Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Vinicius de Moraes

a transpor as fronteiras dos segredos

 

POÉTICA

 

De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo

 

A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

 

Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem

 

Nasço amanhã

Aonde há espaço:

- Meu tempo é quando.

 

                                                      New York, 1950

 

TERESA VIEIRA

  • O homem enquanto arqueólogo da escrita detém a chave também de a ocultar.

FERNANDO AMADO NO CONSERVATÓRIO NACIONAL

 

A edição do Teatro Completo de Fernando Amado, organizada por Teresa Amado e Vitor silva Tavares e prefaciada por Augusto Sobral (INCM 2000) contem para lá dos estudos e sobretudo da recolha de dezenas de peças do autor, um levantamento exaustivo da intervenção de Amado na renovação da cena e mesmo do repertório em Portugal. Designadamente, lembramos as encenações no Centro Nacional de Cultura, na Casa da Comédia, no Teatro D. Maria, no antigo Ginásio, na Faculdade de Letras de Lisboa e em lugares, salas e palcos menos habituais - por todos, como mero exemplo, a cripta da Igreja de são João de Deus.

 

Mas aqui quero lembrar as produções encenadas em 1959 no estúdio de teatro do Conservatório Nacional. Assisti a todos esses espetáculos mas sobretudo tive o imenso gosto e proveito de assistir aos ensaios. E não há melhor contexto para compreender e apreciar, no sentido mais abrangente, uma produção teatral - do que assistir ou participar nos ensaios…

 

Fernando Amado foi professor de Estética Teatral no Conservatório. Mas foi também, em certas fases, orientador das classes de Arte de Representar e Encenação. Nessa área, ”estreou-se” com um texto de sua autoria e desempenhando o seu próprio papel, de orientador/encenador de uma peça em ensaios. Era um Fernando Amado ator, no palco com os seus alunos e falando diretamente para a plateia.

Mas para alem disso, dirigiu e encenou no Conservatório um repertório internacional contemporâneo, a partir de autores que, na época, eram inéditos ou quase em Portugal.

 

Recordemos esse notável repertório, muitas vezes a partir de seleções de cenas escolhidos pelo próprio professor. Assim:

“A Longa Ceia de Natal “de Tornton Wilder, autor praticamente desconhecido, á época, entre nós;  A “Morte do Caixeiro Viajante” de Artur Miller; “O Prazer de Acabar” de Jules Renard; “O Julgamento de Elsa” de Jaime Araújo, texto rigorosamente inédito; “Longa Viagem para a Noite” de Eugene O’Neill;   “O Túnel” de Per Lagerkvist”, autor pouco conhecido ou mesmo desconhecido em Portugal; “Joana d’Arc” de Shiller.

 

Não se levava à cena a íntegra dos textos. E tinha-se bem presente a natureza didática dos “espetáculos”, apresentados com exercícios e/ou audições de alunos. Mas muito embora: a qualidade e a mestria das encenações de Fernando Amado, o pacientíssimo e interessantíssimo trabalho de direção de atores, faziam desses exercícios uma notabilíssima escola de teatro-espectáculo e, ao mesmo tempo, de cultura e literatura dramática - pois cada peça era devidamente enquadrada na época, na construção textual e dramatúrgica e no conteúdo - “na mensagem”, como na altura de dizia. Em termos de grande atualidade. 

 

E quem como eu pôde assistir, não só aos espectáculos/audições em si, mas sobretudo às  aulas/ensaios, aprendeu sobre teatro muito do que hoje saberá e que nunca esqueceu nem esquecerá…!

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

de 10 a 16 de junho de 2013

 

«Os Políticos e o Teatro» de Duarte Ivo Cruz (INCM, 2012) fala-nos das incursões de políticos e governantes portugueses nos domínios da dramaturgia. E sabemos bem como a vida política tem muito a ver com a representação teatral – no mais genuíno sentido da palavra. Os Parlamentos são lugares da palavra e os melhores improvisos são os mais bem encenados e mais longamente preparados. Os antigos tratados clássicos de oratória e retórica assemelham-se a cuidadas lições de teatro. Profundo conhecedor da história do teatro, o autor reserva-nos interessantes e curiosas surpresas, que nos permitem conhecer melhor os meandros da nossa cultura dos últimos séculos, desde o grande mestre Almeida Garrett.

 


A ESPECIAL ATENÇÃO ROMÂNTICA
A história do teatro começa por ligar o sagrado e o profano, como percebemos com muita nitidez com Gil Vicente, na sua riqueza temática e na transição para o humanismo renascentista, a partir de temas tradicionais marcados ainda pela herança medieval. A abertura ao mundo pelo comércio e pelas viagens ocorre, assim, com as raízes mergulhadas na antiga sociedade rural. Entende-se, pois, que o Romantismo (ao recuperar as tradições medievais) dê uma especial atenção à criação e à representação teatrais. Almeida Garrett é um exemplo marcante. Indo ao encontro das origens da cultura portuguesa e dos mitos nacionais, salienta a importância do teatro como marca e pedagogia, como instrumento fundamental para a formação da consciência nacional e de consolidação do regime liberal. Daí a fundação do Teatro Nacional e do Conservatório Nacional, como Escola de Artes, além da produção de uma dramaturgia que aborda temas cruciais como o amor da Pátria («D. Filipa de Vilhena»), a tradição do teatro («Um Auto de Gil Vicente»), a formação de uma nova sociedade e de uma nova mentalidade («A Sobrinha do Marquês») ou a interrogação do mito sebastianista («Frei Luís de Sousa», em cuja estreia Garrett representou o papel emblemático de Telmo Pais). Pode dizer-se que, tendo cultivado diversos géneros literários, Garrett deu ao teatro uma importância maior, bem evidenciada na consideração da necessidade de ligar educação, arte e cidadania. Também Alexandre Herculano se dedicou à escrita de teatro, sem o mesmo pendor sistemático, mas com objetivos semelhantes – desde um tema frívolo («Tinteiro não é Caçarola», à moda francesa) até outros de sinal patriótico (como «O Fronteiro de África» ou o libreto da peça musicada «Os Infantes em Ceuta»). Não esqueçamos ainda a breve análise histórica da evolução do teatro português em «O Panorama» e a intensa polémica em que Herculano interveio sobre os direitos de autor com Garrett. A lista dos políticos do período romântico com produção dramática é grande e significativa, o que demonstra também a importância dada à atividade teatral na formação da nova legitimidade. António Feliciano de Castilho, apesar de não ter sido governante, teve um papel fundamental na instrução pública liberal e representa a transição entre o classicismo e o romantismo, evidente em «A Liberdade. Tributo Saudoso à Memória do Libertador ou Trânsito da Liberdade».

 

A LEGITIMIDADE PELO TEATRO
Duarte Ivo Cruz procede a uma análise exaustiva dos intervenientes: Mendes Leal, Ministro dos Negócios Estrangeiros, dedica-se ao teatro histórico e de atualidade, usos e costumes (como em «Os Dois Renegados», «Os Primeiros Amores de Bocage» e «Os Homens de Mármore»); António Serpa Pimental, Primeiro-Ministro, (com seu irmão, José Freire) apesar de escassa obra dramática, não deixa de a cultivar («Casamento e Despacho» e «Dalila»); Andrade Corvo, Ministro dos Negócios Estrangeiros, notável pioneiro na reforma da gestão colonial, dedica-se aos temas da justiça social («Nem tudo o que luz é ouro»); Rebello da Silva cultiva a comédia galante («A Mocidade de D. João V»). Pinheiro Chagas, Ministro da Marinha e Ultramar, escritor multifacetado, alcança um enorme sucesso também no teatro com «A Morgadinha de Valflor» (1869). António Ennes, com papel decisivo na resolução da questão de Moçambique após o Ultimato inglês (leia-se «A Guerra em África», de 1895), tornou-se conhecido como autor teatral consagrado, sendo casado com a célebre atriz Emília dos Anjos. São da sua autoria «Os Lazaristas», «Os Enjeitados», «O Saltimbanco» ou «Um Divórcio». Oliveira Martins também se aventura no teatro com «D. Afonso VI», peça nunca levada à cena. Teófilo Braga dedica-se à historiografia do teatro português e ao teatro histórico («Gomes Freire», «Linda Inês»), escrevendo um libreto para uma ópera de Rui Coelho («O Serão da Infanta»). E, continuando com Presidentes republicanos, Manuel Teixeira Gomes é autor de «Sabina Freire», drama consagrado e conhecido. Mas há curiosidades inesperadas: Oliveira Salazar escreve em toada vicentina «Prólogo para um Auto de Entrudo», além de uma peça histórica («Egas Moniz»). E naturalmente não podemos esquecer os autores com percurso político conhecido: Júlio Dantas escreveu a peça celebrada e muito representada «A Ceia dos Cardeais» (1902) e o argumento de «A Severa» para o cineasta Leitão de Barros (1931); o pedagogo João de Barros dedicou-se ao drama clássico («Anteu», «D. João»); o Prémio Nobel da Medicina e Ministro da Primeira República Egas Moniz é autor de «A Nossa Aldeia»; Ramada Curto dedicou-se ao teatro social (em «Sol Poente» e «Recompensa») e até António Sérgio, na sua ação educativa, usou o método dramático para pôr de pé a expressão do seu pensamento. E, chegando à atualidade, podemos encontrar uma lista não tão numerosa como no século XIX, mas, apesar de tudo significativa – desde «O Magnífico Reitor» de Diogo Freitas do Amaral até ao libreto de Vasco Graça Moura para «Banksters» (sobre «Jacob e o Anjo» de José Régio) ou os seus «Ronda dos Meninos Expostos» e «Auto de Mofino Mendes», passando por David Mourão-Ferreira (com «Isolda» e «Contrabando»), por José Sasportes, em «O Homem que não podia ser Rei», ou por Francisco José Viegas, em «O Segundo Marinheiro»… A concluir, Duarte Ivo Cruz lembra-nos, a propósito: «No teatro, como na arte em geral, o juízo público nem sempre é cronologicamente adequado, pois o artista, mais do que o político, tem o dever de ser um visionário, e de criar para o seu tempo, mas também para o futuro. E isso nem sempre é compreendido». Diferenças e proximidades, ponto e contraponto, os políticos e o teatro permitem-nos pensar no mundo e na vida numa relação biunívoca, com se o tablado e a plateia funcionassem em espelho…


Guilherme d’Oliveira Martins

1ª Crónica de Alberto Vaz da Silva na "Grécia de Sophia"

ATENAS E O CABO SUNION

 

O destino é Atenas. Mas a primeira escala é o “plat pays” de Jacques Brel. Percorrendo os intermináveis tapetes rolantes de Schiphol, a vista plana perde-se ao longe por ambos os lados das janelas envidraçadas do aeroporto. Primeiro contraste com a Ática rochosa que nos espera, de severidade arcaica.

 

 

 

Atenas entardece cercada de nuvens dispersas e inquietantes. Instalamo-nos num excelente hotel depois de termos passado pela praça Syntagma e avistado o Parlamento à hora do render da guarda, num ritual “alla turca”.

 

As ruas estão mais desertas e vazias, muitas lojas com ar fechado, poeirento. Apesar de tudo parecer arrumado parece também posta a mesa para uma imensa prestação de contas.

 

Primeira silenciosa evocação de Sophia: "Ide dizer ao rei que o belo palácio caiu por terra quebrado. Phebo já não tem cabana, nem loureiro profético, nem fonte melodiosa. A água que fala calou-se.”

 

Na primeira manhã de Atenas paramos, a caminho da Acróplole, no templo de Zeus Olímpico, completado por Adriano.

 

 

 

Possantes colunas coríntias, uma por terra como um gigantesco baralho de cartas desmoronado. Numa das fachadas do templo, podemos ler: "esta é Atenas, a cidade de Teseu”. Sabe-se que existia uma estátua criselefantina de Zeus e uma outra de Adriano, ambas veneradas num mesmo assomo de alma.

 

 

Enfim, a Acrópole. O guia grego, que tratamos por Pan, primeiras letras do apelido, faz uma excelente introdução tomando por ponto de partida a colunata dórica que se antepara.

 

Há reparações por toda a parte, o Parthenon está invadido por gruas e é objecto de intervenções profundas no mármore pentélico.

 

Pretexto para ser evocado o génio de Phidias, o da concepção original cujo espírito se pretende recuperar.

 

Dá um prazer imenso reviver a harmonia do talvez mais belo templo concebido pelo génio humano, à vista de um estaleiro que o desfigura e entope. Basta a enumeração dos requintes de perspectiva que o ergueram nas suas linhas curvas e são visíveis um a um para que o espírito se eleve como por milagre.

 

 

O Erechtheion é objecto de um original diálogo entre o grego e José Pedro Serra: o lado feminino de Poseidon e o viril de Atena surgem numa dança de sensibilidades e invocações mitológicas.

  

Abandonamos a Acrópole pelo Templo de Atena Nike, imaginando a gigantesca estátua que com os seus mármores e os seus ouros recebia de frente os raios da aurora e recordando Phidias e Péricles, também eles entes solares que, como nós, pisaram estas pedras.

 

A caminho do Cabo Sunion percorremos a “Riviera de Atenas”. O guia aponta orgulhosamente as transparências do Egeu, devido à ausência de plancton.

 

 

Insensívelmente a atmosfera adensa-se à medida que nos aproximamos do rochedo ímpar em que o santuário de Poseidon se ergue e avança sessenta metros sobre as águas.

 

 

No ar levantam-se perdizes lentas e enfeitiçadas, que Homero não desdenharia adjectivar, um cágado gigante talha o seu caminho em direcção ao Templo e a luz do Egeu nimba todo o horizonte e envolve Egina, mesmo em frente, com um halo diáfano. A tarde prepara o pôr do sol e é o momento em que José Pedro Serra e Maria Andresen comovida e inteligentemente evocam Sophia.

 

 

Antónia Brandão lê alguns poemas e todo o grupo, antes de dispersar, se envolve em impressões trocadas que pareciam provir unicamente daquela hora, daquele nome, daquele templo.

 

Durante o jantar tentamos aperceber, baixos no horizonte, Vénus e Mercúrio, coroamento ideal para um encontro assim. Mas não; as nuvens adensaram-se como se os deuses nos dissessem que a benevolente conversa terminara.

 

Não deixamos Atenas sem uma compulsiva – ainda que não originariamente programada – visita ao Museu Arqueológico.

 

A colecção pré-histórica abrange o continente, as ilhas do Egeu e Tróia. É difícil passar além dos tesouros dos túmulos reais de Micenas, tão assombrosas são as máscaras funerárias em puro ouro, as jóias, os recipientes. “Tróia, rica em ouro”, advertiu Homero. Referia-se não só às jazidas mas sobretudo à qualidade e precisão dos artífices.

 

A colecção das figurinhas de mármore das Cíclades e os frescos de Thera, em larga escala, far-nos-iam ficar em contemplação o resto do dia.

 

Mas espera-nos a rota de Delfos e o guia grego fica nervoso com os extras que introduzimos, embora o sorriso de brancos dentes aprove as decisões.

 

Passamos ainda pelos arcaicos Kouroi, a ânfora geométrica de Diphylon e outras envoltas em polvos, de Creta, até chegarmos aos notáveis Lekhyton e aos vasos de figuras vermelhas.

 

A colecção de bronzes, uma das maiores do mundo, inclui celebridades como o Poseidon, ou Zeus, de Artemísion, o jovem de Maratona, o jovem de Antikythera e o jockey de Artemísion.

 

Cruzamo-nos com eles na alegria de quem não os deixa, mas vai ao seu encontro. Vamos sulcar as terras e águas de onde provieram e sentir na carne como na Grécia a natureza é incindível do esplendor da arte.

 

9 de Junho de 2013

LITERATURA E MÚSICA

 

Minha Princesa de mim:


 "Regresso de Kyoto a Tokyo, mas não escapo às associações recreativas de senhoras japonesas. Num jantar na embaixada de França, fico à mesa presidida pela embaixatriz, ao lado da Senhora Totomi, próxima da família imperial e presidente de "Les Amies de la Langue Française", clube de senhoras da "alta", que reúne japonesas eruditas e outras francófonas do corpo diplomático. A dama é do tipo arredondado  -  de corpo e espírito  -  esperta e bem humorada. Fala-me do seu grupo de cultura e recreio, e desafia-me a entretê-las, num chá, com uma charla sobre literatura e música francesa. Animado pelo Château Margaux, digo-lhe que mais facilmente lhe diria sim se o grupo antes se chamasse "Les Joyeuses Filles de la Langue Française" ou "Les Parlantes de Français Galant"... Ri-se, com a mão gordinha, como terceira bochecha, a esconder-lhe a boca gulosa, e concede: "Chame-nos o que lhe parecer bem, mas tenha a gentileza de nos falar de literatura e música!" Assim me arrancou um assentimento condicional: proponho-me levar-lhes algumas poesias em várias línguas europeias, todas elas traduzidas em música, ou temas que a literatura e a música tenham coincidentemente tratado. E prometo não esquecer discos que as reproduzam. Não recorrerei sempre a libretos de ópera, nem a letras propositadamente feitas para canções... Assim se desenhou o programa que contigo aqui partilho. Apetece-me começar pelo alemão, não por me dirigir a francófonas, nem por me ser familiar, mas por me ocorrer a semelhança dos apelidos do poeta (Christian Schubart) e do compositor  ( Franz Schubert). Ou por me acontecer trautear a "Die Forelle" quando estugo o passo na pressa de ir fazer chichi. Brinco. O "lied" de Schubert  -  que ouvi pela primeira vez adolescente ainda  -  canta as palavras de Schubart, começando ledamente assim: "In einem Bächlein helle,/ Da shoss in froher Eil/ Die launige Forelle, etc... Num límpido ribeiro, alegremente, a truta foge, viva, veloz e caprichosa. E eu na margem,em doce sossego observava o alegre banho da bela na clara água do ribeiro.  Ein Fischer mit der Rute,etc...Resumindo: esse pescador à linha,da margem vê o peixinho a mover-se, e o poeta pensa que ele não apanhará a truta com o anzol. Mas eis que esse ladrão, num movimento de onda, a prende, e o poeta sente, com o coração aos pulos, o debater da presa. Depois, o poema conclui com um aviso à juventude sobre o perigo da inconsciência, e com uma evocação erótica, que o "lied" de Schubert não retoma: "Denkt doch an die Forelle;/ Seht ihr Gefahr,so eilt!/ Meist fehlt ihr nur aus Mangel/ Der Klugheit. Mädchen,seht/ Verführer mit der Angel! Sonst blutet ihr zu spät...". Pensem pois na truta e se um perigo vier, fugi! A mais das vezes é por falta de prudência que pecais. Sede vigilantes, meninas de olhos doces, com os pescadores! Podereis sangrar tarde demais.

Uma das senhoras pergunta-me porque não escolhi antes a "Ode à Alegria" do Schiller, que é, afinal, um hino à amizade (seria então "An die Freunde" em vez de "Freude") que coroa a 9ª sinfonia de Beethoven. Respondo que "Die Forelle" me parece muito próximo do espírito da poesia japonesa pelo recurso à natureza como metáfora. E recito "tobu ayu no soko ni kumo yuku nagare kana", um "haiku" de Onitsura, que se pode traduzir mais ou menos assim: "um peixe voador...nuvens por debaixo,fluindo na corrente..." Ou seja: o peixinho, saltando, sobe o ribeiro (para ir desovar a montante)... e, refletindo-se nas claras águas, as nuvens parecem deixar-se levar para o mar... Alusão à efemeridade da vida: estes peixes ("sweetfish",em inglês) nascem no alto dos rios donde depois descem, na Primavera, até ao mar donde regressam, no Verão, para subirem contra a corrente e porem acima os seus ovos (como o peixinho do "haiku"). No Outono, regressam ao mar, para morrer. Vivem um ano só. Ponho a tocar no gira-discos "Die Forelle", cantada pela Elisabeth Schwartzkopf, acompanhada ao piano por Gerald Moore. E logo salto do alemão para o castelhano, da Germânia para a Hispânia. De Franz Schubert para Manuel de Falla, de peixes e nuvens, que as águas da vida percorrem, para flores e pássaros que a terra pára, porque é assim o tempo: corrente ou quieto,somos nós que passamos por ele. E ocorre-me a "arte poética" do Jorge Luis Borges: "Mirar el rio hecho de tiempo y agua / Y recordar que el tiempo es otro río, / Saber que nos perdemos como el río / Y que los rostros pasan como el agua." Antes de ouvirmos todos (devia dizer todas,sou o único homem na sala!) uns trechos de "La Vida Breve" do Falla, pela Orquestra Nacional de España, dirigida por Rafael Frühbeck de Burgos, e com Victoria de los Angeles no papel de Salud, leio-lhes uns versos da seguidilha, que são, como todo esse drama musicado por Falla,de Carlos Fernández Shaw: "Flor que nace con el alba / se muere al morir el dia. / Que felices son las flores,/ que apenas puen enterarse, / de lo mala que es la vía! / Un pájaro,solo y triste, /  vino a morir en mi puerta; / cayó y se murió en seguía. / Pa vivir tan triste y solo / mas le vale haberse muerto!" Enquanto as damas escutam, em concentrado arrebatamento, calado vou pensando no meu próximo passo,numa ponte para um tema japonês. E surge-me a "Glover Mansion", em Nagasaki, que se celebra como sítio do amor letal de Cio-Cio San por Pinkerton, na "Madama Butterfly" do Puccini: "mutatis mutandis" (a localização e uns pormenores) está ali o tema de "La Vida Breve". Que é, penso eu, mais do que o do amor humano " traído",o da perplexidade enquanto incredibilidade onde a esperança morre. Porque, afinal, nem Salud nem Cio-Cio morrem, muito embora partam deste mundo. Permanecem na memória de muitos corações e testemunham o desengano, essa pena terrível. Será isso o inferno: não haver esperança? As madamas da sala lembram-se logo da "Madame Chrysanthème" do Pierre Lotti, que também inspirou outra ópera: a "Lakmé" do Delibes. Uma das senhoras, todavia, alvitra que o fogo inicial da japonesa abandonada se acendera já no século XVI, por um português marinheiro... A ária mais conhecida da "Butterfly"  -  e quiçá a mais bonita  -   é um canto de esperança que lhe sai do fundo da alma: "Un bel di vedremo / levarsi un fil di fumo / sul estremo confin del mare. / E poi la nave appare  - poi la nave bianca / entra nel porto,romba / il suo saluto. Vedi? / È venuto!" Aproveito a emoção inesperada daquelas senhoras instaladas em vidas onde o amor,muitas vezes,é um episódio passageiro ou uma convenção,para lhes falar de uma perspectiva escatológica, que lhes é culturalmente estranha: o amor humano,porque gerador e portador de esperança,é uma promessa. E promessa é compromisso. Para um cristão, adianto, é um sacramento, um sinal do que se há-de cumprir um dia. "Un bel di vedremo...". Com tanta conversa e música,esqueci o tempo e esse jeito de as mulheres japonesas levarem a água ao seu moinho. Ficou combinado voltar e falar-lhes do nome que se diz ou não deve dizer: de Turandot e de Lohengrin. Depois te contarei. Vou agora escrever ao nosso Camilo Português: penso dar-lhe conselhos,mas afinal desabafo-lhe inquietações. Envelheço.

 

   Adeus Princesa!"

 

A carta que Camilo Maria me escreveu e aqui refere manifesta a sua preocupação com a deterioração da consciência ética no governo das sociedades ocidentais. Publicá-la-ei, apesar de lhe sentir algum cansaço, que nem a ironia com que sempre nos fazia rir consegue disfarçar.

 

Camilo Martins de Oliveira

António Botto: observa e compreende.

 

Acerca da poesia de António Botto escreveu Fernando Pessoa no prefácio do seu livro Motivos de Beleza, publicado em 1923:

 

Distingue-se pela simplicidade perversa e pela preocupação estética destituída de preocupações (…)É em verdade singular que se seja simples para dizer exactamente outra coisa, e se vá buscar as palavras mais naturais para por meio delas ter entendimentos secretos.(…)Certo é que o que António Botto escreve, em verso ou em prosa, há que ser lido sempre com a intenção posta em o que não está lá escrito.

 

António Botto é descrito como tendo tido uma forte personalidade, alguém muito incisivo e de humor irreverente. Botto, apesar de assumido homossexual foi casado com Carminda Rodrigues até ao final da sua vida e tal como escreveu “ O casamento convém a todo o homem belo e decadente”.

 

Chegou a ser alvo de fortes troças quando entrava nos cafés ou nas livrarias, sofre o ostracismo a que a maioria o condena e assim se foi cansando de viver em Portugal e emigrou para o Brasil onde vem a falecer depois de ter vivido em profunda miséria.

 

Quando os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, de Lisboa, em 1966, José Régio e Natália Correia, David Mourão Ferreira entre outros marcaram sentida presença.

 

Registe-se que o seu livro "O Livro das Crianças", seria oficialmente aprovado como leitura escolar na Irlanda, sob o título The Children’s Book.

 

 

Ainda em Portugal os seus recitais de poesia colheram os grandes elogios de Aquilino Ribeiro, Amália Rodrigues e João Villaret e em 1938 o ensaio “António Botto e o Amor” da autoria de José Régio deslumbrou quem pouco conhecia Botto, o poeta das “Canções”.


Curiosamente Eugénio de Andrade enviou a António Botto alguns dos seus poemas e é através dele que ouve falar de Pessoa.

José Régio evoca Botto no DN em 1957

 “Não sei se é ou não, como afirma a gazeta [brasileira], ‘um dos seis maiores poetas portugueses’. O que sei é que é um poeta que a inveja, a mediocridade e a incompreensão -mesmo provisoriamente triunfantes- não podem fazer esquecido.”

Possuo o livro “Canções” numa segunda edição de 1922 da OLISIPO, sociedade editora, e no qual encontramos uma página de Teixeira de Pascoaes sobre o artista e o livro e de onde apenas retirei estas palavras

(…) Se há certas attitudes que nos agradam, só os íntimos e cegos movimentos nos seduzem! Na sua obra há de tudo isso: - a lágrima que sáe do coração e a pérola que sáe da ourivesaria.

Também neste seu livro Jayme de Balsemão escreve como novas referências:

Nestas Canções António Botto não é um poeta nacional; nellas canta a humanidade e não a cor local. Compreende a lucta involuntária do homem em continuas tragédias cómicas, mas comprehende também a sua beleza inconsciente e a sua Arte perdurável.

Do pouco que conheço deste poète maudit, escolhi do seu livro “ Canções” esta companhia com o sabor de um meio sorriso, de um relógio que também empurra os dias

                VIII

Se me deixares, eu digo

O contrario a toda a gente;

E, neste mundo de enganos,

Falla verdade quem mente.

Tu dizes que a minha bocca

Já não accorda desejos,

Já não aquece outra bocca,

Já não merece teus beijos;

Mas tem cuidado commigo,

Não procures ser ausente:

- Se me deixares, eu digo

O contrario a toda a gente.

 

TERESA VIEIRA

COMEMORAÇÕES DE ALMADA NEGREIROS: O MANIFESTO ANTI-DANTAS

 

Temos aqui evocado e analisado as obras e também a colaboração entre  Almada  Negreiros e Fernando Amado,  numa perspetiva de afirmação de modernidade e de inconformismo cultural. Hoje evocamos um dos grandes momentos dessa fase da vida portuguesa e da obra de Almada, a saber, o Manifesto Anti Dantas.

 

A recentíssima reedição do “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso por José de Almada Negreiros Poeta do Orpheu Futurista e Tudo” (1916), acompanhada por um CD com a leitura do texto pelo próprio autor e por uma entrevista gravada, ambas datadas de 1965 (ed. Assírio & Alvim) assinala um ciclo de comemorações que temos aqui evocado. Refira-se a propósito a iniciativa das duas netas de Almada, Rita e Catarina, que organizam uma série de colóquios e mais manifestações e publicações, onde com grande gosto participarei.

 

Para além do precioso suporte áudio, em que o próprio Almada rememora e dá voz à sua intervenção de meio século antes, a edição do Manifesto é acompanhada por um excelente ensaio de  Sara Afonso Ferreira, com vasta bibliografia. Importa destacar, no rigor e qualidade deste estudo, e o enquadramento histórico, biográfico e factual.

 

Porque efetivamente o que o manifesto nos oferece, com o extraordinário talento e capacidade crítica de Almada, é a singular independência e irreverência no confronto com os consagrados e influentes nomes da época, simbolizados no próprio Júlio Dantas mas devidamente identificados em dezenas de escritores, intelectuais, artistas citados e criticados com ironia, com veemência e por vezes com uma violência que nunca atinge, entretanto a expressão pessoal…

 

Almada sempre foi independente, sempre enfrentou o convencionalismo e sempre foi extraordinariamente criador. Aqui ironizou, criticou e satirizou dezenas de personalidades, centenas de obras, a partir do “modelo Dantas” chamemos-lhe assim, e da sua peça “Soror Mariana”. Dantas é um símbolo, um arquétipo de certo meio artístico e literário. E pese embora a violência e/ou a ironia, hoje vemos bem as fortes razões do Manifesto!...

 

Trata-se pois de um documento histórico no melhor sentido do termo: no sentido de que não perdeu veracidade e atualidade. As referências diretas são datadas mas as razões que lhes assistem são de hoje, pois as obras estão aí.

 

E por isso, o Manifesto é premonitório e atual. O estudo de Sara Afonso Ferreira, tal como o colóquio já efetuado e certamente os que se seguirão,  justificam amplamente a iniciativa e reforçam o ciclo de comemorações que aqui temos assinalado.

 

Duarte Ivo Cruz

LONDON LETTERS

The 60th anniversary of the coronation, 1953-2013

 

 

O ano inicia-se com o fim do racionamento dos sweeties decretado durante a World War II. Sir Winston Churchill está de novo no Number 10 de Downing Street e no Buckingham Palace reina The Queen Elizabeth II, após o passamento de George VI. As expetativas de um tempo novo soam forte. Se a austeridade permanece em volta, há até festa especial para a garotada em Whitehall. ‒ Chérie, tout passe, tout s'use, tout se brise! Alguém encarna já este nobel espírito numa geração que vive a guerra. Em 2nd June 1953, Westminster Abbey acolhe a cerimónia de coroação real com os óleos e ritos com que desde 1066 e William the Conqueror se aclamam os soberanos nestas ilhas. Há exatamente 60 anos Her Majesty compromete-se a dedicar a sua vida, curta ou longa, à nação. – From the Abbey to the Palace and back! HRM é uma singular monarca constitucional: conhece a essência do poder, sabe exercê-lo e apresenta um exemplo maior de liderança de serviço.

 

Muito há para escrever sobre a Britain after war. A ascensão e queda das civilizações permanecem fenómenos algo obscuros na história universal. Com nevoeiro no continente e o país dividido quanto ao in or out face à European Union, 51% a favor e 49% a dizer sim à saída do projeto, celebra-se hoje na abadia o jubileu da coroa de Elizabeth Alexandra Mary Windsor com um Service of Thanksgiving. O protocolo reúne várias idades a cerca de um mês de HRM se tornar bisavó e a três anos de experienciar a longevidade no trono da Great Queen Victoria. Há um quê de 800 no ar para quantos conhecem que o contexto não determina coisíssima alguma e menos ainda as encenações em torno do trono. Em Sybil or The Two Nations, editado no mesmo ano que Friedrich Engels's The Condition of the Working Class in England in 1844, Mr Benjamin Disraeli sustenta que "power has only one duty -- to secure the social welfare of the People.”

 

O romance com tese ensina sobre a circunstância dos sem poder e dos poderosos. Também a alegre gravitas da jovem rainha de 27 anos assenta como uma boa luva na pompa da festa vivida na 1953 austerity Britain. Contudo, um olhar atento no greiny movie da coronation regalia observa o embaraço do Archbishop of Canterbury a rodar a sólida St Edward’s Crown em busca de algo que lhe permita identificar qual a frente e o verso. Esta é  a gold crown produzida para a aclamação de Charles II, em 1661, após a anterior ser fundida às ordens do Lord Protector Oliver Cromwell na sequência da Glorious Revolution.

 

 

 

O exercício do poder tem requisitos imiscíveis com a deriva tirânica ou a ilusão eleitoral, e não se conjuga de todo em tudo com a impreparação. Serving others with joy é tarefa para poucos. Como nota o Archbishop of Westminster, Justin Welby: “The nature of power…is found neither in pomp and circumstance nor in public displays but in radical commitment, single-minded devotion and servant leadership.” ‒ Vivat Regina Elizabetha!

 

 

St James, 4th June

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

de 3 a 9 de junho de 2013

 

Teolinda Gersão no seu último livro ("Cadernos II – As Águas Livres", Sextante Editora) presenteia-nos com um exercício que usou magistralmente em anteriores circunstâncias, designadamente em «Os Guarda-chuvas cintilantes». É o jogo com o tempo. «O eu surge como um feixe de possibilidades e o tempo é arbitrário, recortado de um calendário impossível».

 

 

JOGAR COM O TEMPO
Teolinda Gersão brinca com o tempo e sentimos um grande prazer nesse jogo. Sente-se o fascínio da construção do tempo: os acontecimentos sucedem-se, desde os pequenos episódios, simples e comezinhos, até à consideração da ética e dos valores. Os cadernos espelham-se uns nos outros, autónomos e interligados. Tropeçamos em «pedaços do mundo», de um puro acontecer… E que é a vida e a sua relação com a arte senão esse ligar com os pormenores? Estes cadernos, e os que se anunciam, como método intercalar, têm um caráter propositadamente ambíguo. São dificilmente classificáveis. São fragmentos, que a romancista experimentada, com provas dadas, utiliza magistralmente. E somos presenteados com esta «espécie de avesso das coisas», que constitui uma «dimensão rebelde à tirania racional». E confesso que obtive um genuíno prazer, ao usufruir destas notas – e comparei-as à obra de paciência das artífices dos tapetes de Arraiolos, à feitura da empreita algarvia ou à junção fascinante de pequenos farrapos numa espécie de caleidoscópio têxtil… Quando Teolinda Gersão me pediu para falar do seu último livro, aceitei com gosto, mas o gosto que tive em lê-lo ultrapassou em muito o que esperaria – depois do grande prazer que tinha tido ao ler «A Cidade de Ulisses». Quando estamos perante um valor seguro da nossa literatura, como é o caso, há garantias que, de antemão, não podemos ignorar.

 

O CENTENÁRIO DE KIERKEGAARD
Mas vamos ao que importa. Passa agora, como se sabe, o segundo centenário do nascimento de Soeren Kierkegaard, ocorrido em Copenhaga, a 5 de maio do ano da Graça de 1813, num ano louco de bancarrota, de depreciação monetária intensa e de mil incertezas nesse velho reino da Dinamarca. São, de facto, cíclicas as doenças económicas. O que invoco não tem a ver com essas perturbações, mas com uma experiência (porventura mais perturbadora), singular e mediúnica, que «As Águas Livres» relata. Não se trata, porém, da recordatória sussurrante da relação física e histórica entre os «olhos de água» e as «mães de água» (ou não fossemos, segundo o vulgo, um povo de poetas…), desde Caneças até às Amoreiras, passando pelas condutas do Caneiro e da Quintã, mas de uma ocorrência fantasmática, nesse apaixonante jogo do tempo. Eis a surpresa. «Kierkegaard aparece às vezes de visita» (assevera-se na página 122). E percebemos ser verdade. «Um dia traz-me (garante a autora) um livro debaixo do braço, numa tradução alemã (ou não fora Teolinda uma germanista emérita), e pousa-o ao meu lado sobre a mesa. Olha-me, sorrindo levemente. É um sorriso tímido e desafiante». Não sabemos, contudo, de que obra se trataria. Seria o «Diário do Sedutor»? Seria «O Desespero Humano», obra que estava a ser lida por Leonardo Coimbra quando o acidente trágico lhe ceifou a vida? Teria o fantasma repetiria agora essoutra aparição desse dealbar do funesto ano de 1936? O certo é que Adolfo Casais Monteiro completaria a tarefa de publicar a obra fascinante. Pouco importa as dúvidas. Interessa dizer que o espetro deixou uma invetiva: «- Depois de leres, diz-me o que achaste». E a autora comove-se ao vê-lo «dar meia-volta e ir-se embora, o seu ar desastrado, o corpo franzino, ligeiramente corcunda, a roupa antiquada e cheia de botões em que se movimenta com rigidez, como se se sentisse tão pouco à vontade dentro dela como dentro do mundo». Temos na retina o desenho caricatural de W. Marstrand… Depois de folheado o volumezinho, parece não haver dúvidas tratar-se do «Diário». «Mas que sabe ele de sedução?» - pergunta a interlocutora atenta. Ele que cultiva o Deus-demónio e a angústia, que carrega a maldição e a blasfémia um dia lançada pelo seu velho pai contra os céus, a quem a escritora pede incessantemente que deixe de ser louco e que viva, antes, o amor com Regina Olsen, o amor que ela, no fundo, ardentemente deseja. «Não tenhas medo de amar Regina». Neste jogo com o tempo, há, todavia, a procura de mudar o curso dos acontecimentos. E se ele, em lugar de fugir, pudesse dar-se e ser protegido da angústia e da perseguição do seu Deus-demónio, lembrando-se desse dia tenebroso na Jutlândia, de treva e maldição, tudo se alteraria. «E então li, em sobressalto (diz-nos Teolinda), o livro que ele trouxera». Estava diante de um sedutor improvável, impossível de definir, que sabia mais do que parecia. E não queria libertar-se da angústia, do Deus-demónio, da insegurança, do mundo infernal. Preferia tudo isso ao amor. E desejava escrever sobre tudo o que o atormentava. Era, afinal, a personificação da «agonia», no sentido antigo e helénico do termo, de luta entre sentimentos e argumentos opostos, como encontramos no sentimento trágico de Unamuno. E quando, apesar de criadora de mil subterfúgios para entender os mistérios daquela alma, a autora percebe que nada há a fazer, naquele desencontro imediato, resigna-se: «Durante muito tempo ele deixou de visitar-me. E quando voltou outra vez a bater-me à porta, não me perguntou nada sobre o livro». Não será, porém, a literatura ou a arte o modo de aprender a libertar-nos do inelutável e do absurdo?

 

CONTEMPLAÇÃO CARINHOSA DO DESESPERO
Numa fórmula feliz, designando Kierkegaard como «quinto evangelista», Pedro Mexia fala de «contemplação carinhosa do desespero». O desespero seria, assim, a consciência da imperfeição, do caráter incompleto do ser e a exigência das verdades incómodas da encarnação, da ressurreição e do Espírito (cf. Expresso, 11.5.13). E lembramo-nos do entusiasmo com que João Bénard da Costa se propôs estudar o pensamento do dinamarquês, seguindo porventura os passos de Unamuno no aprendizado da difícil língua de Hamlet. No entanto, o tempo dos compromissos académicos imediatos não permitiu esse devaneio… Eduardo Lourenço (ainda ele), no segundo volume da sua «Heterodoxia» (1967), dá a resposta de que precisaríamos para resolver o estranho enigma, sobre a pretensão efetiva do filósofo. E fala-nos de Soeren Kierkegaard como espião de Deus («servo da inominada realidade anterior à separação da nossa treva e da nossa luz, é ele o guarda do Homem. Por isso, os fraternos ‘inimigos do homem’ serão sempre contra ele»). Os génios são como a tempestade, porque com ela se confundem, agravando-a e purificando a atmosfera. «Ele prevê a revolução que começa apenas a tornar-se real e ao mesmo tempo a grande tempestade durante a qual ser ‘cristão’ será outra coisa que dormir no conforto de uma existência onde as exigências cristãs se tornam irrisórias ou formais». Eis por que razão o «instante» exige sempre uma «escolha». A questão não é de palavras, mas de existência.     


Guilherme d'Oliveira Martins

Pág. 3/3