Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Está uma manhã quente, mas Cós eleva-se verdejante e fértil.
Começamos a pé pela Ágora antiga onde abundam vestígios e ruínas, entre as quais a do Templo de Hércules, de quem Hipócrates descenderia pelo lado materno. O "fundador da medicina moderna" aqui nasceu em 460 a.C. e teria plantado o milagroso gigantesco plátano que nos dá uma sombra benfazeja enquanto o evocamos. Além de ter pela primeira vez, que se saiba, classificado doenças e os quatro temperamentos psicossomáticos relacionados com os elementos da natureza, proferiu o juramento que ficou célebre.
Depois de prestar homenagem ao seu Mestre, comprometeu-se a tudo fazer que pudesse beneficiar os doentes, abstendo-se de todo o mal e injustiça. Jurou jamais ministrar venenos ou a uma mulher substâncias abortivas e protestou passar a vida e exercer a sua arte na inocência e na pureza. Baniu intenções de qualquer malefício voluntário e corruptor, sedução de mulheres ou rapazes, escravos ou livres. Prometeu nortear-se pelo segredo profissional e a discrição; nutriu a esperança de assim poder gozar a vida e o exercício da sua profissão honrado para sempre entre os homens. Mas em caso de perjúrio, que o destino lhe fosse adverso para sempre.
Esta alegria, justiça e pureza crescentes ameaçadas pela fatalidade estão no símbolo da serpente, eterna esperança de cura. De regresso ao barco vimos como da constelação da Lira, ligada a Apolo, derivam as do Hércules e do Ophiucus, esta atravessada pela infindável Serpente que nasce perto da Coroa Boreal, louro celeste dos heróis míticos. O profundo sentido da vida paira sobre as nossas cabeças dito pelas estrelas brilhantes, nas incessantes trocas entre céu e terra, em baixo como em cima.
Foi na "mediterrânica noite azul e preta" de Cós que Sophia comprou "numa venda junto ao cais / Rente aos mastros baloiçantes dos navios" o búzio que deu o título a um dos seus livros, e consigo "trouxe o ressoar dos temporais".
No mercado vimos incontáveis búzios de múltiplas cores e espécies, conchas, esponjas e estrelas-do-mar. Mas o búzio trazido por Sophia naquela longínqua noite como a de hoje sem lua que para sempre a ligou, e nos ligou, a Cós, não ecoava afinal "o marulho de Cós nem o de Egina / Mas sim o cântico da longa vasta praia/ Atlântica e sagrada/ Onde para sempre minha alma foi criada".
A evocação de Fernando Amado, como escritor, como doutrinário interveniente na vida pública e cultural do seu tempo e como homem completo de teatro - dramaturgo, encenador, diretor de companhia, professor - tem aqui sido feita no também no quadro das comemorações dos 120 anos de Almada: aliás, o CNC esteve diretamente ligado à colaboração recíproca de ambos, como temos recordado.
Ora, importa assinalar aspetos pouco conhecidos da obra de Fernando Amado. Já referi a sua ação pedagógica no Conservatório, de que muito beneficiei. Mas esse sentido pedagógico e essa notável vocação educativa surge em muitas outras e por vezes inesperadas áreas. Uma delas, hoje esquecida, foi a colaboração, como dramaturgo, na Campanha Nacional de Educação de Adultos que, nos anos, 50, desenvolveu uma notória ação de alfabetização, sobretudo no grande interior e nos meios rurais, á época mais do que carenciados.
Para essa Campanha Fernando Amado escreveu, em 1953, duas peças em que concilia o sentido didático com a simplicidade poética da escrita. Logo os nomes são esclarecedores: “O Livro” e “O Aldrabão”, nada menos. Ambas encenadas por António Manuel Couto Viana, percorreram, sobretudo a primeira, o país, representadas por atores profissionais.
São textos de grande sentido teatral e perfeição literária, como tudo o que Fernando Amado produziu. Mas mais do que isso: a propósito e a partir do temário pedagógico da educação de adultos, Fernando Amado refere outra importante questão da sociedade portuguesa - a saber, a emigração/imigração.
Senão, vejamos. Em “O Livro”, o protagonista, Gil, num longo monólogo inicial, está feliz porque estudou: “ganhei a aprovação nos exames de leitura e escrita graças ao senhor prior. Já não sou analfabeto e por conseguinte posso embarcar… Dito e feito. Se bem o pensei, melhor o fiz”… e ei-lo de partida para Luanda, chamado pelo amigo Tomé das Bouças. Certo que naquele tempo Luanda não era propriamente emigração, mas talvez já fosse imigração…
E a peça desenvolve-se numa sucessão de diálogos com amigos, habitantes da aldeia, um escrivão, um caixeiro-viajante, num registo de fé cristã e apologia da alfabetização e do livro simbólico, que o Gil enviará ao seu amigo Cristóvão.
E em “O Aldrabão” o protagonista “Xico, o aldrabão, trepado sobre uma pedra, fala a um grupo de aldeões” a quem lê as cartas por eles recebidas e que eles não conseguem ler… Mas afinal, o Xico é tão analfabeto como eles: não lê, inventa as correspondências recebidas. E por isso mesmo, só por milagre ele próprio, porque não leu a convocatória, não faltou à incorporação no serviço militar, o que lhe daria uma pena de prisão.
O Xico assume a sua “aldrabice” e confessa-a ao amigo Manuel. “ Xico - É verdade Manuel. Não sei ler. O Xico Vaqueiro, o leitor encartado, o rival da senhora professora, olha para um livro ou para um jornal como boi para palácio…” E a solução, para evitar ser preso como desertor (“são capazes de pregar comigo numa enxovia a pão e água!”) é emigrar: “estou resolvido a fugir, a passar a fronteira” !
Afinal, não precisa: ainda está tempo de se apresentar no quartel!
Repito: ambas as peças de Fernando Amado, cada uma a seu modo, apontam para a emigração/imigração, como solução e modo de vida ou como recurso; e em qualquer caso, revelam a mesma opção: partir pra outras terras.
Mas sobretudo, ambas provam, diretamente ou a contrário, a absoluta prioridade da leitura, da alfabetização - e a partir daí, da educação e da cultura!...
Nestes dias longos e quentes pouco se figurará mais aprazível que uma passeata pelo countryside. O destino cabe à pauta do gosto de cada qual, seja esta aldeia histórica aqui ou aquela deslumbrante montanha acolá. Mas um chapéu, sapatos confortáveis, um bom guia tipo Simmons ou the good old Hoskins mais o notebook são indispensáveis no kit do viajante observador para adequada imersão na esfera do achamento. ‒ Ça c'est trés chic! O hábito de viajar, anotar e refletir sobre o que se presencia é prazer ancestral do ilhéu, por vezes acompanhado pela parafernália de bicicletas, mapas e horários dos railways. Avança-se, a terra como que adquire especial vibração e eis a alquimia de a smalll piece of landscape ficar no olhar. – Well, you know what. A rare old plant is the Ivy green! Pelo meio gera-se o turista acidental, um pouco como o relutante império além Mancha, com a sua grelha própria de notes on travelling ao nível de um designer profissional. Ora, há paraísos em perigo nos England’ green belts!
Com a questão da tax avoidance pelas grandes empresas finalmente descoberta pelo Treasury e a Google ou a Starbucks martirizadas nos media, tudo já em curso para escrutínio em Westminster pela mão do Labour ou dos Lib-Dem, as atenções locais andam agitadas com uma das iniciativas governamentais melhor sucedidas do pós-guerra. Em 1955, uma circular do minister of Housing Duncan Sandys encoraja os local councils a protegerem “a land around towns and cities by the formal designation of clearly defined green belts”. Um qualquer iluminado no Department of Local Government and Planning, decerto fatigado pelas incessantes declarações pias que desde 1935 o tema suscita sem chegar a ação alguma, simplesmente propõe devolver-se a decisão às populações. Eureka! Produz uma política pública com os mais altos índices de benignidade, efetividade e popularidade dos tempos recentes, a rivalizar com aqueloutra do King Edward VII ao assumir o trono, em 1901, após o passamento da Queen Victoria. ‒ Gentleman, you may smoke. Aliás, cá por casa se saúda o connoissuer com o cigar da proclamação e se assina a petição pela defesa da provisão de ar fresco a 45 milhões de seres, ameaçada pelos planos de revisão do National Planning Framework que ocupam o Coalition Govt.
Standing up for the countryside é algo aqui tão natural quanto o inconfundível green of England. Afinal, a exclamação do public value of tranquility. Este é um pequeno país, aí um quarto do território da França, no mais, uma ilha emergida para os lados do teto do mundo. Os 14 Green Belts espalhados pelo território ocupam apenas um décimo of The Land (The country habit has me by the heart…/ Not with his eyes but with his vision), algo como 66% da área agrícola, mas assistem com beleza 88% da população urbana. O omnipresente verde no centro das comunidades, maiores ou menores, tem desde sempre uma prosaica razão de ser: em tempos menos tecnológicos a nublar o olhar, tal engenho permite aos moradores assegurar a defesa das pessoas e dos gados de potenciais predadores nas circundezas.
O gosto pelo património é uma linha caraterística no quotidiano, história e literatura britânicas, que talvez se prenda mesmo com o conservadorismo de um país razoavelmente feliz, onde o governo dos comuns é por tradição algo diverso de as elites governarem-se. Uma sociedade civil vibrante tem destas coisas, simples, benéficas quer para o indivíduo, quer para a comunidade. Contudo, tem uma exigência: rejeitar a mediocridade satisfeita. ‒ And, fully appreciate what we are looking at!
Depois de um atraso de rota devido a alterações de ventos, enfim Creta à vista.
Em Iraklion sabemos que afloramos um dos lugares ctónicos da procura do homem: da sua identidade, do mistério da morte, da relação com os deuses. O mito aqui entrelaçou as suas teias mais densas: o labirinto e o minotauro, o rei Minos, Dédalo e Ícaro, Teseu, Ariadne, Dionísio. Por entre as brumas do mistério da relação existente entre as civilizações micénica e minóica, as tabuinhas contendo as escritas Linear A e Linear B e a civilização cretense “lato sensu”.
Perplexos nos aproximamos pois, do “Palácio do Rei Minos”, várias vezes destruído e reconstruído ao longo dos tempos, entre o período neolítico e o séc. V da nossa era. Tremores de terra e conflagrações várias contribuíram para que tudo se confundisse quando se tentava aclarar, se aclararasse quando se voltava a confundir.
Sir Arthur Evans afirmou-se o grande reconstrutor de tão imersas ruínas, propondo versões certamente contestadas, em que pressentimos não obstante o pano de fundo de ainda mil hipóteses e especulações vindouras.
Desde o trono de alabastro que teria pertencido ao Rei Minos, às colunas reconstruídas e pintadas cor de sangue taurino, até aos surpreendentes frescos em que se inspirou a nossa arte “pop”, e que evocam o céu, a terra e o mar nos seus polvos e golfinhos, nos seus bois, nas suas ânforas, nas suas estrelas e azuis.
No momento presente é a busca da língua transcrita nas escritas Linear A e B que ocupa os melhores investigadores. Michael Ventris provou genialmente que a Linear B transcreve grego arcaico e deixou pistas conducentes a conclusão idêntica quanto à Linear A, embora quanto a esta a prova não esteja confirmada.
Tudo o que à escrita toca vai ao fundo do fundo das questões, e o cabal esclarecimento das tabuinhas encontradas em abundância nas escavações de Iraklion e do mundo micénico pode levar a conclusões imprevistas e surpreendentes quanto ao nó central de tantos fios ainda dispersos.
Embora o museu arqueológico em Iraklion estivesse parcialmente encerrado, pudémos percorrer uma extensa amostra da sua riquíssima colecção, que inclui jóias, frescos, ânforas, o célebre discos de Phaistos, o “anel do rei Minos”, a figuração dos atletas fazendo o pino no dorso de um touro ou dos malabaristas precipitando-se em saltos mortais. Numerosos achados provenientes dos túmulos que rodeiam a área das escavações completam a extraordinária colecção.
À saída, ouvi um dos viajantes comentar que o Minotauro e o Labirinto eram “aquilo”, as próprias escavações e reconstruções de Evans; que o Minotauro ali continua presente e iminente, como aliás Sophia preveniu:
“Assim o Minotauro longo tempo latente
De repente salta sobre a nossa vida
Com veemência vital de monstro insaciado”.
Neste périplo das ilhas gregas cada experiência imprimiu carácter. Houve longos percursos, o Egeu transformou por vezes o seu azul luminoso em vinoso ameaçador e o nosso belo e seguro veleiro – iate de turismo baloiça neste momento como uma casca de noz.
"État modeste, État moderne" (Fayard, 1987) é uma obra crucial no percurso do sociólogo Michel Crozier (1922-2013), recentemente falecido. Aí a ideia de reforma da administração pública aparece centrada na obrigação responsável de melhoria das prestações concedidas aos cidadãos e na avaliação exigente da qualidade dos serviços público de interesse geral, tema de extrema atualidade.
UM ARTÍFICE DA EXPERIÊNCIA Michel Crozier era um artífice da experiência. Faleceu, com noventa anos, nos últimos dias de maio. Como jurista e sociólogo, teve influência decisiva na segunda metade do século XX, nos dois lados do Atlântico, ao considerar a «análise estratégica» como um «método de fazer aparecer os problemas», e não como um qualquer conceito fechado. Nunca saberemos, dizia, quais as questões antes de as analisar. «É preciso descobri-las pelo trabalho e pela experiência». Numa obra referencial como «L’Acteur et le Système» (com Ehrard Friedberg, 1977) procurou articular a singularidade com as relações interpessoais. E, como salientou Philippe d’Iribarne (cf. «Le Monde», 27.5.13), diretor do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de Paris, enquanto Alain Touraine e Raymond Boudon realçam a importância da iniciativa individual dos sujeitos sociais e Pierre Bourdieu se coloca do lado do sistema – Michel Crozier procurou pôr em prática um complexo vai-e-vem, que permite compreender as circunstâncias em que um dos polos (individual ou social) é mais influente, sem esquecer que pode haver diversos equilíbrios nessa relação – o ator e o sistema não são tudo e nada, têm de ser pensados ao mesmo tempo. Crozier foi sempre alguém preocupado com as explicações, o que o levou a aproximar-se de Raymond Aron. Nunca se contentou com lugares comuns ou adquiridos. «Nada é irracional. O conhecimento do contexto permite compreender a racionalidade de um comportamento que parecia irracional». Foi essa perspetiva que permitiu ao investigador do fenómeno político avançar, antes de outros, na exigência de pensar o Estado moderno. A única forma de ultrapassar o centralismo, a burocracia, a ineficiência e de garantir uma melhor legitimação democrática, bem como a ligação aos cidadãos obriga a um reforço da responsabilização e de uma lógica contratual. A estratégia do Presidente Franklin D. Roosevelt no «New Deal» atraiu, desde sempre, o sociólogo. Houve, contudo, quem não compreendesse essa atitude, considerando-a utilitarista ou até excessivamente liberal. No entanto a consideração que Crozier faz da complexidade e a exigência do equilíbrio entre o ator e o sistema têm de ser entendidas como premonitórias e como garantias de democraticidade e de consolidação do Estado social, baseado na noção de diferenciação positiva e de responsabilidade social. Em «État modeste, État moderne» (Fayard, 1987), obra crucial no seu percurso científico, a administração pública aparece centrada na obrigação de melhoria das prestações e na avaliação da qualidade do serviço público. Daí a importância de uma definição clara e comprometida das missões, dos objetivos, dos meios e dos resultados. Em vez de um «Estado arrogante» ou de um «Estado imperial», importa assegurar que tenhamos um Estado que ajude as pessoas e os cidadãos. Para assegurar o serviço público de interesse geral, urge absolutamente ponderar a sobriedade na aplicação dos recursos, na perspetiva dos cidadãos em posição mais desfavorável (numa articulação entre as perspetivas de Rawls, Walzer e Sandel) e na consideração de uma definição flexível das condições de coesão social e dos compromissos estratégicos. Como escreveu em «Le Phenomène bureaucratique» (Seuil, 1964), preocupavam-no a rigidez da sociedade e as resistências à mudança, por contraponto aos exemplos de planeamento aberto do já citado New Deal e da contratualização de compromissos públicos nos países nórdicos.
DISCÍPULO DE ALEXIS DE TOCQUEVILLE Se houve no século XX um discípulo de Alexis de Tocqueville capaz de atualizar e de renovar a lição fundamental do célebre diplomata, ele foi Michel Crozier. Por isso, foi justíssima a atribuição, em 1997, do Prémio que tem o nome do autor de «Da Democracia na América». Quando, no final dos anos 50, a convite de Daniel Bell, investigou no Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences, de Stanford, fê-lo tendo em mente o método de Tocqueville. No final dos anos 40, estudara, aliás, o funcionamento dos sindicatos americanos, tema da sua tese em Direito, que prosseguirá no âmbito dos diversos inquéritos que realizou no CNRS, como foi o caso de «Petits fonctionnaires au travail» (sobre os serviços postais). De facto, para Michel Crozier, no caso francês, foi o Estado que foi afeiçoando a sociedade, devendo aí ver-se a possibilidade de lançar sementes de mudança. Disse-o em várias circunstâncias, designadamente no Club Jean Moulin, ao lado de Stéphane Hessel e de Daniel Cordier, nos anos sessenta. O seu percurso intelectual favoreceu, aliás, a evolução no sentido do comparatismo e da inovação. Começou a colaborar na revista de J. P. Sartre «Les Temps Modernes» (1951), num tempo em que se considerava marxista crítico, próximo do trotskismo, tendo colaborado depois na revista «Esprit», graças ao convite de Jean-Marie Domenach (1957), publicando o texto fundamental «France, terre de commandement», onde condenou o profetismo marxista, a distância social dos indivíduos, o medo da relação direta, o desconhecimento do fator humano, a omnipotência do Estado e a obsessão dom poder como fim em si.
CONTRA A BUROCRACIA DE ESTADO Lembramo-nos, porém, de que, aquando defendeu a tese no doutoramento de Estado em Sociologia (1964), Georges Gurvitch pôs sérias dúvidas quanto à possibilidade de aligeirar a burocracia de Estado numa sociedade dominada por trusts e cartéis. Para Crozier, um reformismo audacioso e eficiente obrigaria sempre a ouvir as pessoas, à concertação social e ao compromisso das instituições. Se lermos atentamente «La Societé Bloquée» (1970) e «On ne change pas la societé par decret» (1979) facilmente percebemos que o sociólogo não se limita ao protesto ou às boas intenções, centra-se na exigência de um planeamento indicativo e flexível, atento à complexidade, de uma democracia de cidadãos ativos e de um espaço público organizado (no Estado e nas instituições supranacionais), a partir de um contrato social, envolvendo a consideração dos meios, dos objetivos e dos resultados. A burocracia não pode, assim, confundir-se com qualquer formalismo – havendo necessidade de um equilíbrio entre o controlo, a responsabilidade, a disciplina e a justiça. E o certo é que hoje regressámos à situação (como se nota na Europa) de uma «sociedade bloqueada», em que a democracia, a legitimação e a legitimidade do exercício voltam a estar em causa. Pode dizer-se que Michel Crozier teve razão antes de tempo, e tal deveu-se ao facto de ter baseado na análise das experiências, envolvendo os países europeus e os Estados Unidos da América, as suas argutas conclusões e propostas – não esquecendo uma visão muito crítica relativamente à evolução norte americana, como se encontra dito em «Le Mal Américain» (Fayard, 1980), onde se notam já os sinais muito preocupantes de bloqueamento que culminariam na grave crise financeira, de especulação e endividamento, da última década.
A travessia para Hidra e a pequena viagem de lancha até ao restaurante do almoço à beira-mar foram o baptismo do Egeu, nesse dia translúcido de azul cobalto. A seguir foi tempo de despedida do guia grego, Panagiotis, que nos acompanhou numa volta rápida pela ilha e reencontraremos no regresso a Atenas. Embarcamos no Panorama II, belo veleiro moderno e confortável; alguns tiveram uma noite de reconhecimento das constelações circum-polares e do Zodíaco, do Leão, passando pela Virgem, Balança, Escorpião e Ophiucus, até ao Sagitário. Ainda Arcturus e Saturno.
Desembarcamos na manhã seguinte em Naxos. O guia local é um velho marinheiro que nos leva ao inacabado Templo de Apolo sobre o mar. José Pedro Serra fala sobre Teseu e Ariadne, também da intervenção de Dionísio, e quando nos propomos traduzir ao experimentado lobo do mar ele diz-nos ter entendido tudo, pois ia seguindo as raízes greco-romanas das palavras portuguesas.
Conduziu-nos ao Templo de Deméter que domina uma paisagem verdejante e fértil – erigido para que perdure a abundância. São maravilhosas as colunas e figurinhas fragmentadas conservadas no museu em frente. As telhas do Templo e os barrotes eram igualmente do mármore cristalino da região, o que é dizer tudo sobre o culto da luz e da claridade. O canto pujante das cigarras também elas férteis era ensurdecedor.
Passamos pelas catedrais, católica romana e ortodoxa. Na primeira, “dedicada a Jesus Cristo”, o guia faz girar um ícone reversível, representando de um lado a Virgem Maria, do outro S. João. Boa pintura dedicada a S. Roque e à Árvore de Jessé e, no pavimento, túmulos de nobres famílias venezianas que viveram na ilha.
Na segunda, depois de percorrido o “Kástro” fortificado, alonga-se o ancião sobre os legados de Catarina da Rússia e as belas peças preciosas que iluminam o culto. Foi com grande amor que nos conduziu pelo santuário que acima de tudo venera e onde deixou acesa uma vela, quem sabe se em nossa intenção.
Assombrou-nos acima de tudo o museu arqueológico, com dois belos kouroi arcaicos e uma das mais importantes colecções de figurinhas cicládicas e de cerâmicas das ilhas gregas.
Ainda com toda a grandeza do sítio arqueológico de Olímpia nos nossos corações – e as arrasadoras métopes do museu, os escudos, as couraças, os elmos de bronze, sob o signo da Niké de Peonios - , avançamos para Epidauro. A travessia do Peloponeso não se faz já como em velhos tempos, por entre a rocha árida em curvas e contra-curvas, elevações abruptas, vales. Existem duas novas estradas, “uma nova em folha”, informa o guia, que nos levam a Tolo onde pernoitamos junto ao mar.
Na manhã seguinte o teatro de Epidauro desenrolou-se em toda a sua magia.
Conservado por condições naturais que reconhecemos únicas – a doçura e a qualidade do ar, os montes que na distância o completam, a vegetação densa que o cerca – é o mais completo e bem conservado de todos os teatros gregos da antiguidade.
Nele Sophia soltou uma vez a sua voz, que lhe fugiu:
“A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha”.
Tudo isto é recordado por Maria Andresen e leituras de poemas por Antónia Brandão debaixo de uma sombra em frente dessas bancadas que se evolam na disciplina da brancura, do puro silêncio e do puro som.
Pelo grupo sentado perpassa o calafrio de um pequeno gato sujo e famélico que nos transporta a Esculápio. Mas antes, num dos terraços, entre as bancadas do teatro, José Pedro Serra proferiu uma das suas vistosas palestras sobre teatro grego, suas origens, estrutura e finalidade profunda, ele próprio inspirado por aquela brisa convocadora de essências.
A cura do corpo passava no santuário pelo espírito. Havia fontes purificadoras, termas, um ginásio e uma biblioteca. Os doentes pernoitavam no “abaton” para que se produzisse a “eukoimesis” ou “incubação”, revelações do deus através de sonhos que podiam prolongar-se por várias noites e os sacerdotes interpretavam. Havia também curas fulgurantes mas todas dependentes de manifestações inconscientes.
Esculápio enunciou Freud, a cura pelo cruzamento das centelhas do espírito e da revelação da nossa dimensão mais oculta e profunda. Na sua circularidade, o tholos de momento irreconhecível e em recuperação profunda era o monumento mais belo e enigmático de todo o santuário. Provavelmente do séc. VI a.C., rodeado por vinte e seis colunas dóricas e profusamente decorado com grandes rosetas e pinturas com flores de acanto e cabeças de leão. Da autoria de Policleto, seria um caminho iniciático conducente ao túmulo de Esculápio.
A gratidão pelas curas, que requeriam fé genuína, era muitas vezes expressa pela oferta ao deus de um poema.
Sorrimos benevolentes. Trazemos-lhe hoje a oferenda mais genuína: toda a obra de Sophia.
"Episódio, no seu grego de origem, quer dizer o que se acrescenta, vem a mais ou a seguir. O acessório. Pela sua evolução semântica, nas nossas línguas europeias de raiz greco-latina, um episódio é parte de algo que passa (como num folhetim da rádio ou numa telenovela), ou ainda um acontecimento fugaz que, divertido ou trágico, não nos merece especial consideração, nem mais memória do que aquela que possamos guardar para divertir uns salões... Os episódios, "ontologicamente" , têm o valor do que se lê em crónicas mundanas das revistas da coscovilhice universal. Genialmente, o nosso Georges Rémy (Hergé) apresenta os jornalistas que, em "Bijoux de la Castafiore", insistem em proclamar ao mundo as núpcias próximas da diva italiana de papagaio nariz com o honrado Capitaine Haddock, como enviados especiais da revista "Paris Flash". Aí está tudo: flash,flash,flash! (Curiosamente, o nosso capitão leva-me sempre àquele disco de vinil, em que me delicio a ouvir o Fernandel contar Alphonse Daudet, com o sotaque do "midi" que tanto nos aproxima e torna amigos da língua francesa: "L´abbé Martin était curé de Cucugnan. Bon comme le pain, franc comme le vin, il aimait passionément ses cucugnanais"... No amor do padre Martin pelos seus paroquianos, como nas fúrias do "capitaine de long cours" contra o supérfluo, estamos a transpor um passo: o que deixa o vaporoso e busca a densidade, o que separa a moda do "clássico". Clássico é o que tem classe, o que se qualificou para ser classificado, como referência, numa cultura. Não é sinónimo de erudito, nem necessariamente erudito será. Na nossa cultura clássica abundam as referências que a sustentam e são de origem comunitária e foram sendo transmitidas por tradição oral: Homero, a Bíblia, os provérbios e canções populares, incluindo, no seu microcosmos, o fadinho castiço dos meus primos lusitanos... Claro que tudo se renova e deve ser renovado, que não haverá futuro conveniente sem "aggiornamento". Mas convirá também não cairmos em tentações apressadas e ilusórias. Que nos levem a aceitar o que um americano já chamou "the triumph of vulgarity". A questão que se nos põe é a de saber até que ponto seremos capazes de nos servir dos novos meios de produção e comunicação, sem nos tornarmos, afinal, nós, os servos deles. Na cultura clássica - e não me refiro sobretudo à antiguidade nem aos mosteiros e estudos gerais da nossa Idade Média, mas penso nos seis séculos de divulgação do pensamento escrito pela imprensa, nisso a que Mc Luhan Marshall chamou a galáxia Gutenberg - o tempo para reflectir e comunicar era mais lento e por isso as ideias e os discursos duravam mais. Também o cérebro humano era educado para compreender e criticar. Aprendia-se a ler e escrever, indo ao dicionário enriquecer o vocabulário e dividindo orações para melhor entender sentidos e concordâncias; aprendia-se a contar e a calcular de cabeça e com lápis e papel. A cultura começava aí, nesse revolver, adubar, semear a terra cerebral. Ou,como na cultura física,em ginasticar a cabeça. Ganhava-se capacidade para discernir e pensar, despertava-se o espírito crítico. A nossa cabecinha preparava-se assim para poder ir distinguindo o certo do errado e perceber o papel do tempo (e, com ele, do esforço) no acerto das coisas. E o critério ia orientando o recurso a utensílios e instrumentos que sabíamos controlar. O estudo da história ensinava-nos a nossa vida antes de nós, e sobretudo tornava-nos membros de uma família muito maior, à dimensão da humanidade. E dava-nos o sentido de uma pertença, que é onde se alicerça a fidelidade. Fidelidade não é antónimo de desacordo, nem sequer de divergência, e muito menos de interrogação... Lutero entrou em desacordo com a hierarquia e o próprio papa - e, divergiu, em várias afirmações doutrinais e práticas religiosas, da Igreja Católica Romana - mas eu não posso dizer que Lutero e todos os luteranos e os outros cristãos que confessam a fé nas igrejas reformadas sejam infiéis. Recordo muitas vezes que a bula "Exsurge Domino"pela qual o papa excomungava Martim Lutero, publicada em 1520, leva o reformador alemão a refugiar-se no castelo de Wartburg até 1522,ano em que inicia a sua tradução da Bíblia em vernáculo. A primeira edição da Bíblia alemã de Lutero será feita só em 1534, no mesmo ano da fundação da Companhia de Jesus. Serve a coincidência para nos lembrar de que as divergências da Reforma e da Contra-Reforma pertencem à mesma linhagem e se inspiram e vivem na cultura da cristandade europeia. E por maiores que pareçam essas divergências entre as confissões cristãs, há sempre um ar de família... A memória comum do fundamento da mesma fé e das raízes da cultura envolvente, reúne-nos, a todos, para além das características próprias a cada grupo,e a cada tempo histórico, numa identidade que, pela mesmíssima dinâmica da sua constituição, tem uma vocação universal. Não no sentido de integradora indiscriminada, nem do de "colonizadora"... Mas enquanto proposta de encontro e convivência, de diálogo. A afirmação excessiva de particularismos religiosos e nacionais levou os europeus a afrontarem-se - em guerras religiosas, políticas, militares, económicas e comerciais - dentro e fora da Europa, por esse mundo e por tempo demais. É aliás curioso notar que as barbáries conhecidas por "Grandes Guerras Mundiais" sejam ambas, na origem, guerras europeias. E, no caso da 2ª, no lado de lá do mundo, o Japão não resistiu à tentação de "imitar" o que considerava o exemplo da expansão imperial e colonial das potências europeias. A tua geração, meu querido Camilo, tem pela frente uma tarefa difícil, já que o progressivo esvaziamento da cultura dos povos europeus da sua tradição clássica (memória, sabedoria, valores, fé) será, em vários sentidos, uma "capitis diminutio": a perda de identidade cultural levará ao enfraquecimento do juízo e do discernimento, ao relaxamento dos critérios de moralidade e de comportamento, à incapacidade de organização social, política e diplomática. A preocupação excessiva com o crescimento económico e a afirmação do dinheiro como critério de todas as coisas vão conduzindo o poder político para fora do exercício de funções ao serviço do bem comum (que não pode resumir-se ao conceito vadio de "criação de riqueza") e para o apagamento, quando não é subserviência, face à liderança crescente dos detentores de poder financeiro e manipuladores dos interesses e iniciativas inerentes. Sinais preocupantes são, desde já, a propagação de otimismos - que me parecem bastante infantis e desligados de qualquer esforço de ponderação pela perspectiva da antropologia e da psicologia social - autointitulados "doutrina neoliberal" e preconizadores da total desregulação dos mercados como abertura da porta de entrada no paraíso terrestre da riqueza e consumo para todos... Nos EUA, até apareceram, nestes anos 70, uns livros de fundamentação teológica da bondade do lucro. Está na moda. Entretanto, vão-se assinando acordos internacionais visando a livre circulação de bens, serviços e capitais... sem que haja o esforço jurídico, legislativo e diplomático correspondente, nas áreas do direito fiscal ou laboral,nem na regulação rigorosa das praças e dos movimentos financeiros,bem como dos produtos por esse sector lançados no mercado. Já no dealbar do capitalismo de economia financeira - que a revolução industrial produziu na viragem dos século XIX para o XX - o Padre Lacordaire lembrava que entre o rico e o pobre é a liberdade que subjuga e o direito que liberta. Da concorrência entre os poderosos grupos de interesses de então, ainda marcadamente nacionais, surgiu a 1ª Grande Guerra, com os seus milhões de sacrificados. A humilhação imposta à Alemanha vencida e o respectivo tributo económico conduziu ao que sabemos... Pensou-se depois que, com certa internacionalização de interesses e a globalização dos mercados que se oferecia com o processo de descolonização, iríamos entrar num período de crescimento generalizado: impunha-se apenas liberalizar, e deixar os "mercados" regularem o resto e fazer-nos ricos. Nestes anos finais da década de 70, há já quem se interrogue, por um lado, sobre a afirmação do Japão como potência económica, industrial e tecnológica - mas parece-me que este exemplo despertará novos intervenientes no mercado mundial, alguns dos quais beneficiando,além do nível de educação e da disciplina social que o Japão tem,de mão de obra barata e de um poder político centralizado e activo ( que poderá conduzir, no mercado internacional, à concorrência de empresas estatais "capitalistas"). Por outro lado, menos gente já percebe que a liberdade crescente dos movimentos financeiros - num mundo com evidentes desigualdades de tratamento de questões na ordem das relações industriais e laborais, das obrigações fiscais, da justiça social e dos direitos humanos - levará inevitavelmente a movimentos de deslocalização, sem esquecer a quase impossibilidade de controlo dos capitais... Daqui por trinta anos, telefona-me para o céu, a contar como está tudo por cá. Espero que a infinita misericórdia de Deus me leve para o céu e me livre do inferno. Quanto mais não seja, por ser mais difícil comunicar com o inferno: as linhas devem estar todas saturadas, com pornografia e transações financeiras... Sabes o carinho paternal com que te abraço."
Esta carta do Marquês de Sarolea foi a primeira em que lhe senti algum cansaço.
Atravessamos a bela ponte suspensa em Patras para entrar no Peloponeso. Ao longo do percurso desfila constante esse “misto de doçura e de austeridade, de afinamento exacto e de rudeza, e uma identidade entre o físico e o metafísico” que Sophia confidenciou a Jorge de Sena. As enormes e constantes montanhas povoam tudo de solenidade. Cheira a resina e a mel e há uma embriaguez austera e lúcida”.
Aridez da terra incultivada, por vezes ardida, ou rocha apenas, que contrasta com “o halo azul nas montanhas e nas ilhas, já um fenómeno conhecido na antiguidade.”
Em Olímpia começamos pelo Altis, grande parque onde eclodiram os jogos. Palestra de proporções perfeitas bordejada de olaias que na primavera incitam com as suas flores; o Templo de Zeus Olímpico de espessas colunas dóricas onde tentamos imaginar a estátua criselefantina que mais adiante o museu também proporá. Finalmente o longo estádio em terra batida onde se soltavam atletas. Regressamos pelo Templo de Hera onde foi encontrado o Hermes de Praxíteles enterrado pelos romanos, ou por um aluvião, ou por um tremor de terra ou pelos turcos, aluvião permanente. Ali se acende também a chama olímpica que nos nossos dias percorre mundo.
Assinala o guia a vizinhança do Alfeus e do Pneus, rios que Hércules teria desviado num dos seus doze trabalhos para limpar os purulentos estábulos do rei Augeias.
Somos há muito acompanhados por uma cadela de língua de fora que se deita à sombra enquanto ouvimos comentar o tholos onde se erguera uma estátua de Filipe da Macedónia. Partilharíamos com ela um gole fresco.
No museu estão representados os doze trabalhos de Hércules, fragmentos do Templo de Zeus. Mas as grandes atracções são o Hermes que rebrilha carnalmente no mármore polido da sua imensa juventude e os dois monumentais pedimentos do Templo de Zeus Olímpico. Num deles a figura central é ele mesmo, acéfalo; no outro Apolo. Os deuses parecem não ter idade nem envelhecer; o corpo de Zeus é tão liso como o de Apolo. Mas a falta de cabeça deixa pairar o mistério.
À saída a cadela olímpica, também sem idade, segue nova geração de visitantes.
Na rota de Delfos detemo-nos no mosteiro de Hoikos Loukas. No século X o santo estabeleceu aqui a sua comunidade monástica e foi uma fonte de milagres que jorravam abundantes. E a arte estava tanto nas curas milagrosas como nos frescos, mosaicos e ícones bizantinos.
Vieram depois a invasão otomana e as bombas da segunda guerra mundial. A dessacralização assume hoje um ar de certo abandono embora a Unesco o tenha classificado em 1990, o culto se mantenha em reduzida escala e as pinturas representando a Ressurreição e a Ascensão de Cristo resplandeçam sempre. À saída alguns acendem finas velas de cera que se misturam com as demais. De cada uma se eleva uma centelha que tece a trama do tempo e consolida os séculos.
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Chegamos a Delfos no princípio da tarde com o ar envolto em tempestade; a terra rescende velhos fumos.
Descemos até ao tholos do Templo de Atena Pronaia. A estrutura circular evoca a serpente enrolada sobre a qual se erguem brancas colunas; é esse também o sentido da subida iniciática até ao Templo de Apolo pela senda dos tesouros.
O deus venceu o phyton na falha daquela rocha que é o umbigo do mundo, “omphalos”, onde ficou a correr a água perene.
Detemo-nos perto do teatro para ler poemas de Sophia e José Pedro Serra convocar a luz solar e as trevas ctónicas de Delfos.
Tudo oiço estendido no chão a olhar o céu; num ápice entrevejo Tolstoi, “A Guerra e a Paz”. As nuvens brancas sobre as nossas cabeças são o novo oráculo – calou-se a voz da pitonisa mas Apolo aproxima essas nuvens semeadas de azul, como um Rorschach divino.
Muitas batalhas se perfilam no horizonte; o estádio está vazio de atletas, Delfos oprime e rejubila. Ouve-se invisível a “Ode à Alegria” de Schiller: “Correi irmãos, a vossa corrida, como um herói para a vitória”.
No museu arqueológico Sophia procurava antes do mais as figurinhas micénicas, a estátua de Antinoos, os maravilhosos cavalos nas métopes dos tesouros, os kouroi, e acima de tudo o Auriga, vitorioso, severo e possante nas pregas do seu bronze.
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A noite tudo apaga mas pressentem-se o imenso mar de oliveiras e os montes que enquadram a procissão das estrelas: do Leão que mergulha a oeste ao Escorpião que se levanta a leste; Saturno, Spica e Arcturus no meio do céu pontuam.
“Mas tanto como a natureza – e ligada à natureza – espantou-me a incrível religiosidade de tudo.” Sophia