Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RUMORES...

 

Meu Caro José:

Pensamos,vezes sem conta, uma coisa e sentimos outra...ou, pelo menos, isso pretendemos e afirmamos. Quando o António Damásio demonstrou que o pensamento é também emoção, ocorreu-me que não seria disparate dizer pensossinto, sobretudo ao referir-me a coisas mais intimamente percebidas. Tanto quanto as percebemos, pois a mesma palavra "coisa" diz muito e coisíssima nenhuma... Assim andou o José às voltas com o apelido do autor do livro que Ricardo Reis se esquecera de devolver à biblioteca do Highland Brigade, o vapor da Mala Real que o trouxera do Rio a Lisboa:  Herbert Quain ,irlandês, chamara "The god of the labyrinth" ao livro para o qual "o tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído,um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial"... Mas fica-lhe a bulir como pergunta simples e difícil ,no labirinto de si, essa de aquele autor deconhecido se chamar Quain: "o nome,esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem,escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem.". Pensassente bem, José, Quem é labiríntico, essa intuição de nós que em nós nos perderá, a menos que outra interrogação nos transcenda. Como essa que Ricardo Reis encontra com inacabados versos seus: "Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser." Olhe, José: eu cá só tenho homónimos, porque os heterónimos dão muito mais trabalho, e nem por isso disfarçam. Não fugimos a Quem. Nascemos com ele, com ele vivemos e morremos. É inalienável, intransmissível. É este quem que pensassente e está e o Quem é. Espinoza intuiu bem a essência ontológica, o Ser tudo em todos. Como os grandes místicos. Os livros da colecção "Poesia" da Ática  -  que eu comprava nos anos 50, e onde me encontrei com o universo de Pessoa, Sá-Carneiro, Sebastião da Gama, Nemésio ,Sophia, Carlos Queiroz, Pessanha...  ---  abriam todos com essa citação de Novalis que, creio, foi sugerida pelo Luiz de Montalvor: "A Poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro." Hoje, hoje para mim, para si não há nem hoje, nem ontem, nem amanhã, como o D.Sebastião do Pessoa, deixou cá o seu " ser que houve, não o que há "... Para mim, que ainda estou, pouco importam as fórmulas das "coisas"... Artífices, tudo formulamos. Menos esse impossível de dizer, que é uma imagem que, como a memória de Platão, inexoravelmente carregamos. Que, dolorosamente ou com feroz alegria, sentimos com gratidão ou raiva, mas a que não escapamos. Quiçá por ser fruto do pensarsentir, acolhemos a poesia, como a música, universalmente, expressão misteriosa do indizível em nós. Encontro-me muitas vezes consigo, quando, lendo-o, sinto um toque de graça que me atinge, uma visão que me encanta. Termino esta carta, agradecendo-lhe este trecho da História do Cerco de Lisboa": "Trago-lhe aqui as provas ,como combinámos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer, à passagem, agora está sentada à secretária, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu: Não vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, tão perto dela está que pode ver-lhe o coração suavíssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do íntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer até a poetas medíocres,O íntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que não se acredite, o roçar inefável das pétalas, ou teria sido o roçar da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem de imaginar." Deus já teve piedade de si, José. Tenha de mim também e de todos os que, por cá, procuram porto, como Cristo, na agonia e na esperança. E a todos nós ajude a estar atentos ao "íntimo rumor que abre as rosas"...

Camilo Martins de Oliveira