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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Viver fora do tempo?

 

Minha Princesa de mim:

 

Tem sido esta a minha sina: viver fora do meu tempo, e sempre necessariamente nele. Será estúpido, talvez, irrealizável certamente. Mas é assim, e mais não posso. Não é presunção, nada tem a ver com  desejo ou vontade. É, simplesmente, um olhar do coração a fazer com que a cabeça esteja aqui e além. Também não é difícil, é tão só uma tensão, simultaneamente dolorosa e muito feliz, entre o que surge possível e o que impossivelmente me chama. Não te direi a ti, a quem digo tudo, que seja estar entre a realidade e o sonho... Antes será estar entre esta realidade, que vemos, e outra, em que gostaríamos de nos ver. E onde seja possível estarmos. Como diria o padre Cardonnel (no "Deus é Pobre"?): "o pecado é a paixão dos nossoa limites" ! É não entender que tudo, tudo, muda sempre... E que, precisamente por isso, só somos nós sendo na mudança... Mas sendo nós. Ser eu e a minha circunstância  -   como diria o Ortega  -  é viver o drama, a tensão, desse paradoxo." É estar e não ser o que se está", como tantas vezes repetia o nosso Alberto, no seu português materno que, não sendo língua de filósofos, tão bem intui essa ferida genética da condição humana, essa permanente dor que é o rasgão entre o ser e o estar.

 

Na papelada escrita nos anos da minha ousada juventude "pensadora"  -  que destruí  -  havia uma longa dissertação (pretensiosa, penso, e por isso a rasguei) sobre "A Liberdade em Espinoza"... Vê tu bem! Lembrei-me dela, há pouco, por ter dado comigo a seguir peregrinações dos olhares europeus sobre outros povos e civilizações... Voltei ao "Tractatus Theologico-Politicus" de Baruch de Espinoza, redigido em latim, publicado, anonimamente, em 1670, por esse judeu de família vinda de Portugal para os Países Baixos. E, para me descansar do esforço da leitura, alcancei,para ler na cama, "Le Secret de l´Espadon" do Edgar-P. Jacobs. Ambos me motivaram a fazer um percurso que me levou a Bento de Góis e a Sérgio de Beaurecueiul. No "Tractatus", Bento (era o seu nome português) Espinosa, acicatado pela memória da sua família sefardita, de judeus ibéricos e marranos também, propõe uma explicação para a sobrevivência da nação judaica, explicação essa que já tem sido atribuída a um impulso de desforra dos que o tinham excomungado da sinagoga portuguesa de Amsterdam. Escreve ele: "Quare hodie Judaei nihil prorsus habent, quod sibi supra omnes Nationes tribuere possint...", ou seja, "nada podem hoje os judeus procurar que os coloque acima de todas as nações. Quanto à sua longa duração como nação dispersa e sem se constituir em Estado, isso em nada surpreende, já que os judeus têm vivido à parte de todas as nações de modo a atraírem o ódio universal, não só pela observância de ritos opostos aos das outras nações, mas também pela circuncisão a que estão religiosamente submissos. Aliás, mostra a experiência que o ódio das nações proporciona a conservação dos Judeus. Quando o rei de Espanha obrigou os Judeus a abraçar a religião do Estado, ou a exilarem-se, muitos se tornaram católicos romanos, e tendo desde então participado dos privilégios dos Espanhois de raça,julgados dignos das mesmas honras, se fundiram com os Espanhóis, a tal ponto que, pouco depois, nada deles ficou, nem sequer a lembrança. Foi diferente com aqueles que o rei de Portugal obrigou à conversão: continuaram a viver separados, porque foram excluídos de todos os cargos honoríficos..." Não me interessa, agora e aqui, o acerto ou desacerto de um juízo sobre circunstâncias históricas. Em hora pós-prandial, vagamente nebulosa e tão sossegada, entrego-me a interrogações para as quais não espero respostas imediatas... Anoto apenas a ideia de que o acolhimento do outro transforma, com a circunstância, as pessoas. E pergunto: estaremos condenados a sempre projectar fantasmas? Em "Le Secret de l´Espadon", o inimigo a abater, o mal essencial a destruir, é o perigo amarelo, "les jaunes"...  Inspirado no terror ocidental da ameaça que o Japão representou na guerra do Pacífico, o medo é motivado, nesta primeira aventura de Blake e Mortimer, pela sombra da vontade de conquista universal que um império extremo-asiático projecta sobre o mundo. A capital deste monstruoso "Leviathan", amarelo pela cor da pele, é Lhassa, imagina!, no Tibete! Claro que, guiados pelos bons princípios da moral e da organização britânica  -  do UK que, por mais de um século, dominara povos e territórios do sul e sudeste asiático  -  muçulmanos, com hindus confundidos, colaboram na resistência até à vitória final... Quem diria? Com que facilidade se identificam, com o mal ou o bem, povos e raças, religiões e culturas? Curiosa civilização cristã esta, europeia e nossa, em si mesma já dividida por ódios que se brindavam com epítetos de "boche!" , "marrano!", "papista!",etc... e pretendeu ser lição para "pretos", "índios", "amarelos", etc... Ganham, no meio da miopia e mesquinhez, estatura enorme pessoas como o dominicano Bartolomeu de las Casas, o jesuíta António Vieira e o nosso frei Sérgio de Beaurecueil. E muitos outros. Mas hoje  -  até por essa simultaneidade de muçulmanos e tibetanos em "Le Secret de l´Espadon"  - recordo o irmão Bento de Góis. Nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, foi marinheiro e soldado, comerciante e, finalmente, frade jesuíta, sem todavia ter recebido ordens sacras. Foi definitivamente admitido na Companhia de Jesus em 1588, quando tinha 26 anos e vivido em Ormuz, onde aprendera e praticara o persa. Foi o conhecimento dessa língua veicular no Império Mogol que lhe valeu ser colocado, pelos seus superiores religiosos, em 1594, na missão jesuíta na corte do Grão Mogol. E deste, que era Akbar, recebeu o passaporte que lhe permitiu iniciar, em Outubro de 1602, a viagem que o levaria de Agra, na Índia, através do Paquistão, do Afganistão, de Tian Shan e do deserto de Gobi, até a Suzhou, já para lá da Grande Muralha da China, onde chegou no dia de Natal de 1605. Aí morreria em 1607, vestido à muçulmana e usando o nome de Abdalá Isawí (jesuíta). O objectivo de tão prolongado percurso era descobrir o  Catai, supostamente um reino cristão estabelecido para os lados da China. Rumores da existência de reinos cristãos antigos, ou de cristandades extra-europeias fundadas nos primórdios do Cristianismo  -  como o Reino do Prestes João ou o Reino do Catai  -  permaneceram muito tempo na tradição de vários povos, e há notícia de que a mensagem evangélica não se espalhou apenas pelos mundos helénico e romano, mas chegou à Índia e à China. Um texto da liturgia siro-malabar da festa do Apóstolo S. Tomé reza assim: "Por S. Tomé, o erro da idolatria desapareceu das Índias. Por S.Tomé os Chineses e os Etíopes foram convertidos à verdade... ...Por S. Tomé, os esplendores da doutrina vivificadora atingiram a Índia inteira. Por S. Tomé, o reino dos céus foi dado aos chineses." Um dos escritos apócrifos cristãos, redigido em siríaco e grego, provavelmente no século III, tem por título "Actos de Tomé" e começa por relatar como o Senhor, na distribuição de missões pelos Apóstolos, a Judas Tomé confiou a Índia. Perante a recusa deste,o Senhor vendeu-o como escravo carpinteiro a Habban, mercador do rei Gudnafar,que assim o leva para o destino que lhe fora atribuído. Por lá ficará e ali morrerá mártir,pelas mãos do rei Mazdaí... Terá sido a Igreja inicialmente estabelecida na Síria e na Mesopotâmia que, mais tarde, se expandiu para Oriente. Quando, nos séculos VII e VIII, o Islamismo segue o mesmo caminho, até à Índia e à China,não integrará apenas populações hindús,budistas e outras,mas também cristãs. Na China, ganha, com a dinastia Ming, alguma preponderância, ao ponto de ser plausível a conversão do imperador Zhengde, no início do século XVI. Mas afinal o Islamismo implantou-se,para Ocidente,até ao Atlântico,pela margem sul do Mediterrâneo e o norte de África e,a partir do Médio Oriente,cobriu o norte da península industânica e atingiu, pelo sul,a Malásia e a Indonésia. Ainda que prosélito em regiões do Império do Meio,nunca fez do Imperador Celeste o Sultão ou Califa de um imenso império asiático... "Le Secret de l´Espadon" poderia ter sido uma história bem diferente... Pois há uma contradição intrínseca ao modo teológico do ser muçulmano: em clima de guerra,prevalece o apelo da "jihad",da guerra santa; em ambiente de paz,a tolerância. Akbar o Grande, Grão Mogol, teve a dita de escutar um mestre persa, Mir Abdul Latif, que lhe inculcou o princípio "sufi" da tolerância universal. Por isso, tinha jesuítas na sua corte. Um deles chamava-se Jerónimo Xavier,sobrinho-neto de S.Francisco Xavier. Foi ele quem enviou Bento de Góis em busca do Catai. Minha Princesa de mim: esta carta é um conto das mil e uma noites. Mas,desta feita,é este sultão a entreter a Princesa..." Esta carta de Camilo Maria levou-me, quase quarenta anos depois, a reler, na "Descrição da China" do Pe.Matteo Ricci,o relato da viagem do seu irmão açoriano. Voltarei a ele e, quando com ele chegar a Kabul, pensarei em frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil.

  

Camilo Martins de Oliveira  

A Grande Muralha, a grande obsessão. O poder face aos deuses. A viagem no caminho trabalho e morte: ou quando os homens enfrentam contra os instantes e colhem impiedades e se desconhece quem parte e quem fica.

 

Nunca saberei como descrever as pedras argamassadas, as pedras de calcário, os tijolos feitos de massa e farinha de arroz enfaixados, ali colocados por milhares de camponeses que, em troca do trabalho, eram libertos do pagamento de impostos, como se não morressem dois a cada metro na construção da Muralha. Ali no grande cemitério do mundo.

 

E é de silêncio que vos falo.

 

As sentinelas comunicavam nas torres por fumaças e fogos, enquanto os alojamentos e estábulos dos animais se encontravam por debaixo onde gelo e calor os mataria em funções de aviso, apenas de aviso, e por cumprir o aviso, morreriam enquanto guardavam armas e suprimentos para que os inimigos nunca se atrevessem ao instante deles, que eram amanhãs de pulso  fixos nas poças vivas de sangue, onde todo o impossível se vivia numa existência de estranho luto e imensa dor, de orgulho fatigado e nunca entendido ou questionado.

 

 

Cheguei à primeira grande Torre numa exaustão total pelo declive inenarrável na subida até ela, e pelas diferentes dimensões dos degraus que impunham coragem e força a quem os enfrentasse, ou também pelas vertigens, pois que o muro, muitas vezes, já só existe de um dos lados ao qual nos agarramos também no compreender qual dos inimigos matara mais os que ali trabalharam.

 

Cada torre tinha que visualizar os sinais emitidos pela vizinha, era assim que também se obedecia em rigor à construção, e o combustível mais usado era esterco misturado com palha.

 

Mas a Grande Muralha e suas vidas condenadas salvaram a China em 1482, quando os mongóis ficaram presos contra as fortificações.

 

E ali sentada, nos degraus de vários feitios e dimensões, recordava que havia lido que em 259-210 a.C. a Dinastia Chin começara a unificar a muralha, aproveitando fortificações construídas por reinos anteriores, e que sempre os mil anos que se estimam terem sido consumidos por este percurso que serpenteia todas as montanhas, entre a fronteira com a Coreia até ao deserto de Góbi, Mar Amarelo, Mongólia e por todos os locais onde é mundo, e  que apenas a Dinanstia Ming no sec. XV de algum modo fez sossegar.

 

 

Gêngis Khan sim, ele e a Muralha. Lembrei-me o quanto longe estava desta realidade que agora vivia, quando a miragem espiritual se desenhava nos almanaques de quadradinhos por onde conhecia os feitos de G. Khan.

 

E voltei a olhar as montanhas, a querer reter tanta maravilha em indescritível paisagem e nesta  construção, uma das  mais famosa do mundo, e afinal, a menos entendida e da qual nem a extensão real se conhece: 8.800 km? Um número!, e que atrevimento não pensar que o mesmo sempre rodopiará sem pausa.

 

Afinal uma arquitectura militar numa indiferença de coração? Lenda viva de uma China Imperial? Ou mais? Pois que nunca devo perder-te, nem nenhum tiro abalará o que pode partir comigo ó Muralha!, depois de te ter conhecido, depois de chorar tanta beleza e morte e pedir num penhor a tua graça, o teu inferno, a tua salvação que me reflui na chegada de reforços que pedi muito à tua despedida.

 

E a acácia primeira é tua, como o lenço afinal que te acena sabendo melhor o quanto a vasta vida é tão breve, o quanto as bússolas enlouquecidas nos transtornaram tempos, enquanto apenas um fio que seguro numa das pontas, me deixa sozinha, e vai em sorte onde se acende o caminho eterno da Muralha da China, o horizonte verde e belo que nos faz entender as montanhas quando num apelo nos dizem:

«Tu não te lembras da Casa? Do choupal sobre o muro?»

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Julho 2013

“PORTUGAL” - UMA PEÇA DE ALMADA NEGREIROS

 

Será este o texto mais “político” do teatro de Almada? Pelo menos, aquele que mais diretamente mergulha no contexto histórico e político (1924) em que se situa a ação, mas que envolve uma meditação intemporal sobre Portugal e os portugueses que é interessante referir, até porque menos habitual na obra de Almada.

 

Porque se trata de um conflito de ordem pública, de carateres e opções políticas indefinidas, mas que se repercute diretamente no contexto familiar. O primeiro e o segundo ato definem o conflito direto, tanto no plano pessoal como no plano político. José, oficial do Exercito, é o único filho que resta de uma família em que o pai e o outro filho morreram no contexto de revoluções algo indefinidas; não há opções políticas diretas na ação. Maria, noiva de José, teme o destino idêntico para o noivo: mas a Mãe de José, pelo contrário, incita-o a envolver-se nos combates urbanos em curso.

 

No II ato, estalou a revolução combatida por José. Refugiados em casa de Maria invadida por revolucionários civis que querem prender José, são todos salvos pelo vizinho, nada menos que o Adido Militar inglês. E logo aí, nota-se uma situação algo insólita no diálogo, em parte escrito em inglês.

 

Mas essa “internacionalização” prossegue no III ato, agora passado no “terraço de uma pensão numa praia estrangeira”. E curiosamente, a cena abre com um longo diálogo entre “uma senhora e uma rapariga”, escrito em francês. A rapariga francesa está apaixonada por um português. Será o José? Em qualquer caso, este chega, acompanhado pela Noiva: e é à noiva que a rapariga francesa se dirige, perguntando-lhe como se diz “je vous aime” em português…  A Noiva  esclarece-a (“amo-te”) mas  acrescenta  que “en portugais on ne peut dire je t’aime que une fois dans la vie”.  

 

E a ação desenvolve-se num contexto de equívocos. José fala num livro intitulado “O Exilio”, que está a escrever. A noiva queixa-se de que ”durante o livro todo, a noiva não existe!... Só aparece o noivo a falar na Pátria”: e não lhes compete salvar a Pátria.

Ouve-se um fandango, nada menos, e surge “um rapaz moreno, belo, tipo masculino de meridional ” português, que imediatamente é ameaçado por José: e só não se agridem porque “atravessam a cena uma senhora de braço dado a um capitão do Exército Francês”.  

Tudo isto porque José viveu em Portugal um conflito mal esclarecido. E a notícia da amnistia que permitirá a José e à Noiva o regresso a Portugal os concilia. O conflito da Noiva com a mão do noivo provocou, da parte de José, a mentira e “uma traição de morte”: ” A Noiva - Tu não queres nada (…) eu bem sabia que os mortos haviam de matar-te”.

 

E há uma reflexão sobre os portugueses que não deixa de ser inesperada. “Tu és bem português: sabes defender a Pátria a Honra mas não sabes servir uma e outra.”…

 

A Noiva, diz a didascália final, “sai decididamente. José, imóvel, segue-a a penas com os olhos. É uma linda manhã cheia de sol. E de repente o pano desce apressadamente como se estivesse atrasado!”

 

Esta é a única peça de Almada, ou pelo menos aquela em que a estrutura, na sua unidade, mais se sujeita a um estilo próximo do realismo. O que não prejudica a modernidade e qualidade da escrita e a solidez da estrutura dramática. Reflete ainda o ambiente sociopolítico da época. E o recurso a personagens militares também não é habitual.

 

Luis Francisco Rebello afirma que o “simili-naturalismo do enquadramento dos três atos de Portugal não era senão o trompe-l’oeil de que a pintura, incluindo a sua própria, tão gostosamente se serve”. (in “Três Espelhos” , ed. INCM 2010). E informa que se destinava, tal como “Antes de Começar”, ao Teatro Novo de António Ferro e José Pacheco, o que não sucedeu nem com uma nem com outra. Mas é de registar esse “aval de modernidade” que o realista “Portugal” ainda hoje contem - e de que maneira!

  

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

The days of Borges, 2013


Neste Verão, a tendência acentua-se inapelavelmente. São dias definitivos de Jorge Luís Borges. Hot out of doors, and fresh and shaded here, a biblioteca afirma irónica declaração da mestria divina em torno da cegueira. ‒ Eh bien, il est l'un des intraduisibles! Em semana literária na British Academy, com visita dos velhos mestres, a navegação pelas palavras revela-se tão qual a diz o poema dos dons. – Yes, Borges: I always imagined that Paradise will be a kind of library! Já no país cujo mundo antigo ergue um templo para venerar os livros, em Alexandria, se dá segunda revolução no processo aberto pela Arab Spring. Milhões aplaudem nas ruas egípcias um golpe de estado militar que afasta Mohamed Morsi e entrega o poder ao presidente do tribunal constitucional, para que marque eleições e um afável povo milenar decida sobre o seu futuro. Aqui na ilha, talvez por magia borgiana, os livros distanciam agora o eco da criançada e um clap-clap com espadas de pau em torneios imaginados e vítimas invisíveis.

 

 

Eventually, a dimensão lúdica pertencerá até à ordem das coisas na república das letras. Os trabalhos na literary week rodam em torno de jogo puro, intenso e natural. Por isso, patético. O workshop é algo singelo. São dias de suspensão da realidade, com uns quantos exercícios a desafiar a imaginação. Da leitura partilhada para audiobooks à tradução com regras, a semana na Academy é sobretudo um ponto de encontro para bookalics. Face à brancura do papel, pois, entre o grão e o líquido no jardim em fundo, registo o resultado de um dos desempenhos em torno de autor amigo. Alguém que em A tale of Two Cities interroga sobre a substância da sombra quando escreve sobre um admirável mundo novo. A abertura deste livro de 1859 encerra lição inesquecível a quem ama as bibliotecas e sabe que há pessoas dentro destas. Eis Mr Charles Dickens por inteiro.

 

 

‒ The Period. It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way--in short, the period was so far like the present period, that some of its noisiest authorities insisted on its being received, for good or for evil, in the superlative degree of comparison only.

 

‒ O período. Aquele era o melhor dos tempos, aquele era o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez, era a época do acreditar, era a época da incredulidade, era a estação da Luz, era a estação das Trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, estávamos indo todos diretamente para o Céu, todos estávamos indo diretamente no caminho contrário ‒ em suma, o período era tão longamente semelhante ao presente, que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em ser recebido, para o bem ou para o mal, apenas em superlativo grau de comparação.

 

O Cairo abre hoje porta de futuro no limite do imaginável, ao derrubar a inapta autoridade eleita. A reação de Mr Morsi ao game-over são palavras no facebook! Esperemos que o Egypt faça agora o seu caminho com a energia de Tahir Square, mas sob a paz e sabedoria alexandrinas. Afinal, justamente na Africa dos aventureiros e dos faraós, quando morre um ancião chora-se a perda de uma biblioteca. ‒ Like a book: A beginning, a middle, but no end in sight!


St James, 3rd July

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

de 8 a 14 de julho 2013

 

Reler as «Memórias Económicas da Academia Real das Ciências (1789-1815)» (reeditadas pelo Banco de Portugal, sob a coordenação de José Luís Cardoso, no início dos anos noventa) é um exercício extremamente útil e necessário não só para a compreensão da realidade histórica desse período, mas sobretudo para podermos perceber as razões do atraso e as potencialidades das reformas idealizadas na transição no Antigo Regime para o liberalismo.

 

 

 

O CASO CURIOSO DO TERMO DE AZEITÃO
Atenhamo-nos, a título de exemplo, à sessão de 6 de Julho de 1791 e à comunicação de Joaquim Pedro Gomes de Oliveira sobre as posturas da vila de Azeitão, em complemento à investigação de Tomás António de Vila-Nova Portugal. Começa o académico por elogiar os passos dados no tempo de D. José e no consulado pombalino, uma vez que a cultura, o comércio e a polícia «entraram a ter a consideração, que pela sua importância mereciam, encontrando-se já na nossa legislação sábias e providentes leis que livraram em parte esta interessante matéria da variedade, e confusão, em que se achava envolvida». Descobrem-se restos dos antigos usos feudais, apesar dos esforços feitos no tempo do Mestre de Avis, havendo do lado do ponente a preocupação de encontrar pistas de coerência jurídica, no sentido da liberdade económica, capazes de favorecer a fixação e a criação de riqueza. Começa, assim, por falar da qualidade do terreno e da situação do termo de Azeitão: «propriíssimo para a produção de bons vinhos». «Com justa razão têm sido, em todos os tempos, e são ainda hoje as vinhas o mais interessante e mais extenso ramo da cultura daquele distrito». Salvaguardando o anacronismo, estamos nos antepassados do vinho Periquita… Fala-se, por isso da proteção e disciplina das vinhas, castigando-se os proprietários do «gado cabrum» que levem os rebanhos, bem como os jumentos, para as vinhas. E ainda as proibições das posturas exigem os cães presos desde o dia de S. Tiago (25 de Julho) até 12 de Outubro, proibindo-se haver colmeias em menos de um quarto de légua de distância das vinhas. Note-se a referência ao facto de em Azeitão haver liberdade para definir o tempo da vindima, ao invés de outros lugares, acrescentando o autor a necessidade de haver regras cuidadosas quanto à poda, com penas para quem podasse em benefício do vinho e com dano da vinha. Infelizmente, não houve condenações para os rendeiros abusadores (eles estavam em causa). Por outro lado, havia a proibição de vender vinho para fora do termo sem licença da comarca bem como de comprar vinho por grosso. Explica a memória, que os vinhos de Azeitão tinham duas saídas: os portos de Setúbal e Lisboa. À partida, os comerciantes de Setúbal protegiam a sua produção em detrimento da de Azeitão. Desde o século XIII, a qualidade dos vinhos de Azeitão impôs-se – porque «conhecendo os de Setúbal que os seus vinhos já não podiam suprir o consumo, e extração, crescendo com o comércio o consumo das embarcações nacionais e estrangeiras para o porto daquela vila, cederam às decisões e admitiram os vinhos de Azeitão». Mas havia ainda a concorrência de Palmela e as limitações e sanções de que eram vítimas os de Azeitão, razão pela qual Lisboa era o normal destino da produção daquele termo.

 

ENTRE SETÚBAL E LISBOA
Naturalmente, os negociantes de Lisboa, através dos seus comissários, manipulavam o preço em Azeitão. Por isso, havia em Azeitão uma postura que proibia essa intromissão, mas o certo é que os livros da almotaçaria não registaram uma só condenação por esse facto. Mostra-se, assim, até que ponto chega «a antiga rivalidade feudal, em que as terras se consideravam como quase inimigas, prejudicando-se mutuamente, umas às outras». E lembra-se o tempo em que a Arrábida estava cheia de brenhas («maquis») e era coutada, havendo porcos monteses, lobos e caça grossa a destruir as sementeiras. No reinado de D. José, finalmente, foi «descoutada» a serra, menos uma pequena parte frente ao mar, e os caçadores e os fogos, que destruíram as brenhas, acabaram com os lobos e quase extinguiram os porcos monteses. Recorde-se as posturas sobre os trabalhadores, com penas para quem prometesse ir ao campo e faltasse, ou para o capataz que não levasse a quadrilha prometida (falamos dos malteses, com as suas «casas da malta», vindos da Beira, por não haver gente suficiente e pela concorrência que passou a existir por causa da manufatura do algodão e da estamparia), isto, sem esquecer, a letra quase morta das posturas que impunham ao trabalhador de enxada trabalho de sol a sol, por apenas 120 réis de jorna (o que não se aplicava)… Além dos vinhedos, são os olivais a riqueza de Azeitão, como o topónimo indica, sem lugar a dúvidas. «É cousa notável que sendo constante entre os cultivadores de Azeitão que os olivais são uma das melhores fazendas daquele termo, a cultura das oliveiras esteja aqui quase totalmente desamparada». Apesar de tudo, há posturas que proíbem os gados nos olivais e os porcos debaixo das oliveiras, depois do dia de S. Francisco (4 de outubro), mas, quanto ao mais havia normas insignificantes para impedir o rabisco dos pobres ou o furto da azeitona. Acrescente-se as lenhas de Azeitão, que se tornaram muito importantes, por causa da produção do algodão e «pela fácil condução para Lisboa, pelo rio Coina». Para proteger os pinhais, havia regras que procuravam impedir os fogos e prevenir o roubo dos pinheiros mansos. De facto, os pescadores da Costa, Trafaria e Seixal arrancavam as raízes horizontais desses pinheiros para dar tinta às redes… Havia ainda os castigos para a apanha das pinhas do chão antes de Todos-os-Santos (1 de novembro), «pois que principiando então as pinhas a fecharem-se, já não semeiam por si mesmas o pinhão». O académico considerava ainda digno de reparo que houvesse liberdade em vender lenhas, existindo embaraço a respeito dos vinhos. Os caçadores e os pastores eram os grandes inimigos dos pinhais, pondo-lhes fogo…

 

A PROIBIÇÃO DO LIVRE GIRO DOS PRODUTOS
Afinal, tudo visto e ponderado, o académico critica as posturas (apesar dos avanços com D. José) por porem embaraços, opondo-se ao giro das mercadorias. Além da proibição da livre exportação dos vinhos, havia outras proibições contraproducentes: de rezes, pão, vingo, azeite, legumes, quaisquer mantimentos em geral, caça, galinhas, lenha, carvão, junco, palha e cevada e pedras, se não pagassem ao concelho 60 réis por carreta. O certo é que nos livros de almotaçaria havia condenações para os que levavam frutos para fora do termo sem licença da câmara e contra os almocreves que tivessem extraído azeite para as terras vizinhas. Era a rivalidade feudal que estava em causa. «Hoje conhecemos bem que o consumo, a exportação, é que faz a abundância, e que desta é que vem o bom preço; pois à carestia necessariamente segue a falta do género que o cultivador despreza, quando não há de ter mais que o preciso para comer». Lembre-se que os moleiros não podiam criar mais de um porco, três galinhas, um galo e um cão. E se os moleiros regavam hortas com a água dos moinhos foi-lhes proibido poderem regar mais de três mil couves – precisando-se depois que o terreno em causa não poderia ter mais de 12 varas de comprimento e de 4 de largo… O que acusa o académico nas posturas? O serem multidão. Se fossem poucas tratariam os rendeiros de fazer observar essas; sendo muitas, «fazem a sua conta nas mais insignificantes, e ficam as essenciais sobre gados, e seus danos, sem observância, e os poderosos, que são os que podem ter, sem castigo». Anos passados, o grande amigo do académico Joaquim Pedro Gomes de Oliveira, José Xavier Mouzinho da Silveira, nos decretos da Terceira na regência de D. Pedro, procuraria responder positivamente a estas críticas de sistema. A liberdade facilitaria a concorrência e poderia acabar com a multiplicidade de privilégios…     


Guilherme d’Oliveira Martins

UM DIÁLOGO ECUMÉNICO SÉRIO

UM DIÁLOGO ECUMÉNICO SÉRIO

 

Minha Princesa de mim:

 

Chegou-me hoje uma carta breve do M... Começava assim: "Teço / solidão e silêncio /e não esqueço / as ditosas horas /em que fui feliz..."  Pouco mais dizia, sabes bem como ele sempre foi solitário e silencioso sobre si. Inesperado, por isso, foi ouvi-lo dizer aquilo. Estava escrito, mas era como um desabafo saído do coração na boca. Deixou-me perplexo. Soube, antes, que ele anunciara aos seus alunos que se retirava. E que alguns deles lhe tinham escrito, sem nada mais pedirem, que não esqueceriam o muito que ele lhes ensinara... Ao que apenas respondera que nunca ensinara nada, que apenas partilhara coisas queridas do seu coração, tão queridas que até lhe tinham passado pela cabeça! Conheci-o de pequeno, menino como eu. Ambos órfãos de pai, irmãos de alma nos tornámos e ficámos. Eu, talvez, mais aparentemente condescendente, mais convencional. Quiçá rebelde e refilão, mas sempre atento à circunstância. Ele, ele sempre gostou do desacordo como modo de interrogação. E nunca o escondeu. Questionar, contestar, sempre foi, para o M..., não um capricho, nem uma leviandade, mas antes o seu modo pessoal de estar com os outros, de lhes dizer que os amava porque respeitava a inteligência deles e os considerava capazes de reverem ideias adquiridas. Por isso mesmo, detestava o "fala barato", o presunçoso. Odiava a mediocridade. Dizia que as constipações se curam de janela aberta, que um cérebro emperrado só o é por não querer mexer-se! Claro que se dizia que tinha "mau feitio". Mas, com raras exceções, os que com ele privaram, alunos e colaboradores, reconheceram-lhe e retribuíram-lhe a amizade com que ele, mesmo aparentemente zangado, generosamente lhes fazia justiça. Muitas vezes me lembrou o Padre Chenu, frei Marie-Dominique. Curiosamente, é com homens assim que aqueles a quem, por preconceito obedecido, chamamos infiéis ou incréus, finalmente se abrem mais. Pois não há maior elogio da diferença   -  como parceira de diálogo  -  do que interrogá-la connosco. O documento "De Oecumenismo", do Concílio Vaticano II, trata também das relações da Igreja, e da fé católica, com o Islão. Essa parte, como referiu o Cardeal Béa ao apresentar o documento aos dois mil bispos reunidos na Basílica de S. Pedro, teve a aprovação prévia do Institut Dominicain d’Études Orientales du Caire, considerado  -  tal como o Instituto Pontifício de Estudos Orientais da Tunísia, dos Padres Brancos  -  uma autoridade na matéria. Esse Instituto e a sua qualidade são fruto da visão e da persistência de Marie-Dominique Chenu. Conheci-o no Saulchoir, na festa de S. Domingos, a 4 de Agosto de 1941. Fui lá para visitar um estudante dominicano, então discípulo do Padre Chenu, depois um dos primeiros membros do Instituto do Cairo e, hoje ainda, residente em Kabul, no Afeganistão. Deves saber quem, é de uma família com que temos alguns laços de parentesco: falo do frei Sérgio de Laugier de Beaurecueil. Na altura, em plena guerra, o Padre Chenu ia formando o primeiro grupo de religiosos dominicanos que integraria o Instituto, dotado de autonomia e oficialmente reconhecido em 1953, a 7 de Março, na festa de S.Tomás de Aquino: Jorge Anawati, egípcio, cuja língua materna era o árabe, e que foi o primeiro presidente, Tiago Jomier que, para o efeito foi estudar árabe e islamologia para a Sorbonne, e o nosso parente que, antes de entrar para a Ordem dos Pregadores, escolhera como 2ª língua, no liceu, o árabe falado no Egipto! Para se instalarem no Cairo, tiveram ao dispor o convento edificado pelo Pe.Jaussen, professor na Escola Bíblica de Jerusalém, em 1928, para receber os estudantes daquela escola dominicana no tempo que passavam no Egipto, para se familiarizarem com a arqueologia local e seus achados e visitarem o Sinai. Aliás, já o Rei Fouad convidara o Pe.Jaussen a fundar uma academia de sábios dominicanos no Cairo, ideia que ficou na memória da Ordem, por ser tentadora a fundação de um centro de estudos sobre o Islão na cidade onde se encontra a maior universidade muçulmana do mundo... Ideia que, nos anos 30, depois de uma ida a Jerusalém e ao Cairo, o Padre Chenu expôs, em Roma, ao Cardeal Tisserant, ex-aluno da Escola Bíblica e Prefeito da Congregação Oriental no Vaticano. Vale a pena citar-te um texto do Pe. Anawati: "Ninguém melhor do que o Pe.Chenu poderia sentir a importância e urgência de tal Centro... O seu íntimo conhecimento da Idade Média há muito o tinha sensibilizado para o problema que o "arabismo" levanta. Sabia o que tinham sido, para Santo Alberto e S. Tomás, Avicena e Averroes, conhecia melhor do que ninguém a importância das fontes árabes para o estudo técnico das ideias filosóficas na Idade Média. Muito atento ao movimento das ideias, à animação das culturas, às possibilidades enriquecedoras dos intercâmbios culturais, tendo medido a importância actual de uma religião como o Islão, à qual pertencem mais de 400 milhões de homens (o texto é de 1964), e que tem um passado tão ligado aos destinos do Ocidente, logo percebeu o papel que a Ordem de S.Domingos devia desempenhar nesse domínio". Sobretudo, minha Princesa, porque a guerra, a ascensão do comunismo, a confusão das mentes europeias perante o absurdo aparente de tudo, o movimento ecuménico cristão, o previsível advento de novos Estados-Nação com novos centros de expressão religiosa que escapariam ao controlo político, nos protetorados e colónias que se emancipavam das potências europeias, tudo isso aconselhava a humildade, o respeito do outro e o diálogo. É espantoso para muitos, admirável para todos, que o Vaticano do Papa PioXII tenha expressamente instruído os fundadores do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo para que se concentrassem mais na tarefa de mostrar ao mundo  - designadamente à cristantade e ao mundo muçulmano  -  a mensagem religiosa e espiritual do Islão, do que em fazer proselitismo religioso. Assim, este Centro de Estudos é, ainda hoje, como pude observar numa recente viagem ao Egito, um ponto de encontro, no mundo árabe e universitário, do diálogo inter-religioso. Nessa ocasião, voltei às "Cartas do Egipto" do jesuíta Teilhard de Chardin que, em 1907, do Cairo escreve a seus pais, sobre o regresso a casa de peregrinos a Meca: "Todo o cortejo penetrava lentamente na rua que ladeia os grandes hotéis, estorvando a circulação mas provavelmente para grande alegria dos turistas. O lado impressionante da cerimónia é ver os indígenas acorrerem em grande número ao santo que regressa de Meca, a fim de lhe beijarem as mãos: aí também há uma ideia muito religosa e muito elevada"... Mais uma curiosidade: na edição das "Lettres d´Égypte" pela Montaigne, em 1963, a apresentação prefacial é feita por Henri de Lubac, jesuíta também e que, com os dominicanos Congar e Chenu, de quem é amigo, foi teólogo do Concílio Vaticano II e... medievalista! A introdução de uma perspectiva histórica fundamentada na investigação teológica trouxe alma nova à reflexão de uma religião incarnada." Com esta carta de Camilo Maria, ocorreu-me algo que eu mesmo disse a um jovem padre, meu amigo, e que não repetirei aqui. Apenas recordo que, além da tradução do "Shifá" de Avicena, a obra mais celebrada de frei Jorge Anawati tem por título "Introduction à la Théologie Musulmane".

 

 Camilo Martins de Oliveira

Uma Casa chamada Ópera de Pequim - 京剧, 京劇


Sentei-me a beber chá enquanto abria em mim a porta do universo do artista que ao meu lado se transformava para que existissem menos obstáculos ao entendimento do que ali se passaria.

No meu peito uma porta aberta, definitivamente aberta, ao lugar onde, falecem raízes que pretendem amarrar a vontade das asas.

Assim preparada, ousei a música, a voz, a mímica, o texto, a dança e a acrobacia que envolve este tesouro cultural da China que, desde os fins do século XVIII, e em formato consolidado na corte da Dinastia Qing, relata as histórias do espírito humano, originariamente só expostas ao imperador.



O mandarim mais arcaico deixa-se conduzir ao entendimento, nomeadamente através dos figurinos que diferenciam as classes sociais, através das cores de significado tão específico se formos preparados no mínimo, para compreendemos, que o branco é a mentira e o preto o atrevimento, ficando o dourado, o jade e o prateado para serem utilizados pelas figuras divinas. E ali, ao meu lado, a ceramica, humana obra, ascendia num redondo nascer, ajudada pelo oleiro dos trajes, que não são dificeis de vestir , pois que afinal, são intentos e são convicções.

 

Os actores da Ópera de Pequim possuem longos e difíceis estudos das múltiplas artes até serem capazes de traduzir o som das chuvas ou das penumbras das tardes.



E eis que para salvar a vida de seu marido Xu Xian, surge, qual beleza pura  Bai Suzhen disposta a entrar nas proibidas montanhas para delas levar consigo a planta mágica dos jardins eternos, que daria vida de novo ao seu amado.

 

A irmã de Bai Suzhen transformara o cunhado numa cobra que seria perseguida e morta tão potente o seu veneno. Fizera provocar esta transformação por inveja e paixão moída de não ser correspondida e não querer suportar a ideia de que, o amor vivia e era sólido entre o casal, apesar das doenças que nele queria ver para encurtar a distância que a separava daquele mundo que tanto pretendia, e desconhecia o quanto a própria mordedura a afastaria sempre de o visitar que fosse.

 

Longos e cruéis e ousados combates teve de enfrentar a mulher que sabia o quanto o tempo era escasso para salvar seu marido Xu Xian.


 


E num domínio coincidente com o reino da vida enfrentou as convicções dos guardas do Monte Sagrado, quase se perdendo, nas pontas das espadas com as quais lutou corajosamente.


 

A agilidade do conhecimento pleno na tutela das ervas e das plantas mágicas, conduzia os guerreiros da Montanha a génios de defesa astuciosos e nunca complacentes à luta exposta de lágrimas que muitas das vezes toldavam os olhos de Bai.

 

Não vim para vos roubar a claridade da meia-noite. Não vim desrespeitar-vos na distância a que me devo aos deuses, mas lutarei sim, porque não é crime, nem sonho, desejar que o meu marido regresse à vida, e possamos voltar a dormir um no outro como um novo primeiro infinito no meio do nosso abraço. Serei a que visita a morte para dar vida a quem me entreguei, e só assim me caço escrava de quem me dá um fim, se assim o entendeis pois que sois muitos.

 

Este o texto que fui criando e escrevendo na minha memória para o levar até aos meus leitores como símbolo do que de mim arranco face à beleza do que vi nesta Ópera de Pequim.

 

E Xu Xian voltará à vida.

Prova a sua amada mulher que existe sim, a incurável e absoluta diferença entre os seres, e que a irmã de Bai Suzhen haverá de continuar a provar o cemitério vazio de vida em que habita. Nenhum feitiço mais utilizará, agora, que a planta mágica se deixou colher pela mulher que enfrentou despedir-se da vida, por amor ao amor vivido ao lado do seu amado que já não terá de sofrer a injusta morte.


Os guerreiros míticos do Monte Sagrado renderam-se enfim, ao reconhecer o atrevimento corajoso desta mulher, e acompanharam-na até às portas do mundo a que ela e seu amado amor recomeçariam vida.

Em rigor, a atitude é válida às causas, e interrompe a ideia dos fins definitivos.

 

Não há adeus à Ópera de Pequim !

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Junho 2013

UM “CICLO ANGÉLICO” NO TEATRO DE FERNANDO AMADO

 

Já tivemos ocasião, noutro local, de qualificar como “ciclo angélico” duas peças breves de Fernando Amado, “Véspera de Combate”, escrita por volta de 1940, e “Caiu um Anjo”, esta em dois quadros e estreada em 1952. E “ciclo angélico” porque ambas são identificadas pelo autor como Mistérios, expressão de ressonância medieval, pois em ambas avulta como protagonista o personagem Anjo, precisamente… E o anjo corporiza uma visão e intervenção transcendental  de notável expressão poética.

 

“Véspera de Combate” põe em cena um Peregrino em diálogo com  uma Rapariga, no quadro cenográfico de “blocos de colunas que foram uma igreja; vestígios de incêndio”.  Note-se que a rapariga pouco mais é do que uma simples figuração contrapontística. Porque o diálogo estabelece-se entre o Peregrino e o Anjo, e constitui, aí sim, uma meditação acerca da natureza humana na sua expressão transcendental e de certo modo mística. O que implica o acesso a uma linguagem teatral - poética próxima do simbolismo, o  que não é caso único no teatro de Fernando Amado: recordaremos aqui, na altura própria, por exemplo “A Caixa de Pandora” e outros textos.

 

Mas no caso vertente deste “ciclo angélico”, quero referir a transcendência das falas do Anjo: “fugias de ti mesmo como a sombra foge do corpo em movimento. A imagem da felicidade embebia o teu sonho; ia em redor de ti, flutuando como névoa que tolda a vista“.

 

E no final: “a culpa dos homens não está em fazerem a guerra, mas não quererem a paz! (…) homem novo…estarei sempre aonde me procures… serei sempre tão belo quanto te puderes ver!”

 

Ora, em “Caiu um Anjo - Mistério em dois Quadros” (1952), se muda o ambiente para uma “Lisboa à noite. Rua. Sobre a direita, casa de pasto”, de expressão quase naturalista, em que se enfrentam 13 personagens, entre eles dois “bêbedos”, o “senhor e a senhora elegante”, o filósofo e ardinas, motoristas, um filósofo e outros mais - repita-se, numa cena e numa linguagem de caris próximo do realismo, o que marca é de facto  a evocação de um anjo , simbolizado num “maltrapilho, sebento, lorpa, aquela escumalha da ralé” que leva uma tareia e que não tem intervenção direta no diálogo.

 

A peça termina com um longo e belo poema , onde se define a vocação universal do anjo: “Assim este anjo caído do céu/é também para ti/alma inquieta, alma infinita, ó minha alma igual ao mundo”… E assenta pois neste paradoxo existencial:  “Um anjo porém não tem de ser mais do que espírito. Em toda a ocasião convém-lhe uma linguagem sublime e misteriosa”, diz o Filósofo. Ao que replica o Doutor: “e portanto cai do céus aos trambolhões para apanhar tareia dos bêbedos no meio de rua!” E acrescenta o Senhor Elegante: “com um fato nojento, o nó da gravata à banda e o chapéu amachucado”!   

E a peça acaba “num cântico nostálgico e puro, que acaba de se fundir num coro”.


Expressão poética, mas também claramente dramática: exemplo do bom teatro de Fernando Amado.

 

Duarte Ivo Cruz

LONDON LETTERS


The Spooneirism, 2013

 

Esta é a semana do come on! Tal é a comum exclamação face ao debate orçamental, quando ecoa a lição memorável do Warden William Archibald Spooner em Oxford e passa mais um ano sobre o fim de Napoleon na Waterloo Battle, às mãos do iron Duke of Wellington, numa agenda dominada por The Wimbledon Championships. ‒ Oh, là-là. Le jeu de paume à Thames! Westminster ocupa-se hoje com a spending review de dívida que ascende a £1,206,577,800,000. That is boring! Confirmado o mau estado das finanças no UK e o anúncio de novo corte de £11,8 bilions nas despesas públicas, temo não ser de todo acidental o facto de os Brits vencerem pela última vez nos courts de Somerset Road com Fred Perry em 1936 e Dorothea Lambert Chambers entre 1903 e 07, aliás, com a senhora a obter a sua sétima vitória após o nascimento de duas crianças e a competir no All England Lawn Tennis & Croquet Club até aos 49 anos em 1927.

 

 

So, anyone for tennis? Esta é a magna questão após ouvir o Prime Minister afirmar na House of Commons que “never have been lobbed” e o Chancellor of Exchequer assegurar que “there is no money.” Westminster promete, pois, doce austerity receipt por mais dois anos, empenhado que está o Coalition Govt em persuadir um elefante chamado estado a fazer ginástica para perder umas gramas, graças a dieta social, numa economia a crescer anualmente um por cento.

 

 

Encomendado o desemprego, o negro ameaça até em inusitados quadrantes. Dos estranhos contornos do seeking Edward Snowden em Moscow aos comentários do caos reinante na orla do Mediterranean sea até imagens de amigos sequestrados num inesperado turismo político por terras do Brasil, o caleidoscópio é eletrificante. Resta à summer bonanza as presenças sitting round the table mais as leituras, umas e outras inspiradoras na leveza. Eis duas deliciosas book stories.

 

 

 

George Elliot (1819-80). O caso é relatado por um sobrinho de Master Henry James. Mr Herbert Spencer recebera um suave não à sua proposta de casamento à escritora nos terraços de Somerset House. A negativa ganha perfil de pública controvérsia. Mr  James: – “I have as a matter of fact frequently meditated on the motives which induced the Lady’s refusal of one so distinguished; and after mature consideration I have arrived at the conclusion that although Mr Spencer with correctness went down upon one knee and grasped the Lady’s hand, he completely omitted the ceremony of removing his high hat.”

 

William Archibald Spooner (1844-1930). A narrativa vem pelo dear Professor James Sutherland. O Warden do New College é interpelado sobre uma lata presença de sociais cristãos em Oxford. A resposta ao alegado spooneirism: ‒ “No, I shouldn’t say there was much; in fact, I think there are only two, Dr Rashdall and myself; and I’m not very much a Socialist, and Dr Rashdall isn’t very much of a Christian.”

 

Mas sejamos otimistas no country club. Há sempre os céus de África. ‒ God bless you, Madiba!

 

St James, 26th June

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

de 1 a 7 de julho 2013

 

Um livro? Sim, claro: «A Influência Portuguesa na Indonésia», de António d’Oliveira Pinto da França (Prefácio, 2003). É uma obra-prima, que não pode ser dispensável. Fizemos a Indonésia de lés-a-lés com essa obra nas mãos, e para todos era uma referência. Mas hoje recordamos o grande amigo, o diplomata exemplar, o cidadão, o homem de cultura. Por isso fomos buscar uma fotografia antiga de Sofia e António, para recordar tantas conversas, tantos ensinamentos… Obrigado por tudo, António! Tudo foi tão inesperadamente rápido…

 

 

CULTOR DA MEMÓRIA PORTUGUESA
Posso dizer sem receio de exagero que António Pinto da França foi um dos melhores cultores da memória portuguesa no mundo. Francisco Seixas da Costa também não teve dúvidas. É uma perda irreparável. Inesperadamente deixou-nos, num desses acidentes domésticos que tornam perigosas as nossas casas, por mais acolhedoras que sejam. E a verdade é que as casas deste embaixador de exceção sempre foram muito acolhedoras, graças às qualidades hospitaleiras de Sofia e António. Quem tenha estado na Quinta da Anunciada Velha em Tomar, a usufruir da principesca forma de receber dos Pinto da França, jamais esquecerá. Naquele local de muita História, a casa da quinta tornou-se um fantástico repositório das andanças pelo mundo dos proprietários. E recordo um dia em que pudemos celebrar lá a relação luso-indonésia, com vários protagonistas de um percurso muito complicado, em que foi possível superar dificuldades e vicissitudes e regressar a uma amizade genuína de dois povos tão distantes e próximos.

 

UM ARTÍFICE DO REQUINTE
Há um ano estávamos a preparar a viagem do CNC a Minas Gerais e a sua ajuda foi preciosa. Com ele pudemos afinar os pormenores de maior requinte, porque ele conhecia o que de melhor havia na especificidade de cada identidade, de cada singularidade. Havia nele uma espécie de íman que o fazia aproximar-se naturalmente das referências antigas e da gente interessante. E se falo do Brasil, é porque foi a última ocasião em que pudemos trabalhar juntos. Mas antes houve os anos em que fomos pondo de pé, contra ventos e marés, e sempre graças à sua persistência, sensibilidade e conhecimento, a amizade entre Portugal e a Indonésia, numa relação apaixonada que António Pinto da França trazia consigo desde o tempo em que, de 1965 a 1970, foi encarregado de negócios em Jacarta. Desse período, veio não apenas o enamoramento pela Indonésia, mas também um conhecimento profundo sobre a história, a antropologia, a geografia da terra e dos afetos. Quando se falava dessa amizade, os olhos iluminavam-se-lhe. E depressa nos sentíamos envolvidos pelas referências, pelos objetos, pela descrição das personagens e das suas pequenas histórias. Leia-se «A influência portuguesa na Indonésia». Está lá tudo o que deve estar. Há uma história comum a contar, de um encontro e de um diálogo. E quando fomos de ilha em ilha, de comunidade em comunidade, percebemos o porquê do enamoramento do diplomata que depressa se tornou embaixador dessas longínquas paragens onde quer que estivesse. Quando um povo chega tão longe, em condições tão precárias, ditadas pela distância e pelo esgotamento, só pode singrar, se ganhar o respeito dos novos interlocutores. E um dia o Sultão de Ternate dizia-nos que tinha boas memórias dos portugueses, enquanto missionários e mercadores, muito mais do que se fossem apenas guerreiros ou administradores. Afinal, as primeiras tarefas, mais do que as segundas, obrigam à proximidade e à confiança, sem o que não pode haver sucesso na palavra e na troca.

 

DESCOBRIR LIGAÇÕES E PONTES
António Pinto da França dedicou-se a tentar descobrir esses fatores de ligação, essas pedras de toque, desde as imagens e monumentos até aos usos e costumes e à língua. Que é o património etimologicamente senão esse múnus que se transmite através da memória por diversas gerações? A referência patriarcal é um elo e uma metáfora. E num momento em que tanto se fala de memória histórica e de mundo que o português criou, devemos lembrar a lição extraordinária de António Pinto da França, segundo a qual não há transmissão sem troca. O mundo que o português criou é, por isso, o mundo que outros criaram connosco. Daí esse sortilégio de partir e de ser capaz de ver de fora. E o embaixador ensinou-nos, por isso, que a noção de «influência» nunca pode resumir-se a uma dominância ou a uma aceitação passiva. Quando duas culturas entram em contacto uma com a outra, o resultado é o nascimento de uma terceira realidade. E se Portugal é denominador comum, o certo é que as novas realidades escapam-nos necessariamente, e aí está a sua riqueza. Só é possível sermos autênticos no tocante ao diálogo cultural, tornando-o verdadeiro intercâmbio e criação. Só assim poderemos superar desconfianças e suspeitas, através de um conceito novo e universalista de património cultural criador. Que é o barroco brasileiro senão algo de totalmente novo que resulta de um encontro com realidades inéditas e com uma natureza diferente e inesperada? Que é o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda senão quem reúne idiossincrasias contraditórias – de carga positiva e negativa? Hospitalidade e hostilidade. Agostinho da Silva falava de cultura de paradoxos. Eis por que razão falamos de várias culturas da língua portuguesa e de encontro da língua numa cultura de várias línguas. Poderá parecer estranho tudo isto, para quem não tenha conhecido António Pinto da França. Mas, quem tenha beneficiado da sua experiência e ensinamentos, depressa percebe que a história era o pano de fundo, mas o que lhe interessava era o contacto humano e a sua projeção no futuro. E o certo é que António era capaz de entender os dois lados da relação cultural, o dentro e o fora, o nós e os outros. O percurso do diplomata facilitou a compreensão do que é diverso e contraditório. Depois de estar no Conselho do Atlântico Norte (1970-74), foi cônsul-geral no Rio da janeiro (1974-77), tendo ainda sido enviado para negociar a libertação dos militares portugueses ainda detidos em Timor-Leste. O Brasil foi outra das suas paixões – sendo de indispensável a leitura os dois volumes que publicou de cartas familiares que revelam os debates sobre a evolução das relações entre Portugal e o Brasil, na encruzilhada das mudanças políticas: «Correspondência Luso-Brasileira» - I volume, «Das Invasões Francesas à Corte no Rio de Janeiro (1807-1821)» e II volume, «Cartas Baianas – o Liberalismo e a Independência do Brasil (1821-23)» (INCM). De 1977 a 1979, foi embaixador em Bissau, do que resultou «Em tempos de inocência – um diário da Guiné-Bissau», reflexões premonitórias, perante uma realidade que evoluiria de modo perturbador. Em 1983, depois do exercício de altos cargos no Ministério, é colocado em Luanda, onde fica até 1988. São significativas as suas reflexões e testemunhos num momento de muitas incertezas. Leia-se «Angola – dia a dia de um Embaixador» e usufrua-se «Aguarelas de Luanda e d’outros lugares de Angola – estudo sobre as aguarelas de Sofia Pinto da França». O percurso impressionante continua na Conferência dos Direitos Humanos da CSCE (no ano emblemático de 1989), na Embaixada em Bona, aquando da reunificação alemã (1990-1995) e junto na Santa Sé (1996-2000) e, por fim, na presidência da ALIAC, Associação Luso Indonésia de Amizade e Cooperação. A vida e a obra de António Pinto da França levam-nos ao contacto com a cultura e o gosto da vida. Por isso, esperávamos ainda tanto dele. Mas o seu entusiasmo fica.

Guilherme d'Oliveira Martins

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