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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

O MUSEU DO PRADO E PORTUGAL

 

A imprensa portuguesa deu o merecido relevo à assinatura em Lisboa, no dia 9 de Setembro, de um acordo entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu do Prado. Acordo histórico, como bem definiu António Filipe Pimentel, director do MNAA, pelo qual as duas instituições permutarão exposições e emprestarão reciprocamente peças dos respectivos acervos -  excelente iniciativa  que seria muito desejável que frutificasse e se estendesse a outros campos da vida cultural dos dois países.

 

A este propósito, vale a pena recordar o papel fundamental que uma princesa portuguesa teve na fundação daquele que é indubitavelmente um dos principais museus do mundo inteiro, pela qualidade das suas obras e pelo número de visitantes, que em 2012 somaram 2,9 milhões.

 

Conforme referido no portal do museu, apesar de construído em 1795 para acolher um Gabinete de Ciências Naturais, sendo rei Carlos III, o destino final do edifício só ficou definitivamente estabelecido no reinado de seu neto, Fernando VII, por inspiração de sua mulher, a rainha Maria Isabel de Bragança, que pôs neste projecto todo o seu empenho.

 

A infanta D. Maria Isabel, filha de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, que nasceu em Queluz em 1797, teve o seu casamento ajustado em 1815 com o rei Fernando VII de Espanha, juntamente com o de sua irmã D. Maria Francisca com D. Carlos Maria Isidro de Borbón, irmão do monarca, cujas posteriores pretensões à Coroa espanhola viriam a causar as Guerras Carlistas.

 

Encontrando-se na ocasião a Coroa portuguesa instalada no Rio de Janeiro, as duas infantas navegaram em 1816 até Cádiz, em cuja catedral foi celebrado o casamento, sendo os noivos representados pelo duque do Infantado. E logo seguiram para Madrid, onde rectificaram  o seu matrimónio na Igreja de São Francisco o Grande, vizinha do Palácio Real.

 

Começava então uma vida de extrema infelicidade para a jovem rainha, devido à vida devassa de seu marido, completamente desinteressado pela sua mulher,  e também ao sentimento geral que fora criado a seu respeito, devido à sua nula beleza física e à falta de dote que fosse engordar os régios cofres. “Fea, pobre y portuguesa, chúpate esa”, dizia-se em Madrid.

 

Para dissipar as suas mágoas, a rainha ocupou-se então na protecção das artes e dos artistas e na criação do Museu do Prado, enquanto escrevia um diário íntimo recheado de amargura e de melancolia e umas cartas queixosas a sua mãe,  que nas suas respostas pouco a consolava, concluindo sempre com as palavras “a resignação é a divisa dos santos”.

 

Mas pouco durou o sofrimento de D. Maria Isabel, por motivo de uma gravidez mal sucedida, que pôs termo à sua vida aos 21 anos de idade. Demasiado cedo para poder assistir à inauguração do museu que lhe ficou a dever a sua fundação, o que só viria a acontecer em 1819, quase um ano após a sua morte.



MÁRIO QUARTIN GRAÇA