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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FERNANDO AMADO INVENTOR/CRIADOR DE GÉNEROS TEATRAIS

Passamos novamente em revista o conjunto das peças de Fernando Amado, vinte e duas no total, sendo que uma delas “O Homem-Metal”, de influência futurista, é dada como desaparecida.

 

Mas interessa-nos agora verificar como, ao longo de dezenas de textos escritos, representados e/ou publicados ao longo de dezenas de anos, Fernando Amado, percorreu e, mais do que isso, assumiu expressões dramáticas diversas; e, mais do que isso ainda, criou para elas uma estética e uma nomenclatura extremamente expressiva e original. Aliás, em artigo anterior, já falei no “Debucho” teatral “Sua Excelência já não Atende Ninguém” representada em 1961.

 

Ora bem: de acordo com a edição da INCM que temos acompanhado, foram sete os debuchos teatrais de Fernando Amado: peças breves, concisas e diretas no conteúdo, como sempre enriquecido, na obra do autor (e não só no teatro) por uma visão ética e social do conflito, das psicologias e condutas: e tudo, repita-se, numa expressão dramática breve, concisa e direta.


Mas não foi só aqui que Fernando Amado inovou na qualificação das peças. Para lá de alguns textos sem qualificação, e para lá de um longo Debucho inteiramente monologado e como tal também qualificado, encontramos na obra teatral de Fernando Amado mais duas Comédias, um Ensaio de Diálogo, dois Mistérios, um Entremez, um Sainete e ainda um Capricho Teatral…

 

E nem de propósito: esse Capricho é nada menos do que “A Caixa de Pandora”, já aqui referenciada e analisada: e trata-se, como posso recordar, de uma peça em um ato, que mistura personagens de épocas e referencias culturais diversas, pondo-as em diálogo com o Publico, o Autor, o Critico e o Empresário - num texto dramático antecedido de um Prólogo “lido pelo autor” e, na edição, de detalhadíssimas notas de cena e de interpretação textual, como na altura própria se viu.

 

Mas vejamos agora o texto dramático mais original, pelo menos em certos aspetos, de Fernando Amado, precisamente o único que o autor qualifica como Sainete.

 

“Novo Mundo” (1947) passa-se nos EUA, ou melhor ainda, “no hall típico de uma estalagem do Faroeste”, assim mesmo, minuciosamente descrita.

 

E os personagens são dignos de um filme de cowboys ou “cóbois” como muito se dizia na época:
 

“Um magnífico Vaqueiro, de trajes reluzentes, lenço ao pescoço, coldre, esporas, sorri, amarfanhando entre os dedos um imenso chapéu. Junto dele, uma robusta Amazona, de cação, chibata e polainas”. Mas “do lado oposto, o clássico businessmen, corpulento, cabelo grisalho, charuto ao canto da boca e pés em cima da mesa. Por trás do balcão, um homem ainda jovem, a lembrar caixeiro de loja fina ou empregado superior de algum ministério, observa atento, queixo entre as mãos”…

 

E o texto assume uma irónica e inesperada ambiguidade: parte de um diálogo típico de filme do Faroeste, mas resvala para a escolha de intérpretes para uma produção. E por isso, gera-se um curioso ambiente ambíguo, pois afinal, perante o Milionário que os escolhe e Jim que o apoia, passam personagens que tanto parecem reais como fictícios, tanto verídicos como pretendentes à produção: Índio, Rei da Industria, Sufragista, Mulher Fatal, Gangster, Estrela Loira, Fred, Pastor Reformista, Dactilógrafa, 4 Jornalistas, Fotógrafo… Onde começa e onde acaba a realidade?

 

E no final, conclui o Milionário: “O que importa, afinal de contas, não são os devaneios. É a prática. É a corporação da ideia. O que importa é ir para diante - com otimismo, com rudeza, com audácia”…

 


DUARTE IVO CRUZ