Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins 
de 21 a 27 de outubro de 2013

 

«Portugal, Portugueses: Uma Identidade Nacional» (edição FFMS, 2012), de José Manuel Sobral é uma reflexão sobre o que nos caracteriza, procurando compreender as relações complexas, ditadas por uma história antiga e pela coexistência de múltiplos fatores relevantes. Lançando pistas inovadoras sobre um tema muito tratado, o autor procura perceber o que de novo se desenha no horizonte num país que nos últimos anos se abriu para o exterior, e hoje tem de retirar consequências do que se tem passado.

 

 
Manoel de Oliveira, «Douro Faina Fluvial» (1931).

 

O TEMA DA IDENTIDADE
O tema da identidade nacional é controverso. A sua valorização excessiva acompanha normalmente as situações de fragilidade e a respetiva consolidação acompanha a realização de objetivos comuns. «As identidades nacionais (lembra o autor) têm muitos pontos em comum: um nome próprio coletivo, uma narrativa que articula o passado e o presente, um território controlado ou reivindicado pelos nacionais, uma língua vernácula escrita (…), mitos de origem partilhada, como os de serem descendentes de povos da Antiguidade, etc.». No caso português, o Estado coincide com a nação e a história revela que foi o próprio Estado que precedeu a unidade nacional, construindo-a e consolidando-a. Nos tempos de crise, que atravessamos, torna-se indispensável compreender a identidade como fator de coesão e confiança, e como estímulo às ações comuns. As identidades ameaçadas tornam-se agressivas, enquanto as identidades construtivas tendem a abrir-se às diferenças, incorporando elementos novos, enriquecendo-se pela diversidade, harmonizando o que é próprio e o que é adquirido. Uma história multissecular reserva-nos múltiplos elementos, que devem ser lembrados. Houve tempos em que o transporte e a mundialização nos deram recursos excedentários: as descobertas, o caminho da Índia, o ouro do Brasil, as emigrações, o volfrâmio na 2ª guerra, os fundos europeus. Outros momentos levaram ao endividamento (a ponto de Armindo Monteiro ter dito que nos dois últimos séculos a história das Finanças Públicas foi a da dívida pública), bem como à necessidade de negociações com os credores externos (como o convénio de 1902, para não falar de troikas e exemplos recentes). Essa sombra chega aos nossos dias. Fontes Pereira de Melo apostou nos melhoramentos materiais para nos aproximar do progresso europeu – e o crédito barato fez regressar nos nossos dias o mesmo tema.
Os nove séculos de história portuguesa dizem-nos que os tempos mais difíceis foram aqueles em que encontramos respostas positivas, enquanto os de euforia nos levaram além da nossa capacidade e dos recursos disponíveis. Se Nicolau Clenardo achava que os portugueses tinham desamor ao trabalho, João de Barros exaltava a capacidade de arrostar trabalhos e afrontar perigos, fome e sede, as malícias e as traições. Alexandre Herculano, em nome da inteligência liberal, afirmou que foi a vontade que construiu o Estado primeiro e a Nação depois, sem ser necessário ir aos ancestrais lusitanos e à antiguidade remota. «Ser português é reconhecer-se como parte de um coletivo que não se sobrepõe, antes coexiste com todas (…) as diferenças e os conflitos que lhe são inerentes». E o autor recorda, e bem, a distinção entre a ideia de que as nações são divisões naturais entre os grupos humanos e a consideração dos afetos e da exaltação do que é próprio, da sua autonomia e dos seus interesses. Para além disso, apresenta o caráter histórico da identidade nacional portuguesa, interroga a sua genealogia, mostra as ligações entre o passado e o presente e entre «criações, continuidades e recriações». E assim verificamos que a maioria absoluta dos nossos compatriotas tem orgulho em ser português e valoriza a língua, a história, a arte e a literatura e o desporto…

 

UM IMAGINÁRIO CULTIVADO
O imaginário cultivado no último século, desde a crise do Ultimatum (1890) ao nacionalismo do Estado Novo, passando pela afirmação patriótica republicana, valorizou a dimensão nacional. A trilogia democracia, desenvolvimento e descolonização do pós-1974 e a ligação entre liberdade e Europa do regime constitucional de 1976 puseram a tónica no cosmopolitismo, pela coexistência de elementos diversos e contraditórios, a merecerem especial atenção por parte de José Manuel Sobral, que recusa simplificações e procura compreender os veios de continuidade e de descontinuidade, de coesão e de fragmentação. O projeto «Europa connosco» permitiu dar à democracia um desígnio novo e catalisador, após o trauma da descolonização (leia-se António Lobo Antunes ou Dulce Maria Cardoso). Não por acaso, Francisco Lucas Pires invocou D. Pedro das Sete Partidas como símbolo do novo tempo – um europeu marcante na abertura de Portugal ao mundo, num tempo de regresso ao cais de partida e chegada. Depois, houve o conceito de lusofonia (e a criação da CPLP), com leituras contraditórias, bem evidentes no sobressalto nacional que acompanhou a independência de Timor-Leste ou no apelo de António Tabucchi em relação às exigências de um mundo aberto. Através de uma leitura atenta deste pequeno e útil livro, percebemos que a identidade e o cosmopolitismo se encontram e desencontram. E a história antiga leva a que recordemos a ciclotimia entre as glórias e as dificuldades presentes, entre ascensão e queda, entre progresso e decadência. A nossa identidade engloba tudo isso. José Mattoso deu-nos uma chave que permite conceber uma identidade nacional complexa e disponível. Eduardo Lourenço disse-nos que não somos melhores nem piores do que outros, falando de «maravilhosa imperfeição» e relativizando a tentação de uma super-identidade - «Portugal não espera o Messias, o Messias é o seu próprio passado, convertido na mais consistente e obsessiva referência do seu presente, podendo substituir-se-lhe nos momentos de maior dúvida sobre si ou constituindo até o horizonte mítico do seu futuro» (veja-se «A Europa ou as Duas Razões»). E a «Chave dos Profetas» de Vieira diz-nos, além do mais, que o Quinto Império não deve ser de um povo ou de um rei. E Fernando Pessoa tem a capacidade de ver de dentro e de fora, abarcando o mito na sua heterogeneidade: «a poucas nações se aplicaria tão bem, como a Portugal, a imagem do navio-nação e melhor ainda a de “nação-navio”, pela identidade de destino e o projeto que encarnou» (E. Lourenço). E quando relemos Orlando Ribeiro, percebemos que a diversidade está no nosso código genético, mais do que a capacidade de adaptação, como tem alertado Manuel Clemente. E, quando voltamos a Jorge Dias, ou relembramos José Leite de Vasconcelos, percebemos que um longo caminho foi percorrido e que, apesar da força das raízes, o contacto com a Europa e o mundo mudou-nos e está a mudar-nos profundamente. Leia-se com atenção «Portugal, Portugueses». No momento em que tanto se fala de reforma de Estado, perceba-se que ninguém entenderá o sentido de uma mudança se não considerar as interrogações e os alertas que aí estão. António-Pedro Vasconcelos no seu filme «Oxalá» põe o seu herói a tentar compreender o que se passa à volta lendo o «Portugal Contemporâneo». É um aviso aos candidatos a reformadores. É preciso compreender Portugal como nação antiga, com virtudes e defeitos, para saber melhorar.       


Guilherme d’Oliveira Martins

RUMORES...

 

Meu Caro José:

Pensamos,vezes sem conta, uma coisa e sentimos outra...ou, pelo menos, isso pretendemos e afirmamos. Quando o António Damásio demonstrou que o pensamento é também emoção, ocorreu-me que não seria disparate dizer pensossinto, sobretudo ao referir-me a coisas mais intimamente percebidas. Tanto quanto as percebemos, pois a mesma palavra "coisa" diz muito e coisíssima nenhuma... Assim andou o José às voltas com o apelido do autor do livro que Ricardo Reis se esquecera de devolver à biblioteca do Highland Brigade, o vapor da Mala Real que o trouxera do Rio a Lisboa:  Herbert Quain ,irlandês, chamara "The god of the labyrinth" ao livro para o qual "o tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído,um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial"... Mas fica-lhe a bulir como pergunta simples e difícil ,no labirinto de si, essa de aquele autor deconhecido se chamar Quain: "o nome,esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem,escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem.". Pensassente bem, José, Quem é labiríntico, essa intuição de nós que em nós nos perderá, a menos que outra interrogação nos transcenda. Como essa que Ricardo Reis encontra com inacabados versos seus: "Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser." Olhe, José: eu cá só tenho homónimos, porque os heterónimos dão muito mais trabalho, e nem por isso disfarçam. Não fugimos a Quem. Nascemos com ele, com ele vivemos e morremos. É inalienável, intransmissível. É este quem que pensassente e está e o Quem é. Espinoza intuiu bem a essência ontológica, o Ser tudo em todos. Como os grandes místicos. Os livros da colecção "Poesia" da Ática  -  que eu comprava nos anos 50, e onde me encontrei com o universo de Pessoa, Sá-Carneiro, Sebastião da Gama, Nemésio ,Sophia, Carlos Queiroz, Pessanha...  ---  abriam todos com essa citação de Novalis que, creio, foi sugerida pelo Luiz de Montalvor: "A Poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro." Hoje, hoje para mim, para si não há nem hoje, nem ontem, nem amanhã, como o D.Sebastião do Pessoa, deixou cá o seu " ser que houve, não o que há "... Para mim, que ainda estou, pouco importam as fórmulas das "coisas"... Artífices, tudo formulamos. Menos esse impossível de dizer, que é uma imagem que, como a memória de Platão, inexoravelmente carregamos. Que, dolorosamente ou com feroz alegria, sentimos com gratidão ou raiva, mas a que não escapamos. Quiçá por ser fruto do pensarsentir, acolhemos a poesia, como a música, universalmente, expressão misteriosa do indizível em nós. Encontro-me muitas vezes consigo, quando, lendo-o, sinto um toque de graça que me atinge, uma visão que me encanta. Termino esta carta, agradecendo-lhe este trecho da História do Cerco de Lisboa": "Trago-lhe aqui as provas ,como combinámos, disse Raimundo Silva, e a doutora Maria Sara recebeu-as, por assim dizer, à passagem, agora está sentada à secretária, convidou o revisor a que se sentasse, mas ele respondeu: Não vale a pena, e desviou o olhar para a rosa branca, tão perto dela está que pode ver-lhe o coração suavíssimo, e, porque palavra puxa palavra, lembra-se de um verso que em tempos revira, um que falava do íntimo rumor que abre as rosas, pareceu-lhe este um formoso dizer, venturas que podem acontecer até a poetas medíocres,O íntimo rumor que abre as rosas, repetiu consigo mesmo, e ouviu, ainda que não se acredite, o roçar inefável das pétalas, ou teria sido o roçar da manga contra a curva do seio, meu Deus, tende piedade dos homens que vivem de imaginar." Deus já teve piedade de si, José. Tenha de mim também e de todos os que, por cá, procuram porto, como Cristo, na agonia e na esperança. E a todos nós ajude a estar atentos ao "íntimo rumor que abre as rosas"...

Camilo Martins de Oliveira 

Mário Botas

 

Águas correntes de regatos imensos, que não estão no corpo mas na alma e desaguam sempre noutro rio até chegarem àquele a quem os Antigos chamavam Letes... 
Mário Botas

 

Formas triunfam da fluidez e desencadeiam relações reveladoras, vontades próprias. Formas que são afectos e apetites e jogos de deus-criança. Formas que medem mundos interiores como os destinos do questionar, mas guardam-se em opacidades opalinas que desafiam rumos e identidades. Assim o meu atrevimento à compreensão de Mário Botas, um dos mais espantosos pintores do sec.XX.

 

Mário Botas reconhece-se como “um pintor do lado da escrita”, confessando mesmo:

O que pinto gosta de se encontrar com as palavras, sobretudo com as palavras dos outros. Raramente parto de um texto para a imagem, mas quase sempre esta precede aquele

 

Sempre vi, na obra de Mário Botas, uma lança visionária aliada a uma outra, irreversível no levar-lhe a vida por esse doloroso confessar que, a morte jovem, deve ser enfrentada com a  arrogância romântica e lúcida tanto, tanto, quanto tendo por fundo um Nada ou uma insensata Criação.

 

 

Diante da brancura do papel vê Mário Botas a luxúria da beleza e surge-nos que a figura da morte seja feminina na sua pintura e por ela se deslumbrará também.

 

Em 1978 busca este jovem médico em Nova Iorque o tratamento que o poderia salvar. Nesse mesmo ano expõe na Galeria Martin Summers bem como em The Drawing Center.


Pelos dias que correm, o desejo de afirmar a sua presença, vai igualmente antecipando a tragédia, nunca se afastando das urgentes preferências de literaturas como Borges, Blake, Cervantes, Pessoa, Eugénio de Andrade, entre outros. A relação entre o mítico e o histórico, o seguir o seu mestre Paul Klee, o saber desde os 24 anos que sofria de leucemia, irá fazê-lo iniciar o despedir-se das manhãs e das madrugadas e é sob o signo de uma urgência prioritária que se coloca toda a sua obra.

 

 

O artista vai agindo como arqueólogo da alma, plano a plano, sob o seu próprio engenho, que o guia às revelações que desafiam qualquer lei. E tudo lhe vai pertencendo em idealidade, obsessão e insolentes êxtases, genes caprichosos na sua solidão frente às estrelas ou à morte.

 

 

Nenhuma redenção ou futuro lhe é concedido, assim no pássaro, escrevi com os olhos

 

«Toi, qui sur le néant en sais plus que les morts»

                                                            Mallarmé

 

Inconformada, sempre inconformada recordarei Mário Botas e o quanto sempre que cada pilar bascula, os mundos desmoronam

 


Teresa Vieira

Sec XXI (sob os vários e densos véus)

ALMADA E FERNANDO AMADO NA BRASILEIRA DO CHIADO

 

O CNC organizou, no passado dia 13, um itinerário de Almada Negreiros no centro de Lisboa - do Chiado à Ribeira das Naus, onde visitamos o recente monumento evocativo de Almada. “Oradores-guias”, Anísio Franco e eu próprio, para mais de 50 participantes: juntos percorremos uma geografia urbana de evocação da vida, figura e obra de Almada. Foi de facto um itinerário marcante da vida e obra de Almada mas também e sobretudo, da vida artística e cultural de Lisboa, a partir dos anos 20/30.

 

Desde logo, no Largo do Chiado, a Brasileira do Chiado onde se evocou o quadro representando Almada e mais três personagens, sentados no próprio café. Esses quadros foram substituídos em 1971 mas formavam uma galeria de obras notáveis; Almada ele próprio, no curioso autorretrato e em mais duas pinturas, mas também José Pacheko, Bernardo Marques, Eduardo Viana, Jorge Barradas e António Soares, no ambiente que o arquiteto Norte Júnior tinha reconstruido e redecorado.

 

Passamos junto do São Luís, ao tempo denominado Teatro República, onde Almada em 14 de Abril de 1917, lança o chamado Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX que evocará novamente no mês seguinte - “à minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei com um gesto”, e depois pelo São Carlos onde, em 1965, a convite de Amélia Rey Colaço, Almada desenha os cenários e figurinos do Auto da Alma de Gil Vicente, ultima intervenção na área do espetáculo teatral. E evocou-se a reposição, em 1917, do bailado Jardim da Pierrette, no Trindade.

 

Também se evocou o Bristol Clube, na Rua do Jardim do Regedor, decorado com pinturas de Almada, Ernesto Canto, Eduardo Viana, António Soares e Guilherme Filipe, onde Almada situa cenas da peça Deseja-se Mulher (1928), produzindo ainda desenhos de cena que seriam integrados na edição de 1959. A peça foi finalmente representada em 1963 na Casa da Comédia com encenação de Fernando Amado, num espetáculo a que esteve ligado diretamente o CNC.

 

Depois desceu-se a rua do Alecrim, onde Almada viveu uns tempos, e houve ensejo de recordar o romance Nome de Guerra (1938), passado inicialmente num Clube que evoca de certo, ele também o Bristol, mas que termina num quarto alugado de onde o Antunes contempla o Tejo para esquecer a Judite: “A vista era o melhor do quarto. Daquela água furtada seguia-se o Tejo por aí a acima, desde o mar até perder-se á esquerda. (…) Do seu novo quarto, Lisboa parecia ao Antunes uma cidade escondida com as traseiras de fora”…!

 

E a jornada do CNC terminou no recentíssimo monumento a Almada, na Ribeira das Naus, notável síntese evocativa da obra extraordinária de Almada Negreiros, “poeta do Orpheu, futurista e tudo” (Manifesto Anto-Dantas -1915) …!

 

Ao longo deste trajeto, a figura e a evocação de Fernando Amado e também do CNC foram recorrentes. Amado foi um companheiro constante das criações teatrais e culturais de Almada. Os textos recolhidos em À Boca de Cena, que aqui tenho já citado, contêm numerosos diálogos e debates entre o Almada e Fernando Amado.

 

E como já vimos, Amado encenou Almada pelo menos desde 1949 (Antes de Começar - Teatro Estúdio do Salitre). O mesmo texto é reposto no CNC em 1960 e a partir desse ano, Fernando Amado colabora regularmente com o CNC na produção de autores modernistas, com destaque para a encenação de O Marinheiro de Fernando Pessoa, espetáculo que iria mais tarde ao Brasil.

 

Termino pois esta crónica, a que outras se seguirão, com um texto de Fernando Amado em dialogo com Almada Negreiros, que evoca precisamente a Brasileira do Chiado:

 

“É possível que por uma notícia de jornal lida á pressa, algumas das pessoas presentes não tenham uma ideia justa do que vai acontecer esta noite. Haverá quem julgue talvez que vai assistir a duas conferências, uma feita por Almada Negreiros, outra por mim (…) Pensamos vir para esta sala continuar uma conversa - sobre um tema escaldante de poesia e cultura - encetada há pouco a uma mesa da Brasileira do Chiado”…

Norte Júnior haveria de gostar desta evocação, E até Fernando Pessoa, que agora temos sentado á porta da Brasileira!

 

DUARTE IVO CRUZ

UMA NOVA SÉRIE – MEU CARO JOSÉ!

 

 

Meu Caro José Saramago:

Por qualquer razão que me escapa, quando me achei já cansado de traduzir as cartas do Marquês de Sarolea à Princesa de... lembrei-me de si. Talvez por ter caído na tentação de responder post-mortem a Camilo Maria, que me desafiara a telefonar-lhe para o céu... Terei pensado então que, nesse nenhures intemporal, o José (permita-me tratá-lo com uma familiaridade antiga em mim) estaria presente lá em cima, lado a lado, com aquele "reacionário"? Ou, antes,seria pela necessidade de lhe confessar, a si, sentimentos de profunda, eterna (acredita, eterna?) intimidade espiritual? Porque me ocorreu dizer-lhe essas palavras com que o José fala de Fernando Pessoa, "neste preciso instante em que Ricardo Reis, encostado a um candeeiro no alto da Calçada do Combro, lê a oração fúnebre" que, pela morte do seu alter ego, alguém escreveu mas Reis-Saramago diz asim: "Duas palavras sobre o seu trânsito mortal, para ele chegam duas palavras, ou nenhuma, preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito, com ele está bem o que está perto de Deus, mas também não deviam,nem podiam os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza,vê-lo descer à terra,ou antes,subir as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida...  ...lastimamos o homem que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana, somente o homem, é duro dizê-lo, pois ao seu espírito e  seu poder criador, a esses deu-lhes o destino uma estranha formosura, que não morre..." Assim é: nascemos um dia, e connosco, em qualquer de nós, inda que pequeno, breve, talvez feio, essa misteriosa "estranha formosura, que não morre."

 

Vivi quarenta anos  -  trinta deles seguidos  -  fora de Portugal. Por enquanto, ainda não mas quase 50% do tempo deste meu itinerário mortal.  Quando vinha por cá, "esvaziava" livrarias e... pagava excessos de bagagem! O José, entre outros, foi um dos "culpados" desses excessos. Primeiro, com o "Memorial do Convento" que, no avião e em casa, achei interessante mas algo pesadote. Depois, com "O Ano da Morte de Ricardo Reis", que devorei sem dormir.... Até me cheirava a Lisboa, como "El Amor en los Tiempos del Colera" do Garcia Marquez me tinha enchido as narinas, o coração, a pele e os ossos da alma, de Cartagena de las Indias! Adolescente ainda, gastei uns cobres da mesada a comprar os Pessoa na Ática, e trazia no bolso do obrigatório casaco essa edição de uma antologia dos heterónimos, que o Adolfo (veja o José, aí no céu, como até os nomes enganam!) Casais Monteiro tinha publicado com a Agir, no Brasil.. Aos quarenta, dou de caras, graças a si, com o Ricardo Reis, andei com ele pela Lisboa húmida, que transpirava, e nós com ela... Bem haja! Reparo agora que nunca o tratei por V. Exa., nem sequer por Senhor Saramago... Sem mesmo qualquer respeito, sequer,pela progressiva familiarização das formas de tratamento com que o Eça nos vai medindo, em "Os Maias",com os oportunismos do mundo. Trato-o por José, nome respeitável e cristão, em meu entender preferível ao "você" com que nos banalizam. Não digo Senhor José, atenção!, mas José apenas: é bem maior e muito mais bonito! Sabe? Quando adquiri, na livraria Arco-Íris, ali nas Avenidas Novas, o seu "O Ano da Morte de Ricardo Reis", vivia em Scarsdale, no Westchester County, subúrbio de New York. Abri-o em casa, logo que cheguei, lá pelas dez da noite (três da manhã em Lisboa), na cama, para me vir o sono. Fechei-o só a meio do dia seguinte, não dormi, li-o todo! Como se acompanhasse, percorrendo a sua vida de Ricardo Reis, não apenas essa, mas outro percurso interior: aquele em que José Saramago se reconhecia nas "Odes" de Ricardo Reis. Com a mesma perplexidade de uma cidade de Lisboa que, ali, com Ricardo Reis que acaba de chegar do Brasil, num vapor inglês da Mala Real, nasce de um Tejo húmido,cinzento e frio,e o leva no seu coração,em que o tempo pára. Começa assim: "Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro..." E termina quando Fernando Pessoa vem buscar o mais coevo dos seus heterónimos, e o tira do leito e das ilusões, para a noite fria: "Você não trouxe chapéu. Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa. Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera." Chegado a este fim,ocorreu-me essa breve ode de Reis:


             "Aguardo, equânime, o que não conheço ---
             Meu futuro e o de tudo.
             No fim tudo será silêncio,salvo
             Onde o mar banhar nada."


E fico, talvez como o Ricardo Reis do Saramago, que, ao sair, ainda "foi à mesa de cabeceira buscar «The god of the labyrinth», meteu-o debaixo do braço"... nesse (cito o autor das "Odes"):


              "Nesse desassossego que o descanso
              Nos traz às vidas quando só pensamos
              Naquilo que já fomos,
              E há só noite lá fora."
Ricardo chega a Lisboa no princípio de Dezembro de 1935, quando é devolvido à terra o corpo de Fernando, nascido um ano antes dele e que publicara, em 34, o seu único livro em vida: "Mensagem". Aí diz, da vida breve, o que lhe oferece a memória de D. Sebastião, Rei de Portugal:


             "Louco, sim, louco porque quis grandeza
             Qual a sorte não dá.
             Não coube em mim minha certeza;
             Por isso onde o areal está
             Ficou meu ser que houve, não o que há”

 

Na Lisboa invernal e turva Reis-Saramago está entre parênteses, ou entre dois portos: o da chegada,onde o mar acabou; e o da partida, onde Fernando Pessoa o vem buscar. Nem ele nem ninguém sabe qual é a demora, nem experimentou ainda a divisão de quem parte e fica. Desconhece o destino, sabe apenas que há essa "estranha formosura, que não morre"... E porque eu mesmo, muitas vezes, não sei bem separar a angústia da esperança, nem fugir à tentação de estar, ficando, quando uma voz me chama para a loucura de ser, desligando-me do meu temor, penso em si, José, e em onde estará o seu ser "que há". Onde talvez veja como Deus nos vê, e leia, com nova descoberta, esta ode de Ricardo Reis:


             "Para ser grande, sê inteiro: nada
                    Teu exagera ou exclui.
             Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
                     No mínimo que fazes.
             Assim em cada lago a lua toda
                     Brilha, porque alta vive."
   Se achar bem,vou-lhe escrevendo. Gosto de conversar consigo.
 


Camilo Martins de Oliveira

LONDON LETTERS

The fox hunting, 2013




Trinchar um faisão tem a sua arte. Tal qual caçar umas quantas raposas em cima de uma sela requer conhecimentos de mestre, que não apenas a instintiva identificação das pinceladas de Thomas Blinks. — Chérie! Il vaut mieux être cheval que charrette. A negociação das ações do Royal Mail abriu hoje na London Exchange Stock em alta. A privatização da empresa pública de correios que Lady Margaret Thatcher recusara alienar nos 90s é agora, oficialmente, um sucesso de mercado.— The work knows the workman! De regresso está a agitação em torno da caça à raposa. Legalmente banida por crueldade animal há uns anos atrás, o atrevimento da espécie ao longo do Thames sustenta o ecológico argumento do peste control a somar ao de a fox hunting ban se confirmar uma séria ameaça ao estilo de vida no country side. Já os trinchadores mores de Westminster Hall optam por caçar noutras paragens. Mr George Osborne visita a China para captar o investimento de Beijing enquanto Mr David Cameron convida o Presidente de Angola para visita ao United Kingdom.
 


A privatização do correio real suscita ainda comentários em vários quadrantes, nem todos a todo o tempo afáveis. Questiona-se tanto o alcance estratégico da venda quanto a avaliação política do preço da empresa. Depois da reserva de 10% das ações para sossego dos 150,000 assalariados, concluído o veloz processo, verifica-se um encaixe inferior a quatro milhões de euros por ativos como a coroa britânica e a esfinge real visíveis na filatelia da Commonwealth. Capitalismo para todos quanto podem, porém. Adquirir títulos a 330 pences e logo os alienar em bolsa com ganhos da ordem dos 40% revela engenho e traz felicidade aos efémeros investidores.

 

 

No reino debate-se a imigração, ainda sem referências à euro tragédia de Lampedusa além do dictum de Mr Giuseppe Tomasi em Il Gattopardo (1958) quanto ao imperativo em pleno Risorgimento de mudar algo para tudo ficar na mesma. A equação em torno dos new britons apresenta-se sob uma chuva de números, a modos de reality check quando um rude go home soa aqui e além face ao multiculturalismo que quotidianamente transforma esta London numa das mais vibrantes cidades no mundo ou faz do UK um destino de eleição para a formação de todas as almas. Ora, a immigration question tem muito a dissecar quanto aos impactos socioeconómicos e demográfico-fiscais, mas tem em Mrs Thatcher uma referência de estadista quanto àqueles que, por opção, juram lealdade a Her Majesty: — Se é bom para o país é bem-vindo; se não, o contrário.

 

Particularmente feliz, sim, é a atribuição a Mrs Alice Munro do 2013 Nobel Prize in Literature. Ela é a 13.ª mulher a receber a atenção da academia sueca. A escritora de Sowesto, farmland junto ao Lake Erie no Ontario (Canada), é um doce talento nos designados contos overview life, com o quê observador de Ms Marguerite Yourcenar e mesmo a pimenta de Mrs Agatha Christie. Desta descendente de escoceses leia-se “The bear came over the mountain” no último número de The New Yorker, revista cujas páginas enriquece desde que, em 1937, publica o primevo Dance of the Happy Shades. Apenas um extrato para saborear: — A policeman picked her up as she was walking down the middle of the road, blocks away. He asked her name and she answered readily. Then he asked her the name of the Prime Minister. If you don’t know that, young man, you really shouldn’t be in such a responsible job. He laughed.


St James, 15th October

 

Very sincerely yours,

 

V.

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins 
de 14 a 20 de outubro de 2013

 

"Quando a Igreja desceu à Terra" (Lucerna, 2013) transcreve um diálogo conduzido por António Marujo entre dois sacerdotes católicos, um que acompanhou os trabalhos do Concílio Vaticano II, enquanto estudante em Roma, e outro, mais jovem, que tem assumido nos meios eclesiásticos portugueses um papel da maior relevância no tocante à comunicação social. O texto não se limita a assinalar os cinquenta anos do Concílio, procura renovar o debate suscitado, atualizando-o e projetando-o nos dias de hoje… E vem-nos, naturalmente, à memória a figura de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, que representou entre nós o impulso renovador lançado pelo Papa João XXIII. A memória do seu exemplo não pode ser esquecida.

 

 

 

UM ENCONTRO MUITO RICO
Este livro resulta de um encontro muito rico entre os Padres Ramón Cazallas e António Rego. Li-o com muito gosto e proveito espiritual e intelectual. Não há em “Quando a Igreja desceu à terra” qualquer revivalismo, mas uma atitude partilhada orientada para o futuro. Há muito por fazer ainda. O que o Concílio Vaticano II nos propôs tem ainda de ser completado e aprofundado. O diálogo é ilustrativo sobre a importância da herança e da memória do Concílio, uma vez que temos a presença do Padre Cazallas, alguém que acompanhou, ainda estudante, os trabalhos em Roma, e do Padre Rego, um clérigo experimentado nas lides da comunicação social, mas que não teve a mesma proximidade física. De um lado, há a impressão próxima, de outro, a leitura mediada… É um bom complemento. E percebemos que o Concílio foi um dom magnífico e uma oportunidade para reafirmar princípios e para responder às mudanças profundas de uma Igreja que deixava de poder ser eurocêntrica. Essa foi a grande mudança: a compreensão de que a Igreja Católica só se afirmaria renovada no mundo global! João XXIII teve uma intuição extraordinária. Abriu as janelas, sem receio das correntes de ar. E houve correntes de ar e houve resfriados, mas pôde ouvir-se o que ia por toda a parte.

 

A NOÇÃO DE POVO DE DEUS
Ao relermos hoje alguns dos documentos fundamentais, como as constituições Lumen Gentium e Gaudium et Spes, podemos entender a estreita complementaridade entre perspetivas dogmática e pastoral. A Igreja “como povo de Deus, sacerdócio comum, lugar de carismas, em que todos são chamados à santidade e a definição dos leigos pela positiva e o seu lugar como missão” articula-se com a evolução do mundo contemporâneo. E, assim, a crise económica, social e de valores que vivemos deve-se à desatenção que existe relativamente a essas preocupações fundamentais. E é importante dizer que o Papa Francisco tem procurado reforçar essa ligação: “a Igreja tem de sair de si própria, não pode estar fechada num narcisismo teológico, nem estar sempre à volta de si mesma”. Deve estar aberta às periferias… É extraordinário: aliás, lembramo-nos de como João XXIII, pouco antes de morrer, legou ao Concílio e ao mundo a encíclica Pacem in Terris, decisiva para animar o “Esquema XIII” (que viria a ser a constituição Gaudium et Spes), colocando os “sinais dos tempos” na ordem do dia, para abrir os horizontes de mudança, com fidelidade à mensagem de Jesus Cristo. Se não fosse essa persistência, a constituição Gaudium et Spes teria ficado pelo caminho… Infelizmente, a Pacem in Terris continua por cumprir – e deve dizer-se que os primeiros tempos do Papa Francisco repõem, na força dos nossos dias, a atualidade desse apelo lancinante. Os acontecimentos recentes estão a revelar-nos profundas mudanças, que o Papa Bento XVI referiu, de modo muito evidente, na encíclica Caritas in Veritate, que é a crítica mais dura e pertinente feita nos dias de hoje à origens da crise atual – crise da especulação, do negocismo argentário, da irresponsabilidade ambiental, do imediatismo e da indiferença relativamente ao próximo.

 

SONHO E OUSADIA
O Concílio deve, assim, ser entendido de forma dinâmica: “O sonho e a ousadia de João XXIII lançaram a Igreja num diálogo aberto com a modernidade”. E agora não podemos pensar este impulso como se ele se mantivesse imutável há cinquenta anos. É no tempo de hoje que temos de ouvir o Papa Francisco a fazer-nos compreender que não podemos responder às pretensões dos nossos netos com as audácias dos nossos avós, como gostava de dizer Emmanuel Mounier. “A Igreja quando fica fechada adoece e quando sai pode ser atropelada; prefiro uma Igreja atropelada a uma Igreja doente”… – diz o Papa. A metáfora significa apenas isto: temos de sair, de ir para junto das pessoas, mesmo correndo o risco de ter um acidente…

Há que tirar consequências de tudo isto. O acontecimento é nosso mestre interior. “Agora, a Igreja é um mistério, no qual o povo de Deus vem primeiro e só depois a hierarquia. E é este povo que nos interroga e nos interpela e é a ele que nos devemos dedicar”, como diz o Padre Ramón. E a luz do mundo (lumen gentium) é Cristo, sendo a Igreja apenas (e já é muito) o reflexo dessa luz extraordinária. Eis por que razão os cinquenta anos do Concílio Vaticano II não podem ser um revivalismo, mas sim um desafio de novas respostas. Por exemplo, não explorámos ainda plenamente o papel dos leigos e a colegialidade na Igreja. Basta lembrarmo-nos da última ceia e dos Atos dos Apóstolos. Como afirma o Cónego António Rego “o leigo tem a sua cidadania que não lhe advém do Papa nem dos bispos, mas do sacramento que recebe, que é o batismo”. Daí que a sinodalidade seja fundamental, como método e como modo de viver, de maneira que a Igreja seja fermento na massa. Este desafio não pode ser esquecido.

 

O PAPEL DA MULHER
Há pouco o Sumo Pontífice disse algo que é muito mais importante do que pode parecer à primeira vista: precisamos de pensar teologicamente o papel da mulher na Igreja – uma vez que estamos ainda muito desatentos ao episódio de Marta e de Maria, sendo que o testemunho de ambas é fundamental para o presente e para o futuro. Por outro lado, o tema dos ritos e da diversidade é também de grande premência. Trata-se de conhecer o Evangelho e de comunica-lo aos diferentes povos, tendo em conta a sua cultura. Tanto por fazer também aí… Devemos, no fundo, ser mais “testemunhas do que mestres” – como afirmou Paulo VI. E aqui está a dificuldade. Temos sempre a tentação de pormo-nos nas nossas tamanquinhas muito seguros de nós mesmos… E só temos a perder com isso. “Os sistemas da economia e da política devem ser reinventados porque os povos são completamente deixados de lado. Há uma crise profunda nas democracias atuais e até nos sindicatos”, insiste o Padre Ramón Cazallas. Os sinais dos tempos obrigam-nos a compreender o significado das Bem-aventuranças como exigências de agora! O Concílio foi um dom de Deus – urge compreendê-lo assim. E este diálogo permite-nos cuidar de muitas sementes que ainda estão por germinar e que temos de lançar à terra…

Guilherme d'Oliveira Martins

A HOSPITALIDADE DE ABRAÃO…

 

Minha Princesa de mim:

 

Acontece-me pensar na natureza do meu amor, ao lembrar-me das marcas que o envelhecimento físico vai traçando sobre ti. Sinto então como te amo, enternecidamente, mais ainda. Amar é inventar (descobrir) o outro. Não é imaginá-lo diferente. Amar-te é trazer em mim a certeza íntima de seres quem és, enorme sempre na ternura do meu coração. Bem hajas por essa consoladora alegria! Por esta minha ternura generosa, não por virtude que eu tenha, mas pela sua própria natureza amorosa... Como graça permanente, alegria e dor, que, por ti, de Deus recebo. Habitas-me assim, teço o tempo dos meus dias peregrinando na vida de mãos dadas contigo. Desde que nos encontrámos assim andamos, ligados por essa íntima fidelidade, nossa fortaleza e conforto. Consola-me este pensamento, dou graças a Deus pela tua bondade em mim. Habituei-me a, de ti, querer acima de tudo que te sintas amada e isso te faça bem. Fico assim feliz. Como  disse Montaigne, "nos âmes ont charié si uniment ensemble: elles se sont considerées d´une si ardante affection,et de pareille affection descouvertes jusques au fin fond des entrailles l´une à l´autre: que non seulement je cognoissoyt la sienne comme la mienne, mais je me fusse certainement plus volontiers fié à luy de moy,qu´à moy"... Tenho diante de mim a "Trindade" pintada pelo monge André Rublev no século XV. Por vários motivos me fala da fidelidade eterna. Porque é esse o mistério da Santíssima Trindade: a relação constante que é a união de três pessoas numa só, o criador que também é o filho que vem habitar entre as suas criaturas e o espírito que as anima e com elas permanece. O monge russo inspira-se na aparição de Deus a Abraão, junto ao carvalho de Mambré, relatada no livro do Génesis, em que a patrística viu um anúncio do mistério da Trindade: "Yahvé apareceu-lhe no Carvalho de Mambré, quando ele estava sentado à entrada da tenda, na canícula do dia. Levantando os olhos, eis que viu três homens de pé perto dele; assim que os viu,correu da entrada da Tenda ao seu encontro e prosternou-se por terra. Disse: ´Meu Senhor, peço-te que, se encontrei graça a teus olhos, não queiras passar ao pé do teu servidor sem parares. Traga-se um pouco de água e lavareis os pés e descansareis à sombra da árvore. Irei buscar um pedaço de pão e reconfortareis o coração antes de seguir caminho; foi para isso que passastes ao pé do vosso servidor! ´ Eles responderam: ´Faz como disseste! " Também já intitularam este ícone de "A hospitalidade de Abraão" ou, ainda,"Filoxenia" ou "Xenofilia" de Abraão, por oposição a xenofobia (receio ou ódio do estrangeiro). É bonito esse significado: ao acolhermos os outros, recebemos Deus em nossa casa. Indo mais longe, a Trindade é o mistério da comunicação e do acolhimento, ciclo permanente da dádiva da vida. Na representação de Rublev, não aparece Abraão, nem um servo servente, nem a mulher do patriarca, Sara, à velhice da qual, nesse dia, será anunciado um filho. Somos, nós também, postos no lugar de Abraão, vemos o que ele vê: três pessoas em círculo sentadas à mesma mesa, tão semelhantes no gesto, tão iguais na condição e no entendimento, que num olhar só unamente as contemplamos... Terá sido essa simplicidade de transmitir visivelmente o invisível que levou o ícone pintado pelo monge russo, sobretudo a partir do ano passado (1972), a substituir cada vez mais,na iconografia generalizada entre os cristãos do ocidente (designadamente os católicos), as representações tantas vezes forçadas, quase caricaturais, quiçá sem inspiração profunda do próprio mistério religioso que por aí se usam? Não se duvide do poder, da força, da imagem (do "eîkon" ou "forma") da "Trindade" de Rublev. Depois de ter sido descoberta pelo restauro de Gurianov, no mosteiro moscovita da Trindade e S. Sérgio, em 1904, por este ícone aconteceram dois "milagres". Primeiro, fez da igreja que o acolhera um lugar de peregrinação, não apenas religiosa, mas estética: este e outros ícones russos deixaram de ser olhados apenas como toscas e devotas obras da piedade popular, e passaram a ser considerados de um ponto de vista artístico, comparados, por exemplo, aos trabalhos dos primitivos italianos e mesmo de um Giotto ou dum Fra Angelico. Chegam assim às colecções privadas de estetas russos, onde ombreiam com quadros de Cézanne, Gauguin,Van Gogh ou Matisse. Este visitará Moscovo em 1911, a convite de um desses coleccionadores, Sérgio Chtuchkin, e afirmará em entrevista ao Ruskie Vedomosti: "Conheço a arte religiosa de vários países,mas em parte alguma vi uma tal revelação do sentimento místico,por vezes mesmo do espanto religioso. As vossas igrejas são admiráveis,majestosamente grandiosas... Os ícones são uma das mais interessantes amostras da pintura primitiva... Em lado algum vi tal riqueza, tal pureza de cores, tal espontaneidade da representação. É o melhor património de Moscovo. Devemos vir até cá para nos instruirmos, pois é junto dos primitivos que devemos buscar inspiração! "Henri Matisse que, entre 1948 e 1951, poucos anos antes de morrer, se dedicará a provar as suas pesquisas de traço,cor e luz, na "pintura arquitectónica" que para ele será a capela das monjas dominicanas de Vence, o seu "ateliê sinfónico", uma obra prima, "para lá, mesmo, do superior significado deste monumento". O segundo milagre será, graças ao reconhecido valor artístico da "Trindade", que levará a olhar outros ícones pelo mesmo prisma apreciativo, o da preservação dessas obras em museus soviéticos  -  para esse efeito constituídos  -  logo desde o início da perseguição bolchevique, que encerrou as igrejas e os mosteiros da Rússia Ortodoxa. Trouxe comigo uma foto do mosteiro de Santo Andronikos, onde André Rublev foi monge no sec.XIV-XV, quase completamente destruído em 1940. E outra, de 1960, em que, no mesmo local, cidadãos soviéticos contemplam admirativamente uma "Deísis" monumental... Nas Igrejas cristãs orientais, os ícones têm uma função quase sacramental: mais do que simples representações, eles são considerados imagens cuja veneração e respeito torna eficaz a graça ou protecção contemplada. Até manuais de bom governo das casa e das famílias incluem lições sobre onde colocar as imagens sagradas nos lares, como tratá-las e cuidá-las, como as venerar e a elas recorrer. A iconofilia e iconologia russas são de origem bizantina. Nada menos do que sete concílios (do 1º de Niceia, em 325, ao 2º, em 786) discutiram a iconoclastia (que se reclamava do 2º mandamento da lei de Moisés) em oposição à  iconolatria ou adoração das imagens. É S. João Damasceno que, cerca de 730, antes ainda do 2º Concílio de Niceia, faz a distinção entre "proskunésis" ou prostração, isto é, veneração das imagens e a sua "latreia", ou seja, adoração (idolatria). E escreve: "Se fabricássemos uma imagem de Deus invisível, cometeríamos sem dúvida uma falta, porque é impossível representar em imagem o que é incorporal, sem forma, invisível e não circunscrito; ou, ainda, se fabricássemos imagens de homens, e pensássemos que são deuses que adorássemos como tais, seríamos sem dúvida ímpios. Mas não fazemos nada disso. É de Deus feito carne, que em carne foi visto na terra, e que viveu entre os homens, na sua indizível bondade, é d’Ele que para nós fabricamos uma imagem. E, fazendo-a, não nos enganamos, porque ardentemente desejamos ver a sua marca. Na verdade, diz o divino apóstolo (S.Paulo): ´Agora só vemos como num espelho, e por enigmas´. A imagem é assim um espelho e um enigma que se adequa à espessura do nosso corpo; porque, mesmo sofrendo muito, o nosso espírito não conseguirá ultrapassar as coisas corporais,como diz o divino Gregório..." Tenho para mim que, mesmo revelando Deus na sua indizível bondade, a Incarnação não deixa de ser um mistério. E, como todos, nunca deverá ser representada sem o respeito contemplativo que devemos às "coisas" maiores que não entendemos. Pretender encerrar Deus, a alma, o mundo infinito, numa qualquer obra humana é faltar à humildade. Talvez por isso pense também que todas as artes, e toda a arte  -  não só a arte sacra  -  não é uma redução, afirmação ou imposição: é proposta, é convite, vocação. Até literariamente: o que distingue um tratado de um poema, p. ex., é que este não pretende provar seja o que for,mas simplesmente dizer o indizível." Outra carta de Camilo Maria nos traduzirá esta sua paixão iconográfica.

Camilo Martins de Oliveira 

Outono 1999/2013

 

Diz-se que o tempo sempre se anuncia e com ele se intui o que se pode e o que se não vai poder nunca. É uma espécie de condenação definitiva que se admite de uma forma ou de outra.

 

E o que fazer do conhecimento dos olhos quando de frente para nós despertam cheios de imensidades e medos e perfumes que se deixam cair por entre lençóis por estrear?

 

Não há que procurar razões, nem sentá-las em sofá que as sossegue. O território tem a força do aço e a sua violação, implicações fortíssimas na vida-a-vida que se diz não perceber, não designando essa afirmação real estado.

 

E hesita-se mais e uma vez mais ou, nem se hesita, recusa-se o que em sonho desperto nos mantém aptos a acreditar que poventura um dia será diferente.

 

A lógica é excessivamente familiar e reduz sempre a metade qualquer coisa por nascer. Assim, e de outras formas, se aceita ser clandestino, junto e para além da fogueira que, quando perto ou por tão perto e de tão perto, se fecham os olhos com a ajuda das mãos porque tão perto é demais.

 

Logo o silêncio mais profundo apodera-se de nós quando a possibilidade é o calar.

 

Um dia, um dia de país não esperado, todos os obstáculos são vantagens e enfim de súbito, de jorro, de esperança desalmada, tudo acontece. A densidade é tão segura quanto a dimensão da clareira que ora se permite. O sentido último da vida faz sentido por instantes.

 

Só o tempo é esquivo. Essoutro coto de vela.

 

E antes que alguma ausência se sobreponha, antes que outro antes faça face ao que se vive, antes que o futuro possa não acontecer e antes que eu mais não possa, deixa que te diga

 

Meu amor



Teresa Vieira

Outono (por entre séculos)

ALMADA - COMEMORAÇÕES E RECORDAÇÕES PESSOAIS

 

Em 1993, o Centro Nacional de Cultura assinalou os 100 anos do nascimento de Almada Negreiros com um conjunto de iniciativas culturais, de que ficou a memória de quem os viveu e a documentação consagrada num volumoso conjunto de estudos editados pelo próprio CNC (“Pacheko, Almada e “Contemporânea”» ed. CNC e Bertrand Ed.). A abrir, Helena Vaz da Siva, ao tempo Presidente do Centro, assinala a efeméride: “Nas paredes do CNC - que desde o início dos anos 50 se instalou na António Maria Cardoso - ressoa ainda a diatribe de Almada sobre o valor da Arte. No CNC, Fernando Amado montou as primeiras peças da Casa da Comédia com figurinos de Almada. Ao CNC foi entregue (…) o espólio de José Pacheco, que inclui cartas de Almada com quem manteve intima e longa relação”.

 

E acrescente-se que, na edição, é reproduzido o belíssimo retrato de José Pacheco da autoria de Almada, que domina uma sala de reuniões do CNC.

 

Vinte anos passados, o CNC está envolvido e empenhado, como aqui temos referido, nas vastas e diversificadas comemorações dos 120 anos da morte de Almada. A partir desta mesma semana, terão lugar dois eventos em que participarei e de que darei noticia - o Passeio no Chiado e o Jornal Falado, ambos sobre Almada. E é oportuno então novamente citar textos do catálogo da exposição almadiana que teve lugar na BNP, intitulada precisamente “Almada por Contar” (ed. BNP e Babel).

 

E logo de início, um estrato do texto assinado pela “Família Almada Negreiros”, Maria José, Rita e Catarina, que estão na origem e na dinâmica destas comemorações: 
“Tropeçar em Almada não é difícil. Acontece a todos os que entraram alguma vez na Aula Magna ou pelos pórticos repletos de desenhos de pensadores, legisladores, escritores e poetas das Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa. Acontece aos que desembarcam ou visitam as Gares Marítimas de Alcântara ou da Rocha do Conde de Óbidos; aos que olham os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima; aos que entram na Fundação Calouste Gulbenkian e olham o painel “Começar”; aos que visitam livrarias e, há gerações, dão de caras com coleções de manifestos, conferências, poemas, peças de teatro, textos e mais textos sempre escritos por um senhor de olhos grandes que assina Almada com uma comprida e elegante haste no “d”…

 

Pessoalmente, a colaboração que nesta área tenho prestado e vou prestar nas programações do CNC, inscrevem-se numa amizade familiar que vem dos anos 17 - 20; vem dos bailados (“O Bailado do Encantamento”, “O Jardim da Pierrette”, “A Princesa dos Sapatos de Ferro”), das publicações e jornais juvenis (“Parva” e “Paradoxo”) e do Clube das 4 Cores: tudo isto envolveu a minha mãe, a irmã, primas e amigas; e tudo isto fez parte da minha educação e do meu convívio familiar juntamente com a amizade com Almada Negreiros e com a família Almada.

 

E recordo ainda a execução dos frescos da Faculdade de Direito, a que assisti diretamente como aluno do primeiro ano, e muito conversei com Almada, amigo de família e grande artista. Como, a seguir, os primeiros escritos que fiz sobre o seu teatro a partir designadamente da estreia na Casa da Comédia do “Deseja-se Mulher”, e do convívio também familiar e cultural e de aluno com o Fernando Amado, como tenho aqui escrito…

 

DUARTE IVO CRUZ