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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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UM DIA ESPECIAL COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES



27 de outubro de 2013.

 

Um dia António Lobo Antunes é uma obrigação perante os leitores. Ao lançarmos esta iniciativa, o CCB e o CNC representamos os leitores – homenageando também o cidadão. Júlio Pomar representou-o como descobridor do mundo e das pessoas. E que é o prazer da leitura senão o gosto pela vida?

 

«Se tivesse de escolher três livros, não tinha dúvidas nenhumas: Emílio e os Detetives, Aventuras de Dona Redonda, Proezas e Tropelias de Sebastião Tobias. Li-os dúzias de vezes com um prazer que jamais tornou a repetir-se…». António Lobo Antunes é um ávido revelador do que a vida sistematicamente esconde. Pode parecer paradoxal, mas é isso que encontramos na escrita do autor que vai ao encontro dos outros, da realidade que o cerca, da permanente coexistência de contradições, de desencontros, mas também de convergências. Perante os acontecimentos, o romancista recorda, invoca, interpreta, aventura-se. E é, insisto, o cidadão que quero invocar. E vêm à memória amigos desaparecidos, mas bem presentes, como José Cardoso Pires e Ernesto Melo Antunes. São escolhas que envolvem ternura, generosidade e exemplo. António Lobo Antunes dá testemunho de uma vida em que há uma busca permanente de significado. Tem razão Harold Bloom quando diz que estamos perante «one of the living writers who will matter most» - George Steiner coloca-o entre os herdeiros de Conrad e Faulkner. Nenhuma destas considerações decorre do acaso. Provêm de um trabalho intenso de pensamento e de escrita, de conhecimento e compreensão. Lemo-lo e as suas palavras e ideias são, a um tempo, inusitadas e permanentes, obscuras e luminosas. António disse-nos: «Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos». Esta é a chave da literatura. E o encontro com um grande escritor tem a ver com essa procura de nós mesmos. Mas à generosidade de António Lobo Antunes, de quem só tenho recebido gestos que não mereço, corresponde uma grande exigência, que muitos confundem com distância. E nestes tempos de incerteza e de crise é fundamental ouvir esses sinais de severa determinação e de incapacidade de conceder uma polegada que seja à facilidade. Dele tenho ouvido tantas vezes e não posso concordar mais: é insuportável aceitar a mediocridade, e ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico»… «Toda a invenção é memória!» - a cultura é essa ligação permanente e indelével entre o lembrar e o criar. E é fundamental que compreendamos essa ligação entre a memória e a criação. Quem somos? Esta a persistente pergunta que encontramos na obra do nosso autor. Se seguirmos a lição de Eduardo Lourenço sobre a importância crítica dos mitos, temos de considerar a obra do autor de «Memória de Elefante» como um revelador fundamental dessa psicanálise mítica do destino português, a partir da singularidade das pessoas e do seu devir. E neste tempo de crises estará talvez aqui a revelação desse estranho enigma deixado pelo maior economista do século XX, Keynes, quando disse que devemos garantir que a economia siga no banco de trás do automóvel da história. António Lobo Antunes ensina-nos que no banco da frente tem estar o humanismo.

 

Guilherme d’Oliveira Martins 

DE MARCENDA A LÍDIA…

 adamastor.JPG

 

Meu Caro José:


A última carta que o seu Ricardo Reis escreve não é carta, nem vai assinada. É um sobrescrito endereçado a Marcenda Sampaio, para a posta restante de Coimbra. Dentro leva, sozinhos, estes versos, de que o José apenas transcreve os dois primeiros:


               "Saudoso já deste verão que vejo,
               Lágrimas para as flores dele emprego
                    Na lembrança invertida
                    De quando hei-de perdê-las.
               Transpostos os portais irreparáveis
               De cada ano,me antecipo a sombra
                    Em que hei de errar, sem flores,
                    No abismo rumoroso.
               E colho a rosa porque a sorte manda.
               Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
                    Antes que com a curva
                    Diurna da ampla terra".


Marcenda é murchante, flor que murcha. É essa menina doente de si mesma, de braço pendente e mão inerte. Descrente da esperança, trava a seiva de um amor nascente e, deste, o viço para sempre se quedará secreta memória. O José foi atrás do gosto classicista de Reis, que assim cria a forma verbal "marcenda" ( de "marceo,-es,-ere,-ui = murchar) , e dali fez um nome de mulher e o deu à contraponto de Lídia. Se, como escreve João Gaspar Simões, "com efeito, é através de Ricardo Reis que Fernando Pessoa se aproxima de si mesmo, de si mesmo como Fernando Pessoa. E Ricardo Reis, no fim de contas, quem descobre Fernando Pessoa a si próprio", a Marcenda de José Saramago descobre-nos o namoro de Fernando e Ofélia... Mas tudo isso é mera conjetura, Marcenda é criação sua, José, tal como a Lídia que se deita com Ricardo Reis não é a musa das odes,a menos que o poeta afinal a ela também diga "Temo, Lídia,o destino. Nada é certo...  /  ...Fora do conhecido é estranho o passo / Que próprio damos." E em mais odes repetirá "Sofro, Lídia, do medo do destino. / Qualquer pequena cousa de onde pode / Brotar uma ordem nova em minha vida, / Lídia, me aterra." Mas esta Lídia, criada de profissão e solteira, anuncia ao homem, que é médico e pessoa de outra condição, a esperança  -  também chamada embaraço  -   que ele lhe fez. E logo lhe corta a ilusão de poder ou querer fugir do que  -  a ela,mais do que a ele, pois é desamparada e de humilde condição  -  lhe mudará o destino e a vida: " Lídia mete-se adiante e responde,Vou deixar vir o menino. Então, pela primeira vez, Ricardo Reis sente um dedo tocar-lhe o coração...   ...Que é um embrião de dez dias, pergunta mentalmente Ricardo Reis a si mesmo, e não tem resposta para dar, em toda a sua vida de médico nunca aconteceu ter diante dos olhos esse minúsculo processo de multiplicação celular, do que os livros ao acaso lhe mostraram não conservou memória, e aqui não pode ver mais do que esta mulher calada e séria...   ... Puxou-a para si, e ela veio como quem enfim se protege do mundo, de repente corada, de repente feliz, perguntando como uma noiva tímida, ainda é tempo delas, Não ficou zangado comigo, Que ideia a tua,por que motivo iria eu zangar-me, e estas palavras não são sinceras,justamente nesta altura se está formando uma grande cólera dentro de Ricardo Reis, Meti-me em grande sarilho, pensa ele, se ela não faz o aborto fico para aqui com um filho às costas, terei de o perfilhar, é minha obrigação moral, que chatice, nunca esperei que viesse a acontecer-me uma destas. Lídia aconchegou-se melhor, quer que ele a abrace com força, por nada, só pelo bem que sabe, e diz as incríveis palavras, simplesmente, sem nenhuma ênfase particular, Se não quiser perfilhar o menino não faz mal, fica sendo filho de pai incógnito,como eu. Os olhos de Ricardo Reis encheram-se de lágrimas, umas de vergonha, outras de piedade, distinga-as quem puder, num impulso, enfim, sincero, abraçou-a, e beijou-a, imagine-se, beijou-a muito, na boca, aliviado daquele grande peso, na vida há momentos assim,julgamos que está uma paixão a expandir-se e é só o desafogo da gratidão." Conjeturando ainda, pergunto-me  ---  pergunto-lhe, a si, talvez o José, desde esse assento etéreo, me responda  -  que mais teria feito Ricardo Reis, se Fernando não o tivesse vindo buscar para donde não se regressa tão cedo... Sei, posto que o afirma, que o médico-poeta assentiu que devia ter ficado à espera de Lídia, ali no Alto de Santa Catarina, para a consolar da perda do irmão marinheiro, o próprio Pessoa lho diz. Mas acha, afinal, que não poderia valer-lhe, a ela que dele tantas vezes cuidou. Mais sei que, ao ouvir o som dos canhões que atiravam contra o navio Afonso de Albuquerque, ele vai correndo por Lisboa, na ânsia de poder ser de algum préstimo no eventual salvamento do irmão de Lídia. E que a procura no Hotel Bragança, onde ela é serviçal, a ver se poderá oferecer-lhe apoio e conforto. Não a encontra, mas algo terá já mudado nesse monárquico, antigo aluno dos jesuítas, hoje cético dos deuses todos, que o seu neopaganismo situa num olimpo distante dos homens e onde "há só noite lá fora". O Ricardo que pensa que "sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo", e assim se considera, sairá afinal ao encontro do outro, desse desconhecido irmão da mulher humilde que quiçá o converteu à misteriosa capacidade do amor. Que pena tenho, José Saramago, de que não esteja agora aqui para me contar que caminhos imaginou para esse homem novo.

Camilo Martins de Oliveira