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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

Guilherme d'Oliveira Martins
de 5 a 11 de agosto de 2013

 

«Lumen Fidei» (Paulinas, 2013) é a nova carta encíclica, assinada pelo Papa Francisco, na sequência das anteriores de Bento XVI sobre a Caridade e a Esperança. O texto merece leitura e reflexão atentas, em estreita ligação com algumas afirmações audaciosas produzidas pelo Sumo Pontífice na recente viagem ao Brasil. O Papa não quer os cristãos instalados e indiferentes, incentiva-os a participar na vida política e cívica, não para gerirem o imediato ou conquistarem votos, mas para se preocuparem com o exercício da verdade e da justiça. E, ao falar da fé, o Papa fala de responsabilidades e de uma ética de exigência, de respeito, de atenção e de cuidado. Longe das certezas, «a fé não é a luz que dissipa todas as nossas trevas, mas uma lâmpada que guia os nossos passos na noite e isto basta para o caminho». Urge que o entendamos!

 

 

A TODAS AS PESSOAS DE BOA VONTADE
Quando, há alguns meses, o Papa Francisco se dirigiu a quantos se aglomeraram na Praça de São Pedro e acompanhavam o anúncio da sua eleição nos meios de comunicação social, fez questão de falar para todos os homens e mulheres de boa vontade numa abrangente palavra de renovação e de esperança. Mais do que uma palavra era indispensável um gesto. A indicação do nome escolhido e a atitude foram dois sinais dignos de nota. As mensagens fundamentais foram para todos sem exceção e basearam-se na modéstia e na entrega. A personalidade do Cardeal Jorge Bergoglio é cativante e a invocação do nome escolhido de Francisco foi significativa. Num tempo de imediatismo e de indiferença, de crise de valores e de perplexidade não pode passar despercebido o facto de escolher a referência de um Santo de proximidade, de pobreza e de amor. S. Francisco de Assis simboliza o desprendimento, a entrega, a compreensão e o diálogo com a natureza. Perante uma crise marcada pelo imediatismo, pela ilusão e pela ânsia dos ganhos fáceis, é importante que haja um apelo aberto a todos no sentido de colocar a dignidade humana no centro das nossas preocupações e prioridades.

 

A ENCÍCLICA «LUMEN FIDEI»
A publicação da encíclica «Lumen Fidei», que agora ocorre, constitui um acontecimento que merece especial atenção. O texto é de grande interesse. É de aconselhar a sua leitura cuidada neste tempo estival. Bento XVI já nos tinha anunciado que se completaria o ciclo das encíclicas relativo às virtudes teologais, e eis-nos perante um texto denso e fecundo, subscrito e completado pelo Papa Francisco, num gesto aberto, justo e generoso. Notam-se os contributos dos dois pontífices que intervieram na elaboração da carta encíclica, mas estamos perante um documento eclesial, que não deve ser considerado de mera autoria individual, apesar da influência evidente dos seus autores. A síntese é sabiamente ilustrativa: «a fé não é a luz que dissipa todas as nossas trevas, mas uma lâmpada que guia os nossos passos na noite e isto basta para o caminho». Fé e razão são faces da mesma moeda, e é importante que o entendamos. Lembramo-nos do diálogo entre Jürgen Habermas e Joseph Ratzinger, e percebemos que ambos tiveram a inteligência de encontrar um elo forte entre razão e fé. Afinal, relativismo e pluralismo não podem confundir-se (como lembraram K. Popper, I. Berlin e R. Dworkin). Se é certo que vivemos numa sociedade marcada pelas diferenças e pela liberdade, como no-lo ensinou o Concílio Vaticano II, não é menos verdade que os valores espirituais têm de ser considerados, como fatores de compreensão dos limites e da consciência da responsabilidade. Como afirmou o Padre M. D. Chenu, «o cristianismo é o mistério de Cristo que vive, morre e ressuscita em mim e em cada um». Numa boa tradição nova, iniciada com Bento XVI, a encíclica cita, além dos documentos da Igreja, autores de uma cultura secular, em nome de uma sã abertura ao mundo, de Nietzsche a Dostoievski. Por isso, a carta recorda que «o jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma». E acrescentava: “Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga”. O crer opor-se-ia ao indagar» (LF, 2). Procurando superar a dúvida de Nietzsche, a encíclica fala-nos de uma fé que não espolia a vida de novidade e aventura e que não é uma ilusão de luz, antes abrindo caminho da liberdade pessoal. E a encíclica recorda que «é conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjetivo, impossível de propor como verdade válida para todos (LF, 27).

 

UMA NOÇÃO IRREPETÍVEL
A dignidade da pessoa humana, como noção irrepetível, obriga a entender os caminhos da fé e da razão como complementares e incindíveis. «Devido (…) à sua ligação com o amor, a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. (…) A fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança (LF, 51). Num tempo em que o imediato parece fechar os caminhos de saída para a crise, é tempo de olhar o horizonte e de pôr a nossa vontade ao serviço das pessoas e do bem comum. E os sinais dados pelo Papa Francisco de abertura, amor e justiça são encorajantes. «Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como advertia o poeta T.S. Eliot: “Precisais porventura que se vos diga que até aqueles modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado?”» (LF, 55).

 

O VALOR DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Temos de dar um valor acrescido à dignidade da pessoa humana, em nome da liberdade e da responsabilidade, da igualdade, da não exclusão. Precisamos de exemplos de atenção, de cuidado, de presença! E se vivemos a crise e a provação, se precisamos de sobriedade – eis que o Sumo Pontífice nos diz que a atenção e o cuidado, o exemplo e a experiência são exigências para os cristãos. «Para Deus não somos números; somos importantes, antes somos o que Ele tem de mais importante; apesar de pecadores, somos aquilo que Lhe está mais a peito». Estas reflexões são especialmente oportunas no momento em que agradecemos a D. Manuel Clemente o extraordinário testemunho que deu na cidade do Porto e a muita esperança e alegria como é recebido na chegada como novo Patriarca de Lisboa. Todos temos a ganhar numa partilha de compromisso e de tomada de consciência de que a crise que vivemos exige respostas determinadas, em nome da verdade e da justiça.


Guilherme d'Oliveira Martins

MORREU JOSÉ ENES (1924-2013)

 

Professor José Enes

 

Morreu esta quinta-feira em Lisboa José Enes, o primeiro reitor da Universidade dos Açores (UAç).
 
José Enes Pereira Cardoso tinha 89 anos e era natural das Lajes do Pico. Era considerado um grande pensador açoriano e um dos mais importantes filósofos portugueses do Século XX.

A vida pública e a obra escrita de José Enes – o mais importante pensador açoriano posterior a Antero de Quental e Teófilo Braga e um dos mais importantes filósofos portugueses do século XX, de formação em escolástica tomista na Universidade Gregoriana de Roma (1945-1950 e 1964-1966), professor da Universidade Católica Portuguesa entre 1968 e 1973, e, a partir de 1976, professor e primeiro reitor da Universidade dos Açores, jubilando-se como vice-reitor da Universidade Aberta (1992-1994) – têm sido atravessadas por três explícitas paixões: a Poesia, os Açores e a Filosofia.

Das três, a Poesia, no campo da prática versatória, esgotou-se em 1960, com a publicação de Água do Céu e do Mar, seu único livro de poemas, e, no campo da crítica literária e da teoria da arte, em 1964/65, com a publicação de A Autonomia da Arte. Neste mesmo ano, José Enes troca os Açores, onde, desde 1953, fora professor no Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, por Lisboa, partindo depois para «Roma a preparar a tese de doutoramento», investigando na «Itália, Canadá e Estados Unidos». Em 1969, publica a tese de doutoramento, intitulada À Porta do Ser, defendida no ano anterior e agraciada com medalha de ouro e distinção Summa cum laude. José Enes publicou sete livros em cerca de meio século de escrita – a média de um livro de sete em sete anos. Se considerarmos exclusivamente os livros de filosofia, o primeiro de 1965, A Autonomia da Arte, o último de 1999, Noeticidade e Ontologia, reduzem-se a cinco, uma média de um livro por década. Com exclusão do primeiro livro de filosofia, versando sobre a Arte e a Moral, os restantes quatro, no seu todo e na sua essência, podem ser reduzidos a um só, À Porta do Ser, de 1969. Deste modo, se excluirmos A Autonomia da Arte, livro em que, devido à metodologia historicista empregue, certamente o autor não se reconhecerá hoje, José Enes é o único autor português do século XX cujo pensamento se reduz a um só livro – e livro que revolucionou radicalmente o pensamento filosófico religioso institucional português, fortemente centrado, até à década de 60, ora num tomismo puro e duro, ora num tomismo beijado pela fenomenologia, ora num tateamento teórico de procura de novos horizontes sem assunção de teoria substituta. Neste sentido, À Porta do Ser estatui-se como a tese de doutoramento mais importante do século XX no campo da filosofia, tanto revolucionando a linguagem tomista quanto mantendo-se-lhe fiel, culminando-se assim, em 1969, com a sua publicação, a deriva teórica desta corrente filosófica em Portugal ao longo das décadas de 50 e 60. Efeito da sua sombra poderosa, desde então nenhum livro importante de filosofia tomista foi publicado em Portugal por autor português.

Face ao pensamento português do século XX como um todo, os estudos de José Enes – ainda que fortemente individualizados, prosseguidos entre os Açores, Lisboa e Roma – devem ser integrados na revitalização do pensamento tomista, desde a sua refundação por Martins Capela, Fernandes Santana e os padres fundadores da Brotéria em 1902. À Porta do Ser corresponde à e culmina a primeira crise desta doutrina filosófica após a fundação da Revista Portuguesa de Filosofia, em 1945, pressionada, ao longo da década de 50, seja pelas ontologias existenciais e personalistas, seja pela fenomenologia husserliana. Publicado em 1969, cruzando e sintetizando estas duas últimas inspirações com a ossatura sistemática do tomismo, À Porta do Ser emerge como o cúmulo desta tradição de quase 100 anos, refundando o tomismo através da abertura a um novo horizonte interrogativo, para o qual muito contribuiu a inspiração da hermenêutica do «segundo» Heidegger.

Miguel Real

COM HISTÓRIA E COM MISTÉRIO…

 

Minha tão linda Princesa de mim:

 

Neste ano em que talvez me morra, nesta manhã tão cheia de sol amigo, vejo as primeiras andorinhas de uma primavera que tardou. Estou deitado, pedi que me abrissem as largas janelas do quarto, para te escrever à luz firme de um novo dia cheio de promessas. Sinto a tua mão ausente quentinha na minha. Há quantos anos me disseste, num aconchego assim, que eras a Violaine de "L´Annonce faite à Marie"? E porque seria que te senti então como te sinto agora? Porque percebi  -  ou não percebi de todo, não sei, meu querido amor, não sei nada do mistério das almas delicadas  - que eras a Violaine que, a Mara, que lhe perguntara: "Violaine c´est mal! as tu peur que nous te touchions? Pourquoi nous traites tu ainsi comme des lépreux?" respondia:"  - J´ai fait un voeu... ...Que nul ne me touche. " E porque te ofereci eu então, do mesmo Claudel de que até nem gosto muito, em edição do "Livre de Poche", "Le Soulier de Satin?" Seria o cetim dos teus passos? O silêncio generoso com que me entraste na vida? Uma adivinha de mim? Fui eu quem te escreveu assim: "Dá-me versos,dá-me flores / Põe-nos no meu coração... / E no dia em que lá fores / À campa dos meus amores / Enfeita-a pela tua mão... / Dá-me sorrisos e vinho /  E o fundo do teu olhar... / Vem até mim de mansinho / E verás como adivinho / Os passos do teu andar... / E quantas estrelas tiveres / Guarda-as bem na tua mão: / Que na hora em que vieres / Nessa noite que escolheres / Te veja meu coração!" Será assim ? Volto a Paul Claudel, e medito: "L´ombre m´atteint, mon jour terrestre diminue. / Le passé est passé et l´avenir n´est plus." Cobre-me a sombra, diminui-me a vida. O passado passou e o porvir não ficou. Estou só. Sorrio lendo as duas citações com que Claudel apresenta o seu "Sapato de Cetim": "Deus escreve direito por linhas tortas" (provérbio português); e "Etiam peccata" (Sto. Agostinho). Repetem-se os pecados, mas Deus vai escrevendo... E eu também escrevo, aqui deitado. Pouco mais posso ou sei fazer. Já nem me lembro das minhas longas caminhadas, dos passeios que dava, em passos perdidos que eu não contava para que não tivessem fim. Eram a minha liberdade, o ritmo do meu silêncio ininterrupto. A minha comunhão. O modo de ser eu e estar com tudo, uma procura física da paz. Abria-me ao vento, à chuva, ao sol, enchia-me de ar e mar, tornava enorme a minha pequenez. Era soprado, sentia-me pertencer à vida. Hoje, só numa qualquer peregrinação interior de mim que de mim me tire eu poderei talvez reencontrar essa liberdade de ser,essa paz que é a harmonia de mim com, de mim e... Mas sou tão feio, meu amor, sei que sou horrivelmente feio, tão desamparadamente só! Não tenho alibis, não os gosto, nem os procuro... O inferno de Sartre nunca existiu, o inferno não são os outros, é cada um de nós. Somos nós na prisão de nós mesmos. É a solidão essencial. Assim penso e muitas vezes o disse. Ontem, antes de me recolher, percorri estantes de livros que, ao longo de tantos anos, se foram depositando nesta casa. Entre outros, peguei no "Vaste Monde, Ma Paroisse" do frei Ivo Congar, título que glosa o britânico John Wesley: "I look upon the World as my Parish". Empurrado por uma curiosidade infantil, reli o capítulo "L´Enfer existe, mais il n´est pas celui des diablotins cornus". E a certo passo: "A ontologia do céu é o amor, a comunhão e a acção de graças; a da terra é a possibilidade de livre decisão, é a fé e a esperança, a possibilidade de tudo correr melhor amanhã, a possibilidade da conversão. A ontologia do inferno é a permanência numa vida destituída de significado e esperança. Uma vez mais, Dostoïevsky tem sobre tudo isso páginas de extraordinária profundidade". E cita passos das reflexões do monge Zózimo em "Os Irmãos Karamazov": " O que é o inferno? É o sofrimento de já não poder amar. Uma vez só, na vida infinita que não podemos medir, nem no tempo nem no espaço, foi dada a um ser espiritual, pelo facto de ter aparecido cá em baixo, a possibilidade de dizer : Sou e amo! Uma vez, apenas uma vez, lhe foi dado um instante de amor ativo e vivo, e para isso lhe foi dada a vida terrestre nos seus limites temporais..." "How do I love thee? Let me count the ways. / I love thee to the depth and breadth and height / My soul can reach, when feeling out of sight / For the ends of Being and Ideal Grace." Assim começa um dos "Sonnets from the Portuguese", que Elizabeth Barret Browning escreveu a Robert Browning, seu marido. O próprio título da colectânea ("Sonetos da Portuguesa") é uma referência à autora: Robert chamava carinhosamente a Elizabeth "my little Portuguese", desde que lera o seu poema "Catarina to Camoens". É imenso esse amar assim, com a profundidade, a largueza, a altitude a que a alma pode chegar, até aos confins do Ser e da Graça... John sobreviveu 28 anos a Elizabeth e nunca mais se casou. Usava dizer que tinha o coração em Florença, enterrado com ela. Amou-a sempre. Ainda hoje se amam. No seu "L´amour humain" que as "Éditions Montaigne" publicaram em 1948, o académico Jean Guitton defende que três grandes temas definiram o amor no decurso da História: o platónico, o salomónico e "Tristão". A análise que faz do amor expresso por heróis e heroínas da literatura europeia, a que chama romântico ou romanesco, é a do amor apaixonado e transgressor, cuja genealogia, como apontou Denis de Rougemont (em "L´Amour et l´Occident") se enraíza no mito medievo de Tristão e Isolda. Tem muita erudição, revela um extenso e sólido conhecimento da filosofia e literatura ocidentais. Peca, a meu ver, por alguma precipitação moralizadora... Pela mesma preocupação com chegar depressa ao santuário, Guitton, cotejando "O Banquete" com o "Cântico dos Cânticos", lhes vai empurrando o desenvolvimento até à epístola aos Efésios, em que S. Paulo afirma que o amor humano comunga no mistério do amor de Cristo e da Igreja, de Deus e dos homens. Mas diz bem quando observa que "Platão não se interessa tanto pelo amor como pelas vibrações que o amor produz, na alma, ao socorro que o fervor oferece às aspirações do espírito. O amor é o meio do êxtase, uma espécie de intermediário, ou, como ele diz, um "demónio" que assegura a subida para o inteligível. Nessa perspetiva, ser amado não é senão uma ocasião e um excitante com vista a atingir um contentamento onde já não é necessário que permaneça, onde isso até é inoportuno, porque a sua experiência sensível viria perturbar o êxtase. É uma centelha que suscita um fogo que depois se sustenta de si próprio. Compreende-se que Platão não tivesse dado grande atenção à qualidade do indivíduo que vai suscitar o amor. O ser amado só existe para ser incessantemente ultrapassado; e se chamamos dialéctica a um processo que só atinge para ultrapassar, podemos dizer que o amor platónico é a própria dialéctica: devemos passar do amor dos belos corpos ao das almas belas, do amor das belas almas ao do Bem supremo, que não tem forma..." A menos que, lembrados do verso cruel de Ovídio ("nec sine te nec tecum vivere possum") nos aturemos na terra, conforme as nossas capacidades e circunstâncias. Dizer ao ser amado  -  ou pensar com ele  -  que "nem sem ti nem contigo posso viver" é prova de sabedoria: cá em baixo, o amor-perfeito é uma bela flor. Frágil. O outro, o amor humano, será perfeito quando Deus quiser. Se os amantes deixarem. Ouço o sino meridional da aldeia, lá longe, tocar o "angelus". É uma promessa". Esta foi a última carta de Camilo Maria à sua Princesa. Não estava no maço que esta entregou com o pedido de algum expurgo e publicação, que tenho respeitado e levarei a termo. O Marquês de Sarolea escrevia muito, comunicava mesmo quando não enviava os seus escritos. Tenho aqui muitas cartas que a Princesa não terá lido. A que acima traduzi, lia-a ela ainda anos depois da morte do remetente. Apanharam-na, do seu regaço, as criadas que, ao levarem-lhe o chá, a encontraram, direita na sua cadeira de braços, serenamente morta, em florida tarde de primavera.

  

Camilo Martins de Oliveira

Baudelaire: no fundo do desconhecido, rio acima.

 

 

Num estudo efectuado à poesia francesa do sec. XIX, Gaétan Picon, critico de arte e ensaísta, afirma que a obra de Baudelaire não é uma obra poética entre outras; é uma revolução (…) o ano de As flores do Mal – 1857 – inaugura uma época: a nossa, ainda.

 

Julgo que pelas experiências dolorosas, pelas confissões pessoais , pela prece a Deus que prove que ele, Baudelaire, não é inferior àqueles que despreza, As Flores do Mal aproxima Mon coeur Mis à Nu onde coloca toda a sua religião a que chama de sentir travestido.

 

Fernando Pessoa, Edgar Poe e Charles Baudelaire exprimem a sua natureza espiritual pegando na mão sofrida no domínio da vida terrena de cada um e sujeitam-na ao talhe.

 

Baudelaire, como é sabido, é tido por uma grande parte dos críticos como o fundador da moderna poesia, e no sec. XIX aprende-se com ele o quanto através dos sentidos nos surge nua a realidade concreta.

 

Abro a página do livro O Meu Coração A Nu  e no XI

 

Só os salteadores estão convencidos, - de quê ? – De que têm de vencer. Assim vencem.

 

Porque venceria eu, pois nem sequer sinto vontade de experimentar?

 

E no XII

 

Sentimento de solitude, desde a minha infância. Apesar da família, e no meio dos camaradas, sobretudo, - sentimento de destino eternamente solitário.

 

E em XXXV

 

O que há de enfadonho no amor é que é um crime em que não pode passar-se sem um cúmplice.

 

E  XLV

 

O que é o amor?

 

A necessidade de sair dentro de si.

 

Os apontamentos breves e sinceros de O Meu Coração a Nu tornam-se de extrema pertinência para o entendimento da obra de Baudelaire. Julgo que só assim se entenderá em plenitude a sua afirmação:

 

O Homem que fez a sua oração, à noite, é um capitão que coloca sentinelas. Pode dormir.

 

Diria que os génios só o são se não forem deveras entendidos, nomeadamente por outros que, do mesmo oficio, preferem sentir desprezo ou calar o que ainda que inconscientemente sentem ser-lhes superior.

 

Das oficinas do que observo, também  concordo que

 

O público é relativamente ao génio

 

Um relógio que se atrasa.

 

É preciso, portanto, apressar-nos lentamente.

 

Digo e assim sugiro este livro precedido de Fogachos numa edição da Guimarães Editores – edição do centenário 1899-1999.

 

 

Teresa Vieira

Julho 2013

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