneficiando de um acesso por mar relativamente fácil, a partir das ilhas, facto contrastante com as dificuldades sentidas pelos franceses, por disporem de um difícil e longo acesso continental. A Península Ibérica teve, assim, dois destinos: o da salvaguarda da independência portuguesa, graças ao movimento determinante da saída da corte para o Rio de Janeiro, com a criação do único império europeu dirigido da América do Sul; enquanto em Espanha não foi possível evitar uma derrota que conduziu à momentânea perda da independência. A história é bem conhecida. Em novembro de 1806, aquando da conquista de Berlim, o Imperador Napoleão proclamou o bloqueio continental, que exigia o fecho de todos os portos europeus aos navios de Sua Majestade Sereníssima. Esta medida visava a paralisia da indústria britânica e uma inevitável crise social. O príncipe regente D. João, em Portugal, foi protelando a aplicação da decisão, de consequências imprevisíveis. Para o Reino Unido, a Dinamarca e Portugal, pelas armadas importantes que possuíam, eram duas peças chave para um eventual sucesso do bloqueio e para a afirmação do domínio napoleónico. Em Friedland (1807), Alexandre I, czar da Rússia, ficou submetido ao domínio de Bonaparte, o que tornava a fachada atlântica de Portugal – onde se não aplicara o bloqueio – ainda mais decisiva para as aspirações da velha Albion. Em Tilsit, o imperador decide secretamente a ocupação da Península Ibérica, da Suécia e da Dinamarca, devendo as casas reinantes ser depostas e substituídas por monarcas da confiança do Imperador. Em consequência, em setembro de 1907 Copenhaga foi bombardeada preventivamente pelos britânicos, que se apoderaram da esquadra do reino. O bombardeamento britânico de Copenhaga teve, no entanto, um efeito europeu de curto prazo pernicioso, uma vez que conduziu à adesão ao bloqueio de alguns estados que se tinham mantido neutrais até então. O certo, porém, é que havia muitos subterfúgios para iludir o bloqueio, desde o contrabando até à impopularidade das medidas protecionistas francesas. A Inglaterra chegou a pôr a hipótese de invadir Portugal, se tal fosse necessário, mas tudo se precipitou em benefício da corte de St. James, que rapidamente assumiu a missão de cobrir defensivamente a saída da corte portuguesa para o Brasil – nos termos da convenção secreta de 22 de outubro de 1807.

UM IMPORTANTE ESTUDO ECONÓMICO
O estudo económico deste período tem ocupado António Alves Caetano, um investigador com créditos firmados no estudo da vida económica durante as invasões napoleónicas, que Arez Romão tem designado, com muita felicidade, como «guerra de libertação nacional». Neste sentido, «Os Socorros Pecuniários Britânicos destinados ao Exército Português (1809-1814) – Subsídios para a História da Guerra de Libertação Nacional» (ed. Autor, 2013) é uma peça fundamental para a historiografia económica. E o ensaio obriga a uma leitura muito atenta, que se torna apaixonante, pelo encadeado de temas do maior interesse, que explicam muitos acontecimentos de ontem e de hoje.
Sabemos como a frota portuguesa era ambicionada por Napoleão. Jean-Andoche Junot foi, por isso, incumbindo de apresar a armada, logo que chegasse a Lisboa. No entanto, os navios mais importantes tinham-se retirado, de partida para terras de Vera Cruz. Outra parte da frota portuguesa ficou, entretanto, a bloquear o estuário, para evitar que as tropas imperiais fossem abastecidas e para impedir a saída de uma frota russa, que acidentalmente recolhera ao Tejo. A ocupação de Portugal durou até setembro de 1808, tendo as tropas de Arthur Wellesley imposto as derrotas de Roliça e Vimeiro, que puseram em xeque a posição de Junot. Napoleão não desiste. Propõe-se voltar a reconquistar a Portugal, encarregando dessa difícil missão o Marechal Nicolas Soult, seu favorito e herói de Austerlitz e de Iéna. A defesa de Portugal foi, no entanto, cuidadosamente preparada pelo Estado-maior britânico, permitindo que o exército português, muito depauperado, adquirisse uma apreciável e credível capacidade de combate. Havia vantagem estratégica inglesa em Portugal pela proximidade marítima e pelo conhecimento das costas, por contraste com as dificuldades francesas da distância e do continente. Sir Arthur Wellesley, Lorde Wellington traz uma frota de 75 navios à foz do Mondego, em agosto de 1808, com víveres e forragens para os cavalos. O percurso da Figueira da Foz até Lisboa é feito junto ao mar, com o apoio da esquadra, para garantir uma eventual retirada. E assim ocorreu uma claríssima vitória da logística. Lembre-se que, ao invés deste sucesso, o cerco das Linhas de Torres soçobraria, mais tarde, por falta de munições e de alimento para os cavalos.

UM CASO EXEMPLAR… 
Beresford chega a Portugal em março de 1809 e foi-lhe confiado o comando e reorganização do exército em articulação com o secretário do Governo para a Guerra, D. Miguel Pereira Forjaz. António Alves Caetano fez uma minuciosa investigação nos preciosos arquivos do Erário Régio (no Tribunal de Contas) e chega a conclusões preciosas: o auxílio financeiro britânico para as tropas portuguesas foi essencial. O governo britânico socorreu Portugal com a entrega de dinheiro, géneros alimentícios, armas, calçado e fardamento, o que correspondeu ao valor espantoso de 70 por cento das receitas totais que o Erário Régio era capaz de captar nesses anos dramáticos. De 12 de abril de 1809 a 30 de setembro de 1814, entraram nos cofres do Erário Régio 29.258 contos de réis (cerca de 8 milhões de libras esterlinas), para manutenção de 30 mil homens (quando inicialmente tinham sido previstos efetivos de cerca de metade), de um exército regular, que Portugal antes não tinha tido, tão bem equipado e eficaz. Aliás, aquando da vitória do Buçaco as apreciações do comando inglês foram encomiásticas sobre a qualidade dos portugueses, ombreando com os melhores britânicos. Acrescente-se que o auxílio financeiro da Grã-Bretanha teve o mérito de evitar a bancarrota portuguesa. E os atrasos nos pagamentos em 1814-15 foram responsáveis pelo não envio de reforços para Waterloo, em nome da parcimónia. O certo é que foi decisiva a determinação de Lorde Wellington para garantir os «socorros pecuniários». E os ganhos estratégicos da vitória foram nítidos: a ativação do comércio brasileiro, a entrada no Atlântico sul, a valorização do porto de Lisboa e do sal de Setúbal. Uma reflexão económica essencial, pelo que revela da história política.

Guilherme d'Oliveira Martins

LONDON LETTERS

The Winston banknote, 2016
 

O 1940s British spirit está de regresso à pauta patriótica, em renovado ciclo de impression management. A novidade chega de Chartwell, no agradabilíssimo Kent. O Bank of England anuncia a introdução em 2016 de uma nota de 5£ inspirada em Sir Winston Spencer Churchil. ‒ Une initiative très, très opportune! O fac-simile da numerária apresenta o herói da II World War em intenso blue C, com as Houses of Parliament em fundo e inesquecível frase em momento da posse como Prime Minister. – Look the three o’clock at Big Ben! Com o icónico retrato tomado pelo fotógrafo Yousuf Karsh nos Commons de Ottawa (Canada) em 1941 December 30 e a referência ao Literature Nobel Prize pela “brillant oratory in defended exalted human values”, recebido em 1953 com Albert Camus, a banknote inscreve ainda uma memorável citação do estadista em Downing Street. A 13 May, 1940, após a demissão no Number 10 de Mr Neville Chamberlain, o já Premier informa os ansiosos MPs: “I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat.” O sofrimento humano sobe a níveis nunca outrora vistos.

 

 

Well, well! The man never out of season. A gestão das perceções será graciosa ou melancólica. No caso, tudo se resumiria à saída da fiver de Mrs Elisabeth Fry, philantropist, não fora uma controversa passagem pelo 11 Downing Street. Ainda na esteira da guerra de 1914-18, Sir Winston é nomeado Chancellor of the Exchequer do Baldwin Government. Tal como ocorrera em 1886 com Lord Randolph Churchill, ali adopta uma decisão que amargamente depois revê pelos devastadores efeitos: a conselho de Sir Montagu Norman, governor do Bank of England, decide pelo regresso do UK ao gold standard em 1925, April 28. Para a história fica o ensaio de Mr John Maynard Keynes sobre "The Economic Consequences of Mr. Churchill" e a greve geral de 1926, contra massivo e trágico desemprego em vésperas da 1929 Great Depression iniciada na Wall Street. Já em Chartwell, modernizada a velha mansão vitoriana adquirida em 22 com Lady Clementine, o escritor ocupa-se nos quatro majestosos volumes de Marlborough: His Life and Times.



 

Sir Mervyn King sugere que a “Winston” revivifique o espírito que vence os nazis de Herr Hitler para enfrentar a nossa era de austeridade. É de saudar a iniciativa do Bank of England Governor. Agora todos sabemos que, quando nos questionarmos sobre onde andam os churchill destes dias, eles estão na carteira das moedas ao valor de cinco libras esterlinas. No entretanto, a questão estratégica é outra: – Austerity is hurting, but is it working!?

St James, 1st May

 

Very sincerely yours,
 

V.

LEMBRANÇA DO BLOC-NOTES…

 

"Cumpridas as exéquias da tia Ana Adelaide Eugénia, eis-me em Bordéus, donde seguirei para Paris. Já que por cá passei, aproveito para dar um salto às "landes" e ver "en su sitio" o François (Mauriac). Independentissimamente bravo, quase anarca no exercício da inteligência, simultaneamente cheio e a esvaziar-se da revolta contra si e a sua condição, enorme na sua sinceridade reprimida, maior ainda nesse modo sublime do amor dos outros que é o de não mentir a ninguém. Não falámos de literatura, nem sequer do drama íntimo que é a vivência da fé pela consciência alerta da condição humana. Falámos de Pierre Mendès-France e de um jovem tecnocrata cristão, vindo da JOC e do movimento "La Vie Nouvelle", discípulo político do republicano laico que Mendès é: Jacques Delors. A admiração de Mauriac por Mendès-France é patente. Lembras-te do que ele proclamou depois da sua derrota política em 1958? "O nosso Pierre Mendès-France não precisa da tribuna parlamentar para nos dizer a verdade: esse nobre destino continua. Saúdo-o aqui com admiração, afeto e respeito". O republicano laico, descendente de judeus portugueses, aliás cristãos novos já miscigenados de cristãos velhos, contou, desde Junho de 1954, com o apoio caloroso do Nobel da Literatura, filho fiel da burguesia católica das "landes", discípulo de Barrès e do catolicismo social: "Desejo apaixonadamente que Pierre Mendès-France reponha este velho país a flutuar. É preciso que este governo dure o tempo necessário à salvação da nação. Trazemos debaixo de olho aqueles que juraram a sua perdição...". Escolhido pelo presidente René Coty para substituir, em Matignon, o primeiro-ministro Laniel, cujo governo caíra um mês depois do desastre de Dien Bien Phu, Mendès vai procurar desenvolver um socialismo humanista, com uma política financeira de inspiração keynesiana, ainda que com algumas correções, aliás já expostas no seu "La science économique et l´action". A esse respeito,Jacques Delors comentaria mais tarde: "Nunca devemos esquecer que ele não era simplesmente um economista, nem simplesmente um homem cheio de ideal, nem simplesmente um homem preocupado com a eficácia, mas esses três ao mesmo tempo..." A experiência foi-se abortando com o clima político da 4ª República, e terminou com o regresso vitorioso de De Gaulle em 1958. Curiosamente, o François mostrou-me esta tarde o que escrevera no Figaro Littéraire de 29 de Dezembro de 1966: "Digo a esses amigos de Pierre Mendès-France (PMF): o que sempre pensei e continuo a pensar é que a conjunção de PMF e de De Gaulle teria sido a coisa mais feliz que poderia ter acontecido à nação. A impossibilidade disso está inscrita na própria natureza de PMF, nessa inflexibilidade que faz a grandeza dele, mas que também fez o seu destino e o condenou a não servir  -  a não ser por uma acção toda espiritual. Contudo, PMF está muito mais próximo de De Gaulle, serei até tentado a dizer que infinitamente mais próximo, do que de Mitterrand, de Guy Mollet ou dos chefes comunistas. De Gaulle e Mendès, cada um de seu lado, fizeram da França uma ideia que, no fundo, e seja o que for que disto pensem, é a mesma: uma França independente no século e nos céus, e senhora de independência e liberdade para todos os povos..." Facto é que "wishfull thinking" não leva a nada: em democracia, os líderes carismáticos são meteoros, porque ela, como a praticamos, é uma forma revista do feudalismo antigo, no que tinha de mais pernicioso. Ao sentido moral, esse que aponta para o bem da pátria e conduz à procura do interesse geral, sobretudo dos mais necessitados, sobrepõe-se a ganância dos grupos de interesses e das suas forças organizadas em partidos, sindicatos, clubes e manifestações... O mal que deitará a perder a nossa civilização é essa miopia do ganho material. Não percebermos que o apregoado crescimento do PIB não é desenvolvimento económico e social, pois este se deverá construir conscientemente pela participação de todos no esforço comum e nos rendimentos provenientes. As nossas democracias sociais são um adiamento da consciência moral, uma simbiose entre a ganância avara do capital e a ganância reivindicativa e invejosa do sindicalismo. Ora isso não é um projecto social. Não é um humanismo, pois este só se orienta por valores que sejam objectivos definidos pela consciência de que o homem é, necessariamente, um ser em relação com os outros. Não sei se as doutrinas que por aí se ensinam e divulgam podem servir. Penso que não poderemos prescindir do sentido do outro e do diálogo. Admiro a pugnacidade do François, e a sinceridade da sua fé cristã. O desassombro com que desafia o que, para um burguês instalado, são bens já adquiridos. Mas parece-me ouvi-lo dizer, parafraseando Flaubert: "Thérèse Desqueyroux c´est moi"... A noite está calma e tão quieta que só mexe o tremeluzir das estrelas. Longe estão, e nós tão longe delas. Recordo, contigo no coração, aqueles serões tropicais, no imenso terraço aberto ao infinito perceptível dos céus da casa da tua irmã, em que o nosso Alberto, acompanhado pelas guitarras do Nobre e do Videira  -  que com ele tinham sido rapazes idealistas em Coimbra  -  cantava: "Ó estrelinha do norte, espera por mim, que eu já vou! Alumia o meu caminho, já que o luar me enganou!" Lembras-te? Porque será que, com o avançar da idade, a mesma estrela nos chama? Mas vemo-la melhor, talvez, cerrando mansamente os olhos..." Trinta anos depois da morte de Camilo Maria, li numa biografia francesa de Pierre Mendès-France, que o genealogista português Bivar Guerra situara a origem do apelido no doutor Luís Mendes da Franca, filho de Pedro Mendes Ribeiro e de Isabel da Franca. Foi o Dr. Luís oficial do Santo Ofício... E teria sido Francisco, seu filho natural e ourives de ofício que, ao casar-se, no sec. XVI, com Antónia Freire, de reconhecida origem marrana, determinou o exílio de sua família e, em França, o passo de Mendes da Franca para Mendès-France. Si non e vero e bene trovato... Mas a consciência da sua condição de judeu, meio século depois de Dreyfus, e em tempo de holocausto, nunca largou Pierre Mendès-France.

Camilo Martins de Oliveira

Alexandre O’Neill: o exemplo de como dizer as coisas.

 

A beleza e o músculo dos seus poemas sempre me deixaram claro que o importante é viver na padaria da aldeia de cada um. E regar os gladíolos, e vestirmo-nos com traje de humor e em coração, a luta e a colcha que nos cobre os dias.
Ainda hoje leio o grande Alexandre O’Neill com a surpresa que me deixa sempre. A sua prosa, também marcada pelas influências surrealistas - ou não tivesse O’Neill sido um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, José-Augusto França entre outros, tendo tido lugar as primeiras reuniões deste grupo na conhecida pastelaria Mexicana – utilizava um jogo de palavras lúdico e único e também se caracterizava por uma intensa sátira aos portugueses tão clara na expressão "meu remorso, meu remorso de todos nós".

O’Neill não conseguindo viver apenas da sua arte, chegou-se até ao campo da publicidade e é da sua autoria o lema

«Há mar e mar, há ir e voltar» ou, da campanha desse Verão «Passe um Verão desafogado».
Alçada que tanto admirava Alexandre O’Neill e que sempre foi seu grande amigo, relatou-me que um dia tinha perguntado ao O’Neill, qual seria a razão do bom entendimento deles, ao que Alexandre teria respondido, dizendo de imediato “ A gente dá-se bem porque não se leva a sério”.

António Alçada considerava-se neste grupo de amigos, um crente entre os ateus e uma vez, num táxi, seguia O’Neill com José Cutileiro e disseram adeus ao António Alçada quando por acaso o avistaram. E o Alexandre terá dito para o José Cutileiro: “ O António ficou a pensar: lá vão aqueles para o ateísmo”.

Um dia o António escrevia a sua crónica para a revista Máxima quando me disse: “Sabes que o José Cutileiro tinha bons versos? Recordo aquele “ De si me sirvo amor como de tudo” e , como o declamou ao lado do Alexandre, este, fez-lhe o reparo

Falta aí uma vírgula. De si me sirvo, amor, vírgula, como de tudo.

Alexandre O’Neill sempre com humor era um prazer ouvi-lo, uma verdadeira fonte de achados linguísticos, assim me transmitiu o António Alçada num dos múltiplos dias em que do Alexandre me falou.

E tendo acordado naquele Domingo com um poema do Alexandre na memória, o António telefonou-me e lá fomos almoçar ao restaurante em Sintra. A verdade, é que a dada altura, subíamos a Serra de Sintra na 4L do António, enquanto eu lia em alta voz um poema do O’Neill que começava

Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo

- Ó António !, gritei-lhe, olha que não estamos a subir. O carro não sobe?

- Olha Teresinha senti o mesmo, mas não queria interromper o poema.

- Ó António, não estás a ver que trazemos o caixote do lixo agarrado ao pára-choques?

E continuei

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

E o Alçada olhou-me e comovidamente disse-me:
Ó Teresa ainda bem que não paraste a leitura do poema do O’Neill. Foi a melhor homenagem que lhe fizeste: o caixote do lixo pode perfeitamente querer ouvir o poema de um beijo.

 


TERESA VIEIRA

OS 120 ANOS DE ALMADA: A POTENCIALIDADE DO ESPETÁCULO

Já aqui dissemos que o teatro de Almada, nestes 120 anos que se assinalam, está em parte por conhecer. Iremos falando dele, bem como no teatro e na obra doutrinária e pedagógica de Fernando Amado, amigo da vida inteira e que o ajudou a revelar: o CNC e a Casa da Comédia, entidades convergentes em pessoas e em espírito e ação cultural, estiveram ligadas a essa grande obra como a seu tempo veremos.

Aliás, ao Fernando Amado são dedicadas variadíssimas obras de Almada.

 

Mas hoje referimos aqui Olhos de Gigante, evocação/adaptação de “O Menino de Olhos de Gigante” e de outros textos de Almada, que o Teatro “O Bando”, dirigido por João Brites, leva à cena.  Diálogo de dois personagens, aliás excelentemente interpretados por Ana Brandão e Rui Atalaia, e com suporte musical de Gil Gonçalves, o texto ilustra bem a dimensão de espetáculo de toda a obra de Almada - seja ou não escrita diretamente para a cena.

 

Ora, precisamente, o longo poema denominado “O Menino de Olhos de Gigante”, não sendo escrito para a cena, envolve e transmite um sentido espetacular que se casa com a visão introspetiva contida na respetiva dedicatória, chamemos-lhe assim: “ Dizem que sou eu, o Menino de Olhos de Gigante; e eu juro, pela minha boa sorte, que não sou só eu” …

 

Não se trata pois, no espetáculo de “O Bando”, de uma leitura cénica direta, mas antes de uma evocação da obra de Almada, a partir da transformação em diálogo de textos diversos e dispersos. E é oportuno então lembrar que o poema original, datado de Sintra- Outono 1921, contém uma espécie de reflexão panteísta, permita-se a expressão, do homem face a si próprio e face á natureza, transposta, neste espetáculo, através de um diálogo de dois personagens que remetem para a beleza e profundidade do “Antes de Começar” (1919), esse sim, escrito diretamente para a cena.

 

E entretanto, o poema em si contem a tal dimensão de espetáculo que não é demais referir. Por exemplo:
“Lá em baixo a descansar/’estava a cidade deitada:/tão pequenos os telhados/vistos do alto da serra/qu’ era os olhos de espantar/e de não se acreditar/ter por baixo dos telhados/grandes casas d‘habitar”…

 

Esta evocação traz implícita a espetacularidade de toda a obra de Almada, o seu sentido plástico, digamos mesmo paisagístico… E o texto agora encenado, somatório articulado de tantos textos, contém as referências à ligação entre o teatro e as artes plásticas que são o cerne da obra geral de Almada.

 

E se sintetiza nas falas do Menino dirigidas ao Gigante que lhe quer roubar os olhos, tal como por exemplo no diálogo do Boneco e da Boneca em “Antes de Começar”, do “Pierrot e Arlequim Personagens de Teatro”, ou da Vampa e do Freguês ou de Ela e Ele no “Deseja-se Mulher” - e por aí fora, como iremos vendo nós também!

 

Duarte Ivo Cruz

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